Luis Carlos Santos Simon - ?· também Carlos Drummond de Andrade. Nestas situações é prefe-rível…

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IMPASSES EM TORNO DA CRNICA

LUIZ CARLOS SANTOS SIMON (UELONDRINA)

RESUMO:

Um trabalho mais efetivo com a crnica em salas de aula

da graduao e da ps-graduao revela condies curiosas. Em-

bora ela seja identificada muitas vezes como gnero menor, como

um texto que propicia leitura agradvel a partir de uma linguagem

simples, sua sistematizao esbarra em questes complexas: co-

mo definir a crnica, como diferenci-la do conto, como reconhe-

cer sua literalidade, como se referir ao eu que ali se manifesta

so alguns dos desafios que atravessam o caminho do estudo do

gnero, seja na pesquisa seja na sala de aula.

Tais questionamentos adquirem relevo em virtude da pr-

tica de graduandos e ps-graduandos na situao de estagirios ou

professores do ensino fundamental e mdio e tambm de suas

prprias experincias como estudantes de quaisquer nveis em

que se sobressaem tendncias a estabelecer limites ntidos para

definio e classificao de textos literrios e a supervalorizar a

terminologia no trato com a literatura. Assim, o objetivo deste

trabalho contribuir para a diminuio dos impasses relativos ao

estudo da crnica, sem sacrificar seu carter heterogneo nem

alimentar hbitos simplistas na aprendizagem.

O referencial terico composto por material produzido

por crticos que j se propuseram a teorizar sobre a crnica: Afr-

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nio Coutinho, Antonio Candido, Davi Arrigucci Jr., Eduardo Por-

tella, Massaud Moiss, entre outros. Pretende-se, ainda, atravs de

aluses a determinadas crnicas, tornar mais concretas as poss-

veis sadas para a problematizao do fenmeno.

O lugar da crnica nos estudos literrios e nas prticas pe-

daggicas referentes ao ensino de Portugus e Literatura marca-

do, em diversas situaes, por desencontros. Se a crnica aparece

com freqncia em livros didticos, especialmente aqueles dirigi-

dos ao aluno do Ensino Fundamental, tambm evidente seu

baixo prestgio nos currculos dos cursos de Letras, sobretudo se

houver uma comparao entre o destaque conferido crnica e o

foco mais privilegiado que se destina ao poema, ao romance e

mesmo ao conto. Tambm nos estudos literrios a questo signi-

ficativa: embora ainda se encontrem avaliaes negativas sobre o

gnero e se constate a escassez de estudos que assumam o papel

analtico da produo dos cronistas, no mbito da teorizao, o

elenco de pesquisadores altamente respeitvel. Podem ser cita-

dos aqui nomes com grande projeo: Afrnio Coutinho, Antonio

Candido, Eduardo Portella, Massaud Moiss e Davi Arrigucci

Jnior. Isto sem mencionar vrios outros nomes de estudiosos

que, mais recentemente, tm se debruado sobre este objeto de

pesquisa. As conseqncias deste descompasso materializam-se,

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de forma mais ntida, na prtica, seja na prtica cientfica seja na

prtica pedaggica. Assim, passo a uma auto-apresentao no que

se refere a meu lugar e papel particulares diante destas prticas,

com o intuito de expor com maior preciso os impasses observa-

dos.

Sou professor do Ensino Superior, com dedicao exclusi-

va desde 1995, atuando nas reas de Teoria da Literatura e Litera-

tura Brasileira. Antes disso, exerci, intensamente, durante sete

anos, o magistrio no Ensino Fundamental e Mdio, nas Redes

Pblica e Particular; em ambas no matutino, no vespertino e no

noturno. A partir de 1999, comecei a me interessar pela crnica,

incluindo-a de forma mais destacada em projetos de pesquisa e

nas aulas de Graduao e de Ps-Graduao (lato e stricto sensu).

De 1999 at 2005, ministrei, em todos os anos, a disciplina de

Literatura Brasileira para alunos da quarta srie do curso de Le-

tras, isto , estudantes que estavam na ocasio obrigatoriamente

envolvidos tambm com o estgio no magistrio. Esta circunstn-

cia, acredito, contribui para acentuar meu papel de professor e

desfazer qualquer eventual suspeita de que minha relao com os

alunos se construa exclusiva ou principalmente pela condio de

pesquisador. No era nem possvel que um professor, naquela

situao, se desligasse das questes didticas referentes a nveis

de ensino, como o fundamental e o mdio, ainda que sua insero

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no fosse direta em disciplinas como Metodologia e Prtica de

Ensino de Portugus ou no Estgio Supervisionado.

Tais experincias fizeram vir tona muitos questionamen-

tos no que diz respeito s particularidades da crnica, as suas

articulaes com o conjunto de manifestaes literrias em geral e

as suas semelhanas com o conto especificamente.

Constantemente, surgiam dvidas quanto a podermos atri-

buir literariedade a determinadas crnicas, quanto aos critrios

para reconhecermos um texto como crnica, quanto adequao

de uma definio geral para o gnero, quanto ao estabelecimento

de fronteiras entre o conto e a crnica (afinal, por que um deter-

minado texto era chamado de crnica e no de conto?) e quanto

ao uso da terminologia dos estudos literrios e narrativos (seria

apropriado, por exemplo, falar em narrador e personagem em

alguns daqueles textos?) para nomear certas categorias localiza-

das no interior das crnicas.

Manifestar estas dvidas era decorrncia da inquietao dos

alunos, de sua curiosidade, de seu desejo de aprender mais, de

enfrentar desafios, mas tambm era produto de uma aprendiza-

gem caracterizada pelo apego excessivo a classificaes, nomen-

claturas e estabelecimento de fronteiras rgidas entre coisas apa-

rentemente muito diferentes que, no entanto, no o so. No se

pode ignorar que aqueles alunos (concluintes da graduao em

Letras, portanto, no mnimo estagirios, e ps-graduandos) j

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mantinham contato prximo com a sala de aula, nos diversos

nveis de ensino, se defrontando, por sua vez, com o instinto clas-

sificatrio de seus prprios alunos. Alm disso, cabe salientar que

os muitos anos de escolarizao destes alunos/professores talvez

no tivessem sido suficientes ainda para libert-los de suas expe-

rincias de aprendizagem que elegem a terminologia correta como

a grande meta. Observemos, portanto, como a pesquisa pode con-

tribuir para que se enfrente com mais vigor o desafio de trabalhar

com a crnica.

O fato de ser a notcia um mote indiscutvel para as crni-

cas, encarado aqui como um pressuposto tcito, no deve nos

afastar da verificao de outros possveis pontos de partida que

impulsionam os cronistas. Alis, logo de incio, preciso lembrar

o ttulo de um livro de crnicas de Carlos Drummond de Andrade

(1993): De notcias e no-notcias faz-se a crnica. mesmo

previsvel que algumas crnicas se desenvolvam tendo como base

uma notcia, pois o jornal sobrevive da informao recente e ain-

da como constata o professor Vzquez Medel (2002, p. 15): as

figuras do escritor e do jornalista (...) s vezes coincidem com a

mesma pessoa.. Portanto, uma familiaridade entre a crnica e seu

veculo no deve causar qualquer estranheza. Mesmo assim, a

diversidade dos textos que recebem o nome de crnica exige o

esclarecimento sobre a ocorrncia de outros motes alm da not-

cia.

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Cabe ressaltar, quanto a este ponto, que muitas crnicas se

distanciam desta estrutura bastante representativa do gnero, isto

, a ligao ntima com a notcia. Por vezes a direo outra,

caracterizada pelo comentrio de fatos ou pela exposio de idi-

as e/ou sentimentos. So textos que se identificam com a nfase

narrativa dos contos, como grande parte da produo de Fernando

Sabino, Stanislaw Ponte Preta e Luis Fernando Verissimo, por

vezes ainda privilegiando o dilogo, como diversas vezes fez

tambm Carlos Drummond de Andrade. Nestas situaes prefe-

rvel no se falar em mote, seja pela dificuldade de localizar um

ponto de partida explcito para o restante do texto seja pelo risco

de escolher um diagnstico pouco adequado, uma vez que pre-

domina o carter ficcional, sendo, portanto, inconveniente propor

correlaes com a realidade e assim deslizar para equvocos como

inteno do autor. A crnica que recorre com intensidade ou ex-

clusividade ao componente fictcio se diferencia daquela em que

sobressai um eu disposto a confessar suas motivaes. No se

trata de confundir esta primeira pessoa que se manifesta no texto

a quem nos referimos como eu do cronista com a figura real

do autor, embora esta associao seja at possvel por algumas

marcas textuais; nem o caso de interpretar as motivaes ex-

pressas como experincias autnticas. De qualquer modo, as not-

cias e demais eventos ou situaes que identificamos como motes

de crnicas so referidos naquelas modalidades mais prximas

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dos comentrios e esto ausentes das crnicas mais inclinadas

para o ficcional.

Um autor central para proporcionar a avaliao da crnica,

no sculo XX, Rubem Braga. Vejamos a princpio como o crti-

co literrio Davi Arrigucci Jnior (1987, p. 49) se refere ao cro-

nista capixaba: (...) a sensibilidade de Braga para a poesia das

coisas que se perdem parece ter-se aguado no trato profundo