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REVISTA REDAÇÃO PROFESSOR: Lucas Rocha DISCIPLINA: Redação DATA: 06/07/2014 ————————————————————————————————————————————— 1 27

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REVISTA REDAÇÃO

PROFESSOR: Lucas Rocha

DISCIPLINA: Redação

DATA: 06/07/2014

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Cidades do futuro (DÉBORA SOTTO)

Exemplos de boa gestão urbana, planejamento urbanístico e Planos Diretores pelo mundo

O DESENVOLVIMENTO urbano sustentável, compreendido como um ideal de gestão e planejamento das cidades capaz de aliar o crescimento econômico à inclusão social e à proteção e preservação do meio ambiente, natural e construído, de modo a atender as necessidades das gerações presentes, sem comprometer os interesses e as necessidades das gerações futuras, tem influenciado a elaboração, a execução e o controle de planos urbanísticos em todo o mundo, a partir dos parâmetros fixados pela Agenda 21, elaborada na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento em 1992, e pela Agenda Habitat, firmada na Conferência da ONU para os Assentamentos Humanos em Istambul no ano de 1996.

A cidade sustentável - economicamente próspera, socialmente inclusiva, ecologicamente equilibrada, gerida com padrões de governança eficientes e efetivos, mediante ampla participação popular - é um modelo global de gestão e planejamento urbano que comporta, entretanto, grandes variações locais, determinadas pelas peculiaridades geográficas, demográficas, históricas, políticas, culturais e econômicas de cada cidade.

Assim, cidades tão diferentes quanto Kuala Lumpur, na Malásia, Medellín, na Colômbia, e São Luiz do Paraitinga, no Brasil, puderam elaborar planos urbanísticos sob o viés comum da sustentabilidade, obtendo, entretanto, produtos finais absolutamente distintos, porque adaptados a suas peculiares necessidades e objetivos. São três exemplos interessantes de boa gestão e de planejamentos urbanos que merecem ser conhecidos, não só pela engenhosidade dos planos urbanísticos em si mesmo considerados, como também pelos resultados efetivos obtidos por essas três cidades na execução de seus planos.

Kuala Lumpur, capital da Malásia, elaborou, com a participação da população local, um "Plano Estrutural", válido de 2004 até 2020, com o objetivo de tornar-se uma "cidade de classe mundial" (world-class city), ou "cidade global", apta a atrair investimentos e profissionais de alto nível de maneira competitiva em relação a outras cidades globais, com ênfase em atividades econômicas voltadas à geração de conhecimento, tais como: biotecnologia, desenvolvimento de software e hardware, tecnologia da informação e sistemas de internet, propaganda e serviços profissionais de alto nível, de maneira alinhada ao plano nacional de desenvolvimento da Malásia, Visão 2020 (Vision 2020).

EXEMPLOS

Outras cidades - sobretudo na Ásia e na África - têm elaborado planos de desenvolvimento urbano especificamente voltados à obtenção do status de "cidade global", em sua maioria envolvendo intervenções urbanísticas de grande porte, com ênfase na reformulação radical do desenho urbano e na implantação de infraestrutura de transportes e comunicações

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voltados ao atendimento das necessidades do capital globalizado, projetos estes executados literalmente "a ferro e fogo", mediante o despejo forçado da população pobre e o incremento da segregação socioespacial urbana. É o que ocorreu, por exemplo, em Xangai, na China.

BÚSSOLA

A Malásia é um país localizado no Sudeste Asiático, criado em 1963, pela fusão de Malaya, Cingapura, Sabah e Sarawak. Cingapura separou-se da Malásia, tornando-se independente no ano de 1965. É uma monarquia parlamentarista bicameral que, de maneira semelhante a outras ex-colônias britânicas, adota um sistema jurídico baseado no Common Law inglês. A Malásia organiza-se sob a forma de um Estado Federado, composto por 13 Estados e Territórios Federais, entre eles as cidades de Kuala Lumpur, Putrajaya e Labuan. Sua população, de cerca de 26,6 milhões de habitantes (2006), é majoritariamente urbana, multiétnica, com grande diversidade linguística e religiosa. A Malásia tem Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 312,5 bilhões (2013), sendo 83% dele correspondente à receita de exportações, e Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0.769, o que coloca o país na 64ª posição entre 187 países e territórios.

Fontes: Banco Mundial e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

O Plano Estrutural de Kuala Lumpur, entretanto, destaca-se dos demais, porque objetiva fixar a capital da Malásia como uma cidade global sustentável, por meio da realização de cinco metas fundamentais: (1) destacar o papel de Kuala Lumpur como um centro financeiro e comercial internacional; (2) criar uma estrutura urbana eficiente e equitativa; (3) destacar a boa qualidade de vida na cidade, tanto do ponto de vista social quanto do ponto de vista ambiental, para as presentes e futuras gerações; (4) criar uma imagem e identidade próprias da cidade, adequadas ao seu clima tropical e população multiétnica; (5) ter uma governança eficiente e efetiva, de acordo com os parâmetros da Agenda Habitat.

Segundo o Relatório State of the World's Cities 2010/2011, do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos - ONU/HABITAT - o Plano Estrutural de Kuala Lumpur tem um perfil efetivamente inclusivo, porque prioriza a equidade social, ao lado da prosperidade econômica e da preservação ambiental.

O Plano de Kuala Lumpur define-se como "Estrutural", porque se limita a traçar diretrizes gerais de desenvolvimento urbano, a serem posteriormente detalhadas e concretizadas por meio de outros planos e projetos de alcance local. A cidade de Kuala Lumpur compõe uma grande aglomeração urbana que se estende por uma área de 4 mil km², englobando o Vale Klang, grande parte do distrito de Kuala Langat e a porção do distrito de Sepang onde se localiza o Aeroporto Internacional

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(KLIA). A capital tem aproximadamente 1,6 milhões de habitantes, enquanto a aglomeração urbana como um todo reúne cerca de 7,6 milhões de pessoas.

Um dos principais projetos de desenvolvimento para a aglomeração urbana de Kuala Lumpur, lançado no ano de 1996, é o Super Corredor Multimídia - Multimedia Super Corridor (MSC): um corredor urbano que se estende por uma área de 15 x 50 km², do Aeroporto Internacional (KLIA), ao sul, até o Centro da cidade de Kuala Lumpur, ao norte. Dotado de infraestrutura de transporte, internet, telecomunicações, serviços e utilidades urbanas de ponta, que se somam a um pacote governamental de benefícios e incentivos concedidos para as empresas ali instaladas, o Corredor tem dois centros estratégicos: Cyberjaya, o centro multimídia, e Putrajaya, novo centro administrativo da Malásia. Abrange ainda seis outras centralidades urbanas: o Aeroporto Internacional; a Cyber Village, para desenvolvimento industrial de médio e pequeno portes; a High-Tech Village, para o desenvolvimento industrial de alta tecnologia; o Tele-Suburb, para projetos inteligentes de habitação e educação; e o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento, para instituições acadêmicas e pesquisa corporativa.

A mudança da administração federal para Putrajaya e o desenvolvimento das demais centralidades componentes da aglomeração urbana resultou em uma dispersão substancial das funções da capital para outras áreas fora de seu território. Tal circunstância não passou despercebida para o Plano Estrutural, que contempla diretrizes específicas, voltadas à coordenação de Kuala Lumpur com as demais administrações locais e integrantes da aglomeração urbana e agências governamentais.

PERFIL

O arquiteto colombiano Alejandro Echeverri, formado pela Universidade Pontifícia Bolivariana (UPB) de Medellín, realizou estudos avançados para optar pelo doutorado em Urbanismo na Escola Técnica Superior de Arquitetura de Barcelona (ETSAB). Um dos principais idealizadores do Urbanismo Social, Echeverri atuou como diretor da Empresa de Desenvolvimento Urbano de Medellín (EDU), de 2004 a 2005, e como diretor de Projetos Urbanos da mesma cidade, de 2005 a 2008. É hoje diretor do Centro de Estudos Urbanos e Ambientais da Universidade de EAFIT (Urbam).

Fonte: http://www.sociedadcolombianadearquitectos.org/per les/AE.pdf.

ACONTECEU

De 5 a 11 de abril de 2014, a cidade de Medellín foi palco do VII Fórum Urbano Mundial: evento bianual convocado pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU/HABITAT) para o exame das questões mundiais relativas à urbanização e seus impactos sobre as cidades, comunidades, economia, mudanças climáticas e políticas públicas. Com 22 mil participantes, entre representantes de governos na esfera nacional, regional e local, Organizações Não Governamentais (ONGs), associações, profissionais, empresas, fundações, mídia, universidades, institutos de pesquisa e outras organizações e agências internacionais, o VII Fórum Urbano Mundial teve como tema a Equidade Urbana no Desenvolvimento - Cidades para a Vida. Foram ainda discutidas a elaboração da Agenda de Desenvolvimento Pós-2015, acordada na Rio+20, e a revisão da Agenda Habitat, a ser ultimada na Conferência Habitat III da Organização das Nações Unidas, prevista para 2016. Mais informações sobre o VII Fórum Urbano Mundial podem ser obtidas no site:

http://wuf7.unhabitat.org/

MEDELLÍN

Diversamente de Kuala Lumpur, que traçou seu Plano Estrutural tendo por meta a obtenção do status de "cidade global", a cidade de Medellín, na Colômbia, concebeu, no fim dos anos 1990, um plano de desenvolvimento urbano centrado na priorização das áreas mais pobres, que, por seu sucesso no combate à violência urbana e melhora nos indicadores sociais da cidade, é hoje uma referência internacional. Medellín, o centro industrial da Colômbia, é a segunda maior cidade do país, atrás apenas da capital, Bogotá. De maneira semelhante ao ocorrido em outros centros urbanos latino-americanos, por conta do êxito rural causado pela explosão da violência e do desemprego no campo, a população de Medellín quadruplicou-se entre as décadas de 1950 e 1980, passando de 360 mil para 15 milhões de habitantes, trazendo como principal consequência a expansão desordenada da cidade, pela formação de numerosos assentamentos subnormais em áreas ocupadas ilegalmente na periferia.

Entre as décadas de 1980 e 1990, a cidade foi dominada pela violência de grupos criminosos ligados ao tráfego de drogas, como o Cartel de Medellín, e de grupos guerrilheiros, que expandiram a luta armada do meio rural para o meio urbano. Com a escalada da violência urbana, Medellín passou por grave desintegração social, institucional e territorial, com a apropriação de porções inteiras do território da cidade por grupos criminosos, que mantinham seus domínios territoriais lançando mão não apenas de extrema violência e terror, mas também da corrupção e do aliciamento de políticos, administradores e policiais. O desmantelamento do Cartel de Medellín e o relativo sucesso das medidas nacionais de combate às guerrilhas reduziram significativamente o número de homicídios no correr dos anos 1990 e início dos anos 2000, mas não a ponto de retirar de Medellín o posto da mais violenta entre as grandes cidades sul-americanas.

A partir de 2004, na gestão do então recém-eleito prefeito Sergio Fajardo, a cidade de Medellín passou a implementar o Plano de Desenvolvimento Municipal designado "Medellín la más educada", centrado na diminuição das desigualdades sociais e no combate à violência urbana.

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FIQUE POR DENTRO

"Resiliência", segundo o relatório "Povos Resilientes Planeta Resiliente: Um Futuro Digno de Escolha", do Painel de Alto Nível do Secretário-Geral das Nações Unidas sobre Sustentabilidade Global, é "a capacidade de lidar com a mudança climática e os desastres naturais, particularmente aqueles associados a secas, aumento no nível do mar, aumento das temperaturas e episódios climáticos extremos".

CURIOSIDADE

São Luiz do Paraitinga é a cidade em que nasceu, em 5 de agosto de 1872, o médico Oswaldo Cruz. Como fundador do Instituto Soroterápico Nacional - hoje, Fundação Oswaldo Cruz - e diretor de Saúde Pública da cidade do Rio de Janeiro, Oswaldo Cruz promoveu inéditas campanhas de saneamento contra a febre bubônica e a febre amarela, bem como a primeira campanha de vacinação em massa na história do País, contra a varíola. Eleito prefeito de Petrópolis em 1915, elaborou um plano de urbanização que, por sua morte prematura, no ano de 1917, não chegou a ver implantado. A sobreposição dos papéis de sanitarista e urbanista condiz com o espírito da época, em que predominava o urbanismo sanitarista, que procura orientar a organização do espaço urbano por medidas higienistas e de combate à proliferação de doenças.

Fonte: http://portal. ocruz.br/pt-br

Outro olho ilustre de São Luiz do Paraitinga é o geógrafo Aziz Nacib Ab'Saber (1924-2012), professor emérito da FFLCH-USP e presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Pioneiro em seu ativismo pela conservação da natureza, ele trabalhou como presidente do Condephaat, pelo tombamento da Serra do Mar, formalizado pelo órgão de preservação estadual em 1986.

Fonte: http://www.iea.usp.br/noticias/azizabsaber.html

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

No contexto desse Plano de Desenvolvimento Municipal - claramente orientado pelo princípio do desenvolvimento sustentável - foram elaborados e implementados, com ativa participação popular em todo o processo, os chamados "Projetos Urbanos Integrais": instrumentos de planejamento e intervenção urbanística aplicados às áreas da cidade dotadas dos piores índices de pobreza, segregação e violência, com o objetivo de induzir processos de integração e igualdade social por meio da articulação de programas habitacionais com a implantação de espaços públicos e investimentos massivos em transporte e educação.

Essa iniciativa, designada Urbanismo Social, teve como um dos seus principais idealizadores o arquiteto colombiano Alejandro Echeverri e logrou reduzir drasticamente os índices de violência urbana da cidade, elevando sensivelmente a qualidade de vida de seus habitantes. De cidade mais violenta da América do Sul no início dos anos 1990, Medellín é hoje vista como um case internacional de sucesso de inclusão social e combate à violência urbana, servindo como referência para projetos de renovação e reabilitação urbanística em todo o mundo, inclusive no Brasil, como é o caso do Projeto de Urbanização da Favela do Alemão, no Rio de Janeiro, cujo teleférico foi claramente inspirado pelo Metrocable de Medellín.

BRASIL

São Luiz do Paraitinga é uma cidade paulista localizada no Vale do Paraíba, a cerca de 170 km de São Paulo. Com pouco mais de 10 mil habitantes, segundo dados do Censo de 2010, ela reúne o maior acervo arquitetônico colonial do Estado de São Paulo, com 437 edificações preservadas em área urbana, tombadas pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat).

Localizada no Núcleo Santa Virgínia do Parque Estadual da Serra do Mar, São Luiz do Paraitinga conta com cinco trilhas ecológicas, cachoeiras, quedas d'água e área para prática de rafting. Pelo seu patrimônio ambiental, a cidade tem sido um destino preferencial para o ecoturismo em São Paulo. A localidade também se destaca por ter preservado manifestações populares tradicionais, como a Festa do Divino Espírito Santo e o Carnaval de Marchinhas, atraindo, também por esse motivo, grande número de turistas todos os anos.

Por ter menos de 20 mil habitantes, São Luiz do Paraitinga não estaria, a princípio, obrigada a elaborar Plano Diretor. Entretanto, por ter sido alçada à condição de Estância Turística no ano de 2002, impôs-se a elaboração do Plano por força do Estatuto da Cidade - Lei Federal no 10.237/2001, que traça as diretrizes da política urbana brasileira, de observância obrigatória pelos municípios em todo o País.

O Plano Diretor de São Luiz do Paraitinga começou a ser discutido, com ampla participação popular, no ano de 2006, em um processo que contou com a assessoria da Fundação para o Desenvolvimento da Universidade do Estado de São Paulo (Fundunesp), sendo aprovado, na forma de lei municipal, somente no fim de 2009.

Trata-se de um Plano Diretor essencialmente Participativo, que busca promover a gestão democrática da cidade, por meio de instrumentos como audiências públicas, iniciativa popular para projetos de lei e instituição de Conselhos Municipais formados por representantes do Poder Público e da sociedade civil. Ele se propõe ainda a promover o desenvolvimento da

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cidade, com base nos três pilares da sustentabilidade: crescimento econômico, inclusão social e preservação ambiental, determinando, entre outras medidas, a criação de áreas de preservação ambiental, zoneamento agroecológico, demarcação de áreas preferenciais para habitação de interesse social equipamentos públicos, por meio das Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis) e das Zonas de Projetos Especiais.

"A reação da população de São Luiz do Paraitinga não só no enfrentamento imediato da tragédia, como também no

processo de reconstrução da cidade, tornou-se um exemplo nacional - e talvez - internacional de resiliência urbana."

Na passagem do ano de 2009 para 2010, antes mesmo da sanção do Plano Diretor pelo prefeito, devido a um volume extraordinário de chuvas, o Rio Paraitinga subiu 12 metros, inundou a cidade, devastando o centro histórico e deixando centenas de pessoas desalojadas.

A reação da população de São Luiz do Paraitinga não só no enfrentamento imediato da tragédia, como também no processo de reconstrução da cidade, tornou-se um exemplo nacional - e talvez - internacional de resiliência urbana. Os trabalhos de reconstrução da cidade, conduzidos com o auxílio de verbas federais e estaduais, têm sido coordenados pelo Centro de Reconstrução Sustentável (Ceresta), mediante ampla participação popular, seja por meio de audiências públicas e fóruns de discussão, seja por meio da atuação dos Conselhos Municipais criados pelo Plano Diretor nas áreas de Planejamento, Meio Ambiente, Preservação do Patrimônio Cultural e Turismo.

Assim, quatro anos após a tragédia, as obras de recuperação da cidade estão praticamente concluídas, e São Luiz do Paraitinga voltou a receber um número crescente de turistas, novamente atraídos pelo seu patrimônio arquitetônico restaurado - agora tombado também pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 2012, por suas reservas naturais e pelas festas tradicionais.

ANÁLISE

Por tudo o que examinamos, é possível concluir que os três planos urbanísticos "sustentáveis" aqui tratados - o Plano Diretor Participativo, de São Luiz do Paraitinga, os Planos Urbanos Integrais, de Medellín, e o Plano Estrutural de Kuala Lumpur - resultaram na implementação de práticas urbanas virtuosas não só por terem sido elaborados com fundamento no princípio do desenvolvimento urbano sustentável, mas também porque contaram com a ativa e efetiva participação da população local.

REFERÊNCIAS

CORRALES, Diego. MARTÍN, Gerard (editores). Medellín. Transformación de una ciudad. Medellín: Alcadía de Medellín (2008-2011); Banco Interamericano de Desarrollo, 2011. ECHEVERRI, Alejandro; ORSINI, Francesco M. Informalidad y Urbanismo Social en Medellín. Revista Sostenible?Universitat Politécnica de Catalunya - BarcelonaTech. 2011, n. 12. p.11-24. DL: B.255102-2006. UN-HABITAT. State of the worl's cities 2010-2011. Bridging the urban divide. London - Sterling, VA: Earthscan, 2008. UNITED NATIONS. United Nations secretary-General's high-level panel on Global sustainability. Resilient People, Resilient Planet: A future worth choosing. New York: United Nations, 2012. http://www.acervodigital.unesp.br/handle/123456789/62555 Consultado em 7/5/2014. http://www.dbkl.gov.my/pskl2020/english/index.htm Consultado em 6/5/2014. http://www.iea.usp.br/noticias/azizabsaber.html Consultado em 6/5/2014. http://portal. ocruz.br/pt-br/content/oswaldo-cruz Consultado em 7/5/2014. http://www.saoluizdoparaitinga.sp.gov.br Consultado em 6/5/2014 http://www.sociedadcolombianadearquitectos.org/per les/AE.pdf Consultado em 6/5/2014 http://www.undp.org.my/page.php?pid=53&menu=sub&title=Malaysia_Facts_&_Figures Consultado em 6/5/2014 http://www.worldbank.org/en/country/malaysia/overview Consultado em 6/5/2014 http://wuf7.unhabitat.org/ Consultado em 6/5/2014

DEBORA SOTTO é mestre profissional em Direito Internacional do Meio Ambiente pela Universidade de Limoges, doutoranda em Direito Urbanístico pela PUC-SP e pesquisadora do Grupo de Pesquisa Meio Ambiente Urbano da mesma instituição, além de

procuradora do Município de São Paulo. Revista GEOGRAFIA, Julho de 2014.

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O QUE É SER DE ESQUERDA HOJE NO BRASIL?

Desmascarar situações de opressão e injustiça tidas como “naturais” (PAUL SINGER)

Como as configurações políticas mudam incessantemente, adjudicar a determinada facção o papel de representante único da esquerda num país tão grande e variado não se justifica. Ser de esquerda hoje no Brasil é lutar pela democracia tendo em vista a plena realização de seus valores aqui e alhures

A ESQUERDA brasileira não nasceu ontem. Sua história remonta ao início do século XX, com a vinda de farta imigração europeia a partir da proibição do tráfico negreiro em 1850, logo seguida da aprovação de leis como a do Ventre Livre e dos Sexagenários, que visavam à abolição da escravatura, alcançada só em 1888 depois de muita luta. Esses eventos compõem o que pode ser considerada a primeira revolução social a ter lugar no Brasil.

A esse respeito, Florestan Fernandes, em A integração do negro à sociedade de classes, relata: ―De um lado, a revolução abolicionista, apesar do seu sentido e conteúdo humanitário, fermentou, amadureceu e eclodiu como um processo histórico de condenação do ‗antigo regime‘ em termos de interesses econômicos, valores e ideais políticos da ‗raça dominante‘. A participação do negro no processo revolucionário chegou a ser atuante, intensa e decisiva, principalmente a

partir da fase em que a luta contra a escravidão assumiu feição especificamente abolicionista. Mas, pela natureza de sua condição, não passava de uma espécie de aríete, usado como massa de percussão pelos brancos que combatiam o antigo regime‖ (p.4).

A vitória da revolução abolicionista em 13 de maio de 1888 abriu o Brasil à imigração europeia, que encontrou o país nos primórdios da industrialização. Em 1900, reuniu-se o primeiro congresso sindical, inaugurando a epopeia do movimento operário brasileiro, formado em seu início por anarcossindicalistas. Em 1917, muitos deles organizaram a primeira greve geral, que dominou a cidade de São Paulo por longos dias. Ao mesmo tempo, o feminismo estreou no Brasil e já em 1934 conquistou o direito de votar e ser votada para as brasileiras.

Em 1889, o Brasil se tornou uma república e Ruy Barbosa, ministro das Finanças, pôs em prática uma ousada política financeira, que ocasionou um salto adiante no processo de industrialização. Isso sem dúvida ampliou o âmbito de ação do movimento sindical, base do que pode ser considerada a etapa moderna da esquerda brasileira.

Em 1922, um pequeno grupo de sindicalistas e militantes anarquistas no Brasil aderiu à III Internacional, o Komintern formado após a vitória da Revolução de Outubro. O governo bolchevique foi o primeiro a declarar como propósito maior fomentar uma revolução mundial que abolisse o capitalismo e em seu lugar construísse, presumivelmente, um novo mundo comunista. A isso se seguiu a formação do Partido Comunista do Brasil. Até aquele momento, não havia uma esquerda institucionalizada como movimento ou partido legalizado, apenas associações de intelectuais que fundaram jornais que propagavam o socialismo e o anarquismo. Este último pregava a destruição do Estado como ato inaugural de construção de uma nova sociedade onde reinariam a liberdade, a igualdade e a fraternidade, lema da grande Revolução Francesa de 1789.

Essas recordações são indispensáveis para discutir o que é ser de esquerda no Brasil hoje. É que desde a Revolução Francesa nunca deixou de haver uma ou mais de uma esquerda, e as de hoje, para serem autênticas, não podem deixar de se identificar com as lutas das esquerdas nos últimos 225 anos, ou seja, desde o episódio que transformou o panorama político e ideológico da Europa, a qual em seguida dominou quase o mundo inteiro e a ele logrou impor sua civilização.

Ao longo desses últimos dois séculos, as esquerdas se dividiram em distintas facções por diferenças de interpretação da realidade histórica em que viviam e por divergências táticas. Por isso, penso que não pode haver uma única maneira de ser de esquerda. O processo de divisão prossegue ininterruptamente na medida em que a própria história vai alterando as premissas das teorias que procuram interpretar e em seguida prever o que o futuro reserva para a humanidade e para cada pedaço de humanidade que hoje constitui um país. Frequentemente, parte das facções de esquerda se une para enfrentar

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as de direita, as quais também passam por processos de fracionamento e de união, conforme a evolução da realidade social e política de cada país.

Em conclusão, como as configurações políticas mudam incessantemente, adjudicar a determinada facção o papel de representante único da esquerda num país tão grande e variado como o nosso não se justifica. Ser de esquerda hoje no Brasil é lutar pela democracia tendo em vista a plena realização de seus valores aqui e alhures. O internacionalismo da tradição de esquerda é mais do que nunca atual. Os cerca de duzentos pedaços de humanidade que compõem a ONU estão hoje em contato comercial, financeiro, artístico, cultural etc., graças às conquistas científicas da Terceira Revolução Industrial – a internet. Isso significa que a questão do que é ser de esquerda hoje no Brasil se confunde em grande medida com a questão do que é ser de esquerda em geral no mundo, que seria o denominador comum da esquerda no mundo hoje.

E como pôr em marcha as forças sociais de mudança? Entendo que essas forças são os próprios movimentos sociais. Estes surgem em geral como reação a situações de opressão e/ou flagrante injustiça. Tais situações podem ser antigas, existentes e toleradas há gerações, que se conformavam em sofrer opressão e/ou injustiça sem revolta. Mudanças dessas atitudes se devem geralmente a avanços democráticos que redefinem os direitos das pessoas, em geral alargando-os e difundindo-os entre agrupamentos até então não contemplados. O efeito de avanços parciais é frequentemente desmascarar situações de opressão e injustiça, até então tidos como ―naturais‖. O efeito do desmascaramento é exatamente ―pôr em marcha as forças de mudança‖. Portanto, se o objetivo é pôr essas forças em marcha, cumpre pautar avanços democráticos em arenas de interação social em que haja situações opressivas e/ou injustas, geralmente sob a forma de exclusão de determinadas categorias de gênero, de raça, de idade etc. do acesso a oportunidades ou a benefícios. Cumpre notar que, nesses ensejos, desmascarar equivale a conscientizar.

Mas, para além do que seria um programa de esquerda, o que fazer para acumular poder de transformação? Um programa de esquerda pode ser de um partido para disputar um pleito ou de alguma força social em luta por determinadas mudanças de estruturas sociais ou de determinados regramentos que acarretam privações ou frustrações a grupos que não as merecem. Um programa de esquerda deve refletir os valores democráticos que usualmente caracterizam as posições de esquerda. Programas de esquerda podem ser muito variados, mas inevitavelmente se devem a aprendizados decorrentes de lutas travadas no passado. Como cada agrupamento social acumula experiências próprias, é impossível especificar mais no que consiste um programa de esquerda, a não ser a fidelidade aos valores e aprendizados que as inúmeras experiências históricas das forças de esquerda no mundo oferecem como diretrizes e cômputos de erros e análises de êxitos que podem servir de advertência para uns e de inspiração para outros.

Conclusão: para acumular poder de transformação não basta que o programa de esquerda seja muito bom se em sua elaboração não tiverem participado desde o início todos aqueles de que se espera e deseja que participem em sua realização. Em suma, a experiência democrática demonstra que o engajamento e a contribuição de cada pessoa engajada podem ser cruciais; portanto, é essencial reunir o maior número possível de colaboradores na elaboração do programa e convém que estes tenham participação ativa não só em sua execução, mas também na avaliação de seus acertos e desacertos. Tanto conceber como realizar um programa de esquerda é um vasto e valioso aprendizado coletivo do qual ninguém – se for possível – deveria ser excluído.

PAUL SINGER é doutor em Sociologia pela USP e Secretário Nacional de Economia Solidária. Jornal LE MONDE

DIPLOMATIQE, Julho de 2014.

Paz de boutique (LUIZ FELIPE PONDÉ)

UMA das razões que me levam a criticar tanto as esquerdas é sua vocação para a mentira e a idealização (uma forma romântica de mentira) no trato com o mundo. Nesse universo de "mentiras chiques" da esquerda, fica difícil discutir, porque logo vem alguém e fala de "nós contra eles" e reduz o debate a uma assembleia de sindicato.

E, por isso, a esquerda atrapalha qualquer tentativa de pensar nas contradições (expressão usada pelo sociólogo norte-americano Daniel Bell em seu primoroso livro "Cultural Contradictions of Capitalism") do mundo moderno chamado de "capitalista". Vejo o mundo capitalista avançado como um parque temático de gente viciada em luxos, do iPhone aos direitos humanos. Dos movimentos sociais dos "sem isso ou sem aquilo" ao politicamente correto e sua canalhice institucional. O capitalismo não será destruído pelo que falta, mas pelo que sobra.

A modernidade foi um dia um ideal (leia, por exemplo, "Modernidade e Ambivalência", de Zygmunt Bauman, e verá exemplos desse ideal fracassado). Um de seus subprodutos foi a ideia de "tolerância ao outro". Qualquer "inteligentinha" rica acha bonito essa ideia em suas reuniões "culturais". Um exemplo dessas "inteligentinhas" ricas são aquelas que gozaram com mesas, na Flip passada, em que mimados falaram das "jornadas de junho". Entre nós, existem muitas riquinhas e riquinhos, de todas as idades, que gostam de brincar de socialistas de butique. Um dos ideais modernos era a de um mundo globalizado pautado por direitos humanos (coisa cara como bolsa Prada), capitalismo "consciente" (outra coisa que leva riquinhas ao orgasmo), separação entre religião e Estado, igualdade dos sexos, das religiões e da raças diante da lei, e, claro, o que sustenta toda essa festa, enriquecimento crescente. Mesmo em Estados de bem-estar social, como os da

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Europa Ocidental, a riqueza econômica é que sustenta tudo. No período antes da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) na Europa e no mundo sob seu raio de influência, vivia-se uma época semelhante à nossa.

Acreditava-se nos avanços do Estado de direito, da ciência e da técnica, enfim, da gestão racional dos meios de sobrevivência e do acúmulo dos avanços civilizacionais. A Europa tomou na cabeça aquela guerra que desenhou nosso mundo - a Segunda Grande Guerra foi a continuação da Primeira. Eu, como o leitor bem sabe, não acho que o mundo mudou em muita coisa. Tenho uma visão da história que a envolve na pré-história, que nos espreita pela fresta da porta. Penso um pouco como o crítico literário norte-americano Edmund Wilson: a história é uma sucessão de civilizações que devoram uma a outra.

Isso não significa que seja bonito, mas, hoje em dia, quando o mau-caratismo tomou conta do pensamento público, pensar como Wilson, parece-me, é uma tentativa antes de tudo ética de continuar refletindo sobre o mundo sem se vender às modas dos bonzinhos de butique que desfilam por aí. Recentemente a Suécia, aquele país que desfila a perfeição, acordou em pânico com a crise econômica e seu Estado de bem-estar falido soterrado sob imigrantes. Nada contra imigrantes, mas a verdade é que as pessoas reclamam quando o luxo da vida se esvai, e o mundo moderno confunde suas manias de luxo com a condição do mundo como tal. O Iraque, um país inventado por europeus, afunda-se em conflitos entre xiitas e sunitas, as facções muçulmanas que só param de se odiar para odiar Israel, esse enclave moderno no coração de uma região do mundo que nunca entrou na modernidade - e talvez passe por ela sem nunca se afundar nela. A ridícula paixão da esquerda pelo islã mostra mais uma vez seu caráter equivocado e sua futilidade.

A Rússia, lentamente, lembra ao mundo que a União Soviética foi uma das fantasias que o imperialismo russo usou pra continuar sendo o que sempre foi. China e Japão, que se odeiam por milênios, já começam a se estranhar. Antes que os bonzinhos de butique gritem, não se trata de festejar nada disso, mas de despertar dos delírios de ricos acostumados a um mundo virtual que não existe.

LUIZ FELIPE PONDÉ é filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel

Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, 'Contra um mundo melhor' (Ed. LeYa). [email protected]. Jornal FOLHA DE SÃO PAULO, Julho de 2014.

Ero$ (ALDO PEREIRA)

À BEIRA da calçada, a moça equilibra em dois estiletes o corpo que, espremido pela roupa, parece transbordar do decote. Enquanto rumina o chiclete um tanto nervosa, ela perscruta carros passantes na contida expectativa do efeito desse anúncio de si mesma.

Prostituição tem sido a mais explícita e primária exploração comercial de atrativos sexuais. Mas quanto o capital erótico não tem rendido também na sutileza do flerte, no charme sugestivo de intenções ambíguas? Em convívio unissex, cada mulher avalia, subconscientemente, mensagens tácitas que ela emite e inspira em cada passo, gesto, expressão fisionômica ou tom de voz. (Exemplos se multiplicam e se complicam no universo das ambiguidades homo e bissexuais. Mas o tema de hoje propõe reflexão mais restrita: valor econômico da atração que a mulher exerce sobre o homem.)

No retorno da guerra de Troia, Odisseus teve de costear certa ilha aonde o canto sedutor de duas sereias, cada uma delas meio mulher, meio pássaro (não peixe), atraía navegantes para despedaçar seus navios em rochedos do arredor. Odisseus ordenou que, na travessia, os tripulantes o amarrassem ao mastro e mantivessem os próprios ouvidos tapados com cera enquanto remassem. O estratagema lhe permitiria gabar-se, depois, de ter sido o único homem sobrevivente ao canto das sereias.

Essa narrativa, talvez até mais antiga que a própria "Odisseia", pode ter originado associações do canto à sedução (etimologicamente, "desvio") em palavras como encantamento, charme (do latim, "carmen", canção) ou cantar (no sentido de interessar ou persuadir alguém ao romance). O mito das sereias ludibriadas pelo herói explora o arquétipo da "mulher fatal" (o adjetivo alude a fado, no sentido de destino), contra a qual o homem recorre a artimanhas como a de Odisseus. Compare com a burrice de Sansão e a ingenuidade de Fausto.

Em muitos casos, é verdade, os papeis se invertem. Mas a biologia determina diferenças imperativas. O espermatozoide nada, o óvulo deriva sem motilidade no fluido tubário. O homem pode engravidar a mulher sem consentimento dela, mas ela depende de elicitações para induzi-lo a fecundá-la. Embora nem sempre compensadores, os meios dela demandam hoje investimentos onerosos: adornos, cirurgia plástica, decoração cosmética do rosto, dieta, malhação, moda, ortodontia, perfumes. Não que necessariamente ela aceite comprometer sua respeitabilidade com lucro impróprio. Muita mulher, se não a maioria, se resigna a tais gastos de tempo e dinheiro mesmo que, namorada ou esposa, concentre num único homem o interesse aparentemente difuso.

Para quê, então? Bem, onde há concorrência, há propaganda e vice-versa. Para procedente consternação das feministas, valor econômico é corolário do complicado teorema do amor. Investimento de capital erótico na aparência tem rendido lucros legítimos de fama e fortuna, por exemplo, a modelos e atrizes. Mas pense noutros dividendos, como privilégios e promoções imerecidas na hierarquia corporativa. Registre no balanço manteúdas de políticos, de empresários e de celebridades midiáticas.

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Personalidade também seduz, mas a expressão de atributo assim abstrato requer contexto, não cabe na imagem fugaz ou exígua. Daí predominar nos anúncios comerciais dirigidos à mulher a valorização erótica, explícita ou sutil, de formas e movimentos do corpo, tons da fala, gestos, expressões da fisionomia. É mau? É bom? Pretensa autoridade em questões de elegância e filosofia, o francês encolhe os ombros: "C'est la vie".

ALDO PEREIRA, 81, é ex-editorialista e colaborador especial da Folha. Jornal FOLHA DE SÃO PAULO, Julho de 2014.

Como o Marco Civil da Internet será aplicado? (DENNYS ANTONIALLI E FRANCISCO

BRITO CRUZ)

AQUELES que comemoraram a entrada em vigor do Marco Civil da Internet há uma semana parecem confiantes na existência da lei para garantir uma série de direitos dos usuários no Brasil. De fato, há conquistas, como a neutralidade da rede. Mas, ao contrário do que se imagina, a lei deixou muitas questões em aberto, cuja definição dependerá da interpretação do Poder Judiciário.

No caso dos pedidos de retirada de conteúdo por alegação de violação civil do direito à honra, por exemplo, a lei determina que os provedores de aplicações de internet só sejam responsabilizados se deixarem de cumprir ordem judicial específica nesse sentido. E caberá aos juízes decidir, no caso concreto, quando a retirada de conteúdo é admissível e quando não é. Até aí, nenhum problema. O juiz é a autoridade legitimada para ponderar esses conflitos, cabendo a ele evitar que pedidos de retirada baseados em alegações infundadas cerceiem a liberdade de expressão. O problema está na forma como se apropriará dessa responsabilidade.

Em 2013, uma decisão judicial impediu um cidadão de publicar qualquer comentário na internet contestando a criação de três torres com 162 apartamentos em uma rua de São Paulo. No mesmo ano, outra decisão judicial impediu um advogado que fez críticas à atuação de um membro do Ministério Público de acessar qualquer rede social. Essas decisões confirmam que há um risco de que tais entendimentos se tornem comuns, consolidando uma jurisprudência extremamente restritiva. O mesmo pode acontecer em relação à privacidade. De acordo com o texto do Marco Civil, as empresas de internet devem guardar os registros de acesso a aplicações de internet dos usuários ("logs") por um prazo de seis meses. Esses registros deverão ser mantidos em sigilo e só deverão ser fornecidos à parte solicitante mediante ordem judicial.

Aqui, mais uma vez, o juiz é a autoridade mais adequada para decidir, no caso concreto, se o fornecimento dos registros é justificado. A privacidade do usuário deveria ser preservada sempre que não forem apresentados motivos suficientes para identificação. Em pesquisa vencedora do prêmio Marco Civil da Internet e Desenvolvimento, organizado pela Fundação Getulio Vargas de São Paulo e pelo Google Brasil, identificou-se que, em 47% dos casos, há decisão judicial deferindo o fornecimento desses registros em caráter liminar, isto é, antes mesmo da fase probatória. Vale lembrar que a entrega dos dados é irreversível.

Os casos ilustram circunstâncias em que a jurisprudência pode criar critérios restritivos - e às vezes indesejáveis - de interpretação da lei. Esses exemplos não são os únicos. O próprio funcionamento básico da rede ainda é matéria técnica de difícil apreensão pelos operadores do direito, o que não poderá ser ignorado na hora da aplicação da nova lei. Antes do Marco Civil, o Poder Judiciário enfrentava com coragem, mas também com despreparo, a lacuna legislativa sobre regulação da internet no Brasil. Com a aprovação da lei, dependemos da sensibilidade daqueles que irão aplicá-la para manter vivos seus objetivos de garantir uma internet livre e aberta.

DENNYS ANTONIALLI, 28, doutorando em direito constitucional pela USP, e FRANCISCO BRITO CRUZ, 25, mestrando em

sociologia jurídica pela USP, são coordenadores do Núcleo de Direito, Internet e Sociedade da Faculdade de Direito da USP. Jornal FOLHA DE SÃO PAULO, Julho de 2014.

A sociedade e as crianças (ROSELY SAYÃO)

VOCÊ já percebeu, caro leitor, que atualmente as crianças são consideradas responsabilidade única e exclusiva dos pais e das escolas? Eu já perdi a conta de quantas vezes ouvi a frase "preciso que a escola funcione em tempo integral e também nos períodos de férias, porque não tenho com quem deixar meus filhos". Você certamente também já ouviu ou pode, inclusive, ter dito isso, não é verdade?

As escolas reclamam - com razão - que crianças vão para a escola doentes, levando consigo a lista de medicamentos que devem tomar. Em parte por causa disso, boa parte das escolas tem enfermaria em seu espaço. E qual o motivo dos pais para agir assim? Eles não têm com quem deixar a criança que, vamos convir, nesse estado ficaria bem melhor em casa ou, pelo menos, com algum familiar próximo. Dessa maneira, ela poderia se recuperar com mais rapidez, além de evitar o risco de transmitir a doença para muitas outras crianças no espaço escolar que frequenta.

E quando uma criança se comporta de modo inadequado no espaço público? Todos os pensamentos, e olhares também, julgam e reprovam a mãe, que é considerada incompetente em sua tarefa educativa. Sim, precisamos reconhecer que cuidar dos filhos não tem sido priorizado por muitos pais, que escolhem outras coisas que consideram mais importantes para colocar no topo de sua lista de prioridades. E também precisamos admitir que os pais têm gostado muito de ter a

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posse quase total sobre os filhos. Eles até permitem, quando precisam, que o filho fique com avós ou outros familiares, desde que eles sigam rigorosamente as suas orientações. Não é assim que tem funcionado?

O problema é que esse pensamento permitiu que a comunidade simplesmente ignorasse os deveres que tem para com as suas crianças. Afinal, elas são o nosso futuro, serão elas que construirão o mundo em curto prazo. Todos nós somos, portanto, responsáveis por elas. Quantas empresas, que têm em seu quadro um grande número de pais, são solidários quando os filhos deles ficam doentes? E quando digo solidários, me refiro a alguma atuação prática, evidentemente. Como permitir que o funcionário trabalhe em casa por alguns dias quando isso é possível, ou não descontar eventuais faltas ao trabalho resultantes desse motivo.

Quantas empresas têm um espaço para filhos de funcionários ficarem, quando eles precisam? A empregada faltou ou a escola não funcionou nesse dia, com quem deixar os filhos? Seria ótimo se a criança pudesse ir com sua mãe ou seu pai para o trabalho, e lá ter um espaço preparado para ela ficar. Acredita, caro leitor, que há empresas que sequer permitem a entrada de funcionários acompanhados de seus filhos? E falo de crianças que ficariam comportadas e de funcionários que trabalham em local que não oferece risco para crianças.

As empresas ainda não se deram conta de que, se agirem assim, assumem sua parcela de responsabilidade social com as novas gerações e com o futuro. Além de tudo, ao apoiar os funcionários que têm filhos, elas melhoram a qualidade de vida deles. E as empresas precisam de seus funcionários bem. Já temos experiência suficiente para perceber que deixar os pais como únicos responsáveis pelas crianças não dá certo. Até quando a sociedade vai ignorar os mais novos e sua responsabilidade para com eles?

ROSELY SAYÃO é psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no

ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. Jornal FOLHA DE SÃO PAULO, Julho de 2014.

Brigas de casal (MIRIAN GOLDENBERG)

EM QUASE três décadas de pesquisas, raramente encontrei casais que nunca brigam ou que brigam apenas por motivos sérios. A maioria dos casais que pesquisei discute cotidianamente por questões banais. Uma professora de 32 anos contou: "Brigamos muito, sempre por coisas ridículas, bobagens, implicâncias. Muitas vezes, no meio da briga, já esquecemos o motivo da discussão e, mesmo assim, continuamos brigando até um de nós se cansar".

Em quase todas as relações afetivas existe algum tipo de dominação, ainda que de forma inconsciente. No jogo de dominação conjugal, nem sempre o objeto da disputa é relevante, pois o que importa é exercer o poder sobre o parceiro. Um advogado de 45 anos disse: "Minha mulher está sempre insatisfeita, não consigo agradá-la nunca. Ela é intolerante, impaciente, estressada e se irrita com qualquer besteira. Ela quer me transformar em um eunuco que aceita tudo passivamente. Parece que precisa provar que é superior a mim, especialmente para os nossos filhos e amigos".

Pequenas decisões cotidianas podem ser objeto de discórdia, como mostra uma estilista de 27 anos: "Nós brigamos o tempo todo. Quem está falando a verdade? Quem deve reconhecer que o outro está com a razão? Quem vai lavar a louça? Será que os casais perfeitos também brigam? Eu acho que o William Bonner e a Fátima Bernardes nunca brigam". No entanto, alguns casais revelam ter mais cuidado para manter a paz na relação.

Uma empresária de 56 anos disse: "Meu marido tem a metade da minha idade, mas é mais maduro do que eu. Tenho uma profunda admiração por ele. Todo mundo foi contra o nosso casamento, principalmente minhas filhas e minha mãe. Tivemos que brigar tanto para ficar juntos que nunca tivemos tempo e paciência para brigar entre nós. Preferimos investir na nossa felicidade em vez de desperdiçar o tempo com brigas. Como cantava Tom Jobim, bom é mesmo amar em paz, brigas nunca mais'".

Muito mais do que o amor e o sexo, percebo que as relações em que existe maturidade, respeito e admiração pelo parceiro são as mais satisfatórias, prazerosas e divertidas. E, mais importante ainda, elas têm muito menos brigas. Afinal, o que você acha? Será que o William Bonner e a Fátima Bernardes nunca brigam?

MIRIAN GOLDENBERG é antropóloga, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de "A Bela Velhice" (Ed.

Record). Jornal FOLHA DE SÃO PAULO, Julho de 2014.

A bola rola e o lucro de poucos também (LUCIANA GENRO)

NESTA COPA do Mundo, a paixão dos brasileiros pelo futebol foi usada para que a Fifa e as empreiteiras fizessem grandes negócios. Foi imposto quase um Estado de exceção: policial, para reprimir os protestos, e econômico, para garantir que nenhum tributo fosse cobrado da Fifa, de suas subsidiárias e das empresas que realizaram as obras.

Embora o governo tivesse anunciado que os gastos com os estádios não seriam pagos pelos cofres da União, o dinheiro público custeou quase tudo, via empréstimos do BNDES, a juros subsidiados e isenções fiscais. Seria essa uma prioridade? Na Câmara e no Senado, o PSOL foi o único partido cuja bancada toda votou contra esse absurdo. O custo total dos estádios ficou em R$ 8,005 bilhões, segundo divulgação do Ministério do Esporte em setembro de 2013. Em 2007, a previsão era de que os gastos seriam de R$ 2,2 bilhões. O aumento - ou superfaturamento - foi de 263% em seis anos,

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fazendo com que o custo do assento em um estádio brasileiro seja quase o dobro do custo do assento em um estádio na Alemanha na Copa de 2006.

Não é casual que as mesmas empreiteiras que executaram essas obras superfaturadas sejam as maiores financiadoras dos grandes partidos: PT, PMDB, PSDB, PSB. Elas não fazem doações, mas sim investimentos nos partidos, com retorno garantido. Também não é casual que os donos dessas empreiteiras estejam na lista de bilionários brasileiros. Segundo a revista "Forbes", as 15 famílias mais ricas do Brasil têm, juntas, cerca de US$ 122 bilhões, o equivalente a 5% de toda a riqueza produzida no Brasil.

O "Atlas da Exclusão Social", organizado pelo economista Marcio Pochmann, identificou que as 5.000 famílias mais ricas do Brasil (0,0001% da população) possuem uma riqueza acumulada equivalente a 42% do PIB do país. São mais de R$ 2 trilhões concentrados nas mãos dessas 5.000 famílias. O PSOL faz parte das lutas que, desde junho de 2013, denunciam os gastos abusivos com a Copa e exigem melhores serviços públicos. Temos propostas para proibir as doações de empreiteiras aos partidos e acabar com as negociatas. Também propomos que os milionários, os bancos e as grandes empreiteiras paguem mais impostos para reduzir a imensa desigualdade social que permanece no Brasil e gerar mais recursos para investimentos em serviços públicos.

Em 2008, como deputada e membro da Comissão da Reforma Tributária, apresentei um conjunto de propostas que, se aprovadas, significarão uma revolução tributária do Brasil, com desoneração dos assalariados e da classe média por meio de mudanças na tabela do Imposto de Renda, que há anos nem sequer é atualizada pela inflação. Queremos inverter a estrutura, aliviar a tributação sobre o salário e o consumo e aumentar a contribuição de quem acumula grandes quantidades de riqueza e propriedade.

Uma dessas propostas é a regulamentação do Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF), que até hoje é letra morta na nossa Constituição, assim como vários outros dispositivos constitucionais que não interessam às elites econômicas. O projeto de lei complementar nº 277/2008, apresentado por mim, foi, na época, aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados e está há anos pronto para votação em plenário.

Se o IGF fosse aplicado com uma alíquota de 5% somente sobre a parcela que excede um piso de R$ 50 milhões em patrimônio, arrecadaríamos R$ 90 bilhões ao ano, o equivalente a mais que todos os recursos federais previstos para a educação em 2014. É para pautar esses e outros temas que os três candidatos do sistema não querem discutir que sou candidata a presidenta. É para inverter essa lógica política e econômica dominante que o PSOL quer governar o Brasil.

LUCIANA GENRO, 43, advogada, ex-deputada federal, é candidata do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) à Presidência da

República. Jornal FOLHA DE SÃO PAULO, Julho de 2014.

Falso chique (PASQUALE CIPRO NETO)

A TENTAÇÃO é grande. O uso de uma forma linguística insólita, às vezes estrangeira, esnobe, para chamar a atenção, para parecer chique ou mesmo porque se acha que a coisa realmente é daquele jeito, nem sempre gera bons resultados.

Vou preparar o terreno para os exemplos do que acabo de citar. Vamos lá. No futebol, antes do início da Copa, houve, aqui e lá fora, uma sequência de casos de racismo fartamente noticiados. Se o caro leitor não se lembra de algum deles, ajudo: o caso que envolveu um árbitro numa cidade do Rio Grande do Sul, as manifestações contra Arouca (jogador do Santos), Tinga (do Cruzeiro - o fato ocorreu no Peru), Daniel Alves, na Espanha, e Balotelli, na Itália etc. Durante a Copa, um boboca mostrou tatuagens nazistas a um jogador. De qual seleção era mesmo a vítima do infame nazista? Bem, já sei, alguém dirá que "infame nazista" é pleonasmo... E é mesmo, mas a tentação por esse tipo de pleonasmo é infrene.

O fato é que, revirando os meus arquivos de preciosidades, verifiquei uma estranha coincidência: muitos desses casos foram "manchetados" aqui e ali com frases em que a preposição "a" aparece de forma no mínimo estranha. Vejamos alguns: "Inter bate Aimoré em jogo com protesto contra racismo a árbitro"; "FPF leva caso de racismo a Arouca à Justiça e interdita estádio de Mogi Mirim"; "Racismo a Balotelli gera revolta; fãs pedem saída da seleção".

Que me diz o leitor das passagens "racismo a árbitro", "racismo a Arouca" e "racismo a Balotelli"? Alguém diria (ou já ouviu) algo como "Mas isso é racismo aos imigrantes"? E que tal algo como "O racismo aos negros ainda está longe de acabar no Brasil e no resto do mundo"? Parece que existe uma fortíssima atração pelo aparente chiquismo que a preposição "a" confere, como se vê nos casos citados e em outros, como este, publicado num site: "Conheça os 10 melhores destinos de acordo a nossos viajantes". "De acordo a"? Que língua é essa? Alguém já disse ou ouviu algo como "De acordo ao médico, o remédio não apresenta..." ou "De acordo à presidente da estatal, o contrato é legalíssimo"?

Não invente, não, caro leitor. Não copie isso, não, caro leitor. Não caia na tentação do falso chique, do falso culto, do falso correto. O racismo, por si só, já é uma desgraça suficientemente grande. Não é preciso piorar essa chaga com estruturas linguísticas infelizes. "Racismo a fulano" é uma bobagem sem tamanho, que pode (e deve) perfeitamente ser trocada por "racismo contra fulano". "De acordo a nossos viajantes" também é uma bobagem sem tamanho. Não tenha medo do simples e óbvio, ou seja, não tenha medo da construção "De acordo com...".

Por falar em Copa, alguns dos nossos colegas do rádio e da TV não perdem a mania de anglicizar tudo e mais um pouco, o que é "chique no último". No fim do jogo Uruguai x Inglaterra, o técnico da Celeste pôs o jovem zagueiro Coates no lugar do extenuado Suárez. O prenome de Coates é Sebastián (que é oxítona e se escreve com acento em espanhol),

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mas é claro que na boca de alguns dos nossos profissionais virou "Sebástian". São os mesmos que disseram várias vezes que fulano de tal joga no Manchester "Círi", como se esse time fosse estadunidense.

Talvez seja melhor agir como os espanhóis e hispano-americanos, que pronunciam tudo como se lê na língua deles (veja-se o caso do colombiano James, que no começo da Copa era chamado por aqui de "Djeimes"), ou tentar saber como é na língua de origem. Fora disso, o risco de cair no falso chique é imenso. É isso.

PASQUALE CIPRO NETO é Professor de português desde 1975 e também colunista semanal desta publicação. É o idealizador e apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa, transmitido pela Rádio Cultura (São Paulo) AM e pela TV Cultura, e do programa Letra e Música, transmitido pela Rádio Cultura AM. E-mail: [email protected]. Jornal FOLHA DE SÃO PAULO, Julho de 2014.

O beijo uruguaio (CONTARDO CALLIGARIS)

VÁRIOS leitores me pediram para explicar por que Luis Suárez, o atacante da seleção do Uruguai, morde seus adversários (ele já mordeu três, que se saiba).

Posso apenas me perguntar por que a mordida de Suárez escandalizou a muitos e suscitou uma punição que alguns julgam excessiva. Se Suárez tivesse dado um soco no adversário, mesmo longe da bola, ele seria, no máximo, expulso. Você se lembra da cabeçada de Zidane em Materazzi, na final da Copa de 2006? Zidane levou um cartão vermelho. Já no caso de Mike Tyson, que mordeu Evander Holyfield durante a luta pelo título dos pesos pesados, em 1997, a consequência foi mais séria: Tyson arrancou (mas não comeu) um pedaço da orelha de Holyfield. Tyson, desqualificado e multado (US$ 3 mi), perdeu a licença de boxeador. Só graças a um processo de um ano e meio ele recuperou o direito de boxear.

Zidane se sentiu ofendido por Materazzi, que disse algo sobre a irmã de Zidane (trivial num campo de futebol). Tyson se queixava das cabeçadas (intencionais ou não) de Holyfield (não de Zidane). Não sei se Suárez alegou uma provocação de Chiellini para explicar sua mordida - se o fez, não foi no pedido de desculpas. Nos meus esportes preferidos, morder é complicado. No futebol americano, o capacete tapa a boca dos jogadores com uma grade parecida com a máscara de Hannibal no "Silêncio dos Inocentes".

No hóquei sobre gelo, em tese, os jogadores profissionais já não têm mais dentes, pois é raro chegar lá sem ter recebido na cara quer seja o taco de um adversário quer seja o disco que, no hóquei, é o equivalente da bola (mas que é duro e viaja a mais de 140 km/h). De qualquer forma, no hóquei, jogadores que brigam tiram o capacete e se pegam a socos na cara. Resta o rúgbi, em que os jogadores não usam capacete e têm alguns dentes sobrando. Num caso recente, em 2013, na Austrália, um jogador foi suspenso por oito jogos (punição comparável à de Suárez) por ter mordido o pênis de um adversário. A mesma pena foi infligida, em 2012, a um jogador inglês que mordeu apenas o dedo do adversário (irlandês). Enfim, vários comentadores se indignam porque acham que a mordida, como defesa ou ataque, é infantil. Será que podemos tolerar, nos nossos terrenos de jogo, uma briga de parquinho? Entendo, e aplicaria essa reflexão aos puxões de cabelo (que não são raros: Marion Barber, quando jogava no Dallas Cowboys, não parava de se queixar de que os defensores o pegavam pelos dreadlocks). Mas morder, por mais que seja tão frequente nas brigas de infância quanto puxar o cabelo, é um ato muito radical, e talvez seja por isso que ele suscita uma indignação especial. O que morder tem de radical?

Não é preciso ser Freud para entender que a boca (com ou sem dentes) é o órgão de nossas primeiríssimas paixões (que são, em geral, virulentas e, justamente por serem as primeiras, tornam-se incontroláveis quando são revividas mais tarde). Conhecemos o mundo chupando ou mordiscando objetos. Aprendemos que a resposta do mundo a qualquer aspecto do nosso desamparo é um seio ou uma chupeta que alguém nos enfia na boca. Uma consequência disso é que, ao longo da vida, as gratificações orais nos parecem poder compensar qualquer frustração. Morreu alguém ou perdeu o emprego? Que tal um chocolate? Claro, o chocolate não compensa nada, mas o amor (materno) tenta nos mostrar que a satisfação oral cura qualquer tristeza. Agora, um bebê não é exatamente um cara legal. Por exemplo, ele pode querer que o seio seja dele, como o chocolate ou a chupeta, e retribuir o amor materno com uma paixão absolutamente destrutiva. Amamos tanto nosso objeto preferido que queremos devorá-lo, colocá-lo dentro de nós, digerido e incorporado. Para compensar nossa voracidade assassina diremos que o devorado sobrevive dentro de nós. É a desculpa do canibal: acabo com você, mas não se preocupe, suas qualidades viverão em mim.

Em suma, a mordida evoca, para todos nós, uma agressividade extrema que nos indigna por ser muito familiar: é a expressão mais óbvia da vontade de acabar com o outro (com sua autonomia, com sua existência separada de nós) na qual deságua facilmente a grande paixão amorosa. Uma mulher me conta que, no fim de semana, o marido, no transporte passional de um beijo, mordeu seu lábio com força. Doeu, e ela se queixou. Ele se desculpou assim: "Meu amor, foi um beijo uruguaio".

CONTARDO CALLIGARIS, italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Ensinou Estudos Culturais na New School de NY e foi professor de antropologia médica na Universidade da Califórnia em Berkeley. Reflete sobre cultura, modernidade

e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias). Jornal FOLHA DE SÃO PAULO, Julho de 2014.

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Bebida alcoólica deve ser liberada em estádios? NÃO

Esporte e álcool não combinam (RONALDO LARANJEIRA E ANA CECÍLIA MARQUES)

A MAIORIA dos países proíbe o consumo de álcool nos estádios. As Copas do Mundo, infelizmente, fogem à regra. Foi exceção na África do Sul, no Brasil e já está definido que na Rússia e mesmo no islâmico Qatar serão permitidas bebidas nos jogos.

Isso se deve à grande pressão da indústria cervejeira internacional que, em conluio com a Fifa, coloca dentro do contrato para a participação na Copa uma cláusula pétrea prevendo que todos os produtos dos patrocinadores deverão ser comercializados durante o evento. Em 2007, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou com o presidente da Fifa, Joseph Blatter, um vergonhoso compromisso suspendendo leis vigentes no país para permitir o consumo de álcool nas arenas. Depois disso, por inúmeras vezes, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo (PCdoB), defendeu abertamente a manutenção da venda de cerveja posterior à Copa de 2014. O ministro, que deveria defender o esporte e a saúde, se posiciona a favor dos interesses da indústria de cerveja. Esquece que vários Estados adotaram leis proibindo a venda devido a aumento substancial da violência.

O álcool afeta o controle dos impulsos e a capacidade de tomar decisões complexas, deixando a pessoa mais impulsiva. Ao ser exposta a pequenos conflitos, o intoxicado tende a responder com maior radicalismo e violência. Evidências científicas apontam para muitas outras interfaces do uso do álcool como causa do desenvolvimento de doenças crônicas não comunicáveis, violência interpessoal, doméstica, contra crianças e autoinfringida, levando ao aumento das taxas de suicídio, doenças mentais, acidentes no trânsito, entre outras consequências que geram incapacidades e morte precoce. O Estado de São Paulo aprovou a lei nº 9.470 em 1996, que proibiu a venda, distribuição ou utilização de bebidas alcoólicas em estádios devido a inúmeros eventos violentos, em especial a "noite das garrafadas", quando torcidas rivais entraram em confronto sob o efeito do álcool, principalmente cerveja. Minas Gerais, após proibir o álcool, teve diminuição de 75% das ocorrências nos estádios. O mesmo ocorreu em Pernambuco, que em 2007, antes da proibição, teve 468 registros e, depois, em 2010, somente 112.

O Ministério Público de vários Estados tentou bravamente evitar a cerveja nos estádios na Copa. Entregou pedido formal ao presidente da Comissão Especial da Câmara, Renan Filho (PMDB-AL), e ao relator da Lei Geral da Copa, Vicente Cândido (PT-SP). Os deputados não ouviram o Ministério Público,e a Copa do Mundo está sendo regada a cerveja, nos estádios e nas televisões, criando associação da bebida com futebol para toda uma nova geração. Literalmente deseducando nossos jovens e crianças. Há poucos dias, na metade do torneio, os próprios dirigentes da Fifa mostraram-se surpresos com o número de pessoas intoxicadas nas arenas. Aos que veem os jogos, fica claro que o consumo de cerveja é difundido e atrapalha o espetáculo, com inúmeros consumidores andando durante o jogo para comprar novos copos da bebida. Os episódios de violência estão sendo menos alarmantes do que seria de se esperar, pois o contingente policial é enorme e qualquer tumulto é logo contido.

Para o bem dos brasileiros, as leis estaduais deverão voltar a valer logo após o dia 13 de julho. A sociedade organizada, os defensores do verdadeiro espírito esportivo deverão se juntar para que essa derrubada momentânea das nossas leis, que nos protegem, seja somente um episódio lamentável de perda dos nossos marcos legislativos em benefício da indústria de cerveja.

RONALDO LARANJEIRA, 58, médico psiquiatra, é presidente da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina). ANA CECÍLIA MARQUES, 59, médica psiquiatra, é presidente da Abead (Associação Brasileira do Estudo do Álcool e

outras Drogas). Jornal FOLHA DE SÃO PAULO, Julho de 2014.

Bebida alcoólica deve ser liberada em estádios? SIM

Consumo responsável (VICENTE CÂNDIDO)

UMA Copa do Mundo que, antes de seu término, já ganhou o título de o melhor Mundial de todos traz algumas lições sobre sua realização. Pesquisa realizada pelo portal UOL com 117 jornalistas estrangeiros que cobrem o evento aponta que 38% avaliam esta Copa como a melhor edição do campeonato.

O país que, historicamente, joga o melhor futebol do mundo também deve ter as melhores condições para a prática esportiva e para a sua audiência. Foi com a Lei Geral da Copa (nº 12.663/2012) que se consolidou a segurança jurídica para a realização do evento e a incorporação de práticas que o viabilizam economicamente em todo o país. Com esse norte, foi aprovada na Lei Geral a comercialização de bebidas alcoólicas nos estádios durante o torneio. É certo que o tema é polêmico - e não apenas no Brasil. Na condição de relator da lei, tive a oportunidade de discutir o tema com representantes da União Europeia de Futebol Association (Uefa). Também tivemos como referência estudos da legislação norte-americana. Trazemos como resultado um aprendizado para promover um debate técnico, jurídico, social e sem hipocrisia sobre o tema.

O consumo de bebidas alcoólicas antes, durante e depois de eventos futebolísticos é uma realidade com a qual temos que lidar, e não simplesmente ignorar. É preciso normatizar esse consumo uniformemente no país, que está cada vez mais

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inserido no roteiro de grandes eventos internacionais - esportivos ou não. Do ponto de vista dos fabricantes de bebidas, a venda do produto no interior do estádio não tem tanta relevância comercial. Já para o concessionário do estádio, que pode negociar os "naming rights" (a prática da concessão de direitos de nome por empresas proprietárias de um estabelecimento a uma marca ou produto), a venda de bebidas alcoólicas é importante economicamente. O mesmo vale para os subconcessionários como lanchonetes, bares, restaurantes e camarotes.

Para o torcedor, a liberação da bebida nas arenas trará organização e conforto. A regulamentação permite a definição e o controle dos pontos de venda e de seu padrão de higiene - nem sempre respeitado nos arredores dos estádios. Ainda, como apontam os pesquisadores ingleses Pearson & Sale, a proibição faz com que os torcedores que optam por beber só entrem nas arenas em cima da hora do jogo, gerando tumulto. Modelos de normatização com limites como o de Portugal e da Inglaterra, que estipulam locais limitados para o consumo de bebidas, parecem o ideal para o Brasil. Seria efetivo, como complementação, delegar a responsabilização por eventual comportamento inadequado de torcedor aos organizadores do evento.

Um ponto polêmico desse debate é o aumento, ou não, da violência associada ao consumo de bebidas alcoólicas dentro dos estádios. Estudo da Fundação Getulio Vargas de 2012 mostra que não há comprovação dessa relação. Segundo a pesquisa, a violência é despertada por uma mistura explosiva de fatores como a presença de grupos fanáticos de torcedores, decisões de árbitros, declarações de jogadores, infraestrutura inadequada dos estádios e falta de controle policial. Estamos obrigados a tomar uma posição. A Copa terminará e o futebol continuará sendo o esporte mais popular do país. Aposto numa evolução da cidadania e no uso de tecnologia para o gerenciamento de abusos, como ocorre em outros países. Pelas características do Brasil, que realiza eventos da dimensão do GP de Fórmula 1, do Carnaval e do Réveillon, e todos eles com a comercialização de bebidas, não podemos ter o futebol como vilão.

A Copa já nos traz alguns aprendizados sobre onde e como regular o consumo. Resta-nos aproveitar a expertise e deixar o jogo rolar.

VICENTE CÂNDIDO, 54, deputado federal (PT-SP), é presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados e relator da Lei Geral da Copa. Jornal FOLHA DE SÃO PAULO, Julho de 2014.

Sófocles, Dionísio, Messi e Neymar (LEOPOLD NOSEK)

TENHO alguns amigos, poucos e dignos de perdão - após seu arrependimento, claro -, que desdenham da Copa e se referem a essa maravilha como um desprezível pão e circo alienante. Chegam a advogar a torcida contra o Brasil, cuja derrota funcionaria como remédio para que o povo, caindo em si, vote consciente. Arautos da falência brasileira esperaram em vão os estádios caindo, os aeroportos em caos e manifestações a confirmar suas opções. Não vejo nada disso. Mas não discutirei política; falarei como corintiano irrecuperável que sou.

Tomei um avião, em 2000, para o Rio de Janeiro para ver meu time ser campeão mundial interclubes e usufruí do prazer de ver meus manos, para pedirem uma cerveja, chamarem a aeromoça de cobradora. Fui ao Japão e vi a galera gastar seu inglês ao gritar "fok iou, Chelsi". Como psicanalista, me perguntam como explicar o choro, o nervosismo, a catarse. Como poderia ser diferente? Futebol não é pão e circo. Com mais propriedade, pode ser considerado um festival dionisíaco ou uma competição teatral no século de Péricles. Os espectadores não assistiam a esses concursos circunspectos e silenciosos como os bem pensantes o fazem hoje. Sófocles, Ésquilo e Eurípides eram ruidosamente aplaudidos e apupados, inclusive em cena. Torcia-se, reclamava-se. Juízes eram xingados, tal como no futebol.

Quando o cronista esportivo Aristóteles tabulou as regras de como se devia praticar o esporte dramático, praticamente todas as tragédias já haviam sido escritas. Aparentemente, tudo continua igual. Hoje entramos noite adentro tecendo teorias em relação ao drama que já acorreu e cada cronista sabe melhor como se deveria ter jogado. Ouso dizer que o futebol é o teatro grego atual: tem eficácia simbólica para representar a vida. Sobre a alegoria dionisíaca carnavalesca, possui a vantagem de não ter um enredo fixo e, tal como na vida, a repetição é impossível. Assim, a épica do acontecimento e seus heróis será comentada em verso e discussões madrugada adentro por décadas, estendendo-se o debate pelas gerações futuras. Obrigatoriamente, temos que nos interrogar acerca da eficácia simbólica do futebol.

Em primeiro lugar, o momento definidor: futebol se joga com os pés. O pé é obviamente impróprio para lidar com uma bola que pesa 450 gramas e corre sobre a grama, irregular. Próprias são as mãos, mas seu uso configura impropriedade que, se reiterada, pode custar a expulsão. A resultante maravilhosa é que, à medida que é praticado com órgãos impróprios, a regra será o erro. O zero a zero não é estranho, e dois ou três acertos serão suficientes. Não é uma mimese da vida? Além de o acerto ser exceção, outras características imitam o cotidiano: o melhor não ganha do pior necessariamente. Nem os bons são recompensados, nem os ímpios queimam no inferno. Pode acontecer, mas não é a regra.

Como Freud definiu, há o instinto de vida e o de morte, e esses conceitos marcam sua presença nos campos. Para quem duvida, aí está o impactante gol contra. Alguém já viu esse episódio suicida no basquete, no vôlei, beisebol ou tênis? A sorte tem lugar essencial. Temos o arbítrio, mas as moiras indefiníveis estão presentes, e a bola bate na trave levando a vida ao inescrutável. Não podemos deixar de sorrir, lembrando o mestre vienense e sua obsessão pela sexualidade, que o objetivo é meter a bola na rede. Não deixa de ser um ato incestuoso, definitivamente edipiano, o gol contra. A culpa é avassaladora.

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O futebol também ilumina o mundo e a globalização: não conheço muitos dos jogadores da nossa pátria, jogam no exterior. As fronteiras se desfizeram. Restou um fundamentalismo patriótico, felizmente na Copa, efêmero e lúdico. A imagem se tornou soberana e milionária. Os clubes se tornaram empresas, a Fifa uma multinacional, os cronistas são pessoas jurídicas e nós continuamos fornecendo matéria-prima.

Poderíamos estender muito o espaço da importância do jogo simbólico subjetivo, mas isso não é novidade. Uma eliminação causará luto, e se ainda nos perguntarmos acerca do choro, é simples: acomete quem vê a morte de perto. PS: O artigo já estava escrito quando ficou esclarecido para mim o episódio Neymar. Como no teatro grego, também ocorre no futebol o inominável, o que os deuses não perdoam, o que ultrapassa o humano e deve ser excluído. Força, Neymar!

LEOPOLD NOSEK, 67, psiquiatra pela Faculdade de Medicina da USP, é psicanalista e ex-presidente da Federação Psicanalítica da América Latina. Jornal FOLHA DE SÃO PAULO, Julho de 2014.

Polêmica "meia" complicada (LEO RICINO)

"Muitas vezes pensamos a nossa língua como algo que sempre existiu e que sempre existiu tal como a conhecemos hoje. Mas as palavras nascem, mudam de rosto, envelhecem e morrem. É importante saber onde nasceu cada uma delas, conhecer-lhe os parentes e saber do namoro que a fez nascer. Entender a origem e a história das palavras faz-nos ser mais donos de um idioma que é nosso e que não apenas nos dá voz ao pensamento como já é o próprio pensamento. Ao sermos donos das palavras somos mais donos da nossa existência." (Mia Couto, E se Obama fosse africano?, Companhia das Letras, São Paulo, 2010, p. 97)

INTRODUÇÃO

SERES humanos, os usuários das línguas, estão em constante mutação. Fenômeno semelhante e consequente ocorre com a própria língua. Ela, enquanto viva, é mutável em todos os aspectos estruturais: fonético, morfológico e sintático. E se muda nesses compartimentos, muda semanticamente também.

Por causa dessa mutabilidade é que, se pegarmos textos dos primórdios da nossa língua, ficamos com a sensação de que se trata de outra língua. E de fato se trata, pois a língua sincrônica muito difere de suas fases diacrônicas. Creio que esse fenômeno deva ocorrer em qualquer língua, com essa ou aquela intensidade, dependente de cada cultura. Para não irmos tão longe, colocarei um texto de um livro de 1917, mas cujo original foi impresso em 1766. Trata-se de uma boa tragédia, Castro, de Domingos Reis Quita, poeta do Arcadismo português e que viveu de 1728 a 1770:

Aquelle filho, Principe, que sabe Respeitar a seu Pai, não fica imóvel Aos paternos mandatos, obediente A Vontade sobmette a seus preceitos.

Tu a meus rogos surdo, tu remisso As inviolaveis, soberanas ordens, E á luz da razão cego não respeitas Mais que a louca paixão, que te domina.

Como se vê, esse trecho da "Scena III", adaptado ao início dos anos 1900, já está bem próximo da língua atual, mas há diferenças palpáveis, como consoantes dobradas, falta de acentos, o prefixo "sob" ainda convivia com seu irmão "sub", pelo qual viria a ser substituído na formação de palavras (sobmette = submete), etc. Essa peça teatral é homônima da de António Ferreira, poeta de duzentos anos antes, 1528-1569, a qual, aliás, seguiu os moldes gregos, principalmente pela presença do coro, e foi encenada em vida do autor. Possivelmente foi composta em 1557, mas só impressa em 1587.

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VOLTANDO PARA O MUNDO ATUAL

O texto de Quita e a introdução não passam de pretexto para uma reflexão sobre a língua atual e o verdadeiro pavor que percebo em professores universitários de discutir com os alunos essas evoluções e mudanças da língua. Alguns chegam a referir que, se mostrarmos várias possibilidades numa língua viva, abriremos brecha para que o aluno possa alegar que esse ou aquele uso, embora fuja à norma-padrão, também estará certo por isso ou por aquilo.

É preciso ter em mente que curso superior é diferente, bem diferente, do ensino médio. Este é o término do ensino básico; aquele é o momento da opção da pessoa por uma profissão. No ensino superior, pressupõe-se que o professor instigue, provoque e até fustigue o aluno a ser ativo, que o leve a perceber que deve lançar mão dessas dádivas chamadas questionamento e reflexão, a partir dos quais se abre um leque de possibilidades. No ensino médio, ensinam-se, sem maiores discussões e expansões, as normas da língua culta e essas ficam como a base para reflexões posteriores, no ensino superior. Tente esse recurso, caro professor.

VAMOS A ALGUMAS REFLEXÕES

Agora vou falar do título deste ensaio. Você, leitor, deve ter achado estranhíssimo aquele "meia" metido lá no meio dele: "polêmica 'meia' complicada". Então vamos analisar e discutir alguns aspectos importantes para que, com base racional e não com a do 'achismo' e do 'porque tem de ser assim e pronto', possamos discutir com nossos alunos algumas nuances da língua.

Repitamos o título, só que agora no uso atual e considerado o 'correto': "polêmica meio complicada". Aí vem logo a consequente pergunta: por que essa é tida como a forma correta? A resposta é óbvia: "complicada" é um adjetivo, e qualquer palavra que se refira a um adjetivo é, obrigatoriamente, um "advérbio", classe de palavras absolutamente invariáveis. Portanto, o vocábulo "meio", quando usado como advérbio, não deveria ter gênero ou número. Já o adjetivo é, pela sua natureza qualificadora e distintiva, palavra modificadora e não modificada ou modificável por outra palavra. Ele atua sobre o substantivo, qualificando-o e distinguindo-o de seus irmãos de mesma espécie. Assim, "livro decapa dura" e "livro azul" são diferentes entre si porque há dois adjetivos a garantir essa diferença: "de capa dura", locução adjetiva, e "azul", já que, no frigir dos ovos, livro é livro. Esse é o papel do adjetivo: qualificar e distinguir o substantivo.

O "advérbio", que é a palavra que indica as circunstâncias, ou seja, os acontecimentos secundários que compõem o contexto do acontecimento principal, indicado pelo verbo, atua no reino deste e, por empréstimo do rei verbo, vai ao mundo dos nomes para auxiliar o adjetivo, geralmente a intensificar-lhe a qualidade. E o advérbio é a única palavra autorizada a ajudar o adjetivo a elevar sua qualificação ao grau máximo, grau também atingido por sufixos próprios acrescidos aos adjetivos. Assim, em "Moça bonita", o adjetivo "bonita" trabalha num grau normal de qualificação, sem qualquer exaltação. Mas em "Moça muito bonita", o adjetivo salta sua qualificação para um grau superlativo, elevando a exaltação ao máximo. Esse "muito" é tão advérbio e, portanto, tão invariável quanto o seria em "Moças muito bonitas", e exalta superlativamente as qualidades "bonita" e "bonitas".

Diferente, por exemplo, de um pronome indefinido, que varia para adaptar-se ao gênero e ao número de seu substantivo. Assim, "Encontrei muitas moças muito bonitas num shopping". O "muitas" equivale a "várias", "algumas" e flexiona-se no feminino e no plural, porque se refere ao substantivo "moças" e é pronome indefinido; já o "muito" não sofre qualquer variação por ser advérbio, já que se refere ao adjetivo "bonitas".

Está justificado por que, no caso do nosso título, ou de outras frases em que a palavra "meio" modifica um adjetivo, ela não pode variar: é advérbio. Ora, como todos sabem, das dez classes de palavras da língua, quatro são invariáveis, isto é, não apresentam gênero ou número: advérbio, preposição, conjunção e interjeição.

PRECONCEITO LINGUÍSTICO COM A PALAVRA "MEIO"?!

Não estou apregoando que se deva empregar essa palavra com variação quando ela for advérbio, pois sabemos que advérbio não varia nem em gênero (masculino e feminino) nem em número (singular e plural). O problema é que aceitamos outras variações de advérbios, mas temos restrições com esse emprego flexionado da palavra meio. Seria um preconceito linguístico com ela?

Vejamos uma frase de Mia Couto, no livro Um raio chamado tempo, uma casa chamada terra, Companhia das Letras, São Paulo, 2003, p. 41: "A sala onde depositaram o Avô está toda aberta aos céus". Esse "toda" aí é advérbio, significa e equivale a "totalmente". Sua função é intensificar a ideia do adjetivo "aberta", com o qual está concordando por atração sintática. Creio que as pessoas até achariam feio se ele tivesse dito "A sala onde depositaram o Avô está todo aberta aos céus", mas não estranhariam se ele tivesse escrito "A sala onde depositaram o Avô está totalmente aberta aos céus". É que, nessa forma, a palavra está com uma terminação normal de advérbios, o sufixo "mente". Porém, as três formas estariam absolutamente corretas. Mas os puristas, certamente, torceriam o nariz e esperneariam muito se a frase fosse: "A sala onde depositaram o Avô está meia aberta aos céus".

Diriam que essa forma é inaceitável, que "meio" não pode variar porque nessa frase é advérbio, e outros absurdos como "meia é para se vestir", etc. Quer dizer, "todo" é advérbio nessa mesma situação e pode variar, no caso em gênero, mas "meio", de jeito nenhum! Talvez algum mais sagaz chegue a afirmar que, diferente do exemplo anterior, no qual "toda" é igual a "totalmente" ou, como querem os portugueses, a "todamente", isto é, aceita o sufixo "mente", não existiria

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"meiamente". Todavia, que lógica há em qualquer dessas gritas?! Aliás, acabo de ouvir na televisão, no programa Arena Sport TV, dia 04/03/13, 14h20, o comentarista Marco Antônio Rodrigues assim se expressar: "Quero fazer uma pergunta meia chata ao Jéferson", goleiro do Botafogo do Rio e convidado do programa. E fez ao jogador uma inteligente pergunta sobre racismo no futebol. Nota-se, pois, que na linguagem mais descompromissada - trata-se de um programa esportivo, por princípio menos formal que um programa de notícias, como o Jornal Nacional ou o Jornal da Band ─, esse "meia" sai meio que naturalmente. O fato é que é preciso discutir isso com alunos, especialmente se forem de Letras e futuros professores de nossa linda língua e não camuflar fatos linguísticos que contrariam a norma-padrão. Discussões acadêmicas podem trazer luz e desenvolvimento.

O QUE DIZEM CERTOS LITERATOS?

Alguns professores de língua portuguesa, certa feita, enfatizaram, numa discussão acadêmica comigo, que a literatura não serve como exemplo para a norma-padrão! Admirado com tal afirmação, citei apenas três consagradíssimos autores ─ Rocha Lima, Evanildo Bechara e Celso Cunha ─, os quais, em suas preciosas gramáticas, trazem as normas ditas cultas respaldadas por exemplos de grandes escritores.

Portanto, também vou servir-me de grandes escritores para justificar o que considero certo preconceito linguístico, causado pelo fato de se estar negando parcialmente uma das joias da nossa língua: a concordância por atração. Não me canso de destacar o amor insuperável que há entre as palavras quando da organização sintática para a formação das frases, a ponto de palavras invariáveis se tornarem variáveis por atração.

Os grandes escritores dirão isso melhor do que eu. Machado de Assis escreveu esta frase lapidar: "Os olhos chisparam e trocaram a expressão usual por outra, meia doce e meia triste", p. 555, MPBC, Ed. José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro, 1962, Vol. I.

Esse mesmo autor, numa peça teatral chamada Não consulets médico, da mesma obra acima da Ed. José Aguilar Ltda, vol. II, p. 1157 e 1170, usa duas vezes essa mesma variação:

"Sofreu muito, e ainda agora anda meia triste; titia diz que há de curá-la." "O Dr. Cavalcante contou as suas tristezas a Carlota, e Carlota, meia curada do seu próximo mal, expôs sem querer o que tinha sentido."

Silveira Bueno, na sua Gramática Normativa da Língua Portuguesa, Ed. Saraiva, São Paulo, 1968, cita, na página 353, alguns exemplos de outros autores:

"E a trouxeram meia morta para baixo..." (Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição)

"Uma velha decrépita meia morta estava diante de Carlos." (Garrett, Viagens)

"Levando em sua carruagem a avó e a neta, ambas meias mortas e ambas meias loucas." (Idem)

O Cônego F. M. Bueno de Sequeira, no indispensável livro A Ação da Analogia no Português, da editora Organizações Simões, Rio de Janeiro, 1954, nos dá bem interessantes exemplos, inclusive com variação de número, que também já aparece no último exemplo acima:

"Outros meios mortos se afogavam." (Camões, Os Lusíadas, 3:113, p. 101)

"Cadáveres meios enterrados nas ruínas." (Camilo, O judeu, 1.167, p. 101)

"Estes homens rudes combatiam meios nus." (Herculano, Eurico, p. 94, p. 101)

"... um barrete entre dois punhais com umas letras em baixo meias apagadas." (Heitor Pinto, Diálogos das causas, ap. Nov. Est., 264, p. 101)

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OUTRA TOLERÂNCIA

Só como reforço e adendo, além de aceitarmos a variação do advérbio "todo", como em "A linda moça chegou toda emperiquitada" (no entanto, já começa a ficar difícil aceitar esse advérbio no plural, como "As lindas moças chegaram todas emperiquitadas"), também somos tolerantes com o advérbio "próximo" numa frase como "A aluna permaneceu próxima da saída", bem como seu plural "As alunas permaneceram próximas da saída". Não soaria estranho, no entanto, a forma sem variação, como no caso de todo: "A aluna permaneceu próximo da saída" ou "As alunas permaneceram próximo da saída". Talvez essa segunda já cause arrepios!

Como se vê, toleramos os advérbios todo e próximo com variações, mas nos recusamos terminante e fulminantemente a aceitar flexão da palavra meio quando ela é advérbio. Talvez isso não passe de uma questão de (in)tolerância ou preconceito linguístico.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Não, não estou propondo que aceitemos passivamente essas variações. Não quero pegar uma redação de aluno e encontrar algo como "A criança estava meia descontrolada" e acatar ou riscar como errada e pronto. Também, quando discuto esses aspectos linguísticos com meus alunos, ressalto bem que em redação empresarial, comercial ou em qualquer redação oficial, de caráter público, é preciso seguir os preceitos da norma-padrão. E enfatizo que certas coisas só podem ser usadas em redações pessoais, cartas a parentes e amigos, enfim, algo nada público.

E sei muito bem sabido que a língua é feita pelos usuários dela e há muitas mutações, aceitações, negações, etc. Minha proposta é, pois, que o professor não tenha pejo de discutir com os alunos essas discrepâncias e veja que tipo de possível desvio linguístico (não disse "erro") o levou a produzir uma frase em que ele tenha usado "meia" e não "meio", como no exemplo dado acima. Eu sempre questiono isso.

E sei muito bem sabido que a língua é feita pelos usuários dela e há muitas mutações, aceitações, negações, etc. Minha proposta é, pois, que o professor não tenha pejo de discutir com os alunos essas discrepâncias e veja que tipo de possível desvio linguístico (não disse "erro") o levou a produzir uma frase em que ele tenha usado "meia" e não "meio", como no exemplo dado acima. Eu sempre questiono isso.

LEO RECINO é mestre em Comunicação e Letras, instrutor na Universidade Corporativa Ernst & Young e professor na Fecap -

Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado. Revista LÍNGUA PORTUGUESA, Julho de 2014.

Até choque elétrico é melhor que não fazer nada (CRISTIANE SEGATTO)

Por que somos obcecados por entretenimento? Uma curiosa pesquisa explica

SE EU encontrasse o gênio da lâmpada dando sopa por aí, gastaria dois dos meus três desejos para garantir o que há de mais precioso neste mundo hiperconectado. Pediria tempo e silêncio. Abriria mão de um diamante para ter a garantia vitalícia de agarrar essas duas raridades sempre que sentisse vontade.

Em maior ou menor intensidade, esse é um sentimento generalizado. Estamos sendo triturados e engolidos por nossas agendas ao som de um falatório sem fim. O pancadão de opiniões ruidosas cansa. Estressa. Faz adoecer. Às vezes, dá vontade de estalar os dedos e se abrigar num refúgio bem particular. Quem nunca desejou ficar quieto, pensando na vida? Eu já. Muitas e muitas vezes. O que me surpreendeu nesta semana foi descobrir que talvez isso não seja exatamente verdade. Um curioso estudo (http://www.sciencemag.org/content/345/6192/75) publicado nesta sexta-feira (4) na revista Science demonstrou que pessoas preferem até mesmo receber pequenos choques elétricos a ficar sozinhas com seus próprios pensamentos.

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Esquisito? Nem tanto. A equipe do professor de psicologia Timothy Wilson, da Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos, conduziu onze experimentos com voluntários entre 18 e 77 anos. Concluiu que a maioria não suporta passar sequer quinze minutos sozinho numa sala, sem ter nada para fazer. Antes do início de um dos testes, os voluntários experimentaram na sala um aparelho que emitia pequenos choques elétricos. Antes de fechar a porta, os pesquisadores disseram aos participantes que eles ficariam sozinhos, com tempo para pensar na vida ou sonhar acordados.

Em pouco tempo os voluntários começaram a se mostrar impacientes. A maioria preferiria estar do lado de fora, ouvindo música ou mexendo no smartphone. Uma grande parcela – 67% dos homens e 25% das mulheres – resolveu meter o dedo no aparelho que emitia choques só para ter algo para passar o tempo. ―Foi uma surpresa perceber que nem os mais velhos gostam muito da ideia de ficar sozinhos com seus próprios pensamentos‖, disse Wilson. Segundo ele, a enorme oferta de aparelhos eletrônicos e o ritmo acelerado da vida moderna não são as causas da aversão humana à falta do que fazer.

Pelo contrário. Para Wilson, as pessoas usam e abusam de smartphones e outros produtos tecnológicos porque sentem uma enorme necessidade de entretenimento. Ele ressalta que estudos anteriores já haviam demonstrado que, em geral, as pessoas não gostam de se sentir desconectadas do mundo. ―A mente é projetada para estar ligada ao mundo‖, afirma Wilson. ―Mesmo quando estamos sozinhos, nosso foco quase sempre está no mundo exterior‖. Sem um treino de meditação ou de qualquer outra técnica de controle dos pensamentos, o que é difícil de alcançar, a maioria das pessoas prefere estar envolvida em atividades externas. O corpo pede preguiça, mas o que o cérebro quer não é exatamente sossego. Uma praia vazia é meu ideal de tranquilidade. Mal posso esperar para curtir o silêncio e sentir o cheiro do mar enquanto a areia estiver aquecendo minhas costas.

Quando esse dia chegar, os músculos estarão de folga, mas o cérebro vai procurar o que fazer. Ficará intrigado com a força da formiguinha que transporta uma folha maior que ela ou se divertirá imaginando o que acontece, naquele exato momento, dentro do navio que cruza o horizonte. Não nascemos para não fazer nada. Precisamos de ação e entretenimento, mas precisamos saber escolher para onde vale a pena levar nossa mente.

CRISTIANE SEGATTO é Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 17 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais e internacionais de jornalismo. Revista ÉPOCA, Julho de

2014.

Manipulados pela internet (HELENA BORGES e RAUL MONTENEGRO)

Pesquisa de universidades americanas provou que é possível manejar as emoções das pessoas no Facebook. Saiba como as ferramentas digitais podem disseminar conceitos na rede e influenciar as eleições e os negócios

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EM 2004, aos 19 anos, o então estudante universitário Mark Zuckerberg contou a um amigo, por meio de mensagens privadas, o que pensava dos usuários de seu novo site, TheFacebook.com, para o qual forneciam dados pessoais:

– Se você precisar de informações sobre qualquer um de Harvard, me pergunte. Tenho mais de quatro mil e-mails, endereços e fotos.

– Como você conseguiu isso? – perguntou o colega.

– Eles confiam em mim. Estúpidos.

Hoje, dez anos depois, o Facebook perdeu o ―The‖ e se tornou a principal rede social do planeta, com 1,3 bilhão de usuários. Zuckerberg ficou US$ 29 bilhões mais rico e se desculpou pelo que disse na juventude. O que não mudou foi o fato de que as pessoas continuam confiando dados pessoais a ele. Na semana passada, tanta confiança foi posta em xeque. O mundo descobriu que 689 mil usuários da versão em inglês do site foram cobaias, sem saber, de uma pesquisa feita pelo Facebook em conjunto com pesquisadores das universidades de Cornell e da Califórnia, ambas americanas. Nela, os cientistas manipularam o feed de notícias (a tela inicial, em que aparecem as publicações de amigos e páginas de interesse) e conseguiram provar ser possível manejar as emoções das pessoas, criando um ―contágio emocional‖. Para uma parte dos selecionados, o número habitual de publicações negativas em seu feed foi reduzido em 10%. Para outros, essa mesma diminuição ocorreu nos posts positivos. Quem era exposto a informações mais negativas passava a publicar material mais pessimista na rede. O mesmo mecanismo acontecia com quem tinha acesso a informações mais positivas.

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A revelação gerou duras críticas à rede social, além de preocupação com o poder excessivo nas mãos da empresa de Zuckerberg. Afinal, ela pode ser usada para deixar internautas mais receptivos a determinados produtos e ideias e até impactar eleições. Ou seja, dos negócios à política, tudo pode ser manipulado. O experimento deixou explícita a vulnerabilidade de quem navega pela web ao mostrar o quanto somos influenciáveis. ―É a mesma mecânica do mundo offline, só que a rede amplifica e potencializa as coisas‖, afirma a psicóloga Beatriz Breves, especialista em internet e sentimentos. Nossos interesses há muito já são manejados por outros gigantes da tecnologia, como Google, Yahoo!, Amazon e Apple. Essas empresas orientam nossas compras e até as notícias que leremos a partir do nosso comportamento online. Quem adquire um disco no iTunes ou um livro na Amazon logo recebe sugestões de outros produtos com o mesmo perfil. Da mesma forma, Google e Yahoo! reconhecem o tipo de informação buscada pela pessoa na internet e, com esse dado em mãos, direcionam notícias e publicidade.

O episódio trouxe à memória o caso Edward Snowden. O ex-técnico da CIA revelou detalhes de programas de vigilância usados pela Agência Nacional de Segurança americana para espionar a população a partir de dados de ligações telefônicas de milhões de americanos e acesso a fotos, e-mails e videoconferências de internautas conectados ao Google, Apple, Facebook e Skype. Outros países, inclusive o Brasil, também foram bisbilhotados. Por isso, cabe o questionamento sobre o uso político – explícito ou secreto – que é possível ser feito das redes sociais. Clay Johnson, que dirigiu a campanha digital de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos, classificou o experimento de ―assustador‖. ―Poderia a CIA incitar uma revolução no Sudão pressionando o Facebook a promover descontentamento?‖, questionou. No Reino Unido, uma comissão subordinada ao parlamento e ao Ministério da Justiça está investigando se a companhia quebrou as leis de proteção de dados do país.

PODER - Mark Zuckerberg: a rede social idealizada por ele tem 1,3 bilhão de usuários e é a mais popular do planeta

No Brasil, esta será a primeira campanha presidencial em que a internet deverá ter um peso significativo. ―Ninguém tem mais dúvida da força das redes sociais‖, diz Marcelo Branco, que coordenou a área digital da campanha da presidenta Dilma Rousseff em 2010. ―As manifestações de junho de 2013 provaram que é possível viralizar a indignação coletiva e essa pesquisa manipulou a opinião pública.‖ Num estudo feito durante os protestos dos indignados na Espanha, foi constatado que a comunicação via Facebook tem quatro vezes mais carga emocional do que as notícias normais. Ou seja, vai ganhar quem conseguir captar melhor o espírito da rede.

Branco afirma que as mídias sociais podem desequilibrar eleições se relacionarem comentários negativos a um candidato e positivos a outro. Como as pessoas estão desconfiadas das instituições, o peso da opinião dos amigos pode ser fundamental para a definição do voto, por isso, a manipulação desse espaço de debates fere a democracia. ―O que aparece

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na minha timeline depende de um algoritmo (sequências numéricas que levam a soluções de problemas) que junta vários fatores, inclusive pagamento. O Facebook não é confiável porque poderá turbinar quem está pagando mais para aparecer‖, argumenta. Ele aposta que as campanhas daqui para a frente deverão se basear muito mais nos relacionamentos pessoais do que em sites oficiais. ―Notícias de qualidade feitas por uma agência central ainda vão ser necessárias. Mas é mais importante valorizar o conteúdo dos colaboradores‖, afirma. Agora, antes de a campanha começar na tevê, é a hora de fortalecer os argumentos a favor e contra cada candidatura. O uso de robôs virtuais que disparam milhares de mensagens (muitas delas mentirosas) na internet para influenciar mecanismos de busca e formar um clima de opinião é visto por Branco com reservas: ―Os chamados bots podem pesar um pouco, mas o grande enganado é o cliente que pensa que muitas pessoas estão repercutindo um assunto, quando na verdade essas pessoas não existem‖.

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A verdadeira finalidade da análise de dados pessoais nas redes, porém, é criar publicidade. ―O Facebook usou a credibilidade da ciência para convencer seus clientes de que possui um poderoso instrumento de vendas‖, diz Luiz Claudio Martino, especialista em comunicação da Universidade de Brasília. Os anúncios na rede social foram desenvolvidos exatamente para fazer parte da experiência de uso. A estratégia é integrar as ofertas aos demais conteúdos, criando um contexto social nas propagandas, como quando nos informa que há uma conexão entre os amigos e a marca. ―Toda vez que se criar um canal com acesso a milhares de pes-soas, alguém vai transformar esse tipo de comunicação em dinheiro. Essa é apenas uma nova forma de publicidade‖, afirma Dorie Clark, estrategista de marketing e professora da Universidade de Duke. Os verdadeiros clientes do Facebook são os anunciantes. Em 2013, a empresa bateu seu recorde de receita, US$ 7,87 bilhões, 89% vindos diretamente da publicidade.

É possível ou patrocinar ou promover uma página e até comprar ―curtidas‖. Existem mais de 30 agências de marketing espalhadas pelo mundo que fazem o elo com os anunciantes. Algumas empresas pagam diretamente à companhia. Dentro da rede social, há uma plataforma que serve como menu. O cliente escolhe o que quer, informa o preço máximo que está disposto a pagar e seu orçamento. Ele pode especificar o público a ser atingido a partir de fatores como idade, localização, sexo, educação e interesses pessoais. O Facebook apenas dá alguns conselhos na hora de criar a propaganda. Anúncios e histórias patrocinadas no feed de notícias, por exemplo, não devem ter mais de 20% do espaço ocupado por texto, pode-se usar até seis imagens diferentes para criar variedade e um termômetro informa se o público definido é muito amplo ou restrito demais.

Como os gigantes da tecnologia conseguem ―entender‖ o internauta? A resposta está em algoritmos cada vez mais sofisticados. ―Existe uma série deles relacionados à análise de palavras, de sentimentos e de contextos. Servem exatamente para identificar assunto e temas principais dentro de um determinado texto‖, diz o especialista em análise de dados, Thoran Rodrigues, CEO da Big Data Corp. ―Em uma fração de segundos, ele faz toda a leitura e análise.‖ Os usuários do Facebook podem nem perceber, mas o feed de notícias já edita as publicações. Para realizar o estudo, os pesquisadores incluíram um critério a mais na seleção de informações recebidas. Antes de ir para a página, os dados foram analisados por dois softwares que escaneavam as palavras e lhes davam pontos positivos ou negativos, como uma nota de otimismo. Empresas de tecnologia fazem experimentos com seus clientes a todo momento. Google, Microsoft ou Yahoo! modificam com frequência a interface de seus sites para pequenos grupos e analisam as respostas com o objetivo de criar experiências de uso cada vez mais agradáveis. Obviamente, eles fazem isso em busca de mais cliques, mais visualizações e, consequentemente, mais lucro.

Monitorando o comportamento de cada pessoa na rede, os engenheiros conseguiram montar um sistema em que a máquina acompanha e aprende com cada movimento dos usuários, tudo atualizado em tempo real, para poder então fazer previsões sobre as próximas ações das pessoas. ―Dependendo do serviço que você está usando, o rastreamento vai ser diferente‖, explica Rodrigues. ―O Google usa o histórico de pesquisas, o Gmail escaneia seu e-mail e analisa as palavras de cada mensagem e dos documentos anexados. A ideia básica por trás do algoritmo é entender seu comportamento na plataforma e, de acordo com o que você faz, buscar coisas que te interessam.‖ De acordo com especialistas, vivemos hoje numa economia de intrusão. ―Companhias como o Facebook e o Google acumulam dados sobre nosso perfil e até sobre nossos sentimentos e os vendem a outras empresas‖, diz o sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, um dos pais do Marco Civil da internet.

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INDICAÇÃO - Jeff Bezos, da Amazon: quem compra um produto na loja virtual logo recebe sugestões de outros itens afins para comprar

O Facebook tenta agora se explicar com seus usuários. Adam Kramer, cientista de dados do site e um dos responsáveis pelo experimento, afirmou que o trabalho procurava derrubar o mito de que ver posts positivos deixava as pessoas depressivas ou se sentindo excluídas de uma espécie de ―clube da felicidade‖ existente nas mídias de relacionamento. Também disse que a empresa queria saber se usuários deixariam de usar a rede social caso seus feeds fossem muito negativos. Logo depois, a diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, desculpou-se pelo modo como ele foi divulgado: ―Isso era parte de uma pesquisa para testar diferentes produtos, mas foi mal comunicado‖.

Na realidade, em janeiro de 2012, quando o experimento foi feito, o Termo de Uso que todos são obrigados a aceitar para entrar no Facebook não mencionava a realização de estudos com usuários. Uma cláusula prevendo essa possibilidade só foi incluída quatro meses depois. Nos EUA, onde a lei é mais permissiva nesse aspecto, o argumento contratual teria boas chances de ser aceito. No Brasil, entretanto, mesmo que a informação sobre a pesquisa estivesse presente no documento, a situação seria outra. ―A legislação aqui protege mais o cidadão de abusos nos termos de uso.

O consumidor é considerado vulnerável porque não faz as normas, só tem a alternativa de aceitá-las ou de ficar de fora do progresso tecnológico‖, afirma Luiz Fernando Moncau, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro. O fato de as pessoas não terem sido advertidas de que participariam de um estudo levanta ainda outras questões. ―Toda pesquisa científica com seres humanos precisa ser submetida a um comitê de ética‖, diz Cesar Galera, professor de metodologia científica da Universidade de São Paulo, campus de Ribeirão Preto. Isso também não ocorreu.

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CONTROLE - Larry Page (esquerda) e Sergey Brin, donos do Google: histórico de pesquisas detecta interesse do

internauta

Há um universo de possibilidades para quem quer vender produtos ou influenciar pessoas na internet. Como se defender desse voraz mercado? O usuário deve sempre se lembrar que, em última instância, é ele quem fornece as informações para os sites. Os especialistas recomendam ainda o uso de programas que protegem dados de navegação (leia quadro ao lado) e a aprovação de leis que encontrem um balanço entre a nova economia digital e a privacidade de dados pessoais. ―Existe uma metáfora que diz que informação é como radioatividade. A radioatividade está presente em tudo, o problema é quando está concentrada. Do mesmo modo, informações esparsas não são graves, o perigo é quando todas elas estão num lugar só‖, alerta Silveira.

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HELENA BORGES e RAUL MONTENEGRO são Jornalistas e escrevem para esta publicação. Fotos: Justin Sullivan/Getty Images/AFP, Spencer Platt/Getty Images/AFP; David Paul Morris/Bloomberg via Getty Images; Dimitrios Kambouris/Getty Images. Revista ISTO É, Julho de 2014.