of 386 /386
Universidade Federal do Rio de Janeiro LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA ABORDAGEM MULTISSISTÊMICA DO SUFIXO NOMINALIZADOR –URA NO PORTUGUÊS. ANA CAROLINA MRAD DE MOURA VALENTE 2012

LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

Embed Size (px)

Citation preview

Page 1: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

Universidade Federal do Rio de Janeiro

LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA ABORDAGEM

MULTISSISTÊMICA DO SUFIXO NOMINALIZADOR –URA NO

PORTUGUÊS.

ANA CAROLINA MRAD DE MOURA VALENTE

2012

Page 2: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

Faculdade de Letras / UFRJ

LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA ABORDAGEM

MULTISSISTÊMICA DO SUFIXO NOMINALIZADOR –URA NO

PORTUGUÊS.

ANA CAROLINA MRAD DE MOURA VALENTE

Dissertação de Mestrado apresentada ao

Programa de Pós-Graduação em Letras

Vernáculas da Universidade Federal do Rio de

Janeiro, como parte dos requisitos necessários

à obtenção do título de Mestre em Letras

Vernáculas (Língua Portuguesa).

Orientadora: Maria Lucia Leitão de Almeida

Co-orientador: Carlos Alexandre Victorio

Gonçalves

Rio de Janeiro

Agosto de 2012

Page 3: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

Loucura, loucura, loucura!: Uma análise pela abordagem Multissistêmica do

sufixo nominalizador –ura no português.

Ana Carolina Mrad de Moura Valente

Orientadora: Maria Lucia Leitão de Almeida

Co-orientador: Carlos Alexandre Victorio Gonçalves

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em

Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos

requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Vernáculas

(Língua Portuguesa).

Examinada por:

______________________________________________________________________

Presidente, Professora Doutora Maria Lúcia Leitão de Almeida – UFRJ

______________________________________________________________________

Professor Doutor Janderson Lemos de Souza - UNIFESP

______________________________________________________________________

Professora Doutora Verena Kewitz - USP

______________________________________________________________________

Professor Doutor Carlos Alexandre Victorio Gonçalves - UFRJ

______________________________________________________________________

Professora Doutora Sandra Pereira Bernardo - UERJ

______________________________________________________________________

Professora Doutora Maria Aparecida Lino Pauliukonis - UFRJ

Rio de Janeiro

Agosto de 2012

Page 4: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

VALENTE, Ana Carolina M. de M.

Loucura, loucura, loucura!: Uma análise pela abordagem Multissistêmica

do sufixo nominalizador –ura no português./ Ana Carolina Mrad de Moura

Valente. – Rio de Janeiro: UFRJ/ Faculdade de Letras, 2012.

XIII, 193f.: il.; 31cm

Orientadora: Maria Lucia Leitão de Almeida

Co-orientador: Carlos Alexandre Victorio Gonçalves

Dissertação (Mestrado) - UFRJ/ Faculdade de Letras / Programa de Pós-

Graduação em Letras Vernáculas (Língua Portuguesa), 2012.

Referências bibliográficas: p. 154-162.

1. Nominalização. 2. Gramática Multissistêmica. 3. Linguística Cognitiva.

4. Escaneamento cognitivo. I. Almeida, Maria Lucia Leitão de; Gonçalves,

Carlos Alexandre Victorio. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro,

Faculdade de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas

(Língua Portuguesa). III. Título.

Page 5: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

RESUMO

Loucura, loucura, loucura!: Uma análise pela abordagem Multissistêmica do

sufixo nominalizador –ura no português.

Este trabalho busca investigar qual o status do sufixo nominalizador -ura

na língua portuguesa, verificável em palavras como ternura, loucura, assinatura,

fartura e lonjura. Para tanto, temos por objetivo revisitar desde a tradição

gramatical à literatura morfológica de cunho derivacional, visando verificar

como o afixo em questão é tratado pelos diversos autores desses estudos

linguísticos. Além disso, devido ao fato de haver, na língua, inúmeros afixos

nominalizadores, buscamos também verificar e estudar as diferentes funções

que o afixo em questão exerce e qual papel é conferido apenas a ele, ou seja,

como este se diferencia dos demais. Em seguida, com base em um corpus

constituído de setenta e nove vocábulos coletados nos dicionários eletrônicos

Houaiss e Aurélio, observaremos a distribuição dos dados dentro dessas

funções e pretendemos comprovar as hipóteses levantadas anteriormente sobre

o tema. Como aporte teórico, utilizaremos a Gramática Multissistêmica de

Castilho (2010) e, portanto, faremos um breve passeio pelos pressupostos da

citada teoria e analisaremos os dados a partir dos quatro sistemas selecionados

e desenvolvidos pelo autor. Como tal teoria tem por base as linguísticas

funcionalista e cognitiva, também faremos um breve resumo sobre tais teorias a

fim de corroborar e dar suporte aos postulados e pressupostos seguidos pela

Multissistêmica.

Palavras-chave: nominalização, linguística cognitiva, multissistêmica.

Rio de Janeiro

Agosto de 2012

Page 6: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

ABSTRACT

Loucura, Loucura, Loucura!: A multisystemic approach for the analysis of the

nominalizer suffix-ura in Portuguese.

This work seeks to investigate the status of the nominalizer suffix -ura in the

Portuguese language, verified in words like ternura, loucura, assinatura, fartura e

lonjura. For this, we aim to revisit since the tradition grammar until the

morphological derivation literature to verify how the affix in question is treated

by several authors. Furthermore, due to the fact that there are, in the language,

many nominalizers affixes, we also check and study the different roles that the

affix in question performs and what role is given to him alone, that is, what

differs –ura from the others. Then, based on a corpus collected in electronic

dictionaries as Houaiss and Aurelio, we observe the distribution of words

within these functions and we intend to prove the assumptions earlier made

about the issue. So, we decided to use the Multisystemic Grammar of Castilho

(2010) and, because of that, we are going to make a tour by the assumptions of

that theory and analyze the words from the four systems selected and

developed by the author. As this theory is based on the cognitive and

functionalist linguistic, we will also make a brief summary of these theories in

order to corroborate and support the postulates and assumptions followed by

Multisystemic.

Keywords: nominalization, cognitive linguistics, multisystem.

Rio de Janeiro

Agosto de 2012

Page 7: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

SINOPSE

Nominalização em português.

Funções da nominalização.

Comparação com outros afixos.

Gramática Multissistêmica. Análise a

partir dos sistemas da língua.

Page 8: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

Esta pesquisa foi parcialmente financiada pelo Conselho

Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

(CNPq).

Page 9: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

DEDICATÓRIA

A uma mulher que sempre acreditou em mim e apoiou

todas as minhas decisões. A ela que fez de mim quem sou:

Emerentina Moura Valente (in memoriam), minha avó.

Page 10: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

Pudim

A vida anda cheia de meias porções,

de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade.

Tantos deveres, tanta preocupação em 'acertar',

tanto empenho em passar na vida sem pegar

[recuperação...

Aí a vida vai ficando sem tempero,

politicamente correta e existencialmente sem-graça,

enquanto a gente vai ficando melancolicamente

sem tesão . . .

Às vezes dá vontade de fazer tudo 'errado'.

Ser ridícula, inadequada, incoerente

e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a

[nosso respeito.

Recusar prazeres incompletos e meias porções.

Um dia a gente cria juízo.

Um dia.

Não tem que ser agora.

Depois a gente vê como é que faz pra consertar o

[estrago.

Martha Medeiros

Page 11: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

AGRADECIMENTOS

Agradecer é o mesmo que demonstrar gratidão a alguém por algum feito

em especial que nos marcou de alguma forma. No entanto, muitas vezes um

“muito obrigada” não exprime realmente toda a gratidão que sentimos, tudo o

que queremos falar ou demonstrar. Parece que apenas estamos cumprindo um

ritual que nos foi passado por nossos pais de que devemos agradecer até as

pequenas coisas e que um “muito obrigada” ou um “valeu” é sempre muito

bem vindo. Portanto, queria aproveitar esse pequeno espaço para fazer mais do

que isso: gostaria de agradecer com palavras menos fugidias às pessoas que

marcaram minha vida e me ajudaram muito nessa caminhada tão cheia de

percalços.

Primeiramente, gostaria de agradecer a Deus por me guiar, me apoiar e

me mostrar sempre o caminho da luz, mesmo que para alcançar esse caminho

tenha que ultrapassar um túnel escuro. Agradeço a Ele por me mostrar sempre

que é possível, basta querer, ter fé e acreditar em si mesmo. Sou grata a Ele por

me fazer atravessar esse túnel, mas nunca fazê-lo sozinha; por colocar pessoas

tão importantes em minha vida. Obrigada por cada momento bom pelo qual

passei, por cada problema que tive que aprender a enfrentar, por todos os

amigos que fiz. Acredito que todos eles são anjos enviados pelo Senhor para me

ajudar nessa caminhada. Portanto, o meu “muito obrigada”!

Existem duas pessoas que são de extrema importância para mim e a

quem devoto os meus mais sinceros sentimentos de gratidão e amor mais puro

Page 12: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

e sublime: meu pais, Eliane e Marco Antônio. A vocês, só posso dedicar cada

minuto da minha vida, cada sucesso alcançado e amá-los por toda eternidade.

São as pessoas que me deram a vida e me ensinaram a ser quem sou; aqueles

que me apoiaram e estiveram sempre a meu lado. Muito obrigada pelo carinho

sem limite, pelas risadas, pelo ombro nas horas difíceis, pelas broncas, pelos

empurrões para seguir em frente, por acreditarem em mim quando nem eu

mesma acreditava, por se orgulharem de mim. Quero dizer a vocês que o meu

objetivo na vida é retribuir, mesmo que minimamente porque é quase

impossível retribuir tudo o que já fizeram por mim, todo o carinho e dedicação

que tiveram e fazer com que se orgulhem cada vez mais de quem a sua filha se

tornou.

Às minhas irmãs também devo agradecer, pois, apesar das brigas

intermináveis com a Juliana e a falta de convivência diária com a Julia e a Luiza,

são elas os laços mais próximos e fortes que tenho e com os quais não quero

romper. São vocês que me fazem rir quando a vida parece não ter mais jeito.

São vocês, minhas “rimãs” mais novas, que vi crescer e de quem pretendo

cuidar e apoiar sempre. “Rimãs”, vocês são meus amores e, mesmo tendo

momentos difíceis, sei que é com vocês que vou poder contar sempre.

Agradeço também aos meus tios, primos, agregados, avós, afilhados,

amigos por estarem sempre a meu lado e aceitarem minha ausência em eventos

sociais ou até mesmo em visitas rotineiras. Muito obrigada pela compreensão

de todos vocês.

Page 13: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

Agradeço em especial à minha avó Emerentina, a quem dedico esta

dissertação, por ser um exemplo de mulher forte, batalhadora, um exemplo de

mãe e avó, daquelas que carrega os pintinhos debaixo das suas asas e que vira

uma leoa se alguém mexe com a sua cria. Obrigada, meu docinho, por sempre

me apoiar, me ouvir, por compartilhar comigo as suas histórias de vida e me

ajudar a seguir meu caminho. Obrigada por todas as palavras de apoio, por

todas as broncas, por acreditar em mim nos momentos de mais descrédito, por

confiar na minha capacidade e se orgulhar de mim. Vó, essa dissertação é para

você e sei que de onde estiver, estará assistindo minha defesa segurando suas

mãozinhas magras e com um sorriso no rosto ao ver que sua neta chegou onde

NÓS havíamos planejado chegar. Em todos os momentos difíceis, ainda sinto a

sua presença comigo e me sinto protegida, pois agora Deus tem mais um anjo

no céu pra me guiar. Eu te amo, meu docinho de coco!

Sou grata também a minha avó Eleonora por todo apoio, todos os

conselhos, pelos cafunés, por sempre coçar minhas costas enquanto vemos

televisão e por todos os momentos que passamos juntas. Se quiser rir, é só ficar

com ela por apenas 10 minutos. Nesse curto espaço de tempo vai vir uma

história engraçada, uma risada gostosa, uma distração dos problemas. Vozinha,

eu te amo muito!

Quando entrei na faculdade, achei que faria amigos de ocasião, apenas

acadêmicos, mas me surpreendi quando conheci duas pessoinhas que estão

comigo até hoje e que fizeram desse meu trajeto muito melhor e mais fácil,

afinal de contas, uma vida acadêmica que se preze é feita de estudos e de

Page 14: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

amizades que te ajudam nessa caminhada e tornam sua vida mais leve e

divertida. Dedico, portanto, esse espaço às pessoas mais ridículas, sem noção,

indiscretas e amigas por isso mesmo. Caio e Érica, obrigada por estarem comigo

em todos os momentos bons e ruins, por todas as risadas, por todas as viagens –

algumas delas meio programa de índio, confesso – por todas as palavras de

conforto. Caio, minha alma gêmea acadêmica; aquele que me completa quando

o assunto é a língua portuguesa, que completa minhas frases e meus

pensamentos, que divide comigo as mesmas convicções e que estará lá sempre

para rir de mim quando eu chorar. Érica, cabeção, uma irmã que a vida me deu,

alguém com quem sei que posso contar, que vai estar comigo quando eu

precisar e que vai rir muito de mim – depois de secar minhas lágrimas, claro.

Agradeço também à Elaine por me apoiar nos momentos mais difíceis e por nos

fazer rir de suas ideias brilhantes.

Dedico também este espaço aos amigos que a vida me deu e que a

tornaram mais divertida e leve. À Andreza, por todas as conversas, conselhos,

risadas, choros, por me emprestar sempre seu ombro amigo e se tornar uma

irmã em tão pouco tempo. Você, minha linda, me ensinou a ser uma pessoa

melhor e a me preocupar menos com os problemas da vida. Graças a você, sou

mais feliz. Ao Thadeu, por me apoiar, me ouvir, me fazer rir quando eu queria

chorar, por me ensinar que a vida pode ser muito divertida, até nos momentos

mais difíceis, por acreditar em mim e confiar no meu trabalho, pois é graças a

você, meu bem, que me tornei uma profissional na área da educação. Conversar

sobre qualquer assunto com você na porta de casa só me faz perceber que os

Page 15: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

problemas são bem menores do que aparentam ser e que tudo no final pode ser

resolvido. Ao Luiz Fernando, por ser meu amigo, meu conselheiro, meu

ouvinte nas horas difíceis, meu companheiro para todas as horas; por me

incentivar e me dar metas e prazos pra cumprir e terminar a dissertação a

tempo. Lindo, muito obrigada pelas nossas risadas, conversas, pelas brigas e

discussões também, por todos os momentos compartilhados. Aos três, obrigada

por me apoiarem e por me tornarem uma pessoa mais feliz.

Agradeço também aos meus amigos de todas as horas Flávia Meslin,

Jessyca Soares, Fernanda Souza, Victor Hugo, Carolina Gomes, Úrsula Antunes

(ou Sula para os mais íntimos) e muitos outros por me apoiarem e me

acompanharem durante todos esses anos tornando a minha vida mais colorida.

Ao amigo Roberto Rondinini, por me emprestar seu ombro nos momentos de

desespero e por me fazer rir de mim mesma e dos meus problemas.

Aos professores da pós-graduação pela paciência e atenção que

dedicaram a mim e pelo respeito que sempre tiveram. Obrigada por todos os

ensinamentos, Margarida Basilio, Márcia Machado, Sílvia Brandão, Elite

Silveira, Maria Eugênia Lamoglia, Mônica Orsini, Maria Lúcia Leitão e Carlos

Alexandre Gonçalves.

Um agradecimento em especial deve ser feito àquele que confiou em

mim desde o começo, há muitos anos atrás, que viu em mim um potencial e me

aceitou como sua orientanda ainda em Iniciação Científica: o professor Carlos

Alexandre Gonçalves. Sou muito grata a você por acreditar no meu trabalho e

me mostrar que sou maior do que acredito ser. Obrigada por me ouvir, me

Page 16: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

orientar, me dar força e apoio para continuar seguindo na vida acadêmica.

Portanto, a você, só posso fazer elogios, pois é um exemplo de ética e

profissionalismo, além de ter me feito crescer dentro da universidade e como

ser humano.

Também não posso deixar de agradecer a uma pessoa muito importante

em minha jornada acadêmica: a professora Maria Lúcia Leitão. Obrigada por

acreditar no meu trabalho, por confiar em mim e por me ensinar que devemos

aprender a superar os obstáculos que a vida nos impõe e seguir em frente

sempre com um sorriso no rosto. Obrigada por me ensinar a andar com os

próprios pés, pois isso é muito importante na vida acadêmica. Só tenho a

agradecer a confiança que sempre depositou em mim e o carinho com o qual

sempre me tratou, além de todo incentivo que recebi para continuar seguindo

em frente.

Aos professores Janderson Lemos de Souza, Verena Kewitz, Maria

Aparecida Lino e Sandra Pereira Bernardo por aceitarem meu convite para

participarem da banca desta dissertação.

Agradeço também às leituras atentas do professor Carlos Alexandre

Gonçalves e do Caio Castro. Muito obrigada pelos comentários – todos muito

pertinentes – e por dedicarem algum tempo de seus dias nessa tarefa. Sem a

ajuda de vocês, muita coisa teria passado despercebido pelos meus olhos já

cansados e cegos para pequenos deslizes. No entanto, os erros que surgirem são

de minha inteira responsabilidade.

Page 17: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

Agora, tenho alguns agradecimentos de cunho, digamos, formal, a fazer.

Sou grata à minha mãe, Eliane Mrad, por me ajudar nesta reta final com as

inúmeras tabelas, me ajudando com as referências e com formalização da

dissertação. Ao Luiz Fernando Tavares pela paciência de criar diversos gráficos

com porcentagens que não nos ajudavam e aturar a minha exigência muito

relevante quanto às cores a serem utilizadas. Também agradeço à Cristina

Mattos por ter me ajudado nessa empreitada e ter passado a sua noite de

domingo tentando entender minhas anotações confusas e preparando os

gráficos desta Dissertação junto com o Luiz. Sem vocês três, eu não teria

conseguido. Muito obrigada!

Por fim, devo um agradecimento de cunho técnico ao CNPq pela

concessão parcial da bolsa de estudos, o que me proporcionou uma dedicação

exclusiva à dissertação e foi indispensável neste processo.

Page 18: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

18

SUMÁRIO

1. Introdução ...................................................................................................... 21

2. Revisão bibliográfica ................................................................................... 24

2.1. A perspectiva tradicional ...................................................................... 27

2.2. A perspectiva dos teóricos em morfologia .......................................... 28

2.3. Revisitando gramáticas históricas ........................................................ 32

2.4. Polissemia ou afixos distintos?: defendendo uma posição ............. 38

2.5. Resumindo .............................................................................................. 44

3. Metodologia e corpus .................................................................................... 45

3.1. Coleta inicial dos dados ....................................................................... 45

3.2. Métodos de aprimoramento do corpus ................................................ 47

3.3. Métodos de análise ................................................................................ 49

3.4. Resumindo .............................................................................................. 53

4. Linguística Multissistêmica ......................................................................... 54

4.1. Postulados da teoria multissistêmica ................................................. 56

4.1.1. Postulados gerais ......................................................................... 56

4.1.1.1. Postulado 1: a língua se fundamenta em um aparato

cognitivo ........................................................................................

57

4.1.1.2. Postulado 2: a língua é uma competência

comunicativa .................................................................................................

66

Page 19: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

19

4.1.2. Postulados específicos ................................................................ 70

4.1.2.1. Postulado 3: as estruturas linguísticas não são

objetos autônomos .......................................................................

71

4.1.2.2. Postulado 4: as estruturas linguísticas são

multissistêmicas ............................................................................

72

4.1.2.3. Postulado 5: a língua é pancrônica – explicação

linguística ......................................................................................

74

4.1.2.4. Postulado 6: um dispositivo sociocognitivo ordena

os sistemas linguísticos ...............................................................

75

4.2. Resumindo .............................................................................................. 76

5. Funções da nominalização ........................................................................... 78

5.1. Os caminhos de –ura ............................................................................. 79

5.1.1. Teste de aceitabilidade ................................................................ 86

5.2. Nominalização de verbos e referenciação de entidades ................... 88

5.3. Abstratização de adjetivos .................................................................... 93

5.4. Função intensificadora ........................................................................... 97

5.5. Resumindo .............................................................................................. 104

6. Sistemas linguísticos ..................................................................................... 107

6.1. Gramática ................................................................................................. 108

6.1.1. Resumindo .................................................................................... 114

6.2. Léxico ........................................................................................................ 114

6.2.1. Nominalização de verbos ............................................................ 117

6.2.2. Referenciação ................................................................................ 118

Page 20: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

20

6.2.3. Abstratização de adjetivos ......................................................... 120

6.2.4. Intensificação ................................................................................. 121

6.2.5. Lexicalização, deslexicalização e relexicalização ..................... 123

6.2.6. Resumindo ..................................................................................... 125

6.3. Semântica ................................................................................................ 126

6.3.1. Nominalização de verbos ............................................................ 130

6.3.2. Referenciação ................................................................................. 132

6.3.3. Abstratização de adjetivos ........................................................... 134

6.3.4. Intensificação ................................................................................. 136

6.3.5. Resumindo .................................................................................... 142

6.4. Discurso .................................................................................................... 143

6.4.1. Resumindo .................................................................................... 148

6.5. Sistemas Simultâneos ............................................................................. 148

6.6. Resumindo ............................................................................................... 150

7. Considerações finais ...................................................................................... 152

8. Referências bibliográficas ............................................................................. 154

Page 21: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

21

INTRODUÇÃO

Neste trabalho, analisamos o sufixo -ura e suas funções na formação de

palavras, inicialmente no latim e atualmente no português. Estudos calcados

nas atuais correntes da chamada Linguística de Uso mostram que esse sufixo

achou seu nicho de produtividade na atual sincronia do português,

diferenciando-se da produtividade que apresentava em sua origem latina que

era a de formar nominalizadores a partir de uma base participial, como

afirmam Nascentes (1955), Maurer Jr. (1959), dentre outros. Assim, descrever e

analisar os percursos e os inúmeros percalços da história de -ura é um dos

objetivos desta Dissertação. Dessa forma, mostramos que, além de formar novas

palavras, o afixo contribui para a formação do léxico do Português, por meio de

processos de intensificação que trazem mais significados à língua e interferem

no discurso.

Para descrever esse percurso centrado nos princípios gerais da

Linguística Cognitiva, tomamos por base a Teoria Multissistêmica de Castilho

(2010), defendendo sua ideia central de que a língua é formada por quatro

sistemas linguísticos (léxico, semântica, discurso e gramática) que não se

hierarquizam e atuam simultaneamente. Assim, destacamos rapidamente os

sufixos nominalizadores que, teoricamente, concorreriam com o afixo em

análise (-ção, -mento, -eza, -ice, -oso, -udo, -ão, -inho) mostrando que, na verdade,

1

Page 22: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

22

essa concorrência atualmente não ocorre devido à especialização adquirida por

–ura.

A presente Dissertação está organizada em oito capítulos e, ao final de

cada um deles, segue um breve resumo sobre as principais questões levantadas

e discutidas. No capítulo 2, traçamos um breve panorama sobre as diferentes

visões e abordagens sobre o afixo –ura, ou seja, levantamos todas as

informações acerca do sufixo nos mais diversos textos acadêmicos, sejam eles

gramáticas, artigos ou livros de base morfológica. No mesmo capítulo, também

apresentamos as hipóteses do trabalho e levantamos as questões presentes

nessas diversas fontes de pesquisa.

O capítulo 3 é voltado para a descrição da constituição do corpus e da

metodologia utilizada nesta pesquisa. Para tanto, trataremos dos meios de

recorte do corpus e dos métodos que foram ativados para realizar tal pesquisa.

Iniciando o capítulo 4, apresentamos a base teórica do presente trabalho: A

Gramática Multissistêmica. Nesse capítulo, buscamos descrever as bases nas

quais tal teoria se apoia, definir e explicar os postulados dessa teoria e

contrabalançar com as outras maneiras de analisar e descrever a língua. Assim,

apesar de utilizarmos essa teoria como base na Dissertação, também buscamos

respaldo em outras que nos ajudem a descrever o processo linguístico em

análise.

O capítulo 5 é voltado para a análise das funções da nominalização em

português. Nesse capítulo, apresentamos as funções que o afixo -ura exerce na

língua e as possíveis concorrências com outros de similar função (-mento, -ção,

Page 23: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

23

-eza, por exemplo). No entanto, buscamos mostrar que essa citada concorrência

não é verdadeira, devido à especialização de sentido do afixo em análise.

O capítulo 6 é o de análise de dados. Nesse capítulo, buscamos analisar o

sufixo –ura de acordo com a Teoria Multissistêmica, atendo-nos aos quatro

sistemas linguísticos identificados por Castilho (2010). Assim, buscamos

verificar como cada um desses sistemas atuaria no processo em separado para,

no final do capítulo, demonstrar o porquê de se considerar a ideia de

simultaneidade e não hierarquia entre eles.

Por fim, o capítulo 7 é o dedicado às considerações finais da Dissertação

e o 8, às referências bibliográficas. No capítulo 7, buscamos arrematar as ideias

abordadas e justificar as hipóteses levantadas.

Page 24: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

24

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

O processo de nominalização em português vem sendo amplamente

estudado por autores como Basilio (1980) e Lemos de Souza (2010), dentre

tantos outros, por ser um processo produtivo em nossa língua.

Tradicionalmente, entende-se por nominalização o processo de formação de

nomes a partir de verbos, carregando esses produtos as propriedades da sua

base verbal, visão esta diferente da abordagem de alguns teóricos em

morfologia como Basilio (1980) e Sandmann (1988), por exemplo, como

descreveremos a seguir.

Basilio, linguista que se dedica há tempos ao estudo da morfologia do

português, possui alguns trabalhos de referência sobre o tema, como é o caso de

Estruturas Lexicais do Português: uma abordagem gerativa (1980) e Teoria Lexical

(2007 [1987]), considerados leitura essencial para quem se inicia nessa área de

pesquisa. Em seu trabalho de 1980, Basilio compreende a nominalização como o

resultado de uma relação paradigmática entre os verbos e os nomes no léxico e

não somente um processo em que um nome é derivado de um verbo. Segundo a

autora,

“A rejeição da ideia de que os verbos são básicos nas nominalizações não é nova. (...) O termo ‘nominalização’ deverá cobrir não apenas nomes deverbais, mas também nomes morfologicamente básicos associados a verbos. Mais especificamente, a nominalização é um

2

Page 25: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

25

processo de associação lexical sistemática entre nomes e verbos”. (Basílio: 1980, 73-74)

De acordo com essa visão, podemos perceber que a autora vai contra a

ideia básica levantada pela visão tradicional apresentada a seguir e aprofunda

essa análise no segundo trabalho citado. Para Basilio,

“Damos o nome geral de ‘nominalização’ ao conjunto de processos que formam substantivos de adjetivos e, sobretudo, de verbos. A nominalização é um dos casos mais complexos de formação de palavras no que diz respeito à determinação da função, pois os vários processos de formação de substantivos podem apresentar funções múltiplas simultâneas”. (Basílio: 2007, 77)

Essas funções múltiplas às quais se refere a autora são as funções

sintática, discursivo-pragmática e semântica1, na medida em que a

nominalização atinge vários níveis de análise (cf. KATO, 1986). Quer-se com

isso dizer que o processo de nominalização apresenta função mista, já que não

tem por objetivo somente formar nomes a partir de verbos, ou seja, é mais do

que um simples processo de derivação.

1 A função sintática diz respeito à possibilidade de um termo nominalizado poder ocupar inúmeros lugares dentro da sentença, ampliando, assim, o campo de atuação da palavra base. Dito de outra maneira, a passagem de um verbo a um substantivo, por exemplo, apresenta-se como um “requisito de adequação sintática às estruturas nominais” (BASILIO, 2007:78). A função discursivo-pragmática faz referência ao uso do substantivo derivado dentro de um contexto discursivo, ativando, portanto, os conceitos de focalização e topicalização que serão discutidos a seguir, na medida em que o uso de um substantivo no lugar de um verbo, por exemplo, pode deixar de focalizar o agente para se voltar para o objeto como nos exemplos abaixo:

(i) Júlia comprou um carro. (ii) A compra do carro foi a melhor coisa que ela fez nesses últimos anos.

Por fim, a função semântica citada pela autora é a de denominação, pois a nominalização tem por característica permitir que se faça referência a um processo verbal em forma de evento, por exemplo. No entanto, veremos que não é apenas essa a função semântica exercida pela nominalização.

Page 26: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

26

Outra informação altamente relevante que pode ser retirada de ambas as

citações é o fato de se considerar que a nominalização pode ocorrer tendo como

base um adjetivo e não apenas verbos, o que é de grande valor para o presente

estudo, já que o afixo nominalizador –ura pode se anexar a ambas as bases,

como será descrito mais adiante.

Dessa forma, no presente capítulo, temos por objetivo traçar um

panorama sobre os estudos existentes na literatura morfológica sobre o sufixo

-ura, bem como apresentar a perspectiva da tradição gramatical a fim de

delinear os caminhos pelos quais passou a descrição desse afixo até a presente

proposta de trabalho.

Na seção 2.1, faremos um levantamento do que nos informa a

perspectiva tradicional acerca do tema, ou seja, quais as visões dos inúmeros

gramáticos sobre o processo de nominalização no português a partir do sufixo

-ura. Em 2.2, faremos um breve levantamento sobre os estudos especializados

em literatura morfológica, buscando obter as diferentes visões e abordagens dos

linguistas especializados em morfologia.

Além disso, também se fez necessário que buscássemos informações nas

gramáticas históricas de Língua Portuguesa, já que -ura é um afixo de origem

latina e, portanto, está na língua desde a sua formação, podendo ter sofrido

modificações em seu significado. Por isso, em 2.3., fazemos esse levantamento a

fim de verificar a origem de –ura e como esse sufixo é visto e analisado nas

gramáticas históricas.

Page 27: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

27

Na seção 2.4., intitulada “Polissemia ou afixos distintos? Defendendo

uma posição”, apresentamos as diferentes visões sobre essa ótica e os

argumentos a favor de uma ou outra análise. Por fim, na seção 2.5., fazemos um

breve resumo do que foi exposto neste capítulo, a fim de organizar as ideias

centrais e facilitar o prosseguimento da análise.

Vale lembrar que, em alguns momentos, faltaram exemplos para

demonstrar a visão desses autores, mas assim o fizemos, pois os mesmos não se

aprofundam no caso exemplificando.

2.1. A Perspectiva Tradicional

Partindo para a descrição do processo de acordo com o que

afirmam as gramáticas tradicionais (CUNHA & CINTRA, 2007; BECHARA,

2009; LUFT, 1990), pudemos constatar que o afixo não possui grande espaço

para descrição nesses compêndios, pois os mesmos somente o citam como

sufixo formador de substantivos a partir de verbos e adjetivos, sem informar

qual seria a sua acepção ou fazer qualquer outra análise que o distinga de

outros afixos nominalizadores como -ção, -mento e -oso, por exemplo, sendo os

dois primeiros afixos deverbais e o último, deadjetival.

No entanto, Rocha Lima (2008) destaca-se dentre os demais gramáticos,

por acrescentar informações novas acerca do afixo, já que aponta para a

existência de afixos diferentes na nominalização a partir de verbos e na

nominalização a partir de adjetivos. Segundo Rocha Lima, quando esse

processo tiver por base um verbo, os afixos utilizados serão -tura, -dura e -sura,

Page 28: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

28

como em assinatura, assadura e clausura. Em contrapartida, quando a base for

adjetival, o afixo a ser utilizado será o -ura, como em amargura, ternura e loucura,

que se anexam, respectivamente, aos adjetivos amargo, terno e louco, nessa

ordem.

O afixo em questão, portanto, não é muito analisado pelas gramáticas

tradicionais, o que abre espaço para uma análise mais detalhada do mesmo.

Apesar de ser somente citado pela maioria e, principalmente, ser analisado

superficialmente por um deles – levando-se em consideração que o objetivo

principal das gramáticas tradicionais não é desenvolver detalhadamente todos

os aspectos específicos da língua e sim descrevê-la em seus aspectos mais gerais

– consideramos que -ura é um afixo relevante para análise, pois pouco se sabe

sobre suas diversas acepções e sobre o processo de nominalização que

desencadeia.

2.2. A perspectiva dos teóricos em morfologia

Prosseguindo para uma melhor descrição do processo, recorremos à

literatura de cunho derivacional e a pesquisas linguísticas nesse campo, a fim

de dar continuidade ao entendimento do afixo ora analisado. No entanto,

também nessa linha de investigação, não encontramos maiores informações

sobre o formativo. Dentre os autores pesquisados, Sandmann (1988) ressalta

que o sufixo -ura parece não ser mais produtivo em português, embora afirme

que nem sempre foi assim, citando a palavra laqueadura como uma formação

recente na língua. Não há referência ao sufixo em questão em manuais de

Page 29: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

29

morfologia do português, como Monteiro (1988), Kehdi (1989), Laroca (1994) e

Carone (1990).

Já o trabalho de Coelho (2008), por sua vez, descreve o processo de

nominalização em português por meio do sufixo –ura, sendo, portanto, dentre

todos os trabalhos acerca desse afixo, o único com maior aprofundamento sobre

o formativo. Contudo, apesar dessa proposta inicial, a autora limita-se a falar

sobre a morfologia categorial2, explicar em que consiste essa linha de

investigação e tratar dos critérios para exclusão de vocábulos do corpus. Porém,

ainda assim, Coelho levanta algumas questões importantes sobre o afixo em

estudo a que pretendemos responder nesta dissertação: (1) se o -ura é um caso

de afixo polissêmico ou homônimo; e (2) se existe somente um afixo com

variantes fonológicas ou se -ura, -tura e -dura são afixos diferentes.

Além disso, a autora discorre sobre as palavras-base da nominalização

por intermédio desse afixo, afirmando serem elas adjetivas ou participais, sendo

esta última explicada pela autora a partir de dois motivos. O primeiro deles é o

fato de o adjetivo e o particípio terem características semelhantes e poderem ser

analisados sob o mesmo rótulo, apesar das diferenças existentes. O segundo

motivo diz respeito à permanência da vogal temática em alguns casos e à falta

dela em outros, o que pode ser explicado a partir da ideia de que esse afixo se

une a bases participiais, sejam elas regulares ou irregulares, como é o caso de

andadura, que mantém a vogal temática, visto que o afixo se anexa ao particípio

2 Segundo Coelho (2008), a morfologia categorial aborda o léxico composicionalmente sem fazer qualquer distinção entre estrutura profunda e estrutura superficial na medida em que o mecanismo de hierarquia de aplicação de regras não existe nessa linha teórica. Assim, “dentro da GC (Gramática Categorial), a visualização composicional das estruturas complexas (...) é sempre relevante e clara , pois (...) parte-se dos itens lexicais”. (COELHO, 2008:5)

Page 30: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

30

regular do verbo andar; e fritura, que não apresenta a vogal temática em sua

forma por derivar do particípio irregular frito. Portanto, caso entendêssemos

que esse sufixo se une a bases verbais, teríamos de encontrar explicações para a

presença ou ausência da vogal temática verbal, além de interpretar o /d/, por

exemplo, como uma consoante de ligação ou parte de um novo afixo, o que não

seria nada econômico para o estudo.

Quanto ao segundo questionamento levantado acima, se -ura, -tura e

-dura são afixos diferentes, Coelho (2008) afirma serem diferentes formas

fonológicas de um mesmo afixo, contradizendo-se, portanto, já que a mesma

considera participais as bases a que se adjunge o afixo. Sendo assim, ao

considerar que -ura se une a particípios verbais, considera-se também, mesmo

indiretamente, que os elementos /t/ e /d/ fazem parte do radical e, dessa

forma, não podem ser considerados como diferentes formas fonológicas de um

mesmo sufixo.

Com base no levantamento do corpus realizado para este trabalho,

pudemos perceber que a grande maioria das bases que sofrem o processo de

nominalização por intermédio de -ura são participiais e, quando os derivados

advêm diretamente do latim, ainda se mantém a relação de se anexar esse afixo

a uma base de natureza adjetival. Como exemplo, podemos citar abreviatura,

que é uma palavra originalmente latina. Nesse caso, a nominalização ocorreu

ainda na língua de origem e foi realizada a partir da anexação do afixo -ura ao

particípio passado do verbo abreviare. Esse fato, portanto, nos remete à visão de

França & Lemle (2006) acerca desse afixo com base no modelo da Morfologia

Page 31: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

31

Distribuída3. Segundo as autoras, a nominalização por -ura, sempre anexado a

bases participiais, é explicada a partir da premissa de que no latim isso já

ocorria e o português manteve essa relação e esse padrão de formação. O

mesmo acontece com muitos empréstimos linguísticos, já que, em português,

existem inúmeros vocábulos advindos de outras línguas e que sofreram o

processo de nominalização nas suas línguas de origem, como é o caso de

desenvoltura (do italiano desenvolture) e brochura (do francês brochure). Isso se

deve ao fato de ambas as línguas serem de origem latina e também manterem

esse afixo disponível para fins lexicais.

Além disso, as autoras abordam vocábulos como tintura como oriundos

de formas participiais latinas cujas formas infinitivas não são mais usadas pelos

falantes. Segundo elas, esse vocábulo, por exemplo, derivaria de tinctum, que

seria o particípio passado do verbo tingo, que caiu em desuso e, em seguida, a

forma tintura viria para o português já assim constituída. Coelho (2008) também

aborda algo similar em seu artigo, pois reconhece a existência de “raízes

possíveis” para as nominalizações, ou seja, segundo a autora, alguns derivados

surgiriam de verbos inexistentes na língua, mas que seriam completamente

possíveis de serem realizados, como é o caso de ratadura, que, segundo a autora,

poderia vir do particípio do verbo ratar, embora este não faça parte do léxico do

português.

3 A Morfologia Distribuída é uma teoria sintática, na medida em que entende que é a sintaxe que maneja e rege livremente as raízes e os morfemas que, por sua vez, são entendidos como sendo categorias abstratas definidas por traços universais. Essa teoria se diferencia da abordagem lexicalista, pois não considera a existência de um léxico na língua.

Page 32: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

32

Rio-Torto (2005) aponta para o fato de -ura selecionar, preferencialmente,

adjetivos com origem em particípios passados, sejam eles regulares (dobradura,

abotoadura) ou não (fritura, soltura), preservando, assim, os segmentos /t/ e /d/

de seus radicais.

Portanto, podemos constatar que, embora pouco se fale sobre esse afixo e

o número de estudos voltados para este formativo seja escasso, algumas

questões são levantadas e resolvidas de diferentes formas, a depender do

referencial teórico adotado. Além disso, também foi possível perceber que as

visões sobre esse afixo variam de teoria para teoria e que escolhemos, portanto,

a Abordagem Multissistêmica – como veremos mais adiante – devido ao fato de

esta se propor a resolver os problemas levantados pelas outras teorias por

diferentes ângulos. Nos próximos capítulos, observaremos o comportamento

dos vocábulos do corpus, tentando responder a algumas das questões

levantadas por pesquisas anteriores à nossa.

2.3. Revisitando gramáticas históricas

Com base em revisão bibliográfica prévia, fez-se necessária a busca de

mais informações sobre a origem do sufixo –ura e, para tanto, resolvemos

verificar como o afixo é tratado nas primeiras gramáticas do século XX, com o

intuito de constatar até que ponto nosso estudo seria relevante e desde quando

se volta o olhar para esse sufixo.

Dentre as gramáticas consultadas, a primeira que faz referência a –ura é a

de Jucá Filho (1945). Em sua Gramática Histórica do Português Contemporâneo, o

Page 33: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

33

autor faz uma breve introdução sobre o que seriam os sufixos para depois listar

os que ele considera importantes e existentes na língua portuguesa da época.

Para Jucá Filho, os sufixos são sempre denotativos e podem ser divididos em

auxiliares modificativos, conectivos subordinantes e conectivos super-

ordenantes. Os primeiros são os que alteram o significado do radical,

modificando sua significação fundamental (-inho em carrinho, por exemplo); os

segundos, por sua vez, são os que transformam substantivos e verbos em

adjetivos (-udo de barrigudo e –(t)ivo de pensativo); e os terceiros são os que

alteram a classe gramatical do radical, passando-o de adjetivo a substantivo ou

verbo (-eza de beleza e –izar de legalizar).

Ainda segundo o autor, a maioria dos sufixos são fonemas ou grupos de

fonemas que vieram diretamente do latim e podem ser definidos como formas

simples ou ampliadas, sendo estas as formas que agregam algum segmento às

simples correspondentes. Dessa forma, o Jucá Filho (1945) faz distinção entre

-ura (forma simples) e –tura / –dura (formas ampliadas). Pode-se concluir,

portanto, que autor define essas três formas como afixos diferentes, sendo o

primeiro anexado a bases adjetivas e o segundo, a bases verbais, assim como

Rocha Lima (2008). Embora não se estenda na análise das formações X-ura, a

partir dessa separação entre formas simples e ampliadas, é possível verificar a

visão que o autor apresenta: caso considerasse a existência de apenas um afixo e

interpretasse as consoantes /t/ e /d/ como resquícios do particípio, não

diferenciaria –ura de –tura e –dura.

Page 34: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

34

Em sua Gramática do Latim Vulgar, Maurer Jr. (1959) revela que, no Latim

Clássico, o afixo -ura formava nomes tão somente a partir de bases do

particípio, ou seja, somente se originava de bases tidas como verbais, como

censura e escritura. Dessa forma, segundo o autor, seria uma inovação do latim

vulgar a formação de nomes com bases adjetivas, que se disseminou para as

línguas românicas, como o português (candidatura), o espanhol (candidatura), o

francês (candidature) e o italiano (candidatura). autor explica essa inovação do

latim vulgar a partir da similaridade entre o particípio e o adjetivo, pois,

considerando-se que essas formas verbais são, em grande parte, simples

adjetivos, é fácil compreender como se deu essa mudança na categoria da base.

Na verdade, ao se ligar a um particípio, o afixo estava também se ligando a um

adjetivo devido a esse caráter da forma nominal. Sendo assim, a mudança

categorial é uma inovação na língua, apesar de já esperada. Ilari (1992) retoma o

autor e também afirma que o sufixo –ura se liga a bases verbais para formar um

substantivo, porém não se aprofunda muito no tema, ao contrário de Maurer Jr.

(1959) que, como vemos, vai um pouco além.

O afixo –ura também é tratado por Said Ali em duas de suas gramáticas,

sendo a primeira delas Gramática Secundária da Língua Portuguesa (1969) e a

segunda, Gramática Histórica da Língua Portuguesa (1971). O autor, assim como os

demais já citados, considera que haja, na verdade, um sufixo que se liga a bases

adjetivas e outros que se ligam a bases verbais, sendo eles –dura, -tura e –sura.

Na primeira gramática em questão, o autor afirma que esses afixos são o

resultado do acréscimo de –ura a temas do particípio que aglutinam essa

Page 35: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

35

consoante à do sufixo. Já na segunda, Said Ali (1971) vai além, pois traz novas

informações acerca dessas formas linguísticas. De acordo com o gramático, as

consoantes d, t e s que iniciam os afixos –dura, -tura e –sura são consoantes

incorporadas aos sufixos que se ligam a bases participiais. Além disso, o autor

afirma que esses afixos se anexam a bases participiais para indicar nomes de

ação e concorreram durante muito tempo com o afixo -or, cuja função precípua

é formar nomes de agentes (comprador, por exemplo).

O autor ainda cita a extensão de sentido e de função do afixo –ura, pois o

mesmo passa a designar objetos materiais, como é o caso de ferradura, fechadura,

abotoadura. Isso se deve à polissemia natural da língua e também ao fato de

haver, para fins lexicais, outros afixos nominalizadores e indicadores de nomes

de ação, como –ção e –mento, por exemplo. Dessa forma, pode-se perceber que o

autor já intuía a polissemia do afixo e considerava relevante esse caráter no

estudo da língua, embora não o dissesse.

Outro ponto levantado por Said Ali (1971) é o fato de muitos vocábulos

X-ura serem introduzidos na língua por via erudita, vindo diretamente do latim

ou através de empréstimos linguísticos. Dessa forma, o autor explica como

alguns verbos não fazem parte do português, embora seu substantivo

respectivo seja um vocábulo corrente na língua, como é o caso do já citado

pintura, que advém da forma verbal latina pingo. A possibilidade de se anexar o

afixo –ura a bases adjetivas, como levantado por Maurer Jr. (1959), deve-se ao

fato de ter sido perdida a relação que esses nomes tinham com os verbos de

origem, já que muitos deixaram de fazer parte do léxico do português. Essa

Page 36: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

36

ligação a adjetivos já era possível no latim, porém, em português, aumentou

consideravelmente, sobrepondo-se às formas de bases verbais.

Coutinho, em Pontos de Gramática Histórica (1978), faz um apanhado geral

do que se entende por sufixação e como se caracterizariam os sufixos. No

entanto, no que diz respeito ao afixo –ura, o autor não tece maiores

considerações; apenas o cita como um sufixo nominal. Porém, é interessante

notar que, diferentemente de Said Ali, por exemplo, Coutinho parece considerar

–ura, -tura e –dura como variantes de um mesmo afixo, pois coloca-os juntos em

uma listagem de afixos formadores de nomes em português. Além disso, o

autor define -ura como um afixo que indica qualidade (alvura), objeto

(armadura), ação ou resultado da ação (varredura), apontando para a polissemia

do mesmo. No entanto, vale ressaltar que, ao juntar todas as variantes, o autor

está considerando -ura um afixo polissêmico que se une a bases verbais, sendo o

/t/, /d/ e /s/ resquícios da desinência de particípio.

Outra visão sobre o afixo em estudo é a de Mendes de Almeida, em sua

Gramática Metódica da Língua Portuguesa (1979). Para o autor, há apenas um

afixo, porém com três diferentes funções na língua, diferentes acepções, a

depender da base à qual se adjunge. Caso o afixo seja acrescido a um tema

verbal, o derivado indicará ação ou resultado de uma ação, como em, formatura,

fritura, fervura, dentre outros. Por outro lado, caso o afixo seja anexado a uma

base adjetiva, o mesmo formará um substantivo abstrato que indica qualidade,

estação ou situação, carregando consigo as características próprias dos

adjetivos, como em alvura, brancura, bravura e tontura. Por fim, se o sufixo –ura

Page 37: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

37

se ligar a um substantivo, o mesmo resultará em uma palavra indicativa de

exercício de algum cargo, como em advocatura e magistratura.

Faria (1958), por sua vez, classifica –tura como formador de substantivos

derivados de temas verbais, indicando a ação ou o resultado de alguma ação,

como natura que indica “ação de fazer nascer, natureza”. O autor ainda afirma

que este é um sufixo complexo, pois é formado por mais de um elemento

sufixal acumulado devido à necessidade expressiva, ou seja, haveria dois afixos

distintos anexados a uma mesma base a fim de passar o significado que se

desejaria. Assim, os sufixos -tu- e -su-, simples, apareceriam com maior

frequência unidos a outros elementos, formando diversos sufixos complexos,

como, por exemplo, –tura que é formado por -tu- mais o sufixo –ro- em sua

forma feminina –a (a forma masculina do afixo aparece no particípio do futuro

verbal –turus, no latim).

Masip (2003) divide os sufixos da língua em transformadores e

modificadores. A ideia do gramático é a de que temos um afixo transformador

quando o mesmo é capaz de transformar a palavra-base e um sufixo

modificador quando a única função é modificar a base no que diz respeito à

quantidade – que é o caso dos aumentativos e diminutivos. Portanto, segundo o

autor, o sufixo em questão seria classificado como transformador, pois seu

acréscimo ao radical da palavra tem influência direta sobre a forma de um

vocábulo. De acordo com ele, existem, então, quatro afixos distintos, -dura,

-sura, -tura e –ura, sendo que os três primeiros se anexam a bases verbais para

Page 38: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

38

indicar o resultado ou instrumento de alguma ação coletiva (fechadura,

assinatura) e o último significa “relativo a alguma coisa” (chatura).

2.4. Polissemia ou afixos distintos? Defendendo uma posição

De acordo com o que foi apresentado anteriormente acerca da visão de

alguns autores sobre o sufixo -ura, pudemos perceber que existem diferentes

pontos de vista no que diz respeito a sua concretização, visto que alguns

pendem para uma análise mais pautada na existência de afixos distintos,

enquanto outros acreditam ser esse afixo polissêmico. Ainda pensando no que

foi apresentado sobre a análise dos diferentes autores, podemos notar que as

respostas à pergunta que dá título à seção são as mais variadas possível, já que

alguns afirmam haver mais de um afixo (ROCHA LIMA, 2008), outros

defendem a ideia de serem variantes fonológicas de um mesmo sufixo

(COELHO, 2008) e, por fim, há autores que acreditam que o afixo -ura é único e

que as consoantes /d/, /t/ e /s/ são resquícios das bases participais das quais

derivam as nominalizações (FRANÇA & LEMLE, 2006; RIO-TORTO, 2005).

Assim, a partir da análise das informações, podemos levantar três

hipóteses detalhadas a seguir:

H1: as palavras formadas a partir do sufixo –ura provêm de formas

básicas do verbo;

H2: as palavras formadas a partir desse afixo provêm do particípio latino;

Page 39: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

39

H3: independentemente de suas origens, as formações em português

identificam –ura como sufixo formador de palavras com intensificação de

qualidade, ignorando a base à qual se liga.

Podemos começar a análise pelo gramático Rocha Lima (2008), que inicia

essa questão ao separar o afixo -ura em dois: o primeiro anexado a bases

nominais e o segundo, a bases verbais, sendo este último representado pelas

formas -tura, -dura e -sura e aquele representado somente pela forma -ura.

Segundo essa visão, -ura formaria palavras como tontura, finura, amargura e

bravura, enquanto a -tura, -dura e -sura caberiam palavras como formatura,

cavalgadura e censura, nessa ordem. No entanto, analisar essas três formas como

afixos diferentes faz com que ignoremos alguns fatores, como o caso da vogal

temática, da relação entre adjetivos e particípios, além do fato de não haver

necessidade de mais de um afixo na língua para expressar a mesma noção.

No que diz respeito à vogal temática, podemos retomar Coelho (2008),

que defende a ideia de que o afixo -ura se une a bases participiais, sejam elas

regulares ou não, justificando o fato de, em alguns casos, a vogal temática estar

presente, mas em outros não. Como exemplo, podemos citar as palavras

abotoadura, feitura e soltura que, caso derivassem de bases verbais em sua forma

infinitiva, ou seja, caso fossem interpretadas como derivadas da forma básica do

verbo, entrariam em conflito na análise, pois na primeira teríamos a presença da

vogal temática “a” e na segunda e terceira não. Além disso, o caso de feitura é

ainda mais difícil de interpretar como derivado de uma base verbal infinitiva, já

Page 40: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

40

que, para isso, o derivado deveria ser fazedura e não feitura, pois o particípio

desse verbo é altamente irregular, por fazer grandes alterações no radical da

palavra-base. Sendo assim, fica claro que essa palavra derivou de feito, e não da

forma verbal fazer. Nesse caso, a explicação mais concreta seria a de que essas

palavras derivam de verbos no particípio, fazendo com que a ausência da vogal

temática na segunda e terceira palavras seja justificada pelo fato de ambas

terem como base os particípios abundantes dos verbos fazer e soltar,

respectivamente.

Além desse ponto de análise, outro fator que corrobora a visão dessas

bases como participiais é o fato de que os particípios e adjetivos, apesar de

pertencerem a categorias gramaticais diferentes, apresentam características

similares e podem ser analisados da mesma forma, o que pode ser

exemplificado pelo fato de alguns particípios serem utilizados como adjetivos

em frases como “João é atrasado”. Nesse caso, o particípio do verbo atrasar está

sendo usado como adjetivo para definir uma propriedade de João. Por esse

motivo, é mais interessante analisar as bases como participiais e não como

formas infinitivas do verbo, o que levaria à formulação de um único esquema

para a construção morfológica, como defenderemos nos capítulos de análise.

Além disso, podemos levar em consideração para essa análise, um breve

estudo histórico acerca do afixo, pois, segundo França & Lemle (2006), o fato de

o afixo -ura se anexar a bases participiais no latim leva à constatação de que o

mesmo ocorre nas línguas neolatinas, dentre elas, o português. Maurer Jr. (1959)

também afirma que o sufixo –ura se anexava a bases participiais no latim

Page 41: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

41

clássico, sendo, portanto, uma inovação do latim vulgar a formação a partir de

bases adjetivas – lembrando que o particípio e o adjetivo são equivalentes.

Dessa forma, assim como -ura se anexa ao particípio passado do verbo assare em

latim, o mesmo afixo será anexado a bases participiais no português e em outras

línguas neolatinas. Isso se deve ao fato de essas línguas manterem a relação

existente entre o afixo e as bases desde o latim até hoje.

Dessa forma, podemos afirmar que os falantes, apesar de não terem

conhecimento do latim e de onde se originou esse afixo, acabam por interpretar

-ura como atribuidor de uma qualidade em relação a uma base predicativa, pois

tanto os adjetivos quanto os particípios têm essa função predicativa na sintaxe

da língua.

Ainda devemos levar em consideração o fato levantado por Rio-Torto

(2005) de esse afixo selecionar bases adjetivas cuja origem sejam particípios. Por

esse motivo, podemos comprovar, mais uma vez, que os segmentos em

discussão – /t/, /d/ e /s/ – fazem parte dos radicais e não de um afixo

diferente, ou seja, que as bases para esse afixo são os particípios dos verbos em

questão.

Por fim, podemos discutir o fato principal que diz respeito à

interpretação dos três segmentos citados. Caso interpretássemos as bases para

esse sufixo como verbais em sua forma infinitiva, teríamos de responder à

pergunta concernente à natureza desses segmentos, se são consoantes de

ligação ou partes de outro afixo. No entanto, essa não parece ser uma resposta

muito acessível, pois não há provas concretas para tal interpretação, ao

Page 42: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

42

contrário do que ocorre se interpretamos os segmentos /t/, /d/ e /s/ como

parte das bases participiais.

Assim, voltando para as hipóteses levantadas anteriormente, podemos

afirmar que todas elas podem ser verdadeiras a partir do ponto de vista que se

adote. No caso da primeira hipótese, para que seja considerada verdadeira,

seria preciso que se analisasse /t/, /d/ e /s/ como consoantes de ligação ou

como parte de um novo afixo, no caso, -tura, -dura e -sura, respectivamente. No

que diz respeito à segunda hipótese, pudemos comprová-la a partir dos

argumentos apresentados anteriormente com base nas diferentes abordagens

teóricas. Já a hipótese 3 pode ser também levada em consideração se olharmos

para vocábulos formados a partir de bases substantivas e até mesmo adverbiais

como belezura e lonjura, respectivamente, apontando para o fato de o mais

importante, em se tratando desse afixo, não estar diretamente relacionado à

natureza da base, mas sim à acepção que veicula, já que existem outros afixos

como veremos mais adiante.

Nesse último caso, podemos levar em consideração o fator bloqueio

levantado por Aronoff (1976). Segundo o autor, o bloqueio pode ser

considerado uma noção funcional, já que se trata da não aplicação de uma

operação disponível na língua por já existir uma palavra no léxico para exercer

a mesma função que exerceria a palavra a ser formada. Nesse caso, por mais

produtiva que seja, uma operação morfológica não atua se já houver uma

palavra formada a partir de outro afixo que exerça a mesma função; o falante

não forma novas palavras com a mesma função que uma já existente na língua.

Page 43: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

43

Assim, no que diz respeito a –ura, a noção de bloqueio pode ser um importante

instrumento de análise.

Os afixos –ção e –mento têm a função de formar nomes a partir de verbos

para atribuir um significado mais ativo, mais centrado nas características

predicadoras do verbo, como amplamente estudado por Lemos de Souza (2010)

e como veremos com mais detalhes no capítulo 3 a seguir. Já o afixo –ura, por

sua vez, também teria como bases primárias os verbos, mas, por haver esses

dois afixos com a mesma tarefa, –ura se especializou e passou a se unir somente

a bases adjetivas, carregando consigo a função de atribuir qualidades e tendo

por base não mais um verbo em sua forma infinitiva prototípica, mas bases com

significados mais qualificadores. Assim, por mais que esse sufixo fosse

produtivo em latim, em português deixa de ser, pois entra em competição com

–ção e –mento e vai perdendo o seu significado de “ato / efeito”, mas continua

se especializando quando o significado a ser atribuído tem relação com noções

predicativas.

Portanto, podemos concluir que as formas variantes são, então,

condensadas em uma única forma, -ura, visto que entendemos ser esse afixo

anexado a bases participiais. Assim, as consoantes /t/, /d/ e /s/ seriam

resquícios do particípio e não parte de um novo afixo. Além disso, adotamos

essa visão por não ser econômico considerar que há afixos distintos quando as

bases são verbais, já que as mesmas não são os verbos em suas formas

infinitivas, mas sim em suas formas de particípio, adotando, pois, a visão de

França & Lemle (2006) e Rio-Torto (1998). No entanto, como levantado nesta

Page 44: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

44

seção, também não podemos desconsiderar as outras visões já que, na língua,

nada pode ser considerado completamente verdadeiro, pois tudo vai depender

do ponto de vista pelo qual se está observando determinado fenômeno. Como

afirma Saussure (1973, 135), “O ponto de vista determina o objeto”, indicando-

nos que a análise de qualquer corpus permite infinitivas interpretações, a

depender da corrente de estudo que se vá usar. Optamos, portanto, por essa

interpretação por ser ela a mais adequada à análise que pretendemos

desenvolver adiante.

2.5. Resumindo

No presente capítulo, apresentamos as diversas visões acerca da

nominalização a partir do afixo –ura, principalmente no que diz respeito à sua

natureza. Apesar de reconhecer todas as possíveis análises, decidimos por

interpretar esse formativo como um único afixo que pode se unir tanto a bases

adjetivais quanto participiais, já que ambas possuem o mesmo caráter

atributivo. Assim, não haveria diferença entre –ura, -tura, -dura ou –sura, já que

as consoantes que os iniciam seriam, na verdade, resquícios do particípio e não

parte do afixo em questão.

Page 45: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

45

METODOLOGIA E CORPUS

Realizar uma pesquisa de cunho linguístico e verificar como processos

morfológicos, semânticos, gramaticais e discursivos ocorrem na língua é uma

atividade que requer a constituição de um corpus ou de mais de um corpora que

venha a auxiliar nesse processo. No entanto, essa constituição não deve ser

aleatória e sem qualquer embasamento, sendo necessária uma metodologia

clara e precisa para que esses dados possam confirmar as hipóteses

previamente levantadas nesta Dissertação ou negá-las, apresentando, como

consequência, novas hipóteses e novos olhares sobre o tema a ser pesquisado.

Portanto, neste capítulo, apresentamos os métodos utilizados na coleta

dos dados e na formação do corpus de análise. Para tanto, recorremos tanto a

dicionários quanto a textos escritos a fim de criar uma unidade passível de

análise e facilitadora desse processo.

3.1. Coleta inicial dos dados

Em um primeiro momento, foi realizada uma busca nos dicionários

Houaiss (2001) e Aurélio (2004), em sua versão eletrônica, verificando a data de

entrada dos vocábulos na língua. Por se tratar de um afixo, foi de extrema

3

Page 46: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

46

importância a utilização desses meios eletrônicos, na medida em que facilitou o

processo de coleta dos dados. Com essa recolha, foram encontradas 171

palavras inicialmente, amostra posteriormente reduzida, como descrevemos a

seguir.

Além disso, enquanto era realizada a busca dessas nominalizações,

também foram anotados os anos de entrada nos dicionários – quando os

mesmos forneciam essa informação em sua definição –, a categoria da base à

qual o sufixo se anexou e o seu significado ou seus múltiplos sentidos. Essa

última informação está presente no anexo I desta Dissertação e pode ser

consultada ao longo da leitura para qualquer dúvida em relação a algum

significado em específico.

No entanto, apesar de, na maioria dos casos, as informações quanto à

etimologia e à entrada na língua serem fornecidas pelo dicionário Houaiss,

muitas das palavras do corpus não apresentavam tais dados e, para obtê-los,

recorremos a alguns dicionários etimológicos (CUNHA, 1999; NASCENTES,

1955; SILVEIRA BUENO, 1967; e, principalmente, MACHADO, 1973) a fim de

precisar essas informações e dirimir qualquer dúvida em relação à origem de

uma ou outra palavra. Essa busca nos dicionários etimológicos foi realizada

depois de já coletados os dados, já que foi utilizada como um complemento, um

suporte à busca anterior. Ainda é válido comentar que, em alguns casos dessa

amostra, houve divergência em relação à data de entrada de algumas palavras

e, em decorrência, adotamos a data mais antiga.

Page 47: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

47

3.2. Métodos de aprimoramento do corpus

Depois dessa coleta, porém, percebemos que algumas palavras que

faziam parte da lista causavam estranheza quanto ao seu significado, à base ou

eram pouco utilizadas na língua. Por isso, fez-se necessário tornar o corpus mais

enxuto e verdadeiramente representativo do uso de –ura em português. Para

tanto, foram tomadas algumas decisões. Em um primeiro momento, fizemos

testes informais com os falantes da língua; em linhas gerais, tais testes

consistiam em apresentar algumas das palavras que chamaram nossa atenção,

solicitando aos informantes que tentassem, de alguma forma, defini-las ou

inseri-las num contexto de uso plausível4. No entanto, muitas dessas palavras

não eram recuperadas pelos falantes e os mesmos não conseguiam, algumas das

vezes, nem mesmo identificar a base a qual o afixo foi anexado. Quando

apresentadas aos falantes palavras como peladura, soldadura ou vestidura, por

exemplo, a maioria não conseguiu identificar as bases ou associava a bases não

verdadeiras. No caso de peladura, muitos identificavam a base “pelado”, mas

não conseguiam definir o vocábulo, já que a base recuperada por eles seria

equivalente a “desnudo”. O mesmo aconteceu com soldadura e vestidura em que

os falantes identificavam as bases “soldado” e “vestido”, não fazendo qualquer

referência a essas bases como participiais, mas remetendo-as aos substantivos

“soldado militar” e “roupa utilizada por mulheres”. Dessa forma, por mais que

4 Esse teste inicial foi aplicado a 30 falantes da faculdade de Letras ou não e foi realizado da seguinte maneira: apresentamos palavras como vestidura, peladura, zebrura e podrura e pedimos aos falantes que, oralmente, nos indicassem seus significados. Em alguns casos, apresentávamos essas palavras contextualizadas como em “eu julgava poder distinguir um campo de interesse cultural e essa zebrura inesperada que às vezes vinha atravessar esse campo”, mas os falantes não conseguiam remontar o seu significado.

Page 48: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

48

os falantes conseguissem depreender a base, não conseguiam definir ou

contextualizar as palavras apresentadas. Em alguns casos, nem quando

fornecíamos o vocábulo já contextualizado, o significado era recuperado pelo

informante. Dessa forma, tais palavras foram excluídas do corpus, uma vez que

nosso objetivo é analisar apenas os vocábulos efetivamente empregados e

reconhecidos pelos falantes, tendo por base o uso da língua.

Desse modo, optamos por manter no corpus apenas os vocábulos

reconhecidos pelos falantes e, para tanto, criamos um filtro nos vocábulos

pertencentes ao corpus inicial a partir da busca no Google. Assim, selecionamos

um filtro de 50.000 ocorrências para que pudéssemos manter ou retirar as

palavras do corpus, o que comprovou a nossa hipótese inicial e os testes

informais com os falantes: em linhas gerais, as palavras não acessíveis aos

informantes que participaram do teste tiveram baixíssimo número de

ocorrências no Google. Assim, as palavras que restaram no corpus com o seu

respectivo número de ocorrências estão detalhadas no anexo III e abaixo

exemplificadas:

PALAVRA OCORRÊNCIAS NO GOOGLE

Abertura 81.400.000

Altura 228.000.000

Armadura 14.300.000

Assadura 200.000

Assinatura 40.800.000

Atadura 40.800.000

Belezura 388.000

Page 49: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

49

Benzedura 944.000

Brancura 224.000

Chatura 247.000

Cintura 46.100.000

Cobertura 102.000.000

Fartura 6.350.000

Fechadura 3.490.000

Feiura 493.000

Ferradura 1.530.000

Fervura 722.000

Finura 1.400.000

Fofura 2.890.000

Fritura 1.240.000

Gostosura 388.000

Tabela 1: Número de ocorrências dos vocábulos no sítio de busca Google

Portanto, depois de delimitado o corpus, restou um montante de 98 dados

de nominalização X-ura reconhecidos pelos falantes e analisados nesta

Dissertação.

3.3. Métodos de análise

A fim de corroborar a hipótese inicialmente apresentada – a de que o

sufixo –ura somente é produtivo nos dias de hoje a partir de bases não

participiais, apresentando dados empíricos que demonstrem esse percurso

histórico – foi essencial fazer uma busca em textos escritos antigos. Para tanto,

recorremos ao “Corpus do Português”, um corpus muito amplo e

Page 50: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

50

disponibilizado por meio eletrônico, o que facilitou consideravelmente o

processo de coleta, visto que buscávamos verificar uma vasta quantidade de

textos com o objetivo de obter resultados mais confiáveis.

Foi escolhido esse corpus por ele apresentar quase 57.000 textos em língua

portuguesa, do século XIV até o século XX. Além disso, como abarca também

textos de outros corpora informatizados, pudemos obter dados de textos dos

séculos anteriores a esses, como XII e XIII, por exemplo. Assim, o corpus trazia

como resultado o registro solicitado, separado por número de ocorrências em

cada século e contextualizado com referência aos textos de onde foi rastreado.

Assim, foram pesquisadas todas as ocorrências que restaram no corpus a partir

desse sítio, buscando a datação da primeira aparição em textos escritos e

analisando o contexto em que tais palavras estavam sendo utilizadas e com que

significado. Veremos no capítulo 5 e 6 que essa busca em textos antigos também

ajudou a demonstrar a mudança semântica ocorrida e a especialização sofrida

pelo afixo -ura. Assim, os textos antigos consultados estão apresentados no

anexo VI desta Dissertação.

Finalizada a varredura nos textos antigos, foi feita a separação das

ocorrências por cada século a fim de corroborar as hipóteses previamente

levantadas acerca da história do afixo e tecer maiores considerações sobre o

lugar desse afixo na língua portuguesa. O anexo IV apresenta essa separação

por século e foi utilizado para fazer a análise história presente no capítulo 5.

Além disso, vale ressaltar que a datação encontrada nesses dados também foi

utilizada no anexo II, pois, da mesma maneira que, entre o dicionário eletrônico

Page 51: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

51

Houaiss (2001) e os dicionários etimológicos consultados, foi considerada a data

mais antiga, o mesmo foi feito em relação a esses textos. Por fim, comparando

as três datações a que tivemos acesso, selecionamos sempre a mais antiga, seja

ela a do dicionário eletrônico Houaiss, a dos dicionários etimológicos

consultados ou a primeira aparição em textos do “Corpus do Português”.

Em relação às funções da nominalização que serão apresentadas no

capítulo 5 e reinterpretadas de acordo com a Teoria Multissistêmica no capítulo

6, achamos de extrema importância separar os vocábulos constituintes do corpus

entre elas e apresentá-las no anexo V para facilitar a consulta. Além disso, é

importante ressaltar que essa divisão foi feita a partir do significado mais

prototípico de cada palavra, já que, como veremos a seguir essas funções

podem se intercambiar à medida que os dispositivos sociocognitivos atuem ou

cada um dos quatro sistemas tome lugar. Assim, o significado prototípico de

altura é o de abstratização de adjetivo, indicação de propriedade, mas, se

inserida em um contexto, pode veicular o significado de intensificação, como se

observa no seguinte exemplo:

(1) Olha a altura desse salto, é óbvio que vai tropeçar5.

Como o objetivo desta Dissertação é analisar o processo de

nominalização a partir do sufixo –ura com base na Teoria Multissistêmica,

optamos por recolher os exemplos presentes nesta Dissertação no sítio de busca

5 http://somulhercompartilha.tumblr.com/post/26831503854/olha-a-altura-desse-salto-e-obvio-que-vai. Acessado em 07/ Ago / 2012

Page 52: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

52

do Google. Assim pudemos verificar essas palavras em seu contexto real de uso

sem recorrer a exemplos inventados.

Quanto ao teste de aceitabilidade com os falantes, podemos descrevê-lo

rapidamente devido à sua simplicidade de elaboração, mas objetivamente

satisfatório. Com o intuito de verificar se as formações com bases verbais não

eram mesmo mais produtivas para formar novas palavras na língua, criamos

um experimento que continha palavras criadas por nós e formadas a partir da

anexação de três afixos distintos a uma mesma base verbal: -ura, -mento e -ção.

Como exemplo, podemos citar as formações deletação, deletamento e deletadura

que são formadas pela base verbal deletar (e seu particípio deletado, no caso de

-ura).

Feito isso, foi solicitado aos falantes da Faculdade de Letras da UFRJ que

atribuíssem um grau de aceitabilidade para cada uma dessas ocorrências dentro

de uma escala apresentada. Assim, ele marcaria 1 quando considerasse que a

forma era plenamente aceitável; 2, quando a considerasse como aceitável; e 3,

quando não a reconhecesse e não achasse aceitável tal realização na língua. O

experimento está presente no anexo VII desta Dissertação para consulta dos

dados apresentados aos informantes. Foram ouvidos 22 informantes, chegando

a um total de 132 dados, das mais diferentes idades e dos dois sexos, pois

pensávamos que isso talvez pudesse interferir, mas percebemos, ao fim da

análise, que essas informações sociolinguísticas não alteravam o resultado da

amostra e nem trazia novas considerações como veremos no capítulo 5.

Page 53: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

53

3.4. Resumindo

Um bom método de análise e de constituição de um corpus é de extrema

importância para atingir os objetivos da análise linguística. Assim, pretendemos

ter apresentado de maneira clara e detalhada todos os caminhos percorridos ao

longo desta Dissertação para alcançar os objetivos da análise. Buscamos mostrar

como foi feita a constituição do corpus e qual a relevância para tal escolha, além

de apresentar os métodos de análise das ocorrências selecionadas.

No que diz respeito ao experimento linguístico, buscamos demonstrar

como foi realizado e com que objetivo foi elaborado, apontando para a sua

relevância dentro desta análise.

Page 54: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

54

TEORIA MULTISSISTÊMICA

O presente capítulo tem por objetivo apresentar o arcabouço teórico no

qual esta pesquisa se apoia, a fim de justificar a sua escolha e analisar o

formativo em questão. Isso posto, temos o objetivo de melhor compreender

como conceitos básicos como o de língua, por exemplo, são tratados e quais são

os preceitos que sustentam a Multissistêmica, além de apontar e descrever as

influências que a Linguística Cognitiva e o Funcionalismo exercem sobre essa

abordagem e sustentam esse novo enfoque.

Em resumo, essa teoria trata a língua como um conjunto de sistemas que

atuam simultaneamente e inova ao não falar mais em divisões de gramática

hierarquizadas. Segundo essa abordagem, a língua não apresenta divisões

estanques nem sistemas que dependem de algum outro para se realizar, na

medida em que todos atuam simultaneamente.

A Abordagem Multissistêmica leva em consideração um dispositivo

sociocognitivo que atua nos quatro sistemas constituintes da língua: semântica,

discurso, léxico e gramática. Observe a figura 1 abaixo:

4

Page 55: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

55

Figura 1: A relação entre o dispositivo sociocognitivo e os sistemas da língua.

Segundo essa teoria e a partir da figura apresentada acima, podemos

perceber que os sistemas são independentes entre si, ou seja, um não é

hierarquizado em detrimento de outro, e que o dispositivo sociocognitivo

(DSC) atua em todos os sistemas linguísticos afetando-os independentemente.

No entanto, vale ressaltar que, apesar dessa independência entre os sistemas, é

possível notar que interfaces podem ocorrer (e, de fato, ocorrem), na medida em

que a língua está em constante mudança e esses sistemas são ativados

simultaneamente na língua.

Também é válido salientar que faremos uso da teoria para dar uma nova

abordagem ao tema, mas recorreremos a outros modelos linguísticos, quando

necessário. No caso da análise morfológica, por exemplo, faremos uso da

proposta de Booij (2005; 2010) por acreditar que (1) esse modelo, denominado

Morfologia Construcional, possibilita melhor descrição do afixo e (2) a

abordagem pela Multissistêmica pouco enfatiza esse componente linguístico.

Cabe, com isso, dizer que não faremos da Teoria Multissistêmica uma cartilha a

ser seguida, mas um aporte teórico aberto a novas influências e abordagens,

DISCURSO

LÉXICO SEMÂNTICA DSC

GRAMÁTICA

Page 56: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

56

visto que o objetivo final é analisar com mais precisão o processo de

nominalização ora contemplado.

4.1. Postulados da teria multissistêmica funcionalista-cognitiva

A teoria Multissistêmica funcionalista-cognitiva é definível a partir de

seis postulados que tomam por base as noções e os conceitos levantados pela

Linguística Funcionalista e pela Linguística Cognitiva. Todos esses postulados

sustentam essa abordagem e apontam para uma visão inovadora de gramática,

na medida em que se começa a olhar para a língua a partir de mais de um ponto

de vista, buscando analisar os seus fenômenos por completo.

Nesta seção, optamos por separar os postulados de duas maneiras: em

um primeiro momento, apresentamos os mais gerais, na medida em que partem

de outras teorias; e em um segundo momento, apresentamos os postulados

mais específicos da nova abordagem.

4.1.1. Postulados gerais

Nesta subseção, apresentaremos os postulados da Gramática

Multissistêmica que têm por base as Linguísticas Cognitiva e Funcionalista.

Esses são chamados de postulados gerais, pois são as bases dessa nova teoria

que foram trazidas das anteriores, ou seja, não são inovações da

Multissistêmica, apenas a manutenção de ideias já elaboradas e discutidas por

outras teorias. No entanto, isso não diminui a importância ou relevância dessa

Page 57: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

57

nova abordagem, visto que os estudos linguísticos estão sempre se baseando

nos anteriores, seja concordando ou discordando.

4.1.1.1. Postulado 1: a língua se fundamenta em um aparato cognitivo

Ao longo dos anos, foram criadas inúmeras correntes linguísticas que

visavam a analisar e descrever a língua a partir de um novo ângulo e que

tomavam por base o que já se tinha seja concordando ou não com as ideias

existentes. Com a Linguística Cognitiva (doravante LC) não poderia ser

diferente. Essa nova forma de abordar a língua surgiu como renovação dos

estudos funcionalistas que se opunham ao gerativismo de Chomsky (1986) por

intermédio dos linguistas Lakoff e Johnson (2002 [1980]).

A Gramática Gerativa não levava em conta o uso da língua em seus

estudos e a considerava modular, na medida em que separava os diferentes

módulos da gramática priorizando a sintaxe em detrimento da semântica e da

pragmática, ou seja, as orações, de acordo com essa corrente teórica

(CHOMSKY, 1986), deveriam ser descritas independentemente do contexto no

qual estariam inseridas. Para a gramática gerativa, a língua é interpretada como

um conjunto de sentenças, de orações, cujo correlato psicológico é a

competência linguística – capacidade do falante de produzir, interpretar e julgar

a gramaticalidade dessas sentenças. Além disso, outra característica básica

dessa visão sobre a língua é a de que a aquisição é inata e, portanto, os inputs

são restritos e não estruturados.

Page 58: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

58

Não satisfeitos e percebendo que a língua não era apenas um conjunto de

sentenças e que o discurso e a interação social atuam no sistema linguístico,

abriu-se caminho para a Linguística de base Cognitiva, partindo do pressuposto

de que a cognição faz parte da linguagem – ou que a linguagem faz parte da

cognição – e não deve ser abandonada nos estudos linguísticos. Portanto, o

pressuposto dessa teoria é o de que a estrutura léxico-gramatical das línguas

naturais reflete a estrutura do pensamento de alguma forma e que a

representação do chamado “conhecimento de mundo” está intimamente ligada

à representação semântica, influenciando a gramática. Dessa forma, a cognição

– que ajuda a descrever um mundo em movimento a partir das relações sociais

-, a semântica e a pragmática passam a ser consideradas essenciais para um

estudo mais aprimorado da língua e conceitos que antes eram interpretados de

uma maneira pela Linguística Gerativa passam a ser entendidos de outra forma.

Como afirma Soares da Silva (2006:297),

“toda a linguagem é, afinal, acerca do significado. E o significado linguístico é flexível (adaptável às mudanças inevitáveis do mundo), perspectivista (não espelha, mas constrói o mundo), enciclopédico (intimamente associado ao conhecimento do mundo) e baseado na experiência e no uso (experiência individual e colectiva e experiência do uso actual da língua). São estes os princípios fundacionais da Linguística Cognitiva. E a polissemia é uma das evidências maiores destes princípios”.

A partir dessa passagem, podemos resumir sobre o que trata a

Linguística Cognitiva e apontar para a polissemia como uma grande evidência

dos princípios norteadores da teoria. Portanto, vale fazer uma breve referência

Page 59: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

59

sobre como seria abordada a polissemia nesse contexto e qual a sua importância

real. Segundo Soares da Silva (2006), a polissemia seria uma associação de

sentidos múltiplos que se relacionam entre si apresentando uma única forma.

Em outras palavras, seria uma palavra ou expressão com inúmeros sentidos,

uma rede de sentidos flexíveis, adaptáveis ao contexto e abertos à mudança, já

que dependem do uso. Assim, podemos perceber que um dos conceitos básicos

da Linguística Cognitiva é a polissemia, pois esta é alcançada na medida em

que o contexto e o uso passam a fazer parte do sistema linguístico, da cognição

humana e, consequentemente, a interferir na linguagem. As representações

desse conceito, por sua vez, estão na metáfora, na metonímia e também na

categorização a partir de protótipos. No entanto, antes de entrar na descrição do

que se entenderia por metáfora, metonímia e categorização, é importante fazer

um breve percurso sobre o que sustenta a Linguística Cognitiva, as formas de

organização do conhecimento de mundo, que é um dos pilares da

Multissistêmica: os conceitos de Esquemas Imagéticos (EIs), frames e Modelos

Cognitivos Idealizados (MCIs). Segundo a LC, o nosso pensamento é

organizado a partir das nossas experiências de mundo e, para tanto, são

acessados esses conceitos anteriormente citados.

Os Esquemas Imagéticos (EIs) são, segundo Soares da Silva (2006, 185)

“Padrões imaginativos, não proposicionais e dinâmicos dos nossos movimentos no espaço, da nossa manipulação dos objetos e de interacções perceptivas. eles apresentam uma estrutura interna, ligam-se entre si através de transformações e podem ser metaforicamente elaborados”.

Page 60: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

60

Dito de outra forma, os Esquemas Imagéticos são gestalts experienciais

que emergem da nossa atividade sensório-motora e através das quais

manipulamos e nos orientamos espacialmente, direcionando o nosso foco

perceptual. Assim, esses esquemas refletem a nossa relação com o mundo e com

a forma com a qual interagimos com o ambiente ao nosso redor. Como

exemplo, podemos citar o EI de percurso em que temos um ponto A

direcionando-se a um ponto B de destino e esse esquema pode ser ativado

quando queremos falar da relação de finalidade, por exemplo.

A B

Figura 2: Esquema Imagético do Percurso

Na formação vale-transporte, o esquema imagético de percurso é ativado,

na medida em que temos a relação de causa e finalidade visto que se trata de

um vale para ser usado no transporte, com a finalidade do transporte.

Segundo a LC, os frames são, por sua vez, sistemas que apresentam

conceitos tão relacionados que, para que se entenda um deles, é preciso

entender toda a estrutura na qual ele se insere (FILLMORE, 1982: 111). Quer-se

com isso dizer que o frame é um conjunto de vários conhecimentos integrados, é

uma base de conhecimento que é atualizada e evocada cotidianamente pelos

falantes e estruturado contextualmente. Como exemplo, podemos citar a

Page 61: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

61

expressão usada por Fillmore (1982:380) café da manhã. Segundo o autor, essa

expressão evoca uma cena já previamente esquematizada na mente do falante.

Independentemente da hora em que o indivíduo se alimente, ou mesmo que ele

não tenha dormido, sabe-se que esta é a primeira refeição do dia e que tipos de

alimentos são consumidos.

Já os MCIs, ou Modelos Cognitivos Idealizados, são a representação do

conhecimento de mundo do falante e muito se assemelham aos frames, já que

também são representações cognitivas estereotipadas. O conceito de MCI, que

foi desenvolvido por Lakoff (1987), diz respeito à estruturação do pensamento e

à sua utilização na formação de categorias no raciocínio humano. A contraparte

Multissistêmica dos MCIs está expressa através dos Dispositivos

Sociocognitivos (DSC) supracitados. Assim como esses Modelos, os DSCs

também são entendidos como sendo o conhecimento de mundo do usuário da

língua, ou seja, toda a bagagem sociocognitiva trazida pelo falante. A diferença

está no fato de o DSC poder ser ativado, reativado ou desativado dentro dos

sistemas da língua como veremos no capítulo 6, e o MCI estar sempre ativado

na mente do falante, estando, portanto, sempre presente.

Assim, depois desse breve percurso sobre alguns conceitos da LC,

retornemos aos conceitos de metáfora, metonímia, polissemia e categorização,

muitos importantes na Teoria Multissistêmica. Um dos pontos de oposição

entre as abordagens Gerativa e a Cognitiva está na interpretação da metáfora e

da metonímia. Enquanto, na primeira corrente, esses conceitos eram tratados

apenas no campo da figuratividade; na segunda, eles passam a fazer parte da

Page 62: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

62

linguagem cotidiana dos falantes e são interpretados como bases estruturantes

da linguagem. A Linguística Gerativa considerava a metáfora e a metonímia

como meras figuras de linguagem, assim como vinha sendo entendido até o

momento e desde a Filosofia Clássica. De acordo com essa visão, tais conceitos

seriam marginais à língua e utilizados apenas para fins literários e figurativos

(LAKOFF & JOHNSON, 2002:11). Em contrapartida, a Linguística Cognitiva

interpreta esses conceitos como princípios que estruturam a cognição e a

linguagem humanas. Segundo essa visão, o centro da linguagem estaria

justamente nessa figuratividade, já que a metáfora é vista como uma operação

cognitiva fundamental para a comunicação, na medida em que utilizamos

várias delas no dia a dia sem nem ao menos perceber.

De acordo com Lakoff e Johnson (2002), a metáfora é, antes de tudo, uma

propriedade do pensamento, um processo cognitivo através do qual somos

capazes de comparar dois domínios e interpretar, conceptualizar um por

intermédio de outro: sendo um o domínio-fonte e o outro, o domínio-alvo. Para

tanto, é necessário que o domínio-fonte seja mais básico que o domínio-alvo por

este estar diretamente associado à relação experiencial do falante / ouvinte e ser

somente a partir de conceitos que já experienciamos e já conhecemos que somos

capazes de conceptualizar novos conceitos. Os autores exemplificam essa

afirmação ao falarem de metáforas conceptuais, como AMOR É UMA VIAGEM,

ativadas pelo falante no momento da comunicação e através das quais

conseguimos entender frases e expressões do cotidiano como “Veja a que ponto

nós chegamos”, “Nossa relação não está indo a lugar algum”, dentre outras. É

Page 63: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

63

através dessa aproximação conceptual que conseguimos conceber o amor como

uma viagem e o que nos permite dizer que chegamos ou estamos indo a algum

lugar quando o foco são as relações amorosas. Assim, como mencionado

anteriormente, a metáfora, segundo a LC, não é apenas um adorno, um recurso

dispensável à linguagem humana, mas um atributo do pensamento, já que está

presente na linguagem cotidiana representada em um enorme número de

expressões metafóricas, desempenhando um papel central no sistema

conceptual humano, permitindo que os usuários da língua concebam e

exprimam ideias abstratas a partir de suas experiências no domínio concreto.

A metonímia, por sua vez, igualmente vista na tradição clássica como

uma simples figura de linguagem, uma figura retórica, também gera forte

polissemia e nos ajuda a conceptualizar uma ideia a partir de outra, assim como

a metáfora. No entanto, na metonímia não existem domínio-fonte e domínio-

alvo, já que essa nova conceptualização se dá dentro de um mesmo domínio

cognitivo. Observando a frase “Eu comprei um Degas”, está claro que estou

afirmando ter comprado alguma obra do pintor e escultor francês e não o

próprio. Assim, só conseguimos entender que se trata da obra a partir de uma

conceptualização dentro do mesmo domínio em que se tem o produtor (no

caso, Degas) e o produto (nesse exemplo, as obras de arte em geral). Na

metonímia, o que ocorre é uma focalização e um destaque dentro de um mesmo

espaço semântico.

Nesse sentido, a Teoria da Metáfora de Lakoff e Johnson (2002 [1980])

parece ter grande interferência e valor na Multissistêmica, pois a

Page 64: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

64

ressemantização, por exemplo, faz uso dela como um dos mecanismos para

atualização de significado das palavras e expressões, como veremos no capítulo

6.

Outra relevante contribuição da Linguística Cognitiva para a

Multissistêmica é a que diz respeito à Teoria dos Protótipos de Lakoff (1975

apud CASTILHO, 2010) que tem um importante papel na categorização e,

consequentemente, na polissemia. Nas abordagens ditas clássicas, as categorias

espelhavam uma realidade física e, por isso, eram dotadas de propriedades

inerentes. De acordo com essa visão, todos os membros de determinada

categoria deveriam exibir atributos criteriais idênticos, ou seja, todos deveriam

ter estatuto semelhante. No entanto, essa visão apresenta alguns problemas, na

medida em que nem todos os membros de uma categoria apresentam as

mesmas propriedades e a ausência de uma considerada de máxima

importância, não faz com que esse membro deixe de pertencer à categoria.

Podemos demonstrar essa crítica com o clássico exemplo dos seres humanos:

uma das características primordiais da categoria “homem” é ter dois braços e

duas pernas. Todavia, se temos um indivíduo com apenas uma perna, ele

deixaria de ser incluído nessa categoria? Como a resposta a essa pergunta é

negativa, vale buscar uma nova forma de categorização, sendo ela a abordada

pela LC.

Ao contrário de como eram vistas pelas abordagens clássicas, as

categorias, na teoria dos protótipos, não são entendidas como uma reprodução

da realidade e sim como uma representação. Dessa forma, não há limites

Page 65: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

65

estanques entre elas, já que suas propriedades não são inerentes, mas flexíveis,

formando, assim, um continuum dentro da mesma categoria do mais prototípico

para o menos prototípico. Ainda assim, vale definir o que entendemos por

prototípico dentro dessa teoria. Os protótipos de uma categoria são os

elementos representantes da realidade que compartilham muitos traços comuns

e representam mais completamente determinada categoria. Em contrapartida, o

elemento ao final do continuum seria o menos prototípico, ou seja, aquele que

apresenta apenas alguns traços, sendo considerado como elemento marginal

dessa categoria.

Assim, a teoria dos sistemas complexos, ou Multissistêmica, emerge

nesses preceitos da LC e postula um “continuum categorial”, na medida em que

entende que é a

“similitude, e não a identidade, que deve ser buscada no processo de postulação de categorias. Seus traços definidores não devem ser estabelecidos a partir de propriedades necessárias e suficientes, ou a partir de seu valor de verdade, e sim a partir de certas semelhanças que os falantes percebem intuitivamente” (CASTILHO, 2010:70-71)

Portanto, pudemos perceber que, segundo esse postulado, a cognição é

uma das bases para a descrição linguística e é nessa medida que a Linguística

Cognitiva atua. Esse postulado foi considerado por nós mais geral e abrangente,

visto que levanta as questões presentes na Linguística Cognitiva, sendo,

portanto, uma das bases da teoria.

Page 66: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

66

4.1.1.2. Postulado 2: a língua é uma competência comunicativa

A Teoria Multissistêmica tem por base muitas noções primárias do

funcionalismo, conforme será descrito nesta subseção. A primeira delas é a

interpretação da língua como um processo estruturante, contrapondo-se à ideia

primeira do estruturalismo que entendia a língua apenas como um conjunto de

produtos já finalizados. Segundo o funcionalismo, essa seria a visão mais

abrangente, já que a língua é dinâmica, é produção, é atividade (energia), nos

termos de Humbolt (1990:65 apud CASTILHO, 2010), e não somente um

produto.

Como afirma Neves (1997:15), “por gramática funcional entende-se, em

geral, uma teoria da organização gramatical das línguas naturais que procura

integrar-se em uma teoria global da interação social”. Assim, é, portanto, uma

teoria que compreende que as “relações entre as unidades e as funções das

unidades têm prioridade sobre seus limites e sua posição, e que entende a

gramática como acessível às pressões de uso” (NEVES, 1997:15). A autora

também afirma que a gramática funcional considera a competência

comunicativa do falante, ponto retomado pela Teoria Multissistêmica, e define

essa competência como sendo “a capacidade que os indivíduos têm não apenas

de codificar e decodificar expressões, mas também de usar e interpretar essas

expressões de uma maneira internacionalmente satisfatória” (NEVES, 1997:15),

ou seja, a competência comunicativa é a capacidade que o falante tem de se

comunicar com sucesso na língua, de se fazer entender. Nas palavras de Dik

(1997:6),

Page 67: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

67

“A capacidade linguística do falante abrange não só a capacidade de criar e interpretar expressões linguísticas, mas também a capacidade de usar essas expressões de maneira apropriada e eficaz de acordo com as convenções da interação verbal que prevalecem em uma comunidade linguística”.6

Essa competência comunicativa está diretamente ligada às noções de

tema e rema – e à sua articulação na sentença – e de atos de fala, na medida em

que o falante deve ser capaz de articular essas informações satisfatoriamente a

fim de criar o processo comunicativo. O estatuto informacional vem sendo

amplamente discutido por inúmeros autores e as noções de tema e rema

possuem várias divisões a depender do ponto de vista do autor que as define.

No entanto, apesar dessas variações, todos os autores concordam com a

definição básica de que o tema é a informação velha, dada (que possui baixa

informatividade) enquanto o rema é a informação nova (que carrega alta

informatividade) da cláusula. Essas noções são muito importantes no processo

comunicativo, pois a língua só irá “funcionar” se os interlocutores conseguirem

se comunicar: o ouvinte conseguir entender e o falante ser capaz de se fazer

compreender. Assim, segundo Chafe (1976: 27-28), o processo de comunicação

só ocorrerá com sucesso se o falante levar em consideração o que pode se passar

na cabeça do ouvinte7 e o falante tem de ajustar o que está dizendo ao que ele

6 “[natural linguistic user’s] linguistic capacity comprises not only the ability to construe and interpret linguistic expressions, but also the ability to use these expressions in appropriate and effective ways according to the conventions of verbal interaction prevailing in a linguistic community”. 7 “Language functions effectively only if the speaker takes account of such states in the mind of the person he is talking to”. (CHAFE, 1976: 27-28).

Page 68: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

68

assume que o ouvinte está pensando no momento da conversação. Por esse

motivo, é muito importante que se tenha em mente as noções de informação

dada e informação nova, visto que o falante deve estruturar a sua comunicação

a partir do que pressupõe ser novo ou velho para o seu ouvinte, ou seja, deve

acomodar sua fala ao conhecimento de mundo do seu interlocutor. Assim,

informação velha é a que o falante assume ser de conhecimento do seu ouvinte

e a informação nova é a que ele acredita estar introduzindo no conhecimento,

na consciência desse interlocutor. Já em relação aos atos de fala, podemos notar

que sua importância se dá na medida em que demonstram a intenção do

falante, ou seja, o que ele deseja passar e com que objetivo. Juntamente com

essas noções, também temos as de topicalização e focalização que são, ambas,

estratégias conversacionais que têm por objetivo destacar a informação mais

importante daquela cláusula em detrimento das outras.

Segundo o funcionalismo, a linguagem é uma atividade sociocultural

que serve de instrumento para a comunicação entre os seres humanos e faz com

que a forma linguística derive do seu uso no processo de comunicação,

devendo, portanto, ser analisada no discurso. Assim, a linguagem é um

fenômeno mental e primariamente social – devido a sua preocupação com o uso

– e uma entidade não autônoma, pois está diretamente correlacionada a fatores

comunicativos ou sociocomunicativos e cognitivos ou sociocognitivos, sendo,

dessa forma, um objeto contextualizado.

A língua, por sua vez, é considerada um sistema de unidades e

regularidades linguísticas sensíveis às situações de uso e de comunicação e à

Page 69: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

69

interação verbal. Sendo assim, a língua é a conjunção entre regras, formas e

significados, levando em consideração a interação social entre os falantes. A

língua também é entendida como um sistema adaptável, maleável e em

constante transformação por responder às pressões de uso da interação

comunicativa. Segundo Dik (1997), a língua é um instrumento de interação

social que não existe por si só em algum tipo de estrutura arbitrária, mas existe

em virtude de ser utilizada para determinados fins8. Essa interação é definida

como sendo (DIK, 1989 apud PEZATTI, 2005:168), “uma forma de atividade

cooperativa que estrutura, em torno de regras sociais, normas ou convenções”.

O autor também afirma que a principal função dessa língua natural é

estabelecer a comunicação entre os seus usuários, ou seja, mais uma vez temos a

noção funcional de que a língua existe com uma função, um objetivo a ser

alcançado – que é a comunicação efetiva.

Os principais objetivos do funcionalismo que podem ser conjugados à

Multissistêmica são os de explicar a estrutura de uma língua, seus princípios e

entidades, levando em consideração a comunicação e o discurso – ou seja,

levando em conta a competência comunicativa – e esclarecer os fenômenos

linguísticos com base em aspectos semânticos, discursivos e pragmáticos e a

partir da sua funcionalidade, na medida em que considera o discurso um dos

sistemas básicos da língua.

Outro ponto da Linguística Funcional que também é levado em

consideração na Multissistêmica é o fato de aquela considerar a mudança

8 “[an instrument of social interaction] means that it does not exist in and by itself as an arbitrary structure of some kind, but that is exists by virtue of being used for certain purposes”. (DIK, 1997:5)

Page 70: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

70

linguística como algo pancrônico, isto é, juntamente com fenômenos que

mudaram ao longo do tempo, convivem variantes que refletem um conjunto de

polissemias na língua. Dessa forma, podemos perceber que, no funcionalismo, a

dicotomia saussuriana sincronia X diacronia já estava sendo enfraquecida. No

entanto, apesar de usar essa ideia como base, a Multissistêmica vai além, pois

afirma que não somente a mudança é pancrônica, mas a língua como um todo,

como esclareceremos mais adiante, no postulado 5.

Portanto, podemos perceber que a Teoria Multissistêmica mantém

muitos dos preceitos do funcionalismo como base, assim como do cognitivismo.

Isso é possível, pois essas duas teorias partem dos mesmos pressupostos iniciais

– já que esta derivou daquela – e levantam questões interessantes acerca do

estudo da língua.

4.1.2. Postulados específicos

Mesmo tendo bases na Linguística Cognitiva e na Linguística

Funcionalista, a Teoria Multissistêmica pode ser intitulada uma nova

abordagem linguística, já que apresenta inovações no pensamento e na forma

de análise. Assim, nesta seção, buscamos descrever quais são os postulados

específicos da teoria utilizada como aporte teórico da pesquisa, abordando os

que diferenciam a Mutissistêmica das outras correntes linguísticas e a tornam

única dentre as demais.

Page 71: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

71

4.1.2.1. Postulado 3: as estruturas linguísticas não são objetos

autônomos

Esse postulado está intrinsecamente ligado ainda ao postulado anterior,

tido como geral, pois também trata da língua sob o ponto de vista funcionalista.

No entanto, optamos por separá-los já que este é um postulado mais específico

do que aquele, visto que seleciona apenas uma noção em especial apresentada

pelo funcionalismo.

Como já foi antecipado, as estruturas linguísticas não são consideradas

objetos autônomos, pois são flexíveis e adaptáveis às pressões de uso. Essas

estruturas não são entendidas como arbitrárias, mas são dinâmicas e sujeitas à

mudança, contrariando as perspectivas formalistas que não aceitavam a ideia

de a língua natural sofrer qualquer interferência externa. Resumindo, Castilho

(2010: 73) afirma que as estruturas linguísticas podem ser interpretadas a partir

de algumas propriedades, sendo elas:

(1) As estruturas são flexíveis e permeáveis às pressões de uso [como já mencionamos], combinando-se a estabilidade dos padrões morfossintáticos cristalizados com as estruturas emergentes; (2) as estruturas não são totalmente arbitrárias; (3) as estruturas são dinâmicas e sujeitas a reelaborações constantes, através do processo de gramaticalização.

Portanto, podemos perceber que esse postulado está conectado à ideia de

contexto e de análise conversacional. Queremos com isso dizer que, ao contrário

do que se tinha no polo formalista de análise da língua, a Multissistêmica

Page 72: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

72

considera que a variação, a mudança e o contexto podem interferir na estrutura

linguística e a mesma pode ser, então, alterada. Não se tem mais a ideia de que

ela é uma estrutura já pronta, pré-moldada e inalterável, pois a interação passa

a fazer parte dos estudos linguísticos.

4.1.2.2. Postulado 4: as estruturas linguísticas são multissistêmicas.

Segundo esse postulado, a língua, que é tanto produto quanto processo

conforme demonstraremos mais adiante, é entendida como um sistema

dinâmico e ao mesmo tempo complexo, pois todos os sistemas linguísticos

atuam mutuamente, não havendo, portanto, hierarquia entre eles. Dessa forma,

perde-se a ideia levantada pelas demais teorias de que haveria supremacia de

um sistema ou módulo linguístico em detrimento de outro, como no caso da

Gramática Gerativa que defendia a ideia de uma sintaxe absoluta e acima dos

demais sistemas e a Cognitiva que privilegia a semântica, por exemplo. Nesse

sentido, essa nova abordagem parte de duas premissas que vão nortear e

defender a ideia de a língua ser um processo e um conjunto de produtos ao

mesmo tempo. A primeira delas é a seguinte (CASTILHO, 2010: 77):

(1) Do ângulo dos processos, as línguas serão definíveis como um conjunto de

atividades mentais, pré-verbais, organizados num multissistema operacional.

Segundo essa premissa, a língua é dinâmica, organizada a partir de

alguns processos e entendida a partir de operações simultâneas, dinâmicas e

Page 73: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

73

multilineares (por não ser uma entidade unilateral). De acordo com a Teoria

Multissistêmica, as línguas não se organizam sequencialmente, quebrando o

paradigma que se vinha observando, já que todos os sistemas têm o mesmo

grau de importância e atuam ao mesmo tempo na língua. Além disso, a língua

passa a não ser mais vista como uma entidade estática, pronta e pré-moldada,

pois tem a sua dinamicidade. Segundo essa nova teoria, as línguas podem ser

entendidas como processos, devido, principalmente, a esse caráter mais

dinâmico e não estático que apresenta.

A segunda premissa diz respeito à ideia de língua como produto.

Observe abaixo (CASTILHO, 2010: 77):

(2) Do ângulo dos produtos, as línguas serão apresentadas como um conjunto

de categorias igualmente organizadas num multissistema.

A língua enquanto produto é conceptualizada como um conjunto de

categorias agrupadas em quatro diferentes sistemas: o léxico, o discurso, a

semântica e a gramática. De acordo com essa visão, esses sistemas seriam

considerados autônomos e independentes uns dos outros, em uma abordagem

na qual não haveria derivação, hierarquia ou qualquer relação de determinação

entre eles. Assim, não se postula a ideia de haver um sistema geral e central,

visto que todos eles têm a mesma importância e o mesmo status na língua, como

explicitado anteriormente. Portanto, qualquer expressão linguística apresenta,

ao mesmo tempo, características dos quatro sistemas, como pretendemos

mostrar na análise de dados desta Dissertação.

Page 74: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

74

Sendo assim, podemos perceber que o postulado 4 é específico da

Multissistêmica, pois inova ao entender a língua tanto como produto quanto

como processo, diferentemente das teorias anteriores que afirmavam ser ela um

ou outro.

4.1.2.3. Postulado 5: a língua é pancrônica – explicação linguística

Como já pudemos adiantar no postulado 2 acima, a língua, segundo o

funcionalismo, pode sofrer pressões tanto da diacronia quanto da sincronia,

acabando, portanto, com essa dicotomia criada por Saussure. Assim, tomando

por base os antecedentes funcionalistas, esse postulado da Teoria

Multissistêmica aborda o estudo linguístico como pancrônico, ou seja, leva em

conta a diacronia para explicar a sincronia, a convivência entre várias sincronias

na língua, discordando da dicotomia saussuriana.

Segundo essa visão, os estudos sincrônico e diacrônico não devem ser

feitos em separado, pois “pensar o presente é pensar o passado no presente”

(CASTILHO, 2010:77), na medida em que (a) existe a convivência entre as

gramáticas e (b) ambos os estudos são válidos e necessários para um melhor

entendimento sobre o funcionamento da língua. Dessa forma, na presente

análise acerca da nominalização em português por intermédio de –ura,

recorreremos à história para explicar a atual sincronia desse sufixo

nominalizador.

Page 75: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

75

4.1.2.4. Postulado 6: um dispositivo sociocognitivo ordena os sistemas

linguísticos.

Como pudemos perceber ao longo deste capítulo, existe, na Teoria

Multissistêmica, um elemento primordial na língua que atua em todos os

sistemas: o chamado Dispositivo Sociocognitivo (DSC). Esse dispositivo é o

responsável por articular os processos e os produtos linguísticos captados pelos

quatro sistemas (léxico, gramática, discurso e semântica) sendo explicitado

através de três diferentes princípios: o de ativação, o de desativação e o de

reativação de propriedades.

Esse dispositivo é chamado de cognitivo, pois tem por base as categorias e

subcategorias cognitivas de pessoa, espaço, tempo, objeto, movimento e evento, por

exemplo, ou seja, parte da conceptualização cognitiva dessas categorias. Além

disso, também é social na medida em que é baseado na análise das situações

conversacionais, nas mudanças de turno, ou seja, fazem parte das relações

sociais dos interlocutores.

Portanto, esses dispositivos socicognitivos

“Gerenciam os sistemas linguísticos, garantindo sua integração para os propósitos dos usos linguísticos, para a eficácia dos atos de fala. De acordo com esse dispositivo, o falante ativa, reativa e desativa propriedades lexicais, semânticas, discursivas e gramaticais no momento da criação de seus enunciados, constituindo as expressões que pretende ‘pôr no ar’” (CASTILHO, 2010:79)

Page 76: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

76

Como podemos perceber, esses dispositivos são o cerne da teoria e, nesta

Dissertação, pretendemos mostrar como eles atuam nos diferentes sistemas

linguísticos e apresentar os princípios de ativação, reativação e desativação das

propriedades em todos eles. É importante notar que, assim como os sistemas

não são hierárquicos, esses princípios também não o são atuando

simultaneamente, pois em um mesmo momento em que se está ativando um

significado, também se está desativando outro e reativando um novo – no caso

do sistema semântico, por exemplo.

4.2. Resumindo

Ao longo deste capítulo, buscamos descrever uma nova forma de análise,

abordagem e descrição da língua: a Teoria Multissistêmica. Pudemos perceber

que ela tem por base os conhecimentos já alcançados pelo funcionalismo e pelo

cognitivismo, sendo, portanto, um desdobramento dessas duas correntes

linguísticas. Em resumo, a Multissistêmica interpreta a língua como maleável e

considera a importância do discurso e do conhecimento de mundo na estrutura

da língua. Segundo essa nova abordagem, a cognição é de extrema importância

para que o processo comunicativo seja efetuado e a língua seja claramente

compreendida.

Além disso, também pudemos constatar que essa teoria não trabalha com

as mesmas noções apresentadas pelas gramáticas e defende a existência de

quatro sistemas linguísticos que se conectam independentemente uns dos

outros e não apresentam qualquer hierarquia. Essa é a grande inovação da

Page 77: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

77

teoria, na medida em que surge para quebrar com os paradigmas presentes nas

anteriores de que há sempre um módulo da gramática que se sobreponha aos

demais. Segundo a Multissistêmica, os módulos do discurso, da semântica, da

gramática e do léxico atuam ao mesmo tempo na língua e são igualmente

importantes para o funcionamento linguístico.

Outro ponto relevante a ser relembrado é a existência de um Dispositivo

Sociocognitivo (DSC). De acordo com Castilho (2010), seria esse dispositivo que

regeria a língua e os quatro sistemas atuantes nela. Dito de outra maneira, esses

dispositivos seriam responsáveis por ativar, desativar ou reativar cada um

desses sistemas nas estruturas linguísticas e abarcariam tanto o conhecimento

de mundo dos falantes quanto as necessidades discursivas. Portanto, em um

mesmo momento, o DSC poderia ativar uma propriedade do módulo

semântico, desativar alguma do módulo discursivo e reativar outra do sistema

lexical.

Assim, buscamos mostrar, neste capítulo, quais os fundamentos da teoria

utilizada como base nesta Dissertação e quais as inovações que a mesma traz

em função das já existentes.

Page 78: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

78

FUNÇÕES DA NOMINALIZAÇÃO

A ideia central de que a nominalização é um processo pelo qual verbos

tornam-se nomes e estes indicam a ação ou o estado da ação não é plenamente

aplicável ao sufixo –ura e isso se deve à ampla concorrência sincrônica existente

com outros afixos nominalizadores e à especialização semântica de cada um

deles na língua portuguesa contemporânea. Cabe ressaltar que, como

pretendemos deixar claro neste capítulo, essa concorrência se deve ao fato de

haver diversos afixos nominalizadores na língua, podendo essa relação ser

direta ou indireta.

Como notaram Valente & Castro da Silva (2011), -ura apresenta quatro

diferentes funções: (a) a nominalização de verbos – interpretação verbal

(abertura, soltura, varredura), (b) a referenciação – interpretação nominal

(abotoadura, fechadura, cobertura), (c) a abstratização de adjetivos (bravura, ternura,

altura) e, por fim, (d) a intensificação (feiura, loucura, lonjura). Vale salientar, no

entanto, que a comparação com outros afixos, a ser feita neste capítulo,

considera apenas a atual sincronia da língua9. Além disso, também é importante

lembrar que a comparação com os demais afixos será efetuada de maneira não

tão aprofundada, na medida em que este estudo é apenas sobre o afixo –ura.

9 Retomando a Gramática Multissistêmica apresentada no capítulo anterior, deve-se fazer uma perspectiva pancrônica da língua. Por isso mesmo, os resultados comparativos devem ser relativizados.

5

Page 79: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

79

Portanto, vamos nos ater somente a alguns dados, a fim de demonstrar que as

formações coexistem, mas desempenham, cada uma delas, uma diferente

função na língua. Outro ponto relevante a ser salientado no presente capítulo é

o fato de que essas funções foram determinadas a partir do significado

prototípico das palavras selecionadas como exemplos e que, para tal seleção, foi

criado um pequeno corpus dos demais afixos apontados, que pode ser conferido

no anexo VIII desta Dissertação.

5.1. Os caminhos de –ura

Com o objetivo de percorrer a história do afixo –ura e identificar e

delimitar as funções supracitadas, realizamos uma coleta de dados para compor

um corpus inicial com base em dicionários eletrônicos (Houaiss e Aurélio), que

continha 171 formas terminadas em -ura. No entanto, a estranheza que algumas

palavras geraram fez com que nos questionássemos se as realizações por meio

desse formativo seriam mesmo produtivas no português brasileiro. Embora em

alguns casos o padrão morfológico seja opaco, é fácil perceber que há ótimas

condições de isolabilidade em palavras como podrura e zebrura. Porém, essas

não são palavras facilmente reconhecidas e utilizadas em nenhum contexto

pelos falantes. Para corroborar essa nossa ideia inicial, fizemos entrevistas

informais com falantes de português a fim de verificar se formas como essas são

reconhecidas e os resultados foram compatíveis com nossa intuição de que

algumas formas em -ura já não são compreendidas pelo falante comum

(VALENTE & CASTRO DA SILVA, 2011). A entrevista consistia em apresentar

Page 80: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

80

informalmente essas palavras e pedir para os informantes identificarem seu

significado. O mesmo aconteceu com os vocábulos peladura e soldadura, por

exemplo, que não eram identificados pelos usuários da língua e os mesmos não

conseguiam explicar ou contextualizar essas palavras como explicitado no

capítulo 3. Outro indício que encaminhou nossa hipótese, que será descrita a

seguir, foi a consulta de todas as palavras desse corpus inicial na ferramenta de

busca do sítio Google. Enquanto palavras como candidatura resultaram em

37.400.000 ocorrências, podrura retornou 1120 resultados e zebrura, apenas 116, o

que corrobora a baixa ocorrência e acessibilidade do falante.

Assim, nesta Dissertação, estabelecemos um filtro na amostra de dados,

que impõe um número mínimo de 50.000 ocorrências na ferramenta da Internet,

para que possamos dar conta de dados recorrentes em português. Isso se fez

necessário na medida em que buscamos lidar com dados de uso da língua e, se

considerássemos vocábulos como podrura, não atingiríamos nosso objetivo de

analisar e descrever a nominalização por meio do afixo -ura em português nos

dias de hoje. Depois de feita essa varredura nos dados, excluindo do corpus

aquelas que eram opacas ou que possuíam baixa ocorrência na língua, restaram

98 palavras que constituem o corpus deste trabalho.

Conforme ressaltado, identificamos quatro funções nominalizadoras

exercidas pelo afixo em análise e, a partir do significado prototípico das

palavras, pudemos agrupá-las e tecer as considerações feitas a seguir. A partir

da análise dos grupos de palavras de cada função, pudemos perceber que o

grupo nominalização apresenta baixa quantidade de dados (apenas 10

Page 81: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

81

vocábulos) em comparação ao número expressivo do grupo referenciação (45

dados). No gráfico abaixo, encontram-se os valores percentuais da distribuição

de substantivos em –ura nas quatro funções nominalizadoras:

Gráfico 1: distribuição dos dados entre as funções da nominalização.

Observando os dados do gráfico 1, poderíamos levantar a hipótese de

que o primeiro grupo já não forma novos itens lexicais em português, na

medida em que é o que possui menos ocorrências no corpus. No entanto, esse

argumento não se sustenta sozinho, mas pode ser reforçado quando verificamos

que todas as palavras pertencentes a esse grupo são, em sua maioria, anteriores

ao século XV, havendo apenas um caso posterior a esta data, benzedura, datado

do século XVIII, como podemos observar na tabela abaixo:

Page 82: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

82

PALAVRA NATUREZA DA BASE DATAÇÃO

Benzedura Particípio XVIII

Censura Do latim XV

Embocadura Particípio XVII

Envoltura Particípio XIV

Investidura Particípio XV

Ligadura Do latim XIII

Rapadura Particípio XIV

Semeadura Particípio XV

Soltura Particípio XIII

Varredura Particípio XV

Tabela 2: Palavras do grupo referente à função de nominalização com a datação e a base.

Outro fator que poderia indiciar nossa hipótese é a categoria das bases,

invariavelmente particípios, como também podemos ver na tabela acima, nos

casos de soltura de solto e envoltura de envolto, por exemplo. Trazendo à baila

mais uma vez o que disse Maurer Jr. (1959), no latim, o sufixo -ura se anexava a

bases participiais, sendo uma inovação do latim vulgar a formação com bases

adjetivas. As palavras com bases participiais seriam, pois, um resquício do latim

clássico, ao passo que, no português, as novas formações viriam de adjetivos,

como veremos mais adiante. O fato de a base ser participial ou ter se originado

diretamente no latim não torna nenhuma dessas informações excludentes, mas

apenas corrobora a hipótese de que, no início, as palavras que se formaram a

partir desse afixo tomaram por base os padrões latinos de fazê-lo dessa forma.

Assim, apenas colocamos esses dados na tabela a fim de comprovar que esse

Page 83: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

83

resquício se manteve, mas atentos para o fato de origem e categoria gramatical

da base serem características distintas.

Cabe, então, buscar evidências que nos possibilitem responder às

seguintes perguntas:

(i) Há novas formações de -ura na língua?

(ii) A categoria lexical das bases teria alguma relação com a improdutividade/

produtividade dos padrões?

(iii) Se afirmativo, quais categorias seriam favorecedoras da formação de novas

formas e quais não seriam?

Primeiramente, consultamos alguns dicionários etimológicos (CUNHA,

1999; NASCENTES, 1955; SILVEIRA BUENO, 1967; e MACHADO, 1973) para

verificar a data de entrada dos substantivos na língua portuguesa. Além disso,

também fomos buscar as ocorrências das palavras do corpus em textos antigos

do português consultados no sítio eletrônico “Corpus do Português”10. Os

resultados mais gerais são apresentados no gráfico 2, sendo que não foram

encontradas datações para apenas um vocábulo (chatura), quando mesclamos as

duas informações: as fornecidas pelos dicionários e as aparições em textos

antigos pela primeira vez.

10 www.corpusdoportugues.org

Page 84: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

84

Gráfico 2: Distribuição dos dados entre os séculos

Os resultados obtidos nos permitem responder positivamente à pergunta

em (i), que se refere à formação de novos itens, já que o registro primário dos

vocábulos compreende o período do século XII ao XX. Por outro lado,

formações recentes na língua, como gostosura e fofura, são exemplos de que -ura

ainda é produtivo em português, restando saber em que casos atuam os

mecanismos geradores de novas palavras. Para tanto, consultamos a

distribuição da categoria gramatical das bases que são adicionadas ao sufixo de

acordo com a cronologia da língua. Num total, 32,99% derivam de adjetivos (33

ocorrências – verdura e ternura), 27,84% de particípios (27 ocorrências – atadura

e semeadura), 1,03% de advérbios (apenas uma ocorrência – lonjura), 2,06% de

substantivos (dois casos – belezura e nervura), 28,87% das palavras entraram no

português via latim (28 dados – cintura e cultura) e 7,22% das formas vieram

como empréstimo de outras línguas (7 dados – brochura e legislatura). Os casos

Page 85: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

85

de empréstimos, que têm origem no francês, inglês e italiano, foram separados

do conjunto de palavras que vieram do latim, porque aqueles são bastante

escassos (representam somente 7 dados). Os resultados da distribuição

categorial das bases encontram-se no gráfico 3.

Gráfico 3: distribuição categorial das bases ao longo dos séculos

Podemos visualizar que do século XIII ao XIX o sufixo -ura era

adicionado, principalmente, a adjetivos e particípios passados. Outra fonte

bastante recorrente é a entrada de palavras com origem no latim. A formação

com particípios já não aparece no século XX, dando lugar ao adjetivo e ao

substantivo, com 60% e 20%, respectivamente, apesar de ser contabilizado

também o caso de laqueadura que parece ter surgido na língua no século XIX,

visto que os dicionários registraram o verbo laquear no século XVIII.

Os resultados exibidos no gráfico 3, de certa maneira, servem para

confirmar o que viemos argumentando: a cristalização de -ura anexado a bases

de particípio e a produtividade junto a bases adjetivas. Além disso, evidencia,

Page 86: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

86

também, a forte contribuição de palavras latinas que integram o léxico do

português, já que aparece com índices expressivos nesse gráfico. As palavras

que entram no português como empréstimos de outras línguas parecem seguir

a entrada registrada nos dicionários etimológicos, uma vez que no gráfico 3 a

primeira entrada é no século XVI.

A respeito da datação, encontramos algumas divergências entre a data

registrada no dicionário para determinados vocábulos e o período em que o

mesmo vocábulo aparece primeiramente em um texto e, portanto, selecionamos

sempre a data mais antiga. No texto “Prosodia”, de Bento Pereira, datado de

1697 e disponível no Corpus do Português, notamos a palavra dentadura, por

exemplo, que só é registrada nos dicionários como do século XIX (1836).

5.1.1. Teste de aceitabilidade

Baseados na hipótese de que não são formados mais vocábulos com

bases participiais, elaboramos um teste de aceitabilidade (CASTRO DA SILVA

et alii, 2009) a fim de verificar se os falantes reconhecem formas com particípio.

Segundo alguns autores, como Maurer Jr. (1959), o sufixo -ura concorre com -ção

e -mento na nominalização, como no caso abreviação, abreviamento e abreviatura.

No teste, apresentamos palavras inexistentes em português, mas possíveis,

como cortação, cortamento e cortadura, ou twitação, twitamento e twitadura. Foi

pedido aos informantes, alunos da Faculdade de Letras da UFRJ, que julgassem

a aceitabilidade das formas em uma escala de 1 a 3 (do menos aceitável ao mais

aceitável).

Page 87: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

87

Conforme Lemos de Souza (2010) afirma e veremos mais adiante, -ção e

-mento são afixos bastante produtivos e nossa intuição era que os falantes

dariam preferência às formas com esses sufixos e, em contraste, as palavras com

-ura deveriam ter menor anuência, já que haveria se cristalizado nesse tipo de

formação.

Apresentamos os resultados no quadro abaixo:

Plenamente aceitável Aceitável Não-aceitável Total

-ção 53/ 132 = 40% 58/ 132 = 44% 21/ 132 = 16% 132/ 132 = 100%

-mento 67/ 132 = 51% 52/ 132 = 39% 13/ 132 = 10% 132/ 132 = 100%

-ura 13/ 132 = 10% 21/ 132 = 16% 98/ 132 = 74% 132/ 132 = 100%

Quadro 1: resultados dos testes de aceitabilidade

De fato, os índices apresentados no quadro 1 confirmam nossa hipótese

inicial, posto que foram consideradas como plenamente aceitáveis as formas

com -ção e –mento, o que não aconteceu em grande parte com -ura. Somados os

dados de plenamente aceitável com os de aceitável, –ção teve 84% de aceitação e

–mento, 90%. Ao contrário, as palavras com -ura tiveram uma rejeição

expressiva: apenas 26% dos dados foram aceitos. Se formos levar em conta os

números do nível plenamente aceitável, aumenta-se a discrepância, já que

obteve apenas 10%.

Page 88: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

88

5.2. Nominalização de verbos e referenciação de entidades

Nesta seção, unimos as funções de nominalização de verbo e

referenciação de entidades, na medida em que ambas são funções precípuas da

nominalização e que grande parte das palavras desses grupos possui ambos os

significados, apesar de um poder sobressair ao outro. Observe o exemplo

abaixo:

(1) Ela está com uma atadura abaixo do joelho11.

Embora, no dicionário, encontremos a definição de atadura como sendo,

primeiramente, “o ato ou o efeito de atar”, o significado que está presente na

língua hoje é o mais nominal, o que diz respeito à “tira de linho para

bandagens”, como podemos notar no exemplo (1) acima. Por esse motivo,

resolvemos, então, unir a descrição dessas duas funções do afixo quando

comparado a outros.

No que diz respeito a essas duas funções aqui reunidas em apenas uma,

–ura concorre na língua com os afixos –mento, –ção e –agem, entre outros,

possuindo, no entanto, cada um deles uma acepção distinta. Observe os

exemplos, apresentados abaixo, retirados de sites da internet no método de

busca do Google:

11 http://www.portaluhtv.com/2012/02/giro-de-noticias-com-atadura-na-perna.html . Acessado em 06/Ago/2012

Page 89: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

89

(2) Alimentação sem sabor e restrita é o oposto do emagrecimento

saudável12.

(3) Neblina causa novo fechamento do aeroporto de Porto Alegre13.

(4) A Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) referendou

por unanimidade nesta quarta-feira o afastamento cautelar dos

desembargadores14.

(5) A animação digital é a arte de criar imagens em movimento

utilizando computadores15.

(6) Oração é um ato religioso que visa ativar uma ligação, uma

conversa, um pedido, um agradecimento16.

(7) “Eu nunca fiz algo que valesse a pena por acidente, nem nenhuma

das minhas invenções aconteceram por acidente; elas vieram pelo trabalho."

17(Thomas Edison).

(8) Uma barragem, açude ou represa, é uma barreira artificial, feita em

cursos de água para a retenção de grandes quantidades de água.18

(9) Um sistema de drenagem de águas pluviais é composto de uma

série de unidades e dispositivos hidráulicos para os quais existe uma

terminologia própria19.

12http://balbacch09.blogspot.com.br/2011/04/emagrecer-10-dicas-para-o-emagrecimento.html - Acessado em 06/Ago/2012 13http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2012/04/neblina-causa-novo-fechamento-do-aeroporto-de-porto-alegre.html - Acessado em 06/Ago/2012 14http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI5727034-EI306,00-Corte+do+STJ+confirma+afastamento+de+desembargadores+do+RN.html – Acessado em 06/Ago/2012 15http://truped.com.br/animacao/animacao-digital-uma-revolucao-de-imagem-e-movimento/ - Acessado em 06/Ago/2012 16 https://sites.google.com/site/opoderdareza/ - Acessado em 06/Ago/2012 17 http://www.quemdisse.com.br/frase.asp?frase=8107 – Acessado em 06/Ago/2012 18 http://pt.wikipedia.org/wiki/Barragem - Acessado em 06/Ago/2012

Page 90: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

90

(10) Aprendizagem é o processo pelo qual as competências, habilidades,

conhecimentos, comportamento ou valores são adquiridos ou modificados20.

(11) Os ciganos têm a ferradura como um poderoso talismã, que atrai a

boa sorte, a fortuna.21

(12) Pessoas com queimaduras profundas podem correr sério risco de

vida22.

(13) Se você perdeu um ou mais dentes, o uso de dentaduras pode

ajudar você a ter um sorriso mais bonito e fazer com sinta-se melhor23.

Em todos os exemplos, temos ocorrências de vocábulos formados pelos

quatro afixos citados e contextualizados, o que auxilia no entendimento do

significado veiculado. No caso de emagrecimento (2), fechamento (3) e afastamento

(4), percebemos vocábulos que possuem caráter mais verbal, ou seja, que ainda

mantêm forte relação com o verbo que serviu de base. Assim, enquanto o

primeiro pode ser entendido como o “ato de emagrecer”, o segundo seria “o ato

de fechar” (no caso da sentença, os aeroportos) e o terceiro, “o ato de afastar”.

Dessa forma, vale notar que as palavras formadas a partir desse afixo possuem

um caráter mais dinâmico e mais ligado ao verbo, como bem observou Lemos

de Souza (2010).

Já no que diz respeito a –ção, o que podemos perceber é justamente o

contrário, já que temos, em animação (5), oração (6) e invenção (7), vocábulos de 19 http://www.dec.ufcg.edu.br/saneamento/Dren01.html - Acessado em 06/Ago/2012 20 http://pt.wikipedia.org/wiki/Aprendizagem - Acessado em 06/Ago/2012 21 http://forgetthefear.blogspot.com.br/2010/07/ferradura.html - Acessado em 06/Ago/2012 22 http://saude.terra.com.br/interna/0,,OI123328-EI1513,00.html – Acessado em 06/Ago/2012 23 http://www.maozinha.com.br/search/?hl=pt-BR&q=dentaduras – Acessado em 06/Ago/2012

Page 91: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

91

caráter mais nominal e, por isso mesmo, menos relacionados ao verbo-base.

Animação não é, necessariamente, parafraseado como “o ato de animar”, nem

oração como o ato de orar e muito menos invenção como “o ato de inventar”.

Todas são palavras que nomeiam coisas no mundo. Enquanto a primeira faz

referência a uma arte no mundo contemporâneo – significado veiculado na

sentença (6) –, a segunda diz respeito a uma forma de expressão do homem com

Deus, por exemplo. Dessa forma, esse afixo difere do anterior no modo de

processamento, sendo este estático, enquanto aquele é dinâmico (LEMOS DE

SOUZA, 2010).

Em contrapartida, o caso do sufixo –agem poderia ser considerado como

intermediário entre os dois afixos anteriormente detalhados, já que indica um

processo ou designa uma coisa no mundo, possuindo, assim, tanto caráter

verbal quanto nominal. Como exemplo, podemos observar as palavras grifadas

em (8) barragem, (9) drenagem e (10) aprendizagem. Segundo Langacker (1987), as

categorias nome e verbo fazem referência a dois diferentes modos de

processamento: o escaneamento estático e o escaneamento dinâmico,

respectivamente. Dessa forma, a nominalização pode apresentar esses dois tipos

de processamento, visto que aproxima as características das duas categorias. O

escaneamento estático seria aquele que faz referência a um evento cujos

aspectos são todos coexistentes e simultaneamente disponíveis, ou seja, o modo

de processamento é simultâneo. Já o escaneamento dinâmico é definido como

representando uma transformação, ou seja, uma mudança de um estado, de um

evento para outro. Assim, retomando os exemplos anteriores, podemos

Page 92: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

92

perceber que, no primeiro caso, temos um vocábulo representante do

escaneamento estático, na medida em que nomeia algo, nomeia um evento. Já o

segundo caso pode ser entendido como sendo intermediário, visto que drenagem

pode ser processado tanto dinâmica quanto estaticamente, ou seja, pode ser

tanto um produto, quanto um processo; no último exemplo, temos um caso de

escaneamento dinâmico, já que representa um processo. Vale ressaltar que essas

considerações foram feitas a partir da análise de um pequeno corpus e levando

em consideração os dados encontrados.

Por fim, o afixo –ura é, dentre todos os abordados anteriormente, o que

possui caráter mais nominal, como podemos perceber nos vocábulos grifados

em (11), (12) e (13), que indicam coisas no mundo: ferradura, queimadura e

dentadura. Assim, podemos perceber que –ura, quando adjungido a bases

verbais, distancia-se mais do verbo do qual se originou e passa a nomear

somente coisas, entidades, perdendo, dessa forma, a ideia de “ato ou efeito de

X”, em que X é a base, como adiantamos no exemplo (1).

Portanto, em uma escala estabelecida para este trabalho e com base nessa

análise, –ura é o mais nominal de todos, o que pode ser explicado a partir da

necessidade que este sofreu de se especializar, já que estava em concorrência

com os demais sufixos nominalizadores, adquirindo, dessa forma, caráter mais

designativo e menos verbal. Isso posto, podemos perceber que os afixos

nominalizam em diferentes níveis de processamento, mantendo uns o valor

mais verbal característico desse processo, enquanto outros o perdem. Portanto,

em uma escala, como a formalizada em (14) a seguir, –mento seria o mais verbal,

Page 93: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

93

seguido por –agem, que mantém as duas formas de processamento, -ção, que é

mais nominal em relação ao outros, e, por fim, viria –ura que, dentre todos, é o

que possui maior caráter designativo.

(14) 24mais verbal ------------>--------------->--------------->---------------> mais

nominal

|---------------------------|---------------------------|---------------------------|

-mento -agem -ção -ura

5.3. Abstratização de adjetivos

Outra função de –ura é abstratização de adjetivos, ou seja, a

transformação de adjetivos em substantivos abstratos. Nessa função, o afixo em

questão também concorre com outros, como podemos ver nos exemplos abaixo,

também retirados do site de busca eletrônica Google:

(15) Pessoas que não estão incomodando as outras com sua chatice aí

acabam ficando solitárias no final.25

(16) O primeiro engano atribui-se ou ao acaso, ou à imprudência;

repetido, atribui-se à burrice ou à ignorância.26

24

Essa escala só é verdadeira quando não levamos em consideração o –ção com caráter mais verbal (falação) como veremos mais adiante. 25 http://www.grandesmensagens.com.br/frases-de-chato.html. Acessado em 07 / Ago / 2012 26 http://blogdoivandro.blogspot.com.br/2009/06/frases-sobre-burrice.html - Acessado em 07/Ago/2012

Page 94: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

94

(17) Minha loucura se chama felicidade, minha idiotice se chama

liberdade27.

(18) Magreza exagerada de modelos não agrada à maioria das pessoas28.

(19) A avareza é madrasta de si mesma29.

(20) Sua riqueza encontra-se onde estão seus amigos30.

(21) Qual a grossura de um fio de cabelo?31

(22) “Não me culpe por não sentir amargura... / Isso não faz de mim

menos intenso.”32

(23) “A bravura provém do sangue, a coragem provém do

pensamento”. (Napoleão Bonaparte)33

Conforme podemos observar, as palavras destacadas em (15), (16) e (17),

respectivamente chatice, burrice e idiotice, atribuem propriedades eventuais,

momentâneas, ou seja, o afixo –ice se une a bases adjetivais para formar nomes

que indicam uma propriedade passageira do elemento ao qual se refere. Dessa

forma, burrice ou idiotice, por exemplo, não são estados que perduram, e sim que

permanecem por algum tempo apenas. Observe o exemplo abaixo para

confirmar essa hipótese:

27 http://tudosmulher.blogspot.com.br/2012/06/minha-loucura-se-chama-felicidade-minha.html - Acessado em 07/Ago/2012 28 http://entretenimento.r7.com/moda-e-beleza/noticias/magreza-exagerada-de-modelos-nao-agrada-maioria-das-pessoas-20120418.html - Acessado em 07/Ago/2012 29 http://www.quemdisse.com.br/frase.asp?frase=87817 – Acessado em 07/Ago/2012 30 http://www.webfrases.com/ver_frase.php?id_frase=9272654e – Acessado em 07/Ago/2012 31 http://cocatech.com.br/qual-a-grossura-de-um-fio-de-cabelo - Acessado em 07/Ago/2012 32 http://fafapereira.blogspot.com.br/2009/12/nao-me-culpe-por-nao-sentir-amargura.html - Acessado em 07/Ago/2012 33 http://pensador.uol.com.br/frase/MTIxNzU/ - Acessado em 07/08/2012

Page 95: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

95

(24) A velhice sempre tem acompanhado a humanidade como uma

etapa inevitável de decadência, declinação e antecessora da morte34.

A palavra velhice, destacada na sentença acima, indica um estado

passageiro na vida de uma pessoa, cuja duração vai depender de cada um.

Portanto, dure a velhice 2 anos ou 20, ainda assim será um estágio

momentâneo, assim como a juventude.

O segundo afixo que também tem por função abstratizar um substantivo

é o demonstrado nos exemplos (18), (19) e (20), respectivamente magreza, avareza

e riqueza. Podemos notar que esse afixo se une a bases adjetivas com a função de

abstratizar uma qualidade do ser que pode ou não ser duradoura. Geralmente,

um indivíduo tem por característica própria ser avarento ou não e o mesmo

acontece com a magreza. No entanto, nada o impede de se alterar esse estado ao

longo do tempo. Em contrapartida, quando observamos casos como riqueza,

pobreza e beleza, podemos perceber mais claramente a possibilidade de mudança

de estado, pois um mesmo indivíduo pode passar da pobreza à riqueza em

questão de segundos ou nunca sair de uma dessas zonas. Vale ressaltar que

estamos apenas tratando dos vocábulos com seus significados prototípicos,

pois, na medida em que o significado começa a ficar mais abstrato, essa

designação pode deixar de ser tão momentânea, como no caso do exemplo

abaixo:

34 http://www.ufrgs.br/e-psico/subjetivacao/tempo/velhice-texto.html - Acessado em 07/Ago /2012

Page 96: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

96

(25) Curti e descurti a beleza da obra de Deus na natureza.35

Como podemos perceber no exemplo acima, o significado de beleza

torna-se mais abstrato e deixa de designar uma propriedade momentânea para

designar uma propriedade inerente, já que é um bem reconhecido há séculos

pela sua beleza. No entanto, não serão esses os casos dos quais trataremos

nesta seção, visto que estamos lidando apenas com dados prototípicos desses

afixos.

Por outro lado, o afixo –ura não se une a bases adjetivais com a finalidade

de atribuir propriedades eventuais, considerando o sentido prototípico. Como

podemos notar nas palavras destacadas em (21), (22) e (23), respectivamente

grossura, amargura e bravura, o afixo tem por função designar propriedades

inerentes, quando anexado a bases adjetivas. Tanto amargura quanto bravura são

propriedades imutáveis, duradouras e não mais eventuais, no seu sentido

prototípico, podendo mudar de acordo com o espraiamento semântico. De

todas as formas listadas em (26), a seguir, apenas tontura não nomeia uma

propriedade inerente, mas também não pode ser vista como eventual devido ao

seu caráter mais estático.

(26) altura, amargura, doçura, ternura, estatura, grossura, finura, tontura.

35http://pt-br.facebook.com/pages/curti-e-discuti-a-beleza-da-obra-de-Deus-na-natureza/103821559706089?sk=info. Acessado em 07 / Ago / 2012

Page 97: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

97

Assim, também nessa função podemos perceber uma escala – de acordo

com os significados prototípicos –, como a formalizada em (27), que teria como

diferenciador o caráter mais ou menos inerente ou eventual. No polo

[+ inerente / - eventual], teríamos –ura, seguido por –eza e, por fim, -ice, que

seria o afixo que tem por função designar estados mais eventuais.

(27) [+ inerente/- eventual] --------------->---------------> [- inerente/+ eventual]

|-----------------------------|-------------------------------|

-ura -eza -ice

5.4. Função Intensificadora

Na Língua Portuguesa, existem inúmeros afixos intensificadores que

selecionam as mais diversas categorias gramaticais como base e exercem

diferentes funções na língua. Portanto, não estamos fazendo a comparação

apenas com afixos nominalizadores, mas com afixos que exercem essa mesma

função na língua. Assim, no que tange à função intensificadora, podemos

começar por –ão e –inho, afixos antes tidos como flexionais, mas agora

reconhecidos como derivacionais (cf. SOARES DA SILVA, 2006 e

GONÇALVES, 2005). Observemos os exemplos abaixo retirados de sites de

busca da internet:

Page 98: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

98

(28) Peça para um homem descrever um mulherão. Ele imediatamente

vai falar do tamanho dos seios, na medida da cintura, no volume dos lábios, nas

pernas, bumbum e cor dos olhos.36

(29) Caraca. Você mora lonjão.37

(30) Se a gente não tá aguentando esse calor e esse solzão que está

aparecendo praticamente todos os dias... Imagina nossos cabelos?38

(31) Quem aquela mulherzinha achava que era para beijar meu

marido?39

(32) Para quem curte um filminho antigo40.

(33) Amo um cafezinho, ainda bem acompanhado da família e dos

amigos é tudo de bom.41

Em todos os exemplos acima destacados, podemos perceber que a função

aumentativa ou diminutiva não está presente nos vocábulos. O que entra em voga

em vocábulos como (28) mulherão e (31) mulherzinha, por exemplo, não é o

tamanho da mulher, mas uma ou mais propriedades da mesma entidade

intensificada. Um mulherão não é, necessariamente, uma mulher muito grande e

uma mulherzinha não é uma mulher muito pequena. Da mesma forma, um

filminho (32) não é um filme de curta duração e, geralmente, não o é. Nesse caso,

36 http://pensador.uol.com.br/frase/NTIwMDk1/ - Acessado em 07/Ago/2012 37 http://mepergunte.com/gaall/20380214. Acessado em 07 / Ago / 2012 38 http://www.vidacorderosa.com/page/15/ - Acessado em 07/Ago/2012 39http://www.fanfiction.com.br/historia/197730/crepusculoO_Verdadeiro_Poder_de_Bella/capitulo/15. Acessado em 07 / Ago / 2012 40 http://miamibygs.com/2012/01/09/para-quem-curte-um-filminho-antigo/ - Acessado em 07/Ago/2012 41 http://cafezinhodascinco.blogspot.com.br/2012/01/cafezinho.html - Acessado em 07/Ago/2012

Page 99: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

99

o falante fez uso desses afixos para intensificar avaliativamente as formas que

objetiva realçar. No caso de (30), solzão, por exemplo, não temos um sol grande

e sim um sol forte, bonito. Assim, podemos perceber que esses dois afixos

também têm a função intensificadora. No entanto, não podemos dizer que são

sufixos nominalizadores, pois os mesmos não alteram a classe da base e nem

têm por função nominalizar, já que lonjão (29), por exemplo, tem por base um

advérbio e por produto também um vocábulo dessa classe.

Outro afixo que também apresenta função intensificadora é –oso, que se

une a bases nominais, sejam elas adjetivas ou substantivas. Observe os

exemplos abaixo:

(34) É o Ravióli Rosé, um prato saboroso e rápido de preparar42.

(35) Sauber C31 é mais um narigudo feioso na Fórmula 143.

Em ambos os casos acima, podemos perceber que a função de

intensificação se mantém na medida em que tanto (34) saboroso quanto (35) feioso

podem ser entendidos como mantendo em excesso a propriedade expressa pela

base (sabor bom e muito feio, respectivamente). No entanto, esse afixo também

possui propriedades distintas dos anteriormente explicitados: além de nem

sempre alterar a classe gramatical da palavra-base, -oso tem como output sempre

um adjetivo, o que descaracterizaria a concorrência com –ura, já que criam

produtos categorialmente distintos, visto que –ura sempre forma substantivos.

42 http://wp.clicrbs.com.br/anonymus/2012/04/26/sexta-feira-saborosa-com-ravioli-rose-na-tvcom/?topo=52,2,18,,197,e196 – Acessado em 07/Ago/2012 43 http://www.correiodopovo.com.br/blogs/pitlane/?p=5468 – Acessado em 07/Ago/2012

Page 100: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

100

O afixo –udo, por sua vez, também tem a função de intensificar a base,

mas o seu output, assim como de –oso, também é um adjetivo, além do fato de

esse afixo ser mais comumente acessado para intensificar qualidades referentes

a partes do corpo humano. Observe os exemplos abaixo:

(36) Lá vem o narigudo que não para de falar.44

(37) Ele é careca, baixinho e barrigudo.45

Como podemos perceber, esse afixo mantém a mesma função que os

demais anteriormente descritos, já que intensifica uma característica do ser ao

qual se refere. Dessa forma, narigudo (36) e barrigudo (37) podem ser entendidos

como fazendo referência a alguém que possui um nariz muito grande e uma

barriga muito avantajada, respectivamente.

Observe, agora, os exemplos abaixo:

(38) Tenho pra mim que essa falação toda, essa

intimidade/cumplicidade imediata, tem algo a ver com o fato de que é

normal passar o dia de biquíni e Havaianas ou roupa de ginástica.46

(39) No meu colégio até pode beijar e ficar com alguém, mas nada de

muita pegação, claro.47

44 http://letras.mus.br/rock-rocket/1291072/ - Acessado em 07/Ago/2012 45 http://apocalipsetotal.wordpress.com/2012/01/15/o-anticristo-pode-ser-careca-baixinho-e-barrigudo/ - Acessado em 07/Ago/2012 46 http://webdiario.com.br/?din=view_noticias&id=65061&search=v%F4lei. Acessado em 07 / Ago / 2012 47 http://capricho.abril.com.br/voce/pegacao-escola-onde-ir-678411.shtml - Acessado em 07/Ago/2012

Page 101: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

101

(40) No entanto, por trás dessa "beijação" que soa como brincadeira de

folião, há o risco de se contrair doenças sem que você nem perceba.48

Como podemos observar nos exemplos (38) falação, (39) pegação e (40)

beijação, o afixo –ção anexa-se sempre a bases verbais com o propósito de

intensificar o significado da base; falação, por exemplo, pode ser parafraseada

como “falar em excesso, em demasia, e desnecessariamente” e beijação como

“beijar em excesso, muitas pessoas se beijando ao mesmo tempo”. Sendo assim,

podemos notar que o modo de escaneamento cognitivo é processual, mais

dinâmico, na medida em que a relação com o verbo-base é mais direta e mais

acessível, ou seja, ainda podemos reconhecer o caráter verbal no substantivo

derivado. Além disso, também cabe salientar que esse pode ser interpretado

como um afixo nominalizador, visto que tem por característica alterar a

categoria gramatical da base, formando nomes a partir de verbos, sendo,

portanto, o que mais se aproxima de –ura, como veremos a seguir.

Por fim, podemos analisar o sufixo –ura a partir da mesma função dos

anteriormente explicitados. Tomemos por base os exemplos abaixo listados:

(41) Creio que quase sempre é preciso um golpe de loucura para se

construir um destino.49

(42) O cúmulo da baixura é sentar em uma moeda e ainda balançar os

pés50.

48 http://www.itaporangaonline.com.br/2012/02/beijacao-no-carnaval-nesse-periodo.html - Acessado em 07/Ago/2012 49 http://pensador.uol.com.br/frase/ODUwNA/ - Acessado em 07/Ago/2012

Page 102: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

102

Com base nas sentenças (41) e (42), podemos perceber que o afixo

-ura também possui a função intensificadora, na medida em que tanto loucura

quanto baixura podem ser parafraseados como “X em excesso” ou “muito X”.

Assim, o afixo passa a se adjungir a bases adjetivas, substantivas e até mesmo

adverbiais, como nos exemplo (43), (44) e (45) abaixo, com a função de formar

substantivos abstratos na língua.

(43) O desfile de 2012 estava uma belezura51.

(44) E quando de dia a lonjura dos montes/ Azuis atrai a minha

saudade52.

(45) Há sempre fartura de capital à disposição dos que podem traçar

planos práticos para serem levados a efeito.53

Enquanto em (44), temos um substantivo abstrato com base adverbial,

longe, em (43), a base beleza é um próprio substantivo abstrato que deriva de um

adjetivo e mantém, portanto, uma relação mais direta com essa categoria

gramatical. Assim, podemos ver que, independentemente da base a qual se

anexa, -ura possui a função intensificadora de propriedades claramente

marcada.

50 http://www.guiagratisbrasil.com/frases-de-cumulos/ - Acessado em 07/Ago/2012 51 http://www.blocosebenzequeda.com/2012/02/e-o-desfile-2012-foi-uma-belezura.html. – Acessado em 07 / Ago / 2012 52 http://pt.scribd.com/doc/88351149/Poemas-de-Johann-Wolfgang-Von-Goethe - Acessado em 07/Ago/2012 53 http://frases.globo.com/napoleon-hill/15179 - Acessado em 07/Ago/2012

Page 103: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

103

Ao contrário das outras funções anteriormente explicitadas, a função

intensificadora não foi gerada a partir da existência de uma concorrência entre

afixos, como pudemos perceber na descrição acima. Isso se deve ao fato de –ura

ser o único – dentre todos os apresentados – que possui a função de formar

substantivos abstratos a partir de bases adjetivas, substantivas ou adverbiais.

Os demais afixos, além de não necessariamente alterarem a classe gramatical,

como ocorre nos casos de –inho e -ão, não têm como output um substantivo

abstrato. Dentre eles, o único que mantém relação mais direta com –ura é -ção;

não se pode dizer, porém, que haja uma real concorrência, já que os sufixos

selecionam bases distintas e diferem quanto ao modo de processamento

cognitivo, já que o primeiro é resumitivo, ou seja, mais estático, enquanto o

segundo é processual, ou seja, mais dinâmico.

Observe a tabela abaixo:

Sufixos Bases Produto

-ão /-inho Não possui uma base específica Mantém a categoria da base

-oso Substantivos / adjetivos Adjetivos

-udo Substantivos Adjetivos

-ção Verbos / adjetivos Substantivos abstratos

-ura Substantivos, adjetivos e

advérbios.

Substantivos abstratos

Tabela 3: Sufixos intensificadores em português

Ao analisarmos a tabela e compararmos com os exemplos explicitados

anteriormente, podemos fazer algumas considerações relevantes acerca do afixo

Page 104: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

104

–ura e dos demais intensificadores da língua. Observando a coluna referente ao

produto, que é o que nos move, é possível perceber que, dentre todos os afixos

apresentados, somente dois deles são nominalizadores de fato, já que partem de

uma base de outra categoria para formar substantivos em português. Nos

demais casos, a intensificação não está diretamente ligada à nominalização, já

que os formativos possuem como produto um adjetivo (-oso) ou não alteram a

categoria gramatical (-inho; -ão). No entanto, -ção e –ura não possuem

exatamente a mesma função e, por isso, não podemos dizer que são

concorrentes na língua. Isso se deve ao fato de selecionarem bases distintas.

Dessa forma, os afixos não competem por uma mesma posição ou por uma

mesma função, visto que têm objetivos distintos. Enquanto –ção tem por

finalidade nominalizar verbos; -ura, por sua vez, adjunge-se a outras categorias

para nominalizar intensificando.

5.5. Resumindo

Pudemos verificar que–ura possui quatro diferentes funções na língua,

sendo elas a nominalização de verbos, a designação de coisas no mundo, a

abstratização de adjetivos e, por fim, a intensificação. Observe a tabela abaixo:

Função Base Produto Descrição

Nominalização

de verbos

Verbos Substantivos Escaneamento mais

dinâmico, mais voltado

para o produto. Compete

com –ção, -mento e –agem.

Page 105: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

105

Referenciação Verbos Substantivos Escaneamento mais

estático, mais voltado

para o produto. Também

compete com –ção, -mento

e –agem.

Abstratização

de adjetivos

Adjetivos e

particípios

Substantivos

abstratos

Indica propriedades

inerentes ao ser humano.

Compete com –eza e –ice.

Intensificação Adjetivos,

advérbios e

substantivos

abstratos

Substantivos

abstratos

Utilizado para indicar o

excesso da propriedade

descrita pela base.

Compete com –inho, -ão, -

udo, -oso e –ção.

Tabela 4: Funções do afixo –ura em português.

Conforme podemos notar na Tabela 4 e de acordo com o exposto ao

longo do capítulo, -ura adquiriu novas funções na língua, na medida em que

compete sincronicamente com outros afixos mais produtivos que exercem a

mesma função. Assim, foi necessária uma especialização do mesmo para se

manter ativo na língua. Primeiramente, -ura perdeu lugar para os outros afixos

nominalizadores com a função precípua da nominalização, já que –ção e –mento

são altamente produtivos em português. Em seguida, mantendo a relação com a

função designativa dos particípios, o afixo em questão passou a se anexar a

bases adjetivas, abstratizando-as, para, em seguida, alcançar a função de maior

produtividade no atual estágio da língua: a intensificação. Nesse caso,

diferentemente dos demais afixos, -ura vem se adjungir a predicadores para

formar substantivos abstratos, conforme será mais detalhado no capítulo

seguinte.

Page 106: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

106

Assim, podemos constatar que o afixo –ura se especializou na língua,

passando a exercer uma nova função – a de intensificador – na medida em que

esta é a única para o qual não há concorrente direto na língua, pois, apesar de,

nas outras funções, não haver casos de sinonímia, é somente na função

intensificadora que o mesmo se diferencia dos demais.

Page 107: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

107

SISTEMAS LINGUÍSTICOS

Neste capítulo, tratamos dos sistemas linguísticos reconhecidos pela

Gramática Multissistêmica conforme explicitado no capítulo 4. Assim, o

objetivo do capítulo é relacionar os quatro sistemas – léxico, gramática, discurso

e semântica – ao processo de nominalização por meio de –ura e mostrar como

atuam na língua, conjuntamente. No entanto, não pretendemos nos aprofundar

nos quatro sistemas da mesma forma, selecionando apenas dois que são mais

relevantes para esta análise: léxico e semântica. Porém, essa seleção não nos

impedirá de tratar dos outros dois sistemas e mostrar, rapidamente, como eles

atuam; apenas não os tomaremos como base para a análise.

Com base na análise do corpus, foi possível reconhecer quatro diferentes

funções do afixo na língua como anteriormente explicitado: (1) nominalização

de verbos (soltura, varredura); (2) designação de entidades (ferradura,

queimadura); (3) abstratização de adjetivos (altura, largura); e (4) intensificação

(lonjura, gostosura). Assim, no presente capítulo, temos por objetivo descrever

cada uma dessas funções de acordo com os diferentes sistemas elaborados por

Castilho (2010) e, em seguida, descrever e analisar como esses sistemas atuam

simultaneamente na descrição do formativo em discussão. Sendo assim, o

capítulo é dividido em seções nas quais se distribuem os sistemas propostos

6

Page 108: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

108

pelo autor em uma ordem estipulada apenas para fins didáticos: gramática,

léxico, semântica e discurso.

6.1. Gramática

O primeiro sistema a ser abordado nesta dissertação é o que diz respeito

ao sistema gramatical. Segundo Castilho (2010:138), a gramática é

“o sistema linguístico constituído por estruturas cristalizadas ou em processo de cristalização, dispostas em três subsistemas: (i) a fonologia, que trata do quadro de vogais e consoantes, sua distribuição na estrutura silábica, além da prosódia; (ii) a morfologia, que trata da estrutura da palavra; e (iii) a sintaxe, que trata das estruturas sintagmática e funcional da sentença”.

Podemos perceber, portanto, que a gramática, segundo essa teoria, é um

sistema formado por produtos e processos nos campos da fonologia, morfologia

e sintaxe, diferentemente dos formalistas que entendiam a gramática como

sendo uma entidade a priori, ou seja, um conjunto de regras lógicas e

mentalmente pressupostas e anteriores ao discurso. Essa concepção de

gramática está um pouco mais ligada à visão funcionalista que a compreende

como uma entidade organizada por um conjunto de regras observáveis nos

usos da língua, sendo, dessa forma, posterior ao discurso, emergente dele. No

entanto, apesar de ter por base essa concepção funcionalista, a Multissistêmica,

por não prever hierarquia entre os sistemas, vai além dessa definição ao afirmar

que o discurso atua conjuntamente à gramática nos processos referentes a esta.

Page 109: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

109

Já no que diz respeito ao conceito de gramaticalização amplamente

estudado por inúmeros autores como Hopper (1991), Hopper & Traugott (1993),

Casseb-Galvão et alii (2007), dentre outros, Castilho (2010) toma posição

diferente apenas no que se refere à ideia de sequenciação. A definição geral

sobre esse conceito é a de um conjunto de processos por que passa determinada

palavra, sintagma ou sentença em que são adquiridas novas propriedades

gramaticais (semânticas, sintáticas, morfológicas, fonológicas), transformando-

as em estruturas cada vez mais gramaticais. Segundo o autor, a

gramaticalização seria um processo de constituição da gramática em que se

elegem representações linguísticas para as categorias cognitivas que se

alterariam ao longo do tempo. Nesse sentido, a gramaticalização teria por

função alterar as categorias cognitivas da língua dentro do sistema gramatical e

juntamente com os outros sistemas linguísticos.

Na Multissistêmica, a gramaticalização pode se dar a partir de três

processos distintos: a fonologização, a morfologização e a sintaticização. O

primeiro deles diz respeito à formação e alteração de estruturas fonológicas

como a redução das vogais no latim vulgar, por exemplo. O segundo faz

referência à formação de morfemas na língua, sejam eles flexionais ou

derivacionais. Como exemplo, podemos citar o caso do pronome você no

português brasileiro, que deixou de ser uma forma de tratamento para integrar

o quadro de pronomes do caso reto do português. Por fim, a sintaticização

ocorre quando a estrutura sintática se altera, como no caso do verbo assistir, por

exemplo, que, na fala (e em alguns textos escritos também), vem sofrendo esse

Page 110: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

110

processo na medida em que os falantes não mais o utilizam como um verbo

transitivo indireto.

(1) Sucesso nas bilheterias mundiais, “Os Vingadores” foi assistido por mais de

38 mil em Caxias54.

No caso da nominalização por intermédio do sufixo –ura, podemos

perceber um caso de fonologização no que tange à interpretação como um

único afixo e não três distintos, como explicitado no capítulo 2 e aqui retomado

para fins didáticos.

Como defendido no capítulo 2, o sufixo –ura sofreu gramaticalização por

fonologização, na medida em que passam a operar filtros fonológicos em sua

formação. Apesar de haver diferentes visões a respeito de sua natureza,

validamos a interpretação de que se trata de apenas um afixo considerando as

consoantes /t/, /d/ e /s/ resquícios das formas participiais – característica essa

herdada do latim.

A morfologização, por sua vez, ocorre quando o sufixo em questão deixa

de selecionar uma base pertencente a uma categoria em especial e passa a se

anexar a qualquer base, desde que sua função mais recente – a intensificadora –

seja ativada.

54 http://pioneiro.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-tendencias/almanaque/noticia/2012/06/sucesso-nas-bilheterias-mundiais-os-vingadores-foi-assistido-por-mais-de-38-mil-em-caxias-3779830.html

Page 111: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

111

Já o caso da sintaticização pode ser expresso a partir de duas ideias

principais: a do Princípio da Analogia (BASILIO, 1997) e a de função sintática

propriamente dita (BASILIO, 2007).

No que diz respeito ao Princípio da Analogia (PA), a autora afirma

parecer estar esse

“na base das formações de reestruturação morfológica que tanto podem criar novos elementos morfológicos quanto produzir palavras de efeito retórico ou poético, rompendo momentaneamente as barreiras da linearidade que aprisionam a expressão nas estruturas linguísticas de cunho sintagmático. Neste sentido, o PA serviria não apenas para dar conta da produtividade lexical, mas também da criatividade” (BASILIO, 1997:11)

Para comprovar sua hipótese, a autora cita inúmeros exemplos, como o

caso de emxadachim, criado por Guimarães Rosa, em que se tem uma analogia

clara à formação espadachim. O usuário da língua faz uma releitura de uma

estrutura já existente e adapta o novo conteúdo a ela, da mesma forma que

crianças no processo de aprendizagem da língua falam “eu fazi” no lugar de “eu

fiz” em analogia aos verbos regulares da língua. No entanto, o PA não atua

somente na morfologia, mas também na semântica, fonologia e sintaxe, por

exemplo, pois, como disse Coutinho (1976), a analogia é o princípio pelo qual a

linguagem tende a se tornar mais uniforme e a reduzir as formas mais

irregulares e menos frequentes.

No caso de –ura, observemos a expressão “Que faltura!” retirada de uma

manchete do Jornal O Globo. A reportagem falava sobre o péssimo serviço

prestado no dia em que o cronista foi a um restaurante e que, portanto, faltava

Page 112: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

112

tudo: desde bom atendimento a boa comida. A partir dessa breve explicação,

podemos notar que o cronista criou essa expressão para dar título a sua matéria

a partir da analogia com a expressão “Que fartura!”, que faz referência

exatamente ao oposto do que ele quis dizer. Essa expressão está incluída numa

construção já cristalizada na língua, “Que X!”, em que a posição de X pode ser

ocupada por qualquer substantivo ou adjetivo com o intuito de indicar o

“excesso de X”. Portanto, podemos formar “Que belezura!”, “Que loucura!”,

“Que chatice!”, “Que lindo!”, dentre inúmeros outros exemplos.

Outro caso de sintaticização presente na formação por meio do sufixo

-ura é o que diz respeito à possibilidade de exercer inúmeras funções sintáticas

dentro da sentença. Retomando as funções da nominalização expressas

anteriormente, podemos lembrar que uma delas possibilita focalizar o agente

ou o objeto da ação expressa pelo verbo, isto é, sintetiza toda a ação verbal em

apenas um vocábulo, compactando toda a informação no nome. Observe:

(2) Cuiabá: bando que assaltou residência e roubou carro é capturado. A

vítima reconheceu os dois primeiros (suspeitos) como os autores do

roubo.55

No exemplo acima, podemos notar que o substantivo roubo sintetiza toda

a informação presente em “roubou carro”. Nesse sentido, a função anafórica do

nome consiste na retomada das ideias precedentes de forma a evitar repetições

55 http://www.sonoticias.com.br/noticias/9/155848/cuiaba-bando-que-assaltou-residencia-e-roubou-carro-e-capturado. Acessado em 01/Ago/2012.

Page 113: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

113

e dar continuidade ao texto. Além disso, a nominalização permite que

possamos utilizar como núcleo do sujeito ou dos objetos, palavras de outras

categorias pertencentes a outras funções sintáticas na língua. Como exemplo,

podemos citar os adjetivos que exercem as funções sintáticas de adjuntos

adnominais e predicativos. Quando transformamos um adjetivo em

substantivo, também estamos permitindo que este passe a exercer outras

funções, sendo, portanto, o núcleo de um sujeito ou objeto. Observe os

exemplos abaixo:

(3) Optar por ser amarga é uma escolha de cada mulher. A amargura

apenas destrói a paz interna56.

(4) Gosto da brancura das tuas mãos, da sutileza das linhas do teu

rosto, da suavidade da tua voz57.

Podemos perceber que os adjetivos amargo e branco quando

nominalizados nos exemplos acima, passam a exercer ambos a função de núcleo

do sujeito e núcleo do objeto indireto, colocando em destaque as propriedades

definidas por esses adjetivos. Essa possibilidade só se concretiza devido à

nominalização, pois os substantivos podem ocupar esses lugares na sentença e

os adjetivos, não. Portanto, podemos perceber que a sintaticização também

ocorre na nominalização por meio do sufixo –ura, ampliando o alcance das

bases na sentença. Podemos confirmar essa análise retomando Basilio (2007)

56 http://missionariosonline.blogsome.com/2007/10/08/amargura/. Acessado em 01/Ago/2012. 57 http://omundodedentro.blogspot.com.br/. Acessado em 01/Ago/2012.

Page 114: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

114

que afirma que a nominalização apresenta uma função sintática que diz

respeito à possibilidade de um termo nominalizado poder ocupar inúmeros

lugares na sentença, ampliando o campo de atuação da palavra-base.

6.1.1. Resumindo

Na presente seção, buscou-se definir o que se entende por gramática nos

moldes da abordagem multissistêmica. Além disso, também foi importante

salientar e discutir brevemente os conceitos ligados a esse sistema e o modo de

conceptualização do mesmo. Portanto, com base nessa breve análise do afixo

-ura sob a ótica do sistema gramatical, pudemos demonstrar a importância que

o mesmo tem no estudo da língua e como ocorrem os processos de

fonologização e sintaticização, por exemplo. Assim, foi possível constatar de

que maneira os dispositivos sociocognitivos atuam nesse sistema e como ativa,

desativa ou reativa as propriedades deste.

6.2. Léxico

Segundo o autor, o léxico seria o inventário pré-verbal de categorias e

subcategorias cognitivas e de traços semânticos inerentes; e o vocabulário, um

inventário pós-verbal, ou seja, o conjunto de produtos concretos, também

chamado de palavras. Portanto, para o linguista, a lexicalização poderia ser

definida como a criação de novas palavras na língua a partir de um padrão pré-

estabelecido e coordenado pelo dispositivo sociocognitivo. Assim, a palavra

Page 115: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

115

“pode ser caracterizada (1) fonologicamente por dispor de esquema acentual e rítmico; (2) morfologicamente por ser organizada por uma margem esquerda (preenchida por morfemas prefixais), por um núcleo (preenchido pelo radical) e por uma margem direita (preenchida por morfemas sufixais); (3) sintaticamente por organizar ou não um sintagma; (4) semanticamente por veicular uma ideia (enquanto a sentença veicula uma proposição); (5) graficamente por vir separada por meio de espaços em branco”. (CASTILHO, 2010:111).

Como podemos perceber a partir da leitura do trecho destacado acima, o

autor aborda a formação de palavras voltada para o radical, já que, para ele, o

núcleo de um derivado é o radical, sempre considerado a cabeça lexical da

palavra morfologicamente complexa. Assim, como Castilho (2010) não se

aprofunda na descrição de fenômenos de base morfológica, partimos, então,

para uma análise baseada nos esquemas e subesquemas propostos por Booij

(2010), entendendo que esse modelo, chamado de Morfologia Construcional,

pode complementar e enriquecer a abordagem empreendida pela

Multissistêmica.

Segundo Booij (2010), as palavras se estruturam em construções que

englobam tanto a derivação quanto a composição e são formuladas a partir de

esquemas responsáveis pela instanciação de unidades do léxico. Além disso, o

autor faz a seguinte afirmação sobre essa abordagem da língua a partir de

esquemas:

"O uso de esquemas para expressar generalizações sobre padrões de formação de palavras tem outras vantagens também. A ideia de que afixos categoricamente determinados são as cabeças de palavras complexas, assim como os constituintes à direita de compostos, levanta problemas conceituais e empíricos. (...) Em primeiro lugar,

Page 116: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

116

obriga-nos a atribuir um rótulo de categoria lexical para delimitar morfemas sem que esta propriedade esteja acessível em outras construções de palavras complexas. Além disso, ao contrário dos constituintes à direita de compostos, sufixos categoricamente determinados nem sempre funcionam como as cabeças semânticas das palavras que eles criam, e, portanto, é uma consequência feliz da abordagem esboçada até o momento que podemos realizar sem a regra de cabeça lexical à direita e sem perder a generalização relevante. (...) [Essa descrição de formação de palavras por subesquemas é vantajosa], a fim de fazer generalização sobre subconjuntos de palavras dentro de uma determinada categoria morfológica "58. (BOOIJ, 2010: 54-55)

Então, podemos notar que a análise através de esquemas pode nos ser

muito útil e relevante. Além disso, o fato de estarmos estudando um caso de

derivação em que o afixo possui diferentes acepções aponta para a extensão de

sentido permitida por esses esquemas, já que o sufixo não veicula significado

sozinho, na medida em que a base é altamente relevante para o significado

final. Sendo assim, segunda essa abordagem, não teríamos um núcleo em

específico, pois o significado é alcançado a partir da junção entre base e afixo.

No entanto, vale salientar que não estamos tratando aqui da nominalização por

meio do Princípio da Composicionalidade59, mas entendendo que o que temos é

58 “The use of schemas for expressing generalizations about word formation patterns has other advantages as well. The idea that category-determining affixes are heads of complex words, just like the right constituents of compounds raises conceptual and empirical problems. (…) First of all, it forces us to assign a lexical category label to bound morphemes without this property being accessible in other constructions than complex words. Furthermore, unlike the right constituents of compounds, category-determining suffixes do not always function as the semantic heads of the word they create, and hence, it is a happy consequence of the approach outlined so far that we can do without the RHR without missing the relevant generalization. (…) ´This description of word formation by subschemas is advantageous] in order to make generalization about subsets of words within a particular morphological category”. (BOOIJ, 2010: 54-55) 59 O princípio da Composicionalidade prevê que o significado da palavra é adquirido a partir da soma das partes (base + afixos ou base + base). Segundo esse princípio, a palavra menininho, por exemplo, seria interpretada a partir da junção da palavra menino com o sufixo diminutivo –inho, chegando ao resultado final “menino pequeno”. No entanto, esse princípio é muito geral e não resulta em especificações mais detalhadas, o que não é interessante para o nosso estudo, na

Page 117: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

117

uma construção morfológica e que o significado final é atingido no momento

em que a base é inserida na construção, como demonstramos mais adiante.

Portanto, nesta seção, abordamos o léxico a partir de esquemas,

justificando os seus usos e exemplificando-os, na medida em que atuam na

língua. Vale ressaltar que, por se tratar de uma análise do léxico e do

vocabulário da língua, descreveremos como se dá a ativação, desativação e

reativação no léxico.

6.2.1. Nominalização de verbos

A primeira função exercida por –ura é de nominalização propriamente

dita, pois esse sufixo forma um substantivo abstrato a partir de uma base verbal

(participial). O formativo em questão, quando anexado a bases participiais que

mantenham uma ligação maior com o verbo de que constituem flexões, terá

como output substantivos cuja paráfrase é “ato ou efeito do que é descrito pela

base”. Foram destacados 10 vocábulos no corpus que exercem essa função na

língua: benzedura, censura, embocadura, envoltura, investidura, ligadura, rapadura,

semeadura, soltura e varredura. Como exemplo dessa paráfrase, podemos citar

benzedura e soltura que são, respectivamente, o “ato ou o efeito de benzer” e o

“ato ou efeito de soltar”.

medida em que não considera, por exemplo, o significado de menininho como marca de afetividade ou pejoratividade – a depender do contexto (BOOIJ, 2005)

Page 118: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

118

Com base na análise da produtividade60, podemos afirmar que esse afixo

se torna menos produtivo quando tem essa função, visto que os oito vocábulos

encontrados foram formados nos séculos XIII, XIV e XV, séculos em que

apareceram os primeiros textos em português. Portanto, o fato de não haver

ocorrência de vocábulos com essa função nos séculos seguintes faz com que não

o consideremos tão produtivo na formação de novas palavras em português.

Sendo assim, segundo Booij (2010), a representação morfológica dessa

função seria a seguinte; em que x representa a base, V e N representam as

categorias lexicais da base e do produto, respectivamente e as variáveis i e j são

os índices lexicais das propriedades fonológicas, sintáticas e semânticas das

palavras:

(5) [[x]Vj ura]Ni [ato ou efeito em relação a Xj]i

6.2.2. Referenciação

O sufixo -ura, quando exerce a função de designar entidades, coisas no

mundo, pode ser parafraseado como “o resultado de X” como em assinatura,

queimadura e rachadura que são, respectivamente, o resultado de assinar, queimar

60 Entendemos por produtividade a possibilidade de ocorrerem determinadas estruturas e as suas devidas concretizações. Assim, consideramos um afixo produtivo quando este está acessível para fins lexicais e o falante forma novo vocabulário a partir dele. No entanto, vale ressaltar que consideramos a produtividade dentro de um continuum do mais produtivo para o menos e não a improdutividade total. Essa visão pode ser explicada a partir da ideia de que um afixo, por exemplo, pode estar apagado em determinado momento da língua, mas ressurgir a partir do uso. Portanto, a nossa noção de produtividade diz respeito à disponibilidade do afixo no léxico do falante e aos diversos níveis que pode haver de produtividade. Usando os termos de Castilho (2010), pode haver uma desativação das propriedades e uma subsequente reativação.

Page 119: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

119

e rachar. Nessa função, o afixo se une a bases participiais para formar

substantivos tanto concretos quanto abstratos como é o caso dos exemplos

abaixo:

Substantivos concretos Substantivos abstratos

Abotoadura Assinatura

Ferradura Fritura

Dentadura Feitura

Rachadura Fervura

Fechadura Travessura

Tabela 5: Alguns exemplos de palavras desse grupo

Apesar do grande número de vocábulos (45 palavras), o afixo -ura é

pouco produtivo na língua com essa acepção, pois a maioria dos dados é

registrada como tendo entrado nos primeiros séculos de língua escrita e, os

mais recentes, datam do século XVIII, o que não pode ser chamado de

contemporâneo.

Sendo assim, a caracterização morfológica desse afixo com essa função

seria a seguinte, ainda com base na proposta de formalização encontrada em

Booij (2010):

(6) [[x]Vj ura]Ni [resultado de Xj]i

Podemos perceber que a caracterização morfológica do léxico com essa

função é a mesma da anterior, pois a diferença entre as duas está no sistema

Page 120: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

120

semântico e não na característica morfológica. Isso pode ser explicado por meio

da ideia de que esses sistemas atuam simultaneamente não interferindo,

portanto, um no outro hierarquicamente, mas sim simultaneamente, somada à

metonímia atuante nesse processo.

6.2.3. Abstratização de adjetivos

O sufixo –ura, quando exerce a função de abstratização de adjetivos,

pode ser parafraseado como “propriedade do que está especificado na base”.

As formações que desempenham essa função têm por característica o fato de

terem por input adjetivos e outputs substantivos abstratos como nos exemplos

abaixo:

Altura Amargura

Brancura Doçura

Formosura Grossura

Bravura Finura

Gordura Grossura

Formosura Largura

Tabela 6: Alguns vocábulos desse grupo.

Nessa função, o afixo –ura é muito produtivo, o que pode ser atestado

pela presença de vocábulos formados nos fins do século XIX e devido ao alto

índice de dados. Sendo assim, a caracterização morfológica desse afixo com essa

função seria a seguinte:

Page 121: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

121

(7) [[x]Aj ura]Ni [propriedade da SEMj]i61

6.2.4. Intensificação

A última função abarca os vocábulos que têm por acepção o excesso do

que é especificado pela base e têm por input diferentes categorias gramaticais, o

que é um indício para a sua alta produtividade. Quando o afixo –ura cumpre

essa função, passa a se ligar a diversas bases com a função de intensificar a

propriedade da mesma. No entanto, apesar desse input ser variável, o output

continua sendo um substantivo abstrato. Como exemplo dessa intensificação,

temos:

Apertura Baixura

Belezura Chatura

Frescura Fundura

Gastura Juntura

Lonjura Quentura

Tabela 7: Algumas palavras desse grupo.

Em todos os casos, o caráter intensificador é expresso pelo afixo como em

quentura, que pode ser parafraseado como “quente em excesso”, feiura, que

significa “feio em excesso” e chatura, que tem por paráfrase “chato em excesso”.

Essa função nominalizadora de -ura mostra-se muito produtiva por apresentar

palavras formadas no século XX, como feiura e gostosura e por apresentar inputs

diferentes, como é o caso de lonjura e de belezura, que derivam, respectivamente,

61 SEM representa a semântica da palavra base. (BOOIJ, 2010:17)

Page 122: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

122

do advérbio longe e do substantivo abstrato beleza. Esse último fato demonstra a

produtividade do afixo para formar nomes com essa função, pois o faz anexado

a outras bases que não as prototípicas. Além disso, é interessante observar que,

para essa função, poderiam ser utilizadas inúmeras estratégias discursivas

como a utilização de um superlativo (sintético ou analítico), por exemplo. No

entanto, o uso do afixo como intensificação proporciona o alçamento dessa

noção intensificadora para a posição de tópico, o que não acontece nos outros

casos, em que o foco está no termo ao qual se relaciona e não a essa

propriedade. Observe abaixo:

(8) Este filme é chatíssimo.

(9) Este filme é muito chato.

(10) Este filme é uma chatura!

Nos três exemplos acima, podemos perceber que existe uma diferença na

intensão do falante em fazer uso de uma ou de outra forma e também é possível

notar que a nominalização – presente no exemplo em (10) – tem caráter muito

mais expressivo e enfático que as demais, apesar de as três indicarem que o

filme é chato em excesso.

Sendo assim, a caracterização morfológica desse afixo com essa função

seria a seguinte:

(11) [[x]Xj ura]Ni [excesso da SEMj]i

Page 123: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

123

Vale ressaltar que a variável X é aplicada a várias categorias lexicais (no

caso verbos, adjetivos, substantivos abstratos e advérbios). Portanto, essa é,

dentre todas as funções previamente analisadas, a mais abrangente, como

verificamos nos demais sistemas a serem analisados a seguir.

6.2.5. Lexicalização, deslexicalização e relexicalização

A lexicalização, como previamente explicitado, pode ser definida como

sendo o processo pelo qual se criam novas palavras coordenadas pelo

dispositivo sociocognitivo. Compreende três estágios: ativação, reativação e

desativação.

A ativação, ou lexicalização propriamente dita, diz respeito à escolha de

“categorias cognitivas e seus traços semânticos, representando-os nas palavras”

(CASTILHO, 2010: 113). Essa lexicalização percorre alguns caminhos na língua,

ou seja, o léxico pode ser ativado de diferentes maneiras.

A primeira delas é a lexicalização por etimologia, processo pelo qual a

lexicalização ocorre ainda na língua-fonte, ou seja, ocorre quando um item da

língua-fonte é integrado na língua-alvo. Como exemplo, podemos citar duas

palavras do corpus em análise: abertura e escritura. Esses seriam casos de

lexicalização na medida em que foram integradas à língua portuguesa

diretamente do latim (apertura e scriptura, respectivamente).

Page 124: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

124

O segundo tipo de lexicalização é o por neologia, definida pelo autor

como uma palavra nova que não foi herdada da língua-fonte, porém é

organizada de acordo com as regras morfológicas pré-estabelecidas na língua-

alvo. Nesse caso, teríamos palavras novas seguindo padrões da língua na qual

foi formada. No que tange ao formativo –ura¸ podemos citar a palavra faltura,

retirada de uma notícia do jornal O Globo. Esse seria um exemplo de

lexicalização por neologia, na medida em que não é uma palavra criada por

analogia ao termo fartura. Essa afirmação pode ser feita a partir do contexto no

qual foi criada a palavra, já que a mesma foi inserida no título de uma matéria

que falava sobre a falta de bom atendimento, de comida e de bebida em um

restaurante, como já descrevemos, mantendo o padrão [XVk –ura]Ni.

O terceiro tipo de lexicalização é o por empréstimo. Nessa lexicalização,

o que ocorre é que são importadas palavras, sufixos e prefixos de outras línguas

com as quais a língua-fonte teve contato direto ou indireto. Assim, a

lexicalização por empréstimo ocorre quando pegamos palavras já prontas de

outras línguas e incorporamos a nossa. Como exemplo, podemos citar

candidatura, brochura e desenvoltura. As duas primeiras palavras destacadas têm

por origem as formas francesas candidature e brochure, enquanto a terceira tem a

origem italiana desenvolture. Esses são exemplos de lexicalização por

empréstimo, pois as palavras foram formadas no francês e no italiano,

respectivamente, e já vieram prontas para a língua portuguesa, ou seja, foram

incorporadas ao vocabulário da língua e não criadas na língua-alvo.

Page 125: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

125

A reativação do léxico é também chamada de relexicalização e consiste

no movimento mental de rearranjo das categorias semânticas e seus traços

cognitivos, ou seja, é uma renovação do vocabulário feita através da derivação e

da composição, principais mecanismos de formação de palavras. Nesse caso,

temos o processo de nominalização de fato como exemplo, pois o fato de se

formarem nomes a partir de verbos, adjetivos, substantivos ou advérbios com o

acréscimo do afixo –ura já aponta para essa renovação de vocabulário. Como

exemplo disso, podemos citar palavras como abertura, fritura, lonjura, amargura e

belezura. Em todas essas palavras, temos um rearranjo das categorias, na medida

em que se altera o significado das bases.

Por fim, a desativação lexical, também conhecida como deslexicalização

diz respeito à morte das palavras, ou seja, faz referência aos arcaísmos, palavras

que não são mais reconhecidas nem ativadas pelos falantes da língua. Como

exemplo, podemos citar as palavras podrura e zebrura, visto que o falante não

mais reconhece a sua existência (comprovado a partir de testes referenciados no

capítulo 5, seção 5.1), não consegue depreender o seu significado e muito menos

sabe como utilizá-las.

6.2.6. Resumindo

Nessa seção, mostramos como se entende o sistema lexical a partir da

Abordagem Multissistêmica e qual a importância que o mesmo tem para a

análise da nominalização. Apesar de fazermos uso da Teoria Multissistêmica,

nesta seção, apresentamos outra abordagem dada ao léxico e à sua constituição

Page 126: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

126

e explicitamos o porquê de recorrermos a outro modelo de análise para tratar

sobre esse assunto. Além disso, também demonstramos como os DSCs atuam

no léxico e como ativam, desativam e reativam as propriedades desse sistema.

6.3. Semântica

Segundo Castilho (2010), a semântica é o sistema através do qual criamos

os significados expressos por palavras, sintagmas ou sentenças na língua,

operando por meio de algumas estratégias como:

“(i) organizando o campo visual através do estabelecimento de participantes e eventos; (ii) emoldurando participantes e eventos via criação de frames, scripts e cenários; (iii) hierarquizando os participantes e eventos via fixação de perspectivas, escopos, figura/fundo; (iv) incluindo, excluindo, focalizando participantes e eventos; (v) agregando participantes e eventos novos por inferência, pressuposição, comparação; (vi) movimentando os participantes e os eventos, real ou ficticiamente; (vii) alterando nossa perspectiva sobre os participantes e os eventos, via metáfora, metonímia, especialização, generalização”. (CASTILHO, 2010:122)

Além disso, o autor aborda a semanticização e define esse processo como

a criação de sentidos administrada pelo dispositivo sociocognitivo. O autor

ainda discorre sobre as diferentes categorias semânticas que organizariam esse

campo de estudo: (a) dêixis e foricidade; (b) referenciação, no sentido de

“denominação”; (c) predicação; (d) verificação; (e) conectividade; (f) inferência e

pressuposição; e (g) metáfora e metonímia. No entanto, vale salientar que não

nos aprofundaremos em todas essas categorias, na medida em que não se faz

necessário, no presente estudo, tratar de todas minuciosamente. Nesse sentido,

Page 127: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

127

abordaremos apenas a dêixis e foricidade, a referenciação, a predicação e a

metáfora e metonímia. Além disso, também é importante ressaltar que apenas

essas duas últimas categorias serão aprofundadas por serem as que mais

interferem no processo de nominalização em análise, sem reduzir, no entanto, a

importância das demais categorias.

Conforme Castilho (2010:126), a foricidade é entendida como “remissão”

e representa “um segundo conhecimento da coisa, sendo que o primeiro

conhecimento é dado pelos processos de referência ou designação, e dêixis ou

localização”. As nominalizações X-ura podem ser utilizadas num processo

anafórico, como se observa na seguinte situação:

(12) “Imagem mostra o maior prédio do mundo! ... A altura final ainda

não foi divulgada mas tudo indica que poderá ter 900 m”62.

Nesse exemplo, temos o vocábulo altura retomando toda a ideia presente

no primeiro período, demonstrando que a nominalização também pode ser um

recurso anafórico.

No que concerne à referenciação, observa-se que a escolha por um

formativo de nominalização que possa concorrer com outros, sobretudo os

intensificadores, -ura promove a alteração da intensão da base, acentuando suas

propriedades definitórias básicas e aumentando a extensão das entidades

abarcadas pelo conceito (cf. CASTILHO, 2010:127). Estamos aqui entendendo os

62 http://www.e-farsas.com/burjdubai-o-maior-predio-do-mundo.html. Acessado em 01/Ago/2012.

Page 128: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

128

conceitos de intensão e extensão assim como propostos por Castilho, ou seja, “a

intensão é o conjunto de propriedades lexicais das palavras, o conjunto de seus

traços semânticos inerentes (...) A extensão é o conjunto de indivíduos

denotados através das propriedades lexicais das palavras”. No entanto, ainda

ampliamos esses conceitos na medida em que passamos a compreender a

questão da referência a partir dos pressupostos do cognitivismo e entendemos a

extensão, por exemplo, como a alteração dessas propriedades inerentes

presentes e características da intensão. Portanto, nos casos de polissemia, por

exemplo, reduz-se a intensão inicial para ampliar a extensão e abarcar novos

sentidos às palavras ou expressões (SOARES DA SILVA, 2006). Observe abaixo:

(13) Uma fofura este embrulho da laranja que serve de sobremesa63

Na sentença destacada acima, temos reduzida a intensão referente à

maciez – propriedade inerente da palavra base fofo e aumentada a extensão, à

medida que a palavra em destaque passa a atribuir uma nova propriedade mais

relacionada à delicadeza, beleza e não mais à maciez.

No que diz respeito à predicação, como todo substantivo abstrato, um

nome terminado em -ura pode funcionar como operador alterando as

propriedades de um termo sob seu escopo (CASTILHO, 2010:127-128), pois, nos

termos de ROCHA LIMA (2008), os substantivos abstratos são aqueles que

dependem de alguém ou alguma coisa para se concretizarem. Dessa forma, é

63 http://www.fofuramaxima.blogspot.com . Acessado em 01/Ago/2012.

Page 129: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

129

esperado que esses substantivos selecionem complementos nominais e,

portanto, sejam capazes de predicar.

Outro conceito importante e que vale ser relembrado por já ter sido

amplamente discutido no capítulo 4 é o de metáfora. Castilho (2010) usa como

aporte teórico a abordagem pioneira de Lakoff & Johnson (2002) e conceptualiza

a metáfora como sendo:

“(i) um fenômeno conceitual, não necessariamente ligado a expressões linguísticas; (ii) um mecanismo cognitivo básico e muito difundido que a Semântica não deve ignorar; (iii) o entendimento de um domínio de experiência em termos de outro; (iv) a projeção de um conjunto de correspondências entre um domínio-fonte e um domínio alvo”. (CASTILHO, 2010: 131-132)

Esta seção busca tratar dos diferentes significados de cada uma das

funções da nominalização a partir de –ura, como esses significados são

formados e o que isso reflete na língua. Assim, a ideia central de que a

nominalização é um processo pelo qual os verbos tornam-se nomes indicando a

ação ou o estado da ação não é plenamente aplicável ao sufixo -ura conforme

demonstrado no capítulo anterior. Também buscamos descrever como as

metáforas atuam nesse processo, levando em consideração que o conceito de

metáfora utilizado neste trabalho será o de Lakoff & Johnson (2002). Portanto,

nesta seção, o objetivo é descrever como a semântica atua nessas funções já

previamente explicitadas e estender mais a análise feita no capítulo precedente.

Page 130: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

130

6.3.1. Nominalização de verbos

Essa primeira função do afixo faz referência à função inicial de um afixo

nominalizador que é a de indicar o ato ou o efeito do que é expresso pela base.

Apesar de -ura não ser altamente produtivo nessa função, a mesma não deve ser

excluída da análise por também estar presente na formação do léxico e possui

palavras muito recorrentes na língua. Observe os termos destacados nas frases a

seguir retiradas do site de busca Google:

(14) Justiça do DF faz varredura nas contas de Cachoeira e da Delta.64

(15) CPI apressa abertura de informações a Cachoeira para não atrasar

trabalho65.

(16) Tamar faz soltura de tartarugas66.

(17) Muitos sabem que foi a fervura da água que se usou para definir os

100º C.67

Podemos perceber que as palavras destacadas em (14), (15), (16) e (17),

respectivamente varredura, abertura, soltura e fervura, ainda mantém uma relação

direta com a base e podem ser parafraseadas como “ato ou efeito de X”, como,

por exemplo, soltura que equivale ao “ato de soltar” (as tartarugas, no caso da

64 http://www.dirigida.com.br/news/pt_br/justica_do_df_faz_varredura_nas_contas_de_cachoeira_e_da_delta_pernambuco_com/redirect_8555605.html - Acessado em 07/Ago/2012 65 http://www.camarasidrolandia.ms.gov.br/novo/exibe.php?id=63610&cod_editorial=&url=&pag=&busca= - Acessado em 07/Ago/2012 66 http://fatosedados.blogspetrobras.com.br/2012/03/10/ - Acessado em 07/Ago/2012 67 http://ktreta.blogspot.com.br/2010/01/fervura.html. Acessado em 07 / Ago / 2012

Page 131: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

131

sentença). Cabe fazer essa descrição, por mais que essa não seja a acepção mais

veiculada pelo afixo; isso mostra que, mesmo que –ura exerça outras funções na

língua, a inicial, prototípica ainda está presente no léxico.

Um exemplo de dessemantização e consequente ressemantização nessa

função é a sentença abaixo, também retirada do Google:

(18) Estrelas e lendas do cinema vão à abertura do 65º Festival de

Cannes.68

Como é possível notar, o vocábulo abertura destacado em (18) e em

comparação ao selecionado em (15), sofreu uma mudança de significação

devido à atuação da metáfora (LAKOFF & JOHNSON, 2002). Essa metáfora

pode ser explicada a partir da ideia de que compreendemos a língua como um

conjunto de sistemas não modulares creditando o caráter relacional da

linguagem ao modo como agimos e nos relacionamos com o meio. Nesse caso,

ainda temos uma relação com o significado prototípico, pois o vocábulo

abertura, embora tenha caráter mais nominal nessa sentença, ainda mantém

qualquer relação com a definição “efeito de abrir”.

Esse seria um exemplo de desativação e reativação da semântica, visto

que existe um significado prévio que é desativado e reformulado a partir de

metáforas, ou seja, há um silenciamento do sentido anterior e simultânea

68 http://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2012/05/estrelas-e-lendas-do-cinema-vao-abertura-do-65-festival-de-cannes.html. Acessado em 07 / Ago / 2012

Page 132: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

132

ativação de um novo sentido, ou novos sentidos, já que podemos ativar

inúmeros outros, como nos exemplos abaixo:

(19) A equipe da R. A. Engenheira fez uma abertura na parede69.

(20) A abertura de “A Favorita” (uma telenovela) vai contar toda a

história da novela70.

Enquanto em (19), o sentido ativado é o de “fenda, buraco”; em (20), diz

respeito a um miniclipe exibido no início de um programa televisivo. Assim,

podemos constatar que o léxico de –ura pertencente a essa função também sofre

desativação e reativação, pois as metáforas atuam com esse objetivo, visto que

desativam o significado prototípico e reativam um novo.

6.3.2. Referenciação

A função de referenciação diz respeito também a uma característica

inicial da nominalização: formar nomes a partir de bases verbais. No entanto,

existem diversos nominalizadores na língua, como vimos no capítulo 5, e cada

um deles atua de forma diferente, importando-nos, aqui, apenas o –ura, já que é

este o foco deste trabalho. Observe os exemplos apresentados abaixo, todos

retirados de sites da internet no método de busca do Google:

69 http://revistacasaejardim.globo.com/Casaejardim/0,25928,EJE407507-2186,00.html. Acessado em 07 / Ago / 2012 70 http://www.musicaspraouvir.com/musicas/a-favorita. Acessado em 07 / Ago / 2012

Page 133: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

133

(21) As armaduras leves geralmente não têm partes metálicas, e

normalmente são compostas de varias camadas de couro e/ou

acolchoamentos71.

(22) A cobertura é a melhor parte de um cupcake72!

(23) Abotoaduras ou Botões-de-punho são acessórios de moda usados

por homens e mulheres73.

(24) Empresa especializada no comércio de fechaduras, ferragens de

acabamento para construções74.

(25) Nasa fotografa rachadura quilométrica em geleira75.

Como vimos no capítulo 5, de todos os sufixos de nominalização, -ura é o

que possui caráter mais nominal (em comparação à –ção e –mento, por exemplo),

como podemos perceber nos vocábulos grifados em (21), (22), (23), (24) e (25), os

quais indicam coisas no mundo: tanto armadura quanto cobertura, abotoadura,

fechadura e rachadura. Assim, podemos perceber que -ura, quando adjungido a

bases verbais, distancia-se mais do verbo do qual se originou e passa a nomear

somente coisas, entidades, perdendo, dessa forma, a ideia de “ato ou efeito de

X”, em que X é a base.

Com essa função, o afixo –ura também sofre desativação e reativação de

sentidos a partir de metáfora e extensões de significado. O próprio exemplo

71 http://pt.wikipedia.org/wiki/Armadura. Acessado em 07 / Ago / 2012. 72 http://allrecipes.com.br/receitas/etiqueta-566/receitas-de-cobertura-de-cupcake.aspx. Acessado em 07 / Ago / 2012 73 http://pt.wikipedia.org/wiki/Abotoadura. Acessado em 07 / Ago / 2012 74 http://www.hotfrog.com.br/Produtos/Fechaduras-de-seguranca. Acessado em 07 / Ago / 2012 75 http://g1.globo.com/natureza/noticia/2011/11/nasa-fotografa-rachadura-quilometrica-em-geleira-na-antartida.html. Acessado em 07 / Ago / 2012

Page 134: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

134

presente em (22) já demonstra essa dessemantização e ressemantização, pois a

base verbal é um particípio – um verbo, portanto – que indica ação (agir)

remontando, mais uma vez, à metáfora conceitual DESIGNAR É AGIR. Os

casos presentes nessa função são os representantes do resultado dessa metáfora,

visto que são elementos designativos que se originam de ações.

6.3.3. Abstratização de adjetivos

A terceira função do afixo –ura é a abstratização de adjetivos. Como já

vimos, essa função diz respeito à mudança de categoria gramatical (passagem

de adjetivo a substantivo abstrato). Nesta seção, vamos detalhar um pouco mais

a semântica dessa função. Observe os exemplos abaixo destacados:

(26) No exercício da afabilidade e da doçura, que atrairá em teu favor as

correntes da simpatia.76

(27) Aí seguiram várias explicações, e uma delas é que o pai influencia

mais na altura das filhas e a mãe, na altura dos filhos.77

(28) É preciso ser duro, mas sem perder a ternura, jamais78...

(29) Depois, observe a altura e a largura da testa e o desenho do queixo.79

76http://www.forumespirita.net/fe/o-livro-dos-mediuns/afabilidade-e-docura-28500/ Acessado em 08 / Ago / 2012 77 http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&uf=1&local=1&template=3948.dwt&section=Blogs&post=69803&blog=117&coldir=1&topo=4235.dwt Acessado em 08 / Ago / 2012 78 http://pensador.uol.com.br/frase/NDkx/ Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 135: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

135

Quando o afixo em questão exerce a função de abstratizar um adjetivo,

passa a designar propriedades inerentes ao ser, como podemos ver nas palavras

destacadas em (26), (27), (28) e (29), respectivamente doçura, tontura, altura

ternura e largura. Isso se deve ao fato de todas serem propriedades imutáveis,

duradouras e não eventuais. Assim, pudemos constatar que o afixo –ura carrega

consigo a função de indicar que as propriedades veiculadas pela base adjetiva

são inerentes ao ser, estáticas e não dinâmicas e mutáveis. Além disso, vale

ressaltar que, mesmo nos casos em que essa inerência não esteja tão clara,

também não podemos dizer que seja uma propriedade eventual. Observe os

exemplos abaixo:

(30) Num voo de pombas brancas, um corvo negro junta-lhe um

acréscimo de beleza que a candura de um cisne não traria.80

(31) Um homem nobre jamais perde a sua candura infantil.81

Podemos perceber que em (30), o significado veiculado pelo vocábulo

grifado é o semantizado, ou seja, aquele adquirido a partir da ativação da

semântica na criação de um sentido. Isso se deve ao fato de este ser o seu

significado original, “livre” de qualquer metáfora ou qualquer outro recurso da

linguagem. Candura, no caso de (30), diz respeito à brancura, alvura,

79 http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL986422-5598,00.html Acessado em 08 / Ago / 2012 80 http://pensador.uol.com.br/frases_sobre_beleza_interior/7/ Acessado em 08 / Ago / 2012 81 http://frases.aaldeia.net/um-homem-nobre-jamais-perde-a-sua-candura-infantil/. Acessado em 08/ Ago / 2012.

Page 136: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

136

luminosidade do cisne. Em contrapartida, no exemplo destacado em (31),

podemos perceber a atuação da metáfora. Partindo do pressuposto de que esse

recurso está presente em nosso dia a dia e que o acessamos a todo momento, é

possível verificar o porquê dessa dessemantização e da ressemantização. Nesse

caso, o sentido desativado foi o mesmo de (30) e o sentido reativado foi o de

“pureza, inocência”. Essa alteração só foi possível porque podemos

compreender a pureza ou a inocência a partir da ideia de luminosidade inicial:

um ser puro é um ser iluminado, limpo, com a alma clara. Assim, vemos que a

metáfora auxiliou na ativação de um novo significado, ou seja, que esse

vocábulo se ressemantizou via metáfora.

6.3.4. Função Intensificadora

Quando a função do afixo é intensificar, pudemos perceber, no capítulo

3, que -ura convive com inúmeros outros, mantendo, no entanto, cada um a sua

função específica e especializada. Nesta seção, o objetivo é detalhar um pouco

mais o que foi abordado anteriormente sobre essa função do afixo –ura.

Observem-se os exemplos abaixo:

(32) O filme foi aquela chatura!82

(33) Carne recheada é uma gostosura83!

82 http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=loadVerbete&palavra=chatura. Acessado em 08 / Ago / 2012 83 http://www.sadia.com.br/vida-saudavel/4_dia+a+dia+na+cozinha/p5 Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 137: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

137

(34) O sabor do café envolveu-me numa quentura. Dançou as vísceras e

espírito. Deliciando calmamente cada gole.84

(35) A feiura é o que impede espécies diferentes de se misturar, afirma

pesquisa.85

(36) Não é segredo que eu tenho uma queda por coisas fofas, meigas,

cuti-cuti e uón. Mas essa semana me deparei com a maior fofura entre as

fofuras do universo.86

Com base nas sentenças (32), (33), (34), (35) e (36) e com o que já foi

exposto, podemos perceber que o afixo -ura possui a função intensificadora,

visto que todos os exemplos destacados podem ser parafraseados como “X em

excesso” ou “muito X”. Além disso, conforme previamente explicitado, o afixo

passa a se especializar, mantendo essa função como mais importante do que a

alteração categorial da base, visto que deixa de se adjungir a uma base

específica para se anexar a qualquer base com o intuito de intensificar. Assim, o

afixo passa a se unir a bases participiais, adjetivas, substantivas, adverbiais, por

exemplo, já que o objetivo principal é somar a essas bases o caráter

intensificador, sendo este um diferencial do sufixo –ura em detrimento dos

outros afixos com função similar. Abaixo, temos mais alguns exemplos de

vocábulos exercendo essa função, tendo o primeiro (37) como base o

substantivo abstrato beleza e o segundo (38), o advérbio longe. Em ambos os

84 http://hospiciopoetico.blogspot.com.br/2012/04/quentura.html. Acessado em 08 / Ago / 2012 85 http://www.tecmundo.com.br/ciencia/21602-a-feiura-e-o-que-impede-especies-diferentes-de-se-misturar-afirma-pesquisa.htm Acessado em 08 / Ago / 2012 86 http://casadagabi.com/o-cumulo-da-fofura/ Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 138: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

138

casos, podemos ver a função intensificadora claramente marcada se sobrepondo

à escolha da categoria gramatical da base. Observe:

(37) Fraudes, falcatruas, e toda a belezura desse nosso mundo das

academias de araque.87

(38) Viemos da distância e da lonjura dos tempos88.

Essa função da nominalização, assim como as demais, também sofre

desativação e reativação da semântica, nos moldes de Castilho (2010) e essa

reativação se dá por intermédio de metáforas. Podemos exemplificar essa

afirmação a partir dos seguintes exemplos:

(39) A frescura das madames incomoda as empregadas domésticas89.

(40) Deixa de frescura90.

(41) Por uma vida sem frescura91!

87 http://cienciabrasil.blogspot.com.br/2011/08/faca-aqui-sua-denuncia-fraudes.html. Acessado em 08 / Ago / 2012 88 http://edirol.blogs.sapo.pt/2011/07/ Acessado em 08 / Ago / 2012 89 http://www.pgletras.uerj.br/palimpsesto/num13/estudos/palimpsesto13estudos06.pdf Acessado em 08 / Ago / 2012 90 http://www.deixadefrescura.com/. Acessado em 08 / Ago / 2012 91 http://meioslinguagens2009.blogspot.com.br/2009/05/campanha-cintra-por-uma-vida-sem.html Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 139: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

139

Essa função da nominalização está intimamente ligada à anteriormente

explicitada (abstratização de adjetivos); uma grande parte dos dados mantém

uma relação estreita com aquela função. Dessa forma, esta é criada a partir de

uma metáfora desativando os sentidos iniciais de propriedade e reativando

novos sentidos referentes ao excesso da propriedade expressa pela base. Um

exemplo bastante claro é o de frescura, exposto nas frases em (39), (40) e (41),

estas últimas retiradas de uma propaganda de cerveja. Em (39), o substantivo

frescura se enquadra na função de abstratização de adjetivos, significando o

comportamento de ser fresco, enquanto, nos exemplos em (40) e (41), é a função

de intensificação a ativada, pois ambos os vocábulos demonstram reativação do

sentido de excesso, visto que significam “muito fresco” ou “fresco em excesso”.

Outro exemplo que podemos citar desse espraiamento é o vocábulo

brancura que se espraia do protótipo “abstratização” para a função

“intensificadora” a partir da mesma metáfora que o vocábulo anteriormente

analisado. Observe as frases abaixo:

Page 140: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

140

(42) “A honra é como a neve, que, perdida a sua brancura, nunca mais se

recupera”. (Charles Duclos) 92

(43) “Ela era branca, branca. Dessa brancura que não se usa mais. Mas

sua alma era furta-cor”. (Mário Quintana)93

(44) Promoção Show de Brancura.94

(45) Banho de brancura95

Nos exemplos (42) e (43), o termo brancura está ligado à função de

abstratização, na medida em que somente indica a qualidade daquilo que é

branco – no primeiro, atribuindo à neve; no segundo, referindo-se a um tom de

branco que “não se usa mais”. Em contrapartida, os exemplos em (44) e (45) já

exerceriam a função intensificadora, visto que passariam a indicar algo “muito

branco”, “branco em excesso”. Essa acepção pode ser percebida a partir do

92

http://pensador.uol.com.br/frase/Nzc4NA/ Acessado em 08 / Ago / 2012 93 http://pensador.uol.com.br/frase/NTE5MzEy/ Acessado em 08 / Ago / 2012 94 http://mundodomarketing.com.br/artigos/redacao/5218/p-g-investe-em-promocao-para-ativar-marcas.html Acessado em 08 / Ago / 2012 95 http://www.unilever.com.br/brands/homecare/surf.aspx Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 141: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

141

próprio contexto, já que esses exemplos são extraídos de propagandas de sabão

em pó que têm por argumento principal o fato de deixar as roupas muito mais

brancas do que os concorrentes. Sendo assim, é esperado que o significado

veiculado seja o de excesso, pois tanto uma quanto outra empresa querem se

superar e vender o seu produto.

Corroborando essa ideia, também podemos observar as frases abaixo

retiradas dos textos que compõem o corpus e tecer algumas considerações.

(46) “E que cousa ha de tal brancura como o lírio” (Livro de vita Chirsti)

(47) “Nesse chão empapado de brancura”. (Meireles, Cecília. Olhinhos de

gato).

Observando esses exemplos, podemos perceber que o primeiro (46)

apresenta o vocábulo brancura em seu sentido prototípico de “propriedade de

X”, ou seja, podemos notar que o autor está fazendo uso da propriedade

daquilo que é branco para comparar o lírio a alguma coisa tão branca quanto.

Em contrapartida, em (47), o vocábulo brancura já apresenta o seu significado

intensificado, ou seja, já percebemos a diminuição da intensão e o aumento

consequente da extensão. O interessante desses exemplos é o fato de eles

demonstrarem a especialização do afixo, na medida em que o primeiro caso foi

retirado de um texto do século XV e o segundo de um do século XX.

O mesmo caso pode ser verificado com a palavra cobertura destacada nas

frases / expressões abaixo, também retiradas de textos antigos:

Page 142: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

142

(48) “he abrem a sua mente e desvestem de si a sua cobertura do

engano” (Boosco Deleitoso)

(49) “Ela poderia comprar, por exemplo, um com cobertura diferente da

atual”. (Dantas, Francisco J. C. Cartilha do Silêncio)

Nos exemplos acima, podemos perceber o espraiamento semântico

presente no vocábulo destacado na sentença (49) e a manutenção do sentido

prototípico na frase (48), sendo esta registrada também no século XV e aquela

no século XX. Dessa forma, é possível notar que a história do afixo e seus

caminhos ao longo dos anos também são importantes para a análise e refletem

as mudanças semânticas sofridas com o passar do tempo.

6.3.5. Resumindo

Nesta seção, objetivamos apresentar os conceitos de sistema semântico e

todos os outros relacionados a este. Dessa forma, apresentamos como a Teoria

Multissistêmica compreende categorias como metáfora, metonímia e

referenciação, por exemplo, e qual a abordagem dada à semântica nessa teoria.

Além disso, também buscamos apresentar como os dispositivos sociocognitivos

atuam ativando, reativando ou desativando as propriedades desse sistema.

No que diz respeito à atuação desses dispositivos, pudemos verificar que

o afixo –ura possui quatro diferentes funções como sintetizamos na tabela

abaixo:

Page 143: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

143

Função Base Produto Descrição

Nominalização

de verbos

Verbos Substantivos

abstratos

Escaneamento mais

dinâmico, menos voltado

para o produto.

Designação de

nomes

Verbos Substantivos

abstratos

Escaneamento mais estático,

mais voltado para o

produto.

Abstratização

de adjetivos

Adjetivos e

particípios

Substantivos

abstratos

Indica propriedades

inerentes ao ser humano.

Intensificação Adjetivos,

advérbios e

substantivos

abstratos

Substantivos

abstratos

Utilizado para indicar o

excesso da propriedade

descrita pela base.

Tabela 8: Funções do afixo -ura em português.

Como destacamos nesta seção, a semântica do afixo se altera de acordo

com a constituição do léxico e as diferentes categorias das bases: quanto mais

abrangente é a base, mais a significação final da função se torna abstrata.

6.4. Discurso

Segundo Castilho (2010), o discurso é entendido como um conjunto de

negociações envolvendo os interlocutores e propiciando uma interação entre

eles. De acordo com o autor, é através dessas negociações que

“(i) se instanciam as pessoas de uma interação e se constroem suas imagens; (ii) se organiza a conversação através da elaboração do tópico discursivo, dos procedimentos de ação sobre o outro ou de

Page 144: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

144

exteriorização dos sentimentos; (iii) se reorganiza essa interação através do subsistema de correção sociopragmática; ou (iv) se abandona o ritmo em curso através de digressões e parênteses, que passam a gerar outros centros de interesse”. (CASTILHO, 2010:133)

Assim, a discursivização é entendida como o processo de criação de

textos administrado pelo dispositivo sociocognitivo. Dito de outra maneira,

vamos analisar a conversação e o texto, usando como base uma perspectiva

funcionalista cognitiva, pois o foco está no papel da língua, do discurso e do

aparato cognitivo dos usuários da língua. Dessa forma, para que haja um

processo de discursivização, é necessário que esses dispositivos atuem através

de algumas categorias cognitivas constitutivas do discurso: a moldura e a noção

de perspectiva.

Como já foi falado, para que haja interação, é necessário que seja ativado

o conhecimento de mundo dos interlocutores, ou seja, informações extratextuais

ativadas no momento da conversação. Como exemplo, podemos citar a seguinte

frase abaixo:

(50) Você sabe que horas são?96

Na sentença em destaque, podemos notar que a informação solicitada

não é, exatamente, a que está expressa na frase. O locutor da sentença não quer

apenas saber se o seu interlocutor sabe as horas, mas está pedindo que ele a

96 http://joselop.es/voce-sabe-que-horas-sao/ - Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 145: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

145

informe. Nesse momento, o conhecimento de mundo dos falantes de que

perguntas como essa não “devem” ser respondidas com sim ou não precisa ser

ativado para que a comunicação ocorra. Em outras culturas diferentes da

brasileira, por exemplo, informações como essa não seriam pedidas da mesma

maneira. Assim, é necessário que seja ativado esse conhecimento para que a

comunicação seja efetuada com total sucesso e é nesse momento que os

dispositivos sociocognitivos são ativados. É nesse ponto que também voltamos

à questão da moldura e da perspectiva.

A moldura pode ser explicada como uma percepção do mundo, das

funções sociais do discurso compartilhadas pelos interlocutores; é também um

dos processos de ativação do discurso que nos ajuda a compreender como se dá

a produção linguística.

Como exemplo, podemos citar a seguinte frase:

(51) Hoje vamos a uma festa97.

Ao dizer essa sentença, é ativada a moldura de festa que nos leva a um

enorme conjunto de movimentos mentais a serem ativados, pois essa moldura

ativa informações como: festa de aniversário, presente, roupa adequada, festa

infantil, festa de adulto, dentre inúmeros outros movimentos. Portanto,

podemos perceber que a seleção das informações contidas é efetuada no

momento da conversação e corresponde a uma expectativa sobre o mundo.

97

http://www.fanfiction.com.br/historia/71468/Horizonte_Azul/capitulo/2 Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 146: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

146

A noção de perspectiva, por sua vez, é outro processo de ativação

discursiva e é entendida como referente ao modo como o espaço é percebido,

ou seja, à maneira como compreendemos o espaço do discurso. A perspectiva

está diretamente ligada à noção de ponto de vista, atitude do falante, já que

enfocamos uma ou outra informação no discurso. Dessa forma, podemos notar

que os conceitos de moldura e perspectiva estão intrinsecamente interligados,

visto que a moldura seleciona conjuntos mais amplos de informações extra-

discursivas e a perspectiva é que vai se voltar para uma ou outra informação

listada. Dito de outra maneira, a moldura oferece pontos de vista e a

perspectiva os seleciona.

Assim como a gramática, este não será um sistema amplamente

discutido nesta Dissertação; porém, vale apresentar alguns exemplos de como o

contexto, o discurso, atuaria na nominalização por meio de –ura. Observem-se

os exemplos abaixo:

(52) É verdade que a altura da criança aos 2 anos, multiplicada por 2, é a

altura que ela terá quando adulta?98

(53) Um ônibus da viação Itapemirim que vinha do Rio de Janeiro sentido

São Paulo caiu em uma ribanceira na altura do km 125 da Rodovia99.

98 http://brasil.babycenter.com/toddler/desenvolvimento/altura-2-anos/. Acessado em 01 ago.2012. 99http://www.estadao.com.br/noticias/geral,onibus-vindo-rio-cai-em-ribanceira-na-altura-de-cacapava,904211,0.htm. Acessado em 01 ago.2012.

Page 147: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

147

Podemos perceber que a palavra em destaque nas duas sentenças

apresenta significados distintos que podem ser explicados a partir do conceito

de metáfora previamente explicitado. No entanto, esses significados só foram

alterados graças ao contexto no qual as palavras estão inseridas. Dessa maneira,

o discurso é ativado quando a palavra entra em contexto de uso, ou seja, é

ativada uma perspectiva a partir da discursivização da palavra em questão.

Como exemplo também podemos retomar a propaganda apresentada

anteriormente e retomada aqui:

(54) Por uma vida sem frescura.

Nesse exemplo, o novo significado da palavra é ativado no momento em

que ela é inserida em um contexto discursivo específico: a propaganda. Assim,

o DSC atua ativando propriedades desse sistema juntamente com os outros

fazendo com que a palavra frescura adquira um novo sentido, já que esta é

também uma função da propaganda.

Page 148: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

148

6.4.1. Resumindo

Nesta breve seção, pudemos destacar alguns conceitos básicos presentes

no sistema do discurso e defini-los a partir dos olhares de Castilho (2010) para

cada um deles. Além disso, apresentamos uma rápida exemplificação e análise

do formativo em questão para mostrar que o Discurso atua fortemente na

língua e é um sistema igualmente importante.

6.5. Sistemas Simultâneos

Como foi muito discutido no capítulo 4 e constantemente retomado ao

longo da Dissertação, a Teoria Multissistêmica considera a existência de quatro

sistemas que atuam simultaneamente, possuem a mesma importância e são

regidos por dispositivos sociocognitivos que ativam, reativam e desativam as

propriedades de cada um desses sistemas. Neste capítulo, tratamos dos quatro

sistemas apresentados separadamente e mostramos como atuam na língua –

alguns discutidos de forma mais aprofundada e outros de forma mais sucinta.

No entanto, ainda falta uma análise a ser apresentada devido a esse caráter de

simultaneidade muito marcado pela teoria: faltava exemplificar essa questão.

Portanto, nesta seção, esse é o nosso objetivo. Comecemos observando a

sentença apresentada abaixo retirada de um texto do Corpus do Português:

(55) Mas que loucura! Que ideia! Como você foi fazer isso, meu Deus!

(RODRIGUES, Nelson. Meu destino é pecar. 1944)

Page 149: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

149

Podemos observar que ocorre um processo de sintaticização já

apresentado anteriormente, devido ao fato de a palavra destacada estar inserida

numa estrutura sintática própria, já cristalizada (Que X!) em que a posição de X

pode ser ocupada por qualquer substantivo, adjetivo, advérbio, dentre outros, a

fim de indicar intensificação. Portanto, podemos perceber a ativação das

propriedades sintáticas do sistema da gramática.

Além disso, ao mesmo tempo em que ocorre a sintaticização, também

podemos notar a semantização a partir da ativação de uma metáfora já

apresentada, na medida em que loucura deixa de indicar apenas uma

propriedade para fazer referência ao excesso dessa propriedade, diminuindo a

intensão e aumentando a extensão, consequentemente.

No caso do sistema do léxico, é possível notar a relexicalização, na

medida em que há uma renovação de vocabulário devido ao processo de

derivação, nominalização, pelo qual passa a base. Assim, temos que a palavra

louco se relexicalizou, pois, ao se anexar a um afixo (no caso –ura), teve suas

categorias semânticas e seus traços cognitivos rearranjados.

Quanto ao discurso, podemos perceber que o mesmo é ativado, na

medida em que tal palavra é inserida num contexto e determinado significado é

focalizado, em detrimento de outros.

Assim, a partir de apenas uma frase, é possível constatar que esses

sistemas estão atuando simultaneamente na língua e, portanto, essa teoria tem

um fundamento lógico muito relevante. Não há um sistema que se sobreponha

Page 150: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

150

ao outro, mas quatro sistemas que convivem e convergem ao mesmo tempo na

língua.

Podemos observar a expressão apresentada no título deste trabalho.

Observe:

(56) Loucura, loucura, loucura!100

Tal expressão foi criada por um apresentador de televisão e demonstra as

mesmas explicações dadas ao exemplo anterior, com exceção da sintaticização.

No entanto, podemos ainda acrescentar que a intensificação, nesse caso, não se

dá apenas por meio da metáfora, mas também pelo contexto sintático e

discursivo. Dessa forma, mais uma vez podemos exemplificar a atuação dos

quatro sistemas simultaneamente.

6.6. Resumindo

Neste capítulo, apresentamos os quatro sistemas linguísticos descritos

por Castilho (2010) e buscamos descrever como cada um deles atua na língua

através dos DSCs.

No caso da gramática, particularizamos os casos de sintaticização e

fonologização apresentando exemplos que comprovassem a ideia de que em

todos os casos há a atuação desses sistemas. Já no que diz respeito ao léxico,

apresentamos uma visão diferente da trabalhada pela Teoria Multissistêmica

100 http://forum.cifraclub.com.br/forum/3/164409/ Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 151: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

151

para lidar com a formação de novas palavras e, para tanto, recorremos ao Booij

(2010) para formalizar o processo de maneira mais detalhada e aprofundada.

Além disso, também explicamos e exemplificamos os casos de lexicalização,

relexicalização e deslexização presentes na nominalização por meio de –ura a

fim de comprovar que esses processos acontecem a todo tempo na língua e não

são, portanto, casos isolados.

Em seguida, buscamos apresentar a visão que se tem sobre o sistema

relacionado à semântica e como ele se apresenta na Teoria Multissistêmica e na

nominalização mais especificamente. Além disso, também apresentamos os

conceitos relacionados a esse sistema, como metáfora, metonímia e focalização,

dentre outros, buscando sempre suporte na linguística de base cognitiva para

definir esses conceitos. Buscamos demonstrar, também, como atuam nas

funções da nominalização e apresentamos dados para comprovar nossas

hipóteses. Já no sistema do discurso, apresentamos como este é entendido na

teoria e apresentamos os conceitos. Além disso, também buscamos exemplificar

como esse sistema é ativado e qual a sua função básica na língua, sem nos

aprofundarmos, entretanto.

Por fim, fez-se necessário selecionar exemplos que comprovassem que a

atuação desses sistemas se dá simultaneamente e assim o fizemos. Buscamos

demonstrar como se concretiza a ideia de simultaneidade na língua. nessa seção

final, o nosso objetivo foi corroborar a ideia primária da Teoria Multissistêmica de

que a língua é composta de quatro sistemas que não apresentam qualquer

hierarquia e atuam simultaneamente por meio da ativação, desativação e

reativação de suas propriedades.

Page 152: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

152

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta Dissertação, tivemos por objetivo apresentar e investigar o

processo de nominalização a partir do sufixo -ura levando em consideração os

pressupostos levantados pela Abordagem Multissistêmica de análise da língua

(CASTILHO, 2010). Dessa maneira, esperamos ter apresentado evidências de

que as formas X-ura são produtivas no português contemporâneo com bases

adjetivais, substantivas e adverbiais e que as bases participiais são encontradas

apenas em formações mais antigas. Além disso, a descrição dos sistemas de

acordo com a proposta de Castilho (2010) e a busca em dicionários etimológicos

e textos antigos do português demonstram o favorecimento das bases adjetivas

e comprovam a mudança ao longo da história em relação às categorias

selecionadas para preencher a posição de X no esquema genérico X-ura.

Pretendemos ter comprovado, ainda, que o sufixo –ura não concorre com

outros afixos da língua – no que diz respeito à atual sincronia – em uma mesma

função e que seu significado foi se especializando ao longo do tempo como

busca de um lugar próprio na língua.

Além disso, no que tange à abordagem linguística utilizada, esperamos

ter alcançado o objetivo inicial de fazer uma nova análise sob um ângulo

completamente diverso dos já estudados e comprovar que essa é uma teoria

que ainda pode gerar muitas outras pesquisas. Vale lembrar, também, que esta

7

Page 153: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

153

Dissertação não teve por objetivo descrever todos os sistemas linguísticos

apresentados pela Multissistêmica, pois optamos por aprofundar apenas dois

deles: o léxico e a semântica.

Portanto, pretendemos ter conseguido analisar satisfatoriamente o

formativo em questão de acordo com os sistemas selecionados e responder a

todas as perguntas levantadas ao longo desta Dissertação. Além disso, também

buscamos descrever e exemplificar, mesmo que de maneira um pouco

superficial os outros dois sistemas linguísticos (gramática e discurso) e mostrar

que, apesar de não termos focalizado neles, estes também são importantes para

a análise linguística.

Page 154: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

154

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, M. L. L. & GONÇALVES, C. A. V. “Aplicação da construction

gramar à morfologia: o caso das formas X-eiro”. In: Linguística. (PPGL/UFRJ), v.

2, 2006, p. 229-242

ARONOFF M. Word Formation in Generative Grammar. Massachusetts: The MIT

Press Cambridge, 1976

BASILIO, Margarida. “Das relações entre texto, gramática e cognição: o foco na

cognição”. Texto apresentado no Encontro InterGTs da ANPOLL. Campinas:

UNICAMP, 2011.

__________________. “O princípio da analogia na constituição do léxico: regras

são clichês lexicais”. In: Veredas: revista de estudos linguísticos. V.1, n.1, p. 9-21,

1997.

__________________. Estruturas lexicais do português: uma abordagem gerativa.

Petrópolis: vozes, 1980.

__________________. Formação de classes de palavras no português do Brasil. São

Paulo: Contexto, 2006.

__________________. Teoria Lexical. São Paulo: Ática, 2007 [1987].

8

Page 155: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

155

BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova

Fronteira, 2009.

BOOIJ, G. Construction Morphology. New York: Oxford University Press, 2010.

_________. The Grammar of words. New York: Oxford University Press, 2005.

BUENO, Francisco da Silveira. Grande dicionário etimológico, prosódico da língua

portuguesa. São Paulo: Saraiva, 1967.

BYBEE, Joan. Morphology: the relations between meaning and form.

Amsterdam/ Philadelphia: John Benjamins Publishing Co., 1985.

CAMARA JR., Joaquim Mattoso. História e estrutura da Língua Portuguesa. Rio de

Janeiro: Padrão, 1976.

CARONE, Flávia de B. Morfossintaxe. São Paulo: Ática, 1990.

CASSEB-GALVÃO et alii. Introdução à gramaticalização: princípios teóricos e

aplicação. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

CASTILHO, Ataliba T. de. Nova Gramática do Português Brasileiro. São Paulo:

Contexto, 2010.

CASTRO DA SILVA, Caio Cesar; VALENTE, Ana Carolina Mrad de Moura;

GONÇALVES, Carlos Alexandre; ALMEIDA, Maria Lucia Leitão de. “Percurso

histórico das formações parassintéticas a-X-ecer e e/n/-X-ecer: produtividade e

Page 156: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

156

polissemia”. In: ALMEIDA, Maria Lucia Leitão de M. L. L. de et alii. Linguística

Cognitiva em Foco: Morfologia e Semântica. Rio de Janeiro: Publit, 2009.

CHAFE, Wallace L. “Giveness, constrastiveness, definiteness, subjects, topics

and points of view”. In: LI, C. Subject and topic. New York: Academic Press,

1976.

CHOMSKY, Noam. Knowledge of language, its nature, acquisition and us. Nova

York: Praeger, 1986.

COELHO, Livy Maria Real. "Uma Análise do Sufixo – ura com base na

Morfologia Categorial". In: Intertexto. Uberaba: UFTM, 2008.

COUTINHO, Ismael de L. Gramática Histórica. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico,

1976.

________________________. Pontos de Gramática Histórica. Rio de Janeiro: Ao

Livro Técnico, 1978.

CROFT, William & CRUSE, D. Alan. Cognitive Linguistics. Cambridge:

Cambridge University Press, 2004.

CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico Nova Fronteira da língua

portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

CUNHA, Celso Ferreira da & CINTRA, Luis Filipe Lindley. Nova gramática do

português contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexicon Informática, 2007.

Page 157: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

157

DAVIES, Mark & FERREIRA, Michael. Corpus do Português: 45 million words,

1300s-1900s. http://www.corpusdoportugues.org, 2006.

DIK, S. C. The theory of Funcional Grammar. Berlim: Mounton de Gruyter, 1997.

EVANS, V. & GREEN, M. Cognitive Linguistic: An Introduction. Edinburgh:

Edinburgh University Press, 2006.

FARIA, E. Gramática superior da língua latina. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1958.

FAUCONNIER, Gilees & TURNER, Mark. The way we think: conceptual blending

and the mind’s hidden complexities. Basic Books: New York, 2002.

FERRARI, Lilian. Introdução à Linguística Cognitiva. São Paulo: Contexto, 2011.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.

Curitiba: Positivo Informática, 2004.

FILLMORE, C. J. “Frame semantics”. In: Linguistics in the Morning Calm,

Hanshin, The Linguistic Society of Korea Soeul, 1982, p. 111-137.

FRANÇA, Aniela Improtta & LEMLE, Miriam. “Arbitrariedade Saussereana em

foco”. In: Revista Letras, n. 69. CURITIBA: EDITORA UFPR, 2006.

FREITAS, Horácio Rolim de. Princípios de Morfologia. Rio de Janeiro: Oficina do

Autor, 1997.

GONÇALVES, C. A. V. Flexão e Derivação em Português. 1. ed. Rio de Janeiro: Fac

Letras/UFRJ, 2005.

Page 158: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

158

______________________ et alii. Linguística Cognitiva em foco: morfologia e

semântica do português. Rio de Janeiro: Publit, 2010.

______________________. Iniciação aos estudos morfológicos: flexão e derivação em

português. São Paulo: Contexto, 2011.

______________________ & ALMEIDA, Maria Lucia Leitão de. de. “Das relações

entre forma e conteúdo nas estruturas morfológicas do português”. In:

Diadorim: Revista de Estudos Linguísticos e Literários, v. 4, p. 27-55, 2008.

HENRIQUES, Cláudio Cezar. Morfologia: Estudos lexicais em perspectiva

sincrônica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

HOPPER, Paul J. "On some principles of grammaticalization”. In TRAUGOTT ,

Elizabeth Closs & HEINE Bernd, eds. Approaches to Grammaticalization, Vol. I.

Amsterdam: John Benjamins, 1991.

_________________ & TRAUGOTT Elizabeth. Grammaticalization. Cambridge:

Cambridge University Press, 2003

HOUAISS, Antonio. Dicionário Eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Ed.

Objetiva: 2001.

ILARI. Rodolfo. Linguística Românica. São Paulo: Ática, 1992.

JACKENDOFF, Ray. “Morphological and semantic regularities in the Lexicon”

In: Language. n.51. 1975.

Page 159: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

159

____________________. Semantics and Cognition. Cambridge: MIT, 1983.

JUCÁ FILHO, Cândido. Gramática histórica do Português Contemporâneo. Rio de

Janeiro: EPASA, 1945.

KATO, Mary. No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística. São Paulo:

Ática, 1986.

KEHDI, Valter. Formação de palavras em português. São Paulo: Ática, 1989.

______________. Morfemas do português. São Paulo: Ática, 1999.

LAKOFF, George. Women, Fire and Dangerous Things: What categories reveal

about the mind. Chicago: The University of Chicago Press, 1987.

__________________ & JOHNSON, Mark. Metáforas da vida cotidiana. Campinas:

Mercado de Letras, 2002 [1980].

LANGACKER, Ronald. Foundations of cognitive grammar. Theoretical

prerequisites. Stanford: Stanford University Press, 1987.

LAROCA, Maria Nazaré de Carvalho. Manual de morfologia do português.

Campinas: Pontes; Juiz de Fora: UFJF, 1994.

LEMOS DE SOUZA, Janderson Luiz. A distribuição semântica dos substantivos

deverbais em -ção e -mento no português do Brasil: uma abordagem cognitiva. (Tese

de Doutorado) Rio de Janeiro: UFRJ, 2010.

LUFT, Celso Pedro. Moderna Gramática Brasileira. Porto Alegre: Ed. Globo, 1979.

Page 160: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

160

_________________. Novo Manual de Português, gramática, ortografia oficial,

redação, literatura, textos e testes. 8. ed., São Paulo: Editora Globo, 1990.

MACHADO, José Pedro. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Lisboa:

Livros Horizonte, 1973.

MASIP, V. Gramática Histórica Portuguesa e Espanhola. São Paulo: Editora

Pedagógica e Universitária, 2003.

MAURER JR., Theodoro Henrique. Gramática do Latim Vulgar. Rio de Janeiro:

Livraria Acadêmica, 1959.

MENDES DE ALMEIDA, N. Gramática Metódica da Língua Portuguesa. Rio de

Janeiro: Saraiva, 2005 [1979]

MONTEIRO, J. Morfologia Portuguesa. Campinas: Editora Pontes, 1988.

NASCENTES, Antenor. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de

Janeiro: Acadêmica, 1955.

NEVES, Maria Helena de M. A Gramática Funcional. São Paulo: Martins Fontes,

1997.

PEZATTI, Erotilde G. “O Funcionalismo em Linguística”. In: MUSSALIM, F &

BENTES, A. C. Introdução à linguística: fundamentos epistemológicos. Volume 3. São

Paulo: Cortez, 2005.

Page 161: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

161

PIZZORNO, Daniele Moura. Polissemia da construção X-eiro: uma abordagem

cognitivista. Dissertação (Mestrado). Rio de Janeiro: UFRJ, 2010.

RIO-TORTO, G. M. "Organização de redes estruturais em morfologia".

Disponível em: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4561.pdf, 2005.

____________________. Morfologia derivacional: Teoria e Aplicação ao Português.

Porto: Porto Editora, 1998.

ROCHA LIMA, Carlos Henrique da. Gramática normativa da língua portuguesa.

Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.

ROCHA, Luiz Carlos de Assis. Estruturas morfológicas do português. Belo

Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

ROSA, Maria Carlota. Introdução à Morfologia. São Paulo: Contexto, 2006.

SAID ALI, M. Gramática Histórica da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro:

Melhoramentos, 1971.

_______________. Gramática Secundária da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro:

Melhoramentos, 1969.

SANDMANN, Antônio José. Competência Lexical: produtividade, restrições e

bloqueio. Curitiba: Ed. da UFPR, 1988.

____________________________. Formação de palavras no português brasileiro

contemporâneo. Curitiba: Scentia et Labor: Ícone, 1988.

Page 162: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

162

_____________________________. Morfologia Geral. São Paulo: Contexto, 1997.

SAUSSURE, F. Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 1973.

SILVEIRA BUENO, F. de. A formação histórica da Língua Portuguesa. Rio de

Janeiro: Saraiva, 1967.

SOARES DA SILVA, Augusto. “A Linguística Cognitiva: uma breve introdução

a um novo paradigma” In: Revista Portuguesa de Humanidades. Braga, v.I, 1997,

p.59-101.

__________________________. O mundo dos sentidos em português: polissemia,

semântica e cognição. Coimbra: Almedina, 2006.

SWEETSER, Eve. From etymology to pragmatics. Metaphorical and cultural

aspects of semantic structure. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.

VALENTE & CASTRO DA SILVA. “Loucura, loucura, loucura! Uma

abordagem morfossemântica do sufixo –ura”. In: Cadernos do NEMP. Vol. 2, n.

2, 2011. Disponível em http://www.nemp.com.br/images/pdf/cadernos-vol2-

ana%20e%20caio1.pdf

XAVIER, M. F.; VICENTE, M. G.; CRISPIM, M. L. Crispim,

http://cipm.fcsh.unl-pt/, 20/10/2009.

Page 163: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

163

ANEXO I

Significado das palavras pelos dicionários Aurelio e Houaiss.

PALAVRA SIGNIFICADO

Abertura Ato de abrir. Ato de inaugurar, começo. Dimensão do espaço aberto. Composição que serve de introdução à ópera, bailado, sinfonia, etc.

Abotoadura Ato ou efeito de abotoar. Abotoamento. Conjunto de botões usado em peças do vestuário

Abreviatura Ato ou efeito de abreviar. Modo de escrever uma palavra com menos letras que as requeridas pelos sons e articulações que tem. Representação de uma palavra por meio de uma ou algumas das suas letras

Advocatura Amparo, mediação, patrocínio, proteção.

Agrura Sabor agro, acidez, azedume. Fig1: situação difícil, empecilho, obstáculo. Fig2: padecimento físico ou espiritual, insatisfação.

Altura Dimensão de alto a baixo. Elevação acima de um ponto. Eminência; altitude. Profundidade. Distância da base ao vértice oposto (no triângulo).

Alvura Qualidade, estado ou condição do que é alvo ou branco. Brancura. Fig.: qualidade do que ou de quem é cândido, puro, inocente.

Amargura Sabor amargo, amargor. Aflição, angústia, tristeza. Propriedade ou característica de severo

Andadura Ato de andar. Modo de andar. Passo da cavalgadura quando avança com a mão e o pé do mesmo lado. Passo.

Apertura Característica do que é estreito, apertado. Embaraço. Angústia, aflição.

Armadura Conjunto das peças metálicas que vestiam os guerreiros. Madeiramento que sustenta a parte essencial de uma obra de alvenaria ou de carpintaria;

Page 164: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

164

armação.

Arquitetura Arte de projetar e construir edifícios. Fig. Forma, estrutura: arquitetura do corpo humano.

Assadura Ato ou efeito de assar. Parte da rês própria para assar. Inflamação cutânea provocada por calor ou fricção.

Assinatura Ato ou efeito de assinar; firma, nome escrito. Direito que se tem a alguma publicação ou comodidade mediante certo preço por determinado tempo.

Atadura Ato ou efeito de atar. Tira de tecido que serve para cobrir, também usada em curativos.

Baixura Característica do que é baixo. Depressão de terreno.

Belezura Coisa agradável de ver, beleza. Pessoa bonita, atraente.

Benzedura Ato ou efeito de benzer com ou sem o sinal da cruz. Ato de benzer, acompanhado de rezas supersticiosas.

Brancura Qualidade do que é branco. Fig. Inocência: a brancura de uma alma

Brandura Qualidade ou virtude do que é brando. Característica de quem é afável, doce. Ternura, carinho.

Bravura Qualidade de quem é bravo, coragem, bravor. Fig. Inocência: a brancura de uma alma.

Brochura Ato ou efeito de brochar livros. Estado do livro brochado. Folheto, livro de pequenas dimensões, revestido com capa de papel ou cartolina colada na lombada.

Candidatura Condição de candidato. Pretensão ou aspiração de candidato.

Candura Qualidade do que é cândido. Brancura puríssima. Embarcação das Maldivas. Pureza. Credulidade ingênua.

Cavalgadura Besta de sela, cavalar, muar ou asinina. Fig. Pessoa estúpida, malcriada.

Censura Ato ou efeito de censurar. Crítica severa, repreensão. Exame oficial de certas obras ou escritos.

Chatura Ação ou resultado de chatear, aborrecer. Chatice. Coisa que chateia, que amola.

Cintura Anatomia. Parte do corpo onde há junção óssea dos

Page 165: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

165

membros ao tronco: cintura escapular, cintura pélvica. O meio do corpo. A parte das vestimentas que rodeia e aperta nessas partes.

Cobertura Ato ou efeito de cobrir; coberta, revestimento, invólucro. O que serve para cobrir; teto, telhado; tampa; capa.

Criatura Todo o ser criado. Pessoa; indivíduo. Pessoa inteiramente devotada a outra.

Cultura Ação ou maneira de cultivar a terra ou as plantas; cultivo: a cultura das flores. Fig. Conjunto dos conhecimentos adquiridos; a instrução, o saber: uma sólida cultura.

Curvatura Ação ou resultado de curvar. A parte curva de um corpo ou objeto.

Dentadura Conjunto formado por todos os dentes. Dentes artificiais. Dentes das rodas de qualquer máquina

Desenvoltura Grande desembaraço, viveza, agilidade. Fam. Turbulência, travessura

Ditadura O governo, a autoridade do ditador. Poder ou autoridade absoluta. Governo em que os poderes do Estado se concentram nas mãos de um só homem.

Dobradura Ato, processo ou efeito de dobrar. Curvatura; dobramento; vinco, prega. Ato de dobrar sobre si mesma a extremidade da artéria para suspender uma hemorragia.

Doçura Qualidade ou gosto de doce. Qualidade ou virtude do que é meigo, ternura.

Embocadura Ato ou efeito de embocar. Entrada de rua, avenida. Foz (de um rio). Tendência, propensão.

Envergadura Ato ou efeito de envergar, envergamento. Distância entre as extremidades das asas abertas de uma ave ou de qualquer animal alado. Distância máxima entre as extremidades das asas de uma aeronave.

Envoltura Ato ou efeito de envolver, envolvimento. Manta em que se envolvem as crianças

Escritura Documento ou forma escrita de um ato jurídico. O Antigo e o Novo Testamento: a Sagrada Escritura.

Page 166: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

166

Espessura Qualidade ou característica do que é espesso. Grau de consistência, da densidade de algo. Medida de grossura.

Estatura Tamanho de uma pessoa. Altura ou grandeza de um ser

animado. Fig. Competência, capacidade, dignidade: não

tem estatura para o cargo.

Fartura Condição do que é farto, abundante. Abundância de alimentos, de provisões. Grande quantidade de algo

Fechadura Ato ou efeito de fechar. Dispositivo de metal que tranca portas.

Feitura Ato, efeito ou modo de fazer; efeito. Obra; execução; trabalho.

Feiura Condição ou estado de quem ou do que é feio; fealdade. Pessoa ou coisa feia.

Ferradura Peça de ferro que se prega na face inferior do casco dos animais de carga, tiro e sela. Reforço de ferro no salto do calçado.

Fervura Estado de um líquido a ferver; ebulição. Fig. Agitação, efervescência, alvoroço.

Finura Qualidade do que é fino, delgado. Característica do que é leve, delicado, sutileza.

Fofura Qualidade de fofo. Pessoa, animal ou coisa fofa, graciosa.

Formatura Ato ou efeito de formar; graduação universitária. Militar Disposição ou alinhamento de tropas.

Formosura Característica do que é formoso, boniteza, beleza.

Fratura Ato ou efeito de fraturar; rutura, quebradura.

Frescura Sensação na pele causada pelo contato de coisa fria. Uso informal: comportamento reservado ou constrangido, afeito a moralismo excessivo; reticência; melindre. Comportamento, modo, hábito próprio de indivíduo fresco, maricas.

Fritura Qualquer coisa frita. O que se frege de uma vez. Ato ou efeito de fritar.

Fundura Altura da profundidade. Comprimento entre a parte anterior e a posterior. Profundidade.

Gastura Bras. Comichão, prurido. Inquietação nervosa, aflição,

Page 167: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

167

mal-estar.

Gordura Tecido adiposo dos animais. Característica daquele que é gordo, excesso de peso.

Gostosura Qualidade do que é gostoso. Iguaria saborosa, guloseima. Mulher bonita, capaz de agradar sexualmente.

Grossura Qualidade de grosso, do que tem grande diâmetro. Dimensão de um sólido que equivale à distância entre a superfície anterior e a posterior. Que é volumoso, corpulento, inchado. Bras. Pop. Grosseria, impolidez.

Investidura Ato de investir uma pessoa na posse de algum cargo ou dignidade; emposse.

Juntura Ato ou efeito de juntar. Ponto onde duas peças ou coisas se juntam ou se articulam. Conjunto de peças necessárias para jungir os bois ao carro.

Laqueadura Ato ou efeito de laquear (-se). Ligadura.

Largura Extensão tomada no sentido perpendicular ao comprimento. Qualquer plano apreciado quanto à sua dimensão transversal: largura do terreno.

Legislatura Corpo legislativo em atividade. Período para o qual se elege uma assembleia legislativa.

Licenciatura Grau universitário que dá o direito de exercer o magistério do ensino médio.

Ligadura Ação de ligar; o mesmo que ligamento. Atadura. Cirurgia. Operação que consiste em apertar um laço em torno de uma parte do corpo, em geral um vaso sanguíneo.

Longura Característica do que é longo, do que apresenta grande extensão no espaço. Retardamento no tempo; delonga demora.

Lonjura Afastamento físico significativo; grande distância. Local muito distante (e por vezes até deserto, ermo).

Loucura Distúrbio, alteração mental caracterizada pelo afastamento mais ou menos prolongado do indivíduo de seus métodos habituais de pensar, sentir e agir.

Magistratura Cargo, função ou dignidade de magistrado. O exercício desse cargo ou função: Destacou-se na magistratura. Duração desse exercício: Sua magistratura foi de 15 anos.

Page 168: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

168

O conjunto dos magistrados.

Mordedura Ato ou efeito de morder. Marca deixada pela ação de morder.

Negrura A cor negra. Qualidade de negro, negridão. Atitude má, perversa. Profundo desencanto, melancolia, tristeza.

Nervura Cada uma das fibras ou veios das folhas e das pétalas. Linha ou moldura saliente que separa os panos de uma abóbada. Tubo córneo ramificado nas asas dos insetos.

Partitura Disposição gráfica das diversas partes que formam uma

peça musical, particularmente sinfônica.

Picadura Picada, ferida, mordedura.

Pintura Arte de pintar. Arte ou ofício do pintor. Revestimento de uma superfície com substância corante: A pintura do muro ficou ótima.

Postura Atitude do corpo. Composição para dar mais realce ao rosto; arrebique. Expressão da fisionomia.

Queimadura Ação ou resultado de queimar; queima; queimação. Ferimento causado por fogo, raios solares ou substância química.

Quentura Estado do que é quente, calor. Alta temperatura. Febre. Extensão de sentido: sensualidade.

Rachadura Ato ou efeito de rachar. Abertura longitudinal, resultante de fratura ou ruptura; racha; fenda, greta.

Rapadura Ato ou efeito de rapar; rapadela. Bras. Açúcar mascavo em forma de tijolo.

Secura Qualidade, estado ou condição de seco. Falta de água, estiagem, seca. Esterilidade.

Semeadura Ação ou resultado de semear; semeação. P.ext. Terra ou campo semeado; semeada. Quantidade de grão suficiente para semear uma extensão de terra.

Sepultura Ato de sepultar. Cova, lugar onde se sepultam os

cadáveres. Sepulcro; jazigo. O fim da vida, a morte.

Soltura Ato ou efeito de soltar. Arrojo; atrevimento. Dissolução; licenciosidade. Diarreia, disenteria.

Temperatura Estado sensível do ar frio ou quente. Grau de calor num

Page 169: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

169

corpo ou num lugar.

Ternura Qualidade do que é terno; meiguice. Afeto brando e carinhoso.

Tenrura Qualidade ou estado de tenro.

Tessitura Disposição das notas musicais para se acomodarem a certa voz ou instrumento. Contextura; organização.

Tesura Estado de um corpo teso. Força, rigidez. Fig. Orgulho,

vaidade.

Textura Ação ou resultado de tecer. Trama, tecido, entrelaçamento dos fios, contextura. Constituição geral de um material sólido.

Tintura Ato ou efeito de tingir. Medicamento obtido por contato com álcool, de diversas substâncias de origem vegetal, animal ou químicas.

Tontura Perturbação cerebral. Sensação ilusória de movimento do corpo ou movimento à volta do corpo.

Travessura Ação de pessoa travessa. Traquinada de crianças.

Desenvoltura. Brincadeira, brejeirice, agitação; malícia.

Varredura Ação de varrer. Lixo que se acumula varrendo. Varredela. Exploração ou busca minuciosa; rastreamento.

Verdura A cor verde dos vegetais, a vegetação, verdor. Bot. Planta comestível, ger. cultivada em hortas; hortaliça.

Page 170: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

170

ANEXO II

Categoria morfológica da base e primeira ocorrência na língua.

PALAVRA BASE CATEGORIA DATAÇÃO

Abertura Do latim abertura XIV

Abotoadura Abotoado Verbo (particípio) XIV

Abreviatura Do italiano abbreviatura

1536

Advocatura Do latim advocatura 1712

Agrura Agro Adjetivo XV

Altura Alto Adjetivo XIII

Alvura Alvo Adjetivo XIV

Amargura Amargo Adjetivo XIII

Andadura Andado Verbo (particípio) XIV

Apertura Aperto Verbo (particípio) 1516

Armadura Do latim armatura 1344

Arquitetura Do latim architectura 1561

Assadura Do latim assatura XIV

Assinatura Do latim assinatura 1504

Atadura Atado Verbo (particípio) XIV

Baixura Baixo Adjetivo XV

Belezura Beleza Substantivo abstrato XX

Benzedura Benzido Verbo (particípio) 1789

Brancura Branco Adjetivo XIII

Brandura Brando Adjetivo XIV

Bravura Bravo Adjetivo XIV

Page 171: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

171

Brochura Do francês brochure 1820

Candidatura Do francês candidature 1858

Candura Cândido Adjetivo 1614

Cavalgadura Cavalgado Verbo (particípio) XIV

Censura Do latim censura 1402

Chatura Chato Adjetivo ---------------

Cintura Do latim cinctura XIV

Cobertura Do latim coopertura 1257

Criatura Do latim criatura XIII

Cultura Do latim cultura XV

Curvatura Do latim curvatura 1560

Dentadura Dentado Verbo (particípio) 1697

Desenvoltura Do italiano desenvolture

XV

Ditadura Do latim dictadura 1563

Dobradura Dobrado Verbo (particípio) 1562

Doçura Doce Adjetivo XV

Embocadura Embocado Verbo (particípio) 1673

Envergadura Envergado Verbo (particípio) 1844

Envoltura Envolto Verbo (particípio) XIV

Escritura Do latim scriptura XIII

Espessura Espesso Adjetivo XIV

Estatura Do latim estatura XV

Fartura Do latim fartura XIV

Fechadura Fechado Verbo (particípio) XIV

Feitura Feito Verbo (particípio) XIII

Feiura Feio Adjetivo 1918

Ferradura Ferrado Verbo (particípio) 1110

Page 172: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

172

Fervura Do latim fervura XIV

Finura Fino Adjetivo XIX

Fofura Fofo Adjetivo 1994

Formatura Do latim Formatura 1697

Formosura Formoso Adjetivo 1344

Fratura Do latim fractura 1202

Frescura Fresco Adjetivo 1543

Fritura Frito Verbo (particípio) 1836

Fundura Fundo Adjetivo XV

Gastura Gasto Verbo (particípio) XIX

Gordura Gordo Adjetivo XIV

Gostosura Gostoso Adjetivo 1918

Grossura Grosso Adjetivo XIII

Investidura Investido Verbo (particípio) XV

Juntura Junto Verbo (particípio) XV

Laqueadura Laqueado Verbo (particípio) XX

Largura Largo Adjetivo XV

Legislatura Do francês legislature 1770

Licenciatura Do latim licenciatura 1654

Ligadura Do latim ligatura XIII

Longura Longo Adjetivo XIV

Lonjura Longe Advérbio XIX

Loucura Louco Adjetivo XIII

Magistratura Do latim magistratura Verbo (particípio) 1760

Mordedura Mordido Verbo (particípio) XIV

Negrura Negro Adjetivo XIV

Nervura Nervo Substantivo 1788

Partitura Do italiano partitura 1789

Page 173: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

173

Picadura Picado Verbo (particípio) XV

Pintura Do latim pinctura 1103

Postura Do latim postura XIII

Queimadura Queimado Verbo (particípio) XV

Quentura Quente Adjetivo XIII

Rachadura Rachado Verbo (particípio) XVI

Rapadura Rapado Verbo (particípio) XIV

Secura Seco Adjetivo XIV

Semeadura Semeado Verbo (particípio) XV

Sepultura Do latim sepultura XIII

Soltura Solto Verbo (particípio) XIII

Temperatura Do latim temperatura XVII

Tenrura Tenro Adjetivo XVII

Ternura Terno Adjetivo XVI

Tessitura Do italiano tessitura XIX

Tesura Teso Adjetivo 1721

Textura Do latim textura 1691

Tintura Do latim tinctura XIV

Tontura Tonto Adjetivo 1836

Travessura Travesso Adjetivo XIII

Varredura Varrido Verbo (particípio) XV

Verdura Verde Adjetivo XIV

Page 174: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

174

ANEXO III

Número de ocorrências no site de busca Google dos vocábulos utilizados no

corpus.

PALAVRA OCORRÊNCIAS NO GOOGLE

Abertura 81.400.000

Abotoadura 65.300

Abreviatura 3.000.000

Advocatura 106.000

Agrura 70.400

Altura 228.000.000

Alvura 2.550.000

Amargura 8.070.000

Andadura 3.250.000

Apertura 682.000.000

Armadura 14.300.000

Assadura 200.000

Assinatura 40.800.000

Atadura 40.800.000

Arquitetura 38.400.000

Baixura 70.900

Belezura 388.000

Benzedura 944.000

Brancura 224.000

Brandura 224.000

Bravura 7.820.000

Brochura 6.110.000

Page 175: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

175

Candidatura 49.100.000

Candura 426.000

Cavalgadura 50.300

Censura 43.900.000

Chatura 247.000

Cintura 46.100.000

Cobertura 102.000.000

Criatura 19.700.000

Cultura 715.000.000

Curvatura 4.950.000

Dentadura 3.280.000

Desenvoltura 1.650.000

Ditadura 10.500.000

Dobradura 1.150.000

Doçura 3.370.000

Embocadura 638.000

Envergadura 8.220.000

Envoltura 4.180.000

Escritura 49.800.000

Espessura 9.760.000

Estatura 19.800.000

Fartura 6.350.000

Fechadura 3.490.000

Feiura 493.000

Ferradura 1.530.000

Fervura 722.000

Finura 1.400.000

Fofura 2.890.000

Formatura 5.850.000

Formosura 493.000

Fratura 2.680.000

Page 176: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

176

Frescura 11.300.000

Fritura 1.240.000

Fundura 86.400

Feitura 2.550.000

Gastura 55.300

Gordura 13.200.000

Gostosura 388.000

Grossura 366.000

Investidura 4.230.000

Juntura 866.000

Laqueadura 200.000

Largura 32.000.000

Legislatura 26.800.000

Licenciatura 32.000.000

Ligadura 921.000

Longura 50.600

Lonjura 55.900

Loucura 20.900.000

Magistratura 13.700.000

Mordedura 1.060.000

Negrura 609.000

Nervura 191.000

Partitura 12.300.000

Picadura 2.640.000

Pintura 189.000.000

Postura 46.900.000

Queimadura 1.090.000

Quentura 131.000

Rachadura 674.000

Rapadura 2.500.000

Secura 5.630.000

Page 177: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

177

Semeadura 866.000

Sepultura 17.700.000

Soltura 4.270.000

Temperatura 178.000.000

Ternura 22.300.000

Ternura 55.600

Tessitura 2.780.000

Tesura 79.400

Textura 28.700.000

Tintura 5.240.000

Tontura 800.000

Travessura 395.000

Varredura 2.390.000

Verdura 21.300.000

Page 178: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

178

ANEXO IV

Separação dos vocábulos por século.

Sem datação

Chatura

Século XII

Palavra Datação

Pintura 1103

Ferradura 1110

Século XIII

Palavra Datação

Altura XIII

Amargura XIII

Brancura XIII

Criatura XIII

Escritura XIII

Feitura XIII

Grossura XIII

Ligadura XIII

Loucura XIII

Postura XIII

Quentura XIII

Sepultura XIII

Page 179: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

179

Soltura XIII

Travessura XIII

Vestidura XIII

Fratura 1202

Cobertura 1257

Século XIV

Palavra Datação

Abertura XIV

Abotoadura XIV

Alvura XIV

Andadura XIV

Assadura XIV

Atadura XIV

Brandura XIV

Bravura XIV

Cavalgadura XIV

Cintura XIV

Envoltura XIV

Espessura XIV

Fartura XIV

Fechadura XIV

Fervura XIV

Gordura XIV

Longura XIV

Mordedura XIV

Negrura XIV

Page 180: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

180

Rapadura XIV

Secura XIV

Tintura XIV

Verdura XIV

Armadura 1344

Formosura 1344

Século XV

Palavra Datação

Censura 1402

Agrura XV

Baixura XV

Cultura XV

Desenvoltura XV

Doçura XV

Estatura XV

Fundura XV

Investidura XV

Juntura XV

Largura XV

Picadura XV

Queimadura XV

Semeadura XV

Varredura XV

Page 181: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

181

Século XVI

Palavra Datação

Assinatura 1504

Apertura 1516

Abreviatura 1536

Frescura 1543

Curvatura 1560

Arquitetura 1561

Dobradura 1562

Ditadura 1563

Rachadura XVI

Ternura XVI

Século XVII

Palavra Datação

Temperatura XVII

Tenrura XVII

Candura 1614

Licenciatura 1654

Embocadura 1673

Textura 1691

Dentadura 1697

Formatura 1697

Século XVIII

Palavra Datação

Advocatura 1712

Page 182: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

182

Tesura 1721

Magistratura 1760

Legislatura 1770

Nervura 1788

Benzedura 1789

Partitura 1789

Século XIX

Palavra Datação

Brochura 1820

Candidatura 1858

Envergadura 1844

Finura XIX

Fritura 1836

Gastura XIX

Lonjura XIX

Tessitura XIX

Tontura 1836

Século XX

Palavra Datação

Feiura 1918

Gostosura 1918

Fofura 1994

Belezura XX

Laqueadura XX

Page 183: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

183

ANEXO V

Separação dos vocábulos por função nominalizadora.

Nominalização Referenciação Abstratização Intensificação

Benzedura Abertura Agrura Apertura

Censura Abotoadura Altura Baixura

Embocadura Abreviatura Alvura Belezura

Envoltura Advocatura Amargura Chatura

Investidura Andadura Brancura Fartura

Ligadura Armadura Brandura Feiura

Rapadura Arquitetura Bravura Fofura

Semeadura Assadura Candura Frescura

Soltura Assinatura Desenvoltura Fundura

Varredura Atadura Doçura Gastura

Brochura Envergadura Juntura

Candidatura Espessura Longura

Cavalgadura Estatura Lonjura

Cintura Finura Negrura

Cobertura Formosura Quentura

Criatura Gordura Secura

Cultura Grossura

Curvatura Largura

Dentadura Loucura

Ditadura Nervura

Dobradura Postura

Escritura Ternura

Fechadura Tesura

Page 184: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

184

Feitura Tontura

Ferradura Verdura

Fervura Tenrura

Formatura

Fratura

Fritura

Laqueadura

Legislatura

Licenciatura

Magistratura

Mordedura

Partitura

Picadura

Pintura

Queimadura

Rachadura

Sepultura

Temperatura

Tessitura

Textura

Tintura

Travessura

Page 185: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

185

ANEXO VI

Textos utilizados na constituição do corpus histórico retirados do

CorpusdoPorguês.org.

TEXTO DATAÇÃO

A demanda do Santo Graal XV

Adonias Aguiar – Corpo Vivo 1962

Afonso X – Primeira Partida 1300

Aluísio de Azevedo – O Mulato 1881

Angela Abreu – Santa Sofia 1997

António Nunes Ribeiro Sanches – cartas sobre a educação da

mocidade

1760

Aquilino Ribeiro – Terras do Demo 1919

Artur Azevedo – A capital Federal XX

Bento Pereira – Prosodia 1697

Bento Pereira – Tesouro da Língua Portuguesa 1697

Boosco Deleitoso 1400-1451

Cecília Meireles – Olhinhos de gato 1939

Crónica da Ordem dos Frades Menores 1209-1285

Crónica do Conde D. Pedro de Meneses 1400-1500

Crónica Geral de Espanha de 1344 1344

Cronica Troyana 1388

Eça de Queirós – O Crime do Padre Amaro 1875

Eça de Queirós – O Primo Basílio XIX

Eça de Queirós – Os Maias 1888

Eça de Queirós– A ilustre casa de Ramires 1900

Emílio de Menezes – prosa de circunstância XIX

Page 186: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

186

Érico Veríssimo – O tempo e o vento 1961

Euclides da Cunha – Peru versus Bolívia XIX

Euclides da Cunha – Sertões 1902

Fernão Lopes – Crónica de Dom Fernando XV

Fialho de Almeida – Gatos XIX

FOLHA:10064:SEC:des 1994

FOLHA:11348:SEC:soc 1994

Francisco Costa – cárcere invisível 1972

Francisco de Holanda – Da pintura antiga 1561

Francisco J. C. Dantas – Cartilha do Silêncio 1997

Francisco Rodrigues Lobo – Côrte na Aldeia e Noites de Inverno 1607

Frei Tomé de Jesus – Trabalhos de Jesus 1529-1582

Fróis – História do Japam 1 1560-1580

Garcia de Resende – Cancioneiro de Resende 1516

Garcia de Resende – Vida e feitos d’el-rey Dom João Segundo 1533

Gonçalo Fernandes Trancoso – Proveito 1517-1594

Gonçalo Garcia de Santa Maria - Euangelhos e epistolas con

suas exposições en romãce

1497

Jerónimo Cardoso – Dicionário Portugues Latim 1562

João de Barros – Gramática da Língua Portuguesa 1540

José de Alencar – Til XIX

José Pixote Louzeiro – Infância dos Mortos 1977

Joyce Cavalcante – Inimigas íntimas 1993

Lídia Jorge – Antonio XX

Lima Barreto – Cemitério dos vivos 1881

Livro de vita Christi 1446

Lucena - Historia da vida do Padre S. Francisco Xavier 1600

Machado de Assis – Dom Casmurro 1899

Machado de Assis – Esaú e Jacó 1904

Manoel de Oliveira Paiva – Dona Guidinha do Poço XIX

Notários – inquisições manuelinas XVI

Page 187: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

187

Paulo de Carvalho-Neto – Suomi 1986

Pedro Taques de Almeida Paes Leme - Nobiliarquia paulistana

histórica e genealógica

1770

Pinheiro Landim 1997

Posturas do Conselho de Lisboa 1360

Rafael Bluteau – Vocabulario portuguez e latino 1712-1721

Rui de Pina – Crónica de Dom Duarte XV

Sílvio Benfica XX

Soror Maria do Céu – Aves Ilustrados 1738

Textos Notariais. Clíticos na História do Português 1304

Textos Notariais. Clíticos na História do Português 1402-1499

Textos Notariais. Documentos Notariais dos Séculos XII a XVI. 1200-1300

Textos Notariais. Documentos Notariais dos Séculos XII a XVI. 1300-1400

Textos Notariais. História do galego-português 1301-1399

Tomaz de Figueiredo – A Gata Borralheira 1954

Tratado da Cozinha Portuguesa 1400

Vida e feitos de Júlio Cesar 1400-1500

Xambioá: Guerrilha no Araguaia – Cabral, Pedro Corrêa 1993

Page 188: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

188

ANEXO VII

EXPERIMENTO Sexo: ( ) M ( ) F Idade: ______ Período: ______ Neste experimento, estamos interessados em compreender as suas intuições, como falante nativo da língua portuguesa, sobre a aceitabilidade de alguns itens. Avalie as palavras a seguir atribuindo um valor de 1 a 3: da mais conhecida (1) à palavra menos recorrente (3). Sinta-se livre para usar qualquer valor da escala, escrevendo o número na linha abaixo de cada palavra. Mas não leve muito tempo pensando; marque os itens de acordo com a sua primeira impressão. Obrigado pela colaboração!

1) Twitação Twitamento Twitura

2) Bateção Batimento Batidura

3) Estudação Estudamento Estudadura

4) Zapeação Zapeamento Zapeadura

5) Cortação Cortamento Cortadura

6) Deletação Deletamento Deletura

1------------------------------------------------------ 3 ---------------------------------------------------5 | | | não aceitável aceitável plenamente aceitável

Page 189: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

189

ANEXO VIII

Pequeno corpus com os outros afixos utilizados na comparação

Sufixo –mento

Palavra Categoria da base

Emagrecimento Verbo

Fechamento Verbo

Afastamento Verbo

Saneamento Verbo

Atropelamento Verbo

Firmamento Verbo

Comportamento Verbo

Sofrimento Verbo

Casamento Verbo

Crescimento Verbo

Sufixo -ção

Palavra Categoria da base

Animação Verbo

Oração Verbo

Invenção Verbo

Cotação Verbo

Medição Verbo

Competição Verbo

Terminação Verbo

Intensificação Verbo

Page 190: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

190

Nominalização Verbo

Abstratização Verbo

Sufixo –agem

Palavra Categoria da base

Barragem Verbo

Drenagem Verbo

Aprendizagem Verbo

Filmagem Verbo

Decolagem Verbo

Folhagem Substantivo

Pastagem Verbo

Molecagem Substantivo

Criadagem Substantivo

Malandragem Adjetivo

Sufixo –ice

Palavra Categoria da base

Burrice Adjetivo

Chatice Adjetivo

Idiotice Adjetivo

Velhice Adjetivo

Gordice Adjetivo

Babaquice Adjetivo

Tontice Adjetivo

Meninice Substantivo

Tolice Adjetivo

Canalhice Adjetivo

Page 191: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

191

Sufixo –eza

Palavra Categoria da base

Magreza Adjetivo

Avareza Adjetivo

Riqueza Adjetivo

Beleza Adjetivo

Esperteza Adjetivo

Tristeza Adjetivo

Dureza Adjetivo

Malvadeza Adjetivo

Frieza Adjetivo

Moleza Adjetivo

Sufixo –ão

Palavra Categoria da base

Mulherão Substantivo

Lonjão Advérbio

Solzão Substantivo

Carrão Substantivo

Filhão Substantivo

Cabeção Substantivo

Fortão Adjetivo

Festão Substantivo

Gordão Adjetivo

Chatão Adjetivo

Sufixo –inho

Palavra Categoria da base

Mulherzinha Substantivo

Page 192: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

192

Filminho Substantivo

Cafezinho Substantivo

Carrinho Substantivo

Garotinho Substantivo

Fofinho Adjetivo

Lindinho Adjetivo

Pertinho Advérbio

Doidinho Adjetivo

Mortinho Substantivo

Sufixo –oso

Palavra Categoria da base

Saboroso Adjetivo

Feioso Adjetivo

Gostoso Adjetivo

Meloso Adjetivo

Jeitoso Adjetivo

Carinhoso Adjetivo

Danoso Adjetivo

Perigoso Adjetivo

Famoso Adjetivo

Maldoso Adjetivo

Sufixo –udo

Palavra Categoria da base

Narigudo Substantivo

Barrigudo Substantivo

Peitudo Substantivo

Bundudo Substantivo

Page 193: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

193

Orelhudo Substantivo

Bicudo Substantivo

Peludo Substantivo

Barbudo Substantivo

Carnudo Substantivo

Pontudo Substantivo

Sufixo –ção intensificador

Palavra Categoria da base

Falação Verbo

Pegação Verbo

Beijação Verbo

Bebeção Verbo

Forçação Verbo

Colação Verbo

Mordeção Verbo

Começão Verbo

Compração Verbo

Ficação Verbo

Page 194: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

Universidade Federal do Rio de Janeiro

LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA ABORDAGEM

MULTISSISTÊMICA DO SUFIXO NOMINALIZADOR –URA NO

PORTUGUÊS.

ANA CAROLINA MRAD DE MOURA VALENTE

2012

Page 195: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

Faculdade de Letras / UFRJ

LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA ABORDAGEM

MULTISSISTÊMICA DO SUFIXO NOMINALIZADOR –URA NO

PORTUGUÊS.

ANA CAROLINA MRAD DE MOURA VALENTE

Dissertação de Mestrado apresentada ao

Programa de Pós-Graduação em Letras

Vernáculas da Universidade Federal do Rio de

Janeiro, como parte dos requisitos necessários

à obtenção do título de Mestre em Letras

Vernáculas (Língua Portuguesa).

Orientadora: Maria Lucia Leitão de Almeida

Co-orientador: Carlos Alexandre Victorio

Gonçalves

Rio de Janeiro

Agosto de 2012

Page 196: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

Loucura, loucura, loucura!: Uma análise pela abordagem Multissistêmica do

sufixo nominalizador –ura no português.

Ana Carolina Mrad de Moura Valente

Orientadora: Maria Lucia Leitão de Almeida

Co-orientador: Carlos Alexandre Victorio Gonçalves

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em

Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos

requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Vernáculas

(Língua Portuguesa).

Examinada por:

______________________________________________________________________

Presidente, Professora Doutora Maria Lúcia Leitão de Almeida – UFRJ

______________________________________________________________________

Professor Doutor Janderson Lemos de Souza - UNIFESP

______________________________________________________________________

Professora Doutora Verena Kewitz - USP

______________________________________________________________________

Professor Doutor Carlos Alexandre Victorio Gonçalves - UFRJ

______________________________________________________________________

Professora Doutora Sandra Pereira Bernardo - UERJ

______________________________________________________________________

Professora Doutora Maria Aparecida Lino Pauliukonis - UFRJ

Rio de Janeiro

Agosto de 2012

Page 197: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

VALENTE, Ana Carolina M. de M.

Loucura, loucura, loucura!: Uma análise pela abordagem Multissistêmica

do sufixo nominalizador –ura no português./ Ana Carolina Mrad de Moura

Valente. – Rio de Janeiro: UFRJ/ Faculdade de Letras, 2012.

XIII, 193f.: il.; 31cm

Orientadora: Maria Lucia Leitão de Almeida

Co-orientador: Carlos Alexandre Victorio Gonçalves

Dissertação (Mestrado) - UFRJ/ Faculdade de Letras / Programa de Pós-

Graduação em Letras Vernáculas (Língua Portuguesa), 2012.

Referências bibliográficas: p. 154-162.

1. Nominalização. 2. Gramática Multissistêmica. 3. Linguística Cognitiva.

4. Escaneamento cognitivo. I. Almeida, Maria Lucia Leitão de; Gonçalves,

Carlos Alexandre Victorio. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro,

Faculdade de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas

(Língua Portuguesa). III. Título.

Page 198: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

RESUMO

Loucura, loucura, loucura!: Uma análise pela abordagem Multissistêmica do

sufixo nominalizador –ura no português.

Este trabalho busca investigar qual o status do sufixo nominalizador -ura

na língua portuguesa, verificável em palavras como ternura, loucura, assinatura,

fartura e lonjura. Para tanto, temos por objetivo revisitar desde a tradição

gramatical à literatura morfológica de cunho derivacional, visando verificar

como o afixo em questão é tratado pelos diversos autores desses estudos

linguísticos. Além disso, devido ao fato de haver, na língua, inúmeros afixos

nominalizadores, buscamos também verificar e estudar as diferentes funções

que o afixo em questão exerce e qual papel é conferido apenas a ele, ou seja,

como este se diferencia dos demais. Em seguida, com base em um corpus

constituído de setenta e nove vocábulos coletados nos dicionários eletrônicos

Houaiss e Aurélio, observaremos a distribuição dos dados dentro dessas

funções e pretendemos comprovar as hipóteses levantadas anteriormente sobre

o tema. Como aporte teórico, utilizaremos a Gramática Multissistêmica de

Castilho (2010) e, portanto, faremos um breve passeio pelos pressupostos da

citada teoria e analisaremos os dados a partir dos quatro sistemas selecionados

e desenvolvidos pelo autor. Como tal teoria tem por base as linguísticas

funcionalista e cognitiva, também faremos um breve resumo sobre tais teorias a

fim de corroborar e dar suporte aos postulados e pressupostos seguidos pela

Multissistêmica.

Palavras-chave: nominalização, linguística cognitiva, multissistêmica.

Rio de Janeiro

Agosto de 2012

Page 199: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

ABSTRACT

Loucura, Loucura, Loucura!: A multisystemic approach for the analysis of the

nominalizer suffix-ura in Portuguese.

This work seeks to investigate the status of the nominalizer suffix -ura in the

Portuguese language, verified in words like ternura, loucura, assinatura, fartura e

lonjura. For this, we aim to revisit since the tradition grammar until the

morphological derivation literature to verify how the affix in question is treated

by several authors. Furthermore, due to the fact that there are, in the language,

many nominalizers affixes, we also check and study the different roles that the

affix in question performs and what role is given to him alone, that is, what

differs –ura from the others. Then, based on a corpus collected in electronic

dictionaries as Houaiss and Aurelio, we observe the distribution of words

within these functions and we intend to prove the assumptions earlier made

about the issue. So, we decided to use the Multisystemic Grammar of Castilho

(2010) and, because of that, we are going to make a tour by the assumptions of

that theory and analyze the words from the four systems selected and

developed by the author. As this theory is based on the cognitive and

functionalist linguistic, we will also make a brief summary of these theories in

order to corroborate and support the postulates and assumptions followed by

Multisystemic.

Keywords: nominalization, cognitive linguistics, multisystem.

Rio de Janeiro

Agosto de 2012

Page 200: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

SINOPSE

Nominalização em português.

Funções da nominalização.

Comparação com outros afixos.

Gramática Multissistêmica. Análise a

partir dos sistemas da língua.

Page 201: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

Esta pesquisa foi parcialmente financiada pelo Conselho

Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

(CNPq).

Page 202: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

DEDICATÓRIA

A uma mulher que sempre acreditou em mim e apoiou

todas as minhas decisões. A ela que fez de mim quem sou:

Emerentina Moura Valente (in memoriam), minha avó.

Page 203: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

Pudim

A vida anda cheia de meias porções,

de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade.

Tantos deveres, tanta preocupação em 'acertar',

tanto empenho em passar na vida sem pegar

[recuperação...

Aí a vida vai ficando sem tempero,

politicamente correta e existencialmente sem-graça,

enquanto a gente vai ficando melancolicamente

sem tesão . . .

Às vezes dá vontade de fazer tudo 'errado'.

Ser ridícula, inadequada, incoerente

e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a

[nosso respeito.

Recusar prazeres incompletos e meias porções.

Um dia a gente cria juízo.

Um dia.

Não tem que ser agora.

Depois a gente vê como é que faz pra consertar o

[estrago.

Martha Medeiros

Page 204: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

AGRADECIMENTOS

Agradecer é o mesmo que demonstrar gratidão a alguém por algum feito

em especial que nos marcou de alguma forma. No entanto, muitas vezes um

“muito obrigada” não exprime realmente toda a gratidão que sentimos, tudo o

que queremos falar ou demonstrar. Parece que apenas estamos cumprindo um

ritual que nos foi passado por nossos pais de que devemos agradecer até as

pequenas coisas e que um “muito obrigada” ou um “valeu” é sempre muito

bem vindo. Portanto, queria aproveitar esse pequeno espaço para fazer mais do

que isso: gostaria de agradecer com palavras menos fugidias às pessoas que

marcaram minha vida e me ajudaram muito nessa caminhada tão cheia de

percalços.

Primeiramente, gostaria de agradecer a Deus por me guiar, me apoiar e

me mostrar sempre o caminho da luz, mesmo que para alcançar esse caminho

tenha que ultrapassar um túnel escuro. Agradeço a Ele por me mostrar sempre

que é possível, basta querer, ter fé e acreditar em si mesmo. Sou grata a Ele por

me fazer atravessar esse túnel, mas nunca fazê-lo sozinha; por colocar pessoas

tão importantes em minha vida. Obrigada por cada momento bom pelo qual

passei, por cada problema que tive que aprender a enfrentar, por todos os

amigos que fiz. Acredito que todos eles são anjos enviados pelo Senhor para me

ajudar nessa caminhada. Portanto, o meu “muito obrigada”!

Existem duas pessoas que são de extrema importância para mim e a

quem devoto os meus mais sinceros sentimentos de gratidão e amor mais puro

Page 205: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

e sublime: meu pais, Eliane e Marco Antônio. A vocês, só posso dedicar cada

minuto da minha vida, cada sucesso alcançado e amá-los por toda eternidade.

São as pessoas que me deram a vida e me ensinaram a ser quem sou; aqueles

que me apoiaram e estiveram sempre a meu lado. Muito obrigada pelo carinho

sem limite, pelas risadas, pelo ombro nas horas difíceis, pelas broncas, pelos

empurrões para seguir em frente, por acreditarem em mim quando nem eu

mesma acreditava, por se orgulharem de mim. Quero dizer a vocês que o meu

objetivo na vida é retribuir, mesmo que minimamente porque é quase

impossível retribuir tudo o que já fizeram por mim, todo o carinho e dedicação

que tiveram e fazer com que se orgulhem cada vez mais de quem a sua filha se

tornou.

Às minhas irmãs também devo agradecer, pois, apesar das brigas

intermináveis com a Juliana e a falta de convivência diária com a Julia e a Luiza,

são elas os laços mais próximos e fortes que tenho e com os quais não quero

romper. São vocês que me fazem rir quando a vida parece não ter mais jeito.

São vocês, minhas “rimãs” mais novas, que vi crescer e de quem pretendo

cuidar e apoiar sempre. “Rimãs”, vocês são meus amores e, mesmo tendo

momentos difíceis, sei que é com vocês que vou poder contar sempre.

Agradeço também aos meus tios, primos, agregados, avós, afilhados,

amigos por estarem sempre a meu lado e aceitarem minha ausência em eventos

sociais ou até mesmo em visitas rotineiras. Muito obrigada pela compreensão

de todos vocês.

Page 206: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

Agradeço em especial à minha avó Emerentina, a quem dedico esta

dissertação, por ser um exemplo de mulher forte, batalhadora, um exemplo de

mãe e avó, daquelas que carrega os pintinhos debaixo das suas asas e que vira

uma leoa se alguém mexe com a sua cria. Obrigada, meu docinho, por sempre

me apoiar, me ouvir, por compartilhar comigo as suas histórias de vida e me

ajudar a seguir meu caminho. Obrigada por todas as palavras de apoio, por

todas as broncas, por acreditar em mim nos momentos de mais descrédito, por

confiar na minha capacidade e se orgulhar de mim. Vó, essa dissertação é para

você e sei que de onde estiver, estará assistindo minha defesa segurando suas

mãozinhas magras e com um sorriso no rosto ao ver que sua neta chegou onde

NÓS havíamos planejado chegar. Em todos os momentos difíceis, ainda sinto a

sua presença comigo e me sinto protegida, pois agora Deus tem mais um anjo

no céu pra me guiar. Eu te amo, meu docinho de coco!

Sou grata também a minha avó Eleonora por todo apoio, todos os

conselhos, pelos cafunés, por sempre coçar minhas costas enquanto vemos

televisão e por todos os momentos que passamos juntas. Se quiser rir, é só ficar

com ela por apenas 10 minutos. Nesse curto espaço de tempo vai vir uma

história engraçada, uma risada gostosa, uma distração dos problemas. Vozinha,

eu te amo muito!

Quando entrei na faculdade, achei que faria amigos de ocasião, apenas

acadêmicos, mas me surpreendi quando conheci duas pessoinhas que estão

comigo até hoje e que fizeram desse meu trajeto muito melhor e mais fácil,

afinal de contas, uma vida acadêmica que se preze é feita de estudos e de

Page 207: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

amizades que te ajudam nessa caminhada e tornam sua vida mais leve e

divertida. Dedico, portanto, esse espaço às pessoas mais ridículas, sem noção,

indiscretas e amigas por isso mesmo. Caio e Érica, obrigada por estarem comigo

em todos os momentos bons e ruins, por todas as risadas, por todas as viagens –

algumas delas meio programa de índio, confesso – por todas as palavras de

conforto. Caio, minha alma gêmea acadêmica; aquele que me completa quando

o assunto é a língua portuguesa, que completa minhas frases e meus

pensamentos, que divide comigo as mesmas convicções e que estará lá sempre

para rir de mim quando eu chorar. Érica, cabeção, uma irmã que a vida me deu,

alguém com quem sei que posso contar, que vai estar comigo quando eu

precisar e que vai rir muito de mim – depois de secar minhas lágrimas, claro.

Agradeço também à Elaine por me apoiar nos momentos mais difíceis e por nos

fazer rir de suas ideias brilhantes.

Dedico também este espaço aos amigos que a vida me deu e que a

tornaram mais divertida e leve. À Andreza, por todas as conversas, conselhos,

risadas, choros, por me emprestar sempre seu ombro amigo e se tornar uma

irmã em tão pouco tempo. Você, minha linda, me ensinou a ser uma pessoa

melhor e a me preocupar menos com os problemas da vida. Graças a você, sou

mais feliz. Ao Thadeu, por me apoiar, me ouvir, me fazer rir quando eu queria

chorar, por me ensinar que a vida pode ser muito divertida, até nos momentos

mais difíceis, por acreditar em mim e confiar no meu trabalho, pois é graças a

você, meu bem, que me tornei uma profissional na área da educação. Conversar

sobre qualquer assunto com você na porta de casa só me faz perceber que os

Page 208: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

problemas são bem menores do que aparentam ser e que tudo no final pode ser

resolvido. Ao Luiz Fernando, por ser meu amigo, meu conselheiro, meu

ouvinte nas horas difíceis, meu companheiro para todas as horas; por me

incentivar e me dar metas e prazos pra cumprir e terminar a dissertação a

tempo. Lindo, muito obrigada pelas nossas risadas, conversas, pelas brigas e

discussões também, por todos os momentos compartilhados. Aos três, obrigada

por me apoiarem e por me tornarem uma pessoa mais feliz.

Agradeço também aos meus amigos de todas as horas Flávia Meslin,

Jessyca Soares, Fernanda Souza, Victor Hugo, Carolina Gomes, Úrsula Antunes

(ou Sula para os mais íntimos) e muitos outros por me apoiarem e me

acompanharem durante todos esses anos tornando a minha vida mais colorida.

Ao amigo Roberto Rondinini, por me emprestar seu ombro nos momentos de

desespero e por me fazer rir de mim mesma e dos meus problemas.

Aos professores da pós-graduação pela paciência e atenção que

dedicaram a mim e pelo respeito que sempre tiveram. Obrigada por todos os

ensinamentos, Margarida Basilio, Márcia Machado, Sílvia Brandão, Elite

Silveira, Maria Eugênia Lamoglia, Mônica Orsini, Maria Lúcia Leitão e Carlos

Alexandre Gonçalves.

Um agradecimento em especial deve ser feito àquele que confiou em

mim desde o começo, há muitos anos atrás, que viu em mim um potencial e me

aceitou como sua orientanda ainda em Iniciação Científica: o professor Carlos

Alexandre Gonçalves. Sou muito grata a você por acreditar no meu trabalho e

me mostrar que sou maior do que acredito ser. Obrigada por me ouvir, me

Page 209: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

orientar, me dar força e apoio para continuar seguindo na vida acadêmica.

Portanto, a você, só posso fazer elogios, pois é um exemplo de ética e

profissionalismo, além de ter me feito crescer dentro da universidade e como

ser humano.

Também não posso deixar de agradecer a uma pessoa muito importante

em minha jornada acadêmica: a professora Maria Lúcia Leitão. Obrigada por

acreditar no meu trabalho, por confiar em mim e por me ensinar que devemos

aprender a superar os obstáculos que a vida nos impõe e seguir em frente

sempre com um sorriso no rosto. Obrigada por me ensinar a andar com os

próprios pés, pois isso é muito importante na vida acadêmica. Só tenho a

agradecer a confiança que sempre depositou em mim e o carinho com o qual

sempre me tratou, além de todo incentivo que recebi para continuar seguindo

em frente.

Aos professores Janderson Lemos de Souza, Verena Kewitz, Maria

Aparecida Lino e Sandra Pereira Bernardo por aceitarem meu convite para

participarem da banca desta dissertação.

Agradeço também às leituras atentas do professor Carlos Alexandre

Gonçalves e do Caio Castro. Muito obrigada pelos comentários – todos muito

pertinentes – e por dedicarem algum tempo de seus dias nessa tarefa. Sem a

ajuda de vocês, muita coisa teria passado despercebido pelos meus olhos já

cansados e cegos para pequenos deslizes. No entanto, os erros que surgirem são

de minha inteira responsabilidade.

Page 210: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

Agora, tenho alguns agradecimentos de cunho, digamos, formal, a fazer.

Sou grata à minha mãe, Eliane Mrad, por me ajudar nesta reta final com as

inúmeras tabelas, me ajudando com as referências e com formalização da

dissertação. Ao Luiz Fernando Tavares pela paciência de criar diversos gráficos

com porcentagens que não nos ajudavam e aturar a minha exigência muito

relevante quanto às cores a serem utilizadas. Também agradeço à Cristina

Mattos por ter me ajudado nessa empreitada e ter passado a sua noite de

domingo tentando entender minhas anotações confusas e preparando os

gráficos desta Dissertação junto com o Luiz. Sem vocês três, eu não teria

conseguido. Muito obrigada!

Por fim, devo um agradecimento de cunho técnico ao CNPq pela

concessão parcial da bolsa de estudos, o que me proporcionou uma dedicação

exclusiva à dissertação e foi indispensável neste processo.

Page 211: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

18

SUMÁRIO

1. Introdução ...................................................................................................... 21

2. Revisão bibliográfica ................................................................................... 24

2.1. A perspectiva tradicional ...................................................................... 27

2.2. A perspectiva dos teóricos em morfologia .......................................... 28

2.3. Revisitando gramáticas históricas ........................................................ 32

2.4. Polissemia ou afixos distintos?: defendendo uma posição ............. 38

2.5. Resumindo .............................................................................................. 44

3. Metodologia e corpus .................................................................................... 45

3.1. Coleta inicial dos dados ....................................................................... 45

3.2. Métodos de aprimoramento do corpus ................................................ 47

3.3. Métodos de análise ................................................................................ 49

3.4. Resumindo .............................................................................................. 53

4. Linguística Multissistêmica ......................................................................... 54

4.1. Postulados da teoria multissistêmica ................................................. 56

4.1.1. Postulados gerais ......................................................................... 56

4.1.1.1. Postulado 1: a língua se fundamenta em um aparato

cognitivo ........................................................................................

57

4.1.1.2. Postulado 2: a língua é uma competência

comunicativa .................................................................................................

66

Page 212: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

19

4.1.2. Postulados específicos ................................................................ 70

4.1.2.1. Postulado 3: as estruturas linguísticas não são

objetos autônomos .......................................................................

71

4.1.2.2. Postulado 4: as estruturas linguísticas são

multissistêmicas ............................................................................

72

4.1.2.3. Postulado 5: a língua é pancrônica – explicação

linguística ......................................................................................

74

4.1.2.4. Postulado 6: um dispositivo sociocognitivo ordena

os sistemas linguísticos ...............................................................

75

4.2. Resumindo .............................................................................................. 76

5. Funções da nominalização ........................................................................... 78

5.1. Os caminhos de –ura ............................................................................. 79

5.1.1. Teste de aceitabilidade ................................................................ 86

5.2. Nominalização de verbos e referenciação de entidades ................... 88

5.3. Abstratização de adjetivos .................................................................... 93

5.4. Função intensificadora ........................................................................... 97

5.5. Resumindo .............................................................................................. 104

6. Sistemas linguísticos ..................................................................................... 107

6.1. Gramática ................................................................................................. 108

6.1.1. Resumindo .................................................................................... 114

6.2. Léxico ........................................................................................................ 114

6.2.1. Nominalização de verbos ............................................................ 117

6.2.2. Referenciação ................................................................................ 118

Page 213: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

20

6.2.3. Abstratização de adjetivos ......................................................... 120

6.2.4. Intensificação ................................................................................. 121

6.2.5. Lexicalização, deslexicalização e relexicalização ..................... 123

6.2.6. Resumindo ..................................................................................... 125

6.3. Semântica ................................................................................................ 126

6.3.1. Nominalização de verbos ............................................................ 130

6.3.2. Referenciação ................................................................................. 132

6.3.3. Abstratização de adjetivos ........................................................... 134

6.3.4. Intensificação ................................................................................. 136

6.3.5. Resumindo .................................................................................... 142

6.4. Discurso .................................................................................................... 143

6.4.1. Resumindo .................................................................................... 148

6.5. Sistemas Simultâneos ............................................................................. 148

6.6. Resumindo ............................................................................................... 150

7. Considerações finais ...................................................................................... 152

8. Referências bibliográficas ............................................................................. 154

Page 214: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

21

INTRODUÇÃO

Neste trabalho, analisamos o sufixo -ura e suas funções na formação de

palavras, inicialmente no latim e atualmente no português. Estudos calcados

nas atuais correntes da chamada Linguística de Uso mostram que esse sufixo

achou seu nicho de produtividade na atual sincronia do português,

diferenciando-se da produtividade que apresentava em sua origem latina que

era a de formar nominalizadores a partir de uma base participial, como

afirmam Nascentes (1955), Maurer Jr. (1959), dentre outros. Assim, descrever e

analisar os percursos e os inúmeros percalços da história de -ura é um dos

objetivos desta Dissertação. Dessa forma, mostramos que, além de formar novas

palavras, o afixo contribui para a formação do léxico do Português, por meio de

processos de intensificação que trazem mais significados à língua e interferem

no discurso.

Para descrever esse percurso centrado nos princípios gerais da

Linguística Cognitiva, tomamos por base a Teoria Multissistêmica de Castilho

(2010), defendendo sua ideia central de que a língua é formada por quatro

sistemas linguísticos (léxico, semântica, discurso e gramática) que não se

hierarquizam e atuam simultaneamente. Assim, destacamos rapidamente os

sufixos nominalizadores que, teoricamente, concorreriam com o afixo em

análise (-ção, -mento, -eza, -ice, -oso, -udo, -ão, -inho) mostrando que, na verdade,

1

Page 215: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

22

essa concorrência atualmente não ocorre devido à especialização adquirida por

–ura.

A presente Dissertação está organizada em oito capítulos e, ao final de

cada um deles, segue um breve resumo sobre as principais questões levantadas

e discutidas. No capítulo 2, traçamos um breve panorama sobre as diferentes

visões e abordagens sobre o afixo –ura, ou seja, levantamos todas as

informações acerca do sufixo nos mais diversos textos acadêmicos, sejam eles

gramáticas, artigos ou livros de base morfológica. No mesmo capítulo, também

apresentamos as hipóteses do trabalho e levantamos as questões presentes

nessas diversas fontes de pesquisa.

O capítulo 3 é voltado para a descrição da constituição do corpus e da

metodologia utilizada nesta pesquisa. Para tanto, trataremos dos meios de

recorte do corpus e dos métodos que foram ativados para realizar tal pesquisa.

Iniciando o capítulo 4, apresentamos a base teórica do presente trabalho: A

Gramática Multissistêmica. Nesse capítulo, buscamos descrever as bases nas

quais tal teoria se apoia, definir e explicar os postulados dessa teoria e

contrabalançar com as outras maneiras de analisar e descrever a língua. Assim,

apesar de utilizarmos essa teoria como base na Dissertação, também buscamos

respaldo em outras que nos ajudem a descrever o processo linguístico em

análise.

O capítulo 5 é voltado para a análise das funções da nominalização em

português. Nesse capítulo, apresentamos as funções que o afixo -ura exerce na

língua e as possíveis concorrências com outros de similar função (-mento, -ção,

Page 216: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

23

-eza, por exemplo). No entanto, buscamos mostrar que essa citada concorrência

não é verdadeira, devido à especialização de sentido do afixo em análise.

O capítulo 6 é o de análise de dados. Nesse capítulo, buscamos analisar o

sufixo –ura de acordo com a Teoria Multissistêmica, atendo-nos aos quatro

sistemas linguísticos identificados por Castilho (2010). Assim, buscamos

verificar como cada um desses sistemas atuaria no processo em separado para,

no final do capítulo, demonstrar o porquê de se considerar a ideia de

simultaneidade e não hierarquia entre eles.

Por fim, o capítulo 7 é o dedicado às considerações finais da Dissertação

e o 8, às referências bibliográficas. No capítulo 7, buscamos arrematar as ideias

abordadas e justificar as hipóteses levantadas.

Page 217: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

24

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

O processo de nominalização em português vem sendo amplamente

estudado por autores como Basilio (1980) e Lemos de Souza (2010), dentre

tantos outros, por ser um processo produtivo em nossa língua.

Tradicionalmente, entende-se por nominalização o processo de formação de

nomes a partir de verbos, carregando esses produtos as propriedades da sua

base verbal, visão esta diferente da abordagem de alguns teóricos em

morfologia como Basilio (1980) e Sandmann (1988), por exemplo, como

descreveremos a seguir.

Basilio, linguista que se dedica há tempos ao estudo da morfologia do

português, possui alguns trabalhos de referência sobre o tema, como é o caso de

Estruturas Lexicais do Português: uma abordagem gerativa (1980) e Teoria Lexical

(2007 [1987]), considerados leitura essencial para quem se inicia nessa área de

pesquisa. Em seu trabalho de 1980, Basilio compreende a nominalização como o

resultado de uma relação paradigmática entre os verbos e os nomes no léxico e

não somente um processo em que um nome é derivado de um verbo. Segundo a

autora,

“A rejeição da ideia de que os verbos são básicos nas nominalizações não é nova. (...) O termo ‘nominalização’ deverá cobrir não apenas nomes deverbais, mas também nomes morfologicamente básicos associados a verbos. Mais especificamente, a nominalização é um

2

Page 218: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

25

processo de associação lexical sistemática entre nomes e verbos”. (Basílio: 1980, 73-74)

De acordo com essa visão, podemos perceber que a autora vai contra a

ideia básica levantada pela visão tradicional apresentada a seguir e aprofunda

essa análise no segundo trabalho citado. Para Basilio,

“Damos o nome geral de ‘nominalização’ ao conjunto de processos que formam substantivos de adjetivos e, sobretudo, de verbos. A nominalização é um dos casos mais complexos de formação de palavras no que diz respeito à determinação da função, pois os vários processos de formação de substantivos podem apresentar funções múltiplas simultâneas”. (Basílio: 2007, 77)

Essas funções múltiplas às quais se refere a autora são as funções

sintática, discursivo-pragmática e semântica1, na medida em que a

nominalização atinge vários níveis de análise (cf. KATO, 1986). Quer-se com

isso dizer que o processo de nominalização apresenta função mista, já que não

tem por objetivo somente formar nomes a partir de verbos, ou seja, é mais do

que um simples processo de derivação.

1 A função sintática diz respeito à possibilidade de um termo nominalizado poder ocupar inúmeros lugares dentro da sentença, ampliando, assim, o campo de atuação da palavra base. Dito de outra maneira, a passagem de um verbo a um substantivo, por exemplo, apresenta-se como um “requisito de adequação sintática às estruturas nominais” (BASILIO, 2007:78). A função discursivo-pragmática faz referência ao uso do substantivo derivado dentro de um contexto discursivo, ativando, portanto, os conceitos de focalização e topicalização que serão discutidos a seguir, na medida em que o uso de um substantivo no lugar de um verbo, por exemplo, pode deixar de focalizar o agente para se voltar para o objeto como nos exemplos abaixo:

(i) Júlia comprou um carro. (ii) A compra do carro foi a melhor coisa que ela fez nesses últimos anos.

Por fim, a função semântica citada pela autora é a de denominação, pois a nominalização tem por característica permitir que se faça referência a um processo verbal em forma de evento, por exemplo. No entanto, veremos que não é apenas essa a função semântica exercida pela nominalização.

Page 219: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

26

Outra informação altamente relevante que pode ser retirada de ambas as

citações é o fato de se considerar que a nominalização pode ocorrer tendo como

base um adjetivo e não apenas verbos, o que é de grande valor para o presente

estudo, já que o afixo nominalizador –ura pode se anexar a ambas as bases,

como será descrito mais adiante.

Dessa forma, no presente capítulo, temos por objetivo traçar um

panorama sobre os estudos existentes na literatura morfológica sobre o sufixo

-ura, bem como apresentar a perspectiva da tradição gramatical a fim de

delinear os caminhos pelos quais passou a descrição desse afixo até a presente

proposta de trabalho.

Na seção 2.1, faremos um levantamento do que nos informa a

perspectiva tradicional acerca do tema, ou seja, quais as visões dos inúmeros

gramáticos sobre o processo de nominalização no português a partir do sufixo

-ura. Em 2.2, faremos um breve levantamento sobre os estudos especializados

em literatura morfológica, buscando obter as diferentes visões e abordagens dos

linguistas especializados em morfologia.

Além disso, também se fez necessário que buscássemos informações nas

gramáticas históricas de Língua Portuguesa, já que -ura é um afixo de origem

latina e, portanto, está na língua desde a sua formação, podendo ter sofrido

modificações em seu significado. Por isso, em 2.3., fazemos esse levantamento a

fim de verificar a origem de –ura e como esse sufixo é visto e analisado nas

gramáticas históricas.

Page 220: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

27

Na seção 2.4., intitulada “Polissemia ou afixos distintos? Defendendo

uma posição”, apresentamos as diferentes visões sobre essa ótica e os

argumentos a favor de uma ou outra análise. Por fim, na seção 2.5., fazemos um

breve resumo do que foi exposto neste capítulo, a fim de organizar as ideias

centrais e facilitar o prosseguimento da análise.

Vale lembrar que, em alguns momentos, faltaram exemplos para

demonstrar a visão desses autores, mas assim o fizemos, pois os mesmos não se

aprofundam no caso exemplificando.

2.1. A Perspectiva Tradicional

Partindo para a descrição do processo de acordo com o que

afirmam as gramáticas tradicionais (CUNHA & CINTRA, 2007; BECHARA,

2009; LUFT, 1990), pudemos constatar que o afixo não possui grande espaço

para descrição nesses compêndios, pois os mesmos somente o citam como

sufixo formador de substantivos a partir de verbos e adjetivos, sem informar

qual seria a sua acepção ou fazer qualquer outra análise que o distinga de

outros afixos nominalizadores como -ção, -mento e -oso, por exemplo, sendo os

dois primeiros afixos deverbais e o último, deadjetival.

No entanto, Rocha Lima (2008) destaca-se dentre os demais gramáticos,

por acrescentar informações novas acerca do afixo, já que aponta para a

existência de afixos diferentes na nominalização a partir de verbos e na

nominalização a partir de adjetivos. Segundo Rocha Lima, quando esse

processo tiver por base um verbo, os afixos utilizados serão -tura, -dura e -sura,

Page 221: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

28

como em assinatura, assadura e clausura. Em contrapartida, quando a base for

adjetival, o afixo a ser utilizado será o -ura, como em amargura, ternura e loucura,

que se anexam, respectivamente, aos adjetivos amargo, terno e louco, nessa

ordem.

O afixo em questão, portanto, não é muito analisado pelas gramáticas

tradicionais, o que abre espaço para uma análise mais detalhada do mesmo.

Apesar de ser somente citado pela maioria e, principalmente, ser analisado

superficialmente por um deles – levando-se em consideração que o objetivo

principal das gramáticas tradicionais não é desenvolver detalhadamente todos

os aspectos específicos da língua e sim descrevê-la em seus aspectos mais gerais

– consideramos que -ura é um afixo relevante para análise, pois pouco se sabe

sobre suas diversas acepções e sobre o processo de nominalização que

desencadeia.

2.2. A perspectiva dos teóricos em morfologia

Prosseguindo para uma melhor descrição do processo, recorremos à

literatura de cunho derivacional e a pesquisas linguísticas nesse campo, a fim

de dar continuidade ao entendimento do afixo ora analisado. No entanto,

também nessa linha de investigação, não encontramos maiores informações

sobre o formativo. Dentre os autores pesquisados, Sandmann (1988) ressalta

que o sufixo -ura parece não ser mais produtivo em português, embora afirme

que nem sempre foi assim, citando a palavra laqueadura como uma formação

recente na língua. Não há referência ao sufixo em questão em manuais de

Page 222: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

29

morfologia do português, como Monteiro (1988), Kehdi (1989), Laroca (1994) e

Carone (1990).

Já o trabalho de Coelho (2008), por sua vez, descreve o processo de

nominalização em português por meio do sufixo –ura, sendo, portanto, dentre

todos os trabalhos acerca desse afixo, o único com maior aprofundamento sobre

o formativo. Contudo, apesar dessa proposta inicial, a autora limita-se a falar

sobre a morfologia categorial2, explicar em que consiste essa linha de

investigação e tratar dos critérios para exclusão de vocábulos do corpus. Porém,

ainda assim, Coelho levanta algumas questões importantes sobre o afixo em

estudo a que pretendemos responder nesta dissertação: (1) se o -ura é um caso

de afixo polissêmico ou homônimo; e (2) se existe somente um afixo com

variantes fonológicas ou se -ura, -tura e -dura são afixos diferentes.

Além disso, a autora discorre sobre as palavras-base da nominalização

por intermédio desse afixo, afirmando serem elas adjetivas ou participais, sendo

esta última explicada pela autora a partir de dois motivos. O primeiro deles é o

fato de o adjetivo e o particípio terem características semelhantes e poderem ser

analisados sob o mesmo rótulo, apesar das diferenças existentes. O segundo

motivo diz respeito à permanência da vogal temática em alguns casos e à falta

dela em outros, o que pode ser explicado a partir da ideia de que esse afixo se

une a bases participiais, sejam elas regulares ou irregulares, como é o caso de

andadura, que mantém a vogal temática, visto que o afixo se anexa ao particípio

2 Segundo Coelho (2008), a morfologia categorial aborda o léxico composicionalmente sem fazer qualquer distinção entre estrutura profunda e estrutura superficial na medida em que o mecanismo de hierarquia de aplicação de regras não existe nessa linha teórica. Assim, “dentro da GC (Gramática Categorial), a visualização composicional das estruturas complexas (...) é sempre relevante e clara , pois (...) parte-se dos itens lexicais”. (COELHO, 2008:5)

Page 223: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

30

regular do verbo andar; e fritura, que não apresenta a vogal temática em sua

forma por derivar do particípio irregular frito. Portanto, caso entendêssemos

que esse sufixo se une a bases verbais, teríamos de encontrar explicações para a

presença ou ausência da vogal temática verbal, além de interpretar o /d/, por

exemplo, como uma consoante de ligação ou parte de um novo afixo, o que não

seria nada econômico para o estudo.

Quanto ao segundo questionamento levantado acima, se -ura, -tura e

-dura são afixos diferentes, Coelho (2008) afirma serem diferentes formas

fonológicas de um mesmo afixo, contradizendo-se, portanto, já que a mesma

considera participais as bases a que se adjunge o afixo. Sendo assim, ao

considerar que -ura se une a particípios verbais, considera-se também, mesmo

indiretamente, que os elementos /t/ e /d/ fazem parte do radical e, dessa

forma, não podem ser considerados como diferentes formas fonológicas de um

mesmo sufixo.

Com base no levantamento do corpus realizado para este trabalho,

pudemos perceber que a grande maioria das bases que sofrem o processo de

nominalização por intermédio de -ura são participiais e, quando os derivados

advêm diretamente do latim, ainda se mantém a relação de se anexar esse afixo

a uma base de natureza adjetival. Como exemplo, podemos citar abreviatura,

que é uma palavra originalmente latina. Nesse caso, a nominalização ocorreu

ainda na língua de origem e foi realizada a partir da anexação do afixo -ura ao

particípio passado do verbo abreviare. Esse fato, portanto, nos remete à visão de

França & Lemle (2006) acerca desse afixo com base no modelo da Morfologia

Page 224: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

31

Distribuída3. Segundo as autoras, a nominalização por -ura, sempre anexado a

bases participiais, é explicada a partir da premissa de que no latim isso já

ocorria e o português manteve essa relação e esse padrão de formação. O

mesmo acontece com muitos empréstimos linguísticos, já que, em português,

existem inúmeros vocábulos advindos de outras línguas e que sofreram o

processo de nominalização nas suas línguas de origem, como é o caso de

desenvoltura (do italiano desenvolture) e brochura (do francês brochure). Isso se

deve ao fato de ambas as línguas serem de origem latina e também manterem

esse afixo disponível para fins lexicais.

Além disso, as autoras abordam vocábulos como tintura como oriundos

de formas participiais latinas cujas formas infinitivas não são mais usadas pelos

falantes. Segundo elas, esse vocábulo, por exemplo, derivaria de tinctum, que

seria o particípio passado do verbo tingo, que caiu em desuso e, em seguida, a

forma tintura viria para o português já assim constituída. Coelho (2008) também

aborda algo similar em seu artigo, pois reconhece a existência de “raízes

possíveis” para as nominalizações, ou seja, segundo a autora, alguns derivados

surgiriam de verbos inexistentes na língua, mas que seriam completamente

possíveis de serem realizados, como é o caso de ratadura, que, segundo a autora,

poderia vir do particípio do verbo ratar, embora este não faça parte do léxico do

português.

3 A Morfologia Distribuída é uma teoria sintática, na medida em que entende que é a sintaxe que maneja e rege livremente as raízes e os morfemas que, por sua vez, são entendidos como sendo categorias abstratas definidas por traços universais. Essa teoria se diferencia da abordagem lexicalista, pois não considera a existência de um léxico na língua.

Page 225: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

32

Rio-Torto (2005) aponta para o fato de -ura selecionar, preferencialmente,

adjetivos com origem em particípios passados, sejam eles regulares (dobradura,

abotoadura) ou não (fritura, soltura), preservando, assim, os segmentos /t/ e /d/

de seus radicais.

Portanto, podemos constatar que, embora pouco se fale sobre esse afixo e

o número de estudos voltados para este formativo seja escasso, algumas

questões são levantadas e resolvidas de diferentes formas, a depender do

referencial teórico adotado. Além disso, também foi possível perceber que as

visões sobre esse afixo variam de teoria para teoria e que escolhemos, portanto,

a Abordagem Multissistêmica – como veremos mais adiante – devido ao fato de

esta se propor a resolver os problemas levantados pelas outras teorias por

diferentes ângulos. Nos próximos capítulos, observaremos o comportamento

dos vocábulos do corpus, tentando responder a algumas das questões

levantadas por pesquisas anteriores à nossa.

2.3. Revisitando gramáticas históricas

Com base em revisão bibliográfica prévia, fez-se necessária a busca de

mais informações sobre a origem do sufixo –ura e, para tanto, resolvemos

verificar como o afixo é tratado nas primeiras gramáticas do século XX, com o

intuito de constatar até que ponto nosso estudo seria relevante e desde quando

se volta o olhar para esse sufixo.

Dentre as gramáticas consultadas, a primeira que faz referência a –ura é a

de Jucá Filho (1945). Em sua Gramática Histórica do Português Contemporâneo, o

Page 226: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

33

autor faz uma breve introdução sobre o que seriam os sufixos para depois listar

os que ele considera importantes e existentes na língua portuguesa da época.

Para Jucá Filho, os sufixos são sempre denotativos e podem ser divididos em

auxiliares modificativos, conectivos subordinantes e conectivos super-

ordenantes. Os primeiros são os que alteram o significado do radical,

modificando sua significação fundamental (-inho em carrinho, por exemplo); os

segundos, por sua vez, são os que transformam substantivos e verbos em

adjetivos (-udo de barrigudo e –(t)ivo de pensativo); e os terceiros são os que

alteram a classe gramatical do radical, passando-o de adjetivo a substantivo ou

verbo (-eza de beleza e –izar de legalizar).

Ainda segundo o autor, a maioria dos sufixos são fonemas ou grupos de

fonemas que vieram diretamente do latim e podem ser definidos como formas

simples ou ampliadas, sendo estas as formas que agregam algum segmento às

simples correspondentes. Dessa forma, o Jucá Filho (1945) faz distinção entre

-ura (forma simples) e –tura / –dura (formas ampliadas). Pode-se concluir,

portanto, que autor define essas três formas como afixos diferentes, sendo o

primeiro anexado a bases adjetivas e o segundo, a bases verbais, assim como

Rocha Lima (2008). Embora não se estenda na análise das formações X-ura, a

partir dessa separação entre formas simples e ampliadas, é possível verificar a

visão que o autor apresenta: caso considerasse a existência de apenas um afixo e

interpretasse as consoantes /t/ e /d/ como resquícios do particípio, não

diferenciaria –ura de –tura e –dura.

Page 227: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

34

Em sua Gramática do Latim Vulgar, Maurer Jr. (1959) revela que, no Latim

Clássico, o afixo -ura formava nomes tão somente a partir de bases do

particípio, ou seja, somente se originava de bases tidas como verbais, como

censura e escritura. Dessa forma, segundo o autor, seria uma inovação do latim

vulgar a formação de nomes com bases adjetivas, que se disseminou para as

línguas românicas, como o português (candidatura), o espanhol (candidatura), o

francês (candidature) e o italiano (candidatura). autor explica essa inovação do

latim vulgar a partir da similaridade entre o particípio e o adjetivo, pois,

considerando-se que essas formas verbais são, em grande parte, simples

adjetivos, é fácil compreender como se deu essa mudança na categoria da base.

Na verdade, ao se ligar a um particípio, o afixo estava também se ligando a um

adjetivo devido a esse caráter da forma nominal. Sendo assim, a mudança

categorial é uma inovação na língua, apesar de já esperada. Ilari (1992) retoma o

autor e também afirma que o sufixo –ura se liga a bases verbais para formar um

substantivo, porém não se aprofunda muito no tema, ao contrário de Maurer Jr.

(1959) que, como vemos, vai um pouco além.

O afixo –ura também é tratado por Said Ali em duas de suas gramáticas,

sendo a primeira delas Gramática Secundária da Língua Portuguesa (1969) e a

segunda, Gramática Histórica da Língua Portuguesa (1971). O autor, assim como os

demais já citados, considera que haja, na verdade, um sufixo que se liga a bases

adjetivas e outros que se ligam a bases verbais, sendo eles –dura, -tura e –sura.

Na primeira gramática em questão, o autor afirma que esses afixos são o

resultado do acréscimo de –ura a temas do particípio que aglutinam essa

Page 228: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

35

consoante à do sufixo. Já na segunda, Said Ali (1971) vai além, pois traz novas

informações acerca dessas formas linguísticas. De acordo com o gramático, as

consoantes d, t e s que iniciam os afixos –dura, -tura e –sura são consoantes

incorporadas aos sufixos que se ligam a bases participiais. Além disso, o autor

afirma que esses afixos se anexam a bases participiais para indicar nomes de

ação e concorreram durante muito tempo com o afixo -or, cuja função precípua

é formar nomes de agentes (comprador, por exemplo).

O autor ainda cita a extensão de sentido e de função do afixo –ura, pois o

mesmo passa a designar objetos materiais, como é o caso de ferradura, fechadura,

abotoadura. Isso se deve à polissemia natural da língua e também ao fato de

haver, para fins lexicais, outros afixos nominalizadores e indicadores de nomes

de ação, como –ção e –mento, por exemplo. Dessa forma, pode-se perceber que o

autor já intuía a polissemia do afixo e considerava relevante esse caráter no

estudo da língua, embora não o dissesse.

Outro ponto levantado por Said Ali (1971) é o fato de muitos vocábulos

X-ura serem introduzidos na língua por via erudita, vindo diretamente do latim

ou através de empréstimos linguísticos. Dessa forma, o autor explica como

alguns verbos não fazem parte do português, embora seu substantivo

respectivo seja um vocábulo corrente na língua, como é o caso do já citado

pintura, que advém da forma verbal latina pingo. A possibilidade de se anexar o

afixo –ura a bases adjetivas, como levantado por Maurer Jr. (1959), deve-se ao

fato de ter sido perdida a relação que esses nomes tinham com os verbos de

origem, já que muitos deixaram de fazer parte do léxico do português. Essa

Page 229: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

36

ligação a adjetivos já era possível no latim, porém, em português, aumentou

consideravelmente, sobrepondo-se às formas de bases verbais.

Coutinho, em Pontos de Gramática Histórica (1978), faz um apanhado geral

do que se entende por sufixação e como se caracterizariam os sufixos. No

entanto, no que diz respeito ao afixo –ura, o autor não tece maiores

considerações; apenas o cita como um sufixo nominal. Porém, é interessante

notar que, diferentemente de Said Ali, por exemplo, Coutinho parece considerar

–ura, -tura e –dura como variantes de um mesmo afixo, pois coloca-os juntos em

uma listagem de afixos formadores de nomes em português. Além disso, o

autor define -ura como um afixo que indica qualidade (alvura), objeto

(armadura), ação ou resultado da ação (varredura), apontando para a polissemia

do mesmo. No entanto, vale ressaltar que, ao juntar todas as variantes, o autor

está considerando -ura um afixo polissêmico que se une a bases verbais, sendo o

/t/, /d/ e /s/ resquícios da desinência de particípio.

Outra visão sobre o afixo em estudo é a de Mendes de Almeida, em sua

Gramática Metódica da Língua Portuguesa (1979). Para o autor, há apenas um

afixo, porém com três diferentes funções na língua, diferentes acepções, a

depender da base à qual se adjunge. Caso o afixo seja acrescido a um tema

verbal, o derivado indicará ação ou resultado de uma ação, como em, formatura,

fritura, fervura, dentre outros. Por outro lado, caso o afixo seja anexado a uma

base adjetiva, o mesmo formará um substantivo abstrato que indica qualidade,

estação ou situação, carregando consigo as características próprias dos

adjetivos, como em alvura, brancura, bravura e tontura. Por fim, se o sufixo –ura

Page 230: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

37

se ligar a um substantivo, o mesmo resultará em uma palavra indicativa de

exercício de algum cargo, como em advocatura e magistratura.

Faria (1958), por sua vez, classifica –tura como formador de substantivos

derivados de temas verbais, indicando a ação ou o resultado de alguma ação,

como natura que indica “ação de fazer nascer, natureza”. O autor ainda afirma

que este é um sufixo complexo, pois é formado por mais de um elemento

sufixal acumulado devido à necessidade expressiva, ou seja, haveria dois afixos

distintos anexados a uma mesma base a fim de passar o significado que se

desejaria. Assim, os sufixos -tu- e -su-, simples, apareceriam com maior

frequência unidos a outros elementos, formando diversos sufixos complexos,

como, por exemplo, –tura que é formado por -tu- mais o sufixo –ro- em sua

forma feminina –a (a forma masculina do afixo aparece no particípio do futuro

verbal –turus, no latim).

Masip (2003) divide os sufixos da língua em transformadores e

modificadores. A ideia do gramático é a de que temos um afixo transformador

quando o mesmo é capaz de transformar a palavra-base e um sufixo

modificador quando a única função é modificar a base no que diz respeito à

quantidade – que é o caso dos aumentativos e diminutivos. Portanto, segundo o

autor, o sufixo em questão seria classificado como transformador, pois seu

acréscimo ao radical da palavra tem influência direta sobre a forma de um

vocábulo. De acordo com ele, existem, então, quatro afixos distintos, -dura,

-sura, -tura e –ura, sendo que os três primeiros se anexam a bases verbais para

Page 231: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

38

indicar o resultado ou instrumento de alguma ação coletiva (fechadura,

assinatura) e o último significa “relativo a alguma coisa” (chatura).

2.4. Polissemia ou afixos distintos? Defendendo uma posição

De acordo com o que foi apresentado anteriormente acerca da visão de

alguns autores sobre o sufixo -ura, pudemos perceber que existem diferentes

pontos de vista no que diz respeito a sua concretização, visto que alguns

pendem para uma análise mais pautada na existência de afixos distintos,

enquanto outros acreditam ser esse afixo polissêmico. Ainda pensando no que

foi apresentado sobre a análise dos diferentes autores, podemos notar que as

respostas à pergunta que dá título à seção são as mais variadas possível, já que

alguns afirmam haver mais de um afixo (ROCHA LIMA, 2008), outros

defendem a ideia de serem variantes fonológicas de um mesmo sufixo

(COELHO, 2008) e, por fim, há autores que acreditam que o afixo -ura é único e

que as consoantes /d/, /t/ e /s/ são resquícios das bases participais das quais

derivam as nominalizações (FRANÇA & LEMLE, 2006; RIO-TORTO, 2005).

Assim, a partir da análise das informações, podemos levantar três

hipóteses detalhadas a seguir:

H1: as palavras formadas a partir do sufixo –ura provêm de formas

básicas do verbo;

H2: as palavras formadas a partir desse afixo provêm do particípio latino;

Page 232: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

39

H3: independentemente de suas origens, as formações em português

identificam –ura como sufixo formador de palavras com intensificação de

qualidade, ignorando a base à qual se liga.

Podemos começar a análise pelo gramático Rocha Lima (2008), que inicia

essa questão ao separar o afixo -ura em dois: o primeiro anexado a bases

nominais e o segundo, a bases verbais, sendo este último representado pelas

formas -tura, -dura e -sura e aquele representado somente pela forma -ura.

Segundo essa visão, -ura formaria palavras como tontura, finura, amargura e

bravura, enquanto a -tura, -dura e -sura caberiam palavras como formatura,

cavalgadura e censura, nessa ordem. No entanto, analisar essas três formas como

afixos diferentes faz com que ignoremos alguns fatores, como o caso da vogal

temática, da relação entre adjetivos e particípios, além do fato de não haver

necessidade de mais de um afixo na língua para expressar a mesma noção.

No que diz respeito à vogal temática, podemos retomar Coelho (2008),

que defende a ideia de que o afixo -ura se une a bases participiais, sejam elas

regulares ou não, justificando o fato de, em alguns casos, a vogal temática estar

presente, mas em outros não. Como exemplo, podemos citar as palavras

abotoadura, feitura e soltura que, caso derivassem de bases verbais em sua forma

infinitiva, ou seja, caso fossem interpretadas como derivadas da forma básica do

verbo, entrariam em conflito na análise, pois na primeira teríamos a presença da

vogal temática “a” e na segunda e terceira não. Além disso, o caso de feitura é

ainda mais difícil de interpretar como derivado de uma base verbal infinitiva, já

Page 233: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

40

que, para isso, o derivado deveria ser fazedura e não feitura, pois o particípio

desse verbo é altamente irregular, por fazer grandes alterações no radical da

palavra-base. Sendo assim, fica claro que essa palavra derivou de feito, e não da

forma verbal fazer. Nesse caso, a explicação mais concreta seria a de que essas

palavras derivam de verbos no particípio, fazendo com que a ausência da vogal

temática na segunda e terceira palavras seja justificada pelo fato de ambas

terem como base os particípios abundantes dos verbos fazer e soltar,

respectivamente.

Além desse ponto de análise, outro fator que corrobora a visão dessas

bases como participiais é o fato de que os particípios e adjetivos, apesar de

pertencerem a categorias gramaticais diferentes, apresentam características

similares e podem ser analisados da mesma forma, o que pode ser

exemplificado pelo fato de alguns particípios serem utilizados como adjetivos

em frases como “João é atrasado”. Nesse caso, o particípio do verbo atrasar está

sendo usado como adjetivo para definir uma propriedade de João. Por esse

motivo, é mais interessante analisar as bases como participiais e não como

formas infinitivas do verbo, o que levaria à formulação de um único esquema

para a construção morfológica, como defenderemos nos capítulos de análise.

Além disso, podemos levar em consideração para essa análise, um breve

estudo histórico acerca do afixo, pois, segundo França & Lemle (2006), o fato de

o afixo -ura se anexar a bases participiais no latim leva à constatação de que o

mesmo ocorre nas línguas neolatinas, dentre elas, o português. Maurer Jr. (1959)

também afirma que o sufixo –ura se anexava a bases participiais no latim

Page 234: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

41

clássico, sendo, portanto, uma inovação do latim vulgar a formação a partir de

bases adjetivas – lembrando que o particípio e o adjetivo são equivalentes.

Dessa forma, assim como -ura se anexa ao particípio passado do verbo assare em

latim, o mesmo afixo será anexado a bases participiais no português e em outras

línguas neolatinas. Isso se deve ao fato de essas línguas manterem a relação

existente entre o afixo e as bases desde o latim até hoje.

Dessa forma, podemos afirmar que os falantes, apesar de não terem

conhecimento do latim e de onde se originou esse afixo, acabam por interpretar

-ura como atribuidor de uma qualidade em relação a uma base predicativa, pois

tanto os adjetivos quanto os particípios têm essa função predicativa na sintaxe

da língua.

Ainda devemos levar em consideração o fato levantado por Rio-Torto

(2005) de esse afixo selecionar bases adjetivas cuja origem sejam particípios. Por

esse motivo, podemos comprovar, mais uma vez, que os segmentos em

discussão – /t/, /d/ e /s/ – fazem parte dos radicais e não de um afixo

diferente, ou seja, que as bases para esse afixo são os particípios dos verbos em

questão.

Por fim, podemos discutir o fato principal que diz respeito à

interpretação dos três segmentos citados. Caso interpretássemos as bases para

esse sufixo como verbais em sua forma infinitiva, teríamos de responder à

pergunta concernente à natureza desses segmentos, se são consoantes de

ligação ou partes de outro afixo. No entanto, essa não parece ser uma resposta

muito acessível, pois não há provas concretas para tal interpretação, ao

Page 235: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

42

contrário do que ocorre se interpretamos os segmentos /t/, /d/ e /s/ como

parte das bases participiais.

Assim, voltando para as hipóteses levantadas anteriormente, podemos

afirmar que todas elas podem ser verdadeiras a partir do ponto de vista que se

adote. No caso da primeira hipótese, para que seja considerada verdadeira,

seria preciso que se analisasse /t/, /d/ e /s/ como consoantes de ligação ou

como parte de um novo afixo, no caso, -tura, -dura e -sura, respectivamente. No

que diz respeito à segunda hipótese, pudemos comprová-la a partir dos

argumentos apresentados anteriormente com base nas diferentes abordagens

teóricas. Já a hipótese 3 pode ser também levada em consideração se olharmos

para vocábulos formados a partir de bases substantivas e até mesmo adverbiais

como belezura e lonjura, respectivamente, apontando para o fato de o mais

importante, em se tratando desse afixo, não estar diretamente relacionado à

natureza da base, mas sim à acepção que veicula, já que existem outros afixos

como veremos mais adiante.

Nesse último caso, podemos levar em consideração o fator bloqueio

levantado por Aronoff (1976). Segundo o autor, o bloqueio pode ser

considerado uma noção funcional, já que se trata da não aplicação de uma

operação disponível na língua por já existir uma palavra no léxico para exercer

a mesma função que exerceria a palavra a ser formada. Nesse caso, por mais

produtiva que seja, uma operação morfológica não atua se já houver uma

palavra formada a partir de outro afixo que exerça a mesma função; o falante

não forma novas palavras com a mesma função que uma já existente na língua.

Page 236: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

43

Assim, no que diz respeito a –ura, a noção de bloqueio pode ser um importante

instrumento de análise.

Os afixos –ção e –mento têm a função de formar nomes a partir de verbos

para atribuir um significado mais ativo, mais centrado nas características

predicadoras do verbo, como amplamente estudado por Lemos de Souza (2010)

e como veremos com mais detalhes no capítulo 3 a seguir. Já o afixo –ura, por

sua vez, também teria como bases primárias os verbos, mas, por haver esses

dois afixos com a mesma tarefa, –ura se especializou e passou a se unir somente

a bases adjetivas, carregando consigo a função de atribuir qualidades e tendo

por base não mais um verbo em sua forma infinitiva prototípica, mas bases com

significados mais qualificadores. Assim, por mais que esse sufixo fosse

produtivo em latim, em português deixa de ser, pois entra em competição com

–ção e –mento e vai perdendo o seu significado de “ato / efeito”, mas continua

se especializando quando o significado a ser atribuído tem relação com noções

predicativas.

Portanto, podemos concluir que as formas variantes são, então,

condensadas em uma única forma, -ura, visto que entendemos ser esse afixo

anexado a bases participiais. Assim, as consoantes /t/, /d/ e /s/ seriam

resquícios do particípio e não parte de um novo afixo. Além disso, adotamos

essa visão por não ser econômico considerar que há afixos distintos quando as

bases são verbais, já que as mesmas não são os verbos em suas formas

infinitivas, mas sim em suas formas de particípio, adotando, pois, a visão de

França & Lemle (2006) e Rio-Torto (1998). No entanto, como levantado nesta

Page 237: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

44

seção, também não podemos desconsiderar as outras visões já que, na língua,

nada pode ser considerado completamente verdadeiro, pois tudo vai depender

do ponto de vista pelo qual se está observando determinado fenômeno. Como

afirma Saussure (1973, 135), “O ponto de vista determina o objeto”, indicando-

nos que a análise de qualquer corpus permite infinitivas interpretações, a

depender da corrente de estudo que se vá usar. Optamos, portanto, por essa

interpretação por ser ela a mais adequada à análise que pretendemos

desenvolver adiante.

2.5. Resumindo

No presente capítulo, apresentamos as diversas visões acerca da

nominalização a partir do afixo –ura, principalmente no que diz respeito à sua

natureza. Apesar de reconhecer todas as possíveis análises, decidimos por

interpretar esse formativo como um único afixo que pode se unir tanto a bases

adjetivais quanto participiais, já que ambas possuem o mesmo caráter

atributivo. Assim, não haveria diferença entre –ura, -tura, -dura ou –sura, já que

as consoantes que os iniciam seriam, na verdade, resquícios do particípio e não

parte do afixo em questão.

Page 238: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

45

METODOLOGIA E CORPUS

Realizar uma pesquisa de cunho linguístico e verificar como processos

morfológicos, semânticos, gramaticais e discursivos ocorrem na língua é uma

atividade que requer a constituição de um corpus ou de mais de um corpora que

venha a auxiliar nesse processo. No entanto, essa constituição não deve ser

aleatória e sem qualquer embasamento, sendo necessária uma metodologia

clara e precisa para que esses dados possam confirmar as hipóteses

previamente levantadas nesta Dissertação ou negá-las, apresentando, como

consequência, novas hipóteses e novos olhares sobre o tema a ser pesquisado.

Portanto, neste capítulo, apresentamos os métodos utilizados na coleta

dos dados e na formação do corpus de análise. Para tanto, recorremos tanto a

dicionários quanto a textos escritos a fim de criar uma unidade passível de

análise e facilitadora desse processo.

3.1. Coleta inicial dos dados

Em um primeiro momento, foi realizada uma busca nos dicionários

Houaiss (2001) e Aurélio (2004), em sua versão eletrônica, verificando a data de

entrada dos vocábulos na língua. Por se tratar de um afixo, foi de extrema

3

Page 239: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

46

importância a utilização desses meios eletrônicos, na medida em que facilitou o

processo de coleta dos dados. Com essa recolha, foram encontradas 171

palavras inicialmente, amostra posteriormente reduzida, como descrevemos a

seguir.

Além disso, enquanto era realizada a busca dessas nominalizações,

também foram anotados os anos de entrada nos dicionários – quando os

mesmos forneciam essa informação em sua definição –, a categoria da base à

qual o sufixo se anexou e o seu significado ou seus múltiplos sentidos. Essa

última informação está presente no anexo I desta Dissertação e pode ser

consultada ao longo da leitura para qualquer dúvida em relação a algum

significado em específico.

No entanto, apesar de, na maioria dos casos, as informações quanto à

etimologia e à entrada na língua serem fornecidas pelo dicionário Houaiss,

muitas das palavras do corpus não apresentavam tais dados e, para obtê-los,

recorremos a alguns dicionários etimológicos (CUNHA, 1999; NASCENTES,

1955; SILVEIRA BUENO, 1967; e, principalmente, MACHADO, 1973) a fim de

precisar essas informações e dirimir qualquer dúvida em relação à origem de

uma ou outra palavra. Essa busca nos dicionários etimológicos foi realizada

depois de já coletados os dados, já que foi utilizada como um complemento, um

suporte à busca anterior. Ainda é válido comentar que, em alguns casos dessa

amostra, houve divergência em relação à data de entrada de algumas palavras

e, em decorrência, adotamos a data mais antiga.

Page 240: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

47

3.2. Métodos de aprimoramento do corpus

Depois dessa coleta, porém, percebemos que algumas palavras que

faziam parte da lista causavam estranheza quanto ao seu significado, à base ou

eram pouco utilizadas na língua. Por isso, fez-se necessário tornar o corpus mais

enxuto e verdadeiramente representativo do uso de –ura em português. Para

tanto, foram tomadas algumas decisões. Em um primeiro momento, fizemos

testes informais com os falantes da língua; em linhas gerais, tais testes

consistiam em apresentar algumas das palavras que chamaram nossa atenção,

solicitando aos informantes que tentassem, de alguma forma, defini-las ou

inseri-las num contexto de uso plausível4. No entanto, muitas dessas palavras

não eram recuperadas pelos falantes e os mesmos não conseguiam, algumas das

vezes, nem mesmo identificar a base a qual o afixo foi anexado. Quando

apresentadas aos falantes palavras como peladura, soldadura ou vestidura, por

exemplo, a maioria não conseguiu identificar as bases ou associava a bases não

verdadeiras. No caso de peladura, muitos identificavam a base “pelado”, mas

não conseguiam definir o vocábulo, já que a base recuperada por eles seria

equivalente a “desnudo”. O mesmo aconteceu com soldadura e vestidura em que

os falantes identificavam as bases “soldado” e “vestido”, não fazendo qualquer

referência a essas bases como participiais, mas remetendo-as aos substantivos

“soldado militar” e “roupa utilizada por mulheres”. Dessa forma, por mais que

4 Esse teste inicial foi aplicado a 30 falantes da faculdade de Letras ou não e foi realizado da seguinte maneira: apresentamos palavras como vestidura, peladura, zebrura e podrura e pedimos aos falantes que, oralmente, nos indicassem seus significados. Em alguns casos, apresentávamos essas palavras contextualizadas como em “eu julgava poder distinguir um campo de interesse cultural e essa zebrura inesperada que às vezes vinha atravessar esse campo”, mas os falantes não conseguiam remontar o seu significado.

Page 241: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

48

os falantes conseguissem depreender a base, não conseguiam definir ou

contextualizar as palavras apresentadas. Em alguns casos, nem quando

fornecíamos o vocábulo já contextualizado, o significado era recuperado pelo

informante. Dessa forma, tais palavras foram excluídas do corpus, uma vez que

nosso objetivo é analisar apenas os vocábulos efetivamente empregados e

reconhecidos pelos falantes, tendo por base o uso da língua.

Desse modo, optamos por manter no corpus apenas os vocábulos

reconhecidos pelos falantes e, para tanto, criamos um filtro nos vocábulos

pertencentes ao corpus inicial a partir da busca no Google. Assim, selecionamos

um filtro de 50.000 ocorrências para que pudéssemos manter ou retirar as

palavras do corpus, o que comprovou a nossa hipótese inicial e os testes

informais com os falantes: em linhas gerais, as palavras não acessíveis aos

informantes que participaram do teste tiveram baixíssimo número de

ocorrências no Google. Assim, as palavras que restaram no corpus com o seu

respectivo número de ocorrências estão detalhadas no anexo III e abaixo

exemplificadas:

PALAVRA OCORRÊNCIAS NO GOOGLE

Abertura 81.400.000

Altura 228.000.000

Armadura 14.300.000

Assadura 200.000

Assinatura 40.800.000

Atadura 40.800.000

Belezura 388.000

Page 242: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

49

Benzedura 944.000

Brancura 224.000

Chatura 247.000

Cintura 46.100.000

Cobertura 102.000.000

Fartura 6.350.000

Fechadura 3.490.000

Feiura 493.000

Ferradura 1.530.000

Fervura 722.000

Finura 1.400.000

Fofura 2.890.000

Fritura 1.240.000

Gostosura 388.000

Tabela 1: Número de ocorrências dos vocábulos no sítio de busca Google

Portanto, depois de delimitado o corpus, restou um montante de 98 dados

de nominalização X-ura reconhecidos pelos falantes e analisados nesta

Dissertação.

3.3. Métodos de análise

A fim de corroborar a hipótese inicialmente apresentada – a de que o

sufixo –ura somente é produtivo nos dias de hoje a partir de bases não

participiais, apresentando dados empíricos que demonstrem esse percurso

histórico – foi essencial fazer uma busca em textos escritos antigos. Para tanto,

recorremos ao “Corpus do Português”, um corpus muito amplo e

Page 243: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

50

disponibilizado por meio eletrônico, o que facilitou consideravelmente o

processo de coleta, visto que buscávamos verificar uma vasta quantidade de

textos com o objetivo de obter resultados mais confiáveis.

Foi escolhido esse corpus por ele apresentar quase 57.000 textos em língua

portuguesa, do século XIV até o século XX. Além disso, como abarca também

textos de outros corpora informatizados, pudemos obter dados de textos dos

séculos anteriores a esses, como XII e XIII, por exemplo. Assim, o corpus trazia

como resultado o registro solicitado, separado por número de ocorrências em

cada século e contextualizado com referência aos textos de onde foi rastreado.

Assim, foram pesquisadas todas as ocorrências que restaram no corpus a partir

desse sítio, buscando a datação da primeira aparição em textos escritos e

analisando o contexto em que tais palavras estavam sendo utilizadas e com que

significado. Veremos no capítulo 5 e 6 que essa busca em textos antigos também

ajudou a demonstrar a mudança semântica ocorrida e a especialização sofrida

pelo afixo -ura. Assim, os textos antigos consultados estão apresentados no

anexo VI desta Dissertação.

Finalizada a varredura nos textos antigos, foi feita a separação das

ocorrências por cada século a fim de corroborar as hipóteses previamente

levantadas acerca da história do afixo e tecer maiores considerações sobre o

lugar desse afixo na língua portuguesa. O anexo IV apresenta essa separação

por século e foi utilizado para fazer a análise história presente no capítulo 5.

Além disso, vale ressaltar que a datação encontrada nesses dados também foi

utilizada no anexo II, pois, da mesma maneira que, entre o dicionário eletrônico

Page 244: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

51

Houaiss (2001) e os dicionários etimológicos consultados, foi considerada a data

mais antiga, o mesmo foi feito em relação a esses textos. Por fim, comparando

as três datações a que tivemos acesso, selecionamos sempre a mais antiga, seja

ela a do dicionário eletrônico Houaiss, a dos dicionários etimológicos

consultados ou a primeira aparição em textos do “Corpus do Português”.

Em relação às funções da nominalização que serão apresentadas no

capítulo 5 e reinterpretadas de acordo com a Teoria Multissistêmica no capítulo

6, achamos de extrema importância separar os vocábulos constituintes do corpus

entre elas e apresentá-las no anexo V para facilitar a consulta. Além disso, é

importante ressaltar que essa divisão foi feita a partir do significado mais

prototípico de cada palavra, já que, como veremos a seguir essas funções

podem se intercambiar à medida que os dispositivos sociocognitivos atuem ou

cada um dos quatro sistemas tome lugar. Assim, o significado prototípico de

altura é o de abstratização de adjetivo, indicação de propriedade, mas, se

inserida em um contexto, pode veicular o significado de intensificação, como se

observa no seguinte exemplo:

(1) Olha a altura desse salto, é óbvio que vai tropeçar5.

Como o objetivo desta Dissertação é analisar o processo de

nominalização a partir do sufixo –ura com base na Teoria Multissistêmica,

optamos por recolher os exemplos presentes nesta Dissertação no sítio de busca

5 http://somulhercompartilha.tumblr.com/post/26831503854/olha-a-altura-desse-salto-e-obvio-que-vai. Acessado em 07/ Ago / 2012

Page 245: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

52

do Google. Assim pudemos verificar essas palavras em seu contexto real de uso

sem recorrer a exemplos inventados.

Quanto ao teste de aceitabilidade com os falantes, podemos descrevê-lo

rapidamente devido à sua simplicidade de elaboração, mas objetivamente

satisfatório. Com o intuito de verificar se as formações com bases verbais não

eram mesmo mais produtivas para formar novas palavras na língua, criamos

um experimento que continha palavras criadas por nós e formadas a partir da

anexação de três afixos distintos a uma mesma base verbal: -ura, -mento e -ção.

Como exemplo, podemos citar as formações deletação, deletamento e deletadura

que são formadas pela base verbal deletar (e seu particípio deletado, no caso de

-ura).

Feito isso, foi solicitado aos falantes da Faculdade de Letras da UFRJ que

atribuíssem um grau de aceitabilidade para cada uma dessas ocorrências dentro

de uma escala apresentada. Assim, ele marcaria 1 quando considerasse que a

forma era plenamente aceitável; 2, quando a considerasse como aceitável; e 3,

quando não a reconhecesse e não achasse aceitável tal realização na língua. O

experimento está presente no anexo VII desta Dissertação para consulta dos

dados apresentados aos informantes. Foram ouvidos 22 informantes, chegando

a um total de 132 dados, das mais diferentes idades e dos dois sexos, pois

pensávamos que isso talvez pudesse interferir, mas percebemos, ao fim da

análise, que essas informações sociolinguísticas não alteravam o resultado da

amostra e nem trazia novas considerações como veremos no capítulo 5.

Page 246: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

53

3.4. Resumindo

Um bom método de análise e de constituição de um corpus é de extrema

importância para atingir os objetivos da análise linguística. Assim, pretendemos

ter apresentado de maneira clara e detalhada todos os caminhos percorridos ao

longo desta Dissertação para alcançar os objetivos da análise. Buscamos mostrar

como foi feita a constituição do corpus e qual a relevância para tal escolha, além

de apresentar os métodos de análise das ocorrências selecionadas.

No que diz respeito ao experimento linguístico, buscamos demonstrar

como foi realizado e com que objetivo foi elaborado, apontando para a sua

relevância dentro desta análise.

Page 247: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

54

TEORIA MULTISSISTÊMICA

O presente capítulo tem por objetivo apresentar o arcabouço teórico no

qual esta pesquisa se apoia, a fim de justificar a sua escolha e analisar o

formativo em questão. Isso posto, temos o objetivo de melhor compreender

como conceitos básicos como o de língua, por exemplo, são tratados e quais são

os preceitos que sustentam a Multissistêmica, além de apontar e descrever as

influências que a Linguística Cognitiva e o Funcionalismo exercem sobre essa

abordagem e sustentam esse novo enfoque.

Em resumo, essa teoria trata a língua como um conjunto de sistemas que

atuam simultaneamente e inova ao não falar mais em divisões de gramática

hierarquizadas. Segundo essa abordagem, a língua não apresenta divisões

estanques nem sistemas que dependem de algum outro para se realizar, na

medida em que todos atuam simultaneamente.

A Abordagem Multissistêmica leva em consideração um dispositivo

sociocognitivo que atua nos quatro sistemas constituintes da língua: semântica,

discurso, léxico e gramática. Observe a figura 1 abaixo:

4

Page 248: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

55

Figura 1: A relação entre o dispositivo sociocognitivo e os sistemas da língua.

Segundo essa teoria e a partir da figura apresentada acima, podemos

perceber que os sistemas são independentes entre si, ou seja, um não é

hierarquizado em detrimento de outro, e que o dispositivo sociocognitivo

(DSC) atua em todos os sistemas linguísticos afetando-os independentemente.

No entanto, vale ressaltar que, apesar dessa independência entre os sistemas, é

possível notar que interfaces podem ocorrer (e, de fato, ocorrem), na medida em

que a língua está em constante mudança e esses sistemas são ativados

simultaneamente na língua.

Também é válido salientar que faremos uso da teoria para dar uma nova

abordagem ao tema, mas recorreremos a outros modelos linguísticos, quando

necessário. No caso da análise morfológica, por exemplo, faremos uso da

proposta de Booij (2005; 2010) por acreditar que (1) esse modelo, denominado

Morfologia Construcional, possibilita melhor descrição do afixo e (2) a

abordagem pela Multissistêmica pouco enfatiza esse componente linguístico.

Cabe, com isso, dizer que não faremos da Teoria Multissistêmica uma cartilha a

ser seguida, mas um aporte teórico aberto a novas influências e abordagens,

DISCURSO

LÉXICO SEMÂNTICA DSC

GRAMÁTICA

Page 249: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

56

visto que o objetivo final é analisar com mais precisão o processo de

nominalização ora contemplado.

4.1. Postulados da teria multissistêmica funcionalista-cognitiva

A teoria Multissistêmica funcionalista-cognitiva é definível a partir de

seis postulados que tomam por base as noções e os conceitos levantados pela

Linguística Funcionalista e pela Linguística Cognitiva. Todos esses postulados

sustentam essa abordagem e apontam para uma visão inovadora de gramática,

na medida em que se começa a olhar para a língua a partir de mais de um ponto

de vista, buscando analisar os seus fenômenos por completo.

Nesta seção, optamos por separar os postulados de duas maneiras: em

um primeiro momento, apresentamos os mais gerais, na medida em que partem

de outras teorias; e em um segundo momento, apresentamos os postulados

mais específicos da nova abordagem.

4.1.1. Postulados gerais

Nesta subseção, apresentaremos os postulados da Gramática

Multissistêmica que têm por base as Linguísticas Cognitiva e Funcionalista.

Esses são chamados de postulados gerais, pois são as bases dessa nova teoria

que foram trazidas das anteriores, ou seja, não são inovações da

Multissistêmica, apenas a manutenção de ideias já elaboradas e discutidas por

outras teorias. No entanto, isso não diminui a importância ou relevância dessa

Page 250: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

57

nova abordagem, visto que os estudos linguísticos estão sempre se baseando

nos anteriores, seja concordando ou discordando.

4.1.1.1. Postulado 1: a língua se fundamenta em um aparato cognitivo

Ao longo dos anos, foram criadas inúmeras correntes linguísticas que

visavam a analisar e descrever a língua a partir de um novo ângulo e que

tomavam por base o que já se tinha seja concordando ou não com as ideias

existentes. Com a Linguística Cognitiva (doravante LC) não poderia ser

diferente. Essa nova forma de abordar a língua surgiu como renovação dos

estudos funcionalistas que se opunham ao gerativismo de Chomsky (1986) por

intermédio dos linguistas Lakoff e Johnson (2002 [1980]).

A Gramática Gerativa não levava em conta o uso da língua em seus

estudos e a considerava modular, na medida em que separava os diferentes

módulos da gramática priorizando a sintaxe em detrimento da semântica e da

pragmática, ou seja, as orações, de acordo com essa corrente teórica

(CHOMSKY, 1986), deveriam ser descritas independentemente do contexto no

qual estariam inseridas. Para a gramática gerativa, a língua é interpretada como

um conjunto de sentenças, de orações, cujo correlato psicológico é a

competência linguística – capacidade do falante de produzir, interpretar e julgar

a gramaticalidade dessas sentenças. Além disso, outra característica básica

dessa visão sobre a língua é a de que a aquisição é inata e, portanto, os inputs

são restritos e não estruturados.

Page 251: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

58

Não satisfeitos e percebendo que a língua não era apenas um conjunto de

sentenças e que o discurso e a interação social atuam no sistema linguístico,

abriu-se caminho para a Linguística de base Cognitiva, partindo do pressuposto

de que a cognição faz parte da linguagem – ou que a linguagem faz parte da

cognição – e não deve ser abandonada nos estudos linguísticos. Portanto, o

pressuposto dessa teoria é o de que a estrutura léxico-gramatical das línguas

naturais reflete a estrutura do pensamento de alguma forma e que a

representação do chamado “conhecimento de mundo” está intimamente ligada

à representação semântica, influenciando a gramática. Dessa forma, a cognição

– que ajuda a descrever um mundo em movimento a partir das relações sociais

-, a semântica e a pragmática passam a ser consideradas essenciais para um

estudo mais aprimorado da língua e conceitos que antes eram interpretados de

uma maneira pela Linguística Gerativa passam a ser entendidos de outra forma.

Como afirma Soares da Silva (2006:297),

“toda a linguagem é, afinal, acerca do significado. E o significado linguístico é flexível (adaptável às mudanças inevitáveis do mundo), perspectivista (não espelha, mas constrói o mundo), enciclopédico (intimamente associado ao conhecimento do mundo) e baseado na experiência e no uso (experiência individual e colectiva e experiência do uso actual da língua). São estes os princípios fundacionais da Linguística Cognitiva. E a polissemia é uma das evidências maiores destes princípios”.

A partir dessa passagem, podemos resumir sobre o que trata a

Linguística Cognitiva e apontar para a polissemia como uma grande evidência

dos princípios norteadores da teoria. Portanto, vale fazer uma breve referência

Page 252: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

59

sobre como seria abordada a polissemia nesse contexto e qual a sua importância

real. Segundo Soares da Silva (2006), a polissemia seria uma associação de

sentidos múltiplos que se relacionam entre si apresentando uma única forma.

Em outras palavras, seria uma palavra ou expressão com inúmeros sentidos,

uma rede de sentidos flexíveis, adaptáveis ao contexto e abertos à mudança, já

que dependem do uso. Assim, podemos perceber que um dos conceitos básicos

da Linguística Cognitiva é a polissemia, pois esta é alcançada na medida em

que o contexto e o uso passam a fazer parte do sistema linguístico, da cognição

humana e, consequentemente, a interferir na linguagem. As representações

desse conceito, por sua vez, estão na metáfora, na metonímia e também na

categorização a partir de protótipos. No entanto, antes de entrar na descrição do

que se entenderia por metáfora, metonímia e categorização, é importante fazer

um breve percurso sobre o que sustenta a Linguística Cognitiva, as formas de

organização do conhecimento de mundo, que é um dos pilares da

Multissistêmica: os conceitos de Esquemas Imagéticos (EIs), frames e Modelos

Cognitivos Idealizados (MCIs). Segundo a LC, o nosso pensamento é

organizado a partir das nossas experiências de mundo e, para tanto, são

acessados esses conceitos anteriormente citados.

Os Esquemas Imagéticos (EIs) são, segundo Soares da Silva (2006, 185)

“Padrões imaginativos, não proposicionais e dinâmicos dos nossos movimentos no espaço, da nossa manipulação dos objetos e de interacções perceptivas. eles apresentam uma estrutura interna, ligam-se entre si através de transformações e podem ser metaforicamente elaborados”.

Page 253: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

60

Dito de outra forma, os Esquemas Imagéticos são gestalts experienciais

que emergem da nossa atividade sensório-motora e através das quais

manipulamos e nos orientamos espacialmente, direcionando o nosso foco

perceptual. Assim, esses esquemas refletem a nossa relação com o mundo e com

a forma com a qual interagimos com o ambiente ao nosso redor. Como

exemplo, podemos citar o EI de percurso em que temos um ponto A

direcionando-se a um ponto B de destino e esse esquema pode ser ativado

quando queremos falar da relação de finalidade, por exemplo.

A B

Figura 2: Esquema Imagético do Percurso

Na formação vale-transporte, o esquema imagético de percurso é ativado,

na medida em que temos a relação de causa e finalidade visto que se trata de

um vale para ser usado no transporte, com a finalidade do transporte.

Segundo a LC, os frames são, por sua vez, sistemas que apresentam

conceitos tão relacionados que, para que se entenda um deles, é preciso

entender toda a estrutura na qual ele se insere (FILLMORE, 1982: 111). Quer-se

com isso dizer que o frame é um conjunto de vários conhecimentos integrados, é

uma base de conhecimento que é atualizada e evocada cotidianamente pelos

falantes e estruturado contextualmente. Como exemplo, podemos citar a

Page 254: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

61

expressão usada por Fillmore (1982:380) café da manhã. Segundo o autor, essa

expressão evoca uma cena já previamente esquematizada na mente do falante.

Independentemente da hora em que o indivíduo se alimente, ou mesmo que ele

não tenha dormido, sabe-se que esta é a primeira refeição do dia e que tipos de

alimentos são consumidos.

Já os MCIs, ou Modelos Cognitivos Idealizados, são a representação do

conhecimento de mundo do falante e muito se assemelham aos frames, já que

também são representações cognitivas estereotipadas. O conceito de MCI, que

foi desenvolvido por Lakoff (1987), diz respeito à estruturação do pensamento e

à sua utilização na formação de categorias no raciocínio humano. A contraparte

Multissistêmica dos MCIs está expressa através dos Dispositivos

Sociocognitivos (DSC) supracitados. Assim como esses Modelos, os DSCs

também são entendidos como sendo o conhecimento de mundo do usuário da

língua, ou seja, toda a bagagem sociocognitiva trazida pelo falante. A diferença

está no fato de o DSC poder ser ativado, reativado ou desativado dentro dos

sistemas da língua como veremos no capítulo 6, e o MCI estar sempre ativado

na mente do falante, estando, portanto, sempre presente.

Assim, depois desse breve percurso sobre alguns conceitos da LC,

retornemos aos conceitos de metáfora, metonímia, polissemia e categorização,

muitos importantes na Teoria Multissistêmica. Um dos pontos de oposição

entre as abordagens Gerativa e a Cognitiva está na interpretação da metáfora e

da metonímia. Enquanto, na primeira corrente, esses conceitos eram tratados

apenas no campo da figuratividade; na segunda, eles passam a fazer parte da

Page 255: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

62

linguagem cotidiana dos falantes e são interpretados como bases estruturantes

da linguagem. A Linguística Gerativa considerava a metáfora e a metonímia

como meras figuras de linguagem, assim como vinha sendo entendido até o

momento e desde a Filosofia Clássica. De acordo com essa visão, tais conceitos

seriam marginais à língua e utilizados apenas para fins literários e figurativos

(LAKOFF & JOHNSON, 2002:11). Em contrapartida, a Linguística Cognitiva

interpreta esses conceitos como princípios que estruturam a cognição e a

linguagem humanas. Segundo essa visão, o centro da linguagem estaria

justamente nessa figuratividade, já que a metáfora é vista como uma operação

cognitiva fundamental para a comunicação, na medida em que utilizamos

várias delas no dia a dia sem nem ao menos perceber.

De acordo com Lakoff e Johnson (2002), a metáfora é, antes de tudo, uma

propriedade do pensamento, um processo cognitivo através do qual somos

capazes de comparar dois domínios e interpretar, conceptualizar um por

intermédio de outro: sendo um o domínio-fonte e o outro, o domínio-alvo. Para

tanto, é necessário que o domínio-fonte seja mais básico que o domínio-alvo por

este estar diretamente associado à relação experiencial do falante / ouvinte e ser

somente a partir de conceitos que já experienciamos e já conhecemos que somos

capazes de conceptualizar novos conceitos. Os autores exemplificam essa

afirmação ao falarem de metáforas conceptuais, como AMOR É UMA VIAGEM,

ativadas pelo falante no momento da comunicação e através das quais

conseguimos entender frases e expressões do cotidiano como “Veja a que ponto

nós chegamos”, “Nossa relação não está indo a lugar algum”, dentre outras. É

Page 256: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

63

através dessa aproximação conceptual que conseguimos conceber o amor como

uma viagem e o que nos permite dizer que chegamos ou estamos indo a algum

lugar quando o foco são as relações amorosas. Assim, como mencionado

anteriormente, a metáfora, segundo a LC, não é apenas um adorno, um recurso

dispensável à linguagem humana, mas um atributo do pensamento, já que está

presente na linguagem cotidiana representada em um enorme número de

expressões metafóricas, desempenhando um papel central no sistema

conceptual humano, permitindo que os usuários da língua concebam e

exprimam ideias abstratas a partir de suas experiências no domínio concreto.

A metonímia, por sua vez, igualmente vista na tradição clássica como

uma simples figura de linguagem, uma figura retórica, também gera forte

polissemia e nos ajuda a conceptualizar uma ideia a partir de outra, assim como

a metáfora. No entanto, na metonímia não existem domínio-fonte e domínio-

alvo, já que essa nova conceptualização se dá dentro de um mesmo domínio

cognitivo. Observando a frase “Eu comprei um Degas”, está claro que estou

afirmando ter comprado alguma obra do pintor e escultor francês e não o

próprio. Assim, só conseguimos entender que se trata da obra a partir de uma

conceptualização dentro do mesmo domínio em que se tem o produtor (no

caso, Degas) e o produto (nesse exemplo, as obras de arte em geral). Na

metonímia, o que ocorre é uma focalização e um destaque dentro de um mesmo

espaço semântico.

Nesse sentido, a Teoria da Metáfora de Lakoff e Johnson (2002 [1980])

parece ter grande interferência e valor na Multissistêmica, pois a

Page 257: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

64

ressemantização, por exemplo, faz uso dela como um dos mecanismos para

atualização de significado das palavras e expressões, como veremos no capítulo

6.

Outra relevante contribuição da Linguística Cognitiva para a

Multissistêmica é a que diz respeito à Teoria dos Protótipos de Lakoff (1975

apud CASTILHO, 2010) que tem um importante papel na categorização e,

consequentemente, na polissemia. Nas abordagens ditas clássicas, as categorias

espelhavam uma realidade física e, por isso, eram dotadas de propriedades

inerentes. De acordo com essa visão, todos os membros de determinada

categoria deveriam exibir atributos criteriais idênticos, ou seja, todos deveriam

ter estatuto semelhante. No entanto, essa visão apresenta alguns problemas, na

medida em que nem todos os membros de uma categoria apresentam as

mesmas propriedades e a ausência de uma considerada de máxima

importância, não faz com que esse membro deixe de pertencer à categoria.

Podemos demonstrar essa crítica com o clássico exemplo dos seres humanos:

uma das características primordiais da categoria “homem” é ter dois braços e

duas pernas. Todavia, se temos um indivíduo com apenas uma perna, ele

deixaria de ser incluído nessa categoria? Como a resposta a essa pergunta é

negativa, vale buscar uma nova forma de categorização, sendo ela a abordada

pela LC.

Ao contrário de como eram vistas pelas abordagens clássicas, as

categorias, na teoria dos protótipos, não são entendidas como uma reprodução

da realidade e sim como uma representação. Dessa forma, não há limites

Page 258: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

65

estanques entre elas, já que suas propriedades não são inerentes, mas flexíveis,

formando, assim, um continuum dentro da mesma categoria do mais prototípico

para o menos prototípico. Ainda assim, vale definir o que entendemos por

prototípico dentro dessa teoria. Os protótipos de uma categoria são os

elementos representantes da realidade que compartilham muitos traços comuns

e representam mais completamente determinada categoria. Em contrapartida, o

elemento ao final do continuum seria o menos prototípico, ou seja, aquele que

apresenta apenas alguns traços, sendo considerado como elemento marginal

dessa categoria.

Assim, a teoria dos sistemas complexos, ou Multissistêmica, emerge

nesses preceitos da LC e postula um “continuum categorial”, na medida em que

entende que é a

“similitude, e não a identidade, que deve ser buscada no processo de postulação de categorias. Seus traços definidores não devem ser estabelecidos a partir de propriedades necessárias e suficientes, ou a partir de seu valor de verdade, e sim a partir de certas semelhanças que os falantes percebem intuitivamente” (CASTILHO, 2010:70-71)

Portanto, pudemos perceber que, segundo esse postulado, a cognição é

uma das bases para a descrição linguística e é nessa medida que a Linguística

Cognitiva atua. Esse postulado foi considerado por nós mais geral e abrangente,

visto que levanta as questões presentes na Linguística Cognitiva, sendo,

portanto, uma das bases da teoria.

Page 259: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

66

4.1.1.2. Postulado 2: a língua é uma competência comunicativa

A Teoria Multissistêmica tem por base muitas noções primárias do

funcionalismo, conforme será descrito nesta subseção. A primeira delas é a

interpretação da língua como um processo estruturante, contrapondo-se à ideia

primeira do estruturalismo que entendia a língua apenas como um conjunto de

produtos já finalizados. Segundo o funcionalismo, essa seria a visão mais

abrangente, já que a língua é dinâmica, é produção, é atividade (energia), nos

termos de Humbolt (1990:65 apud CASTILHO, 2010), e não somente um

produto.

Como afirma Neves (1997:15), “por gramática funcional entende-se, em

geral, uma teoria da organização gramatical das línguas naturais que procura

integrar-se em uma teoria global da interação social”. Assim, é, portanto, uma

teoria que compreende que as “relações entre as unidades e as funções das

unidades têm prioridade sobre seus limites e sua posição, e que entende a

gramática como acessível às pressões de uso” (NEVES, 1997:15). A autora

também afirma que a gramática funcional considera a competência

comunicativa do falante, ponto retomado pela Teoria Multissistêmica, e define

essa competência como sendo “a capacidade que os indivíduos têm não apenas

de codificar e decodificar expressões, mas também de usar e interpretar essas

expressões de uma maneira internacionalmente satisfatória” (NEVES, 1997:15),

ou seja, a competência comunicativa é a capacidade que o falante tem de se

comunicar com sucesso na língua, de se fazer entender. Nas palavras de Dik

(1997:6),

Page 260: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

67

“A capacidade linguística do falante abrange não só a capacidade de criar e interpretar expressões linguísticas, mas também a capacidade de usar essas expressões de maneira apropriada e eficaz de acordo com as convenções da interação verbal que prevalecem em uma comunidade linguística”.6

Essa competência comunicativa está diretamente ligada às noções de

tema e rema – e à sua articulação na sentença – e de atos de fala, na medida em

que o falante deve ser capaz de articular essas informações satisfatoriamente a

fim de criar o processo comunicativo. O estatuto informacional vem sendo

amplamente discutido por inúmeros autores e as noções de tema e rema

possuem várias divisões a depender do ponto de vista do autor que as define.

No entanto, apesar dessas variações, todos os autores concordam com a

definição básica de que o tema é a informação velha, dada (que possui baixa

informatividade) enquanto o rema é a informação nova (que carrega alta

informatividade) da cláusula. Essas noções são muito importantes no processo

comunicativo, pois a língua só irá “funcionar” se os interlocutores conseguirem

se comunicar: o ouvinte conseguir entender e o falante ser capaz de se fazer

compreender. Assim, segundo Chafe (1976: 27-28), o processo de comunicação

só ocorrerá com sucesso se o falante levar em consideração o que pode se passar

na cabeça do ouvinte7 e o falante tem de ajustar o que está dizendo ao que ele

6 “[natural linguistic user’s] linguistic capacity comprises not only the ability to construe and interpret linguistic expressions, but also the ability to use these expressions in appropriate and effective ways according to the conventions of verbal interaction prevailing in a linguistic community”. 7 “Language functions effectively only if the speaker takes account of such states in the mind of the person he is talking to”. (CHAFE, 1976: 27-28).

Page 261: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

68

assume que o ouvinte está pensando no momento da conversação. Por esse

motivo, é muito importante que se tenha em mente as noções de informação

dada e informação nova, visto que o falante deve estruturar a sua comunicação

a partir do que pressupõe ser novo ou velho para o seu ouvinte, ou seja, deve

acomodar sua fala ao conhecimento de mundo do seu interlocutor. Assim,

informação velha é a que o falante assume ser de conhecimento do seu ouvinte

e a informação nova é a que ele acredita estar introduzindo no conhecimento,

na consciência desse interlocutor. Já em relação aos atos de fala, podemos notar

que sua importância se dá na medida em que demonstram a intenção do

falante, ou seja, o que ele deseja passar e com que objetivo. Juntamente com

essas noções, também temos as de topicalização e focalização que são, ambas,

estratégias conversacionais que têm por objetivo destacar a informação mais

importante daquela cláusula em detrimento das outras.

Segundo o funcionalismo, a linguagem é uma atividade sociocultural

que serve de instrumento para a comunicação entre os seres humanos e faz com

que a forma linguística derive do seu uso no processo de comunicação,

devendo, portanto, ser analisada no discurso. Assim, a linguagem é um

fenômeno mental e primariamente social – devido a sua preocupação com o uso

– e uma entidade não autônoma, pois está diretamente correlacionada a fatores

comunicativos ou sociocomunicativos e cognitivos ou sociocognitivos, sendo,

dessa forma, um objeto contextualizado.

A língua, por sua vez, é considerada um sistema de unidades e

regularidades linguísticas sensíveis às situações de uso e de comunicação e à

Page 262: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

69

interação verbal. Sendo assim, a língua é a conjunção entre regras, formas e

significados, levando em consideração a interação social entre os falantes. A

língua também é entendida como um sistema adaptável, maleável e em

constante transformação por responder às pressões de uso da interação

comunicativa. Segundo Dik (1997), a língua é um instrumento de interação

social que não existe por si só em algum tipo de estrutura arbitrária, mas existe

em virtude de ser utilizada para determinados fins8. Essa interação é definida

como sendo (DIK, 1989 apud PEZATTI, 2005:168), “uma forma de atividade

cooperativa que estrutura, em torno de regras sociais, normas ou convenções”.

O autor também afirma que a principal função dessa língua natural é

estabelecer a comunicação entre os seus usuários, ou seja, mais uma vez temos a

noção funcional de que a língua existe com uma função, um objetivo a ser

alcançado – que é a comunicação efetiva.

Os principais objetivos do funcionalismo que podem ser conjugados à

Multissistêmica são os de explicar a estrutura de uma língua, seus princípios e

entidades, levando em consideração a comunicação e o discurso – ou seja,

levando em conta a competência comunicativa – e esclarecer os fenômenos

linguísticos com base em aspectos semânticos, discursivos e pragmáticos e a

partir da sua funcionalidade, na medida em que considera o discurso um dos

sistemas básicos da língua.

Outro ponto da Linguística Funcional que também é levado em

consideração na Multissistêmica é o fato de aquela considerar a mudança

8 “[an instrument of social interaction] means that it does not exist in and by itself as an arbitrary structure of some kind, but that is exists by virtue of being used for certain purposes”. (DIK, 1997:5)

Page 263: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

70

linguística como algo pancrônico, isto é, juntamente com fenômenos que

mudaram ao longo do tempo, convivem variantes que refletem um conjunto de

polissemias na língua. Dessa forma, podemos perceber que, no funcionalismo, a

dicotomia saussuriana sincronia X diacronia já estava sendo enfraquecida. No

entanto, apesar de usar essa ideia como base, a Multissistêmica vai além, pois

afirma que não somente a mudança é pancrônica, mas a língua como um todo,

como esclareceremos mais adiante, no postulado 5.

Portanto, podemos perceber que a Teoria Multissistêmica mantém

muitos dos preceitos do funcionalismo como base, assim como do cognitivismo.

Isso é possível, pois essas duas teorias partem dos mesmos pressupostos iniciais

– já que esta derivou daquela – e levantam questões interessantes acerca do

estudo da língua.

4.1.2. Postulados específicos

Mesmo tendo bases na Linguística Cognitiva e na Linguística

Funcionalista, a Teoria Multissistêmica pode ser intitulada uma nova

abordagem linguística, já que apresenta inovações no pensamento e na forma

de análise. Assim, nesta seção, buscamos descrever quais são os postulados

específicos da teoria utilizada como aporte teórico da pesquisa, abordando os

que diferenciam a Mutissistêmica das outras correntes linguísticas e a tornam

única dentre as demais.

Page 264: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

71

4.1.2.1. Postulado 3: as estruturas linguísticas não são objetos

autônomos

Esse postulado está intrinsecamente ligado ainda ao postulado anterior,

tido como geral, pois também trata da língua sob o ponto de vista funcionalista.

No entanto, optamos por separá-los já que este é um postulado mais específico

do que aquele, visto que seleciona apenas uma noção em especial apresentada

pelo funcionalismo.

Como já foi antecipado, as estruturas linguísticas não são consideradas

objetos autônomos, pois são flexíveis e adaptáveis às pressões de uso. Essas

estruturas não são entendidas como arbitrárias, mas são dinâmicas e sujeitas à

mudança, contrariando as perspectivas formalistas que não aceitavam a ideia

de a língua natural sofrer qualquer interferência externa. Resumindo, Castilho

(2010: 73) afirma que as estruturas linguísticas podem ser interpretadas a partir

de algumas propriedades, sendo elas:

(1) As estruturas são flexíveis e permeáveis às pressões de uso [como já mencionamos], combinando-se a estabilidade dos padrões morfossintáticos cristalizados com as estruturas emergentes; (2) as estruturas não são totalmente arbitrárias; (3) as estruturas são dinâmicas e sujeitas a reelaborações constantes, através do processo de gramaticalização.

Portanto, podemos perceber que esse postulado está conectado à ideia de

contexto e de análise conversacional. Queremos com isso dizer que, ao contrário

do que se tinha no polo formalista de análise da língua, a Multissistêmica

Page 265: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

72

considera que a variação, a mudança e o contexto podem interferir na estrutura

linguística e a mesma pode ser, então, alterada. Não se tem mais a ideia de que

ela é uma estrutura já pronta, pré-moldada e inalterável, pois a interação passa

a fazer parte dos estudos linguísticos.

4.1.2.2. Postulado 4: as estruturas linguísticas são multissistêmicas.

Segundo esse postulado, a língua, que é tanto produto quanto processo

conforme demonstraremos mais adiante, é entendida como um sistema

dinâmico e ao mesmo tempo complexo, pois todos os sistemas linguísticos

atuam mutuamente, não havendo, portanto, hierarquia entre eles. Dessa forma,

perde-se a ideia levantada pelas demais teorias de que haveria supremacia de

um sistema ou módulo linguístico em detrimento de outro, como no caso da

Gramática Gerativa que defendia a ideia de uma sintaxe absoluta e acima dos

demais sistemas e a Cognitiva que privilegia a semântica, por exemplo. Nesse

sentido, essa nova abordagem parte de duas premissas que vão nortear e

defender a ideia de a língua ser um processo e um conjunto de produtos ao

mesmo tempo. A primeira delas é a seguinte (CASTILHO, 2010: 77):

(1) Do ângulo dos processos, as línguas serão definíveis como um conjunto de

atividades mentais, pré-verbais, organizados num multissistema operacional.

Segundo essa premissa, a língua é dinâmica, organizada a partir de

alguns processos e entendida a partir de operações simultâneas, dinâmicas e

Page 266: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

73

multilineares (por não ser uma entidade unilateral). De acordo com a Teoria

Multissistêmica, as línguas não se organizam sequencialmente, quebrando o

paradigma que se vinha observando, já que todos os sistemas têm o mesmo

grau de importância e atuam ao mesmo tempo na língua. Além disso, a língua

passa a não ser mais vista como uma entidade estática, pronta e pré-moldada,

pois tem a sua dinamicidade. Segundo essa nova teoria, as línguas podem ser

entendidas como processos, devido, principalmente, a esse caráter mais

dinâmico e não estático que apresenta.

A segunda premissa diz respeito à ideia de língua como produto.

Observe abaixo (CASTILHO, 2010: 77):

(2) Do ângulo dos produtos, as línguas serão apresentadas como um conjunto

de categorias igualmente organizadas num multissistema.

A língua enquanto produto é conceptualizada como um conjunto de

categorias agrupadas em quatro diferentes sistemas: o léxico, o discurso, a

semântica e a gramática. De acordo com essa visão, esses sistemas seriam

considerados autônomos e independentes uns dos outros, em uma abordagem

na qual não haveria derivação, hierarquia ou qualquer relação de determinação

entre eles. Assim, não se postula a ideia de haver um sistema geral e central,

visto que todos eles têm a mesma importância e o mesmo status na língua, como

explicitado anteriormente. Portanto, qualquer expressão linguística apresenta,

ao mesmo tempo, características dos quatro sistemas, como pretendemos

mostrar na análise de dados desta Dissertação.

Page 267: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

74

Sendo assim, podemos perceber que o postulado 4 é específico da

Multissistêmica, pois inova ao entender a língua tanto como produto quanto

como processo, diferentemente das teorias anteriores que afirmavam ser ela um

ou outro.

4.1.2.3. Postulado 5: a língua é pancrônica – explicação linguística

Como já pudemos adiantar no postulado 2 acima, a língua, segundo o

funcionalismo, pode sofrer pressões tanto da diacronia quanto da sincronia,

acabando, portanto, com essa dicotomia criada por Saussure. Assim, tomando

por base os antecedentes funcionalistas, esse postulado da Teoria

Multissistêmica aborda o estudo linguístico como pancrônico, ou seja, leva em

conta a diacronia para explicar a sincronia, a convivência entre várias sincronias

na língua, discordando da dicotomia saussuriana.

Segundo essa visão, os estudos sincrônico e diacrônico não devem ser

feitos em separado, pois “pensar o presente é pensar o passado no presente”

(CASTILHO, 2010:77), na medida em que (a) existe a convivência entre as

gramáticas e (b) ambos os estudos são válidos e necessários para um melhor

entendimento sobre o funcionamento da língua. Dessa forma, na presente

análise acerca da nominalização em português por intermédio de –ura,

recorreremos à história para explicar a atual sincronia desse sufixo

nominalizador.

Page 268: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

75

4.1.2.4. Postulado 6: um dispositivo sociocognitivo ordena os sistemas

linguísticos.

Como pudemos perceber ao longo deste capítulo, existe, na Teoria

Multissistêmica, um elemento primordial na língua que atua em todos os

sistemas: o chamado Dispositivo Sociocognitivo (DSC). Esse dispositivo é o

responsável por articular os processos e os produtos linguísticos captados pelos

quatro sistemas (léxico, gramática, discurso e semântica) sendo explicitado

através de três diferentes princípios: o de ativação, o de desativação e o de

reativação de propriedades.

Esse dispositivo é chamado de cognitivo, pois tem por base as categorias e

subcategorias cognitivas de pessoa, espaço, tempo, objeto, movimento e evento, por

exemplo, ou seja, parte da conceptualização cognitiva dessas categorias. Além

disso, também é social na medida em que é baseado na análise das situações

conversacionais, nas mudanças de turno, ou seja, fazem parte das relações

sociais dos interlocutores.

Portanto, esses dispositivos socicognitivos

“Gerenciam os sistemas linguísticos, garantindo sua integração para os propósitos dos usos linguísticos, para a eficácia dos atos de fala. De acordo com esse dispositivo, o falante ativa, reativa e desativa propriedades lexicais, semânticas, discursivas e gramaticais no momento da criação de seus enunciados, constituindo as expressões que pretende ‘pôr no ar’” (CASTILHO, 2010:79)

Page 269: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

76

Como podemos perceber, esses dispositivos são o cerne da teoria e, nesta

Dissertação, pretendemos mostrar como eles atuam nos diferentes sistemas

linguísticos e apresentar os princípios de ativação, reativação e desativação das

propriedades em todos eles. É importante notar que, assim como os sistemas

não são hierárquicos, esses princípios também não o são atuando

simultaneamente, pois em um mesmo momento em que se está ativando um

significado, também se está desativando outro e reativando um novo – no caso

do sistema semântico, por exemplo.

4.2. Resumindo

Ao longo deste capítulo, buscamos descrever uma nova forma de análise,

abordagem e descrição da língua: a Teoria Multissistêmica. Pudemos perceber

que ela tem por base os conhecimentos já alcançados pelo funcionalismo e pelo

cognitivismo, sendo, portanto, um desdobramento dessas duas correntes

linguísticas. Em resumo, a Multissistêmica interpreta a língua como maleável e

considera a importância do discurso e do conhecimento de mundo na estrutura

da língua. Segundo essa nova abordagem, a cognição é de extrema importância

para que o processo comunicativo seja efetuado e a língua seja claramente

compreendida.

Além disso, também pudemos constatar que essa teoria não trabalha com

as mesmas noções apresentadas pelas gramáticas e defende a existência de

quatro sistemas linguísticos que se conectam independentemente uns dos

outros e não apresentam qualquer hierarquia. Essa é a grande inovação da

Page 270: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

77

teoria, na medida em que surge para quebrar com os paradigmas presentes nas

anteriores de que há sempre um módulo da gramática que se sobreponha aos

demais. Segundo a Multissistêmica, os módulos do discurso, da semântica, da

gramática e do léxico atuam ao mesmo tempo na língua e são igualmente

importantes para o funcionamento linguístico.

Outro ponto relevante a ser relembrado é a existência de um Dispositivo

Sociocognitivo (DSC). De acordo com Castilho (2010), seria esse dispositivo que

regeria a língua e os quatro sistemas atuantes nela. Dito de outra maneira, esses

dispositivos seriam responsáveis por ativar, desativar ou reativar cada um

desses sistemas nas estruturas linguísticas e abarcariam tanto o conhecimento

de mundo dos falantes quanto as necessidades discursivas. Portanto, em um

mesmo momento, o DSC poderia ativar uma propriedade do módulo

semântico, desativar alguma do módulo discursivo e reativar outra do sistema

lexical.

Assim, buscamos mostrar, neste capítulo, quais os fundamentos da teoria

utilizada como base nesta Dissertação e quais as inovações que a mesma traz

em função das já existentes.

Page 271: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

78

FUNÇÕES DA NOMINALIZAÇÃO

A ideia central de que a nominalização é um processo pelo qual verbos

tornam-se nomes e estes indicam a ação ou o estado da ação não é plenamente

aplicável ao sufixo –ura e isso se deve à ampla concorrência sincrônica existente

com outros afixos nominalizadores e à especialização semântica de cada um

deles na língua portuguesa contemporânea. Cabe ressaltar que, como

pretendemos deixar claro neste capítulo, essa concorrência se deve ao fato de

haver diversos afixos nominalizadores na língua, podendo essa relação ser

direta ou indireta.

Como notaram Valente & Castro da Silva (2011), -ura apresenta quatro

diferentes funções: (a) a nominalização de verbos – interpretação verbal

(abertura, soltura, varredura), (b) a referenciação – interpretação nominal

(abotoadura, fechadura, cobertura), (c) a abstratização de adjetivos (bravura, ternura,

altura) e, por fim, (d) a intensificação (feiura, loucura, lonjura). Vale salientar, no

entanto, que a comparação com outros afixos, a ser feita neste capítulo,

considera apenas a atual sincronia da língua9. Além disso, também é importante

lembrar que a comparação com os demais afixos será efetuada de maneira não

tão aprofundada, na medida em que este estudo é apenas sobre o afixo –ura.

9 Retomando a Gramática Multissistêmica apresentada no capítulo anterior, deve-se fazer uma perspectiva pancrônica da língua. Por isso mesmo, os resultados comparativos devem ser relativizados.

5

Page 272: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

79

Portanto, vamos nos ater somente a alguns dados, a fim de demonstrar que as

formações coexistem, mas desempenham, cada uma delas, uma diferente

função na língua. Outro ponto relevante a ser salientado no presente capítulo é

o fato de que essas funções foram determinadas a partir do significado

prototípico das palavras selecionadas como exemplos e que, para tal seleção, foi

criado um pequeno corpus dos demais afixos apontados, que pode ser conferido

no anexo VIII desta Dissertação.

5.1. Os caminhos de –ura

Com o objetivo de percorrer a história do afixo –ura e identificar e

delimitar as funções supracitadas, realizamos uma coleta de dados para compor

um corpus inicial com base em dicionários eletrônicos (Houaiss e Aurélio), que

continha 171 formas terminadas em -ura. No entanto, a estranheza que algumas

palavras geraram fez com que nos questionássemos se as realizações por meio

desse formativo seriam mesmo produtivas no português brasileiro. Embora em

alguns casos o padrão morfológico seja opaco, é fácil perceber que há ótimas

condições de isolabilidade em palavras como podrura e zebrura. Porém, essas

não são palavras facilmente reconhecidas e utilizadas em nenhum contexto

pelos falantes. Para corroborar essa nossa ideia inicial, fizemos entrevistas

informais com falantes de português a fim de verificar se formas como essas são

reconhecidas e os resultados foram compatíveis com nossa intuição de que

algumas formas em -ura já não são compreendidas pelo falante comum

(VALENTE & CASTRO DA SILVA, 2011). A entrevista consistia em apresentar

Page 273: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

80

informalmente essas palavras e pedir para os informantes identificarem seu

significado. O mesmo aconteceu com os vocábulos peladura e soldadura, por

exemplo, que não eram identificados pelos usuários da língua e os mesmos não

conseguiam explicar ou contextualizar essas palavras como explicitado no

capítulo 3. Outro indício que encaminhou nossa hipótese, que será descrita a

seguir, foi a consulta de todas as palavras desse corpus inicial na ferramenta de

busca do sítio Google. Enquanto palavras como candidatura resultaram em

37.400.000 ocorrências, podrura retornou 1120 resultados e zebrura, apenas 116, o

que corrobora a baixa ocorrência e acessibilidade do falante.

Assim, nesta Dissertação, estabelecemos um filtro na amostra de dados,

que impõe um número mínimo de 50.000 ocorrências na ferramenta da Internet,

para que possamos dar conta de dados recorrentes em português. Isso se fez

necessário na medida em que buscamos lidar com dados de uso da língua e, se

considerássemos vocábulos como podrura, não atingiríamos nosso objetivo de

analisar e descrever a nominalização por meio do afixo -ura em português nos

dias de hoje. Depois de feita essa varredura nos dados, excluindo do corpus

aquelas que eram opacas ou que possuíam baixa ocorrência na língua, restaram

98 palavras que constituem o corpus deste trabalho.

Conforme ressaltado, identificamos quatro funções nominalizadoras

exercidas pelo afixo em análise e, a partir do significado prototípico das

palavras, pudemos agrupá-las e tecer as considerações feitas a seguir. A partir

da análise dos grupos de palavras de cada função, pudemos perceber que o

grupo nominalização apresenta baixa quantidade de dados (apenas 10

Page 274: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

81

vocábulos) em comparação ao número expressivo do grupo referenciação (45

dados). No gráfico abaixo, encontram-se os valores percentuais da distribuição

de substantivos em –ura nas quatro funções nominalizadoras:

Gráfico 1: distribuição dos dados entre as funções da nominalização.

Observando os dados do gráfico 1, poderíamos levantar a hipótese de

que o primeiro grupo já não forma novos itens lexicais em português, na

medida em que é o que possui menos ocorrências no corpus. No entanto, esse

argumento não se sustenta sozinho, mas pode ser reforçado quando verificamos

que todas as palavras pertencentes a esse grupo são, em sua maioria, anteriores

ao século XV, havendo apenas um caso posterior a esta data, benzedura, datado

do século XVIII, como podemos observar na tabela abaixo:

Page 275: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

82

PALAVRA NATUREZA DA BASE DATAÇÃO

Benzedura Particípio XVIII

Censura Do latim XV

Embocadura Particípio XVII

Envoltura Particípio XIV

Investidura Particípio XV

Ligadura Do latim XIII

Rapadura Particípio XIV

Semeadura Particípio XV

Soltura Particípio XIII

Varredura Particípio XV

Tabela 2: Palavras do grupo referente à função de nominalização com a datação e a base.

Outro fator que poderia indiciar nossa hipótese é a categoria das bases,

invariavelmente particípios, como também podemos ver na tabela acima, nos

casos de soltura de solto e envoltura de envolto, por exemplo. Trazendo à baila

mais uma vez o que disse Maurer Jr. (1959), no latim, o sufixo -ura se anexava a

bases participiais, sendo uma inovação do latim vulgar a formação com bases

adjetivas. As palavras com bases participiais seriam, pois, um resquício do latim

clássico, ao passo que, no português, as novas formações viriam de adjetivos,

como veremos mais adiante. O fato de a base ser participial ou ter se originado

diretamente no latim não torna nenhuma dessas informações excludentes, mas

apenas corrobora a hipótese de que, no início, as palavras que se formaram a

partir desse afixo tomaram por base os padrões latinos de fazê-lo dessa forma.

Assim, apenas colocamos esses dados na tabela a fim de comprovar que esse

Page 276: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

83

resquício se manteve, mas atentos para o fato de origem e categoria gramatical

da base serem características distintas.

Cabe, então, buscar evidências que nos possibilitem responder às

seguintes perguntas:

(i) Há novas formações de -ura na língua?

(ii) A categoria lexical das bases teria alguma relação com a improdutividade/

produtividade dos padrões?

(iii) Se afirmativo, quais categorias seriam favorecedoras da formação de novas

formas e quais não seriam?

Primeiramente, consultamos alguns dicionários etimológicos (CUNHA,

1999; NASCENTES, 1955; SILVEIRA BUENO, 1967; e MACHADO, 1973) para

verificar a data de entrada dos substantivos na língua portuguesa. Além disso,

também fomos buscar as ocorrências das palavras do corpus em textos antigos

do português consultados no sítio eletrônico “Corpus do Português”10. Os

resultados mais gerais são apresentados no gráfico 2, sendo que não foram

encontradas datações para apenas um vocábulo (chatura), quando mesclamos as

duas informações: as fornecidas pelos dicionários e as aparições em textos

antigos pela primeira vez.

10 www.corpusdoportugues.org

Page 277: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

84

Gráfico 2: Distribuição dos dados entre os séculos

Os resultados obtidos nos permitem responder positivamente à pergunta

em (i), que se refere à formação de novos itens, já que o registro primário dos

vocábulos compreende o período do século XII ao XX. Por outro lado,

formações recentes na língua, como gostosura e fofura, são exemplos de que -ura

ainda é produtivo em português, restando saber em que casos atuam os

mecanismos geradores de novas palavras. Para tanto, consultamos a

distribuição da categoria gramatical das bases que são adicionadas ao sufixo de

acordo com a cronologia da língua. Num total, 32,99% derivam de adjetivos (33

ocorrências – verdura e ternura), 27,84% de particípios (27 ocorrências – atadura

e semeadura), 1,03% de advérbios (apenas uma ocorrência – lonjura), 2,06% de

substantivos (dois casos – belezura e nervura), 28,87% das palavras entraram no

português via latim (28 dados – cintura e cultura) e 7,22% das formas vieram

como empréstimo de outras línguas (7 dados – brochura e legislatura). Os casos

Page 278: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

85

de empréstimos, que têm origem no francês, inglês e italiano, foram separados

do conjunto de palavras que vieram do latim, porque aqueles são bastante

escassos (representam somente 7 dados). Os resultados da distribuição

categorial das bases encontram-se no gráfico 3.

Gráfico 3: distribuição categorial das bases ao longo dos séculos

Podemos visualizar que do século XIII ao XIX o sufixo -ura era

adicionado, principalmente, a adjetivos e particípios passados. Outra fonte

bastante recorrente é a entrada de palavras com origem no latim. A formação

com particípios já não aparece no século XX, dando lugar ao adjetivo e ao

substantivo, com 60% e 20%, respectivamente, apesar de ser contabilizado

também o caso de laqueadura que parece ter surgido na língua no século XIX,

visto que os dicionários registraram o verbo laquear no século XVIII.

Os resultados exibidos no gráfico 3, de certa maneira, servem para

confirmar o que viemos argumentando: a cristalização de -ura anexado a bases

de particípio e a produtividade junto a bases adjetivas. Além disso, evidencia,

Page 279: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

86

também, a forte contribuição de palavras latinas que integram o léxico do

português, já que aparece com índices expressivos nesse gráfico. As palavras

que entram no português como empréstimos de outras línguas parecem seguir

a entrada registrada nos dicionários etimológicos, uma vez que no gráfico 3 a

primeira entrada é no século XVI.

A respeito da datação, encontramos algumas divergências entre a data

registrada no dicionário para determinados vocábulos e o período em que o

mesmo vocábulo aparece primeiramente em um texto e, portanto, selecionamos

sempre a data mais antiga. No texto “Prosodia”, de Bento Pereira, datado de

1697 e disponível no Corpus do Português, notamos a palavra dentadura, por

exemplo, que só é registrada nos dicionários como do século XIX (1836).

5.1.1. Teste de aceitabilidade

Baseados na hipótese de que não são formados mais vocábulos com

bases participiais, elaboramos um teste de aceitabilidade (CASTRO DA SILVA

et alii, 2009) a fim de verificar se os falantes reconhecem formas com particípio.

Segundo alguns autores, como Maurer Jr. (1959), o sufixo -ura concorre com -ção

e -mento na nominalização, como no caso abreviação, abreviamento e abreviatura.

No teste, apresentamos palavras inexistentes em português, mas possíveis,

como cortação, cortamento e cortadura, ou twitação, twitamento e twitadura. Foi

pedido aos informantes, alunos da Faculdade de Letras da UFRJ, que julgassem

a aceitabilidade das formas em uma escala de 1 a 3 (do menos aceitável ao mais

aceitável).

Page 280: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

87

Conforme Lemos de Souza (2010) afirma e veremos mais adiante, -ção e

-mento são afixos bastante produtivos e nossa intuição era que os falantes

dariam preferência às formas com esses sufixos e, em contraste, as palavras com

-ura deveriam ter menor anuência, já que haveria se cristalizado nesse tipo de

formação.

Apresentamos os resultados no quadro abaixo:

Plenamente aceitável Aceitável Não-aceitável Total

-ção 53/ 132 = 40% 58/ 132 = 44% 21/ 132 = 16% 132/ 132 = 100%

-mento 67/ 132 = 51% 52/ 132 = 39% 13/ 132 = 10% 132/ 132 = 100%

-ura 13/ 132 = 10% 21/ 132 = 16% 98/ 132 = 74% 132/ 132 = 100%

Quadro 1: resultados dos testes de aceitabilidade

De fato, os índices apresentados no quadro 1 confirmam nossa hipótese

inicial, posto que foram consideradas como plenamente aceitáveis as formas

com -ção e –mento, o que não aconteceu em grande parte com -ura. Somados os

dados de plenamente aceitável com os de aceitável, –ção teve 84% de aceitação e

–mento, 90%. Ao contrário, as palavras com -ura tiveram uma rejeição

expressiva: apenas 26% dos dados foram aceitos. Se formos levar em conta os

números do nível plenamente aceitável, aumenta-se a discrepância, já que

obteve apenas 10%.

Page 281: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

88

5.2. Nominalização de verbos e referenciação de entidades

Nesta seção, unimos as funções de nominalização de verbo e

referenciação de entidades, na medida em que ambas são funções precípuas da

nominalização e que grande parte das palavras desses grupos possui ambos os

significados, apesar de um poder sobressair ao outro. Observe o exemplo

abaixo:

(1) Ela está com uma atadura abaixo do joelho11.

Embora, no dicionário, encontremos a definição de atadura como sendo,

primeiramente, “o ato ou o efeito de atar”, o significado que está presente na

língua hoje é o mais nominal, o que diz respeito à “tira de linho para

bandagens”, como podemos notar no exemplo (1) acima. Por esse motivo,

resolvemos, então, unir a descrição dessas duas funções do afixo quando

comparado a outros.

No que diz respeito a essas duas funções aqui reunidas em apenas uma,

–ura concorre na língua com os afixos –mento, –ção e –agem, entre outros,

possuindo, no entanto, cada um deles uma acepção distinta. Observe os

exemplos, apresentados abaixo, retirados de sites da internet no método de

busca do Google:

11 http://www.portaluhtv.com/2012/02/giro-de-noticias-com-atadura-na-perna.html . Acessado em 06/Ago/2012

Page 282: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

89

(2) Alimentação sem sabor e restrita é o oposto do emagrecimento

saudável12.

(3) Neblina causa novo fechamento do aeroporto de Porto Alegre13.

(4) A Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) referendou

por unanimidade nesta quarta-feira o afastamento cautelar dos

desembargadores14.

(5) A animação digital é a arte de criar imagens em movimento

utilizando computadores15.

(6) Oração é um ato religioso que visa ativar uma ligação, uma

conversa, um pedido, um agradecimento16.

(7) “Eu nunca fiz algo que valesse a pena por acidente, nem nenhuma

das minhas invenções aconteceram por acidente; elas vieram pelo trabalho."

17(Thomas Edison).

(8) Uma barragem, açude ou represa, é uma barreira artificial, feita em

cursos de água para a retenção de grandes quantidades de água.18

(9) Um sistema de drenagem de águas pluviais é composto de uma

série de unidades e dispositivos hidráulicos para os quais existe uma

terminologia própria19.

12http://balbacch09.blogspot.com.br/2011/04/emagrecer-10-dicas-para-o-emagrecimento.html - Acessado em 06/Ago/2012 13http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2012/04/neblina-causa-novo-fechamento-do-aeroporto-de-porto-alegre.html - Acessado em 06/Ago/2012 14http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI5727034-EI306,00-Corte+do+STJ+confirma+afastamento+de+desembargadores+do+RN.html – Acessado em 06/Ago/2012 15http://truped.com.br/animacao/animacao-digital-uma-revolucao-de-imagem-e-movimento/ - Acessado em 06/Ago/2012 16 https://sites.google.com/site/opoderdareza/ - Acessado em 06/Ago/2012 17 http://www.quemdisse.com.br/frase.asp?frase=8107 – Acessado em 06/Ago/2012 18 http://pt.wikipedia.org/wiki/Barragem - Acessado em 06/Ago/2012

Page 283: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

90

(10) Aprendizagem é o processo pelo qual as competências, habilidades,

conhecimentos, comportamento ou valores são adquiridos ou modificados20.

(11) Os ciganos têm a ferradura como um poderoso talismã, que atrai a

boa sorte, a fortuna.21

(12) Pessoas com queimaduras profundas podem correr sério risco de

vida22.

(13) Se você perdeu um ou mais dentes, o uso de dentaduras pode

ajudar você a ter um sorriso mais bonito e fazer com sinta-se melhor23.

Em todos os exemplos, temos ocorrências de vocábulos formados pelos

quatro afixos citados e contextualizados, o que auxilia no entendimento do

significado veiculado. No caso de emagrecimento (2), fechamento (3) e afastamento

(4), percebemos vocábulos que possuem caráter mais verbal, ou seja, que ainda

mantêm forte relação com o verbo que serviu de base. Assim, enquanto o

primeiro pode ser entendido como o “ato de emagrecer”, o segundo seria “o ato

de fechar” (no caso da sentença, os aeroportos) e o terceiro, “o ato de afastar”.

Dessa forma, vale notar que as palavras formadas a partir desse afixo possuem

um caráter mais dinâmico e mais ligado ao verbo, como bem observou Lemos

de Souza (2010).

Já no que diz respeito a –ção, o que podemos perceber é justamente o

contrário, já que temos, em animação (5), oração (6) e invenção (7), vocábulos de 19 http://www.dec.ufcg.edu.br/saneamento/Dren01.html - Acessado em 06/Ago/2012 20 http://pt.wikipedia.org/wiki/Aprendizagem - Acessado em 06/Ago/2012 21 http://forgetthefear.blogspot.com.br/2010/07/ferradura.html - Acessado em 06/Ago/2012 22 http://saude.terra.com.br/interna/0,,OI123328-EI1513,00.html – Acessado em 06/Ago/2012 23 http://www.maozinha.com.br/search/?hl=pt-BR&q=dentaduras – Acessado em 06/Ago/2012

Page 284: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

91

caráter mais nominal e, por isso mesmo, menos relacionados ao verbo-base.

Animação não é, necessariamente, parafraseado como “o ato de animar”, nem

oração como o ato de orar e muito menos invenção como “o ato de inventar”.

Todas são palavras que nomeiam coisas no mundo. Enquanto a primeira faz

referência a uma arte no mundo contemporâneo – significado veiculado na

sentença (6) –, a segunda diz respeito a uma forma de expressão do homem com

Deus, por exemplo. Dessa forma, esse afixo difere do anterior no modo de

processamento, sendo este estático, enquanto aquele é dinâmico (LEMOS DE

SOUZA, 2010).

Em contrapartida, o caso do sufixo –agem poderia ser considerado como

intermediário entre os dois afixos anteriormente detalhados, já que indica um

processo ou designa uma coisa no mundo, possuindo, assim, tanto caráter

verbal quanto nominal. Como exemplo, podemos observar as palavras grifadas

em (8) barragem, (9) drenagem e (10) aprendizagem. Segundo Langacker (1987), as

categorias nome e verbo fazem referência a dois diferentes modos de

processamento: o escaneamento estático e o escaneamento dinâmico,

respectivamente. Dessa forma, a nominalização pode apresentar esses dois tipos

de processamento, visto que aproxima as características das duas categorias. O

escaneamento estático seria aquele que faz referência a um evento cujos

aspectos são todos coexistentes e simultaneamente disponíveis, ou seja, o modo

de processamento é simultâneo. Já o escaneamento dinâmico é definido como

representando uma transformação, ou seja, uma mudança de um estado, de um

evento para outro. Assim, retomando os exemplos anteriores, podemos

Page 285: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

92

perceber que, no primeiro caso, temos um vocábulo representante do

escaneamento estático, na medida em que nomeia algo, nomeia um evento. Já o

segundo caso pode ser entendido como sendo intermediário, visto que drenagem

pode ser processado tanto dinâmica quanto estaticamente, ou seja, pode ser

tanto um produto, quanto um processo; no último exemplo, temos um caso de

escaneamento dinâmico, já que representa um processo. Vale ressaltar que essas

considerações foram feitas a partir da análise de um pequeno corpus e levando

em consideração os dados encontrados.

Por fim, o afixo –ura é, dentre todos os abordados anteriormente, o que

possui caráter mais nominal, como podemos perceber nos vocábulos grifados

em (11), (12) e (13), que indicam coisas no mundo: ferradura, queimadura e

dentadura. Assim, podemos perceber que –ura, quando adjungido a bases

verbais, distancia-se mais do verbo do qual se originou e passa a nomear

somente coisas, entidades, perdendo, dessa forma, a ideia de “ato ou efeito de

X”, em que X é a base, como adiantamos no exemplo (1).

Portanto, em uma escala estabelecida para este trabalho e com base nessa

análise, –ura é o mais nominal de todos, o que pode ser explicado a partir da

necessidade que este sofreu de se especializar, já que estava em concorrência

com os demais sufixos nominalizadores, adquirindo, dessa forma, caráter mais

designativo e menos verbal. Isso posto, podemos perceber que os afixos

nominalizam em diferentes níveis de processamento, mantendo uns o valor

mais verbal característico desse processo, enquanto outros o perdem. Portanto,

em uma escala, como a formalizada em (14) a seguir, –mento seria o mais verbal,

Page 286: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

93

seguido por –agem, que mantém as duas formas de processamento, -ção, que é

mais nominal em relação ao outros, e, por fim, viria –ura que, dentre todos, é o

que possui maior caráter designativo.

(14) 24mais verbal ------------>--------------->--------------->---------------> mais

nominal

|---------------------------|---------------------------|---------------------------|

-mento -agem -ção -ura

5.3. Abstratização de adjetivos

Outra função de –ura é abstratização de adjetivos, ou seja, a

transformação de adjetivos em substantivos abstratos. Nessa função, o afixo em

questão também concorre com outros, como podemos ver nos exemplos abaixo,

também retirados do site de busca eletrônica Google:

(15) Pessoas que não estão incomodando as outras com sua chatice aí

acabam ficando solitárias no final.25

(16) O primeiro engano atribui-se ou ao acaso, ou à imprudência;

repetido, atribui-se à burrice ou à ignorância.26

24

Essa escala só é verdadeira quando não levamos em consideração o –ção com caráter mais verbal (falação) como veremos mais adiante. 25 http://www.grandesmensagens.com.br/frases-de-chato.html. Acessado em 07 / Ago / 2012 26 http://blogdoivandro.blogspot.com.br/2009/06/frases-sobre-burrice.html - Acessado em 07/Ago/2012

Page 287: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

94

(17) Minha loucura se chama felicidade, minha idiotice se chama

liberdade27.

(18) Magreza exagerada de modelos não agrada à maioria das pessoas28.

(19) A avareza é madrasta de si mesma29.

(20) Sua riqueza encontra-se onde estão seus amigos30.

(21) Qual a grossura de um fio de cabelo?31

(22) “Não me culpe por não sentir amargura... / Isso não faz de mim

menos intenso.”32

(23) “A bravura provém do sangue, a coragem provém do

pensamento”. (Napoleão Bonaparte)33

Conforme podemos observar, as palavras destacadas em (15), (16) e (17),

respectivamente chatice, burrice e idiotice, atribuem propriedades eventuais,

momentâneas, ou seja, o afixo –ice se une a bases adjetivais para formar nomes

que indicam uma propriedade passageira do elemento ao qual se refere. Dessa

forma, burrice ou idiotice, por exemplo, não são estados que perduram, e sim que

permanecem por algum tempo apenas. Observe o exemplo abaixo para

confirmar essa hipótese:

27 http://tudosmulher.blogspot.com.br/2012/06/minha-loucura-se-chama-felicidade-minha.html - Acessado em 07/Ago/2012 28 http://entretenimento.r7.com/moda-e-beleza/noticias/magreza-exagerada-de-modelos-nao-agrada-maioria-das-pessoas-20120418.html - Acessado em 07/Ago/2012 29 http://www.quemdisse.com.br/frase.asp?frase=87817 – Acessado em 07/Ago/2012 30 http://www.webfrases.com/ver_frase.php?id_frase=9272654e – Acessado em 07/Ago/2012 31 http://cocatech.com.br/qual-a-grossura-de-um-fio-de-cabelo - Acessado em 07/Ago/2012 32 http://fafapereira.blogspot.com.br/2009/12/nao-me-culpe-por-nao-sentir-amargura.html - Acessado em 07/Ago/2012 33 http://pensador.uol.com.br/frase/MTIxNzU/ - Acessado em 07/08/2012

Page 288: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

95

(24) A velhice sempre tem acompanhado a humanidade como uma

etapa inevitável de decadência, declinação e antecessora da morte34.

A palavra velhice, destacada na sentença acima, indica um estado

passageiro na vida de uma pessoa, cuja duração vai depender de cada um.

Portanto, dure a velhice 2 anos ou 20, ainda assim será um estágio

momentâneo, assim como a juventude.

O segundo afixo que também tem por função abstratizar um substantivo

é o demonstrado nos exemplos (18), (19) e (20), respectivamente magreza, avareza

e riqueza. Podemos notar que esse afixo se une a bases adjetivas com a função de

abstratizar uma qualidade do ser que pode ou não ser duradoura. Geralmente,

um indivíduo tem por característica própria ser avarento ou não e o mesmo

acontece com a magreza. No entanto, nada o impede de se alterar esse estado ao

longo do tempo. Em contrapartida, quando observamos casos como riqueza,

pobreza e beleza, podemos perceber mais claramente a possibilidade de mudança

de estado, pois um mesmo indivíduo pode passar da pobreza à riqueza em

questão de segundos ou nunca sair de uma dessas zonas. Vale ressaltar que

estamos apenas tratando dos vocábulos com seus significados prototípicos,

pois, na medida em que o significado começa a ficar mais abstrato, essa

designação pode deixar de ser tão momentânea, como no caso do exemplo

abaixo:

34 http://www.ufrgs.br/e-psico/subjetivacao/tempo/velhice-texto.html - Acessado em 07/Ago /2012

Page 289: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

96

(25) Curti e descurti a beleza da obra de Deus na natureza.35

Como podemos perceber no exemplo acima, o significado de beleza

torna-se mais abstrato e deixa de designar uma propriedade momentânea para

designar uma propriedade inerente, já que é um bem reconhecido há séculos

pela sua beleza. No entanto, não serão esses os casos dos quais trataremos

nesta seção, visto que estamos lidando apenas com dados prototípicos desses

afixos.

Por outro lado, o afixo –ura não se une a bases adjetivais com a finalidade

de atribuir propriedades eventuais, considerando o sentido prototípico. Como

podemos notar nas palavras destacadas em (21), (22) e (23), respectivamente

grossura, amargura e bravura, o afixo tem por função designar propriedades

inerentes, quando anexado a bases adjetivas. Tanto amargura quanto bravura são

propriedades imutáveis, duradouras e não mais eventuais, no seu sentido

prototípico, podendo mudar de acordo com o espraiamento semântico. De

todas as formas listadas em (26), a seguir, apenas tontura não nomeia uma

propriedade inerente, mas também não pode ser vista como eventual devido ao

seu caráter mais estático.

(26) altura, amargura, doçura, ternura, estatura, grossura, finura, tontura.

35http://pt-br.facebook.com/pages/curti-e-discuti-a-beleza-da-obra-de-Deus-na-natureza/103821559706089?sk=info. Acessado em 07 / Ago / 2012

Page 290: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

97

Assim, também nessa função podemos perceber uma escala – de acordo

com os significados prototípicos –, como a formalizada em (27), que teria como

diferenciador o caráter mais ou menos inerente ou eventual. No polo

[+ inerente / - eventual], teríamos –ura, seguido por –eza e, por fim, -ice, que

seria o afixo que tem por função designar estados mais eventuais.

(27) [+ inerente/- eventual] --------------->---------------> [- inerente/+ eventual]

|-----------------------------|-------------------------------|

-ura -eza -ice

5.4. Função Intensificadora

Na Língua Portuguesa, existem inúmeros afixos intensificadores que

selecionam as mais diversas categorias gramaticais como base e exercem

diferentes funções na língua. Portanto, não estamos fazendo a comparação

apenas com afixos nominalizadores, mas com afixos que exercem essa mesma

função na língua. Assim, no que tange à função intensificadora, podemos

começar por –ão e –inho, afixos antes tidos como flexionais, mas agora

reconhecidos como derivacionais (cf. SOARES DA SILVA, 2006 e

GONÇALVES, 2005). Observemos os exemplos abaixo retirados de sites de

busca da internet:

Page 291: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

98

(28) Peça para um homem descrever um mulherão. Ele imediatamente

vai falar do tamanho dos seios, na medida da cintura, no volume dos lábios, nas

pernas, bumbum e cor dos olhos.36

(29) Caraca. Você mora lonjão.37

(30) Se a gente não tá aguentando esse calor e esse solzão que está

aparecendo praticamente todos os dias... Imagina nossos cabelos?38

(31) Quem aquela mulherzinha achava que era para beijar meu

marido?39

(32) Para quem curte um filminho antigo40.

(33) Amo um cafezinho, ainda bem acompanhado da família e dos

amigos é tudo de bom.41

Em todos os exemplos acima destacados, podemos perceber que a função

aumentativa ou diminutiva não está presente nos vocábulos. O que entra em voga

em vocábulos como (28) mulherão e (31) mulherzinha, por exemplo, não é o

tamanho da mulher, mas uma ou mais propriedades da mesma entidade

intensificada. Um mulherão não é, necessariamente, uma mulher muito grande e

uma mulherzinha não é uma mulher muito pequena. Da mesma forma, um

filminho (32) não é um filme de curta duração e, geralmente, não o é. Nesse caso,

36 http://pensador.uol.com.br/frase/NTIwMDk1/ - Acessado em 07/Ago/2012 37 http://mepergunte.com/gaall/20380214. Acessado em 07 / Ago / 2012 38 http://www.vidacorderosa.com/page/15/ - Acessado em 07/Ago/2012 39http://www.fanfiction.com.br/historia/197730/crepusculoO_Verdadeiro_Poder_de_Bella/capitulo/15. Acessado em 07 / Ago / 2012 40 http://miamibygs.com/2012/01/09/para-quem-curte-um-filminho-antigo/ - Acessado em 07/Ago/2012 41 http://cafezinhodascinco.blogspot.com.br/2012/01/cafezinho.html - Acessado em 07/Ago/2012

Page 292: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

99

o falante fez uso desses afixos para intensificar avaliativamente as formas que

objetiva realçar. No caso de (30), solzão, por exemplo, não temos um sol grande

e sim um sol forte, bonito. Assim, podemos perceber que esses dois afixos

também têm a função intensificadora. No entanto, não podemos dizer que são

sufixos nominalizadores, pois os mesmos não alteram a classe da base e nem

têm por função nominalizar, já que lonjão (29), por exemplo, tem por base um

advérbio e por produto também um vocábulo dessa classe.

Outro afixo que também apresenta função intensificadora é –oso, que se

une a bases nominais, sejam elas adjetivas ou substantivas. Observe os

exemplos abaixo:

(34) É o Ravióli Rosé, um prato saboroso e rápido de preparar42.

(35) Sauber C31 é mais um narigudo feioso na Fórmula 143.

Em ambos os casos acima, podemos perceber que a função de

intensificação se mantém na medida em que tanto (34) saboroso quanto (35) feioso

podem ser entendidos como mantendo em excesso a propriedade expressa pela

base (sabor bom e muito feio, respectivamente). No entanto, esse afixo também

possui propriedades distintas dos anteriormente explicitados: além de nem

sempre alterar a classe gramatical da palavra-base, -oso tem como output sempre

um adjetivo, o que descaracterizaria a concorrência com –ura, já que criam

produtos categorialmente distintos, visto que –ura sempre forma substantivos.

42 http://wp.clicrbs.com.br/anonymus/2012/04/26/sexta-feira-saborosa-com-ravioli-rose-na-tvcom/?topo=52,2,18,,197,e196 – Acessado em 07/Ago/2012 43 http://www.correiodopovo.com.br/blogs/pitlane/?p=5468 – Acessado em 07/Ago/2012

Page 293: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

100

O afixo –udo, por sua vez, também tem a função de intensificar a base,

mas o seu output, assim como de –oso, também é um adjetivo, além do fato de

esse afixo ser mais comumente acessado para intensificar qualidades referentes

a partes do corpo humano. Observe os exemplos abaixo:

(36) Lá vem o narigudo que não para de falar.44

(37) Ele é careca, baixinho e barrigudo.45

Como podemos perceber, esse afixo mantém a mesma função que os

demais anteriormente descritos, já que intensifica uma característica do ser ao

qual se refere. Dessa forma, narigudo (36) e barrigudo (37) podem ser entendidos

como fazendo referência a alguém que possui um nariz muito grande e uma

barriga muito avantajada, respectivamente.

Observe, agora, os exemplos abaixo:

(38) Tenho pra mim que essa falação toda, essa

intimidade/cumplicidade imediata, tem algo a ver com o fato de que é

normal passar o dia de biquíni e Havaianas ou roupa de ginástica.46

(39) No meu colégio até pode beijar e ficar com alguém, mas nada de

muita pegação, claro.47

44 http://letras.mus.br/rock-rocket/1291072/ - Acessado em 07/Ago/2012 45 http://apocalipsetotal.wordpress.com/2012/01/15/o-anticristo-pode-ser-careca-baixinho-e-barrigudo/ - Acessado em 07/Ago/2012 46 http://webdiario.com.br/?din=view_noticias&id=65061&search=v%F4lei. Acessado em 07 / Ago / 2012 47 http://capricho.abril.com.br/voce/pegacao-escola-onde-ir-678411.shtml - Acessado em 07/Ago/2012

Page 294: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

101

(40) No entanto, por trás dessa "beijação" que soa como brincadeira de

folião, há o risco de se contrair doenças sem que você nem perceba.48

Como podemos observar nos exemplos (38) falação, (39) pegação e (40)

beijação, o afixo –ção anexa-se sempre a bases verbais com o propósito de

intensificar o significado da base; falação, por exemplo, pode ser parafraseada

como “falar em excesso, em demasia, e desnecessariamente” e beijação como

“beijar em excesso, muitas pessoas se beijando ao mesmo tempo”. Sendo assim,

podemos notar que o modo de escaneamento cognitivo é processual, mais

dinâmico, na medida em que a relação com o verbo-base é mais direta e mais

acessível, ou seja, ainda podemos reconhecer o caráter verbal no substantivo

derivado. Além disso, também cabe salientar que esse pode ser interpretado

como um afixo nominalizador, visto que tem por característica alterar a

categoria gramatical da base, formando nomes a partir de verbos, sendo,

portanto, o que mais se aproxima de –ura, como veremos a seguir.

Por fim, podemos analisar o sufixo –ura a partir da mesma função dos

anteriormente explicitados. Tomemos por base os exemplos abaixo listados:

(41) Creio que quase sempre é preciso um golpe de loucura para se

construir um destino.49

(42) O cúmulo da baixura é sentar em uma moeda e ainda balançar os

pés50.

48 http://www.itaporangaonline.com.br/2012/02/beijacao-no-carnaval-nesse-periodo.html - Acessado em 07/Ago/2012 49 http://pensador.uol.com.br/frase/ODUwNA/ - Acessado em 07/Ago/2012

Page 295: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

102

Com base nas sentenças (41) e (42), podemos perceber que o afixo

-ura também possui a função intensificadora, na medida em que tanto loucura

quanto baixura podem ser parafraseados como “X em excesso” ou “muito X”.

Assim, o afixo passa a se adjungir a bases adjetivas, substantivas e até mesmo

adverbiais, como nos exemplo (43), (44) e (45) abaixo, com a função de formar

substantivos abstratos na língua.

(43) O desfile de 2012 estava uma belezura51.

(44) E quando de dia a lonjura dos montes/ Azuis atrai a minha

saudade52.

(45) Há sempre fartura de capital à disposição dos que podem traçar

planos práticos para serem levados a efeito.53

Enquanto em (44), temos um substantivo abstrato com base adverbial,

longe, em (43), a base beleza é um próprio substantivo abstrato que deriva de um

adjetivo e mantém, portanto, uma relação mais direta com essa categoria

gramatical. Assim, podemos ver que, independentemente da base a qual se

anexa, -ura possui a função intensificadora de propriedades claramente

marcada.

50 http://www.guiagratisbrasil.com/frases-de-cumulos/ - Acessado em 07/Ago/2012 51 http://www.blocosebenzequeda.com/2012/02/e-o-desfile-2012-foi-uma-belezura.html. – Acessado em 07 / Ago / 2012 52 http://pt.scribd.com/doc/88351149/Poemas-de-Johann-Wolfgang-Von-Goethe - Acessado em 07/Ago/2012 53 http://frases.globo.com/napoleon-hill/15179 - Acessado em 07/Ago/2012

Page 296: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

103

Ao contrário das outras funções anteriormente explicitadas, a função

intensificadora não foi gerada a partir da existência de uma concorrência entre

afixos, como pudemos perceber na descrição acima. Isso se deve ao fato de –ura

ser o único – dentre todos os apresentados – que possui a função de formar

substantivos abstratos a partir de bases adjetivas, substantivas ou adverbiais.

Os demais afixos, além de não necessariamente alterarem a classe gramatical,

como ocorre nos casos de –inho e -ão, não têm como output um substantivo

abstrato. Dentre eles, o único que mantém relação mais direta com –ura é -ção;

não se pode dizer, porém, que haja uma real concorrência, já que os sufixos

selecionam bases distintas e diferem quanto ao modo de processamento

cognitivo, já que o primeiro é resumitivo, ou seja, mais estático, enquanto o

segundo é processual, ou seja, mais dinâmico.

Observe a tabela abaixo:

Sufixos Bases Produto

-ão /-inho Não possui uma base específica Mantém a categoria da base

-oso Substantivos / adjetivos Adjetivos

-udo Substantivos Adjetivos

-ção Verbos / adjetivos Substantivos abstratos

-ura Substantivos, adjetivos e

advérbios.

Substantivos abstratos

Tabela 3: Sufixos intensificadores em português

Ao analisarmos a tabela e compararmos com os exemplos explicitados

anteriormente, podemos fazer algumas considerações relevantes acerca do afixo

Page 297: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

104

–ura e dos demais intensificadores da língua. Observando a coluna referente ao

produto, que é o que nos move, é possível perceber que, dentre todos os afixos

apresentados, somente dois deles são nominalizadores de fato, já que partem de

uma base de outra categoria para formar substantivos em português. Nos

demais casos, a intensificação não está diretamente ligada à nominalização, já

que os formativos possuem como produto um adjetivo (-oso) ou não alteram a

categoria gramatical (-inho; -ão). No entanto, -ção e –ura não possuem

exatamente a mesma função e, por isso, não podemos dizer que são

concorrentes na língua. Isso se deve ao fato de selecionarem bases distintas.

Dessa forma, os afixos não competem por uma mesma posição ou por uma

mesma função, visto que têm objetivos distintos. Enquanto –ção tem por

finalidade nominalizar verbos; -ura, por sua vez, adjunge-se a outras categorias

para nominalizar intensificando.

5.5. Resumindo

Pudemos verificar que–ura possui quatro diferentes funções na língua,

sendo elas a nominalização de verbos, a designação de coisas no mundo, a

abstratização de adjetivos e, por fim, a intensificação. Observe a tabela abaixo:

Função Base Produto Descrição

Nominalização

de verbos

Verbos Substantivos Escaneamento mais

dinâmico, mais voltado

para o produto. Compete

com –ção, -mento e –agem.

Page 298: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

105

Referenciação Verbos Substantivos Escaneamento mais

estático, mais voltado

para o produto. Também

compete com –ção, -mento

e –agem.

Abstratização

de adjetivos

Adjetivos e

particípios

Substantivos

abstratos

Indica propriedades

inerentes ao ser humano.

Compete com –eza e –ice.

Intensificação Adjetivos,

advérbios e

substantivos

abstratos

Substantivos

abstratos

Utilizado para indicar o

excesso da propriedade

descrita pela base.

Compete com –inho, -ão, -

udo, -oso e –ção.

Tabela 4: Funções do afixo –ura em português.

Conforme podemos notar na Tabela 4 e de acordo com o exposto ao

longo do capítulo, -ura adquiriu novas funções na língua, na medida em que

compete sincronicamente com outros afixos mais produtivos que exercem a

mesma função. Assim, foi necessária uma especialização do mesmo para se

manter ativo na língua. Primeiramente, -ura perdeu lugar para os outros afixos

nominalizadores com a função precípua da nominalização, já que –ção e –mento

são altamente produtivos em português. Em seguida, mantendo a relação com a

função designativa dos particípios, o afixo em questão passou a se anexar a

bases adjetivas, abstratizando-as, para, em seguida, alcançar a função de maior

produtividade no atual estágio da língua: a intensificação. Nesse caso,

diferentemente dos demais afixos, -ura vem se adjungir a predicadores para

formar substantivos abstratos, conforme será mais detalhado no capítulo

seguinte.

Page 299: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

106

Assim, podemos constatar que o afixo –ura se especializou na língua,

passando a exercer uma nova função – a de intensificador – na medida em que

esta é a única para o qual não há concorrente direto na língua, pois, apesar de,

nas outras funções, não haver casos de sinonímia, é somente na função

intensificadora que o mesmo se diferencia dos demais.

Page 300: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

107

SISTEMAS LINGUÍSTICOS

Neste capítulo, tratamos dos sistemas linguísticos reconhecidos pela

Gramática Multissistêmica conforme explicitado no capítulo 4. Assim, o

objetivo do capítulo é relacionar os quatro sistemas – léxico, gramática, discurso

e semântica – ao processo de nominalização por meio de –ura e mostrar como

atuam na língua, conjuntamente. No entanto, não pretendemos nos aprofundar

nos quatro sistemas da mesma forma, selecionando apenas dois que são mais

relevantes para esta análise: léxico e semântica. Porém, essa seleção não nos

impedirá de tratar dos outros dois sistemas e mostrar, rapidamente, como eles

atuam; apenas não os tomaremos como base para a análise.

Com base na análise do corpus, foi possível reconhecer quatro diferentes

funções do afixo na língua como anteriormente explicitado: (1) nominalização

de verbos (soltura, varredura); (2) designação de entidades (ferradura,

queimadura); (3) abstratização de adjetivos (altura, largura); e (4) intensificação

(lonjura, gostosura). Assim, no presente capítulo, temos por objetivo descrever

cada uma dessas funções de acordo com os diferentes sistemas elaborados por

Castilho (2010) e, em seguida, descrever e analisar como esses sistemas atuam

simultaneamente na descrição do formativo em discussão. Sendo assim, o

capítulo é dividido em seções nas quais se distribuem os sistemas propostos

6

Page 301: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

108

pelo autor em uma ordem estipulada apenas para fins didáticos: gramática,

léxico, semântica e discurso.

6.1. Gramática

O primeiro sistema a ser abordado nesta dissertação é o que diz respeito

ao sistema gramatical. Segundo Castilho (2010:138), a gramática é

“o sistema linguístico constituído por estruturas cristalizadas ou em processo de cristalização, dispostas em três subsistemas: (i) a fonologia, que trata do quadro de vogais e consoantes, sua distribuição na estrutura silábica, além da prosódia; (ii) a morfologia, que trata da estrutura da palavra; e (iii) a sintaxe, que trata das estruturas sintagmática e funcional da sentença”.

Podemos perceber, portanto, que a gramática, segundo essa teoria, é um

sistema formado por produtos e processos nos campos da fonologia, morfologia

e sintaxe, diferentemente dos formalistas que entendiam a gramática como

sendo uma entidade a priori, ou seja, um conjunto de regras lógicas e

mentalmente pressupostas e anteriores ao discurso. Essa concepção de

gramática está um pouco mais ligada à visão funcionalista que a compreende

como uma entidade organizada por um conjunto de regras observáveis nos

usos da língua, sendo, dessa forma, posterior ao discurso, emergente dele. No

entanto, apesar de ter por base essa concepção funcionalista, a Multissistêmica,

por não prever hierarquia entre os sistemas, vai além dessa definição ao afirmar

que o discurso atua conjuntamente à gramática nos processos referentes a esta.

Page 302: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

109

Já no que diz respeito ao conceito de gramaticalização amplamente

estudado por inúmeros autores como Hopper (1991), Hopper & Traugott (1993),

Casseb-Galvão et alii (2007), dentre outros, Castilho (2010) toma posição

diferente apenas no que se refere à ideia de sequenciação. A definição geral

sobre esse conceito é a de um conjunto de processos por que passa determinada

palavra, sintagma ou sentença em que são adquiridas novas propriedades

gramaticais (semânticas, sintáticas, morfológicas, fonológicas), transformando-

as em estruturas cada vez mais gramaticais. Segundo o autor, a

gramaticalização seria um processo de constituição da gramática em que se

elegem representações linguísticas para as categorias cognitivas que se

alterariam ao longo do tempo. Nesse sentido, a gramaticalização teria por

função alterar as categorias cognitivas da língua dentro do sistema gramatical e

juntamente com os outros sistemas linguísticos.

Na Multissistêmica, a gramaticalização pode se dar a partir de três

processos distintos: a fonologização, a morfologização e a sintaticização. O

primeiro deles diz respeito à formação e alteração de estruturas fonológicas

como a redução das vogais no latim vulgar, por exemplo. O segundo faz

referência à formação de morfemas na língua, sejam eles flexionais ou

derivacionais. Como exemplo, podemos citar o caso do pronome você no

português brasileiro, que deixou de ser uma forma de tratamento para integrar

o quadro de pronomes do caso reto do português. Por fim, a sintaticização

ocorre quando a estrutura sintática se altera, como no caso do verbo assistir, por

exemplo, que, na fala (e em alguns textos escritos também), vem sofrendo esse

Page 303: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

110

processo na medida em que os falantes não mais o utilizam como um verbo

transitivo indireto.

(1) Sucesso nas bilheterias mundiais, “Os Vingadores” foi assistido por mais de

38 mil em Caxias54.

No caso da nominalização por intermédio do sufixo –ura, podemos

perceber um caso de fonologização no que tange à interpretação como um

único afixo e não três distintos, como explicitado no capítulo 2 e aqui retomado

para fins didáticos.

Como defendido no capítulo 2, o sufixo –ura sofreu gramaticalização por

fonologização, na medida em que passam a operar filtros fonológicos em sua

formação. Apesar de haver diferentes visões a respeito de sua natureza,

validamos a interpretação de que se trata de apenas um afixo considerando as

consoantes /t/, /d/ e /s/ resquícios das formas participiais – característica essa

herdada do latim.

A morfologização, por sua vez, ocorre quando o sufixo em questão deixa

de selecionar uma base pertencente a uma categoria em especial e passa a se

anexar a qualquer base, desde que sua função mais recente – a intensificadora –

seja ativada.

54 http://pioneiro.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-tendencias/almanaque/noticia/2012/06/sucesso-nas-bilheterias-mundiais-os-vingadores-foi-assistido-por-mais-de-38-mil-em-caxias-3779830.html

Page 304: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

111

Já o caso da sintaticização pode ser expresso a partir de duas ideias

principais: a do Princípio da Analogia (BASILIO, 1997) e a de função sintática

propriamente dita (BASILIO, 2007).

No que diz respeito ao Princípio da Analogia (PA), a autora afirma

parecer estar esse

“na base das formações de reestruturação morfológica que tanto podem criar novos elementos morfológicos quanto produzir palavras de efeito retórico ou poético, rompendo momentaneamente as barreiras da linearidade que aprisionam a expressão nas estruturas linguísticas de cunho sintagmático. Neste sentido, o PA serviria não apenas para dar conta da produtividade lexical, mas também da criatividade” (BASILIO, 1997:11)

Para comprovar sua hipótese, a autora cita inúmeros exemplos, como o

caso de emxadachim, criado por Guimarães Rosa, em que se tem uma analogia

clara à formação espadachim. O usuário da língua faz uma releitura de uma

estrutura já existente e adapta o novo conteúdo a ela, da mesma forma que

crianças no processo de aprendizagem da língua falam “eu fazi” no lugar de “eu

fiz” em analogia aos verbos regulares da língua. No entanto, o PA não atua

somente na morfologia, mas também na semântica, fonologia e sintaxe, por

exemplo, pois, como disse Coutinho (1976), a analogia é o princípio pelo qual a

linguagem tende a se tornar mais uniforme e a reduzir as formas mais

irregulares e menos frequentes.

No caso de –ura, observemos a expressão “Que faltura!” retirada de uma

manchete do Jornal O Globo. A reportagem falava sobre o péssimo serviço

prestado no dia em que o cronista foi a um restaurante e que, portanto, faltava

Page 305: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

112

tudo: desde bom atendimento a boa comida. A partir dessa breve explicação,

podemos notar que o cronista criou essa expressão para dar título a sua matéria

a partir da analogia com a expressão “Que fartura!”, que faz referência

exatamente ao oposto do que ele quis dizer. Essa expressão está incluída numa

construção já cristalizada na língua, “Que X!”, em que a posição de X pode ser

ocupada por qualquer substantivo ou adjetivo com o intuito de indicar o

“excesso de X”. Portanto, podemos formar “Que belezura!”, “Que loucura!”,

“Que chatice!”, “Que lindo!”, dentre inúmeros outros exemplos.

Outro caso de sintaticização presente na formação por meio do sufixo

-ura é o que diz respeito à possibilidade de exercer inúmeras funções sintáticas

dentro da sentença. Retomando as funções da nominalização expressas

anteriormente, podemos lembrar que uma delas possibilita focalizar o agente

ou o objeto da ação expressa pelo verbo, isto é, sintetiza toda a ação verbal em

apenas um vocábulo, compactando toda a informação no nome. Observe:

(2) Cuiabá: bando que assaltou residência e roubou carro é capturado. A

vítima reconheceu os dois primeiros (suspeitos) como os autores do

roubo.55

No exemplo acima, podemos notar que o substantivo roubo sintetiza toda

a informação presente em “roubou carro”. Nesse sentido, a função anafórica do

nome consiste na retomada das ideias precedentes de forma a evitar repetições

55 http://www.sonoticias.com.br/noticias/9/155848/cuiaba-bando-que-assaltou-residencia-e-roubou-carro-e-capturado. Acessado em 01/Ago/2012.

Page 306: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

113

e dar continuidade ao texto. Além disso, a nominalização permite que

possamos utilizar como núcleo do sujeito ou dos objetos, palavras de outras

categorias pertencentes a outras funções sintáticas na língua. Como exemplo,

podemos citar os adjetivos que exercem as funções sintáticas de adjuntos

adnominais e predicativos. Quando transformamos um adjetivo em

substantivo, também estamos permitindo que este passe a exercer outras

funções, sendo, portanto, o núcleo de um sujeito ou objeto. Observe os

exemplos abaixo:

(3) Optar por ser amarga é uma escolha de cada mulher. A amargura

apenas destrói a paz interna56.

(4) Gosto da brancura das tuas mãos, da sutileza das linhas do teu

rosto, da suavidade da tua voz57.

Podemos perceber que os adjetivos amargo e branco quando

nominalizados nos exemplos acima, passam a exercer ambos a função de núcleo

do sujeito e núcleo do objeto indireto, colocando em destaque as propriedades

definidas por esses adjetivos. Essa possibilidade só se concretiza devido à

nominalização, pois os substantivos podem ocupar esses lugares na sentença e

os adjetivos, não. Portanto, podemos perceber que a sintaticização também

ocorre na nominalização por meio do sufixo –ura, ampliando o alcance das

bases na sentença. Podemos confirmar essa análise retomando Basilio (2007)

56 http://missionariosonline.blogsome.com/2007/10/08/amargura/. Acessado em 01/Ago/2012. 57 http://omundodedentro.blogspot.com.br/. Acessado em 01/Ago/2012.

Page 307: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

114

que afirma que a nominalização apresenta uma função sintática que diz

respeito à possibilidade de um termo nominalizado poder ocupar inúmeros

lugares na sentença, ampliando o campo de atuação da palavra-base.

6.1.1. Resumindo

Na presente seção, buscou-se definir o que se entende por gramática nos

moldes da abordagem multissistêmica. Além disso, também foi importante

salientar e discutir brevemente os conceitos ligados a esse sistema e o modo de

conceptualização do mesmo. Portanto, com base nessa breve análise do afixo

-ura sob a ótica do sistema gramatical, pudemos demonstrar a importância que

o mesmo tem no estudo da língua e como ocorrem os processos de

fonologização e sintaticização, por exemplo. Assim, foi possível constatar de

que maneira os dispositivos sociocognitivos atuam nesse sistema e como ativa,

desativa ou reativa as propriedades deste.

6.2. Léxico

Segundo o autor, o léxico seria o inventário pré-verbal de categorias e

subcategorias cognitivas e de traços semânticos inerentes; e o vocabulário, um

inventário pós-verbal, ou seja, o conjunto de produtos concretos, também

chamado de palavras. Portanto, para o linguista, a lexicalização poderia ser

definida como a criação de novas palavras na língua a partir de um padrão pré-

estabelecido e coordenado pelo dispositivo sociocognitivo. Assim, a palavra

Page 308: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

115

“pode ser caracterizada (1) fonologicamente por dispor de esquema acentual e rítmico; (2) morfologicamente por ser organizada por uma margem esquerda (preenchida por morfemas prefixais), por um núcleo (preenchido pelo radical) e por uma margem direita (preenchida por morfemas sufixais); (3) sintaticamente por organizar ou não um sintagma; (4) semanticamente por veicular uma ideia (enquanto a sentença veicula uma proposição); (5) graficamente por vir separada por meio de espaços em branco”. (CASTILHO, 2010:111).

Como podemos perceber a partir da leitura do trecho destacado acima, o

autor aborda a formação de palavras voltada para o radical, já que, para ele, o

núcleo de um derivado é o radical, sempre considerado a cabeça lexical da

palavra morfologicamente complexa. Assim, como Castilho (2010) não se

aprofunda na descrição de fenômenos de base morfológica, partimos, então,

para uma análise baseada nos esquemas e subesquemas propostos por Booij

(2010), entendendo que esse modelo, chamado de Morfologia Construcional,

pode complementar e enriquecer a abordagem empreendida pela

Multissistêmica.

Segundo Booij (2010), as palavras se estruturam em construções que

englobam tanto a derivação quanto a composição e são formuladas a partir de

esquemas responsáveis pela instanciação de unidades do léxico. Além disso, o

autor faz a seguinte afirmação sobre essa abordagem da língua a partir de

esquemas:

"O uso de esquemas para expressar generalizações sobre padrões de formação de palavras tem outras vantagens também. A ideia de que afixos categoricamente determinados são as cabeças de palavras complexas, assim como os constituintes à direita de compostos, levanta problemas conceituais e empíricos. (...) Em primeiro lugar,

Page 309: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

116

obriga-nos a atribuir um rótulo de categoria lexical para delimitar morfemas sem que esta propriedade esteja acessível em outras construções de palavras complexas. Além disso, ao contrário dos constituintes à direita de compostos, sufixos categoricamente determinados nem sempre funcionam como as cabeças semânticas das palavras que eles criam, e, portanto, é uma consequência feliz da abordagem esboçada até o momento que podemos realizar sem a regra de cabeça lexical à direita e sem perder a generalização relevante. (...) [Essa descrição de formação de palavras por subesquemas é vantajosa], a fim de fazer generalização sobre subconjuntos de palavras dentro de uma determinada categoria morfológica "58. (BOOIJ, 2010: 54-55)

Então, podemos notar que a análise através de esquemas pode nos ser

muito útil e relevante. Além disso, o fato de estarmos estudando um caso de

derivação em que o afixo possui diferentes acepções aponta para a extensão de

sentido permitida por esses esquemas, já que o sufixo não veicula significado

sozinho, na medida em que a base é altamente relevante para o significado

final. Sendo assim, segunda essa abordagem, não teríamos um núcleo em

específico, pois o significado é alcançado a partir da junção entre base e afixo.

No entanto, vale salientar que não estamos tratando aqui da nominalização por

meio do Princípio da Composicionalidade59, mas entendendo que o que temos é

58 “The use of schemas for expressing generalizations about word formation patterns has other advantages as well. The idea that category-determining affixes are heads of complex words, just like the right constituents of compounds raises conceptual and empirical problems. (…) First of all, it forces us to assign a lexical category label to bound morphemes without this property being accessible in other constructions than complex words. Furthermore, unlike the right constituents of compounds, category-determining suffixes do not always function as the semantic heads of the word they create, and hence, it is a happy consequence of the approach outlined so far that we can do without the RHR without missing the relevant generalization. (…) ´This description of word formation by subschemas is advantageous] in order to make generalization about subsets of words within a particular morphological category”. (BOOIJ, 2010: 54-55) 59 O princípio da Composicionalidade prevê que o significado da palavra é adquirido a partir da soma das partes (base + afixos ou base + base). Segundo esse princípio, a palavra menininho, por exemplo, seria interpretada a partir da junção da palavra menino com o sufixo diminutivo –inho, chegando ao resultado final “menino pequeno”. No entanto, esse princípio é muito geral e não resulta em especificações mais detalhadas, o que não é interessante para o nosso estudo, na

Page 310: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

117

uma construção morfológica e que o significado final é atingido no momento

em que a base é inserida na construção, como demonstramos mais adiante.

Portanto, nesta seção, abordamos o léxico a partir de esquemas,

justificando os seus usos e exemplificando-os, na medida em que atuam na

língua. Vale ressaltar que, por se tratar de uma análise do léxico e do

vocabulário da língua, descreveremos como se dá a ativação, desativação e

reativação no léxico.

6.2.1. Nominalização de verbos

A primeira função exercida por –ura é de nominalização propriamente

dita, pois esse sufixo forma um substantivo abstrato a partir de uma base verbal

(participial). O formativo em questão, quando anexado a bases participiais que

mantenham uma ligação maior com o verbo de que constituem flexões, terá

como output substantivos cuja paráfrase é “ato ou efeito do que é descrito pela

base”. Foram destacados 10 vocábulos no corpus que exercem essa função na

língua: benzedura, censura, embocadura, envoltura, investidura, ligadura, rapadura,

semeadura, soltura e varredura. Como exemplo dessa paráfrase, podemos citar

benzedura e soltura que são, respectivamente, o “ato ou o efeito de benzer” e o

“ato ou efeito de soltar”.

medida em que não considera, por exemplo, o significado de menininho como marca de afetividade ou pejoratividade – a depender do contexto (BOOIJ, 2005)

Page 311: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

118

Com base na análise da produtividade60, podemos afirmar que esse afixo

se torna menos produtivo quando tem essa função, visto que os oito vocábulos

encontrados foram formados nos séculos XIII, XIV e XV, séculos em que

apareceram os primeiros textos em português. Portanto, o fato de não haver

ocorrência de vocábulos com essa função nos séculos seguintes faz com que não

o consideremos tão produtivo na formação de novas palavras em português.

Sendo assim, segundo Booij (2010), a representação morfológica dessa

função seria a seguinte; em que x representa a base, V e N representam as

categorias lexicais da base e do produto, respectivamente e as variáveis i e j são

os índices lexicais das propriedades fonológicas, sintáticas e semânticas das

palavras:

(5) [[x]Vj ura]Ni [ato ou efeito em relação a Xj]i

6.2.2. Referenciação

O sufixo -ura, quando exerce a função de designar entidades, coisas no

mundo, pode ser parafraseado como “o resultado de X” como em assinatura,

queimadura e rachadura que são, respectivamente, o resultado de assinar, queimar

60 Entendemos por produtividade a possibilidade de ocorrerem determinadas estruturas e as suas devidas concretizações. Assim, consideramos um afixo produtivo quando este está acessível para fins lexicais e o falante forma novo vocabulário a partir dele. No entanto, vale ressaltar que consideramos a produtividade dentro de um continuum do mais produtivo para o menos e não a improdutividade total. Essa visão pode ser explicada a partir da ideia de que um afixo, por exemplo, pode estar apagado em determinado momento da língua, mas ressurgir a partir do uso. Portanto, a nossa noção de produtividade diz respeito à disponibilidade do afixo no léxico do falante e aos diversos níveis que pode haver de produtividade. Usando os termos de Castilho (2010), pode haver uma desativação das propriedades e uma subsequente reativação.

Page 312: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

119

e rachar. Nessa função, o afixo se une a bases participiais para formar

substantivos tanto concretos quanto abstratos como é o caso dos exemplos

abaixo:

Substantivos concretos Substantivos abstratos

Abotoadura Assinatura

Ferradura Fritura

Dentadura Feitura

Rachadura Fervura

Fechadura Travessura

Tabela 5: Alguns exemplos de palavras desse grupo

Apesar do grande número de vocábulos (45 palavras), o afixo -ura é

pouco produtivo na língua com essa acepção, pois a maioria dos dados é

registrada como tendo entrado nos primeiros séculos de língua escrita e, os

mais recentes, datam do século XVIII, o que não pode ser chamado de

contemporâneo.

Sendo assim, a caracterização morfológica desse afixo com essa função

seria a seguinte, ainda com base na proposta de formalização encontrada em

Booij (2010):

(6) [[x]Vj ura]Ni [resultado de Xj]i

Podemos perceber que a caracterização morfológica do léxico com essa

função é a mesma da anterior, pois a diferença entre as duas está no sistema

Page 313: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

120

semântico e não na característica morfológica. Isso pode ser explicado por meio

da ideia de que esses sistemas atuam simultaneamente não interferindo,

portanto, um no outro hierarquicamente, mas sim simultaneamente, somada à

metonímia atuante nesse processo.

6.2.3. Abstratização de adjetivos

O sufixo –ura, quando exerce a função de abstratização de adjetivos,

pode ser parafraseado como “propriedade do que está especificado na base”.

As formações que desempenham essa função têm por característica o fato de

terem por input adjetivos e outputs substantivos abstratos como nos exemplos

abaixo:

Altura Amargura

Brancura Doçura

Formosura Grossura

Bravura Finura

Gordura Grossura

Formosura Largura

Tabela 6: Alguns vocábulos desse grupo.

Nessa função, o afixo –ura é muito produtivo, o que pode ser atestado

pela presença de vocábulos formados nos fins do século XIX e devido ao alto

índice de dados. Sendo assim, a caracterização morfológica desse afixo com essa

função seria a seguinte:

Page 314: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

121

(7) [[x]Aj ura]Ni [propriedade da SEMj]i61

6.2.4. Intensificação

A última função abarca os vocábulos que têm por acepção o excesso do

que é especificado pela base e têm por input diferentes categorias gramaticais, o

que é um indício para a sua alta produtividade. Quando o afixo –ura cumpre

essa função, passa a se ligar a diversas bases com a função de intensificar a

propriedade da mesma. No entanto, apesar desse input ser variável, o output

continua sendo um substantivo abstrato. Como exemplo dessa intensificação,

temos:

Apertura Baixura

Belezura Chatura

Frescura Fundura

Gastura Juntura

Lonjura Quentura

Tabela 7: Algumas palavras desse grupo.

Em todos os casos, o caráter intensificador é expresso pelo afixo como em

quentura, que pode ser parafraseado como “quente em excesso”, feiura, que

significa “feio em excesso” e chatura, que tem por paráfrase “chato em excesso”.

Essa função nominalizadora de -ura mostra-se muito produtiva por apresentar

palavras formadas no século XX, como feiura e gostosura e por apresentar inputs

diferentes, como é o caso de lonjura e de belezura, que derivam, respectivamente,

61 SEM representa a semântica da palavra base. (BOOIJ, 2010:17)

Page 315: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

122

do advérbio longe e do substantivo abstrato beleza. Esse último fato demonstra a

produtividade do afixo para formar nomes com essa função, pois o faz anexado

a outras bases que não as prototípicas. Além disso, é interessante observar que,

para essa função, poderiam ser utilizadas inúmeras estratégias discursivas

como a utilização de um superlativo (sintético ou analítico), por exemplo. No

entanto, o uso do afixo como intensificação proporciona o alçamento dessa

noção intensificadora para a posição de tópico, o que não acontece nos outros

casos, em que o foco está no termo ao qual se relaciona e não a essa

propriedade. Observe abaixo:

(8) Este filme é chatíssimo.

(9) Este filme é muito chato.

(10) Este filme é uma chatura!

Nos três exemplos acima, podemos perceber que existe uma diferença na

intensão do falante em fazer uso de uma ou de outra forma e também é possível

notar que a nominalização – presente no exemplo em (10) – tem caráter muito

mais expressivo e enfático que as demais, apesar de as três indicarem que o

filme é chato em excesso.

Sendo assim, a caracterização morfológica desse afixo com essa função

seria a seguinte:

(11) [[x]Xj ura]Ni [excesso da SEMj]i

Page 316: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

123

Vale ressaltar que a variável X é aplicada a várias categorias lexicais (no

caso verbos, adjetivos, substantivos abstratos e advérbios). Portanto, essa é,

dentre todas as funções previamente analisadas, a mais abrangente, como

verificamos nos demais sistemas a serem analisados a seguir.

6.2.5. Lexicalização, deslexicalização e relexicalização

A lexicalização, como previamente explicitado, pode ser definida como

sendo o processo pelo qual se criam novas palavras coordenadas pelo

dispositivo sociocognitivo. Compreende três estágios: ativação, reativação e

desativação.

A ativação, ou lexicalização propriamente dita, diz respeito à escolha de

“categorias cognitivas e seus traços semânticos, representando-os nas palavras”

(CASTILHO, 2010: 113). Essa lexicalização percorre alguns caminhos na língua,

ou seja, o léxico pode ser ativado de diferentes maneiras.

A primeira delas é a lexicalização por etimologia, processo pelo qual a

lexicalização ocorre ainda na língua-fonte, ou seja, ocorre quando um item da

língua-fonte é integrado na língua-alvo. Como exemplo, podemos citar duas

palavras do corpus em análise: abertura e escritura. Esses seriam casos de

lexicalização na medida em que foram integradas à língua portuguesa

diretamente do latim (apertura e scriptura, respectivamente).

Page 317: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

124

O segundo tipo de lexicalização é o por neologia, definida pelo autor

como uma palavra nova que não foi herdada da língua-fonte, porém é

organizada de acordo com as regras morfológicas pré-estabelecidas na língua-

alvo. Nesse caso, teríamos palavras novas seguindo padrões da língua na qual

foi formada. No que tange ao formativo –ura¸ podemos citar a palavra faltura,

retirada de uma notícia do jornal O Globo. Esse seria um exemplo de

lexicalização por neologia, na medida em que não é uma palavra criada por

analogia ao termo fartura. Essa afirmação pode ser feita a partir do contexto no

qual foi criada a palavra, já que a mesma foi inserida no título de uma matéria

que falava sobre a falta de bom atendimento, de comida e de bebida em um

restaurante, como já descrevemos, mantendo o padrão [XVk –ura]Ni.

O terceiro tipo de lexicalização é o por empréstimo. Nessa lexicalização,

o que ocorre é que são importadas palavras, sufixos e prefixos de outras línguas

com as quais a língua-fonte teve contato direto ou indireto. Assim, a

lexicalização por empréstimo ocorre quando pegamos palavras já prontas de

outras línguas e incorporamos a nossa. Como exemplo, podemos citar

candidatura, brochura e desenvoltura. As duas primeiras palavras destacadas têm

por origem as formas francesas candidature e brochure, enquanto a terceira tem a

origem italiana desenvolture. Esses são exemplos de lexicalização por

empréstimo, pois as palavras foram formadas no francês e no italiano,

respectivamente, e já vieram prontas para a língua portuguesa, ou seja, foram

incorporadas ao vocabulário da língua e não criadas na língua-alvo.

Page 318: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

125

A reativação do léxico é também chamada de relexicalização e consiste

no movimento mental de rearranjo das categorias semânticas e seus traços

cognitivos, ou seja, é uma renovação do vocabulário feita através da derivação e

da composição, principais mecanismos de formação de palavras. Nesse caso,

temos o processo de nominalização de fato como exemplo, pois o fato de se

formarem nomes a partir de verbos, adjetivos, substantivos ou advérbios com o

acréscimo do afixo –ura já aponta para essa renovação de vocabulário. Como

exemplo disso, podemos citar palavras como abertura, fritura, lonjura, amargura e

belezura. Em todas essas palavras, temos um rearranjo das categorias, na medida

em que se altera o significado das bases.

Por fim, a desativação lexical, também conhecida como deslexicalização

diz respeito à morte das palavras, ou seja, faz referência aos arcaísmos, palavras

que não são mais reconhecidas nem ativadas pelos falantes da língua. Como

exemplo, podemos citar as palavras podrura e zebrura, visto que o falante não

mais reconhece a sua existência (comprovado a partir de testes referenciados no

capítulo 5, seção 5.1), não consegue depreender o seu significado e muito menos

sabe como utilizá-las.

6.2.6. Resumindo

Nessa seção, mostramos como se entende o sistema lexical a partir da

Abordagem Multissistêmica e qual a importância que o mesmo tem para a

análise da nominalização. Apesar de fazermos uso da Teoria Multissistêmica,

nesta seção, apresentamos outra abordagem dada ao léxico e à sua constituição

Page 319: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

126

e explicitamos o porquê de recorrermos a outro modelo de análise para tratar

sobre esse assunto. Além disso, também demonstramos como os DSCs atuam

no léxico e como ativam, desativam e reativam as propriedades desse sistema.

6.3. Semântica

Segundo Castilho (2010), a semântica é o sistema através do qual criamos

os significados expressos por palavras, sintagmas ou sentenças na língua,

operando por meio de algumas estratégias como:

“(i) organizando o campo visual através do estabelecimento de participantes e eventos; (ii) emoldurando participantes e eventos via criação de frames, scripts e cenários; (iii) hierarquizando os participantes e eventos via fixação de perspectivas, escopos, figura/fundo; (iv) incluindo, excluindo, focalizando participantes e eventos; (v) agregando participantes e eventos novos por inferência, pressuposição, comparação; (vi) movimentando os participantes e os eventos, real ou ficticiamente; (vii) alterando nossa perspectiva sobre os participantes e os eventos, via metáfora, metonímia, especialização, generalização”. (CASTILHO, 2010:122)

Além disso, o autor aborda a semanticização e define esse processo como

a criação de sentidos administrada pelo dispositivo sociocognitivo. O autor

ainda discorre sobre as diferentes categorias semânticas que organizariam esse

campo de estudo: (a) dêixis e foricidade; (b) referenciação, no sentido de

“denominação”; (c) predicação; (d) verificação; (e) conectividade; (f) inferência e

pressuposição; e (g) metáfora e metonímia. No entanto, vale salientar que não

nos aprofundaremos em todas essas categorias, na medida em que não se faz

necessário, no presente estudo, tratar de todas minuciosamente. Nesse sentido,

Page 320: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

127

abordaremos apenas a dêixis e foricidade, a referenciação, a predicação e a

metáfora e metonímia. Além disso, também é importante ressaltar que apenas

essas duas últimas categorias serão aprofundadas por serem as que mais

interferem no processo de nominalização em análise, sem reduzir, no entanto, a

importância das demais categorias.

Conforme Castilho (2010:126), a foricidade é entendida como “remissão”

e representa “um segundo conhecimento da coisa, sendo que o primeiro

conhecimento é dado pelos processos de referência ou designação, e dêixis ou

localização”. As nominalizações X-ura podem ser utilizadas num processo

anafórico, como se observa na seguinte situação:

(12) “Imagem mostra o maior prédio do mundo! ... A altura final ainda

não foi divulgada mas tudo indica que poderá ter 900 m”62.

Nesse exemplo, temos o vocábulo altura retomando toda a ideia presente

no primeiro período, demonstrando que a nominalização também pode ser um

recurso anafórico.

No que concerne à referenciação, observa-se que a escolha por um

formativo de nominalização que possa concorrer com outros, sobretudo os

intensificadores, -ura promove a alteração da intensão da base, acentuando suas

propriedades definitórias básicas e aumentando a extensão das entidades

abarcadas pelo conceito (cf. CASTILHO, 2010:127). Estamos aqui entendendo os

62 http://www.e-farsas.com/burjdubai-o-maior-predio-do-mundo.html. Acessado em 01/Ago/2012.

Page 321: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

128

conceitos de intensão e extensão assim como propostos por Castilho, ou seja, “a

intensão é o conjunto de propriedades lexicais das palavras, o conjunto de seus

traços semânticos inerentes (...) A extensão é o conjunto de indivíduos

denotados através das propriedades lexicais das palavras”. No entanto, ainda

ampliamos esses conceitos na medida em que passamos a compreender a

questão da referência a partir dos pressupostos do cognitivismo e entendemos a

extensão, por exemplo, como a alteração dessas propriedades inerentes

presentes e características da intensão. Portanto, nos casos de polissemia, por

exemplo, reduz-se a intensão inicial para ampliar a extensão e abarcar novos

sentidos às palavras ou expressões (SOARES DA SILVA, 2006). Observe abaixo:

(13) Uma fofura este embrulho da laranja que serve de sobremesa63

Na sentença destacada acima, temos reduzida a intensão referente à

maciez – propriedade inerente da palavra base fofo e aumentada a extensão, à

medida que a palavra em destaque passa a atribuir uma nova propriedade mais

relacionada à delicadeza, beleza e não mais à maciez.

No que diz respeito à predicação, como todo substantivo abstrato, um

nome terminado em -ura pode funcionar como operador alterando as

propriedades de um termo sob seu escopo (CASTILHO, 2010:127-128), pois, nos

termos de ROCHA LIMA (2008), os substantivos abstratos são aqueles que

dependem de alguém ou alguma coisa para se concretizarem. Dessa forma, é

63 http://www.fofuramaxima.blogspot.com . Acessado em 01/Ago/2012.

Page 322: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

129

esperado que esses substantivos selecionem complementos nominais e,

portanto, sejam capazes de predicar.

Outro conceito importante e que vale ser relembrado por já ter sido

amplamente discutido no capítulo 4 é o de metáfora. Castilho (2010) usa como

aporte teórico a abordagem pioneira de Lakoff & Johnson (2002) e conceptualiza

a metáfora como sendo:

“(i) um fenômeno conceitual, não necessariamente ligado a expressões linguísticas; (ii) um mecanismo cognitivo básico e muito difundido que a Semântica não deve ignorar; (iii) o entendimento de um domínio de experiência em termos de outro; (iv) a projeção de um conjunto de correspondências entre um domínio-fonte e um domínio alvo”. (CASTILHO, 2010: 131-132)

Esta seção busca tratar dos diferentes significados de cada uma das

funções da nominalização a partir de –ura, como esses significados são

formados e o que isso reflete na língua. Assim, a ideia central de que a

nominalização é um processo pelo qual os verbos tornam-se nomes indicando a

ação ou o estado da ação não é plenamente aplicável ao sufixo -ura conforme

demonstrado no capítulo anterior. Também buscamos descrever como as

metáforas atuam nesse processo, levando em consideração que o conceito de

metáfora utilizado neste trabalho será o de Lakoff & Johnson (2002). Portanto,

nesta seção, o objetivo é descrever como a semântica atua nessas funções já

previamente explicitadas e estender mais a análise feita no capítulo precedente.

Page 323: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

130

6.3.1. Nominalização de verbos

Essa primeira função do afixo faz referência à função inicial de um afixo

nominalizador que é a de indicar o ato ou o efeito do que é expresso pela base.

Apesar de -ura não ser altamente produtivo nessa função, a mesma não deve ser

excluída da análise por também estar presente na formação do léxico e possui

palavras muito recorrentes na língua. Observe os termos destacados nas frases a

seguir retiradas do site de busca Google:

(14) Justiça do DF faz varredura nas contas de Cachoeira e da Delta.64

(15) CPI apressa abertura de informações a Cachoeira para não atrasar

trabalho65.

(16) Tamar faz soltura de tartarugas66.

(17) Muitos sabem que foi a fervura da água que se usou para definir os

100º C.67

Podemos perceber que as palavras destacadas em (14), (15), (16) e (17),

respectivamente varredura, abertura, soltura e fervura, ainda mantém uma relação

direta com a base e podem ser parafraseadas como “ato ou efeito de X”, como,

por exemplo, soltura que equivale ao “ato de soltar” (as tartarugas, no caso da

64 http://www.dirigida.com.br/news/pt_br/justica_do_df_faz_varredura_nas_contas_de_cachoeira_e_da_delta_pernambuco_com/redirect_8555605.html - Acessado em 07/Ago/2012 65 http://www.camarasidrolandia.ms.gov.br/novo/exibe.php?id=63610&cod_editorial=&url=&pag=&busca= - Acessado em 07/Ago/2012 66 http://fatosedados.blogspetrobras.com.br/2012/03/10/ - Acessado em 07/Ago/2012 67 http://ktreta.blogspot.com.br/2010/01/fervura.html. Acessado em 07 / Ago / 2012

Page 324: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

131

sentença). Cabe fazer essa descrição, por mais que essa não seja a acepção mais

veiculada pelo afixo; isso mostra que, mesmo que –ura exerça outras funções na

língua, a inicial, prototípica ainda está presente no léxico.

Um exemplo de dessemantização e consequente ressemantização nessa

função é a sentença abaixo, também retirada do Google:

(18) Estrelas e lendas do cinema vão à abertura do 65º Festival de

Cannes.68

Como é possível notar, o vocábulo abertura destacado em (18) e em

comparação ao selecionado em (15), sofreu uma mudança de significação

devido à atuação da metáfora (LAKOFF & JOHNSON, 2002). Essa metáfora

pode ser explicada a partir da ideia de que compreendemos a língua como um

conjunto de sistemas não modulares creditando o caráter relacional da

linguagem ao modo como agimos e nos relacionamos com o meio. Nesse caso,

ainda temos uma relação com o significado prototípico, pois o vocábulo

abertura, embora tenha caráter mais nominal nessa sentença, ainda mantém

qualquer relação com a definição “efeito de abrir”.

Esse seria um exemplo de desativação e reativação da semântica, visto

que existe um significado prévio que é desativado e reformulado a partir de

metáforas, ou seja, há um silenciamento do sentido anterior e simultânea

68 http://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2012/05/estrelas-e-lendas-do-cinema-vao-abertura-do-65-festival-de-cannes.html. Acessado em 07 / Ago / 2012

Page 325: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

132

ativação de um novo sentido, ou novos sentidos, já que podemos ativar

inúmeros outros, como nos exemplos abaixo:

(19) A equipe da R. A. Engenheira fez uma abertura na parede69.

(20) A abertura de “A Favorita” (uma telenovela) vai contar toda a

história da novela70.

Enquanto em (19), o sentido ativado é o de “fenda, buraco”; em (20), diz

respeito a um miniclipe exibido no início de um programa televisivo. Assim,

podemos constatar que o léxico de –ura pertencente a essa função também sofre

desativação e reativação, pois as metáforas atuam com esse objetivo, visto que

desativam o significado prototípico e reativam um novo.

6.3.2. Referenciação

A função de referenciação diz respeito também a uma característica

inicial da nominalização: formar nomes a partir de bases verbais. No entanto,

existem diversos nominalizadores na língua, como vimos no capítulo 5, e cada

um deles atua de forma diferente, importando-nos, aqui, apenas o –ura, já que é

este o foco deste trabalho. Observe os exemplos apresentados abaixo, todos

retirados de sites da internet no método de busca do Google:

69 http://revistacasaejardim.globo.com/Casaejardim/0,25928,EJE407507-2186,00.html. Acessado em 07 / Ago / 2012 70 http://www.musicaspraouvir.com/musicas/a-favorita. Acessado em 07 / Ago / 2012

Page 326: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

133

(21) As armaduras leves geralmente não têm partes metálicas, e

normalmente são compostas de varias camadas de couro e/ou

acolchoamentos71.

(22) A cobertura é a melhor parte de um cupcake72!

(23) Abotoaduras ou Botões-de-punho são acessórios de moda usados

por homens e mulheres73.

(24) Empresa especializada no comércio de fechaduras, ferragens de

acabamento para construções74.

(25) Nasa fotografa rachadura quilométrica em geleira75.

Como vimos no capítulo 5, de todos os sufixos de nominalização, -ura é o

que possui caráter mais nominal (em comparação à –ção e –mento, por exemplo),

como podemos perceber nos vocábulos grifados em (21), (22), (23), (24) e (25), os

quais indicam coisas no mundo: tanto armadura quanto cobertura, abotoadura,

fechadura e rachadura. Assim, podemos perceber que -ura, quando adjungido a

bases verbais, distancia-se mais do verbo do qual se originou e passa a nomear

somente coisas, entidades, perdendo, dessa forma, a ideia de “ato ou efeito de

X”, em que X é a base.

Com essa função, o afixo –ura também sofre desativação e reativação de

sentidos a partir de metáfora e extensões de significado. O próprio exemplo

71 http://pt.wikipedia.org/wiki/Armadura. Acessado em 07 / Ago / 2012. 72 http://allrecipes.com.br/receitas/etiqueta-566/receitas-de-cobertura-de-cupcake.aspx. Acessado em 07 / Ago / 2012 73 http://pt.wikipedia.org/wiki/Abotoadura. Acessado em 07 / Ago / 2012 74 http://www.hotfrog.com.br/Produtos/Fechaduras-de-seguranca. Acessado em 07 / Ago / 2012 75 http://g1.globo.com/natureza/noticia/2011/11/nasa-fotografa-rachadura-quilometrica-em-geleira-na-antartida.html. Acessado em 07 / Ago / 2012

Page 327: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

134

presente em (22) já demonstra essa dessemantização e ressemantização, pois a

base verbal é um particípio – um verbo, portanto – que indica ação (agir)

remontando, mais uma vez, à metáfora conceitual DESIGNAR É AGIR. Os

casos presentes nessa função são os representantes do resultado dessa metáfora,

visto que são elementos designativos que se originam de ações.

6.3.3. Abstratização de adjetivos

A terceira função do afixo –ura é a abstratização de adjetivos. Como já

vimos, essa função diz respeito à mudança de categoria gramatical (passagem

de adjetivo a substantivo abstrato). Nesta seção, vamos detalhar um pouco mais

a semântica dessa função. Observe os exemplos abaixo destacados:

(26) No exercício da afabilidade e da doçura, que atrairá em teu favor as

correntes da simpatia.76

(27) Aí seguiram várias explicações, e uma delas é que o pai influencia

mais na altura das filhas e a mãe, na altura dos filhos.77

(28) É preciso ser duro, mas sem perder a ternura, jamais78...

(29) Depois, observe a altura e a largura da testa e o desenho do queixo.79

76http://www.forumespirita.net/fe/o-livro-dos-mediuns/afabilidade-e-docura-28500/ Acessado em 08 / Ago / 2012 77 http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&uf=1&local=1&template=3948.dwt&section=Blogs&post=69803&blog=117&coldir=1&topo=4235.dwt Acessado em 08 / Ago / 2012 78 http://pensador.uol.com.br/frase/NDkx/ Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 328: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

135

Quando o afixo em questão exerce a função de abstratizar um adjetivo,

passa a designar propriedades inerentes ao ser, como podemos ver nas palavras

destacadas em (26), (27), (28) e (29), respectivamente doçura, tontura, altura

ternura e largura. Isso se deve ao fato de todas serem propriedades imutáveis,

duradouras e não eventuais. Assim, pudemos constatar que o afixo –ura carrega

consigo a função de indicar que as propriedades veiculadas pela base adjetiva

são inerentes ao ser, estáticas e não dinâmicas e mutáveis. Além disso, vale

ressaltar que, mesmo nos casos em que essa inerência não esteja tão clara,

também não podemos dizer que seja uma propriedade eventual. Observe os

exemplos abaixo:

(30) Num voo de pombas brancas, um corvo negro junta-lhe um

acréscimo de beleza que a candura de um cisne não traria.80

(31) Um homem nobre jamais perde a sua candura infantil.81

Podemos perceber que em (30), o significado veiculado pelo vocábulo

grifado é o semantizado, ou seja, aquele adquirido a partir da ativação da

semântica na criação de um sentido. Isso se deve ao fato de este ser o seu

significado original, “livre” de qualquer metáfora ou qualquer outro recurso da

linguagem. Candura, no caso de (30), diz respeito à brancura, alvura,

79 http://g1.globo.com/Noticias/Brasil/0,,MUL986422-5598,00.html Acessado em 08 / Ago / 2012 80 http://pensador.uol.com.br/frases_sobre_beleza_interior/7/ Acessado em 08 / Ago / 2012 81 http://frases.aaldeia.net/um-homem-nobre-jamais-perde-a-sua-candura-infantil/. Acessado em 08/ Ago / 2012.

Page 329: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

136

luminosidade do cisne. Em contrapartida, no exemplo destacado em (31),

podemos perceber a atuação da metáfora. Partindo do pressuposto de que esse

recurso está presente em nosso dia a dia e que o acessamos a todo momento, é

possível verificar o porquê dessa dessemantização e da ressemantização. Nesse

caso, o sentido desativado foi o mesmo de (30) e o sentido reativado foi o de

“pureza, inocência”. Essa alteração só foi possível porque podemos

compreender a pureza ou a inocência a partir da ideia de luminosidade inicial:

um ser puro é um ser iluminado, limpo, com a alma clara. Assim, vemos que a

metáfora auxiliou na ativação de um novo significado, ou seja, que esse

vocábulo se ressemantizou via metáfora.

6.3.4. Função Intensificadora

Quando a função do afixo é intensificar, pudemos perceber, no capítulo

3, que -ura convive com inúmeros outros, mantendo, no entanto, cada um a sua

função específica e especializada. Nesta seção, o objetivo é detalhar um pouco

mais o que foi abordado anteriormente sobre essa função do afixo –ura.

Observem-se os exemplos abaixo:

(32) O filme foi aquela chatura!82

(33) Carne recheada é uma gostosura83!

82 http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=loadVerbete&palavra=chatura. Acessado em 08 / Ago / 2012 83 http://www.sadia.com.br/vida-saudavel/4_dia+a+dia+na+cozinha/p5 Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 330: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

137

(34) O sabor do café envolveu-me numa quentura. Dançou as vísceras e

espírito. Deliciando calmamente cada gole.84

(35) A feiura é o que impede espécies diferentes de se misturar, afirma

pesquisa.85

(36) Não é segredo que eu tenho uma queda por coisas fofas, meigas,

cuti-cuti e uón. Mas essa semana me deparei com a maior fofura entre as

fofuras do universo.86

Com base nas sentenças (32), (33), (34), (35) e (36) e com o que já foi

exposto, podemos perceber que o afixo -ura possui a função intensificadora,

visto que todos os exemplos destacados podem ser parafraseados como “X em

excesso” ou “muito X”. Além disso, conforme previamente explicitado, o afixo

passa a se especializar, mantendo essa função como mais importante do que a

alteração categorial da base, visto que deixa de se adjungir a uma base

específica para se anexar a qualquer base com o intuito de intensificar. Assim, o

afixo passa a se unir a bases participiais, adjetivas, substantivas, adverbiais, por

exemplo, já que o objetivo principal é somar a essas bases o caráter

intensificador, sendo este um diferencial do sufixo –ura em detrimento dos

outros afixos com função similar. Abaixo, temos mais alguns exemplos de

vocábulos exercendo essa função, tendo o primeiro (37) como base o

substantivo abstrato beleza e o segundo (38), o advérbio longe. Em ambos os

84 http://hospiciopoetico.blogspot.com.br/2012/04/quentura.html. Acessado em 08 / Ago / 2012 85 http://www.tecmundo.com.br/ciencia/21602-a-feiura-e-o-que-impede-especies-diferentes-de-se-misturar-afirma-pesquisa.htm Acessado em 08 / Ago / 2012 86 http://casadagabi.com/o-cumulo-da-fofura/ Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 331: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

138

casos, podemos ver a função intensificadora claramente marcada se sobrepondo

à escolha da categoria gramatical da base. Observe:

(37) Fraudes, falcatruas, e toda a belezura desse nosso mundo das

academias de araque.87

(38) Viemos da distância e da lonjura dos tempos88.

Essa função da nominalização, assim como as demais, também sofre

desativação e reativação da semântica, nos moldes de Castilho (2010) e essa

reativação se dá por intermédio de metáforas. Podemos exemplificar essa

afirmação a partir dos seguintes exemplos:

(39) A frescura das madames incomoda as empregadas domésticas89.

(40) Deixa de frescura90.

(41) Por uma vida sem frescura91!

87 http://cienciabrasil.blogspot.com.br/2011/08/faca-aqui-sua-denuncia-fraudes.html. Acessado em 08 / Ago / 2012 88 http://edirol.blogs.sapo.pt/2011/07/ Acessado em 08 / Ago / 2012 89 http://www.pgletras.uerj.br/palimpsesto/num13/estudos/palimpsesto13estudos06.pdf Acessado em 08 / Ago / 2012 90 http://www.deixadefrescura.com/. Acessado em 08 / Ago / 2012 91 http://meioslinguagens2009.blogspot.com.br/2009/05/campanha-cintra-por-uma-vida-sem.html Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 332: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

139

Essa função da nominalização está intimamente ligada à anteriormente

explicitada (abstratização de adjetivos); uma grande parte dos dados mantém

uma relação estreita com aquela função. Dessa forma, esta é criada a partir de

uma metáfora desativando os sentidos iniciais de propriedade e reativando

novos sentidos referentes ao excesso da propriedade expressa pela base. Um

exemplo bastante claro é o de frescura, exposto nas frases em (39), (40) e (41),

estas últimas retiradas de uma propaganda de cerveja. Em (39), o substantivo

frescura se enquadra na função de abstratização de adjetivos, significando o

comportamento de ser fresco, enquanto, nos exemplos em (40) e (41), é a função

de intensificação a ativada, pois ambos os vocábulos demonstram reativação do

sentido de excesso, visto que significam “muito fresco” ou “fresco em excesso”.

Outro exemplo que podemos citar desse espraiamento é o vocábulo

brancura que se espraia do protótipo “abstratização” para a função

“intensificadora” a partir da mesma metáfora que o vocábulo anteriormente

analisado. Observe as frases abaixo:

Page 333: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

140

(42) “A honra é como a neve, que, perdida a sua brancura, nunca mais se

recupera”. (Charles Duclos) 92

(43) “Ela era branca, branca. Dessa brancura que não se usa mais. Mas

sua alma era furta-cor”. (Mário Quintana)93

(44) Promoção Show de Brancura.94

(45) Banho de brancura95

Nos exemplos (42) e (43), o termo brancura está ligado à função de

abstratização, na medida em que somente indica a qualidade daquilo que é

branco – no primeiro, atribuindo à neve; no segundo, referindo-se a um tom de

branco que “não se usa mais”. Em contrapartida, os exemplos em (44) e (45) já

exerceriam a função intensificadora, visto que passariam a indicar algo “muito

branco”, “branco em excesso”. Essa acepção pode ser percebida a partir do

92

http://pensador.uol.com.br/frase/Nzc4NA/ Acessado em 08 / Ago / 2012 93 http://pensador.uol.com.br/frase/NTE5MzEy/ Acessado em 08 / Ago / 2012 94 http://mundodomarketing.com.br/artigos/redacao/5218/p-g-investe-em-promocao-para-ativar-marcas.html Acessado em 08 / Ago / 2012 95 http://www.unilever.com.br/brands/homecare/surf.aspx Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 334: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

141

próprio contexto, já que esses exemplos são extraídos de propagandas de sabão

em pó que têm por argumento principal o fato de deixar as roupas muito mais

brancas do que os concorrentes. Sendo assim, é esperado que o significado

veiculado seja o de excesso, pois tanto uma quanto outra empresa querem se

superar e vender o seu produto.

Corroborando essa ideia, também podemos observar as frases abaixo

retiradas dos textos que compõem o corpus e tecer algumas considerações.

(46) “E que cousa ha de tal brancura como o lírio” (Livro de vita Chirsti)

(47) “Nesse chão empapado de brancura”. (Meireles, Cecília. Olhinhos de

gato).

Observando esses exemplos, podemos perceber que o primeiro (46)

apresenta o vocábulo brancura em seu sentido prototípico de “propriedade de

X”, ou seja, podemos notar que o autor está fazendo uso da propriedade

daquilo que é branco para comparar o lírio a alguma coisa tão branca quanto.

Em contrapartida, em (47), o vocábulo brancura já apresenta o seu significado

intensificado, ou seja, já percebemos a diminuição da intensão e o aumento

consequente da extensão. O interessante desses exemplos é o fato de eles

demonstrarem a especialização do afixo, na medida em que o primeiro caso foi

retirado de um texto do século XV e o segundo de um do século XX.

O mesmo caso pode ser verificado com a palavra cobertura destacada nas

frases / expressões abaixo, também retiradas de textos antigos:

Page 335: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

142

(48) “he abrem a sua mente e desvestem de si a sua cobertura do

engano” (Boosco Deleitoso)

(49) “Ela poderia comprar, por exemplo, um com cobertura diferente da

atual”. (Dantas, Francisco J. C. Cartilha do Silêncio)

Nos exemplos acima, podemos perceber o espraiamento semântico

presente no vocábulo destacado na sentença (49) e a manutenção do sentido

prototípico na frase (48), sendo esta registrada também no século XV e aquela

no século XX. Dessa forma, é possível notar que a história do afixo e seus

caminhos ao longo dos anos também são importantes para a análise e refletem

as mudanças semânticas sofridas com o passar do tempo.

6.3.5. Resumindo

Nesta seção, objetivamos apresentar os conceitos de sistema semântico e

todos os outros relacionados a este. Dessa forma, apresentamos como a Teoria

Multissistêmica compreende categorias como metáfora, metonímia e

referenciação, por exemplo, e qual a abordagem dada à semântica nessa teoria.

Além disso, também buscamos apresentar como os dispositivos sociocognitivos

atuam ativando, reativando ou desativando as propriedades desse sistema.

No que diz respeito à atuação desses dispositivos, pudemos verificar que

o afixo –ura possui quatro diferentes funções como sintetizamos na tabela

abaixo:

Page 336: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

143

Função Base Produto Descrição

Nominalização

de verbos

Verbos Substantivos

abstratos

Escaneamento mais

dinâmico, menos voltado

para o produto.

Designação de

nomes

Verbos Substantivos

abstratos

Escaneamento mais estático,

mais voltado para o

produto.

Abstratização

de adjetivos

Adjetivos e

particípios

Substantivos

abstratos

Indica propriedades

inerentes ao ser humano.

Intensificação Adjetivos,

advérbios e

substantivos

abstratos

Substantivos

abstratos

Utilizado para indicar o

excesso da propriedade

descrita pela base.

Tabela 8: Funções do afixo -ura em português.

Como destacamos nesta seção, a semântica do afixo se altera de acordo

com a constituição do léxico e as diferentes categorias das bases: quanto mais

abrangente é a base, mais a significação final da função se torna abstrata.

6.4. Discurso

Segundo Castilho (2010), o discurso é entendido como um conjunto de

negociações envolvendo os interlocutores e propiciando uma interação entre

eles. De acordo com o autor, é através dessas negociações que

“(i) se instanciam as pessoas de uma interação e se constroem suas imagens; (ii) se organiza a conversação através da elaboração do tópico discursivo, dos procedimentos de ação sobre o outro ou de

Page 337: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

144

exteriorização dos sentimentos; (iii) se reorganiza essa interação através do subsistema de correção sociopragmática; ou (iv) se abandona o ritmo em curso através de digressões e parênteses, que passam a gerar outros centros de interesse”. (CASTILHO, 2010:133)

Assim, a discursivização é entendida como o processo de criação de

textos administrado pelo dispositivo sociocognitivo. Dito de outra maneira,

vamos analisar a conversação e o texto, usando como base uma perspectiva

funcionalista cognitiva, pois o foco está no papel da língua, do discurso e do

aparato cognitivo dos usuários da língua. Dessa forma, para que haja um

processo de discursivização, é necessário que esses dispositivos atuem através

de algumas categorias cognitivas constitutivas do discurso: a moldura e a noção

de perspectiva.

Como já foi falado, para que haja interação, é necessário que seja ativado

o conhecimento de mundo dos interlocutores, ou seja, informações extratextuais

ativadas no momento da conversação. Como exemplo, podemos citar a seguinte

frase abaixo:

(50) Você sabe que horas são?96

Na sentença em destaque, podemos notar que a informação solicitada

não é, exatamente, a que está expressa na frase. O locutor da sentença não quer

apenas saber se o seu interlocutor sabe as horas, mas está pedindo que ele a

96 http://joselop.es/voce-sabe-que-horas-sao/ - Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 338: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

145

informe. Nesse momento, o conhecimento de mundo dos falantes de que

perguntas como essa não “devem” ser respondidas com sim ou não precisa ser

ativado para que a comunicação ocorra. Em outras culturas diferentes da

brasileira, por exemplo, informações como essa não seriam pedidas da mesma

maneira. Assim, é necessário que seja ativado esse conhecimento para que a

comunicação seja efetuada com total sucesso e é nesse momento que os

dispositivos sociocognitivos são ativados. É nesse ponto que também voltamos

à questão da moldura e da perspectiva.

A moldura pode ser explicada como uma percepção do mundo, das

funções sociais do discurso compartilhadas pelos interlocutores; é também um

dos processos de ativação do discurso que nos ajuda a compreender como se dá

a produção linguística.

Como exemplo, podemos citar a seguinte frase:

(51) Hoje vamos a uma festa97.

Ao dizer essa sentença, é ativada a moldura de festa que nos leva a um

enorme conjunto de movimentos mentais a serem ativados, pois essa moldura

ativa informações como: festa de aniversário, presente, roupa adequada, festa

infantil, festa de adulto, dentre inúmeros outros movimentos. Portanto,

podemos perceber que a seleção das informações contidas é efetuada no

momento da conversação e corresponde a uma expectativa sobre o mundo.

97

http://www.fanfiction.com.br/historia/71468/Horizonte_Azul/capitulo/2 Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 339: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

146

A noção de perspectiva, por sua vez, é outro processo de ativação

discursiva e é entendida como referente ao modo como o espaço é percebido,

ou seja, à maneira como compreendemos o espaço do discurso. A perspectiva

está diretamente ligada à noção de ponto de vista, atitude do falante, já que

enfocamos uma ou outra informação no discurso. Dessa forma, podemos notar

que os conceitos de moldura e perspectiva estão intrinsecamente interligados,

visto que a moldura seleciona conjuntos mais amplos de informações extra-

discursivas e a perspectiva é que vai se voltar para uma ou outra informação

listada. Dito de outra maneira, a moldura oferece pontos de vista e a

perspectiva os seleciona.

Assim como a gramática, este não será um sistema amplamente

discutido nesta Dissertação; porém, vale apresentar alguns exemplos de como o

contexto, o discurso, atuaria na nominalização por meio de –ura. Observem-se

os exemplos abaixo:

(52) É verdade que a altura da criança aos 2 anos, multiplicada por 2, é a

altura que ela terá quando adulta?98

(53) Um ônibus da viação Itapemirim que vinha do Rio de Janeiro sentido

São Paulo caiu em uma ribanceira na altura do km 125 da Rodovia99.

98 http://brasil.babycenter.com/toddler/desenvolvimento/altura-2-anos/. Acessado em 01 ago.2012. 99http://www.estadao.com.br/noticias/geral,onibus-vindo-rio-cai-em-ribanceira-na-altura-de-cacapava,904211,0.htm. Acessado em 01 ago.2012.

Page 340: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

147

Podemos perceber que a palavra em destaque nas duas sentenças

apresenta significados distintos que podem ser explicados a partir do conceito

de metáfora previamente explicitado. No entanto, esses significados só foram

alterados graças ao contexto no qual as palavras estão inseridas. Dessa maneira,

o discurso é ativado quando a palavra entra em contexto de uso, ou seja, é

ativada uma perspectiva a partir da discursivização da palavra em questão.

Como exemplo também podemos retomar a propaganda apresentada

anteriormente e retomada aqui:

(54) Por uma vida sem frescura.

Nesse exemplo, o novo significado da palavra é ativado no momento em

que ela é inserida em um contexto discursivo específico: a propaganda. Assim,

o DSC atua ativando propriedades desse sistema juntamente com os outros

fazendo com que a palavra frescura adquira um novo sentido, já que esta é

também uma função da propaganda.

Page 341: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

148

6.4.1. Resumindo

Nesta breve seção, pudemos destacar alguns conceitos básicos presentes

no sistema do discurso e defini-los a partir dos olhares de Castilho (2010) para

cada um deles. Além disso, apresentamos uma rápida exemplificação e análise

do formativo em questão para mostrar que o Discurso atua fortemente na

língua e é um sistema igualmente importante.

6.5. Sistemas Simultâneos

Como foi muito discutido no capítulo 4 e constantemente retomado ao

longo da Dissertação, a Teoria Multissistêmica considera a existência de quatro

sistemas que atuam simultaneamente, possuem a mesma importância e são

regidos por dispositivos sociocognitivos que ativam, reativam e desativam as

propriedades de cada um desses sistemas. Neste capítulo, tratamos dos quatro

sistemas apresentados separadamente e mostramos como atuam na língua –

alguns discutidos de forma mais aprofundada e outros de forma mais sucinta.

No entanto, ainda falta uma análise a ser apresentada devido a esse caráter de

simultaneidade muito marcado pela teoria: faltava exemplificar essa questão.

Portanto, nesta seção, esse é o nosso objetivo. Comecemos observando a

sentença apresentada abaixo retirada de um texto do Corpus do Português:

(55) Mas que loucura! Que ideia! Como você foi fazer isso, meu Deus!

(RODRIGUES, Nelson. Meu destino é pecar. 1944)

Page 342: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

149

Podemos observar que ocorre um processo de sintaticização já

apresentado anteriormente, devido ao fato de a palavra destacada estar inserida

numa estrutura sintática própria, já cristalizada (Que X!) em que a posição de X

pode ser ocupada por qualquer substantivo, adjetivo, advérbio, dentre outros, a

fim de indicar intensificação. Portanto, podemos perceber a ativação das

propriedades sintáticas do sistema da gramática.

Além disso, ao mesmo tempo em que ocorre a sintaticização, também

podemos notar a semantização a partir da ativação de uma metáfora já

apresentada, na medida em que loucura deixa de indicar apenas uma

propriedade para fazer referência ao excesso dessa propriedade, diminuindo a

intensão e aumentando a extensão, consequentemente.

No caso do sistema do léxico, é possível notar a relexicalização, na

medida em que há uma renovação de vocabulário devido ao processo de

derivação, nominalização, pelo qual passa a base. Assim, temos que a palavra

louco se relexicalizou, pois, ao se anexar a um afixo (no caso –ura), teve suas

categorias semânticas e seus traços cognitivos rearranjados.

Quanto ao discurso, podemos perceber que o mesmo é ativado, na

medida em que tal palavra é inserida num contexto e determinado significado é

focalizado, em detrimento de outros.

Assim, a partir de apenas uma frase, é possível constatar que esses

sistemas estão atuando simultaneamente na língua e, portanto, essa teoria tem

um fundamento lógico muito relevante. Não há um sistema que se sobreponha

Page 343: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

150

ao outro, mas quatro sistemas que convivem e convergem ao mesmo tempo na

língua.

Podemos observar a expressão apresentada no título deste trabalho.

Observe:

(56) Loucura, loucura, loucura!100

Tal expressão foi criada por um apresentador de televisão e demonstra as

mesmas explicações dadas ao exemplo anterior, com exceção da sintaticização.

No entanto, podemos ainda acrescentar que a intensificação, nesse caso, não se

dá apenas por meio da metáfora, mas também pelo contexto sintático e

discursivo. Dessa forma, mais uma vez podemos exemplificar a atuação dos

quatro sistemas simultaneamente.

6.6. Resumindo

Neste capítulo, apresentamos os quatro sistemas linguísticos descritos

por Castilho (2010) e buscamos descrever como cada um deles atua na língua

através dos DSCs.

No caso da gramática, particularizamos os casos de sintaticização e

fonologização apresentando exemplos que comprovassem a ideia de que em

todos os casos há a atuação desses sistemas. Já no que diz respeito ao léxico,

apresentamos uma visão diferente da trabalhada pela Teoria Multissistêmica

100 http://forum.cifraclub.com.br/forum/3/164409/ Acessado em 08 / Ago / 2012

Page 344: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

151

para lidar com a formação de novas palavras e, para tanto, recorremos ao Booij

(2010) para formalizar o processo de maneira mais detalhada e aprofundada.

Além disso, também explicamos e exemplificamos os casos de lexicalização,

relexicalização e deslexização presentes na nominalização por meio de –ura a

fim de comprovar que esses processos acontecem a todo tempo na língua e não

são, portanto, casos isolados.

Em seguida, buscamos apresentar a visão que se tem sobre o sistema

relacionado à semântica e como ele se apresenta na Teoria Multissistêmica e na

nominalização mais especificamente. Além disso, também apresentamos os

conceitos relacionados a esse sistema, como metáfora, metonímia e focalização,

dentre outros, buscando sempre suporte na linguística de base cognitiva para

definir esses conceitos. Buscamos demonstrar, também, como atuam nas

funções da nominalização e apresentamos dados para comprovar nossas

hipóteses. Já no sistema do discurso, apresentamos como este é entendido na

teoria e apresentamos os conceitos. Além disso, também buscamos exemplificar

como esse sistema é ativado e qual a sua função básica na língua, sem nos

aprofundarmos, entretanto.

Por fim, fez-se necessário selecionar exemplos que comprovassem que a

atuação desses sistemas se dá simultaneamente e assim o fizemos. Buscamos

demonstrar como se concretiza a ideia de simultaneidade na língua. nessa seção

final, o nosso objetivo foi corroborar a ideia primária da Teoria Multissistêmica de

que a língua é composta de quatro sistemas que não apresentam qualquer

hierarquia e atuam simultaneamente por meio da ativação, desativação e

reativação de suas propriedades.

Page 345: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

152

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta Dissertação, tivemos por objetivo apresentar e investigar o

processo de nominalização a partir do sufixo -ura levando em consideração os

pressupostos levantados pela Abordagem Multissistêmica de análise da língua

(CASTILHO, 2010). Dessa maneira, esperamos ter apresentado evidências de

que as formas X-ura são produtivas no português contemporâneo com bases

adjetivais, substantivas e adverbiais e que as bases participiais são encontradas

apenas em formações mais antigas. Além disso, a descrição dos sistemas de

acordo com a proposta de Castilho (2010) e a busca em dicionários etimológicos

e textos antigos do português demonstram o favorecimento das bases adjetivas

e comprovam a mudança ao longo da história em relação às categorias

selecionadas para preencher a posição de X no esquema genérico X-ura.

Pretendemos ter comprovado, ainda, que o sufixo –ura não concorre com

outros afixos da língua – no que diz respeito à atual sincronia – em uma mesma

função e que seu significado foi se especializando ao longo do tempo como

busca de um lugar próprio na língua.

Além disso, no que tange à abordagem linguística utilizada, esperamos

ter alcançado o objetivo inicial de fazer uma nova análise sob um ângulo

completamente diverso dos já estudados e comprovar que essa é uma teoria

que ainda pode gerar muitas outras pesquisas. Vale lembrar, também, que esta

7

Page 346: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

153

Dissertação não teve por objetivo descrever todos os sistemas linguísticos

apresentados pela Multissistêmica, pois optamos por aprofundar apenas dois

deles: o léxico e a semântica.

Portanto, pretendemos ter conseguido analisar satisfatoriamente o

formativo em questão de acordo com os sistemas selecionados e responder a

todas as perguntas levantadas ao longo desta Dissertação. Além disso, também

buscamos descrever e exemplificar, mesmo que de maneira um pouco

superficial os outros dois sistemas linguísticos (gramática e discurso) e mostrar

que, apesar de não termos focalizado neles, estes também são importantes para

a análise linguística.

Page 347: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

154

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, M. L. L. & GONÇALVES, C. A. V. “Aplicação da construction

gramar à morfologia: o caso das formas X-eiro”. In: Linguística. (PPGL/UFRJ), v.

2, 2006, p. 229-242

ARONOFF M. Word Formation in Generative Grammar. Massachusetts: The MIT

Press Cambridge, 1976

BASILIO, Margarida. “Das relações entre texto, gramática e cognição: o foco na

cognição”. Texto apresentado no Encontro InterGTs da ANPOLL. Campinas:

UNICAMP, 2011.

__________________. “O princípio da analogia na constituição do léxico: regras

são clichês lexicais”. In: Veredas: revista de estudos linguísticos. V.1, n.1, p. 9-21,

1997.

__________________. Estruturas lexicais do português: uma abordagem gerativa.

Petrópolis: vozes, 1980.

__________________. Formação de classes de palavras no português do Brasil. São

Paulo: Contexto, 2006.

__________________. Teoria Lexical. São Paulo: Ática, 2007 [1987].

8

Page 348: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

155

BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova

Fronteira, 2009.

BOOIJ, G. Construction Morphology. New York: Oxford University Press, 2010.

_________. The Grammar of words. New York: Oxford University Press, 2005.

BUENO, Francisco da Silveira. Grande dicionário etimológico, prosódico da língua

portuguesa. São Paulo: Saraiva, 1967.

BYBEE, Joan. Morphology: the relations between meaning and form.

Amsterdam/ Philadelphia: John Benjamins Publishing Co., 1985.

CAMARA JR., Joaquim Mattoso. História e estrutura da Língua Portuguesa. Rio de

Janeiro: Padrão, 1976.

CARONE, Flávia de B. Morfossintaxe. São Paulo: Ática, 1990.

CASSEB-GALVÃO et alii. Introdução à gramaticalização: princípios teóricos e

aplicação. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

CASTILHO, Ataliba T. de. Nova Gramática do Português Brasileiro. São Paulo:

Contexto, 2010.

CASTRO DA SILVA, Caio Cesar; VALENTE, Ana Carolina Mrad de Moura;

GONÇALVES, Carlos Alexandre; ALMEIDA, Maria Lucia Leitão de. “Percurso

histórico das formações parassintéticas a-X-ecer e e/n/-X-ecer: produtividade e

Page 349: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

156

polissemia”. In: ALMEIDA, Maria Lucia Leitão de M. L. L. de et alii. Linguística

Cognitiva em Foco: Morfologia e Semântica. Rio de Janeiro: Publit, 2009.

CHAFE, Wallace L. “Giveness, constrastiveness, definiteness, subjects, topics

and points of view”. In: LI, C. Subject and topic. New York: Academic Press,

1976.

CHOMSKY, Noam. Knowledge of language, its nature, acquisition and us. Nova

York: Praeger, 1986.

COELHO, Livy Maria Real. "Uma Análise do Sufixo – ura com base na

Morfologia Categorial". In: Intertexto. Uberaba: UFTM, 2008.

COUTINHO, Ismael de L. Gramática Histórica. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico,

1976.

________________________. Pontos de Gramática Histórica. Rio de Janeiro: Ao

Livro Técnico, 1978.

CROFT, William & CRUSE, D. Alan. Cognitive Linguistics. Cambridge:

Cambridge University Press, 2004.

CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico Nova Fronteira da língua

portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

CUNHA, Celso Ferreira da & CINTRA, Luis Filipe Lindley. Nova gramática do

português contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexicon Informática, 2007.

Page 350: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

157

DAVIES, Mark & FERREIRA, Michael. Corpus do Português: 45 million words,

1300s-1900s. http://www.corpusdoportugues.org, 2006.

DIK, S. C. The theory of Funcional Grammar. Berlim: Mounton de Gruyter, 1997.

EVANS, V. & GREEN, M. Cognitive Linguistic: An Introduction. Edinburgh:

Edinburgh University Press, 2006.

FARIA, E. Gramática superior da língua latina. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1958.

FAUCONNIER, Gilees & TURNER, Mark. The way we think: conceptual blending

and the mind’s hidden complexities. Basic Books: New York, 2002.

FERRARI, Lilian. Introdução à Linguística Cognitiva. São Paulo: Contexto, 2011.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.

Curitiba: Positivo Informática, 2004.

FILLMORE, C. J. “Frame semantics”. In: Linguistics in the Morning Calm,

Hanshin, The Linguistic Society of Korea Soeul, 1982, p. 111-137.

FRANÇA, Aniela Improtta & LEMLE, Miriam. “Arbitrariedade Saussereana em

foco”. In: Revista Letras, n. 69. CURITIBA: EDITORA UFPR, 2006.

FREITAS, Horácio Rolim de. Princípios de Morfologia. Rio de Janeiro: Oficina do

Autor, 1997.

GONÇALVES, C. A. V. Flexão e Derivação em Português. 1. ed. Rio de Janeiro: Fac

Letras/UFRJ, 2005.

Page 351: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

158

______________________ et alii. Linguística Cognitiva em foco: morfologia e

semântica do português. Rio de Janeiro: Publit, 2010.

______________________. Iniciação aos estudos morfológicos: flexão e derivação em

português. São Paulo: Contexto, 2011.

______________________ & ALMEIDA, Maria Lucia Leitão de. de. “Das relações

entre forma e conteúdo nas estruturas morfológicas do português”. In:

Diadorim: Revista de Estudos Linguísticos e Literários, v. 4, p. 27-55, 2008.

HENRIQUES, Cláudio Cezar. Morfologia: Estudos lexicais em perspectiva

sincrônica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

HOPPER, Paul J. "On some principles of grammaticalization”. In TRAUGOTT ,

Elizabeth Closs & HEINE Bernd, eds. Approaches to Grammaticalization, Vol. I.

Amsterdam: John Benjamins, 1991.

_________________ & TRAUGOTT Elizabeth. Grammaticalization. Cambridge:

Cambridge University Press, 2003

HOUAISS, Antonio. Dicionário Eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Ed.

Objetiva: 2001.

ILARI. Rodolfo. Linguística Românica. São Paulo: Ática, 1992.

JACKENDOFF, Ray. “Morphological and semantic regularities in the Lexicon”

In: Language. n.51. 1975.

Page 352: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

159

____________________. Semantics and Cognition. Cambridge: MIT, 1983.

JUCÁ FILHO, Cândido. Gramática histórica do Português Contemporâneo. Rio de

Janeiro: EPASA, 1945.

KATO, Mary. No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística. São Paulo:

Ática, 1986.

KEHDI, Valter. Formação de palavras em português. São Paulo: Ática, 1989.

______________. Morfemas do português. São Paulo: Ática, 1999.

LAKOFF, George. Women, Fire and Dangerous Things: What categories reveal

about the mind. Chicago: The University of Chicago Press, 1987.

__________________ & JOHNSON, Mark. Metáforas da vida cotidiana. Campinas:

Mercado de Letras, 2002 [1980].

LANGACKER, Ronald. Foundations of cognitive grammar. Theoretical

prerequisites. Stanford: Stanford University Press, 1987.

LAROCA, Maria Nazaré de Carvalho. Manual de morfologia do português.

Campinas: Pontes; Juiz de Fora: UFJF, 1994.

LEMOS DE SOUZA, Janderson Luiz. A distribuição semântica dos substantivos

deverbais em -ção e -mento no português do Brasil: uma abordagem cognitiva. (Tese

de Doutorado) Rio de Janeiro: UFRJ, 2010.

LUFT, Celso Pedro. Moderna Gramática Brasileira. Porto Alegre: Ed. Globo, 1979.

Page 353: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

160

_________________. Novo Manual de Português, gramática, ortografia oficial,

redação, literatura, textos e testes. 8. ed., São Paulo: Editora Globo, 1990.

MACHADO, José Pedro. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Lisboa:

Livros Horizonte, 1973.

MASIP, V. Gramática Histórica Portuguesa e Espanhola. São Paulo: Editora

Pedagógica e Universitária, 2003.

MAURER JR., Theodoro Henrique. Gramática do Latim Vulgar. Rio de Janeiro:

Livraria Acadêmica, 1959.

MENDES DE ALMEIDA, N. Gramática Metódica da Língua Portuguesa. Rio de

Janeiro: Saraiva, 2005 [1979]

MONTEIRO, J. Morfologia Portuguesa. Campinas: Editora Pontes, 1988.

NASCENTES, Antenor. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de

Janeiro: Acadêmica, 1955.

NEVES, Maria Helena de M. A Gramática Funcional. São Paulo: Martins Fontes,

1997.

PEZATTI, Erotilde G. “O Funcionalismo em Linguística”. In: MUSSALIM, F &

BENTES, A. C. Introdução à linguística: fundamentos epistemológicos. Volume 3. São

Paulo: Cortez, 2005.

Page 354: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

161

PIZZORNO, Daniele Moura. Polissemia da construção X-eiro: uma abordagem

cognitivista. Dissertação (Mestrado). Rio de Janeiro: UFRJ, 2010.

RIO-TORTO, G. M. "Organização de redes estruturais em morfologia".

Disponível em: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4561.pdf, 2005.

____________________. Morfologia derivacional: Teoria e Aplicação ao Português.

Porto: Porto Editora, 1998.

ROCHA LIMA, Carlos Henrique da. Gramática normativa da língua portuguesa.

Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.

ROCHA, Luiz Carlos de Assis. Estruturas morfológicas do português. Belo

Horizonte: Ed. UFMG, 1998.

ROSA, Maria Carlota. Introdução à Morfologia. São Paulo: Contexto, 2006.

SAID ALI, M. Gramática Histórica da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro:

Melhoramentos, 1971.

_______________. Gramática Secundária da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro:

Melhoramentos, 1969.

SANDMANN, Antônio José. Competência Lexical: produtividade, restrições e

bloqueio. Curitiba: Ed. da UFPR, 1988.

____________________________. Formação de palavras no português brasileiro

contemporâneo. Curitiba: Scentia et Labor: Ícone, 1988.

Page 355: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

162

_____________________________. Morfologia Geral. São Paulo: Contexto, 1997.

SAUSSURE, F. Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 1973.

SILVEIRA BUENO, F. de. A formação histórica da Língua Portuguesa. Rio de

Janeiro: Saraiva, 1967.

SOARES DA SILVA, Augusto. “A Linguística Cognitiva: uma breve introdução

a um novo paradigma” In: Revista Portuguesa de Humanidades. Braga, v.I, 1997,

p.59-101.

__________________________. O mundo dos sentidos em português: polissemia,

semântica e cognição. Coimbra: Almedina, 2006.

SWEETSER, Eve. From etymology to pragmatics. Metaphorical and cultural

aspects of semantic structure. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.

VALENTE & CASTRO DA SILVA. “Loucura, loucura, loucura! Uma

abordagem morfossemântica do sufixo –ura”. In: Cadernos do NEMP. Vol. 2, n.

2, 2011. Disponível em http://www.nemp.com.br/images/pdf/cadernos-vol2-

ana%20e%20caio1.pdf

XAVIER, M. F.; VICENTE, M. G.; CRISPIM, M. L. Crispim,

http://cipm.fcsh.unl-pt/, 20/10/2009.

Page 356: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

163

ANEXO I

Significado das palavras pelos dicionários Aurelio e Houaiss.

PALAVRA SIGNIFICADO

Abertura Ato de abrir. Ato de inaugurar, começo. Dimensão do espaço aberto. Composição que serve de introdução à ópera, bailado, sinfonia, etc.

Abotoadura Ato ou efeito de abotoar. Abotoamento. Conjunto de botões usado em peças do vestuário

Abreviatura Ato ou efeito de abreviar. Modo de escrever uma palavra com menos letras que as requeridas pelos sons e articulações que tem. Representação de uma palavra por meio de uma ou algumas das suas letras

Advocatura Amparo, mediação, patrocínio, proteção.

Agrura Sabor agro, acidez, azedume. Fig1: situação difícil, empecilho, obstáculo. Fig2: padecimento físico ou espiritual, insatisfação.

Altura Dimensão de alto a baixo. Elevação acima de um ponto. Eminência; altitude. Profundidade. Distância da base ao vértice oposto (no triângulo).

Alvura Qualidade, estado ou condição do que é alvo ou branco. Brancura. Fig.: qualidade do que ou de quem é cândido, puro, inocente.

Amargura Sabor amargo, amargor. Aflição, angústia, tristeza. Propriedade ou característica de severo

Andadura Ato de andar. Modo de andar. Passo da cavalgadura quando avança com a mão e o pé do mesmo lado. Passo.

Apertura Característica do que é estreito, apertado. Embaraço. Angústia, aflição.

Armadura Conjunto das peças metálicas que vestiam os guerreiros. Madeiramento que sustenta a parte essencial de uma obra de alvenaria ou de carpintaria;

Page 357: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

164

armação.

Arquitetura Arte de projetar e construir edifícios. Fig. Forma, estrutura: arquitetura do corpo humano.

Assadura Ato ou efeito de assar. Parte da rês própria para assar. Inflamação cutânea provocada por calor ou fricção.

Assinatura Ato ou efeito de assinar; firma, nome escrito. Direito que se tem a alguma publicação ou comodidade mediante certo preço por determinado tempo.

Atadura Ato ou efeito de atar. Tira de tecido que serve para cobrir, também usada em curativos.

Baixura Característica do que é baixo. Depressão de terreno.

Belezura Coisa agradável de ver, beleza. Pessoa bonita, atraente.

Benzedura Ato ou efeito de benzer com ou sem o sinal da cruz. Ato de benzer, acompanhado de rezas supersticiosas.

Brancura Qualidade do que é branco. Fig. Inocência: a brancura de uma alma

Brandura Qualidade ou virtude do que é brando. Característica de quem é afável, doce. Ternura, carinho.

Bravura Qualidade de quem é bravo, coragem, bravor. Fig. Inocência: a brancura de uma alma.

Brochura Ato ou efeito de brochar livros. Estado do livro brochado. Folheto, livro de pequenas dimensões, revestido com capa de papel ou cartolina colada na lombada.

Candidatura Condição de candidato. Pretensão ou aspiração de candidato.

Candura Qualidade do que é cândido. Brancura puríssima. Embarcação das Maldivas. Pureza. Credulidade ingênua.

Cavalgadura Besta de sela, cavalar, muar ou asinina. Fig. Pessoa estúpida, malcriada.

Censura Ato ou efeito de censurar. Crítica severa, repreensão. Exame oficial de certas obras ou escritos.

Chatura Ação ou resultado de chatear, aborrecer. Chatice. Coisa que chateia, que amola.

Cintura Anatomia. Parte do corpo onde há junção óssea dos

Page 358: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

165

membros ao tronco: cintura escapular, cintura pélvica. O meio do corpo. A parte das vestimentas que rodeia e aperta nessas partes.

Cobertura Ato ou efeito de cobrir; coberta, revestimento, invólucro. O que serve para cobrir; teto, telhado; tampa; capa.

Criatura Todo o ser criado. Pessoa; indivíduo. Pessoa inteiramente devotada a outra.

Cultura Ação ou maneira de cultivar a terra ou as plantas; cultivo: a cultura das flores. Fig. Conjunto dos conhecimentos adquiridos; a instrução, o saber: uma sólida cultura.

Curvatura Ação ou resultado de curvar. A parte curva de um corpo ou objeto.

Dentadura Conjunto formado por todos os dentes. Dentes artificiais. Dentes das rodas de qualquer máquina

Desenvoltura Grande desembaraço, viveza, agilidade. Fam. Turbulência, travessura

Ditadura O governo, a autoridade do ditador. Poder ou autoridade absoluta. Governo em que os poderes do Estado se concentram nas mãos de um só homem.

Dobradura Ato, processo ou efeito de dobrar. Curvatura; dobramento; vinco, prega. Ato de dobrar sobre si mesma a extremidade da artéria para suspender uma hemorragia.

Doçura Qualidade ou gosto de doce. Qualidade ou virtude do que é meigo, ternura.

Embocadura Ato ou efeito de embocar. Entrada de rua, avenida. Foz (de um rio). Tendência, propensão.

Envergadura Ato ou efeito de envergar, envergamento. Distância entre as extremidades das asas abertas de uma ave ou de qualquer animal alado. Distância máxima entre as extremidades das asas de uma aeronave.

Envoltura Ato ou efeito de envolver, envolvimento. Manta em que se envolvem as crianças

Escritura Documento ou forma escrita de um ato jurídico. O Antigo e o Novo Testamento: a Sagrada Escritura.

Page 359: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

166

Espessura Qualidade ou característica do que é espesso. Grau de consistência, da densidade de algo. Medida de grossura.

Estatura Tamanho de uma pessoa. Altura ou grandeza de um ser

animado. Fig. Competência, capacidade, dignidade: não

tem estatura para o cargo.

Fartura Condição do que é farto, abundante. Abundância de alimentos, de provisões. Grande quantidade de algo

Fechadura Ato ou efeito de fechar. Dispositivo de metal que tranca portas.

Feitura Ato, efeito ou modo de fazer; efeito. Obra; execução; trabalho.

Feiura Condição ou estado de quem ou do que é feio; fealdade. Pessoa ou coisa feia.

Ferradura Peça de ferro que se prega na face inferior do casco dos animais de carga, tiro e sela. Reforço de ferro no salto do calçado.

Fervura Estado de um líquido a ferver; ebulição. Fig. Agitação, efervescência, alvoroço.

Finura Qualidade do que é fino, delgado. Característica do que é leve, delicado, sutileza.

Fofura Qualidade de fofo. Pessoa, animal ou coisa fofa, graciosa.

Formatura Ato ou efeito de formar; graduação universitária. Militar Disposição ou alinhamento de tropas.

Formosura Característica do que é formoso, boniteza, beleza.

Fratura Ato ou efeito de fraturar; rutura, quebradura.

Frescura Sensação na pele causada pelo contato de coisa fria. Uso informal: comportamento reservado ou constrangido, afeito a moralismo excessivo; reticência; melindre. Comportamento, modo, hábito próprio de indivíduo fresco, maricas.

Fritura Qualquer coisa frita. O que se frege de uma vez. Ato ou efeito de fritar.

Fundura Altura da profundidade. Comprimento entre a parte anterior e a posterior. Profundidade.

Gastura Bras. Comichão, prurido. Inquietação nervosa, aflição,

Page 360: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

167

mal-estar.

Gordura Tecido adiposo dos animais. Característica daquele que é gordo, excesso de peso.

Gostosura Qualidade do que é gostoso. Iguaria saborosa, guloseima. Mulher bonita, capaz de agradar sexualmente.

Grossura Qualidade de grosso, do que tem grande diâmetro. Dimensão de um sólido que equivale à distância entre a superfície anterior e a posterior. Que é volumoso, corpulento, inchado. Bras. Pop. Grosseria, impolidez.

Investidura Ato de investir uma pessoa na posse de algum cargo ou dignidade; emposse.

Juntura Ato ou efeito de juntar. Ponto onde duas peças ou coisas se juntam ou se articulam. Conjunto de peças necessárias para jungir os bois ao carro.

Laqueadura Ato ou efeito de laquear (-se). Ligadura.

Largura Extensão tomada no sentido perpendicular ao comprimento. Qualquer plano apreciado quanto à sua dimensão transversal: largura do terreno.

Legislatura Corpo legislativo em atividade. Período para o qual se elege uma assembleia legislativa.

Licenciatura Grau universitário que dá o direito de exercer o magistério do ensino médio.

Ligadura Ação de ligar; o mesmo que ligamento. Atadura. Cirurgia. Operação que consiste em apertar um laço em torno de uma parte do corpo, em geral um vaso sanguíneo.

Longura Característica do que é longo, do que apresenta grande extensão no espaço. Retardamento no tempo; delonga demora.

Lonjura Afastamento físico significativo; grande distância. Local muito distante (e por vezes até deserto, ermo).

Loucura Distúrbio, alteração mental caracterizada pelo afastamento mais ou menos prolongado do indivíduo de seus métodos habituais de pensar, sentir e agir.

Magistratura Cargo, função ou dignidade de magistrado. O exercício desse cargo ou função: Destacou-se na magistratura. Duração desse exercício: Sua magistratura foi de 15 anos.

Page 361: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

168

O conjunto dos magistrados.

Mordedura Ato ou efeito de morder. Marca deixada pela ação de morder.

Negrura A cor negra. Qualidade de negro, negridão. Atitude má, perversa. Profundo desencanto, melancolia, tristeza.

Nervura Cada uma das fibras ou veios das folhas e das pétalas. Linha ou moldura saliente que separa os panos de uma abóbada. Tubo córneo ramificado nas asas dos insetos.

Partitura Disposição gráfica das diversas partes que formam uma

peça musical, particularmente sinfônica.

Picadura Picada, ferida, mordedura.

Pintura Arte de pintar. Arte ou ofício do pintor. Revestimento de uma superfície com substância corante: A pintura do muro ficou ótima.

Postura Atitude do corpo. Composição para dar mais realce ao rosto; arrebique. Expressão da fisionomia.

Queimadura Ação ou resultado de queimar; queima; queimação. Ferimento causado por fogo, raios solares ou substância química.

Quentura Estado do que é quente, calor. Alta temperatura. Febre. Extensão de sentido: sensualidade.

Rachadura Ato ou efeito de rachar. Abertura longitudinal, resultante de fratura ou ruptura; racha; fenda, greta.

Rapadura Ato ou efeito de rapar; rapadela. Bras. Açúcar mascavo em forma de tijolo.

Secura Qualidade, estado ou condição de seco. Falta de água, estiagem, seca. Esterilidade.

Semeadura Ação ou resultado de semear; semeação. P.ext. Terra ou campo semeado; semeada. Quantidade de grão suficiente para semear uma extensão de terra.

Sepultura Ato de sepultar. Cova, lugar onde se sepultam os

cadáveres. Sepulcro; jazigo. O fim da vida, a morte.

Soltura Ato ou efeito de soltar. Arrojo; atrevimento. Dissolução; licenciosidade. Diarreia, disenteria.

Temperatura Estado sensível do ar frio ou quente. Grau de calor num

Page 362: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

169

corpo ou num lugar.

Ternura Qualidade do que é terno; meiguice. Afeto brando e carinhoso.

Tenrura Qualidade ou estado de tenro.

Tessitura Disposição das notas musicais para se acomodarem a certa voz ou instrumento. Contextura; organização.

Tesura Estado de um corpo teso. Força, rigidez. Fig. Orgulho,

vaidade.

Textura Ação ou resultado de tecer. Trama, tecido, entrelaçamento dos fios, contextura. Constituição geral de um material sólido.

Tintura Ato ou efeito de tingir. Medicamento obtido por contato com álcool, de diversas substâncias de origem vegetal, animal ou químicas.

Tontura Perturbação cerebral. Sensação ilusória de movimento do corpo ou movimento à volta do corpo.

Travessura Ação de pessoa travessa. Traquinada de crianças.

Desenvoltura. Brincadeira, brejeirice, agitação; malícia.

Varredura Ação de varrer. Lixo que se acumula varrendo. Varredela. Exploração ou busca minuciosa; rastreamento.

Verdura A cor verde dos vegetais, a vegetação, verdor. Bot. Planta comestível, ger. cultivada em hortas; hortaliça.

Page 363: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

170

ANEXO II

Categoria morfológica da base e primeira ocorrência na língua.

PALAVRA BASE CATEGORIA DATAÇÃO

Abertura Do latim abertura XIV

Abotoadura Abotoado Verbo (particípio) XIV

Abreviatura Do italiano abbreviatura

1536

Advocatura Do latim advocatura 1712

Agrura Agro Adjetivo XV

Altura Alto Adjetivo XIII

Alvura Alvo Adjetivo XIV

Amargura Amargo Adjetivo XIII

Andadura Andado Verbo (particípio) XIV

Apertura Aperto Verbo (particípio) 1516

Armadura Do latim armatura 1344

Arquitetura Do latim architectura 1561

Assadura Do latim assatura XIV

Assinatura Do latim assinatura 1504

Atadura Atado Verbo (particípio) XIV

Baixura Baixo Adjetivo XV

Belezura Beleza Substantivo abstrato XX

Benzedura Benzido Verbo (particípio) 1789

Brancura Branco Adjetivo XIII

Brandura Brando Adjetivo XIV

Bravura Bravo Adjetivo XIV

Page 364: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

171

Brochura Do francês brochure 1820

Candidatura Do francês candidature 1858

Candura Cândido Adjetivo 1614

Cavalgadura Cavalgado Verbo (particípio) XIV

Censura Do latim censura 1402

Chatura Chato Adjetivo ---------------

Cintura Do latim cinctura XIV

Cobertura Do latim coopertura 1257

Criatura Do latim criatura XIII

Cultura Do latim cultura XV

Curvatura Do latim curvatura 1560

Dentadura Dentado Verbo (particípio) 1697

Desenvoltura Do italiano desenvolture

XV

Ditadura Do latim dictadura 1563

Dobradura Dobrado Verbo (particípio) 1562

Doçura Doce Adjetivo XV

Embocadura Embocado Verbo (particípio) 1673

Envergadura Envergado Verbo (particípio) 1844

Envoltura Envolto Verbo (particípio) XIV

Escritura Do latim scriptura XIII

Espessura Espesso Adjetivo XIV

Estatura Do latim estatura XV

Fartura Do latim fartura XIV

Fechadura Fechado Verbo (particípio) XIV

Feitura Feito Verbo (particípio) XIII

Feiura Feio Adjetivo 1918

Ferradura Ferrado Verbo (particípio) 1110

Page 365: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

172

Fervura Do latim fervura XIV

Finura Fino Adjetivo XIX

Fofura Fofo Adjetivo 1994

Formatura Do latim Formatura 1697

Formosura Formoso Adjetivo 1344

Fratura Do latim fractura 1202

Frescura Fresco Adjetivo 1543

Fritura Frito Verbo (particípio) 1836

Fundura Fundo Adjetivo XV

Gastura Gasto Verbo (particípio) XIX

Gordura Gordo Adjetivo XIV

Gostosura Gostoso Adjetivo 1918

Grossura Grosso Adjetivo XIII

Investidura Investido Verbo (particípio) XV

Juntura Junto Verbo (particípio) XV

Laqueadura Laqueado Verbo (particípio) XX

Largura Largo Adjetivo XV

Legislatura Do francês legislature 1770

Licenciatura Do latim licenciatura 1654

Ligadura Do latim ligatura XIII

Longura Longo Adjetivo XIV

Lonjura Longe Advérbio XIX

Loucura Louco Adjetivo XIII

Magistratura Do latim magistratura Verbo (particípio) 1760

Mordedura Mordido Verbo (particípio) XIV

Negrura Negro Adjetivo XIV

Nervura Nervo Substantivo 1788

Partitura Do italiano partitura 1789

Page 366: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

173

Picadura Picado Verbo (particípio) XV

Pintura Do latim pinctura 1103

Postura Do latim postura XIII

Queimadura Queimado Verbo (particípio) XV

Quentura Quente Adjetivo XIII

Rachadura Rachado Verbo (particípio) XVI

Rapadura Rapado Verbo (particípio) XIV

Secura Seco Adjetivo XIV

Semeadura Semeado Verbo (particípio) XV

Sepultura Do latim sepultura XIII

Soltura Solto Verbo (particípio) XIII

Temperatura Do latim temperatura XVII

Tenrura Tenro Adjetivo XVII

Ternura Terno Adjetivo XVI

Tessitura Do italiano tessitura XIX

Tesura Teso Adjetivo 1721

Textura Do latim textura 1691

Tintura Do latim tinctura XIV

Tontura Tonto Adjetivo 1836

Travessura Travesso Adjetivo XIII

Varredura Varrido Verbo (particípio) XV

Verdura Verde Adjetivo XIV

Page 367: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

174

ANEXO III

Número de ocorrências no site de busca Google dos vocábulos utilizados no

corpus.

PALAVRA OCORRÊNCIAS NO GOOGLE

Abertura 81.400.000

Abotoadura 65.300

Abreviatura 3.000.000

Advocatura 106.000

Agrura 70.400

Altura 228.000.000

Alvura 2.550.000

Amargura 8.070.000

Andadura 3.250.000

Apertura 682.000.000

Armadura 14.300.000

Assadura 200.000

Assinatura 40.800.000

Atadura 40.800.000

Arquitetura 38.400.000

Baixura 70.900

Belezura 388.000

Benzedura 944.000

Brancura 224.000

Brandura 224.000

Bravura 7.820.000

Brochura 6.110.000

Page 368: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

175

Candidatura 49.100.000

Candura 426.000

Cavalgadura 50.300

Censura 43.900.000

Chatura 247.000

Cintura 46.100.000

Cobertura 102.000.000

Criatura 19.700.000

Cultura 715.000.000

Curvatura 4.950.000

Dentadura 3.280.000

Desenvoltura 1.650.000

Ditadura 10.500.000

Dobradura 1.150.000

Doçura 3.370.000

Embocadura 638.000

Envergadura 8.220.000

Envoltura 4.180.000

Escritura 49.800.000

Espessura 9.760.000

Estatura 19.800.000

Fartura 6.350.000

Fechadura 3.490.000

Feiura 493.000

Ferradura 1.530.000

Fervura 722.000

Finura 1.400.000

Fofura 2.890.000

Formatura 5.850.000

Formosura 493.000

Fratura 2.680.000

Page 369: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

176

Frescura 11.300.000

Fritura 1.240.000

Fundura 86.400

Feitura 2.550.000

Gastura 55.300

Gordura 13.200.000

Gostosura 388.000

Grossura 366.000

Investidura 4.230.000

Juntura 866.000

Laqueadura 200.000

Largura 32.000.000

Legislatura 26.800.000

Licenciatura 32.000.000

Ligadura 921.000

Longura 50.600

Lonjura 55.900

Loucura 20.900.000

Magistratura 13.700.000

Mordedura 1.060.000

Negrura 609.000

Nervura 191.000

Partitura 12.300.000

Picadura 2.640.000

Pintura 189.000.000

Postura 46.900.000

Queimadura 1.090.000

Quentura 131.000

Rachadura 674.000

Rapadura 2.500.000

Secura 5.630.000

Page 370: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

177

Semeadura 866.000

Sepultura 17.700.000

Soltura 4.270.000

Temperatura 178.000.000

Ternura 22.300.000

Ternura 55.600

Tessitura 2.780.000

Tesura 79.400

Textura 28.700.000

Tintura 5.240.000

Tontura 800.000

Travessura 395.000

Varredura 2.390.000

Verdura 21.300.000

Page 371: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

178

ANEXO IV

Separação dos vocábulos por século.

Sem datação

Chatura

Século XII

Palavra Datação

Pintura 1103

Ferradura 1110

Século XIII

Palavra Datação

Altura XIII

Amargura XIII

Brancura XIII

Criatura XIII

Escritura XIII

Feitura XIII

Grossura XIII

Ligadura XIII

Loucura XIII

Postura XIII

Quentura XIII

Sepultura XIII

Page 372: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

179

Soltura XIII

Travessura XIII

Vestidura XIII

Fratura 1202

Cobertura 1257

Século XIV

Palavra Datação

Abertura XIV

Abotoadura XIV

Alvura XIV

Andadura XIV

Assadura XIV

Atadura XIV

Brandura XIV

Bravura XIV

Cavalgadura XIV

Cintura XIV

Envoltura XIV

Espessura XIV

Fartura XIV

Fechadura XIV

Fervura XIV

Gordura XIV

Longura XIV

Mordedura XIV

Negrura XIV

Page 373: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

180

Rapadura XIV

Secura XIV

Tintura XIV

Verdura XIV

Armadura 1344

Formosura 1344

Século XV

Palavra Datação

Censura 1402

Agrura XV

Baixura XV

Cultura XV

Desenvoltura XV

Doçura XV

Estatura XV

Fundura XV

Investidura XV

Juntura XV

Largura XV

Picadura XV

Queimadura XV

Semeadura XV

Varredura XV

Page 374: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

181

Século XVI

Palavra Datação

Assinatura 1504

Apertura 1516

Abreviatura 1536

Frescura 1543

Curvatura 1560

Arquitetura 1561

Dobradura 1562

Ditadura 1563

Rachadura XVI

Ternura XVI

Século XVII

Palavra Datação

Temperatura XVII

Tenrura XVII

Candura 1614

Licenciatura 1654

Embocadura 1673

Textura 1691

Dentadura 1697

Formatura 1697

Século XVIII

Palavra Datação

Advocatura 1712

Page 375: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

182

Tesura 1721

Magistratura 1760

Legislatura 1770

Nervura 1788

Benzedura 1789

Partitura 1789

Século XIX

Palavra Datação

Brochura 1820

Candidatura 1858

Envergadura 1844

Finura XIX

Fritura 1836

Gastura XIX

Lonjura XIX

Tessitura XIX

Tontura 1836

Século XX

Palavra Datação

Feiura 1918

Gostosura 1918

Fofura 1994

Belezura XX

Laqueadura XX

Page 376: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

183

ANEXO V

Separação dos vocábulos por função nominalizadora.

Nominalização Referenciação Abstratização Intensificação

Benzedura Abertura Agrura Apertura

Censura Abotoadura Altura Baixura

Embocadura Abreviatura Alvura Belezura

Envoltura Advocatura Amargura Chatura

Investidura Andadura Brancura Fartura

Ligadura Armadura Brandura Feiura

Rapadura Arquitetura Bravura Fofura

Semeadura Assadura Candura Frescura

Soltura Assinatura Desenvoltura Fundura

Varredura Atadura Doçura Gastura

Brochura Envergadura Juntura

Candidatura Espessura Longura

Cavalgadura Estatura Lonjura

Cintura Finura Negrura

Cobertura Formosura Quentura

Criatura Gordura Secura

Cultura Grossura

Curvatura Largura

Dentadura Loucura

Ditadura Nervura

Dobradura Postura

Escritura Ternura

Fechadura Tesura

Page 377: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

184

Feitura Tontura

Ferradura Verdura

Fervura Tenrura

Formatura

Fratura

Fritura

Laqueadura

Legislatura

Licenciatura

Magistratura

Mordedura

Partitura

Picadura

Pintura

Queimadura

Rachadura

Sepultura

Temperatura

Tessitura

Textura

Tintura

Travessura

Page 378: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

185

ANEXO VI

Textos utilizados na constituição do corpus histórico retirados do

CorpusdoPorguês.org.

TEXTO DATAÇÃO

A demanda do Santo Graal XV

Adonias Aguiar – Corpo Vivo 1962

Afonso X – Primeira Partida 1300

Aluísio de Azevedo – O Mulato 1881

Angela Abreu – Santa Sofia 1997

António Nunes Ribeiro Sanches – cartas sobre a educação da

mocidade

1760

Aquilino Ribeiro – Terras do Demo 1919

Artur Azevedo – A capital Federal XX

Bento Pereira – Prosodia 1697

Bento Pereira – Tesouro da Língua Portuguesa 1697

Boosco Deleitoso 1400-1451

Cecília Meireles – Olhinhos de gato 1939

Crónica da Ordem dos Frades Menores 1209-1285

Crónica do Conde D. Pedro de Meneses 1400-1500

Crónica Geral de Espanha de 1344 1344

Cronica Troyana 1388

Eça de Queirós – O Crime do Padre Amaro 1875

Eça de Queirós – O Primo Basílio XIX

Eça de Queirós – Os Maias 1888

Eça de Queirós– A ilustre casa de Ramires 1900

Emílio de Menezes – prosa de circunstância XIX

Page 379: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

186

Érico Veríssimo – O tempo e o vento 1961

Euclides da Cunha – Peru versus Bolívia XIX

Euclides da Cunha – Sertões 1902

Fernão Lopes – Crónica de Dom Fernando XV

Fialho de Almeida – Gatos XIX

FOLHA:10064:SEC:des 1994

FOLHA:11348:SEC:soc 1994

Francisco Costa – cárcere invisível 1972

Francisco de Holanda – Da pintura antiga 1561

Francisco J. C. Dantas – Cartilha do Silêncio 1997

Francisco Rodrigues Lobo – Côrte na Aldeia e Noites de Inverno 1607

Frei Tomé de Jesus – Trabalhos de Jesus 1529-1582

Fróis – História do Japam 1 1560-1580

Garcia de Resende – Cancioneiro de Resende 1516

Garcia de Resende – Vida e feitos d’el-rey Dom João Segundo 1533

Gonçalo Fernandes Trancoso – Proveito 1517-1594

Gonçalo Garcia de Santa Maria - Euangelhos e epistolas con

suas exposições en romãce

1497

Jerónimo Cardoso – Dicionário Portugues Latim 1562

João de Barros – Gramática da Língua Portuguesa 1540

José de Alencar – Til XIX

José Pixote Louzeiro – Infância dos Mortos 1977

Joyce Cavalcante – Inimigas íntimas 1993

Lídia Jorge – Antonio XX

Lima Barreto – Cemitério dos vivos 1881

Livro de vita Christi 1446

Lucena - Historia da vida do Padre S. Francisco Xavier 1600

Machado de Assis – Dom Casmurro 1899

Machado de Assis – Esaú e Jacó 1904

Manoel de Oliveira Paiva – Dona Guidinha do Poço XIX

Notários – inquisições manuelinas XVI

Page 380: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

187

Paulo de Carvalho-Neto – Suomi 1986

Pedro Taques de Almeida Paes Leme - Nobiliarquia paulistana

histórica e genealógica

1770

Pinheiro Landim 1997

Posturas do Conselho de Lisboa 1360

Rafael Bluteau – Vocabulario portuguez e latino 1712-1721

Rui de Pina – Crónica de Dom Duarte XV

Sílvio Benfica XX

Soror Maria do Céu – Aves Ilustrados 1738

Textos Notariais. Clíticos na História do Português 1304

Textos Notariais. Clíticos na História do Português 1402-1499

Textos Notariais. Documentos Notariais dos Séculos XII a XVI. 1200-1300

Textos Notariais. Documentos Notariais dos Séculos XII a XVI. 1300-1400

Textos Notariais. História do galego-português 1301-1399

Tomaz de Figueiredo – A Gata Borralheira 1954

Tratado da Cozinha Portuguesa 1400

Vida e feitos de Júlio Cesar 1400-1500

Xambioá: Guerrilha no Araguaia – Cabral, Pedro Corrêa 1993

Page 381: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

188

ANEXO VII

EXPERIMENTO Sexo: ( ) M ( ) F Idade: ______ Período: ______ Neste experimento, estamos interessados em compreender as suas intuições, como falante nativo da língua portuguesa, sobre a aceitabilidade de alguns itens. Avalie as palavras a seguir atribuindo um valor de 1 a 3: da mais conhecida (1) à palavra menos recorrente (3). Sinta-se livre para usar qualquer valor da escala, escrevendo o número na linha abaixo de cada palavra. Mas não leve muito tempo pensando; marque os itens de acordo com a sua primeira impressão. Obrigado pela colaboração!

1) Twitação Twitamento Twitura

2) Bateção Batimento Batidura

3) Estudação Estudamento Estudadura

4) Zapeação Zapeamento Zapeadura

5) Cortação Cortamento Cortadura

6) Deletação Deletamento Deletura

1------------------------------------------------------ 3 ---------------------------------------------------5 | | | não aceitável aceitável plenamente aceitável

Page 382: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

189

ANEXO VIII

Pequeno corpus com os outros afixos utilizados na comparação

Sufixo –mento

Palavra Categoria da base

Emagrecimento Verbo

Fechamento Verbo

Afastamento Verbo

Saneamento Verbo

Atropelamento Verbo

Firmamento Verbo

Comportamento Verbo

Sofrimento Verbo

Casamento Verbo

Crescimento Verbo

Sufixo -ção

Palavra Categoria da base

Animação Verbo

Oração Verbo

Invenção Verbo

Cotação Verbo

Medição Verbo

Competição Verbo

Terminação Verbo

Intensificação Verbo

Page 383: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

190

Nominalização Verbo

Abstratização Verbo

Sufixo –agem

Palavra Categoria da base

Barragem Verbo

Drenagem Verbo

Aprendizagem Verbo

Filmagem Verbo

Decolagem Verbo

Folhagem Substantivo

Pastagem Verbo

Molecagem Substantivo

Criadagem Substantivo

Malandragem Adjetivo

Sufixo –ice

Palavra Categoria da base

Burrice Adjetivo

Chatice Adjetivo

Idiotice Adjetivo

Velhice Adjetivo

Gordice Adjetivo

Babaquice Adjetivo

Tontice Adjetivo

Meninice Substantivo

Tolice Adjetivo

Canalhice Adjetivo

Page 384: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

191

Sufixo –eza

Palavra Categoria da base

Magreza Adjetivo

Avareza Adjetivo

Riqueza Adjetivo

Beleza Adjetivo

Esperteza Adjetivo

Tristeza Adjetivo

Dureza Adjetivo

Malvadeza Adjetivo

Frieza Adjetivo

Moleza Adjetivo

Sufixo –ão

Palavra Categoria da base

Mulherão Substantivo

Lonjão Advérbio

Solzão Substantivo

Carrão Substantivo

Filhão Substantivo

Cabeção Substantivo

Fortão Adjetivo

Festão Substantivo

Gordão Adjetivo

Chatão Adjetivo

Sufixo –inho

Palavra Categoria da base

Mulherzinha Substantivo

Page 385: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

192

Filminho Substantivo

Cafezinho Substantivo

Carrinho Substantivo

Garotinho Substantivo

Fofinho Adjetivo

Lindinho Adjetivo

Pertinho Advérbio

Doidinho Adjetivo

Mortinho Substantivo

Sufixo –oso

Palavra Categoria da base

Saboroso Adjetivo

Feioso Adjetivo

Gostoso Adjetivo

Meloso Adjetivo

Jeitoso Adjetivo

Carinhoso Adjetivo

Danoso Adjetivo

Perigoso Adjetivo

Famoso Adjetivo

Maldoso Adjetivo

Sufixo –udo

Palavra Categoria da base

Narigudo Substantivo

Barrigudo Substantivo

Peitudo Substantivo

Bundudo Substantivo

Page 386: LOUCURA, LOUCURA, LOUCURA!: UMA ANÁLISE PELA

193

Orelhudo Substantivo

Bicudo Substantivo

Peludo Substantivo

Barbudo Substantivo

Carnudo Substantivo

Pontudo Substantivo

Sufixo –ção intensificador

Palavra Categoria da base

Falação Verbo

Pegação Verbo

Beijação Verbo

Bebeção Verbo

Forçação Verbo

Colação Verbo

Mordeção Verbo

Começão Verbo

Compração Verbo

Ficação Verbo