Mist©rios da Pscoa

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    Mistrios da Pscoa em Idanha, 2010

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    Mistrios da Pscoa em IdanhaQuando se refere que na quaresma no se danava, no se ouviam cantos profanos,

    que era tempo de trevas, de orao e de penitncia, de jejum e de abstinncia,

    muitos dos mais novos pensam que tais vivncias ocorriam j l vo sculos.

    Ora acontece que sempre que nos dirigimos em trabalho de recolha a qualquer das

    povoaes do territrio do Concelho de Idanha-a-Nova, marcadas pela ruralidade e

    doce paz, arrumadas no seu casario, constatamos que h o grupo das pessoas das

    mais idosas, a maioria, iletradas, que sabem de cor muitos dos cantos quaresmais

    e pascais. A razo simples, pois, no tempo em que se criaram, quando chegava a

    quaresma, nesses precisos quarenta dias, desde quarta-feira de cinzas at Sbado

    de Aleluia, no se cantavam outros cantos que no fossem os do tempo quaresmal,

    quer enquanto realizavam as lidas do dia-a-dia em ambiente familiar, quer nas

    fainas do campo. Era hbito cantar no colectivo, nomeadamente nas mondas e

    nas sachas, quando trabalhavam para os senhores das terras e do poder local.

    um prazer profundo que nos invade ao ver-lhes estampado no rosto, lavrado de mil

    e uma rugas, um sorriso escancarado, uma alegria imensa, sempre que recordam

    esses tempos quaresmais e pascais de meninas e moas. No se cansam de nos

    narrar episdios do quotidiano, alguns brejeiros, que ocorriam enquanto se dirigiam

    ou vinham dos campos, enquanto mondavam ou sachavam ou at em momentos

    de paragem para comerem o naco de po e o escasso conduto trazidos na cesta que

    transportavam cabea em cima da multicolorida e redonda rodilha de trapos.

    Corridos os riscos da desertificao e do envelhecimento da populao, alis

    comum a todo o interior de Portugal, devido ao isolamento de sculos e graas

    aco evangelizadora dos Templrios, dos Conventos Franciscanos de Nossa

    Senhora da Consolao, em Monfortinho, e de Santo Antnio em Idanha-a-Nova,

    graas ao empenhamento e esmero de uma mo cheia de lderes que a todo custo

    procuram preservar manifestaes da religiosidade popular em lugares ao ar

    livre, fora do sagrado colectivo, graas s nove Irmandades das Santas Casas da

    Misericrdia e aco dos Procos, nomeadamente dos actuais que serenamente

    sabem respeitar, valorizar e sublimar luz do Conclio Vaticano II, a religiosidade das

    nossas gentes, actualmente, no existe no nosso Pas, o Estado-Nao mais antigo

    da Europa, outro Concelho, como o de Idanha-a-Nova que, como encantamento

    de lindas mouras encantadas em barrocais, preserve, no se sabendo por quanto

    Monfortinho Santos Passos

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    A Encomendao das AlmasDesde a profundeza dos sculos, no dizer de Mircea Eliade, credenciado estudioso e investigador das religies primitivas, que o culto dos mortos sempre esteve ligado a cultos agrrios. Passado o Inverno, as sementes enterradas germinam com a Primavera. Nas primitivas religies, rogava-se s almas dos antepassados, para que a germinao fosse fecunda. Assente em cultos pagos em que os lugares altos eram os eleitos, desde a Alta Idade Mdia, que o culto dos mortos celebrado em Portugal com o fim de pedir a intercesso de Deus a favor das almas sujeitas s penas do Purgatrio, para que possam alcanar o Cu. geralmente durante o tempo quaresmal, tempo do renascer das plantas, que homens e mulheres do mundo rural ainda continuam, no silncio da noite, embora em nmero reduzido de povoaes, dando vida aos cantos populares s Almas do Purgatrio, denominados o Amentar ou Ementar as Almas ou Encomendar as Almas, nos stios altos das povoaes do interior do Pas, sobretudo desde Trs-os-Montes at Beira Baixa. Os homens de gabo e as mulheres de xailes negros pela cabea, cientes que esto da relevncia da orao para que as almas do Purgatrio alcancem o Cu, rezam cantando a Encomendao das Almas, em algumas das localidades, especialmente nas sextas-feiras da quaresma. O grupo noctvago, na maioria dos casos, constitudo por encomendadores e encomendadoras, no mais sepulcral silncio, em muitas das noites frias, dirige-se pela calada da noite, aos lugares altos, como acima referimos, e por vezes at s encruzilhadas dos caminhos e junto dos nichos das alminhas, com imagens e legendas piedosas, onde entoam melodias nos arcaicos modos gregorianos que impressionam a alma dos que as ouvem, sejam agnsticos ou crentes. Evocando tempos decorridos na ltima dcada do sculo XIX, passamos a citar o que ento A. Alfredo Alves refere quanto ao encomendar das almas, na airosa Aldeia de Santa Margarida:

    mais tempo, to elevado nmero de sagradas e ancestrais tradies intimamente

    ligadas ao calendrio agrcola e ao ciclo das fecundidades, nomeadamente as da

    celebrao da primavera, do vital renascimento, integradas pela religio crist, no

    ciclo quaresmal e pascal. Estas, pela sua pureza e ingenuidade parecem condensar

    na alma lusa os profundos sentimentos espelhados nas crenas, ritos, rituais e

    nas devoes milenrias, semeadas de segredos das suas esperanas e dos seus

    anseios sempre que no firmamento se fazem ecoar em cantos de sabor e melodia

    medievais, bebidos em velhos cancioneiros e rezas caldeadas no cadinho dos

    sculos e transmitidas oralmente de gerao em gerao.

    Neste mundo que parece avassalado pelo desnorte, pela intranquilidade e

    perplexidade, aceite o convite para assistir fora da identidade das gentes das

    terras das Idanhas, participando nas suas vivncias comunitrias, jias do nosso

    patrimnio cultural imaterial e oral, em que se espelham tradies quaresmais

    e pascais, que permitem retemperar as foras e avigorar o esprito no s aos

    inmeros naturais residentes dentro ou fora do Pas, mas tambm aos visitantes,

    nacionais e estrangeiros, cujo nmero cresce de ano para ano.

    Alcafozes Encomendao das Almas

    S. Miguel d Acha Encomendao das Almas

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    Em certos dias da quaresma, especialmente, na Semana Santa, percorrem as ruas, a altas horas da noite, alguns indivduos, encomendando as almas.Chegam a qualquer largo, param, tocam uma campainha, e em seguida cantam em estylo plangente:

    almas que estaes dormindo Nesse somno to profundo, Lembrae-vos que podeis estar Amanh no outro mundo.

    Um dos encomendadores pede vrios padre-nossos, pelos que andam sobre as goas do mar,pelos parentes de cada um, etc. (1)A respeito do povo lembrar os que andam sobre as guas do mar, tambm nos parece que est na origem de tal splica o que Jorge Dias e Margot Dias escreveram:O perodo dos descobrimentos acabou h muito, mas os portugueses continuaram sempre a sulcar os Oceanos para procurar noutras terras o po que o sobrepovoamento da sua tornava escasso. () Em todas as famlias houve durante sculos e ainda hoje os h, lutos, incertezas, filhos e pais ausentes, por cujas almas em perigo preciso velar. () foram concerteza esses sculos da grande empresa dos descobrimentos e a enorme emigrao posterior que mantiveram a forma piedosa entre as gentes crentes das nossas aldeias.(2)Tambm, quanto Encomendao das Almas, na Beira Baixa, Jaime Lopes Dias refere:Em muitas localidades da Beira Baixa costumam algumas mulheres, em determinadas noites da Quaresma, subir ao campanrio da Igreja ou aos stios mais elevados das povoaes a encomendar as almas ou a cantar, em toada prpria, muito triste, versos que eu ouvi em Vale de Lobo (actualmente denominado Vale da Senhora da Pvoa) e em Idanha-a-Nova. (3) Num outro volume da Etnografia da Beira, Jaime Lopes Dias, num novo captulo intitulado o Encomendar as Almas, refere:Esta piedosa romagem infunde respeito e grava-se de forma indelvel no esprito daqueles que alguma vez a presenciaram ou escutaram. (4)Fernando Lopes Graa, conceituado etnomusiclogo, ao referir-se Encomendao das Almas, afirma:Vem depois pela Quaresma, aquelas impressionantes, s vezes terrficas mesmo, Encomendaes das Almas, ou Amentar das Almas, cantos nocturnos entoados nas encruzilhadas, em frente das edculas das alminhas, evidente reminiscncia do ancestral culto dos mortos, e que constituem um dos aspectos porventura mais curiosos do nosso folclore religioso ()(5)Temos conhecimento que, aquando nos anos 60 do sculo passado, fervilhava um ambiente de contestao poltica nacional vigente, havia quem defendesse que no deveria apresentar-se msica religiosa nos concertos do Coro da Academia de Amadores de Msica, sabiamente dirigido por Fernando Lopes Graa. Este credenciado investigador argumentava que na msica religiosa que se encontram alguns dos mais ricos testemunhos relativos identidade do povo portugus, desde

    AGENDA DOS MISTRIOS DA PSCOA EM IDANHAFEVEREIRO

    Quarta-feira de Cinzas Idanha-a-Nova

    8H00 Missa com cerimnia da imposio das cinzas9 Idanha-a-Nova

    Alcafozes

    Rosmaninhal

    Ladoeiro

    Penha Garcia

    S. Miguel dAcha

    Medelim

    Monfortinho

    8/ H00

    H00

    0H00

    H0

    0H0

    H00

    H00

    H0

    H00

    Ir ver Nosso Senhor Igreja da

    Misericrdia

    Encomendao das Almas

    Procisso Corrida

    Encomendao das Almas

    Procisso dos Homens

    Via-Sacra na Igreja Matriz

    Tero cantado pelos Homens

    Encomendao das Almas

    Martrios e Encomendao das Almas Proena-a-Velha 0H00 Ladainhas | Martrios do Senhor

    S. Miguel d Acha

    Penha Garcia

    H00

    H00

    Encomendao das Almas

    Via-sacra na Igreja Matriz

    Via-sacra na Igreja de S. Loureno

    Idanha-a-Nova H0 Via-sacra Igreja Matriz Idanha-a-Nova

    Medelim

    Alcafozes

    Rosmaninhal

    Ladoeiro

    Penha Garcia

    S. Miguel d Acha

    Termas de