monumento a Zumbi dos Palmares

Embed Size (px)

Text of monumento a Zumbi dos Palmares

  • ,. -

    ;;i

    ;;~I. 7

    r NOS ATALHOS DA MEMRIA

    Monumento a Zumbi

    MARIZA DE CARVALHO SOARES

    A negritude como problema

    O Monumento a Zumbi uma pea da imaginria da cidade doRio de Janeiro localizada no canteiro central de sua mais importantevia urbana, a avenida Presidente Vargas. Com um total de sete metrosde altura, o monumento tem uma base piramidal em alvenaria,revestida em mrmore branco e encimada por uma cabea masculinaconfeccionada com 800 quilos de bronze, reproduo de uma escul-tura que, com freqncia, tem sido citada pela literatura como exem-plo da arte africana.) De acordo com as normas tcnicas o Monu-

    Z bo d " b " -" , "2 O r dmento a um 1 trata-se e uma ca ea e nao estatua. rato eter sido escolhida uma cabea para representar Zumbi traz tona ahist6ria do heri homenageado. No ano de 1685, no atual Estado deAlagoas, Zumbi teria liderado at a morte a resistncia ltima evitoriosa investida da Coroa de Portugal contra o famoso Quilombode Palmares. Zumbi teria sido aprisionado e morto no dia 20 de no-vembro de 1695 e, conforme o costume da poca, o lder guerreiroteria tido a cabea cortada.3 Assim, o monumento representa, propo-sitadamente ou no, a cabea do her6i decapitado o

    O planejamento de qualquer pea de imaginria urbana coloca,de imediato, dois problemas: como representar materialmente o ob-jeto da homenagem e onde coloc-lo. A grande questo para todos ossegmentos envolvidos na construo do Monumento a Zumbi o lo-cal onde ele deve ser construdo, sendo aparentemente inexpressivaa preocupao com a representao de Zumbi e mesmo com a con-cepo do monumento propriamente.

    Logo de incio, possvel perceber que a construo do Monu-mento a Zumbi est estreitamente ligada ao crescimento de um novo

    117

  • quadro poltico partidrio no Estado do Rio de Janeiro. Em 1982, oPDT-Partido Democrtico Trabalhista ganha as eleies para o gover- !no do Estado. Esta vit6ria altera profundamente as relaes entre oMovimento Negro4 e o governo do Estado. O PDT rene, ao longo de isua campanha, grande parte das lideranas e da pr6pria militncia Ido Movimento Negro em tomo da candidatura de Leonel Brizola.Eleito governador, Leonel Brizola cumpre seu compromisso de cam-panha colocando vrias dessas lideranas em cargos importantes deseu governo.

    Uma questo a ser abordada preliminarmente diz respeito aocuidado de, seguindo o conselho de Marc Bloch, procurar explicitar"Como pude apurar o que vou dizer?".5 Procedi localizao e an-lise de um conjunto de fontes que permitisse no apenas analisar omonumento, mas tambm rastrear esse novo quadro no qual a inicia-tiva se insere. Optei ento pela realizao de um levantamento dejornais da grande imprensa e da imprensa ligada ao Movimento Ne-gro, no perodo de 1982, quando lanada a primeira proposta deconstruo de um Monumento a Zumbi, at a finalizaao da obra em1986, perodo que corresponde, no aleatoriamente, aos quatro anosde governo de Leonel Brizola.

    Os jornais ligados aos vrios segmentos do Movimento Negr06enfocam seu crescimento interno, seja a nvel local, nacional oumesmo internacional. Progressivamente o Movimento Negro constr6iuma relao. ntima entre o her6i morto e a comunidade representa-da. O Instituto de Pesquisa das Culturas Negras-IPCN, importanteentidade do Movimento Negro no Rio de Janeiro, com freqnciaassocia a luta do Movimento dos quilombolas coloniais. Em 1977,o Boletim do IPCN faz uma homenagem ao 2810 aniversrio da mortede Zumbi. Em artigo assinado pela historiadora negra Beatriz Nasci-mento, a luta de Palmares descrita como "uma guerra de exterm-nio da raa" que, apesar disso continua viva atravs dos "irmos deraa" do her6i decapitado que, segundo o texto, "continuaram du-rante os sculos posteriores da hist6ria do Brasil seguindo o exemplode Zumbi: organizando quilombos."7 Zumbi o ancestral negro, sm-bolo da raa e da liberdade, at hoje por conquistar.

    I,

    I 118

  • , -,

    o desinteresse do Movimento Negro pela reflexo sobre a inser-

    o de alguns segmentos de sua militncia em outras formas de par-

    t ticipao social, que no as traadas no seu prprio interior, acarretar um quase absoluto silncio desta imprensa em relao s novas arti-'I culaes entre o Movimento e o governo do Estado. A grande impren-

    sa, diferena da primeira, d destaque ao tema. A leitura cuidadosa

    desses peridicos8 me permitiu perceber que a grande imprensa da~ cidade do Rio de Janeiro sensvel a esta nova realidade. Em mea-i dos dos anos 80, Zumbi j aparece na grande imprensa como smbolo

    da raa e associado festa. Este novo discurso vem pblico no

    cenrio da cidade atravs das comemoraes do dia 20 de novembro

    de 1984. Nesta data comemorado o Dia Nacional da Conscincia

    Negra com o "Kizomba", um grande show organizado pelo composi-

    tor negro M'artinho da Vila, na Praa da Apoteose.9 Na ocasio, a

    revista Isto publica uma reportagem sob a rubrica "negritude" como seguinte ttulo: "No brilho da cor. Festas no Rio e So Paulo cele-

    bram Zumbi". O texto diz:

    Esquecido pela histria oficial, Zumbi foi redescoberto pela negritudenacional h cerca de dez anos, tornando-se seu verdadeiro smbolo. No-vembro passou a ser o ms dos festejos da comunidade afro-brasileira.lo

    r Entre as lideranas do Movimento Negro citadas esto artistas eparlamentares. Embora "esquecido pela histria oficial", Zumbi lembrado pela grande imprensa e pelo PDT, partido que busca nas. lil camadas mais. baixas da popula~o cario,ca. sua base eleitoral. Ao i

    l i!lembrar ZUmbI - e numa operaao metommIca todos os negros - o I:governo do Estado marca, a partir de 1984, sua presena nas come-

    t moraes do 20 de novembro. Segundo O Globo, a solenidade de[ abertura das comemoraes daquele ano conta com a presena do

    Prefeito Marcelo Alencar (PDT), representando o governador Leonel

    Brizola (PDT). Esto tambm presentes os deputados Abdias Nasci-mento e Jos Miguel, o secretrio estadual de trabalho e habitao

    Carlos Alberto de Oliveira (conhecido como Ca), os atores Milton

    Gonalves e Jacira Silva, os cantores Martinho da Vila e Eliana

    Pitman e o Juiz de Direito Gilberto Fernandes, todos negros com

    insero scio-poltica e profissional de destaque dentro e fora dombito dos movimentos sociais.

    119

  • A constatao de que, desde 1984, a grande imprensa vem apon-tando o crescimento do que vou aqui chamar de um "discurso danegritude" me levou a optar por trabalhar basicamente com essesperidicos, recorrendo apenas pontualmente s demais fontes. A an-lise do material recolhido procura privilegiar as aes do governo doEstado com vistas construo do Monumento a Zumbi. Ao procurarseguir esse caminho tenho em mente o dilogo que seus representan-tes estabelecem com o Movimento Negro. Meu objetivo pensarcomo, ao longo dos anos, o monumento no apenas toma forma mate-rial, mas passa a expressar as vrias falas que se escondem por trsde um aparentemente consensual "discurso da negritude".

    Cheguei ento a perceber a existncia de trs lugares a partirdos quais essas falas so proferidas: o governo do Estado, o Movi-mento Negro e a grande imprensa. A anlise da fala do MovimentoNegro j de incio mostrou-se pouco proveitosa. O importante, nocaso, perceber o silncio dos seus rgos de imprensa em relaoao tema. Impunha-se, indiscutivelmente, ouvir com mais ateno afala do governo do Estado atravs do responsvel pela concepo domonumento, o professor Darcy Ribeiro. Eleito vice-governador doEstado na chapa de Leonel Brizola, ele tambm secretrio de cul-tura e articulador da poltica cultural e artstica do Estado. Mas, seDarcy Ribeiro emerge como personagem principal desta histria, porque a grande imprensa aponta para ele. Assim, a grande imprensaaparece aqui como fonte, mas tambm como lugar a partir de onde sefala. No aparente caos que se apresenta, no conjunto de conflitos ealianas, silncios e interlocues entre o Estado e os vrios segmen-tos do Movimento Negro, ela no apenas repassa notcias, mas temuma fala prpria que tambm precisa ser ouvida.

    Identificadas as falas e seus agentes procurei perceber comocada um se apropria!! do chamado "discurso da negritude". A apro-priao se d a partir de trs vertentes principais: a primeira, a ver-tente das origens, da busca das razes, da raa, do passado africanoe da escravido; a segunda, a vertente da festa, expressa no samba enas manifestaes religiosas ditas afro-brasileiras; a terceira, a ver-tente da luta pelos direitos civis e sociais, marcada pelo debate daliberdade, da igualdade e contra a discriminao. A primeira e a

    120

  • ~t~r

    segunda esto presentes nas trs falas. A terceira, embora pouco vei-culada pela grande imprensa, est presente na fala dos militantes doMovimento Negro e tambm dos parlamentares e polticos de modo

    geral. dentro deste quadro que, j em 1982, aparece na grande im-

    prensa a primeira meno construo de um monumento a Zumbi.Ao longo dos trs anos seguintes surgem ao todo trs propostas. Aprimeira vem de um segmento do Movimento Negro (1982); a segun- ida de um deputado estadual negro (1983); e a terceira do ento vice-governador, o antroplogo Darcy Ribeiro (1986). O monumento quecomea a ser concebido nos idos de 1982 toma forma em 1986. Aanlise das trs propostas permite entender como, ao longo deste I 'tempo, se cruzam diferentes personagens, interesses e principalmen- ite falas em relao ao negro. '

    Meu objetivo, nos limites deste artigo, fazer uma anlise decomo a atuao do governo do Estado em relao ao negro susten-tada pelo que estou chamando "discurso da negritude". Esse discur-so se entrelaa com um conjunto diferenciado de prticas sociais,levando a uma iluso de homogeneidade e consistncia tanto ao n- : i Ivel do discurso quanto das prticas a ele associadas. A anlise da I ,

    construo do Monumento a Zumbi aqui desenvolvida no sentidode demonstrar como e