Leonel Figueiredo de Alencar (UFC) Resumo - ?· No Diagrama 2, esquematiza-se, a exemplo do verbo pôr,…

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Alternncias verbais sob uma perspectiva lxico-funcional e decomposicional*

Leonel Figueiredo de Alencar (UFC)

Resumo

quase consensual que o comportamento sinttico dos verbos deriva, em grande parte, de suas propriedades semnticas. A natureza do input e do output de um mecanismo que relacione esses dois nveis constitui, porm, objeto de bastante controvrsia. Neste artigo, argumentamos em prol de um modelo que extrai molduras funcionais com base na decomposio dos predicados verbais, sem recorrer a papis semnticos. A adequao dessa proposta, que integra, modificando-as, as abordagens gerativas da Gramtica Lxico-Funcional e da Gramtica de Decomposio Lexical, fundamentada na anlise de algumas alternncias verbais do portugus e do alemo.

1. INTRODUO No artigo que inaugurou a teoria dos casos semnticos, Fillmore (1968) postulou

princpios para determinar o estatuto categorial e a relao gramatical dos argumentos verbais a partir de suas funes temticas. Nas ltimas dcadas, na esteira dessa abordagem, avolumou-se tanto a literatura sobre as relaes sistemticas entre as propriedades semnticas dos itens lexicais e suas propriedades sintticas, que se tornou quase impossvel um levantamento exaustivo das diferentes propostas alternativas.

No entanto, a julgar pelas amplas revises de Davis (2001), Levin e Rappaport Hovav (2005) e, de forma mais condensada, Borer (2005), pode-se considerar majoritria na lingstica gerativa, quase sem medo de incorrer num erro histrico, a posio que a padro na TRL: as propriedades temticas dos elementos lexicais determinam sua subcategorizao (Grewendorf, 2002, p. 19) ou, conforme a hiptese de Chomsky (1986), a seleo categorial (c-seleo) pode ser inferida, pelo menos na maioria dos casos, a partir da seleo semntica (s-seleo) (Radford, 1988, p. 384).

A essa viso "projecionista", que Borer (2005) chama de "endo-esqueltica", ope-se uma abordagem "exo-esqueltica", defendida por essa autora. Na primeira abordagem, o item lexical fornece o esqueleto para a estrutura sinttica. Uma frase como Pedro chutou a bola apresenta, por exemplo, um objeto direto porque o verbo da frase, em razo de sua estrutura argumental, prev esse tipo de constituinte. Na viso alternativa, ocorre o contrrio: os "esqueletos" pr-existem aos itens lexicais; as propriedades de um verbo numa determinada construo so determinadas, de fora para dentro, pela moldura onde ocorre. Desse modo, no

* Este trabalho rediscute questes inicialmente tratadas em Alencar (2003).

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exemplo citado, no o verbo que determina a transitividade da frase, mas esta que determina a transitividade do verbo.

Neste trabalho, adotamos a perspectiva projecionista, que, matematicamente, pode ser descrita como uma funo f (ou mapeamento, do ingls mapping) de um conjunto S de elementos de natureza semntica em um conjunto C de elementos sintticos, formalizvel como f:S C. Muitas variaes desse esquema bsico, que estabelece uma vinculao (linking) entre os argumentos do predicado associado a um verbo e os constituintes que os representam no plano da expresso, foram propostas, principalmente em decorrncia das diferentes hipteses a respeito do tipo de elemento que constitui S. Tambm tem sido objeto de divergncia a prpria natureza do mecanismo de vinculao, seu funcionamento, se existe um mecanismo universal ou se h vrios sistemas dependendo do tipo de lngua (Wunderlich, 2002). A natureza dos elementos de C tem suscitado, igualmente, controvrsias. As diferentes propostas nesse sentido decorrem, no entanto, mais do tipo de arcabouo sinttico assumido do que de pontos de vista especficos sobre a questo da vinculao argumental.

No mbito da viso projecionista, restringimos nosso foco sobre as teorias lexicalistas e formais da Gramtica Lxico-Funcional (Lexical-Functional Grammar LFG) e da Gramtica de Decomposio Lexical (Lexical Decomposition Grammar LDG). Na Teoria do Mapeamento Lexical (Lexical Mapping Theory LMT) da LFG, a projeo de S sobre C intermediada pelo nvel da estrutura argumental. Os elementos de S so listas de papis temticos que projetam sobre uma seqncia de argumentos arranjados conforme uma hierarquia de papis temticos. Essa seqncia, por sua vez, projeta sobre C, constitudo, universalmente, de relaes gramaticais como sujeito, objeto direto etc. A LDG prope uma abordagem bastante diferente, descartando os papis temticos como especificao dos elementos de S.1 Em vez disso, prope representaes semnticas parciais para os itens lexicais, as quais incluem apenas as propriedades gramaticalmente relevantes. Nessas representaes, os argumentos so diferenciados entre si no por meio de rtulos como, por exemplo, Agente, Beneficirio, Paciente ou Tema, mas apenas por meio de sua posio hierrquica na estrutura semntica. A LDG descarta uma especificao uniformemente vlida de C para todas as lnguas. Numa lngua como o latim, o output do mapeamento constitudo por casos morfolgicos. Numa lngua essencialmente no casual como o ingls, C constitudo de posies na estrutura sintagmtica.

Nosso objetivo neste artigo levantar argumentos em favor de um modelo que integra a proposta da LDG para S, mas especifica C por meio de relaes gramaticais, como na LFG. Mostraremos que a LDG fornece um input mais econmico que a LMT, ao passo que a LFG fornece um output mais eficiente. Alm do mais, apenas a LFG pode ser considerada uma teoria completa da gramtica (como o so a TRL ou o Programa Minimalista). A LDG, como

1 Outros modelos que no operam com papis temticos como input da vinculao argumental so Tenny (1994, 2000), Croft (1998), van Hout (1998, 2000) e Rappaport e Levin (1998). Essas abordagens recorrem estrutura eventiva e/ou aspectual para explicar os padres de realizao argumental.

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reconhecem alguns de seus defensores, apenas uma teoria das representaes dos itens lexicais (inclusive da formao de novos itens lexicais na morfologia derivacional) e de sua interface com a sintaxe.

Nenhum modelo da vinculao argumental de verbos pode ignorar a flexibilidade desses elementos, i.e. a possibilidade da maioria deles de ocorrerem em mais de uma moldura sinttica. Dentro da viso projecionista, que adotamos, essas alternncias verbais resultam da aplicao de regras lexicais (denominadas operaes de aridade por Reinhart e Siloni (2005, p. 390)), que derivam novas entradas a partir das entradas existentes (Rappaport Hovav; Levin, 1998; Dowty, 2000; Davis, 2001). Esse fenmeno constitui um dos maiores desafios a qualquer teoria no trivial do mapeamento. De fato, o mecanismo proposto no pode, por um lado, ser to rgido ao ponto de excluir as variaes constadas ou de precisar de alteraes ad hoc para cada alternncia verbal. Por outro lado, o mecanismo deve ser suficiente restritivo de modo a excluir os padres no atestados (Davis, 2001).

Dada a importncia das alternncias de valncia na teoria do mapeamento, aplicamos o modelo proposto a um tipo de alternncia comumente associado a lnguas como ingls e alemo, que a extenso de um verbo intransitivo ou transitivo para uma moldura que inclui argumento especificando, a respeito do sujeito do verbo intransitivo ou do objeto direto do verbo transitivo, uma propriedade que resulta do processo ou ao verbal. Trata-se das chamadas construes resultativas, assunto bastante aprofundado na LDG por Wunderlich (2000), entre outros. Mostraremos que as regras postuladas por Wunderlich para essas construes tm falhas, quando confrontadas com dados do alemo e do portugus. Propomos, ento, regras alternativas que contornam esses problemas.

A exposio que segue se desdobra em quatro sees. Na seo 2, delineamos o arcabouo terico, que compreende as teorias da LFG e da LDG. Na seo 3, argumentamos em prol do modelo LFDG (Lexical-Functional Decomposition Grammar Gramtica Funcional de Decomposio Lexical), que incorpora o elegante mecanismo de vinculao argumental da LDG LFG, em substituio ao mdulo da LMT. Diferentemente da abordagem padro na LDG, porm, na LFDG, que adota a arquitetura geral da LFG, o output do mapeamento universalmente especificado em termos de funes gramaticais. Na seo 4, aplicamos esse modelo num estudo comparativo das construes resultativas do alemo e do portugus, revisando a proposta de Wunderlich (2000). Finalmente, na seo 5, extramos as concluses do trabalho.

2. ARCABOUO TERICO 2.1. A Gramtica Lxico-Funcional

A Gramtica Lxico-Funcional (Lexical-Functional Grammar LFG) uma abordagem lexicalista e no-derivacional da gramtica gerativa que almeja uma modelao tipologicamente realista, computacionalmente vivel e psicolingisticamente plausvel da arquitetura da Gramtica Universal (Bresnan, 1982; Bresnan, 2001; Falk, 2001; Kuhn, 2001).

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Diagrama 1: A arquitetura da LFG (Falk 2001, p. 25). O Diagrama 1 apresenta os nveis de representao ou tipos de informao gramatical

postulados pela LFG segundo Falk (2001). Trata-se de uma representao no exaustiva, conforme ressalta o autor, uma vez que a teoria ainda se encontra em desenvolvimento e outros nveis podem vir a ser integrados. Nessa representao grfica, as setas que ligam os mdulos so sempre bidirecionais, indicando que no h uma relao de derivao entre eles. Por oposio aos modelos da TRL e do Programa Minimalista, a LFG um modelo gerativo estritamente no derivacional, i.e. no so postuladas transformaes (como Mover etc.). Em vez disso, os diferentes nveis existem paralelamente, relacionando-se por correspondncias, formalizadas matematicamente como projees ou funes. Nessas projees, restries (constraints) determinam que estruturas de um nvel podem entrar em correspondncia com estruturas de outro nvel. Na formulao dessas restries, a operao de unificao desempenha um papel extremamente i