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Os Botões de Napoleão - As 17 moléculas que mudaram a história - Penny Le Couter.pdf

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  • PENNY LE COUTEUR e JAY BURRESON

    OS BOTES deNAPOLEOAS 17 MOLCULAS QUEMUDARAM A HISTRIA

    Traduo:Maria Luiza X. de A. Borges

  • Para nossas famlias

  • Sumrio

    Introduo1 Pimenta, noz-moscada e cravo-da-ndia2 cido ascrbico3 Glicose4 Celulose5 Compostos nitrados6 Seda e nylon7 Fenol8 Isopreno9 Corantes

    10 Remdios milagrosos11 A plula12 Molculas de bruxaria13 Morfina, nicotina e cafena14 cido oleico15 Sal16 Compostos clorocarbnicos17 Molculas versus malriaEplogoAgradecimentosCrditos das imagensBibliografia selecionadandice remissivo

  • Introduo

    Por falta de um cravo, perdeu-se a ferradura.Por falta de uma ferradura, perdeu-se o cavalo.Por falta de um cavalo, perdeu-se o cavaleiro.Por falta de um cavaleiro, perdeu-se a batalha.Por falta de uma batalha, perdeu-se o reino.Tudo por causa de um prego para ferradura.

    Antigo poema infantil ingls1

    Em junho de 1812, o exrcito de Napoleo reunia 600 mil homens. No incio de dezembro,contudo, a antes orgulhosa Grande Armada contava menos de dez mil. O que restava das forasdo imperador, em andrajos, havia cruzado o rio Berezina, perto de Borisov no oeste da Rssia,na longa marcha que se seguiu retirada de Moscou. Os soldados remanescentes enfrentaramfome, doena e um frio paralisante os mesmos inimigos que, tanto quanto o exrcito russo,haviam derrubado seus camaradas. Outros mais morreriam, malvestidos e mal equipados parasobreviver ao frio acerbo de um inverno russo.

    O fato de Napoleo ter batido em retirada de Moscou teve consequncias de longo alcancesobre o mapa da Europa. Em 1812, 90% da populao russa consistiam de servos, bens mercde proprietrios de terras, que os podiam comprar, vender ou negociar a seu talante, em umasituao mais prxima da escravatura do que jamais fora a servido na Europa Ocidental. Osprincpios e ideais da Revoluo Francesa de 1789-99 haviam acompanhado o exrcitoconquistador de Napoleo, demolindo a ordem medieval da sociedade, alterando fronteiraspolticas e fomentando a ideia de nacionalismo. Seu legado foi tambm prtico. Administraocivil geral e os cdigos jurdicos substituram os sistemas extremamente variados e confusos deleis, e introduziram-se regulamentos regionais, ao mesmo tempo que se introduziram novosconceitos de indivduo, famlia e direitos de propriedade. O sistema decimal de pesos e medidastornou-se a norma, em vez do caos de centenas de padres de medidas.

    Qual foi a causa da derrocada do maior exrcito que Napoleo comandou? Por que seussoldados, vitoriosos em batalhas anteriores, malograram na campanha russa? Uma das teoriasmais estranhas j propostas a esse respeito pode ser sintetizada com a parfrase de um antigopoema infantil: Tudo por causa de um boto. Por mais surpreendente que parea, adesintegrao do exrcito napolenico pode ser atribuda a algo to pequeno quanto um boto um boto de estanho, para sermos exatos, do tipo que fechava todas as roupas no exrcito, dossobretudos dos oficiais s calas e palets dos soldados de infantaria. Quando a temperatura cai,o reluzente estanho metlico comea a se tornar frivel e a se esboroar num p cinza e nometlico continua sendo estanho, mas com forma estrutural diferente. Teria acontecido issocom os botes de estanho do exrcito francs? Em Borisov, um observador descreveu o exrcitocomo uma multido de fantasmas vestidos com roupa de mulher, retalhos de tapete ousobretudos queimados e esburacados. Estavam os homens de Napoleo, quando os botes de

  • seus uniformes se desintegraram, to debilitados e glidos que no tinham mais condies deatuar como soldados? Ser que, falta de botes, passaram a ter de usar as mos para prender esegurar as roupas, e no mais para carregar as armas?

    A determinao da veracidade dessa teoria envolve muitos problemas. A doena do estanho,como se chamava o problema, era conhecida no norte da Europa havia sculos. Por que teriaNapoleo permitido o uso desses botes nas roupas de seus soldados, cuja prontido para abatalha considerava to importante? Ademais, a desintegrao do estanho um processorazoavelmente lento, mesmo a temperaturas to baixas quanto as do inverno russo de 1812. Mas ateoria rende uma boa histria, e os qumicos gostam de cit-la como uma razo cientfica para aderrota de Napoleo. E se houver alguma verdade na teoria do estanho, temos de nos perguntar:caso o estanho no tivesse se deteriorado com o frio, teriam os franceses conseguido levaradiante sua expanso rumo ao leste? Teria o povo russo se libertado do jugo da servido umsculo antes? A diferena entre a Europa Oriental e a Ocidental, que correspondeaproximadamente extenso do imprio de Napoleo um atestado de sua influncia duradoura, teria continuado patente at hoje?

    Ao longo da histria os metais foram decisivos na configurao dos acontecimentos humanos.Afora seu papel possivelmente apcrifo no caso dos botes de Napoleo, o estanho das minas daCornualha, no sul da Inglaterra, foi objeto de grande cobia por parte dos romanos e uma dasrazes da extenso do Imprio Romano at a Gr-Bretanha. Estima-se que, por volta de 1650, oscofres da Espanha e de Portugal haviam sido enriquecidos com 16 mil toneladas de prata dasminas do Novo Mundo, grande parte da qual seria usada no custeio de guerras na Europa. Aprocura do ouro e da prata teve imenso impacto na explorao e colonizao de muitas regies,bem como sobre o ambiente; por exemplo, as corridas do ouro que tiveram lugar, no sculo XIX,na Califrnia, Austrlia, frica do Sul, Nova Zelndia e no Klondike canadense contriburammuito para o desbravamento dessas regies. Assim tambm, nossa linguagem corrente contmmuitas palavras e expresses que evocam esse metal anos dourados, dourar a plula, nmeroureo, padro-ouro. pocas inteiras foram denominadas em aluso aos metais que nelas tiveramimportncia. Idade do Bronze, em que o bronze uma liga ou mistura de estanho e cobre foi usado na fabricao de armas e ferramentas, seguiu-se a Idade do Ferro, caracterizada pelafundio do ferro e o uso de implementos feitos com ele.

    Mas ser que somente metais como o estanho, o ouro e o ferro teriam moldado a histria? Osmetais so elementos, substncias que no podem ser decompostas em materiais mais simplespor reaes qumicas. Apenas 90 elementos ocorrem naturalmente, e minsculas quantidades demais ou menos uns 90 outros foram feitas pelo homem. Mas h cerca de sete milhes decompostos, substncias formadas a partir de dois ou mais elementos, quimicamente combinadosem propores fixas. Certamente deve haver compostos que tambm foram cruciais na histria,sem os quais o desenvolvimento da civilizao humana teria sido muito diferente, compostos quemudaram o curso dos eventos mundiais. Trata-se de uma ideia intrigante, e ela que constitui oprincipal tema unificador subjacente a todos os captulos deste livro.

    Quando consideramos alguns compostos comuns e no to comuns dessa perspectiva diferente,histrias fascinantes emergem. No Tratado de Breda, de 1667, os holandeses cederam sua nicapossesso na Amrica do Norte em troca da pequena ilha de Run, um atol nas ilhas de Banda,minsculo grupo nas Molucas (ou ilhas das Especiarias), a leste de Java, na Indonsia dos nossosdias. A outra nao signatria desse tratado, a Inglaterra, cedeu seu legtimo direito a Run cuja

  • nica riqueza eram os arvoredos de noz-moscada para ganhar direitos de posse sobre umoutro pequeno pedao de terra do outro lado do mundo, a ilha de Manhattan.

    Os holandeses haviam se apropriado de Manhattan pouco depois que Henry Hudson visitara area, em busca de uma passagem a noroeste para as ndias Orientais e as lendrias ilhas dasEspeciarias. Em 1664 o governador holands de Nova Amsterd, Peter Stuyvesant, foi forado aentregar a colnia aos ingleses. Protestos dos holandeses contra essa tomada e outrasreivindicaes territoriais mantiveram as duas naes em guerra durante quase trs anos. Asoberania inglesa sobre Run enfurecera os holandeses, que precisavam apenas dessa ilha paracompletar seu monoplio do comrcio da noz-moscada. Os holandeses, com longa histria decolonizao brutal, massacres e escravatura na regio, no estavam dispostos a permitir aosingleses manter um meio de penetrar nesse lucrativo comrcio de especiarias. Aps um cerco dequatro anos e muita luta sangrenta, os holandeses invadiram Run. Os ingleses retaliaram atacandoos navios da Companhia Holandesa das ndias Orientais, com suas valiosas cargas.

    Os holandeses quiseram uma compensao pela pirataria inglesa e a devoluo de NovaAmsterd; os ingleses exigiram pagamento pelas afrontas holandesas nas ndias Orientais e adevoluo de Run. Como nenhum dos dois lados se dispunha a voltar atrs nem tinha condiesde se proclamar vitorioso nas batalhas martimas, o Tratado de Breda proporcionou a ambos umasada digna do impasse. Os ingleses poderiam conservar Manhattan em troca da desistncia deseus direitos sobre Run. Os holandeses conservariam Run e no mais reivindicariam Manhattan.Quando a bandeira inglesa foi hasteada sobre Nova Amsterd (rebatizada Nova York), pareceuaos holandeses que eles haviam levado a melhor na negociao. Quase ningum conseguiaperceber a serventia de uma pequena colnia de cerca de mil almas no Novo Mundo quandocomparada com o imenso valor do comrcio da noz-moscada.

    Por que a noz-moscada era to valorizada? Da mesma maneira que outros condimentos, comoo cravo-da-ndia, a pimenta e a canela, era amplamente usada na Europa para temperar epreservar alimentos e tambm como remdio. Mas a noz-moscada tinha ainda um outro papel,mais valioso. Pensava-se que protegia contra a peste negra que, entre os sculos XIV e XV,assolava a Europa esporadicamente.

    Hoje sabemos, claro, que a peste negra era uma doena bacteriana transmitida por ratosinfectados por picadas de pulgas. Portanto, o uso de um saquinho com noz-moscada pendurado nopescoo para afastar a peste pode parecer apenas mais uma superstio medieval at queconsideremos a qumica dessa semente. Seu cheiro caracterstico deve-se ao isoeugenol. Asplantas desenvolvem compostos como o isoeugenol como pesticidas naturais, para se defender depredadores herbvoros, insetos e fungos. perfeitamente possvel que o isoeugenol atuasse nanoz-moscada como um pesticida natural para repelir pulgas. (Alm do mais, quem era rico obastante para comprar noz-moscada provavelmente vivia em ambientes menos populosos, menosinfestados por ratos e pulgas, o que limitava a exposio peste.)

    Quer a noz-moscada fosse eficaz contra a peste, quer no, as molculas volteis e aromticasque contm eram indubitavelmente responsveis pelo apreo de que gozava e pelo valor que lheera atribudo. A explorao de territrios e riquezas naturais que acompanharam o comrcio deespeciarias, o Tratado de Breda e o fato de a lngua corrente em Manhattan hoje no ser oholands podem ser atribudos ao composto isoeugenol.

    A histria do isoeugenol levou-nos contemplao de muitos outros compostos que mudaramo mundo, alguns bem conhecidos e at hoje de importncia decisiva para a economia mundial ou

  • a sade humana, outros que mergulharam pouco a pouco na obscuridade. Todas essas substnciasqumicas foram responsveis por um evento-chave na histria ou por uma srie de eventos quetransformou a sociedade.

    Decidimos escrever este livro para contar os casos das fascinantes relaes entre estruturasqumicas e episdios histricos, para revelar como eventos aparentemente desvinculadosdependeram de estruturas qumicas semelhantes, e para compreender em que medida odesenvolvimento da sociedade dependeu da qumica de certos compostos. A ideia de que eventosde extrema importncia podem ter dependido de algo to pequeno quanto molculas um grupode dois ou mais tomos mantidos juntos num arranjo definido proporciona uma novaabordagem compreenso do avano da civilizao humana. Uma mudana to pequena quanto ada posio de uma ligao o vnculo entre tomos numa molcula pode levar a enormesdiferenas nas propriedades de uma substncia e, por sua vez, influenciar o curso da histria.Este no , portanto, um livro sobre a histria da qumica; antes um livro sobre a qumica nahistria.

    A escolha dos compostos a ser includos no livro foi pessoal, e nossa seleo final est longede ser exaustiva. Optamos por aqueles que nos pareceram mais interessantes tanto por suashistrias quanto por sua qumica. Pode-se discutir se as molculas que selecionamos so de fatoas mais importantes na histria mundial; nossos colegas qumicos acrescentariam sem dvidaoutras lista, ou removeriam algumas. Explicaremos por que acreditamos que certas molculasforneceram o impulso para a explorao geogrfica, enquanto outras tornaram possveis asviagens de descoberta que dela resultaram. Descreveremos aquelas que foram decisivas para odesenvolvimento do trfego martimo e do comrcio entre as naes, que foram responsveis pormigraes humanas e processos de colonizao e que conduziram escravatura e ao trabalhoforado. Discutiremos como a estrutura qumica de algumas molculas mudou o que comemos, oque bebemos e o que vestimos. Trataremos das que estimularam avanos na medicina, nosaneamento e na sade pblica. Consideraremos as que resultaram em grandes feitos daengenharia e as de guerra e paz algumas responsveis por milhes de mortes, outras pelasalvao de milhes de vidas. Investigaremos quantas mudanas nos papis de gnero, nasculturas humanas e na sociedade, no direito e no meio ambiente podem ser atribudas sestruturas qumicas de um pequeno nmero de molculas cruciais. (As 17 que escolhemosabordar nestes captulos aquelas a que o ttulo se refere nem sempre so molculasindividuais. Muitas vezes sero grupos de molculas com estruturas, propriedades e papis nahistria muito parecidos.)

    Os eventos discutidos neste livro no esto organizados em ordem cronolgica. Preferimosbasear nossos captulos em conexes os vnculos entre molculas semelhantes, entre conjuntosde molculas semelhantes e at entre molculas que so quimicamente muito diferentes, mas tmpropriedades semelhantes ou podem ser associadas a eventos semelhantes. Por exemplo, aRevoluo Industrial pde ser iniciada graas aos lucros obtidos na comercializao de umcomposto cultivado por escravos (o acar) em plantaes nas Amricas, mas foi um outrocomposto (o algodo) que serviu de combustvel para mudanas econmicas e sociais de vultoque tiveram lugar na Inglaterra e, quimicamente, o segundo composto um irmo mais velho,ou talvez um primo, do primeiro. O crescimento da indstria qumica alem no final do sculoXIX deveu-se em parte ao desenvolvimento de novos corantes provenientes do alcatro da hulha,ou coltar (um refugo gerado na produo de gs a partir da hulha). Essas mesmas companhias

  • qumicas alems foram as primeiras a desenvolver antibiticos feitos pelo homem, compostos demolculas com estruturas qumicas semelhantes s dos novos corantes. O coltar forneceu tambmo primeiro antissptico, o fenol, molcula que mais tarde foi usada no primeiro plstico artificiale quimicamente relacionada com o isoeugenol, a molcula aromtica da noz-moscada.Conexes qumicas como essas so abundantes na histria.

    Outra coisa que nos intriga o papel que se costuma atribuir ao acaso em numerosasdescobertas qumicas. A sorte foi muitas vezes citada como decisiva para muitas descobertasimportantes, mas parece-nos que a capacidade dos descobridores de perceber que algo inusitadohavia acontecido e de indagar como acontecera e que utilidade poderia ter da maiorimportncia. Em muitos casos, no curso de uma experimentao qumica, um resultado estranhomas potencialmente importante foi desconsiderado e uma oportunidade perdida. A capacidade dereconhecer as possibilidades latentes em um resultado imprevisto deve ser louvada, nomenosprezada como um golpe de sorte fortuito. Alguns dos inventores e descobridores doscompostos que discutiremos eram qumicos, mas outros no tinham qualquer formao cientfica.Vrios poderiam ser descritos como personalidades originais excntricos, manacos oucompulsivos. Suas histrias so fascinantes.

    Orgnico isso no tem a ver com jardinagem?Para ajud-lo a compreender as conexes qumicas expostas nas pginas que se seguem, vamosprimeiro fornecer um breve apanhado de termos qumicos. Muitos compostos discutidos nestelivro so classificados como compostos orgnicos. Nos ltimos 20 ou 30 anos a palavraorgnico adquiriu um sentido muito diferente de sua definio original. Hoje o termo orgnico,usado em geral com referncia a jardinagem ou alimentos, entendido como produto de umaagricultura conduzida sem uso de pesticidas ou herbicidas artificiais nem de fertilizantessintticos. Mas orgnico foi originalmente um termo qumico que remonta a cerca de 200 anos,quando, em 1807, Jns Jakob Berzelius, um qumico sueco, o aplicou a compostos derivados deorganismos vivos. Em contraposio, ele usou o termo inorgnico para designar compostos queno provm de coisas vivas.

    A ideia de que compostos qumicos obtidos da natureza tinham algo de especial, continhamuma essncia de vida, mesmo que esta no pudesse ser detectada ou medida, est no ar desde osculo XVIII. Essa essncia especial era conhecida como energia vital. A crena de quecompostos derivados de plantas ou animais tinham algo de mstico foi chamada vitalismo.Pensava-se que produzir um composto orgnico no laboratrio era impossvel por definio,mas, ironicamente, um dos discpulos do prprio Berzelius fez exatamente isso. Em 1828,Friedrich Whler, mais tarde professor de qumica na Universidade de Gttingen, na Alemanha,aqueceu o composto inorgnico amonaco com cido ciandrico para produzir cristais de ureiaabsolutamente idnticos ao composto orgnico ureia isolado da urina animal.

    Embora os vitalistas alegassem que o cido ciandrico era orgnico, por ser obtido de sangueseco, a teoria do vitalismo ficou abalada. Nas dcadas seguintes foi completamente derrubada,quando outros qumicos conseguiram produzir compostos orgnicos a partir de fontes totalmenteinorgnicas. Embora alguns cientistas tenham relutado em acreditar no que parecia uma heresia, amorte do vitalismo acabou por obter reconhecimento geral. Tornou-se necessrio procurar umanova definio qumica para a palavra orgnico.

  • Atualmente os compostos orgnicos so definidos como aqueles que contm o elementocarbono. A qumica orgnica , portanto, o estudo dos compostos carbnicos. Esta no ,contudo, uma definio perfeita, pois h vrios compostos que, embora contenham carbono,nunca foram considerados orgnicos pelos qumicos. A razo disso sobretudo tradicional.Muito antes do experimento definidor de Whler, sabia-se que os carbonatos, compostos comcarbono e oxignio, podiam provir de fontes minerais, e no necessariamente de seres vivos.Assim, mrmore (ou carbonato de clcio) e bicarbonato de sdio nunca foram rotulados deorgnicos. De maneira semelhante, o prprio elemento carbono, seja em forma de diamante ougrafite ambos originalmente extrados de depsitos no solo, embora hoje tambm possam serfeitos sinteticamente , sempre foi considerado inorgnico. O dixido de carbono, que contmum tomo de carbono unido a dois tomos de oxignio, conhecido h sculos, mas nunca foiclassificado como um composto orgnico. Assim, a definio de orgnico no de todo coerente.Em geral, porm, um composto orgnico um composto que contm carbono, e um compostoinorgnico um que consiste de outros elementos que no o carbono.

    Mais que qualquer outro elemento, o carbono exibe fabulosa variabilidade nos modos comoforma ligaes e tambm no nmero de outros elementos com que capaz de se ligar. Assim, hum nmero muito, muito maior de compostos de carbono, tanto encontrveis na natureza quantofeitos pelo homem, do que de compostos de todos os demais elementos combinados. Isso podeexplicar o fato de tratarmos de um nmero muito maior de molculas orgnicas do queinorgnicas neste livro; tambm possvel que isso se deva ao fato de sermos ambos, os doisautores, qumicos orgnicos.

    Estruturas qumicas: mesmo preciso falar disso?Ao escrever este livro, nosso maior problema foi determinar quanta qumica incluir em suaspginas. Algumas pessoas nos aconselharam a minimizar a qumica, a deix-la de fora e apenas acontar as histrias. Sobretudo, disseram-nos, no representem nenhuma estrutura qumica. Mas a relao entre estruturas qumicas e o que elas fazem, entre como e por que um composto temas propriedades que tem, e como e por que isso afetou certos eventos na histria, que nos pareceo mais fascinante. Embora se possa certamente ler este livro sem olhar para as estruturasqumicas, pensamos que a compreenso delas d vida trama de relaes que une a qumica histria.

    Os compostos orgnicos so constitudos principalmente por apenas um pequeno nmero detomos: carbono (cujo smbolo qumico C), hidrognio (H), oxignio (O) e nitrognio (N).Outros elementos podem tambm estar presentes neles, por exemplo, bromo (Br), cloro (Cl),flor (F), iodo (I), fsforo (P) e enxofre (S). Neste livro, as estruturas so geralmenterepresentadas no intuito de ilustrar diferenas ou semelhanas entre compostos; quase sempre, s necessrio olhar para o desenho. A variao estar muitas vezes indicada por uma seta,destacada por um crculo ou realada de alguma outra maneira. Por exemplo, a nica diferenaentre as duas estruturas mostradas a seguir est na posio em que OH se liga a C; nos doiscasos, ela est indicada por uma seta. Para a primeira molcula o OH est no segundo C a partirda esquerda; para a segunda, est ligado ao primeiro C a partir da esquerda.

  • uma diferena muito pequena, mas seria de extrema importncia caso voc fosse umaabelha-domstica. Entre as abelhas, s as rainhas produzem a primeira molcula. As abelhas socapazes de reconhecer a diferena entre ela e a segunda molcula, que produzida pelasoperrias. Ns podemos distinguir entre abelhas operrias e rainhas por sua aparncia, mas,entre si, elas usam uma sinalizao qumica para perceber a diferena. Poderamos dizer queveem por meio da qumica.

    Os qumicos desenham estruturas como essas para representar a maneira como os tomos seunem uns aos outros por ligaes qumicas. Os smbolos qumicos representam tomos, e asligaes so representadas como linhas retas. Por vezes h mais de uma ligao entre os mesmosdois tomos; quando h duas, trata-se de uma ligao dupla, representada como =. Quando h trsligaes qumicas entre os mesmos dois tomos, trata-se de uma ligao tripla, representada

  • como .E m uma das molculas orgnicas mais simples, o metano, o carbono cercado por quatro

    ligaes simples, uma para cada um de quatro tomos de hidrognio. A frmula qumica CH4 , ea estrutura representada como:

    O composto orgnico mais simples com uma ligao dupla o etileno, que tem a frmula C2H4e a estrutura:

    Neste caso o carbono tem ainda quatro ligaes a ligao dupla conta como duas. Apesarde ser um composto simples, o etileno muito importante. um hormnio vegetal responsvelpela promoo do amadurecimento da fruta. Se as mas, por exemplo, forem armazenadas semventilao apropriada, o gs etileno que produzem se acumular e far com que fiquem passadas. por isso que se pode apressar o amadurecimento de um abacate ou de um kiwi no madurospondo-os num saco com uma ma j madura. O etileno produzido pela ma madura apressar oamadurecimento da outra fruta.

    O composto orgnico metanol, tambm conhecido como lcool metlico, tem a frmula CH4O.Essa molcula contm um tomo de oxignio e sua estrutura representada como:

    Neste caso o tomo de oxignio, O, tem duas ligaes simples, uma conectada ao tomo decarbono e a outra ao tomo de hidrognio. Como sempre, o carbono tem um total de quatroligaes.

    Em compostos em que h uma ligao dupla entre um tomo de carbono e um de oxignio,como no cido actico (o cido do vinagre), a frmula, escrita como C2H4O2, no indicadiretamente onde a ligao dupla se situa. por isso que desenhamos as estruturas qumicas para mostrar exatamente qual tomo est ligado a qual outro e onde as ligaes duplas ou triplas

  • esto.

    Podemos desenhar essas estruturas de uma forma abreviada ou mais condensada. O cido acticopoderia ser representado tambm como:

    em que nem todas as ligaes so mostradas. Elas continuam l, claro, mas essas formasabreviadas podem ser desenhadas mais rapidamente e mostram com igual clareza as relaesentre os tomos.

    O sistema de representao de estruturas funciona bem para exemplos pequenos, mas quandoas molculas ficam maiores, ele passa a demandar tempo demais e de difcil execuo. Porexemplo, se retornarmos molcula de reconhecimento da abelha rainha:

    e a compararmos com uma representao completa, que mostre todas as ligaes, a estrutura teriao seguinte aspecto:

    trabalhoso desenhar esta estrutura completa, e ela parece muito confusa. Por essa razo,frequentemente desenhamos compostos usando alguns atalhos, o mais comum consiste em omitirmuitos dos tomos de H. Isso no significa que no esto presentes; simplesmente no osmostramos. Um tomo de carbono sempre tem quatro ligaes, portanto, mesmo que no pareaque C tem quatro ligaes, fique certo de que tem as que no so mostradas ligam-no a tomosde hidrognio.

  • Da mesma maneira, tomos de carbono so muitas vezes mostrados unidos em um ngulo, em vezde numa linha reta; isso mais indicativo da verdadeira forma da molcula. Nesse formato, amolcula da abelha rainha tem este aspecto:

    Uma verso ainda mais simplificada omite a maior parte dos tomos de carbono:

    Aqui, o fim de uma linha e todas as intersees representam um tomo de carbono. Todos osoutros tomos (exceto a maior parte dos carbonos e hidrognios) continuam explicitados. Comessa simplificao, torna-se mais fcil ver a diferena entre a molcula da rainha e a molcula daoperria.

    Fica tambm mais fcil comparar esses compostos com os emitidos por outros insetos. Porexemplo, o bombicol, o feromnio ou molcula com funo de atrao sexual produzido pelamariposa do bicho-da-seda tem 16 tomos de carbono (em contraste com os dez tomos namolcula da abelha rainha, tambm um feromnio), tem duas ligaes duplas em vez de uma eno tem o arranjo COOH.

    particularmente til omitir grande parte dos tomos de carbono e hidrognio quando se est

  • lidando com os chamados compostos cclicos uma estrutura bastante comum em que os tomosde carbono formam um anel. A estrutura que se segue representa a molcula do cicloexano,C6H12:

    Verso abreviada ou condensada da estrutura qumica do cicloexano. Cada interseo representa um tomo decarbono; os tomos de hidrognio no so mostrados.

    Se desenhada de maneira no abreviada, o cicloexano apareceria como:

    Representao completa da estrutura qumica do cicloexano, mostrando todos os tomos e todas as ligaes

    Como se v, quando inclumos todas as ligaes e inserimos todos os tomos, o diagramaresultante pode ser confuso. Quando passamos a estruturas mais complicadas, como a do remdioantidepressivo Prozac, a verso por extenso (a seguir) torna realmente difcil ver a estrutura.

  • Representao completa da estrutura do Prozac

    J a verso simplificada muito mais clara:

    Outro termo frequentemente usado para descrever aspectos de uma estrutura qumica aromtico. O dicionrio diz que aromtico significa dotado de um cheiro fragrante, picante,acre ou capitoso, implicando um odor agradvel. Quimicamente falando, um compostoaromtico muitas vezes realmente tem um cheiro, embora no necessariamente agradvel. Apalavra aromtico, quando aplicada a uma substncia qumica, significa que o composto contma estrutura em anel do benzeno (mostrada abaixo), que em geral desenhada como uma estruturacondensada.

  • Olhando o desenho do Prozac, pode-se ver que ele contm dois desses anis aromticos. OProzac portanto definido como um composto aromtico.

    Embora esta seja apenas uma breve introduo a estruturas qumicas orgnicas, ela de fatotudo que se precisa saber para compreender o que descrevemos neste livro. Vamos compararestruturas para ver como diferem e como se igualam, e mostraremos como mudanasextremamente pequenas em uma molcula produzem s vezes efeitos profundos. Acompanhandoas relaes entre as formas particulares e as propriedades relacionadas de vrias molculascompreenderemos a influncia de estruturas qumicas no desenvolvimento da civilizao.

  • 1Pimenta, noz-moscada e cravo-da-ndia

    Christos e espiciarias! por Cristo e especiarias foi o grito jubiloso dos marinheiros deVasco da Gama quando, em maio de 1498, eles se aproximaram da ndia e da meta de ganhar umafortuna incalculvel com condimentos que durante sculos haviam sido monoplio dosmercadores de Veneza. Na Europa medieval um condimento, a pimenta, era to valioso que umalibra dessa baga seca era suficiente para comprar a liberdade de um servo ligado propriedadede um nobre. Embora a pimenta figure hoje nas mesas de jantar do mundo inteiro, a sua demandae a das fragrantes molculas da canela, do cravo-da-ndia, da noz-moscada e do gengibreestimularam uma procura global que deu incio Era dos Descobrimentos.

    Breve histria da pimentaA pimenta-do-reino, da parreira tropical Piper nigrum, originria da ndia, at agora a maiscomumente usada de todas as especiarias. Hoje seus principais produtores so as regiesequatoriais da ndia, do Brasil, da Indonsia e da Malsia. A parreira uma trepadeira forte,arbustiva, que pode crescer at seis metros ou mais. As plantas comeam a dar um fruto globularvermelho dentro de dois a cinco anos e, sob as condies adequadas, continuam produzindodurante 40 anos. Uma rvore pode produzir dez quilos do condimento por estao.

    Cerca de trs quartos de toda a pimenta so vendidos na forma de pimenta-negra, produzidapor uma fermentao fngica de bagas no maduras. A pimenta branca, obtida da fruta madura eseca aps a remoo da pele e da polpa da baga, constitui a maior parte do restante. Umaporcentagem muito pequena de pimenta vendida como pimenta verde; as bagas verdes, colhidasquando mal comeam a amadurecer, so conservadas em salmoura. Pimenta em gro seca deoutras cores, como as encontradas s vezes em lojas especializadas, so artificialmente coloridasou, na realidade, bagas de outros tipos.

    Supe-se que foram os mercadores rabes que introduziram a pimenta na Europa, inicialmentepelas antigas rotas das especiarias, que passavam por Damasco e cruzavam o mar Vermelho. Apimenta era conhecida na Grcia por volta do sculo V a.C. Naquela poca, era usada mais parafins medicinais que culinrios, frequentemente como antdoto para veneno. J os romanos faziamamplo uso de pimenta e outros temperos em sua comida.

    No sculo I d.C., mais da metade das importaes que seguiam para o Mediterrneo a partir dasia e da costa leste da frica era de especiarias, e a pimenta proveniente da ndia constituaboa parte delas. Usavam-se condimentos na comida por duas razes: como conservante e pararealar o sabor. A cidade de Roma era grande, o transporte lento, a refrigerao ainda no forainventada, e devia ser um enorme problema obter comida fresca e conserv-la. Os consumidorescontavam apenas com seus narizes para ajud-los a detectar a comida estragada; a data de

  • validade nos rtulos ainda demoraria sculos para aparecer. A pimenta e outros temperosdisfaravam o gosto da comida podre ou ranosa e provavelmente ajudavam a desacelerar oavano da deteriorao. Alimentos secos, defumados ou salgados podiam tambm se tornar maispalatveis com o uso intenso desses temperos.

    Nos tempos medievais, grande parte do comrcio com o Oriente era realizado atravs deBagd (no Iraque atual), seguindo depois para Constantinopla (hoje Istambul) e passando pelacosta sul do mar Negro. De Constantinopla as especiarias eram expedidas para a cidadeporturia de Veneza, que exerceu um controle quase completo sobre esse comrcio durante osltimos quatro sculos da Idade Mdia.

    Veneza conhecera um crescimento substancial desde o sculo VI d.C. vendendo o salproduzido a partir de suas lagunas. Prosperara ao longo dos sculos graas a sagazes decisespolticas que permitiram cidade manter sua independncia enquanto comerciava com todas asnaes. Quase dois sculos de Cruzadas, a partir do final do sculo XI, permitiram aosnegociantes de Veneza consolidar sua posio como soberanos mundiais das especiarias. Ofornecimento de transporte, navios de guerra, armas e dinheiro aos cruzados da Europa Ocidentalfoi um investimento lucrativo que beneficiou diretamente a Repblica de Veneza. Ao retornar dospases de clima tpido do Oriente Mdio para seus pases de origem no norte da Europa, maisfrios, os cruzados gostavam de levar consigo as espcies exticas que haviam passado a apreciarem suas viagens. A pimenta pode ter sido de incio uma novidade, um luxo que poucos podiamcomprar, mas seu poder de disfarar o rano, de dar sabor a uma comida seca e insossa, e, aoque parece, de reduzir o gosto da comida conservada em sal logo a tornou indispensvel. Osnegociantes de Veneza haviam ganho um vasto mercado novo, e comerciantes de toda a Europaafluam cidade para comprar especiarias, sobretudo pimenta.

    No sculo XV, o monoplio veneziano do comrcio de especiarias era to completo e asmargens de lucro to grandes que outras naes comearam a considerar seriamente apossibilidade de encontrar rotas alternativas para a ndia em particular uma via martima,contornando a frica. Henrique, o Navegador, filho do rei Joo I de Portugal, criou um programaabrangente para a construo de navios que produziu uma frota de embarcaes mercantesrobustas, capazes de enfrentar as condies meteorolgicas extremas encontradas em mar aberto.A Era dos Descobrimentos estava prestes a comear, impulsionada em grande parte pelademanda de pimenta-do-reino.

    Na metade do sculo XV, exploradores portugueses aventuraram-se ao sul at Cabo Verde, nacosta noroeste da frica. Em 1483 o navegador portugus Diogo Co havia avanado mais aosul, chegando foz do rio Congo. Somente quatro anos depois, outro homem do mar portugus,Bartolomeu Dias, contornou o cabo da Boa Esperana, estabelecendo uma rota vivel para seucompatriota Vasco da Gama chegar ndia em 1498.

    Os governantes indianos em Calicut, um principado na costa sudoeste da ndia, quiseram ouroem troca da pimenta seca, o que no se encaixava muito bem nos planos que tinham osportugueses para assumir o controle mundial do comrcio da especiaria. Assim, cinco anosdepois, Vasco da Gama retornou com armas de fogo e soldados, conquistou Calicut e imps ocontrole portugus ao comrcio da pimenta. Essa foi a origem do imprio portugus quefinalmente se expandiu a leste, a partir da frica at a ndia e a Indonsia e a oeste at o Brasil.

    A Espanha tambm cobiava o comrcio das especiarias, em especial a pimenta. Em 1492Cristvo Colombo, um navegador genovs, convencido de que uma rota alternativa e mais curta

  • para a borda leste da ndia poderia ser encontrada navegando-se para oeste, persuadiu o reiFernando V e a rainha Isabel da Espanha a financiar uma viagem de descoberta. Colombo estavacerto em algumas de suas convices, mas no em todas. possvel chegar ndia rumando aoeste a partir da Europa, mas esse no o caminho mais curto. Os continentes entodesconhecidos da Amrica do Norte e do Sul, bem como o vasto oceano Pacfico, constituemobstculos considerveis.

    O que h na pimenta-do-reino, que construiu a magnfica cidade de Veneza, que inaugurou aEra dos Descobrimentos e que fez Colombo partir e encontrar o Novo Mundo? O ingredienteativo tanto da pimenta preta quanto da branca a piperina, um composto com a frmula qumicaC17H19O3N e a seguinte estrutura:

    A sensao picante que experimentamos quando ingerimos a piperina no realmente umsabor, mas uma resposta de nossos receptores nervosos de dor a um estmulo qumico. Ainda nose sabe exatamente como isso funciona, mas pensa-se que uma decorrncia da forma damolcula da piperina, que capaz de se encaixar em uma protena situada nas terminaesnervosas para a dor em nossas bocas e em outras partes do corpo. Isso faz a protena mudar deforma e envia um sinal ao longo do nervo at o crebro, dizendo algo como Ai, isto arde.

    A histria da molcula picante da piperina e de Colombo no termina com o fracasso de suatentativa de encontrar uma rota comercial a oeste para a ndia. Em outubro de 1492, quandoavistou terra, Colombo sups ou desejou ter chegado a uma parte da ndia. Apesar daausncia de cidades grandiosas e reinos opulentos que esperara encontrar nas ndias, chamou aterra que descobriu de ndias Ocidentais e o povo que ali vivia de ndios. Em sua segundaviagem s ndias Ocidentais, Colombo encontrou, no Haiti, um outro tempero picante. Eracompletamente diferente da pimenta que conhecia, mas ele levou o chile consigo para a Espanha.

    O novo tempero viajou para oeste com os portugueses, contornou a frica e chegou ndia emais alm. Dentro de 50 anos o chile havia se espalhado pelo mundo todo, tendo sidoincorporado rapidamente s culinrias locais, em especial s da frica e do leste e sul da sia.Para os muitos milhes de ns que apreciamos sua ardncia, a pimenta chile sem sombra dedvida um dos benefcios mais importantes e duradouros das viagens de Colombo.

    Qumica picanteDiferentemente da pimenta-do-reino, com uma espcie nica, h vrias espcies de pimenta dognero Capsicum. Nativas da Amrica tropical e provavelmente originrias do Mxico, elas vmsendo usadas pelo homem h pelo menos nove mil anos. Em qualquer das espcies de chile henorme variao. Capsicum annuum, por exemplo, uma espcie anual que inclui os pimentesamarelo e vermelho, pimenta-da-jamaica, pprica, pimentas-de-caiena e muitas outras. Apimenta-malagueta o fruto de um arbusto perene, Capsicum frutescens.

  • So muitas as cores, os tamanhos e as formas da pimenta chile, mas em todas o compostoqumico responsvel pelo sabor pungente e a ardncia muitas vezes intensa a capsaicina, quetem a frmula qumica C18H27O3N e uma estrutura que apresenta semelhanas com a da piperina:

    Ambas as estruturas tm um tomo de nitrognio (N) vizinho a um tomo de carbono (C)duplamente ligado a oxignio (O), e ambas tm um nico anel aromtico com uma cadeia detomos de carbono. Talvez no seja de surpreender que as duas sejam picantes se essasensao resultar da forma da molcula.

    Uma terceira molcula picante que tambm se adapta a essa teoria da forma molecular azingerona (C11H14O), encontrada no rizoma do gengibre, Zinziber officinalis. Embora menor quea piperina e que a capsaicina (e, diriam muitos, no to picante), a zingerona tambm tem um anelaromtico com os mesmos grupos HO e H3C-O, ligados como na capsaicina, mas sem nenhumtomo de nitrognio.

    Por que comemos essas molculas que provocam ardor? Talvez por boas razes qumicas. Acapsaicina, a piperina e a zingerona aumentam a secreo de saliva em nossa boca, facilitando adigesto. Pensa-se que, alm disso, estimulam a passagem da comida pelos intestinos. Aocontrrio das papilas gustativas que nos mamferos situam-se sobretudo na lngua, as terminaesnervosas para a dor, capazes de detectar as mensagens qumicas dessas molculas, ocorrem emoutras partes do corpo humano. Voc algum dia j esfregou os olhos, inadvertidamente, quandoestava cortando pimenta? Os lavradores que colhem chile precisam usar luvas de borracha e umaproteo nos olhos contra o leo da pimenta com suas molculas de capsaicina.

    A ardncia que a pimenta-do-reino nos faz sentir parece ser diretamente proporcional quantidade em que est presente na comida. Por outro lado, a ardncia do chile enganosa pode ser afetada pela cor, o tamanho, a regio de origem da pimenta. Mas nenhum desses guias confivel; embora pimentas pequenas costumem estar associadas a maior ardncia, as grandesnem sempre so as mais brandas. A geografia no fornece necessariamente uma pista, embora sediga que os chiles mais picantes do mundo so os que crescem em partes da frica Oriental. Aardncia geralmente aumenta quando o fruto do chile ressecado.

    Muitas vezes temos uma sensao de prazer ou contentamento aps ingerir uma comidapicante, e essa sensao talvez se deva a endorfinas, componentes com as caractersticas dosopiatos que so produzidos no crebro como resposta natural do corpo dor. Esse fenmeno

  • talvez explique por que algumas pessoas gostam tanto de comida apimentada. Quanto mais forte apimenta, maior a dor, e, em consequncia, maiores os traos de endorfina produzidos e maior oprazer final.

    Afora a pprica, que se tornou bem estabelecida em comidas hngaras como o gulach, o chileno invadiu a comida da Europa to intensamente quanto penetrou na culinria africana e asitica.Entre os europeus, a piperina da pimenta-do-reino continuou sendo a molcula picante preferida.O domnio portugus de Calicut, e portanto o controle do comrcio da pimenta, perdurou porcerca de 150 anos, mas no incio do sculo XVII os holandeses e os ingleses passaram a assumiresse controle. Amsterd e Londres tornaram-se os maiores portos comerciais de pimenta naEuropa.

    A Companhia das ndias Orientais ou, para citar o nome oficial com que foi fundada em1600, a Governor and Company of Merchants of London Trading into the East Indias foiformada para assegurar um papel mais ativo para a Inglaterra no comrcio das especiarias dasndias Orientais. Como os riscos associados ao financiamento do envio ndia de um navio quevoltaria carregado de pimenta eram altos, de incio os negociantes compravam cotas de umaviagem, limitando assim o tamanho do prejuzo potencial para um nico indivduo. Essa prticaacabou dando lugar compra de aes da prpria companhia, podendo portanto ser consideradaresponsvel pelo incio do capitalismo. No seria muito exagero dizer que a piperina, que semdvida deve ser considerada hoje um composto qumico relativamente insignificante, foiresponsvel pelo incio da complexa estrutura econmica das atuais bolsas de valores.

    O fascnio das especiariasHistoricamente, a pimenta no foi a nica especiaria de grande valor. A noz-moscada e o cravo-da-ndia eram igualmente preciosos e muito mais raros que a pimenta. Ambos eram originriosdas lendrias ilhas das Especiarias, ou Molucas atualmente, a provncia indonsia deMaluku. A rvore da noz-moscada, Myristica fragrans, s crescia nas ilhas de Banda, um grupoisolado de sete ilhas no mar de Banda, cerca de 2.570km a leste de Jacarta. So ilhas minsculas a maior tem menos de 10km de comprimento e a menor mal possui alguns quilmetros.Vizinhas das Molucas, ao norte, situam-se as igualmente pequenas ilhas de Ternate e Tidore, osnicos lugares no mundo em que crescia a Eugenia aromatica, o cravo-da-ndia.

    Durante sculos a populao desses dois arquiplagos colheu o fragrante produto de suasrvores e o vendeu a negociantes rabes, malaios e chineses que visitavam as ilhas e enviavamas especiarias para a sia e a Europa. As rotas comerciais eram bem estabelecidas, e querfossem transportadas via ndia, Arbia, Prsia ou Egito, as especiarias passavam por pelo menosuma dzia de mos antes de chegar aos consumidores na Europa Ocidental. Como cada transaopodia dobrar o preo do produto, no espanta que o governador da ndia portuguesa, Afonso deAlbuquerque, tenha almejado ampliar seu poder, primeiro desembarcando no Ceilo e mais tardetomando Mlaca, na pennsula malaia, na poca o centro do comrcio de especiarias das ndiasOrientais. Em 1512 ele chegou s fontes da noz-moscada e do cravo-da-ndia, estabeleceu ummonoplio portugus negociando diretamente com as Molucas e no demorou a superar osnegociantes venezianos.

    Tambm a Espanha cobiou o comrcio de especiarias. O navegador portugus Ferno deMagalhes, cujos planos para uma expedio haviam sido rejeitados por seu prprio pas,

  • convenceu a coroa espanhola de que no s seria possvel chegar s ilhas das Especiariasviajando para oeste como de que essa rota seria mais curta. A Espanha tinha boas razes paracustear uma expedio como essa. Uma nova rota para as ndias Orientais permitiria aosespanhis evitar o uso de portos e navios portugueses na passagem oriental pela frica e pelandia. Alm disso, um decreto anterior do papa Alexandre VI havia concedido a Portugal todas asterras pags a leste de uma linha imaginria que corria de norte a sul, cem lguas (cerca de600km) a oeste das ilhas de Cabo Verde. Todas as terras pags a oeste dessa linha pertenceriam Espanha. O fato de o mundo ser redondo j admitido por muitos estudiosos e navegadores napoca foi desconsiderado ou era ignorado pelo Vaticano. Portanto, caso se aproximassem dasilhas das Especiarias viajando na direo oeste, os espanhis teriam pleno direito a elas.

    Magalhes no s convenceu a coroa espanhola de que conhecia uma passagem atravs docontinente americano, como comeou ele mesmo a acreditar nisso. Partiu da Espanha emsetembro de 1519, navegando a sudoeste para cruzar o Atlntico e depois desceu pelo litoralhoje pertencente ao Brasil, Uruguai e Argentina. Quando o esturio de 225km de largura do rioda Prata, que leva atual cidade de Buenos Aires, provou ser simplesmente isso um esturio, sua incredulidade e decepo devem ter sido enormes. Mas continuou a navegar para o sul,confiante de que a qualquer momento, aps o promontrio seguinte, encontraria a passagem dooceano Atlntico para o Pacfico. A viagem s ficaria pior para seus cinco pequenos naviostripulados por 265 homens. Quanto mais Magalhes avanava para o sul, mais curtos os dias setornavam e mais constantes os vendavais. Um litoral de contorno perigoso, com elevaesbruscas da mar, tempo cada vez pior, ondas imensas, granizo constante, neve acompanhada dechuva e gelo, sem contar a ameaa muito real de um escorrego de cordames congelados,contribuam para o tormento da viagem. A 50 sul, sem nenhuma passagem bvia vista e jtendo reprimido um motim, Magalhes decidiu esperar durante o resto do inverno do hemisfriosul antes de prosseguir viagem e finalmente descobrir e transpor as guas traioeiras que hojetm seu nome.

    Em outubro de 1520, quatro de seus navios haviam atravessado o estreito de Magalhes. Comas provises no fim, os oficiais de Magalhes insistiram em que deveriam voltar. Mas o fascniodo cravo-da-ndia e da noz-moscada, a glria e a fortuna que obteriam se arrancassem dosportugueses o comrcio de especiarias das ndias Orientais levaram Magalhes a continuarnavegando para oeste com trs navios. A viagem de quase 21.000km atravs do Pacfico, umoceano muito mais vasto do que se imaginara, sem mapas, apenas instrumentos rudimentares denavegao, pouca comida, e reservas de gua doce praticamente esgotadas, foi pior que apassagem pela ponta inferior da Amrica do Sul. A aproximao de Guam, nas Marianas, em 6de maro de 1521, salvou a tripulao da morte certa por inanio ou escorbuto.

    Dez dias depois Magalhes pisou em terra firme pela ltima vez, na pequena ilha filipina deMactan. Morto numa briga com os nativos, nunca chegou s Molucas, embora seus navios e o querestava da tripulao tenham navegado at Ternate, a terra do cravo-da-ndia. Trs anos aps terzarpado da Espanha, uma tripulao reduzida a 18 sobreviventes navegou rio acima at Sevilhacom 26 toneladas de especiarias no castigado casco do Victoria, o nico navio que restava dapequena esquadra de Magalhes.

    As molculas aromticas do cravo-da-ndia e da noz-moscada

  • Embora o cravo-da-ndia e a noz-moscada provenham de famlias diferentes de plantas e dearquiplagos separados por centenas de quilmetros, sobretudo de mar aberto, seus odoresmarcadamente diferentes se devem a molculas extremamente semelhantes. O principalcomponente do leo do cravo-da-ndia o eugenol; o composto fragrante presente no leo danoz-moscada o isoeugenol. A nica diferena entre essas duas molculas aromticas aromticas tanto pela estrutura qumica quanto pelo cheiro est na posio de uma ligaodupla:

    A nica diferena entre esses dois compostos a posio da ligao dupla indicada pela seta.

    As semelhanas entre as estruturas desses dois componentes e a da zingerona (do gengibre) soigualmente bvias. Tambm o cheiro do gengibre claramente distinto dos aromas do cravo-da-ndia ou da noz-moscada.

    No para nosso benefcio que as plantas produzem essas perfumadssimas molculas. Nopodendo fugir de animais herbvoros, de insetos que chupam sua seiva ou comem suas folhas, oude infestaes fngicas, as plantas se protegem com armas qumicas que envolvem molculascomo o eugenol e o isoeugenol, bem como a piperina, a capsaicina e a zingerona. Todos eles sopesticidas naturais molculas muito potentes. O homem pode consumir esses compostos empequenas quantidades porque o processo de desintoxicao que ocorre em nosso fgado muitoeficiente. Embora uma grande dose de um composto particular possa teoricamente sobrecarregaruma das muitas vias metablicas do fgado, tranquilizador saber que seria bastante difcilingerir pimenta ou cravo-da-ndia em quantidade suficiente para produzir esse efeito.

    O delicioso cheiro de um craveiro-da-ndia pode ser sentido mesmo a distncia. O compostoest presente no s nos botes secos da flor da rvore, que conhecemos bem, mas em muitaspartes da planta. Em data to remota quanto 200 a.C., na poca da dinastia Han, cortesos dacorte imperial chinesa usavam o cravo-da-ndia para perfumar o hlito. O leo do cravo-da-ndiaera apreciado como um poderoso antissptico e como remdio para a dor de dente. At hoje ele usado s vezes como anestsico tpico na odontologia.

    A noz-moscada um dos dois condimentos produzidos por uma mesma rvore; o outro omacis. A noz-moscada feita com a semente ou amndoa marrom e reluzente da fruta, que

  • se parece com o abric, ao passo que o macis vem da camada avermelhada, ou arilo, queenvolve a amndoa. H muito a noz-moscada usada na China para fins medicinais, notratamento de reumatismo e dores de estmago, e no sudeste da sia para disenteria ou clica.Na Europa, alm de ser considerada afrodisaca e soporfera, a noz-moscada era usada numsaquinho pendurado no pescoo como proteo contra a peste negra que devastou o continente emintervalos regulares desde sua primeira ocorrncia registrada em 1347. Embora epidemias deoutras doenas (tifo, varola) assolassem periodicamente partes da Europa, a peste era a maistemida. Ela ocorria de trs formas. A bubnica se manifestava como bubes gnglioslinfticos intumescidos na virilha e nas axilas; hemorragias internas e deterioraoneurolgica eram fatais em 50 a 60% dos casos. Menos frequente, porm mais virulenta, era aforma pneumnica. A peste septicmica, em que quantidades esmagadoras de bacilos invadem osangue, sempre fatal, matando muitas vezes em menos de um dia.

    Cravos-da-ndia secando na rua, no norte da ilha Celebes, na Indonsia.

    perfeitamente possvel que as molculas de isoeugenol presentes na noz-moscada frescaatuassem realmente como um repelente para as pulgas, que transmitem as bactrias da pestebubnica. tambm possvel que outras molculas nela contidas tenham igualmente propriedadesinseticidas. Grandes quantidades de duas outras molculas fragrantes, miristicina e elemicina,ocorrem tanto na noz-moscada quanto no macis. As estruturas desses dois compostos se parecemmuito entre si e com as daquelas molculas que j encontramos na noz-moscada, no cravo-da-ndia e nas pimentas.

  • Alm de um talism contra a peste, a noz-moscada era considerada a especiaria da loucura.Suas propriedades alucingenas provavelmente decorrentes das molculas miristicina eelemicina so conhecidas h sculos. Um relato de 1576 contava que uma senhora inglesagrvida, tendo comido dez ou 12 nozes-moscadas, ficou delirantemente embriagada. Averacidade dessa histria duvidosa, especialmente quanto ao nmero de nozes-moscadasconsumidas, pois relatos atuais sobre a ingesto de apenas uma descrevem nusea e suoresprofusos somados a dias de alucinaes. Isto um pouco mais que embriaguez delirante; hrelatos de morte aps o consumo de muito menos que 12 nozes-moscadas. Em grandesquantidades, a miristicina pode causar tambm leso do fgado.

    Alm da noz-moscada e do macis, cenoura, aipo, endro, salsa e pimenta-do-reino contmtraos de miristicina e elemicina. Em geral no consumimos as enormes quantidades dessassubstncias que seriam necessrias para que seus efeitos psicodlicos se fizessem notar. E no hprovas de que a miristicina e a elemicina sejam em si mesmas psicoativas. possvel que elassejam convertidas, por alguma via metablica ainda desconhecida em nosso corpo, a quantidadesmnimas de compostos que seriam anlogos s anfetaminas.

    A base qumica dessa possibilidade deve-se ao fato de que uma outra molcula, o safrol, cujaestrutura difere da estrutura da miristicina unicamente pela falta de um OCH3, o material usadona fabricao ilcita do composto que, com o nome qumico completo de 3,4-metilenedioxi-N-metilanfetamina, abreviado como MDMA, mais conhecido como ecstasy.

    A transformao do safrol em ecstasy pode ser mostrada da seguinte maneira:

    O safrol vem da rvore sassafrs. Quantidades mnimas da substncia podem tambm ser

  • encontradas no cacau, na pimenta-do-reino, no macis, na noz-moscada e no gengibre silvestre. Oleo de sassafrs, extrado da raiz da rvore, constitudo em 85% de safrol, foi usado outroracomo o principal agente aromatizante na root beer.1 Hoje o safrol considerado carcinognico, eseu uso como aditivo alimentar est proibido, assim como o leo de sassafrs.

    Noz-moscada e Nova YorkO comrcio do cravo-da-ndia foi dominado pelos portugueses durante a maior parte do sculoXVI, mas eles nunca chegaram a estabelecer um monoplio completo. Conseguiram fazer acordosreferentes ao comrcio e construo de fortes com os sultes das ilhas de Ternate e Tidore, masessas alianas provaram-se efmeras. Os molucanos continuaram a vender cravo-da-ndia paraseus tradicionais parceiros comerciais, os javaneses e os malaios.

    No sculo seguinte, os holandeses, que tinham mais navios, mais homens, melhores armas euma poltica de colonizao muito mais dura, tornaram-se os senhores do comrcio deespeciarias, sobretudo por meio dos auspcios da todo-poderosa Companhia das ndias Orientais a Vereenidge Oostindische Compagnie, ou VOC , fundada em 1602. No foi fcilestabelecer nem sustentar o monoplio. S em 1667 a VOC conseguiu implantar um controlecompleto sobre as Molucas, expulsando os espanhis e portugueses das poucas bases avanadasque ainda lhes restavam e esmagando impiedosamente a oposio da populao local.

    Para consolidar plenamente sua posio, os holandeses precisaram dominar o comrcio denoz-moscada nas ilhas de Banda. Supostamente, um tratado de 1602 havia conferido VOCdireitos exclusivos de comprar toda a noz-moscada produzida nas ilhas. No entanto, embora odocumento tivesse sido assinado pelos chefes de aldeia, talvez o conceito de exclusividade nofosse aceito, ou sequer compreendido pelos bandaneses: o fato que eles continuaram vendendosua noz-moscada para outros negociantes pelo mais alto preo oferecido conceito quecompreendiam muito bem.

    A reao dos holandeses foi implacvel. Uma frota, centenas de homens e o primeiro de vriosfortes de grandes dimenses apareceram nas ilhas de Banda com o objetivo de controlar ocomrcio de noz-moscada. Aps uma srie de ataques, contra-ataques, massacres, novoscontratos e novas violaes de tratados, os holandeses passaram a agir ainda maisenergicamente. Todos os arvoredos de noz-moscada foram destrudos, com exceo dos que sesituavam em torno dos fortes que eles haviam construdo. Aldeias bandanesas foram arrasadaspelo fogo, seus chefes executados e a populao remanescente escravizada por colonosholandeses levados para as ilhas para supervisionar a produo de noz-moscada.

    Depois disso, a nica ameaa que ainda pairava sobre o completo monoplio da VOC era apermanncia, em Run, a mais remota das ilhas de Banda, de ingleses que, anos antes, haviamassinado um tratado comercial com os chefes locais. Esse pequeno atol, onde as rvores de noz-moscada eram to profusas que se penduravam nos penhascos, tornou-se o cenrio de muitaslutas sangrentas. Em 1667, aps um cerco brutal, uma invaso holandesa e mais destruio dearvoredos de noz-moscada, os ingleses assinaram o Tratado de Breda, pelo qual abriram mo detodas as suas reivindicaes sobre a ilha de Run em troca de uma declarao formal dosholandeses abdicando de seus direitos ilha de Manhattan. Nova Amsterd converteu-se emNova York, e os holandeses ficaram com a noz-moscada.

    Apesar de todos os seus esforos, o monoplio dos holandeses sobre o comrcio da noz-

  • moscada e do cravo-da-ndia no durou. Em 1770 um diplomata francs contrabandeou mudas decravo-da-ndia das Molucas para a colnia francesa de Maurcio. De l a planta se espalhou portoda a costa leste da frica e, em especial, chegou a Zanzibar, onde rapidamente se tornou oprincipal produto de exportao.

    A noz-moscada, por outro lado, provou-se de cultivo extremamente difcil fora de sua terra deorigem nas ilhas de Banda. A rvore requer solo rico, mido, bem drenado, e clima quente emido, livre de sol e de ventos fortes. Apesar da dificuldade que os competidoresexperimentavam para cultivar a noz-moscada em outros lugares, os holandeses tomavam aprecauo de mergulhar nozes-moscadas inteiras em cal (hidrxido de clcio) antes de exportaras sementes, para evitar qualquer possibilidade de que elas brotassem. Mas os britnicosacabaram conseguindo introduzir rvores de noz-moscada em Cingapura e nas ndias Ocidentais.A ilha caribenha de Granada tornou-se conhecida como a ilha da Noz-Moscada e atualmente o maior produtor do condimento.

    Esse intenso comrcio de especiarias em escala mundial teria sem dvida continuado, no fosseo advento da refrigerao. Quando a pimenta, o cravo-da-ndia e a noz-moscada deixaram de sernecessrios como conservantes, a enorme demanda de piperina, eugenol, isoeugenol e das demaismolculas fragrantes dessas especiarias outrora exticas desapareceu. Hoje a pimenta e outroscondimentos ainda crescem na ndia, mas no so produtos de exportao importantes. As ilhasde Ternate e Tidore e o arquiplago de Banda, atualmente parte da Indonsia, esto maisdistantes que nunca. No mais frequentadas por grandes veleiros interessados em abarrotar seuscascos com cravo-da-ndia e noz-moscada, essas ilhotas cochilam ao sol quente, visitadas apenaspelos turistas ocasionais que exploram fortes holandeses em escombros ou mergulham entreprstinos recifes de coral.

    O fascnio exercido pelas especiarias coisa do passado. Ainda as apreciamos pelo gostosaboroso, picante, que suas molculas do nossa comida, mas raramente pensamos nas fortunasque construram, nos conflitos que provocaram e nas assombrosas proezas que inspiraram.

  • 2cido ascrbico

    A Era dos Descobrimentos foi movida pelo comrcio de molculas contidas nas especiarias, masfoi a falta de uma molcula, bastante diferente, que quase a encerrou. Mais de 90% da tripulaode Magalhes no sobreviveram sua circunavegao de 1519-1522 em grande parte porcausa do escorbuto, uma doena devastadora causada por uma deficincia da molcula do cidoascrbico, a vitamina C.

    Exausto e fraqueza, inchao dos braos e pernas, amolecimento das gengivas, equimoses,hemorragias nasais e bucais, hlito ftido, diarreia, dores musculares, perda dos dentes, afecesdo pulmo e do fgado a lista de sintomas do escorbuto longa e horrvel. A morte resulta emgeral de uma infeco aguda, como pneumonia, alguma outra doena respiratria ou, mesmo emjovens, de paradas cardacas. Um sintoma, a depresso, ocorre num estgio inicial, mas no sesabe ao certo se um efeito da doena propriamente dita ou uma resposta aos outros sintomas.Afinal, se voc se sentisse constantemente exausto, com feridas que no se curavam, gengivasdoloridas e sangrando, hlito malcheiroso e diarreia, e soubesse que o pior ainda estava por vir,no se sentiria deprimido tambm?

    O escorbuto uma doena antiga. Alteraes na estrutura ssea de restos mortais do Neolticoso consideradas compatveis com a doena, e hierglifos do antigo Egito foram interpretadoscomo se referindo a ela. Diz-se que a palavra escorbuto derivada do norreno, a lngua dosguerreiros e navegadores vikings que, do sculo IX em diante, partiam da Escandinvia paraatacar o litoral atlntico da Europa. Durante o inverno, a falta de frutas e verduras frescas ricasem vitamina devia ser comum a bordo dos navios e nas comunidades nrdicas. Supe-se que osvikings usavam a cocleria, um tipo de agrio rtico, quando viajavam para a Amrica passandopela Groenlndia. As primeiras descries concretas do que era provavelmente o escorbutodatam das Cruzadas, no sculo XIII.

    O escorbuto no marNos sculos XIV e XV, quando o desenvolvimento de jogos de velas mais eficientes e de naviosbem equipados tornou possveis as viagens mais longas, o escorbuto passou a ser comum no mar.As gals propelidas a remo, como as usadas por gregos e romanos, e os pequenos barcos a velados negociantes rabes sempre haviam permanecido bastante perto da costa. Essas embarcaesno eram suficientemente bem construdas para resistir s guas bravias e aos vagalhes do maraberto. Em consequncia, raramente se aventuravam longe do litoral e podiam se reabastecer deprovises a intervalos de dias ou semanas. O acesso regular a alimentos frescos significava queo escorbuto raramente se tornava um problema de vulto. No sculo XV, porm, as longas viagensocenicas em grandes navios a vela introduziram no s a Era dos Descobrimentos mas tambm a

  • dependncia de alimentos em conserva.Embarcaes maiores tinham de levar, alm de carga e armas, uma tripulao maior para lidar

    com os cordames e jogos de velas mais complicados, comida e gua para meses no mar. Oaumento do nmero de tombadilhos, de homens e da quantidade de mantimentos traduzia-seinevitavelmente em condies de vida precrias para a tripulao, que era obrigada a dormir eviver amontoada, com ventilao deficiente, e no subsequente aumento de doenas infecciosas erespiratrias. A consumpo (tuberculose) e a disenteria eram comuns, assim como, semdvida, os piolhos no cabelo e no corpo, a sarna e outras doenas contagiosas da pele.

    A comida habitual dos marinheiros no favorecia em nada sua sade. A dieta nas viagensmartimas era ditada por dois fatores principais. Em primeiro lugar, a bordo de navios demadeira era extremamente difcil conservar o que quer que fosse seco e livre de bolor. Amadeira dos cascos absorvia gua, pois o nico material impermeabilizante conhecido era opiche, uma resina pegajosa obtida como subproduto na fabricao de carvo, que era aplicado noexterior do casco. O interior dos cascos, em particular onde havia pouca ventilao, devia serextremamente mido. Muitos relatos de viagens em embarcaes a vela descrevem como o mofocrescia nas roupas, nas botas e cintos de couro, na roupa de cama e nos livros. A comida usualdo marinheiro era carne de vaca ou de porco salgada e uma espcie de bolacha feita de gua,farinha e sem sal, assada at ficar dura como pedra usada como substituto do po. Essasbolachas tinham a preciosa caracterstica de ser relativamente imunes ao mofo. Seu grau dedureza era tal que elas se mantinham consumveis por dcadas; em contrapartida, eraextremamente difcil mord-las, em especial para quem tinha as gengivas inflamadas pelo inciodo escorbuto. Frequentemente as bolachas de bordo eram infestadas por brocas, circunstnciaque os marinheiros viam na verdade com satisfao, pois os buracos cravados pelo insetoaumentavam a porosidade do alimento, tornando mais fcil mord-lo e mastig-lo.

    O segundo fator que governava a dieta nos navios era o temor do fogo. A madeira usada naconstruo das embarcaes e o uso do piche, altamente inflamvel, significavam a necessidadede uma constante diligncia para evitar incndios no mar. Por essa razo, o nico fogo permitidoa bordo era o da cozinha, e mesmo assim s quando o tempo estava relativamente bom. Aoprimeiro sinal de mau tempo, o fogo da cozinha era apagado e assim ficava at que a tempestadepassasse. Muitas vezes no se podia cozinhar durante vrios dias seguidos. Com isso, no erapossvel dessalgar devidamente a carne, fervendo-a em gua pelo nmero de horas necessrio; osmarinheiros ficavam tambm impedidos de tornar as bolachas de bordo pelo menos um poucomais palatveis mergulhando-as num ensopado ou num caldo quente.

    No incio de uma viagem, embarcavam-se mantimentos: manteiga, queijo, vinagre, po,ervilhas secas, cerveja e rum. Em pouco tempo, a manteiga estava ranosa, o po embolorado, aservilhas secas infestadas por brocas, o queijo duro e a cerveja azeda. Como nenhum dessesalimentos continha vitamina C, com frequncia sinais de escorbuto eram visveis meras seissemanas depois que o navio deixava o porto. Diante desse quadro, no espanta que as marinhasda Europa tivessem de recorrer coao para tripular seus navios.

    Os dirios de bordo das primeiras grandes viagens registram os efeitos do escorbuto na vida ena sade de marinheiros. Quando o explorador portugus Vasco da Gama contornou a ponta dafrica em 1497, uma centena de sua tripulao de 160 homens havia morrido de escorbuto. Hrelatos que falam de navios encontrados deriva no mar, com as tripulaes inteiras dizimadaspela doena. Estima-se que, durante sculos, o escorbuto foi responsvel por mais mortes no mar

  • do que todas as outras causas; mais que o total combinado de batalhas navais, pirataria,naufrgios e outras doenas.

    Espantosamente, j existiam remdios para o escorbuto nessa poca mas em geral eramdesconsiderados. Desde o sculo V, os chineses cultivavam gengibre em vasos a bordo de seusnavios. Outros pases do sudeste da sia que tinham contato com as embarcaes mercantes doschineses tiveram sem dvida acesso ideia de que frutas e hortalias frescas podiam aliviar ossintomas do escorbuto. Essa ideia deve ter sido transmitida aos holandeses e retransmitida porestes aos demais povos europeus, pois se sabe que, em 1601, a primeira frota da CompanhiaInglesa das ndias Orientais colheu laranjas e limes em Madagascar em seu caminho para oOriente. Essa pequena esquadra de quatro navios estava sob o comando do capito JamesLancaster, que levou consigo no Dragon, a nau capitnia, suco de limo em garrafas. Todos oshomens que apresentavam sintomas de escorbuto recebiam trs colheres de ch de suco de limoa cada manh. Na chegada ao cabo da Boa Esperana, no havia ningum a bordo do Dragonacometido pela doena, mas nos outros trs navios ela fizera uma devastao significativa.Assim, apesar do exemplo de Lancaster, quase um quarto do total de marinheiros que participoudessa expedio morreu de escorbuto e nenhuma dessas mortes ocorreu em sua nau capitnia.

    Cerca de 65 anos antes, os membros da tripulao da segunda expedio promovida peloexplorador francs Jacques Cartier a Newfoundland e ao Quebec haviam sido severamenteafetados pelo escorbuto, e muitos morreram. Um remdio sugerido pelos ndios uma infusode agulhas de uma confera foi tentado, e os resultados pareceram miraculosos. Consta que ossintomas se aplacaram quase da noite para o dia e a doena desapareceu rapidamente. Em 1593,sir Richard Hawkins, um almirante da marinha britnica, afirmou, com base em sua prpriaexperincia, que pelo menos dez mil homens haviam morrido de escorbuto no mar, mas que sucode limo teria sido um remdio de eficcia imediata.

    Relatos de tratamentos bem-sucedidos chegaram mesmo a ser publicados. Em 1617, na obraThe Surgeons Mate, John Woodall relatou a prescrio de suco de limo tanto para o tratamentoquanto para a preveno do escorbuto. Oitenta anos mais tarde, o dr. William Cockburnrecomendou frutas e verduras frescas em seu livro Sea Diseases, or the Treatise of their Nature .Outros remdios sugeridos, como vinagre, salmoura, canela e soro de leite, eram absolutamenteineficazes e possvel que tenham obscurecido a ao correta.

    Somente na metade do sculo seguinte os primeiros estudos clnicos controlados do escorbutoprovaram a eficcia do suco de frutas ctricas. Embora os nmeros envolvidos fossem muitopequenos, a concluso era bvia. Em 1747, James Lind, um cirurgio naval escocs embarcadon o Salisbury, escolheu, entre os marinheiros acometidos de escorbuto, 12 que apresentavamsintomas to parecidos quanto possvel para um experimento. Submeteu-os todos mesma dieta:no a usual, de carne salgada e bolacha dura, que esses doentes teriam achado muito difcil demastigar, mas mingau adoado, caldo de carne de carneiro, biscoitos aferventados, cevada, sagu,arroz, uvas, groselhas e vinho. A essa dieta baseada em carboidratos, Lind acrescentou vriossuplementos a serem ingeridos diariamente. Dois dos 12 marinheiros receberam cerca de um litrode cidra; dois receberam doses de vinagre; dois pobres coitados tiveram de tomar um elixir devitrilico (isto , cido sulfrico); dois receberam meio quartilho de gua do mar e dois tiveramde engolir uma mistura de noz-moscada, alho, sementes de mostarda, resina de mirra, cremor detrtaro1 e gua de cevada. Aos afortunados dois ltimos eram dadas duas laranjas e um limopara cada um.

  • Os resultados, imediatos e bvios, foram os que esperaramos hoje, com o conhecimento deque dispomos. Passados seis dias os homens que comiam as frutas ctricas estavam em plenaforma. Felizmente os outros dez foram dispensados a tempo de suas dietas de gua do mar, noz-moscada ou cido sulfrico e passaram a receber limes e laranjas tambm. Os resultados deLind foram publicados em A Treatise of Scurvy , mas transcorreram mais de 40 anos antes que amarinha britnica iniciasse a distribuio obrigatria de suco de limo a bordo de seus navios.

    Se um tratamento eficaz do escorbuto era conhecido, por que no era seguido na rotina?Lamentavelmente, apesar dessa comprovao, parece que o remdio para o escorbuto no erareconhecido ou no merecia crdito. Uma teoria muito em voga atribua a doena a uma dietacom excesso de carne salgada ou sem quantidade suficiente de carne fresca, no falta de frutase hortalias. Alm disso, havia um problema logstico: era difcil conservar frutas ctricas ousucos frescos por semanas a fio. Foram feitas tentativas de concentrar e preservar suco de limo,mas esses procedimentos demandavam muito tempo, eram caros e talvez no fossem eficientes,pois hoje sabemos que a vitamina C rapidamente destruda pelo calor e pela luz, e que suaquantidade em frutas e verduras reduzida quando estas ficam muito tempo armazenadas.

    Por causa das despesas e dos inconvenientes, os oficiais e mdicos navais, o almirantadobritnico e os armadores no conseguiam encontrar meios de cultivar verduras ou frutas ctricasem quantidade suficiente em navios com grandes tripulaes. Para isso, seria preciso subtrair umespao precioso carga. Frutas ctricas frescas ou em conserva eram caras, sobretudo setivessem de ser distribudas diariamente, como medida preventiva. A economia e a margem delucro ditavam as regras embora, a nossos olhos, essa parea ter sido uma falsa economia. Erapreciso embarcar nos navios uma tripulao que excedia sua capacidade, contando com umataxa de mortalidade de 30, 40 ou at 50%, provocada pelo escorbuto. Mesmo que as mortes nofossem muitas, a eficincia de uma tripulao acometida de escorbuto era notavelmente baixa.Sem contar o fator humano raramente considerado naqueles sculos.

    Outro elemento era a intransigncia das tripulaes em geral. Os marinheiros estavamhabituados dieta de bordo costumeira, e embora se queixassem da monotonia das refeies decarne salgada e bolacha que lhes eram impostas no mar, o que desejavam comer num porto eramuita carne fresca, po fresco, queijo e manteiga regados por uma boa cerveja. Mesmo quandohavia frutas e hortalias frescas disposio, a maioria deles no tinha interesse em verdurastenras e crocantes. Queriam carne e mais carne cozida, ensopada ou assada. Os oficiais, queem geral provinham de uma classe social mais alta, em que uma dieta mais rica e variada eracomum, consideravam normal e provavelmente interessante comer frutas e verduras num porto.No raro gostavam de experimentar os alimentos desconhecidos e exticos que podiam serencontrados nos lugares em que aportavam. Tamarindos, limas e outras frutas ricas em vitaminaC eram usadas na culinria local e eles, ao contrrio dos marinheiros, tendiam a prov-la. Porisso o escorbuto costumava ser um problema menor entre os oficiais dos navios.

    Cook: O escorbuto derrotadoJames Cook, da Real Marinha Britnica, foi o primeiro capito de navio a assegurar que suastripulaes ficassem livres do escorbuto. Por vezes o associam descoberta de antiescorbticos,como so chamados os alimentos que curam o escorbuto, mas na verdade seu feito residiu eminsistir na manuteno de nveis elevados de dieta e higiene a bordo de todas as suas

  • embarcaes. O resultado de seus padres meticulosos foi um nvel de sade extraordinariamentebom e baixa taxa de mortalidade em suas tripulaes. Cook ingressou na marinha relativamentetarde, aos 27 anos, mas seus nove anos anteriores de experincia navegando como oficial debarcos mercantes no mar do Norte e no Bltico, sua inteligncia e habilidade inata comonavegador se combinaram para lhe assegurar rpida promoo na hierarquia naval. Cook entrouem contato com o escorbuto em 1758, a bordo do Pembroke, em sua primeira viagem atravs doAtlntico rumo ao Canad para contestar o controle do rio So Loureno pelos franceses. Ele sesentiu alarmado diante da devastao causada por essa doena comum e consternado ao ver que amorte de tantos marinheiros, a perigosa reduo da capacidade de trabalho das tripulaes e ata perda real de navios costumavam ser aceitas como inevitveis.

    Seu trabalho de explorao e mapeamento das regies em torno da Nova Esccia, o golfo doSo Loureno e Newfoundland, e as observaes precisas que fez do eclipse do Sol causaramgrande impresso na Royal Society, entidade fundada em 1645 com o objetivo de fomentar oconhecimento natural. Foi-lhe confiado o comando do navio Endeavour e a misso de explorare mapear os mares do sul, investigar novas plantas e animais e fazer observaes astronmicasdo trnsito dos planetas pelo Sol.

    Razes menos conhecidas mas ainda assim imperativas dessa viagem de Cook e de outrassubsequentes eram de natureza poltica. Tomar posse de terras j descobertas em nome da Gr-Bretanha; reivindicar novas terras ainda por descobrir, entre elas a Terra Australis Incognita, ogrande continente meridional, e esperanas de encontrar uma Passagem Noroeste tudo issoestava na mente do almirantado. Se Cook foi capaz de levar a cabo tantos entre esses objetivos,isso se deveu em grande medida ao cido ascrbico.

    Considere o cenrio em 10 de junho de 1770, quando o Endeavour encalhou num banco decoral do Great Barrier Reef, pouco ao sul da atual Cooktown, no norte de Queensland, naAustrlia. Foi quase uma rematada catstrofe. A coliso se dera na mar cheia; o buraco que seabriu no casco exigia medidas drsticas. Para deixar o navio mais leve, a tripulao inteiraarremessou borda fora, com grande esforo, tudo de que podia prescindir. Durante 23 horasconsecutivas os homens acionaram as bombas enquanto a gua do mar penetrava inexoravelmenteno poro, puxando desesperadamente cabos e ncora numa tentativa de vedar o buraco com ummtodo provisrio que consistia em arrastar uma vela pesada para debaixo do casco. O incrvelesforo, a absoluta mestria na arte da navegao e a boa sorte preponderaram. Finalmente onavio se desprendeu do recife e foi levado praia para reparos. O Endeavour escapara porpouco, graas ao esforo de que uma tripulao exausta, acometida de escorbuto, no teria sidocapaz.

    Uma tripulao saudvel, eficiente, foi essencial para as realizaes de Cook em suas viagens.Esse fato foi reconhecido pela Royal Society quando ela lhe conferiu sua mais elevada honraria,a medalha de ouro Copley, no por suas proezas como navegador, mas por ter demonstrado que oescorbuto no era um companheiro inevitvel nas viagens ocenicas de longo curso. Os mtodosde Cook eram simples. Ele fazia questo de que todo o navio fosse mantido limpo, em especialos desvos apertados onde se alojavam os marinheiros. Todos eles eram obrigados a lavar suasvestes regularmente, arejar e secar sua roupa de cama quando o tempo o permitia, a fumigar entreos tombadilhos e, de maneira geral, a fazer jus ao termo ingls shipshape.2 Quando no erapossvel obter as frutas e as verduras frescas que ele considerava necessrias a uma dietaequilibrada, Cook exigia que seus homens comessem o chucrute que inclura nas provises do

  • navio. Sempre que havia oportunidade, o capito aterrava para se reabastecer e colher ervaslocais (valisnria, cocleria) ou plantas com que se podiam fazer tisanas.

    Essa dieta no era muito apreciada pela tripulao que, acostumada comida usual dosmarinheiros, relutava em experimentar qualquer novidade. Mas Cook era inflexvel. Ele e seusoficiais tambm aderiam dieta, e era graas a seu exemplo, autoridade e determinao que seseguia o regime. No h registro de que Cook tenha mandado alguma vez aoitar um homem porse recusar a comer chucrute ou valisnria, mas a tripulao sabia que o capito no hesitaria emprescrever o chicote para quem se opusesse s suas regras. Cook fazia uso tambm de umaabordagem mais sutil. Ele registrou que um chucrute preparado com plantas locais foi servidoprimeiramente apenas para os oficiais; em menos de uma semana os escales inferiores estavamreclamando sua parte.

    No h dvida de que o sucesso ajudou a convencer a tripulao de Cook de que a estranhaobsesso de seu capito pelo que eles comiam valia a pena. Ele nunca perdeu um s homem parao escorbuto. Em sua primeira viagem, que durou quase trs anos, um tero dos marinheirosmorreu aps contrair malria ou disenteria na Batvia (hoje Jacarta), nas ndias OrientaisHolandesas (hoje Indonsia). Em sua segunda viagem, de 1772 a 1775, perdeu um membro datripulao para a doena mas no para o escorbuto. Na mesma viagem, no entanto, atripulao de um outro navio que o acompanhava foi gravemente afetada pelo problema. Ocomandante Tobias Furneaux foi severamente repreendido e mais de uma vez instrudo por Cooksobre a necessidade do preparo e administrao de antiescorbticos. Graas vitamina C, amolcula do cido ascrbico, Cook foi capaz de levar a cabo uma impressionante srie defaanhas: a descoberta das ilhas Hava e da Grande Barreira de Recifes, a primeiracircunavegao da Nova Zelndia, o primeiro mapeamento da costa noroeste do Pacfico, e oprimeiro cruzamento do Crculo Atlntico.

    Uma pequena molcula num grande papelQue pequeno componente esse que teve to grande efeito no mapa do mundo? A palavravitamina vem da contrao de duas palavras, vital (necessrio) e amina (um composto orgniconitrogenado originalmente, pensava-se que todas as vitaminas continham pelo menos umtomo de nitrognio). O C de vitamina C indica que ela foi a terceira vitamina a ser identificada.

  • Estrutura do cido ascrbico (ou vitamina C)

    Esse sistema de denominao tem inmeras deficincias. As vitaminas B e a vitamina H so asnicas que realmente contm nitrognio. A vitamina B original, conforme se descobriu maistarde, consiste em mais de um componente, da vitamina B1, vitamina B2 etc. Alm disso,descobriu-se que vrias vitaminas supostamente diferentes eram de fato o mesmo composto, e por isso que no h nenhuma vitamina F nem G.

    Entre os mamferos, somente os primatas, os ratos de cobaia e o morcego-da-fruta indianorequerem vitamina C em sua dieta. Em todos os demais vertebrados o cachorro ou o gato dafamlia, por exemplo o cido ascrbico fabricado no fgado a partir da simples glicose doacar por meio de uma srie de quatro reaes, cada uma catalisada por uma enzima. Por isso ocido ascrbico no uma necessidade diettica para esses animais. Presumivelmente, em algumponto ao longo do percurso evolucionrio, os seres humanos perderam a capacidade de sintetizarcido ascrbico a partir de glicose, o que pode ter decorrido da perda do material gentico quenos permitia fazer gulonolactona oxidase, a enzima necessria para o passo final dessasequncia.

    Uma srie semelhante de reaes, numa ordem um pouco diferente, a base do mtodosinttico moderno (tambm a partir da glicose) para a preparao industrial do cido ascrbico.O primeiro passo uma reao de oxidao, que significa acrscimo de oxignio a umamolcula, ou remoo de hidrognio, ou possivelmente ambas as coisas. No processo inverso,conhecido como reduo, h remoo de oxignio de uma molcula, ou acrscimo de hidrognio,ou, mais uma vez, possivelmente ambas as coisas.

  • O segundo passo envolve reduo na extremidade da molcula de glicose oposta da primeirareao, formando um composto conhecido como cido gulnico. A etapa seguinte da sequncia,o terceiro passo, envolve a formao pelo cido gulnico de uma molcula cclica ou em anel naforma de uma lactona. O passo final na oxidao produz a ligao dupla da molcula de cidoascrbico. a enzima para esse quarto e ltimo passo que falta ao homem.

    As tentativas iniciais de isolar e identificar a estrutura qumica da vitamina C fracassaram. Umdos maiores problemas que, embora o cido ascrbico esteja presente em quantidadesrazoveis nos sucos dos ctricos, muito difcil separ-lo dos muitos outros acares esubstncias semelhantes ao acar tambm presentes nesses sucos. No surpreende, portanto, queo isolamento da primeira amostra pura de cido ascrbico tenha sido feito no a partir deplantas, mas de uma fonte animal.

    Em 1928, Albert Szent-Gyrgyi, um mdico e bioqumico hngaro que trabalhava naUniversidade de Cambridge, na Inglaterra, extraiu menos de um grama de material cristalino deum crtex adrenal bovino, a parte interna adiposa de um par de glndulas endcrinas situadoperto dos rins da vaca. Presente em apenas cerca de 0,03% por peso em sua fonte, a princpio ocomposto no foi reconhecido como vitamina C. Szent-Gyrgyi pensou que havia isolado umnovo hormnio semelhante ao acar e sugeriu para ele o nome ignose, ose sendo a terminaousada para nomes de acares (como em glicose e frutose), e ig significando que ele ignorava aestrutura da substncia. Quando o segundo nome sugerido por Szent-Gyrgyi, Godnose, tambmfoi rejeitado pelo editor do Biochemical Journal (que obviamente no partilhava de seu senso dehumor), ele se contentou com uma designao mais sbria: cido hexurnico. A amostra obtidapelo bioqumico hngaro tinha pureza suficiente para permitir a realizao de uma anlisequmica meticulosa, que mostrou seis tomos de carbono na frmula, C6H8O6, por isso o hex decido hexurnico. Quatro anos mais tarde, foi demonstrado que cido hexurnico e vitamina Ceram, como Szent-Gyrgyi passara a suspeitar, a mesma coisa.

    O passo seguinte na compreenso do cido ascrbico foi determinar sua estrutura, trabalho quea tecnologia atual poderia fazer com relativa facilidade, usando quantidades muito pequenas, masque, na dcada de 1930, era quase impossvel na falta de grandes quantidades. Mais uma vez asorte sorriu para Szent-Gyrgyi. Ele descobriu que a pprica hngara era particularmente rica emvitamina C, e, mais importante, era desprovida de outros acares que haviam tornado toproblemtico o isolamento do componente em sucos de fruta. Aps uma semana de trabalho elehavia separado mais de um quilo de cristais de vitamina C pura, mais que o suficiente para queseu colaborador, Norman Haworth, professor de qumica na Universidade de Birmingham, desseincio bem-sucedida determinao da estrutura do que agora Szent-Gyrgyi e Haworth haviam

  • passado a chamar de cido ascrbico. Em 1937 a importncia dessa molcula foi reconhecidapela comunidade cientfica. Szent-Gyrgyi recebeu o Prmio Nobel de Medicina por seu trabalhosobre a vitamina C, e Haworth, o Prmio Nobel de Qumica.

    Embora o cido ascrbico tenha continuado a ser investigado por mais 60 anos, ainda notemos plena certeza de todos os papis que ele desempenha no corpo. vital para a produo decolgeno, a protena mais abundante no reino animal, encontrada em tecidos conectivos que ligame sustentam outros tecidos. A falta de colgeno explica, claro, alguns dos primeiros sintomas doescorbuto: o amolecimento das gengivas e a perda dos dentes. Diz-se que dez miligramas decido ascrbico por dia j so suficientes para prevenir o aparecimento dos sintomas doescorbuto, embora nesse nvel provavelmente exista um escorbuto subclnico (deficincia devitamina C no nvel celular, mas sem sintomas flagrantes). A pesquisa em reas to variadasquanto a imunologia, a oncologia, a neurologia, a endocrinologia e a nutrio continuadescobrindo o envolvimento do cido ascrbico em diversas vias bioqumicas.

    H muito que essa pequena molcula est envolta em controvrsia e mistrio. A marinhabritnica adiou a implementao das recomendaes de John Lind por escandalosos 42 anos. Aoque parece, a Companhia das ndias Orientais negava alimentos antiescorbticos a seusmarinheiros no intuito de mant-los fracos e controlveis. Hoje, est em discusso se megadosesde vitamina C podem ter algum papel no tratamento de uma variedade de doenas. Em 1954Linus Pauling ganhou o Prmio Nobel de Qumica em reconhecimento por seu trabalho sobre aligao qumica, e em 1962 foi novamente contemplado com o Prmio Nobel da Paz por suasatividades contra o teste de armas nucleares. Em 1970 esse detentor de dois prmios Nobellanou a primeira de uma srie de publicaes sobre o papel da vitamina C na medicina,recomendando doses altas de cido ascrbico para a preveno e o tratamento de resfriados,gripes e cncer. Apesar da eminncia de Pauling como cientista, o establishment mdico emgeral no aceitou suas ideias.

    A dose diria recomendada de vitamina C para um adulto geralmente estabelecida em 60miligramas, mais ou menos a que est presente numa laranja pequena. Essa dose variou ao longodo tempo e em diferentes pases, o que talvez indique que no compreendemos o papelfisiolgico completo dessa molcula nem to simples. Concorda-se em geral que uma dose diriamais elevada necessria durante a gravidez e a amamentao. A dose diria mais alta arecomendada para os idosos, porque na velhice frequentemente a ingesto de vitamina C reduzida em consequncia de uma dieta pobre ou por falta de interesse em cozinhar e comer.Registram-se casos de escorbuto entre idosos em nossos dias.

    Uma dose diria de 150 miligramas de cido ascrbico corresponde em geral a um nvel desaturao, e uma ingesto maior pouco contribui para aumentar o contedo da substncia noplasma sanguneo. Como o excesso de vitamina C eliminado pelos rins, afirmou-se que o nicobenefcio das megadoses consiste em aumentar os lucros das companhias farmacuticas. Parece,no entanto, que em circunstncias como infeces, febre, recuperao de ferimentos, diarreia euma longa lista de enfermidades crnicas, doses mais elevadas podem de fato ser necessrias.

    Continua-se a pesquisar o papel da vitamina C em mais de 40 afeces: bursite, gota, doenade Crohn, esclerose mltipla, lceras gstricas, obesidade, osteoartrite, infeces por Herpessimplex, mal de Parkinson, anemia, doena cardaca coronria, doenas autoimunes, abortosespontneos, febre reumtica, cataratas, diabetes, alcoolismo, esquizofrenia, depresso, mal deAlzheimer, infertilidade, resfriado, gripe e cncer, para citar apenas algumas. A lista mostra bem

  • por que essa molcula foi por vezes qualificada de a juventude num frasco, embora osresultados das pesquisas ainda no confirmem todos os milagres j propalados.

    Fabricam-se anualmente mais de 50 mil toneladas de cido ascrbico. Produzidaindustrialmente a partir da glicose, a vitamina C sinttica absolutamente idntica, em todos osaspectos, natural. No havendo nenhuma diferena fsica ou qumica entre o cido ascrbiconatural e o sinttico, no h razo para comprar uma verso cara, comercializada como vitaminaC natural, suavemente extrada dos puros frutos da roseira da rara Rosa macrophylla, cultivadanas encostas prstinas do baixo Himalaia. Mesmo que o produto realmente proviesse dessafonte, se vitamina C, exatamente igual quela fabricada s toneladas a partir de glicose.

    Isso no quer dizer que plulas de vitamina industrializada possam substituir a vitamina naturalpresente nos alimentos. Os 70mg de cido ascrbico contidos numa plula que se engole talvezno produzam os mesmos benefcios que os 70mg que ingerimos ao comer uma laranja detamanho mdio. possvel que outras substncias encontradas nas frutas e nos vegetais, como asque so responsveis por suas cores brilhantes, auxiliem a absoro da vitamina C ou acentuemseu efeito de alguma maneira ainda desconhecida.

    O principal uso comercial da vitamina C atualmente como conservante de alimentos, caso emque ela atua como antioxidante e agente antimicrobiano. Nos ltimos anos, passou-se a ver osconservantes com maus olhos. No contm conservantes, apregoam as embalagens de muitosalimentos. A verdade, porm, que sem conservantes muitos dos produtos que comemos teriammau gosto, mau cheiro, seriam intragveis ou at nos matariam. Se os conservantes qumicosdesaparecessem, o desastre para nossos estoques de alimento seria to grande quanto se nohouvesse mais refrigerao ou congelamento.

    As conservas de frutas so seguras se forem enlatadas a 100, porque em geral so cidas obastante para impedir o crescimento do micrbio letal Clostridium botulinum. Vegetais quecontenham menos acidez e carnes devem ser processados a temperaturas mais elevadas, quematem esse micro-organismo comum. Quando se faz conserva em casa, usa-se frequentemente ocido ascrbico como antioxidante, para evitar o escurecimento. Alm disso, ele aumenta aacidez e protege contra o botulismo, nome dado ao envenenamento alimentar causado pela toxinaproduzida pelo micrbio. O Clostridium botulinum no sobrevive dentro do corpo humano. Atoxina que ele produz na comida inadequadamente conservada que perigosa, embora somentese for ingerida. Quantidades muito pequenas da toxina purificada injetadas sob a peleinterrompem pulsos nervosos e induzem paralisia muscular. O resultado um apagamentotemporrio das rugas da o cada vez mais popular tratamento com Botox.

    Embora os qumicos tenham sintetizado muitas substncias qumicas txicas, foi a natureza quecriou as mais mortais. A toxina botulnica A, produzida por Clostridium botulinum, o maisletal veneno conhecido, um milho de vezes mais mortfero que a diox