Ill COMENTÁRIOS OBSERVAÇÕES SOBRE O VALOR LITERÁRIO

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  • Ill

    C O M E N T R I O S

    OBSERVAES SOBRE O VALOR LITERRIO DE DIOGO MENDES DE VASCONCELOS

    Quando Diogo Mendes de Vasconcelos se formou, por meados do sculo xvi, o Humanismo tinha-se implantado definitivamente em todos os meios cultos da Europa. O ideal do homem letrado era, ento, conhecer, apreciar e ser capaz de imitar os grandes mestres da Antigui-dade clssica. A cultura e as formas de expresso tinham atingido na Grcia e em Roma uma altura excepcional e por isso os homens dos novos tempos procuravam assimilar, quanto possvel, o seu vocabu-lrio, o seu estilo, o prprio contedo sentimental e ideolgico. Com isto os modernos no renegavam a inspirao pessoal, a capacidade de desenvolver de modo novo temas colhidos nos seus modelos, a ambio de transmitir prpria obra um cunho especfico. H originalidade nos homens do Renascimento.

    O estudo pormenorizado da poesia de Vasconcelos leva-nos a con-cluir que tambm ele possua um grande conhecimento de vrios sectores da Antiguidade, desde a histria mitologia, das lnguas latina e grega s respectivas literaturas. Depreende-se que compulsou assiduamente sobretudo Virglio e Horcio, pois revela influncia de todas as suas obras. Mas outros autores leu e assimilou tambm. A poesia grega do perodo helenstico era-lhe familiar, como o demonstram os nume-rosos epigramas traduzidos da Antologia Palatina.

    O contacto com os grandes mestres latinos deu-lhe uma terminologia de autntico sabor clssico e ensinou-lhe a construir a frase e o verso segundo os melhores processos da estilstica latina. Mas Diogo Mendes de Vasconcelos permanece ele prprio. Os seus temas so no geral fruto de circunstncias concretas. Na sua poesia no faltam mesmo elementos histricos cuja autenticidade aceite e comprovada pelos cr-ticos da especialidade. Partindo de factos por ele vividos e de emoes

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    por ele sentidas, soube exprimir-se com originalidade, dum modo incon-testavelmente pessoal.

    O seu vocabulrio, cheio de variedade e harmonia, mantm-se dentro dos valores comuns na poca dos melhores estilistas. As pala-vras enriquecem-se com os diversos matizes que o uso lhes atribuiu. O contacto directo com a obra revelar continuamente que no estamos fazendo um elogio sem fundamento.

    Registemos aqui apenas alguns exemplos. O termo comum mare s aparece uma vez em toda a obra, e mesmo assim, com o significado genrico de gua. Preferem-se-Ihe outros vocbulos mais cheios de contedo ntimo e de maior valor potico (1) como pontus, pelagus, aequor, profundus, Nereus, Oceanus, Titan (cf. IV, 112; II, 1; II, 7;II, 8; II, 283; II, 252; II 32; II, 114). Igualmente variadas so as expresses para designar os navios. A par da palavra corrente nauis, encontram-se com frequncia outras que, por sindoque, tm o mesmo valor: carina, puppis, carbasa, ratis, lintea (cf. 11, 200; I, 18 ; I, 39 ; II, 3 ; II, 201 ; XIII, 10). Mais rica ainda a terminologia referente arte da guerra, empregada apenas no espao de 123 versos, a propsito da projectada expedio a Alccer Quibir (II, 151-274): exercitus, castra, arma, Iegio, cohors, agmen, acies, ala, manipulus, caterua, gens, uires, miles, pedites, quits, equus, cuspis, signum, signa canere, proelium, belhtm, hostis. Em con-trapartida, a mesma palavra assume diversos significados, dentro da boa polissemia clssica. Assim classis aparece com o valor de marinha mercante; marinha de guerra e contingente total de um exrcito (cf. I, 44; II, 278; II, 128). Num s caso tivemos dificuldade em saber qual o valor de uma expresso (cf. ttulo de III): tabelis expunctorias, para a qual propusemos a equivalncia de lbum.

    Esta abundncia mostra que Diogo Mendes de Vasconcelos tinha largo acesso s riquezas do lxico latino, que utilizava com vontade, segundo as exigncias do tema e da mtrica.

    Virglio foi, com certeza, o autor que mais o seduziu. O conhe-cimento que revela da Eneida prodigioso: no h livro algum deste grandioso poema que no tenha deixado rasto na poesia de Vasconcelos.

    (1) Nestas observaes introdutrias damos apenas um ou outro exemplo que nos parece significativo. Encontram-se muitos outros casos semelhantes, alguns dos quais so assinalados ao longos dos Comentrios. A indicao do nmero dos versos refere-se sempre ao texto latino e, no geral, s anotaes que lhe fazemos no lugar prprio.

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    Is Gergicas so tambm muitas vezes utilizadas, enquanto s Bucli-cas concedida mais escassa representao.

    O tratamento dado aos versos de Virglio merece uma ateno especial, porque revela um dos aspectos mais interessantes da esttica ce Vasconcelos e que possivelmente tem paralelo noutros autores do Renascimento.

    Em momentos solenes, quando a emoo atinge o auge, para honrar uma pessoa ou outra entidade que lhe grata, Vasconcelos emprega pala-vras de Virglio. Num s caso se apropria de um verso inteiro, dizendo de D. Sebastio o que o Mantuano disse de Dfnis na V Buclica e depois repetiu em relao a Dido no canto I da Eneida: Semper honos nomenque tuum, laudesque manebunt (II, 105). Nas outras ocasies serve-se apenas de parte de um verso ou adapta-o ligeiramente s cir-cunstncias. Assim acontece em louvor de D. Sebastio (II, 101), fc Filipe II (VI, 43), de Jlio Csar (II, 61-62), de si prprio (II, 294), de Portugal (II, 243-244), de vora (II, 57), dos habitantes de Alter do Cho (IV, 62-63) e da Quinta da Silveira (VI. 132-133).

    Momentos h, no decorrer de uma narrao, em que lhe parece vir a propsito a utilizao de um verso de Virglio, alterando todavia algumas palavras (II, 276). Note-se, porm, que em vrios casos essa alterao e por vezes a continuao se faz num estilo que nos parece no desmerecer do prprio Virglio (IV, 31-34), chegando mesmo em nosso entender a enriquecer a expresso do grande Mestre (VI, 51) e a elevar o seu sentido do mundo natural para o dos valores sobrena-turais (VI, 123-124).

    Igualmente curiosos nos parecem outros processos:faz, num s hexmetro, a contaminao de vrios versos extrados de passagens muito distantes (II, 269-271); funde dois versos num s (IV, 106); ou, ao contrrio, desenvolve um s verso de Virglio em dois dos seus (IV, 82-83); aproveita apenas as palavras que constituem o final (11,253; XXIX, 7) ou o princpio de um hexmetro (II, 265).

    A imitao do grande escritor latino em certos casos sensvel, embora no haja sequer duas palavras tiradas do mesmo verso. E a seleco do vocabulrio, a predileco por certos termos, a tonali-dade sentimental que estabelece a afinidade entre Virglio e Vasconce-los (II, 219-220; IV, 37).

    Quanto a Horcio, Diogo Mendes de Vasconcelos conhece todas as suas obras, pois h dependncias e confrontos que nos parecem indis-cutveis (II, 14; II, 289; III, 6; V, 14; VI, 35-36). Mas o uso que faz

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    deste Autor latino muito mais restrito. Casos h at em que entre os dois se pode registar uma ntida oposio, quer esttica (IV, 5-13), quer ideolgica (XIII, 9-10, 19-20), quer de contexto (IV, 48). Os temas versados por um e outro tm poucos pontos de contacto, a viso do mundo e da vida encontra-se em plos opostos (epicurismo e cristia-nismo), os temperamentos de ambos so tambm muito diferentes. Horcio tem o gnio da conciso, da sntese; Vasconcelos propenso redundncia, ao barroquismo.

    Tambm em relao a Catulo estabelecemos paralelos que nos parecem concludentes (I, 6; III, 2; XII, 22-23). Entre os dois h de comum o gosto da palavra seleccionada, a luta pela perfeio tcnica e o imprio do sentimento.

    Outros autores latinos citamos ainda, aproximando-os do texto de VasconcelosOvdio, Lucano. Estciomas a dependncia no nos parece segura, talvez porque para eles no fizemos um estudo sistemtico.

    Dos autores portugueses h um com o qual Vasconcelos tem grandes afinidades Cames. Num passo parece-nos certo que devem estar presentes Os Lusadas, obra ento recentemente aparecida (I, 19-26); noutros, as semelhanas podem provir de ambos beberem na mesma fonte clssica (11, 273) e de viverem na mesma poca, sentindo os mesmos problemas.

    Uma vez estabelecidos paralelos que se nos afiguram comprovados, julgmos lcito tentar outros confrontos com os autores acabados de citar. Nem sempre pretendemos concluir que Vasconcelos tivesse diante de si a passagem clssica por ns citada, mas ela poder ter infludo como sugesto ou reminiscncia. De qualquer modo, estas aproxima-es tero sempre a vantagem de demonstrar at que ponto a expresso e o estilo do nosso Autor se aproximam dos bons modelos latinos.

    Quanto acabamos de dizer sobre a influncia clssica em Diogo Mendes de Vasconcelos, de modo nenhum pode significar que haja nele falta de originalidade. A imitao era um dos seus princpios de esttica literria. Imitava porque queria e porque isso valorizava, em seu entender, as suas composies. Mas esta atitude no impede que a maior parte da obra seja genuna, pessoal, inteiramente sua.

    A Obra Potica de Diogo Mendes de Vasconcelos por ns publicada compreende 912 versos. Destes, 90 so tradues do grego. Se, entre os outros 822, para cerca de uma centena e meia estabelecemos apro-ximaes que podem significar alguma dependncia em que alis h sempre (excepto num caso, como vimos) trabalho de adaptao

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    ficam-nos ainda mais de 650 versos cuja genuinidade nos parece indis-cutvel. O saldo , pois, nitidamente favorvel.

    Em toda a obra transparece um estilo prprio, caracterstico do nosso Autor. O ambiente que ele melhor desenha e onde se sente mais vontade o afectivo. A linguagem adquire ento uma tonali-dade sentimental que nos faz penetrar no ntimo da sua alma. Esto neste caso a saudao terra natal (IV. 1-83) e vrios outros passos que indicamos na ocasio prpria. Num momento em que pareceria difcil introduzir um estilo pessoal (pois se trata de uma verso do grego), d