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MARIA DO ROSÁRIO DA SILVA ALBUQUERQUE BARBOSA REDAÇÃO

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MARIA DO ROSÁRIO DA SILVA ALBUQUERQUE BARBOSA

REDAÇÃO

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Lição 1 Linguagem e comunicação

LLiinngguuaaggeemm // LLíínngguuaa // OOrraalliiddaaddee xx EEssccrriittaa VVaarriiaaççõõeess LLiinnggüüííssttiiccaass

� LLiinngguuaaggeemm

Para comunicar-se, o homem dispõe de uma série de recursos, como: palavras, gestos,

expressões fisionômicas, símbolos, sinais, sons, movimentos, rabiscos, desenhos, pinturas, dança, etc.

A comunicação é a base da vida em sociedade. A linguagem e a sociedade relacionam-se intimamente: uma não existe sem a outra. O desenvolvimento humano e o avanço das civilizações dependeram principalmente da utilização da linguagem.

Os seres humanos acumulam e transmitem conhecimentos de uma geração a outra pela linguagem, fato que não ocorre entre os animais.

A LINGUAGEM É UM SISTEMA SOFISTICADO DE COMUNICAÇÃO QUE REVELA A CAPACIDADE DO SER HUMANO DE CRIAR UM CONJUNTO DE SIGNOS PARA REPRESENTAR AS ENTIDADES (PENSAMENTOS) DA NOSSA REALIDADE.

A linguagem é, ao mesmo tempo, um elemento da cultura e a condição para que exista cultura. A linguagem é um fenômeno universal e têm como objetivo principal a comunicação e a

interação entre indivíduos, sendo socialmente construída e transmitida culturalmente. A linguagem pode ser:

* verbal: aquela que utiliza palavras faladas ou escritas. Exs.: esta ficha de aula (palavras escritas) e a explanação dada pelo Prof. Caríssimo (palavras faladas). * não-verbal: aquela que utiliza outros signos que não são as palavras, como gestos, movimentos, pinturas, sinalizações e imagens. *mista: aquela que utiliza palavras faladas ou escritas e outros signos diferentes das palavras, como as histórias em quadrinhos, o cinema e a televisão. O termo multimídia, de criação e uso recentes, define o emprego simultâneo de diversas linguagens.

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� LLíínngguuaa

A língua é um tipo de linguagem. É a única modalidade de linguagem que utiliza palavras. A língua é a linguagem por excelência, entre todas as empregadas pelo homem. LÍNGUA É UM FENÔMENO SOCIAL À DISPOSIÇÃO DAS PESSOAS QUE COMPÕEM

UMA COMUNIDADE. É UM TIPO DE CÓDIGO FORMADO POR PALAVRAS E LEIS COMBINATÓRIAS POR MEIO DO QUAL AS PESSOAS COMUNICAM E INTERAGEM ENTRE SI.

Em outras palavras, as línguas são sistemas de comunicação criativos, arbitrários, pois seguem regras, fundamentalmente orais, complementarmente gráficos, complexos e irregulares.

FIQUE DE OLHO!!!FIQUE DE OLHO!!!FIQUE DE OLHO!!!FIQUE DE OLHO!!!

* A língua é um tipo de linguagem, mas nem toda linguagem é língua.

* Língua pode se manifestar por meio da fala ou da escrita. A escrita é, acima de tudo, segundo um de nossos maiores mestres eruditos, “um procedimento do qual atualmente nos servimos para imobilizar, para fixar a linguagem articulada [a fala], por essência fugidia”. Dessa forma, a escrita é uma das primeiras tecnologias desenvolvidas pelo ser humano. Entretanto, a escrita é mais que um instrumento. Mesmo emudecendo a palavra, ela não apenas a guarda, ela realiza o pensamento que até então permanece em estado de possibilidade.

� OOrraalliiddaaddee xx EEssccrriittaa Há poucos estudos sobre a diferença entre os dois tipos de linguagem. A modalidade oral,

intrinsecamente diferente da escrita, implica um conjunto de recursos, ausentes na escrita, que auxiliam o falante na comunicação lingüística. Vamos, a seguir, indicar as marcas mais significativas entre os dois tipos de linguagem:

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OORRAALL EESSCCRRIITTAA interlocutor presente interlocutor ausente feedback instantâneo ausência de feedback instantâneo

mais dependente do contexto situacional

menos dependente do contexto situacional

espontânea, basicamente sem planejamento

planejada, admite um repensar, um reestruturar

períodos mais curtos períodos mais longos liberdade em relação às regras submissão às regras

cacoetes presentes (né, pra, etc.) cacoetes lingüísticos ausentes � VVaarriiaaççõõeess LLiinnggüüííssttiiccaass

“Ela [a língua] é dinâmica, plástica, aberta, em contínuo movimento, e não há dicionário ou gramática

que consiga congelá-la” Carlos Alberto Faraco

Como falantes de Língua Portuguesa, percebemos que há situações em que a língua se apresenta sob uma forma bastante diferente daquela que nos habituamos a ouvir em casa ou através dos meios de comunicação. Essa diferença pode manifestar-se tanto pelo vocabulário utilizado, como pela pronúncia, morfologia e sintaxe. Essa diferenciação no interior de uma mesma língua é perfeitamente normal e decorre do fato de que as línguas naturais são sistemas dinâmicos e extremamente sensíveis a fatores como, entre outros, a região geográfica, o sexo, a idade, a classe social, grau de escolaridade dos falantes e o grau de formalidade do contexto.

O ancião quedou-se estático e boquiaberto. O velho ficou parado e de boca aberta.

O coroa ficou na dele mosqueando.

Cheguei a casa com reflexões inquietantes.

Ô sô, prestenção...

uai!!!

Falaê Mano!

E aê brother, que parada

ixxxquisita é essa?

Tu é casca grossa.

Mas bah, guri! Seguiiiinnte, bicho...

Ôxente, bichinho.

Este caba tá liso!

Ô meu rei... Não se avexe não...

Trampo loco, meo, ó aí!

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O véio encarangô. O cavalheiro de idade permaneceu quieto, em atitude contemplativa.

Os falantes das variedades lingüísticas socialmente valorizadas tendem a considerar “erradas” as variedades que desconhecem e que são usadas por outros falantes. Essa avaliação é equivocada.

Do ponto de vista estritamente lingüístico, não há nada nas variantes lingüísticas que permita considerá-las boas ou ruins, melhores ou piores, feias ou bonitas, primitivas ou elaboradas, e assim por diante.

Todas as variantes lingüísticas constituem sistemas lingüísticos perfeitamente adequados para a expressão das necessidades comunicativas e cognitivas dos falantes.

Nenhuma variedade lingüística sobrevive se não for adequada a um determinado contexto e a uma determinada cultura.

FIQUE DE OLHO!!!FIQUE DE OLHO!!!FIQUE DE OLHO!!!FIQUE DE OLHO!!!

O preconceito lingüístico é uma forma de discriminação que deve ser enfaticamente evitada.

Uma língua não é falada uniformemente por seus usuários. Dentro de uma mesma língua há

vários falares, e suas diferenças recebem influências direta da história, dos grupos e da região, da época e até mesmo do contexto político-econômico-social. Há variações também até na fala de um mesmo indivíduo.

Entre as variedades da língua existe uma que tem maior prestígio: a norma padrão, também conhecida como a norma culta. É nessa variedade que as comissões de vestibulares se baseiam para elaborar seus exames. As demais variedades – como a gíria, o jargão de grupos profissionais – são chamadas de variedade não padrão ou norma coloquial.

FIQUE DE OLHO!!!FIQUE DE OLHO!!!FIQUE DE OLHO!!!FIQUE DE OLHO!!!

As noções de acerto e erro dão lugar, numa análise mais abrangente e concernente com a realidade lingüística, às noções de adequação e inadequação.

Por exemplo, quando nós escrevemos um bilhete para um amigo, utilizamos uma variante lingüística distinta, se fôssemos redigir uma carta para reitor de universidade solicitando uma bolsa de estudos; isso se dá devido ao contexto lingüístico e ao grau de intimidade entre os interlocutores. Na carta, utilizaríamos a norma padrão (formal) e, no bilhete, a norma coloquial (informal).

Seria perfeitamente possível, escrevermos uma carta ao reitor de maneira coloquial, mas não seria adequado ao contexto, da mesma forma se escrevêssemos um bilhete a um amigo utilizando a norma padrão.

O mesmo acontece na modalidade oral: o padre ou o pastor quando estão conduzindo a missa ou o culto, por razões de contexto situacional e respeito à presença de Deus, devem fazer uso da variedade culta. O que você acharia, se ambos dissem: “E aí meu irmão, a cara lá de cima tá aqui, vamu agradecer a sua presença.”

Portanto, devemos ser como falante e usuário da língua, CAMALEÕES LINGÜÍSTICOS, ou seja, poliglota dentro de nossa própria língua.

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Tipos de Variações Lingüísticas: � VVAARRIIAAÇÇÃÃOO GGEEOOGGRRÁÁFFIICCAA,, TTEERRRRIITTOORRIIAALL oouu RREEGGIIOONNAALL:: representa a variação que ocorre

entre pessoas de diferentes regiões em que se fala a mesma língua. É o caso do Português do Brasil e o de Portugal ou os falares gaúcho, nordestino, carioca, etc.

� VVAARRIIAAÇÇÃÃOO SSÓÓCCIIOO--CCUULLTTUURRAALL:: representa a variação que ocorre de acordo com a classe social a que pertencem os usuários da língua. Por exemplo, um falante que mora em Apipucos, como o Prof. Caríssimo, provavelmente vai falar de forma distinta ao um falante que mora em Linha do Tiro, devido a fatores econômicos, enquanto o primeiro pertence a classe média ou alta e tem maiores recursos para ler livros, ir ao cinema, a museus, freqüentou excelentes escolas e convive com pessoas com nível cultural mais elevado, o segundo não tem a acesso à cultura por pertencer a classe baixa.

� VVAARRIIAAÇÇÃÃOO DDEE IIDDAADDEE:: representa as variações decorrentes da diferença no modo de usar a língua de pessoas de idades diferentes. Uma criança, por exemplo, não se expressa da mesma maneira que um adulto e o adulto não se expressa da mesma forma que o idoso.

� VVAARRIIAAÇÇÃÃOO DDEE SSEEXXOO:: representa as variações de acordo com o sexo de quem fala. A mulher (Comprei um blusinha linda!) não fala igual ao homem (Comprei uma camisa transada!).

� VVAARRIIAAÇÇÃÃOO HHIISSTTÓÓRRIICCAA:: representa estágios no desenvolvimento da língua.

ANTIGAMENTE

Antigamente, as moças chamavam-se mademoiselles1 e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras2, em geral dezoito. Os janotas3, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes4, arrastando a asa5, mas ficava longos meses debaixo do balaio6. E levavam tábua7, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia8. As pessoas, quando corriam, antigamente, era de tirar o pai da forca9...

(Carlos Drummond de Andrade, Caminhos de João Brandão.)

1Mademoiselle: palavra francesa equivalente a senhorita. 2Colher primaveras: fazer aniversário. 3Jonota: rapaz elegante, bem-vestido. 4Fazer pé-de-alferes: galantear, paquerar. 5Arrasta asa: cortejar. 6Ficar debaixo do balaio: ficar à espreita de, à espera de. 7Levar tábua: ser recusado, especialmente para uma dança. 8Pregar em outra freguesia: partir para outra. 9Tirar o pai da forca: ter pressa.

A língua é não homogênea, pois varia no espaço e muda ao longo do tempo, porque é próprio

do ser humano essa constante mudança, o que acaba refletindo na língua. Nós somos a língua viva e a mesma é alma do povo brasileiro.

Exercícios

01. Quando uma pessoa se comunica com outra ou outras, seja por meio de uma linguagem verbal ou não, sempre tem uma intenção. Faça, em um pequeno comentário, uma análise do cartum abaixo. Que sentidos ele expressa?

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(Caulos)

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02. É certo que nem todos falam como nós por inúmeras razões: faixa etária, sexo, grau de escolaridade, classe social, localidade. Todas essas diferenças constituem as variedades lingüísticas. Associe corretamente a primeira coluna com a segunda.

(1) VVAARRIIAAÇÇÃÃOO GGEEOOGGRRÁÁFFIICCAA (2) VVAARRIIAAÇÇÃÃOO SSÓÓCCIIOO--CCUULLTTUURRAALL (3) VVAARRIIAAÇÇÃÃOO DDEE IIDDAADDEE (4) VVAARRIIAAÇÇÃÃOO DDEE SSEEXXOO (5) VVAARRIIAAÇÇÃÃOO HHIISSTTÓÓRRIICCAA

( ) Me dê aí uma revista pra mim lê. ( ) Menina, tu nem sabes, tenho um babado fortíssimo!!! ( ) “A Lingoagem e figura de entendimento (...) os bos falão virtudes e os maliçiosos (...) sabẽ falar o q ẽtẽdẽ as cousas: porq das cousas as palauras nasçẽ e não das palauras as cousas.” Fernão de Oliveira. ( ) Arre água, macho! Deixa disso! ( ) Eles tão me ploculando...

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TEXTO [01] para as questões de 03 a 05.

um mito a pretensa possibilidade de comunicação igualitária em todos os níveis. Isso é uma idealização. Todas as línguas apresentam variantes: o inglês, o alemão, o francês, etc. Também as línguas antigas tinham variações. O português e outras línguas românicas provêm de uma variedade do latim, o chamado latim vulgar, muito diferente do latim culto. Além disso, as línguas mudam. O português moderno é muito distinto do português clássico. Se fôssemos aceitar a idéia de estaticidade das línguas, deveríamos dizer que o português inteiro é um erro e, portanto, deveríamos voltar a falar latim. Ademais, se o português provém do latim vulgar, poder-se-ia afirmar que ele está todo errado.

A variação é inerente às línguas, porque as sociedades são divididas em grupos: há os mais jovens e os mais velhos, os que habitam numa região ou noutra, os que têm esta ou aquela profissão, os que são de uma ou outra classe social e assim por diante. O uso de determinada variedade lingüística serve para marcar a inclusão num desses grupos, dá uma identidade para seus membros. Aprendemos a distinguir a variação. Quando alguém começa a falar, sabemos se é do interior de São Paulo, gaúcho, carioca ou português. Sabemos que certas expressões pertencem à fala dos mais jovens, que determinadas formas se usam em situação informal, mas não em ocasiões formais. Saber uma língua é conhecer variedades. Um bom falante é "poliglota" em sua própria língua. Saber português não é aprender regras que só existem numa língua artificial usada pela escola.

As variantes não são feias ou bonitas, erradas ou certas, deselegantes ou elegantes; são simplesmente diferentes. Como as línguas são variáveis, elas mudam. "Nosso homem simples do campo" tem dificuldade de comunicar-se nos diferentes níveis do português não por causa da variação e da mudança lingüística, mas porque lhe foi barrado o acesso à escola ou porque, neste país, se oferece um ensino de baixa qualidade às classes trabalhadoras e porque não se lhes oferece a oportunidade de participar da vida cultural das camadas dominantes da população.

(FIORIN, José Luiz. In: Atas do I Congresso Nacional da ABRALIN. Excertos.)

03. Pela compreensão global do [TEXTO 01], podemos afirmar que o autor:

0-0) critica, no português moderno, o fato de ele ter-se modificado ao longo do tempo, distanciando-se de sua forma clássica.

1-1) considera que o bom falante do português é aquele que, tendo freqüentado a escola, domina as regras da gramática normativa.

2-2) estabelece uma relação entre um fato lingüístico - a existência de variantes lingüísticas - e um fato social - a divisão das sociedades em grupos.

3-3) considera a variação lingüística como um fenômeno típico das línguas românicas, o que as diferencia das outras línguas.

4-4) percebe o uso de determinada variante lingüística como um dos meios através dos quais o indivíduo se identifica como membro de um grupo.

04. Sobre a relação entre o conhecimento lingüístico e o ensino escolar, a posição do [TEXTO

01] é a de que: 0-0)

0-0) a escola é o lugar onde esse conhecimento é sistematizado e apreendido em sua totalidade. 1-1) a escola possibilita ao aluno o conhecimento de normas gramaticais, mas isso não significa

necessariamente o domínio de todos os usos de uma língua. 2-2) há um conjunto de regras que apenas se mantém na língua ensinada na escola. ‘Saber

português’ é algo que se esgota pelo conhecimento dessas regras. 3-3) é do ensino escolar que restringe a gramática da língua ao uso padrão que resulta o

‘indivíduo poliglota em sua própria língua’. 4-4) é no ambiente escolar que as variantes são evidenciadas e trabalhadas.

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05. A análise feita no [TEXTO 01], sobre a variação lingüística, permite ao leitor inferir que:

0-0) 0-0) a existência da língua portuguesa é uma prova da não-estaticidade das línguas, neste caso

do latim. 1-1) as línguas não somente variam com o passar do tempo mas também com as diferenças de

grupos sociais. 2-2) algumas variantes, mais populares, são amostras de como o português é falado fora de um

padrão que é correto, bonito e elegante. 3-3) a variação das línguas não é um fenômeno exclusivamente lingüístico; é também um

fenômeno social. 4-4) o fato de um camponês apresentar dificuldade de comunicar-se nos diferentes níveis do

português deve-se prioritariamente às variantes lingüísticas.

TEXTO [02] para as questões de 06 a 07.

SOTAQUE ARETADO A mídia descobriu, e não é de hoje, o filão de novelas

ambientadas no Nordeste. Mas as emissoras não conseguem acertar no sotaque nordestino. Veja o que a população do Ceará acha do jeito de falar dos personagens nordestinos de uma novela.

OXENTE, MERMÃO!

Já a maneira como os nordestinos são retratados na novela desperta reações mais moderadas. Veja como eles se sentem.

(Veja, 27 de agosto de 1997. Adaptado).

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06. Analisando os dados verbais e não-verbais do [TEXTO 02], podemos afirmar que:

0-0) ao referir-se a um "sotaque nordestino", o texto, naturalmente, diferencia os falares

próprios do Nordeste dos falares das outras regiões. 1-1) ambos os gráficos revelam que há uma pequena quantidade de entrevistados que não se

posicionaram em relação à pesquisa. 2-2) a maioria dos entrevistados não se reconhece nos jeitos de falar dos personagens retratados

nas novelas televisivas. 3-3) a pesquisa revela que, apesar de a mídia não conseguir reproduzir com fidelidade o sotaque

do Nordeste, a maioria dos espectadores se diverte com programas cujos personagens são nordestinos.

4-4) a figura no canto superior do texto, aliada à expressão “oxente, mermão”, está em convergência com o título escolhido, pois ambos remetem para contextos de informalidade.

07. Relacionando-se as informações dos [TEXTOS 01 E 02], podemos afirmar que:

0-0) o ‘sotaque arretado’ a que o texto 2 se refere identifica uma das variantes do português

brasileiro. 1-1) os personagens da mídia não conseguem acertar o sotaque nordestino. Conseguiriam mais,

se fossem exemplos típicos de ‘poliglotas em sua própria língua’. 2-2) o sotaque típico do Nordeste é conseqüência do ensino de baixa qualidade que se oferece,

no Brasil, às classes trabalhadoras. 3-3) o fato de 87% dos entrevistados considerarem que a mídia fracassa ao tentar imitar o

sotaque nordestino é revelador de que essa variedade é muito difícil. 4-4) o fato de haver um sotaque típico de uma região do Brasil é indicativo de que, nessa região,

a língua permaneceu estática. 08. A partir dos textos abaixo, identifique os possíveis assaltantes pelo Brasil tendo como base as

variações lingüísticas e a diversidade da Língua Portuguesa. • ASSALTANTE NORDESTINO • ASSALTANTE MINEIRO • ASSALTANTE GAÚCHO • ASSALTANTE CARIOCA • ASSALTANTE BAIANO • ASSALTANTE PAULISTA • ASSALTANTE DE BRASÍLIA

a) Ô meu rei...(longa pausa) Isso é um assalto... (longa pausa) Levanta os braços, mas não se

avexe não...(longa pausa) Se num quiser nem precisa levantar, pra num ficar cansado ... Vai passando a grana, bem devagarinho (longa pausa) Num repara se o berro está sem bala, mas é pra não ficar muito pesado... Não esquenta, meu irmãozinho, (longa pausa) Vou deixar teus documentos na encruzilhada... ______________________________________________

b) O gurí, ficas atento ... Báh, isso é um assalto ... Levantas os braços e te aquieta, tchê! Não tentes nada e cuidado que esse facão corta uma barbaridade, tchê. Passa os pilas pra cá! E te manda a la cria, senão o quarenta e quatro fala.

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___________________________________________________

c) Ô sô, prestenção... isso é um assarto, uai ... Levanta os braço e fica quetin quesse trem na minha mão tá cheio de bala... Mió passá logo os trocados que eu num tô bão hoje Vai andando, uai! Tá esperando o que, uai! ___________________________________________________

d) Seguiiiinnte, bicho... Tu te fudeu. Isso é um assalto ... Passa a grana e levanta os braços rapá ... Não fica de bobeira que eu atiro bem pra caralho ... Vai andando e se olhar pra trás vira presunto ... ___________________________________________________

e) Querido povo brasileiro, estou aqui no horário nobre da TV para dizer que no final do mês, aumentaremos as seguintes tarifas: Energia, Água, Esgoto, Gás, Passagem de ônibus, IPTU, IPVA, Licenciamento de veículos, Seguro Obrigatório, Gasolina, Álcool, Imposto de Renda, IPI, CMS, PIS, COFINS ... mas não se preocupe, somos PENTA. ___________________________________________________

f) Ôrra, meu ... Isso é um assalto, meu .. Alevanta os braços, meu ... Passa a grana logo, meu... Mais rápido, meu, que eu ainda preciso pegar a bilheteria aberta pra comprar o ingresso do jogo do Curintia, meu.... Pô, se manda, meu ... ___________________________________________________

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Lição 2 Texto: coesão e coerência

A COESÃO TEXTUAL Texto 1

O ÚLTIMO VÔO DA COLUMBIA

O que estávamos fazendo lá? Os motivos da explosão do ônibus espacial norte-americano, em 1º de fevereiro, permanecem desconhecidos. A Columbia se desintegrou ao reingressar na atmosfera e matou sete pessoas, reacendendo a discussão sobre a real necessidade de manter missões tripuladas no espaço. Afinal, o que eles faziam lá? Levavam 91. experimentos a bordo, certo. Mas máquinas e robôs não poderiam substituí-los? Nos Estados Unidos, o debate esquentou. Para Paul Krugman, professor da Universidade de Princeton, os melhores resultados das viagens espaciais, tanto científicos quanto práticos, vêm de veículos não-tripulados e dos satélites. “Excetuando o conserto do telescópio Hubble, temos enviado pessoas ao espaço apenas para mostrar que somos capazes”, diz. O professor de Engenharia Aeroespacial da Universidade de Maryland, David Akin, discorda. Para ele, a presença de pessoas no espaço é um investimento no futuro da humanidade. “Elas fazem pesquisas básicas que podem não ter aplicações imediatas, mas abrem caminho para novas descobertas”, afirma. Uma das razões para mandar seres humanos ao espaço não é para que eles pesquisem alguma coisa, mas para que sejam pesquisados. “Se pretendemos futuras conquistas no espaço, não há outra alternativa de pesquisa em fisiologia humana, por exemplo”, afirma o coordenador do programa brasileiro da Estação Espacial Internacional (ISS), Petrônio Noronha de Souza. Servir de cobaia era mesmo uma das funções da tripulação do Columbia. Em seus corpos estariam respostas para o processo de perda de massa muscular e óssea e os distúrbios do sono no espaço, por exemplo.

(Superinteressante, São Paulo, ed. 186, mar. 2003, p. 22.)

EXERCÍCIOS DO TEXTO:

1. Na frase “Afinal, o que eles faziam lá?”

a) A que elementos do texto se referem o pronome eles e o advérbio lá? ————————————————————————————— ————————————————————————————— Que noção traz o advérbio afinal? —————————————————————————————— ——————————————————————————————

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2. “Uma das razões para mandar seres humanos ao espaço não é para que eles pesquisem alguma

coisa, mas para que sejam pesquisados.”

a) O pronome pessoal eles retoma uma expressão utilizada na frase. Qual? —————————————————————————————— ——————————————————————————————

b) Qual é o sujeito de “sejam pesquisados”? —————————————————————————————— ——————————————————————————————

3. Reescreva o trecho abaixo, substituindo o pronome em destaque pelo termo a que ele se refere. Faça as modificações que julgar necessárias. “Em seus corpos estariam respostas para os processos de perda de massa muscular e óssea e os distúrbios do sono no espaço, por exemplo.” —————————————————————————————— —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

4. Os pronomes relativos (que, o qual, cujo, etc.) têm a função de retomar um termo expresso numa oração anterior, projetando-o em outra oração. As conjunções (mas, porém, porque, embora, quando, etc.) têm a função de estabelecer uma relação (de adversidade, de causa, de concessão, de tempo, etc.) entre duas orações. Na frase: “Elas fazem pesquisas básicas que podem não ter aplicações imediatas, mas abrem caminho para novas descobertas”,

a) Que termo é retomado pelo pronome relativo que? —————————————————————————————— ——————————————————————————————

b) Que tipo de relação é estabelecida pela conjunção mas? Que outras conjunções poderiam estabelecer a mesma relação? —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

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EXERCÍCIOS COMPLEMENTARES:

1. As frases abaixo apresentam problemas de coesão textual. Identifique o problema e depois reescreva-as, tornando-as coesas.

a) Mais de cinqüenta mil pessoas compareceram ao estádio para apoiar o time onde seria disputada a partida final. ——————————————————————————————— ——————————————————————————————— ——————————————————————————————

b) Não concordo em nehuma hipótese com seus argumentos, pois eles vão ao encontro dos meus. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

c) A casa, que ficava em uma região em que fazia bastante frio durante o inverno. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

d) A platéia, conquanto reconhecesse o enorme talento do artista, ao final do espetáculo, aplaudiu-o de pé por mais de cinco minutos. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

2. Nos enunciados a seguir, destaque os conectivos que relacionam orações e substitua-os por outros de valor idêntico.

a) Uma das principais armas da saúde pública, a vacinação promete prevenir muitas epidemias, mas crescem as suspeitas de doenças causadas por causa de vacinas. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

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b) Paulo teria comparecido à reunião de posse da nova diretoria se o tivessem convidado com mais antecedência. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

c) Embora nunca tivesse passado por aquela avenida, o motorista foi multado por excesso de velocidade. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

d) Sacrificaram todo o rebanho bovino daquela região, porque temiam um surto de febre aftosa. —————————————————————————————— —————————————————————————————— Texto 2

1. Releia o texto e identifique a que fazem referência os pronomes em destaque.

a) “... que luta pela guarda de sua filha de 7 anos.” ——————————————————————————————— ——————————————————————————————

b) “É difícil não se render a cenas nas quais seu personagem desafia as próprias limitações em nome do amor pela filha.” —————————————————————————————— ——————————————————————————————

2. Observe o trecho abaixo e explique que tipo de relação a conjunção destacada estabelece entre as orações. “Embora pareça uma daquelas ‘atuações shows’, na qual o exibicionismo da composição ofusca a construção do personagem, Penn desaparece por trás de sua interpretação.” —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

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3. Considerando que a unidade de um texto decorre de sua coerência e que esta deve se manifestar

também na relação entre o texto propriamente dito e seu título, explique se o título dado ao artigo é coerente. —————————————————————————————— —————————————————————————————— TEXTO E SUA COERÊNCIA Texto 1

A SOCIEDADE SECRETA GREGA As colônias gregas ao longo dos mares Negro e Mediterrâneo eram pontos de contato entre centros antigos de conhecimento, como o Egito, a Babilônia e a Magna Grécia. Foi em uma dessas colônias, Samos, que nasceu um personagem genial – meio místico, meio mágico -, cujo lema era “tudo é número”. Pitágoras, pois é dele que estamos falando, viveu entre 580 e 500 a.C. aproximadamente. Viajou muito, pode ter conhecido até a Índia. Em Crotona, na costa sudeste do que hoje é a Itália, fundou uma sociedade secreta cuja base era o estudo da matemática e da filosofia. A escola pitagórica tinha um código de conduta rígido, acreditava na transmigração das almas e, portanto, que não se devia matar ou comer um animal porque ele poderia ser a moradia de um amigo morto. Também não se podiam comer lentilhas ou alimentos que causassem gases. Os pitagóricos imaginavam que os números ímpares tinham atributos masculinos e os pares eram femininos. O número 1, diziam, é o gerador dos outros números e o número da razão.

Galileu Especial, n. 1, abr. 2003

EXERCÍCIOS DO TEXTO:

1. Considerando que os textos podem servir a finalidades diversas – relatar um fato, descrever alguma coisa, defender um ponto de vista, dar informações ou explicações, orientar ou ordenar -, identifique com que finalidade foi produzido o texto A sociedade secreta grega. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

2. Na frase que abre o texto – “As colônias gregas ao longo do mares Negro e Mediterrâneo eram pontos de contato entre centros antigos de conhecimento, como o Egito, a Babilônia e a Magna Grécia” -, o autor utiliza o verbo ser no pretérito imperfeito do indicativo (eram). A escolha desse tempo verbal é coerente em função do assunto abordado no texto? Comente. —————————————————————————————— ——————————————————————————————

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3. “Pitágoras, pois é dele que estamos falando, viveu entre 580 e 500 a.C. aproximadamente.”. Levando em conta o sentido, comente se os tempos verbais empregados estão adequados. —————————————————————————————— —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

4. Além dos verbos, o emprego adequado de outras palavras que também podem exprimir a idéia de tempo (advérbios, locuções adverbiais e pronomes demonstrativos) é fundamental para garantir coerência ao texto. Levando isso em conta, comente o emprego das palavras destacadas nas frases abaixo.

a) “Pitágoras, pois é dele que estamos falando, viveu entre 580 e 500 a.C. aproximadamente.” —————————————————————————————— —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

b) “Em Crotona, na costa sudeste do que hoje é a Itália, fundou uma sociedade secreta cuja base era o estudo da matemática e da filosofia”. —————————————————————————————— —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

5. Na frase “Viajou muito, pode ter conhecido até a Índia”:

a) Que elemento permite identificar um baixo grau de comprometimento do autor em relação àquilo que afirma? —————————————————————————————— ——————————————————————————————

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b) alavra até função argumentativa, já que orienta o interlocutor a inferir algo que está pressuposto. Comente o que fica pressuposto com o uso de até. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

6. Certas palavras, sobretudo pronomes, advérbios e conectivos permitem a amarração das idéias na medida em que estabelecem ligação entre partes de um texto, facilitando, dessa forma, sua compreensão. Nos trechos abaixo, indique a que termo do texto se referem as palavras destacadas.

a) “... fundou uma sociedade secreta cuja base era o estudo da matemática e da filosofia.” ——————————————————————————————— ——————————————————————————————

b) “A escola pitagórica tinha um código de conduta rígido, acreditava na transmigração das almas e, portanto, que não se devia matar ou comer um animal porque ele poderia ser a moradia de um amigo morto.” —————————————————————————————— —————————————————————————————— EXERCÍCIOS COMPLEMENTARES:

1. Os textos seguintes apresentam algum tipo de incoerência. Sua tarefa será apontá-la e explicá-la.

a) Naquela manhã Paulo ligou para o amigo, cumprimentando-o, leu no jornal que seu amigo havia entrado na faculdade e acordou bem cedo. —————————————————————————————— ——————————————————————————————

b) A ciência já demonstrou que o consumo exagerado de bebidas alcoólicas é extremamente prejudicial à saúde. Adolescentes, aos dezesseis anos, ainda não têm maturidade suficiente para avaliar os malefícios que o consumo imoderado de bebidas alcoólicas lhes poderá causar. Além disso, nessa idade, gostam de novidades e, como muitas vezes são tímidos, utilizam-se de bebidas alcoólicas para ficar extrovertidos sem pensar nas conseqüências nefastas desse tipo de atitude. Por esses motivos, a lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas para menores de dezoito anos deveria ser revogada. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

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c) A reunião para o acerto da venda das ações ocorreu num jantar, em um elegante e caro restaurante, que era o preferido dos altos executivos de empresas do ramo de telecomunicações. Enquanto os empresários, em voz baixa, selavam o acordo, um grupo musical cantava música sertaneja e pagode. Na mesa ao lado, crianças comemoravam um aniversário, deliciando-se com os hambúrgueres servidos e as batatas fritas, sobre as quais colocavam bastante Ketchup. —————————————————————————————— —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

d) Machado de Assis é, sem dúvida, um dos maiores escritores brasileiros, pois sua obra não só enfoca a vida urbana do Rio de Janeiro, como também tem por cenário outras regiões do país. É o que se pode observar em seus romances regionais. —————————————————————————————— —————————————————————————————— —————————————————————————————— ———————————————————————————————

2. Nos textos seguintes, a presença de elementos lingüísticos confere coerência ao texto. Identifique esses elementos.

a) Vocês podem achar que estou louco! Mas o carnaval na Finlândia é o mais animado do mundo. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

b) Apesar da grave crise econômica por que passamos, apesar das deficiências do sistema de saúde público, apesar da crescente falta de segurança nas cidades, apesar dos inúmeros escândalos sobre desvios de verba, vivemos em um verdadeiro paraíso. —————————————————————————————— ——————————————————————————————

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c) A língua oficial do povo brasileiro é o tupi-guarani (sic), por isso acho que em vez de português, o ensino do tupi-guarani é que deveria ser obrigatório nas escolas. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

3. Os textos seguintes são trechos de redações de alunos citados por Maria Thereza Fraga Rocco em seu livro Crise na linguagem – a redação no vestibular. Neles há algum tipo de incoerência. Aponte-a e comente-a.

a) “Pela tarde chegou uma carta a mim endereçada, abri-a correndo sem nem tomar fôlego. O envelope não tinha nada dentro, estava vazio. Dentro só tinha uma folha, em branco.” —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

b) “Eu não ganhei nenhum presente, só ganhei uma folha em branco, meu retrato de pôster e um disco dos Beatles.” —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

c) “Pela manhã recebi uma carta repleta de conselhos. Era uma carta em branco e não liguei para os conselhos já que os conselhos não interessam para mim pois sei cuidar da minha vida.”

d) —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

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Lição 3

Texto: tipos e gêneros

TTIIPPOOLLOOGGIIAA TTEEXXTTUUAALL

Tipologia textual é a forma como um texto se apresenta. As tipologias existentes são:

narração, descrição, dissertação, exposição, injunção e poética. NARRAÇÃO (texto narrativo) – modalidade textual em que se conta um fato, fictício ou não,

que ocorreu num determinado tempo e lugar, envolvendo certos personagens. Refere-se a objetos do mundo real. Há uma relação de anterioridade e posterioridade. O tempo verbal predominante é o passado. Estamos cercados de narrações desde que nos contam histórias infantis como Chapeuzinho Vermelho ou Bela Adormecida, até as picantes piadas do cotidiano. O que a distingue da descrição é a presença de personagens atuantes, que estão quase sempre em conflito.

A Narração envolve:

• Quem? Personagem;

• Quê? Fatos, enredo;

• Quando? A época em que ocorreram os acontecimentos;

• Onde? O lugar da ocorrência;

• Como? O modo como se desenvolveram os acontecimentos;

• Por quê? A causa dos acontecimentos;

Ex.: Numa tarde de primavera, a moça caminhava a passos largos em direção ao convento. Lá estariam a sua espera o irmão e a tia Dalva, a quem muito estimava. O problema era seu atraso e o medo de não mais ser esperada...

DESCRIÇÃO (texto descritivo) – tipo de texto em que se faz um retrato por escrito de um

lugar, uma pessoa, um animal ou um objeto. A classe de palavras mais utilizada nessa produção é o adjetivo, por sua função caracterizadora. Numa abordagem mais abstrata, pode-se até descrever sensações ou sentimentos. Não há relação de anterioridade e posterioridade.

Ex.: Seu rosto era claro e estava iluminado pelos belos olhos azuis e contentes. Aquele sorriso aberto recepcionava com simpatia a qualquer saudação, ainda que as bochechas corassem ao menor elogio. Assim era aquele rostinho de menina-moça da adorável Dorinha.

DISSERTAÇÃO (texto dissertativo, argumentativo ou dissertativo-argumentativo) – estilo de texto com posicionamentos pessoais e exposição de idéias. Tem por base a argumentação, apresentada de forma lógica e coerente a fim de defender um ponto de vista. Presença de estrutura básica: apresentação da idéia principal (introdução), argumentos (desenvolvimento), conclusão. Utiliza verbos na 1ª e 3ª pessoas do presente do indicativo. É a modalidade mais exigida nos concursos em geral, por promover uma espécie de “raios-X” do candidato no tocante a suas

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opiniões. Nesse sentido, exige dos candidatos mais cuidado em relação às colocações, pois também revela um pouco de seu temperamento, numa espécie de psicotécnico. Ex.: Tem havido muitos debates em torno da ineficiência do sistema educacional do Brasil. Ainda não se definiu, entretanto, uma ação nacional de reestrutura do processo educativo, desde a base ao ensino superior.

EXPOSIÇÃO (texto expositivo, informativo ou explicativo) – o texto expositivo apresenta informações sobre um objeto ou fato específico, sua descrição, a enumeração de suas características. Esse deve permitir que o leitor identifique, claramente, o tema central do texto.

Um fato importante é a apresentação de bastante informação, caso se trate de algo novo esse se faz imprescindível.

Quando se trata de temas polêmicos a apresentação de argumentos se faz necessário para que o autor informe aos leitores sobre as possibilidades de análise do assunto.

O texto expositivo deve ser abrangente, deve permitir que seja compreendido por diferentes tipos de pessoas.

Ex.: O telefone celular

A história do celular é recente, mas remonta ao passado –– e às telas de cinema. A mãe do telefone móvel é a austríaca Hedwig Kiesler (mais conhecida pelo nome artístico Hedy Lamaar), uma atriz de Hollywood que estrelou o clássico Sansão e Dalila (1949). Hedy tinha tudo para virar celebridade, mas pela inteligência. Ela foi casada com um austríaco nazista fabricante de armas. O que sobrou de uma relação desgastante foi o interesse pela tecnologia. Já nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial, ela soube que alguns torpedos teleguiados da Marinha haviam sido interceptados por inimigos. Ela ficou intrigada com isso, e teve a idéia: um sistema no qual duas pessoas podiam se comunicar mudando o canal, para que a conversa não fosse interrompida. Era a base dos celulares, patenteada em 1940.

INJUNÇÃO (texto injuntivo ou instrucional) – indica como realizar uma ação; aconselha, dar ordens, comandos. É também utilizado para predizer acontecimento e comportamentos. Utiliza linguagem objetiva e simples. Os verbos são, em sua maioria, empregados no modo imperativo. Há também o uso do futuro do presente. Exs.: manuais (não coloque vaso de flores sobre a televisão, não limpe a televisão com álcool, utilize uma flanela umedecida com água), receitas (pegue, acrescente, mexa, unte, amasse, leve), anúncios publicitários (compre Baton, vem pra Caixa você também, vem).

POÉTICA (texto poético) – o texto poético é aquele que se caracteriza por sua função estética (o artista procura representar a realidade a partir de sua visão, interpretando aspectos que julga mais relevantes, sem se preocupar em tratá-la de modo fiel), por seu caráter ficcional (os fatos apresentados no texto poético não fazem necessariamente parte da realidade), por sua subjetividade (o autor procura expressar seus sentimentos, suas emoções e experiências, essa característica faz com que as informações deixem de ser o centro de atenção do texto poético) e pela plurissignificação (característica que permite que as palavras assumam diferentes significados, linguagem conotativa, figuras de linguagem). Ex.: SSOONNEETTOO DDAA SSEEPPAARRAAÇÇÃÃOO De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma

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E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama. De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente. Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente.

Vinícius de Moraes OBSERVAÇÃO: em um mesmo texto podemos encontrar mais de uma tipologia textual presente, entretanto, apenas uma deve predominar.

GGÊÊNNEERROOSS TTEEXXTTUUAAIISS Gêneros Textuais são tipos relativamente estáveis de enunciados elaborados nas diferentes

esferas sociais de utilização da língua. Gênero é uma classe de eventos comunicativos, os quais são delimitados por objetivos comunicativos (tema, estilo e estrutura esquemática).

São três os elementos principais que caracterizam o gênero: conteúdo temático (assunto, a mensagem transmitida); o plano composicional (estrutura formal dos textos pertencentes ao gênero); o estilo (leva em conta as questões individuais de seleção e opção: vocabulário, estruturas frasais, preferências gramaticais).

Os gêneros textuais são inúmeros, apresentam características sócio-comunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição própria.

Exs.: poesia, histórias em quadrinhos, fábulas, crônicas, propagandas, receitas, novelas, romances, músicas, contos, cartazes, folhetos, editoriais, artigos de opinião, mapas, tabelas, gráficos, telefonema, sermão, carta comercial, carta pessoal, bilhete, reportagem jornalística, aula expositiva, reunião de condomínio, notícia jornalística, horóscopo, bula de remédio, lista de compras, cardápio de restaurante, instruções de uso, outdoor, inquérito policial, resenha, edital de concurso, piada, conversação espontânea, conferência, carta eletrônica, bate-papo por computador, aulas virtuais entre outros.

Exercícios [TEXTO 1]

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Disponível em: http://josealbertofarias.files.wordpress.com/2007/03/out1.jpg.

Acesso em 17/12/2007.

1. Qual tipologia textual predomina [TEXTO 1] ?

____________________________________________________________ ____________________________________________________________ 2. A que gênero textual pertence o [TEXTO 1] ?

____________________________________________________________ ____________________________________________________________ 3. Considerando a tipologia textual, é CORRETO dizer que a função do [TEXTO 1] é: a) relatar um fato, apresentando riqueza de detalhes, para impressionar o interlocutor. b) narrar fatos em que personagens se movem num certo espaço e num dado tempo. c) usar estratégias de convencimento, para tentar persuadir alguém a agir de tal forma. d) expor idéias para informar um público restrito acerca de um tema científico. e) descrever algo, fornecendo alguns elementos que nos levem a identificar o objeto.

[TEXTO 2]

A deusa dos raios azulados

Nas noites de verão, ou todas as noites, depois do jantar, o pai abandona a mesa. Ainda com a xícara de café na mão, ele se dirige à caixa quadrada. A deusa dos raios azulados espera o toque. O lugar principal é para o pai. Ninguém conversa. Não há o que falar. O pai não traz nada da rua, do dia-a-dia, do escritório. Os filhos não perguntam, estão proibidos de interromper. A mulher mergulha na telenovela, no filme. Todos sabem que não virá visita. E se vier alguma, vai chegar antes da telenovela. Conversas esparsas durante os comerciais. A sensação é que basta estar junto. Nada mais. Silenciosa, a família contempla a caixa azulada. Os olhos excitados, cabeças inflamadas. Recebendo, recebendo. Enquanto o corpo suportar, estarão ali. Depois tocarão o botão e a deusa descansará. Então, as pessoas vão para as camas, deitam e sonham. Com as coisas vistas. Sempre vistas através da caixa. Nunca sentidas ou vividas. Imunizadas que estão contra a própria vida.

Ignácio de Loyola Brandão. In Dentes ao sol. Rio de Janeiro: Codecri, 1980. p.288

04. Considerando a tipologia textual, é CORRETO afirmar que a função do [TEXTO 3] é:

a) expor aos possíveis leitores os benefícios causados pela televisão. b) narrar fatos, apresentando riquezas de detalhes, para impressionar o interlocutor e levá-lo à

reflexão. c) apresentar informações científicas sobre a relação familiar. d) relatar idéias para informar a um determinado público acerca da televisão. e) persuadir o eleitor a continuar fazendo uso da televisão, devido ao seu amplo conhecimento

transmitido por ela.

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[TEXTO 3]

05. Considerando o [TEXTO 3] assinale (V) para as assertivas verdadeiras e (F) para as falsas.

( ) Pode-se afirmar que o texto pertence ao gênero textual propaganda. Ela constitui-se um meio de promover vendas em massa. Nesse sentido, deve interessar, persuadir, convencer e levar à ação. Baseando-se no conhecimento da natureza humana, tem de influenciar o comportamento do consumidor.

( ) Fica evidente no texto o apelo a uma necessidade, despertando ou criando o desejo, visto que o anúncio tenta cumprir com a sua missão: levar o consumidor a adquirir o produto anunciado.

( ) O principal objetivo do texto é dar ordens e comandos. Portanto a tipologia textual predominante é a injunção.

( ) Tanto o enunciado da parte superior do anúncio quanto no enunciado inferior destaca-se o emprego do adjetivo ou de locuções adjetivas. Considerando a intencionalidade do texto, isto é, a finalidade com que ele foi criado, o predomínio dessa classe gramatical reflete o objetivo de promover o produto, no caso, o soverte Milka da Kibon, ressaltando suas qualidades positivas.

( ) O enunciado da parte superior apresenta intencionalmente uma ambigüidade.

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06. Atente para o seguinte fragmento extraído do texto:

“O sonho de toda mulher: bonito, gostoso e com recheio.”

a) Sem levar em conta a imagem, qual parece ser, em princípio, o “sonho de toda mulher”? ________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

b) Cruzando o texto com a imagem, que novo sentido ganha esse sonho? ____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

c) Os adjetivos bonito e gostoso e a locução adjetiva com recheio participam da construção da ambigüidade, pois podem tanto se referir a uma pessoa quanto a um alimento. Supondo que se refiram a uma pessoa, o que seria um pessoa “com recheio”? _______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

07. Considerando os diferentes tipos textuais e suas características principais, assinale a alternativa em que os trechos seguintes e sua classificação fazem uma associação INCORRETA.

I. “Estavam no pátio de uma fazenda

sem vida. O curral deserto, o chiqueiro das cabras arruinado e também deserto, a casa do caseiro fechada, tudo anunciava abandono.” (Graciliano Ramos, Vidas Secas) – Texto dissertativo.

II. “Além de ser a primeira, a maior e a mais garantida do Brasil, a Poupança da Caixa também dá prêmios milionários. São cerca de 1.800 prêmios de 500 reais, 25 prêmios de 10 mil reais e o prêmio de 1 milhão de reais (…)” (Anúncio da Caixa, publicado na Revista Veja, de 06 de fevereiro de 2002) – Texto descritivo.

III. “A concepção do homem sobre si

mesmo e sobre o mundo tem mudado radicalmente. Primeiro, os homens pensavam que a Terra fosse plana e que fosse o centro do universo; depois, que o homem é uma criação divina especial (…)” (K. E. Scheibe) – Texto descritivo.

IV. “Para viver, necessitamos de

alimento, vestuário, calçados, alojamento, combustíveis, etc. Para termos esses bens materiais é necessário que a sociedade os produza (…)”. (A. G. Graciliano, Introdução à Sociologia) – Texto dissertativo.

V. “Vinha eu caminhando pela Avenida

Marginal, quando ouço um choro abafado e fino, como de menino pequeno.” (Lourenço Diaféria) – Texto narrativo. Estão INCORRETAS as associações:

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a) II e IV. b) II, IV e V. c) III e V. d) I, III e V. e) I e III.

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Lição 4

Texto: Vozes do Texto

Texto I Nem anjo nem demônio

Desde que a TV surgiu, nos anos 40, fala-se do seu poder de causar dependência. Os

educadores dos anos 60 bradaram palavras acusando-a de “chupeta eletrônica”. Os militantes políticos creditavam a ela a alienação dos povos. Era um demônio que precisava ser destruído. Continuou a existir, e quem cresceu vendo desenhos animados, enlatados americanos e novelas globais não foi mais imbecilizado - ao menos não por esse motivo. Ponto para a televisão, que provou também ser informativa, educativa e (por que não?) um ótimo entretenimento. Com exceção da qualidade da programação dos canais abertos, tudo melhorou. Mas começaram as preocupações em relação aos telespectadores que não conseguem dormir sem o barulho eletrônico ao fundo. Ou aos que deixam de ler, sair com amigos e até e namorar para dedicar todo o tempo livre a ela, ainda que seja pulando de um programa para o outro. “Nada nem ninguém me faz sair da frente da TV quando volto do trabalho”, afirma a administradora de empresas Vânia Sganzerla.

Muitos telespectadores assumem esse comportamento. Tanto que um grupo de estudiosos da Universidade de Rutgers, nos Estados Unidos, por meio de experimentos e pesquisas concluiu que a velha história do vício na TV não é só uma metáfora. “Todo comportamento compulsivo ao qual a pessoa se apega para buscar alívio, se fugir do controle, pode ser caracterizado como dependência”, explica Robert Kubey, diretor do Centro de Estudos da Mídia da Universidade de Rutgers.

Os efeitos da televisão sobre o sono variam muito. “Quando tenho um dia estressante, agitado, não durmo sem ela”, comenta Maurício Valim, diretor de programas especiais da TV Cultura e criador do site Tudo sobre TV. Outros, como Martin Jaccard, sonorizador de ambientes, reconhecem que demoram a pegar no sono após uma overdose televisiva. “Sinto uma certa irritação, até raiva, por não ter lido um bom livro, namorado ou ouvido uma música, mas ainda assim não me arrependo de ver tanta TV, não. Gosto demais”. É uma as mais prosaicas facetas desse tipo de dependência, segundo a pesquisa do Centro de Estudos da Mídia. As pessoas admitem que deveriam maneirar, mas não se incomodam a ponto de querer mudar o hábito. Sinal de que tanto mal assim também não faz.

SCAVONE, Miriam. Revista Claudia. In: TERRA, Ernani; NICOLA, José de. Português: língua, literatura e produção de textos. 1. ed. São Paulo: Scipione, 2003, pp. 10-1. 2 v.

1. De acordo com a leitura do texto, responda: a) Sobre o que o texto fala? ________________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________________ b) Qual o posicionamento da autora quanto ao tema discutido? Cite um trecho do texto que justifique sua resposta.

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2. No decorrer do texto, a autora (jornalista) abre espaço para a presença de outras citações e opiniões de pessoas especializadas e diretamente envolvidas na situação, de quem são essas outras vozes presentes no texto? 3. Identifique quem está por trás das seguintes falas: a) A TV tem o “poder de causar dependência”. b) A TV é acusada de ser a “chupeta eletrônica”. c) A TV é acusada de ser “a alienação dos povos”. 4. Explique a relação do título “Nem anjo nem demônio” com o texto.

As diferentes vozes do texto

A produção de um texto oral ou escrito é baseado em uma situação ou em um contexto, do qual fazem parte, principalmente:

� a pessoa que fala (locutor principal); � com quem ela dialoga (outras vozes e opiniões expressas no texto); � o porquê da conversação; e � qual a intenção de quem fala.

Assim, são vários os tipos de discurso e várias as maneiras de as vozes se

manifestarem. E é inegável que elas são importantes e estão presentes em todos os textos. Discurso é, então, a atividade comunicativa entre interlocutores que apresenta

sentido e está inserida em um contexto. Dessa forma podemos afirmar que os textos são essencialmente polifônicos, ou

seja, são reuniões de várias vozes. Temos a voz privilegiada – a do locutor principal – que vai incorporando as outras vozes no texto.

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Texto II

Jeitos de gostar De tudo que eu conversava com o meu amigo tem duas coisas que eu lembro mais. Não sei

por quê. A primeira é um papo que a gente teve num domingo. Tava chovendo. A gente tinha acabado de jogar. O meu amigo levantou, acendeu o cachimbo, começou a preparar umas tintas, e então conversou de amor.

Amor de trabalhar. De pintar. Amor de homem e de mulher, de pai, de mãe, amor de cidade-de-país-e-de-mundo onde a gente mora, amor de filho, de amigo.

– Amor assim feito a gente tem um pelo outro – ele falou. O meu coração pulou. Toda a vida eu gostei do meu amigo assim... assim bem grande; mas eu sempre pensei que ele

gostava menor de mim. Não sei se porque eu era criança e ele não; ou se porque ele era um artista e eu não; só sei que quando ele falou de amor o meu coração pulou daquele jeito: será que então a gente se gostava igual?

Quis logo ver se era mesmo: – Como é que você gosta de mim?

– Depende. Tem dias que eu gosto feito pai. Fico com pena de você não ser meu filho, de não poder dizer: fui eu que fiz esse garoto! – Meio que riu. Depois ficou sério, sentou em frente do cavalete e começou a pintar. – Mas aí, no outro dia, eu não tenho nenhuma vontade de ser teu pai: quero só ser teu amigo e pronto. – Pintou mais um bocado. - Às vezes eu gosto de você porque você é o meu parceiro de gamão; outras vezes porque eu tinha vontade de ser você, quer dizer, de ser criança de novo. E se a gente junta tudo que é jeito vê que gosta bem grande, vê que é amor.

Achei tão bom ele falando de gostar de mim que fiquei ali parado sem dizer mais nada, só olhando ele pintar. Mas lá pelas tantas eu não resisti:

– Você acha que a gente é parecido? – De cara, não; de jeito, é. Jeito de ficar quieto, jeito de espirrar sem estar gripado, jeito de

olhar pras coisas. Tive muito amigo grande, mas nenhum de jeito tão parecido comigo feito você.

NUNES, Lygia Bojunga. O meu amigo pintor. In: GONÇALVES, Maria Sílvia; RIOS,Rosana. Português em outras palavras. 2. ed. São Paulo: Scipione, 1997, pp. 41-2. 3 v.

Os tipos de discurso

Dependendo da forma que o locutor principal reproduz a voz de outros falantes, ou seja, de outros personagens no texto, utilizará duas possibilidades de construção:

� o discurso direto, que descreve literalmente a fala dos personagens; � o discurso indireto, em que o narrador reproduz com suas palavras a

fala dos personagens.

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Texto III

Léia e Marcos se conheceram no ponto de ônibus. Ela havia deixado cair um livro de mistério. Marcos o recolheu, dizendo que também gostava desse tipo de livro.

Léia propôs que, quando ela acabasse de ler aquele, emprestaria a ele, já que os dois sempre tomavam o ônibus no mesmo ponto. Despediram-se, já amigos, até o dia seguinte.

GONÇALVES, Maria Sílvia; RIOS, Rosana. Português em outras palavras. 2. ed. São Paulo:

Scipione, 1997, p. 44. 3 v.

Compreendendo os textos

1. Qual o tema central do texto II?

Discurso direto Observe o seguinte trecho: “– Amor assim feito a gente tem um pelo outro – ele falou.”

No texto “Jeito de gostar”, de Lygia Bojunga Nunes, encontramos o discurso direto, ou seja, o narrador reproduz textualmente as palavras da personagem (o emissor).

O discurso direto apresenta-se com:

� verbo de elocução (ou dicendi, ou declarativos), que caracterizam a maneira de exprimir a fala: dizer, afirmar, falar, perguntar, afirmar, sussurrar, gritar etc; � marcas gráficas: dois-pontos, aspas ou travessão.

No trecho destacado, a autora utilizou o “travessão” e o verbo de elocução “falar” para

conferir maior autenticidade à narrativa.

Discurso indireto

Agora observe o seguinte trecho:

“Marcos o recolheu, dizendo que também gostava desse tipo de livro.”

O narrador (locutor principal) não reproduz as palavras do personagem, mas conta-nos o que o personagem disse. Trata-se do discurso indireto.

No discurso indireto:

� eliminam-se os dois-pontos, aspas e travessões; � introduz-se a fala do personagem por meio do verbo de elocução seguido de uma

palavra (geralmente que ou se); � ocorrem mudanças nos verbos, em alguns advérbios e em alguns pronomes em

decorrência da mudança no tempo na narrativa.

No trecho destacado, o narrador conta o que Marcos disse reproduzindo sua fala.

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2. Destaque no texto II mais dois trechos que exemplifiquem o discurso direto. ———————————————————————————— ———————————————————————————— ———————————————————————————— 3. Transforme os trechos que você destacou no discurso direto para o discurso indireto. ———————————————————————————— ———————————————————————————— ———————————————————————————— ———————————————————————————— 4. No texto III identifique mais um exemplo de discurso indireto e explique qual a estrutura utilizada para a reprodução da fala do personagem. ———————————————————————————— ———————————————————————————— ———————————————————————————— ———————————————————————————— ————————————————————————————

5. Agora reescreva o texto III utilizando o discurso direto. Você pode reescrevê-lo através de um diálogo. ——————————————————————————————

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Texto IV “Não parava de cantar, Antônio, afirmando que ia para o outro tempo enquanto o povo todo

desconfiava que era para o outro mundo que ele ia, e só se ouvia o martelo lá dentro, toc toc toc, e quando os sete dias se passaram , o oitavo dia acordou e deu de cara com a máquina da morte prontinha.

Mas ficou bonita demais, dava até gosto ficar vendo. E isso anda? Não andava. Voa? Não voava. Nada? Não. Claro que não cabia na compreensão de ninguém, como é que Antônio diz que vai pra outro tempo se essa máquina não sai do canto?, e ele até se irritava, isso aí é a máquina da morte eu é que sou a máquina do tempo. Mas o povo duvidava: e é, é? Desde quando?”

FALCÃO, Adriana. A máquina . In: TERRA, Ernani; NICOLA, José de. Português: língua,

literatura e produção de textos. 1. ed. São Paulo: Scipione, 2003, p. 15. 2 v.

1. Identifique, se possível, mais um trecho em que se focalize a personagem e mais um que focalize a consciência (fala interior) da personagem. ————————————————————————————

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Discurso indireto livre

É um tipo de discurso misto. O discurso do narrador e as falas das personagens que se introduzem revelam o seu fluxo de pensamento.

A mistura do discurso direto das personagens com o discurso indireto do narrador é chamada discurso indireto livre.

Observe que no texto IV o narrador reproduz falas do povo no meio a narração, sem marcações gráficas ou verbo de elocução (marcas do discurso direto) e também sem o que ou o se (marcas do discurso indireto). Por outro lado, as respostas de Antônio apresentam características do discurso indireto: 1ª perspectiva: focalizar a personagem

“Não parava de cantar, Antônio, afirmando que ia para o outro tempo enquanto o povo todo desconfiava que era para o outro mundo

que ele ia...”

2ª perspectiva: focalizar a consciência da personagem

“Mas ficou bonita demais, dava até gosto ficar vendo.”

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Praticando

1. Escolha uma das propostas sugeridas abaixo e escreva três pequenos textos nas formas de discurso apresentadas:

� Dois ex-colegas, que não se vêem há anos, reencontram-se. � Ex-namorados se encontram na fila do cinema, ambos solitários. � Dois torcedores de times rivais discutem o resultado no final de um jogo.

Assim, utilize para o:

� Texto I: o discurso direto (diálogos). � Texto II: o discurso indireto (o narrador conta o que acontece). � Texto III: o discurso indireto livre (discurso misto).

Texto I —————————————————————————————

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————————————————————————————— ————————————————————————————— Texto II —————————————————————————————

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————————————————————————————— Texto III —————————————————————————————

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Referências Bibliográficas

FRASCOLLA, Anna; FÉR, Aracy Santos; PAES, Naura Silveira. Lendo e interferindo. 1. ed. São Paulo: Moderna, 1999, pp. 109 a 111. GONÇALVES, Maria Sílvia; RIOS, Rosana. Português em outras palavras. 2. ed. São Paulo: Scipione, 1997, pp. 41 a 44. (7ª série) SARGENTIM, Hermínio Geraldo. Palavras. 1. ed. São Paulo: IBEP, 2002, pp. 84 e 85. (Coleção Língua Portuguesa) SARGENTIM, Hermínio Geraldo. Redação: Curso Básico. São Paulo: IBEP, pp. 30 a 34, 4 v. SARMENTO, Leila Lauar; TUFANO, Douglas. Português: literatura, gramática, produção de textos. 1. ed. São Paulo: Moderna, 2004, pp. 369 a 374, volume único. TERRA, Ernani; NICOLA, José de. Português: língua, literatura e produção de textos. 1. ed. São Paulo: Scipione, 2003, pp. 10 a 21, 2 v.

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Lição 5 Texto e Intertextualidade

Texto I

O Navio Negreiro

Era um sonho dantesco... o tombadilho Que das luzernas avermelha o brilho,

Em sangue a se banhar. Tinir de ferros... estalar do açoite...

Legiões de homens negros como a noite, Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas

Magras crianças, cujas bocas pretas Rega o sangue das mães:

Outras moças... mas nuas, espantadas, No turbilhão de espectros arrastadas,

Em ânsia e mágoa vãs!

E rir-se a orquestra irônica, estridente... E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais... Se o velho arqueja, se no chão resvala,

Ouvem-se gritos... o chicote estala. E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia, A multidão faminta cambaleia,

E chora e dança ali! Um de raiva delira, outro enlouquece...

Outro, que martírios embrutece, Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra E após, fitando o céu que se desdobra

Tão puro sobre o mar, Diz do fumo entre os densos nevoeiro:

“Vibrai rijo o chicote, marinheiros! Fazei-os mais dançar!...”

E ri-se a orquestra irônica, estridente...

E da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais...

Qual num sonho dantesco as sombras voam... Gritos, ais, maldições, preces ressoam!

E ri-se Satanás!...

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ALVES, Castro. Castro Alves– Obra Completa. In: TERRA, Ernani; NICOLA, José de. Português:

língua, literatura e produção de textos. 1. ed. São Paulo: Scipione, 2003, pp. 22-3, 2 v.

Texto II

Todo Camburão tem um pouco de Navio Negreiro

Letra: Marcelo Yuka / Música: O Rappa

Parte 1 tudo começou quando a gente conversava

naquela esquina ali de frente àquela praça veio os zomens e nos pararam documento por favor então a gente apresentou mas eles não paravam qualé negão? qualé negão? oquê que tá pegando? qualé negão? qualé negão?

Parte 2 é mole de ver

que em qualquer dura o tempo passa mais lento pro negão

quem segurava com força a chibata agora sua farda engatilha a macaca e escolhe sempre o primeiro negro pra passar na revista

Refrão todo camburão tem um pouco

de navio negreiro todo camburão tem um pouco de navio negreiro

Parte 3 é mole de ver

que para o negro mesmo a aids possui hierarquia na África a doença corre solta e a imprensa mundial dispensa poucas linhas comparado, comparado ao que faz com qualquer figurinha do cinema

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ou das colunas sociais Refrão todo camburão tem um pouco

de navio negreiro todo camburão tem um pouco de navio negreiro

CD: O Rappa. Warner Music Brasil, 2001. In: TERRA, Ernani; NICOLA, José de. Português: língua, literatura e produção de textos. 1. ed. São Paulo: Scipione, 2003,

p. 23, 2 v. 1. Qual o tema abordado pelo texto I? —————————————————————————————— —————————————————————————————— 2. E o texto II aborda que temática? —————————————————————————————— —————————————————————————————— 3. Em qual época ou tempo foram escritos os dois textos? —————————————————————————————— —————————————————————————————— —————————————————————————————— 4. Existe alguma relação quanto ao tema retratado nos dois textos? Se existir, destaque passagens que comprovem essa relação. —————————————————————————————— —————————————————————————————— —————————————————————————————— —————————————————————————————— —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

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Texto III Meus oito anos Oh! Que saudade que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais Que amor, que sonhos, que flores Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais! [...] (Casimiro de Abreu)

In: CEREJA, William Roberto; Magalhães, Thereza Cochar. Português: linguagens. São Paulo: Atual, 2003, p. 111.

Texto IV Meus oito anos Oh que saudades que eu tenho Da aurora da minha vida De minha infância querida Que os anos não trazem mais Naquele quintal de terra

O diálogo entre os textos

O diálogo que a música do grupo “O Rappa” estabelece com o poema “O Navio Negreiro” é o que

podemos chamar de intertextualidade:

� é a relação entre dois textos em que um cita o outro.

Assim, um autor faz referência a outro texto com o objetivo de apoiar o que já foi dito ou de dizer algo totalmente diferente, de criticar um ponto de vista, uma visão de mundo.

Seu campo de ação é amplo a abrange os produtores de textos:

� escritos e falados; � verbais e não-verbais.

Intertextualidade explícita e implícita

Em seu poema Castro Alves refere-se também ao poema “A divina Comédia”, de Dante Alighieri,

fazendo uma descrição que o poeta italiano faz dos horrores e sofrimentos daqueles que padecem no inferno e associando-a aos horrores vividos pelos negros nos porões do navio. No entanto, não faz menção direta em seu poema, cabe ao leitor fazer essa associação, trata-se de um caso de intertextualidade implícita.

Se o poeta escrevesse citando a fonte, ou seja, “O Inferno”, de Dante Alighieri, teríamos um caso de intertextualidade explícita.

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Da Rua de Santo Antônio Debaixo da bananeira Sem nenhum laranjais. [...] (Oswald de Andrade)

In: CEREJA, William Roberto; Magalhães, Thereza Cochar. Português: linguagens. São Paulo: Atual, 2003, p. 111.

1. O primeiro texto foi escrito no século XIX (Romantismo) e o segundo foi escrito no século XX (Modernismo). Existe semelhança quanto ao assunto tratado entre os dois textos? De que assunto tratam? ————————————————————————————— ————————————————————————————— —————————————————————————————

2. Qual a relação estabelecida entre o segundo texto e o primeiro texto?

————————————————————————————— —————————————————————————————

3. Que diferenças podem ser apontadas quanto aos elementos citados nos textos?

————————————————————————————— ————————————————————————————— ————————————————————————————— 4. Como os autores que são de épocas literárias diferentes retratam o assunto exposto? ————————————————————————————— —————————————————————————————

A intertextualidade e a literatura

Na literatura brasileira encontram-se muitos exemplos de relação intertextual, onde vários outros autores produzem por imitação ou para repensar o que foi escrito.

O tipo de intertextualidade que crítica um ponto de vista, uma visão de mundo, é chamado paródia:

� é um tipo de relação intertextual em que um dos textos cita o outro com o objetivo de fazer-lhe uma crítica ou distorcer suas idéias.

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Praticando

1. Observe a relação existente entre estes fragmentos: I “Quando nasci, um anjo torto Desses que vivem na sombra Disse: vai Carlos! Ser ‘gauche’ na vida.”

(ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma Poesia. In: TERRA, Ernani; NICOLA, José de. Português: língua, literatura e produção de textos. 1. ed. São Paulo: Scipione, 2003, p. 29, 2 v. )

II “Quando nasci um anjo esbelto Desses que tocam trombeta, anunciou: Vai carregar bandeira. Carga muito pesada pra mulher Esta espécie ainda envergonhada. (PRADO, Adélia. Bagagem. In: TERRA, Ernani; NICOLA, José de. Português: língua, literatura

e produção de textos. 1. ed. São Paulo: Scipione, 2003, p. 29, 2 v.) a) Como Drummond retrata a figura do anjo no fragmento I?

————————————————————————————— ————————————————————————————— b) E no II fragmento como ele (o anjo) é tratado?

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c) Qual o tipo de intertextualidade presente no II fragmento? E como se estabelece essa relação?

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————————————————————————————— 2. Agora observe as imagens:

I - Jovem Baco, de Caravaggio

II - Trabalho fotográfico de Cindy

Sherman

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Qual relação intertextual é estabelecida entre as duas imagens? A I foi pintada no final do século XVI e a II foi produzida quase quatrocentos anos depois. Sherman simplesmente imita o quadro de Caravaggio? —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

Referências Bibliográficas CEREJA, William Roberto; Magalhães, Thereza Cochar. Português: linguagens. São Paulo: Atual, 2003, p. 111 e 112. TERRA, Ernani; NICOLA, José de. Português: língua, literatura e produção de textos. 1. ed. São Paulo: Scipione, 2003, pp. 22 a 30, 2 v.

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Lição 6

Texto: persuasão e argumentação Texto 1 CHARUTOS OU BOMBAS? BRASÍLIA – Os EUA invadiram o Afeganistão, erraram alvos, bombardearam o que havia sobrado da invasão da antiga União Soviética e estão até hoje por lá. Mas Osama bin Laden continua lépido e solto por aí. O secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, perambulou dias e dias pela Palestina, falou com as principais autoridades, propôs negociações e insistiu num processo de paz, mas voltou ontem aos EUA de mãos abanando. Israelenses e palestinos continuam se matando. Agora, confirma-se que funcionários norte-americanos andaram conversando com golpistas venezuelandos às vésperas do golpe de sexta-feira. E que, no dia de sua “posse”, o líder golpista Pedro Carmona falou com manda-chuvas de Washington. Flagrado, o Departamento de Estado mandou o porta-voz jurar que não participou nem estimulou golpe nenhum. Claro! Provavelmente, foram só conversas de velhos amigos. Sobre beisebol, quem sabe. Na política externa, pois, um desastre. E o que dizer da política comercial? Um exemplo: ao intensificarem o protecionismo ao aço, os EUA abriram uma reação em cadeia (União Européia, Canadá, México...) que, entre outras coisas, prejudica duplamente o Brasil: os produtores nacionais passam a ter margens pequenas de exportação e ainda ficam sujeitos à competiçção do excedente externo. Sem falar na posição chocante contra o Protocolo de Kyoto, que tenta limitar os gases tóxicox na atmosfera e, assim, salvar o planeta para os nossos bisnetos e os bisnetos deles. O governo George W. Bush surgiu numa crise de legitimidade e vai de mal a pior. E o mais curioso é a opinião pública interna, que quase triturou Bill Clinton por causa da Monica Lewinski e assite passivamente aos fracassos retumbantes de Bush. Cá pra nós, os charutos, balinhas de hortelã e traquinagens sexuais de Clinton entre quatro paredes na Casa Branca eram muito mais inofensivos do que as bombas, os golpismos e os erros de Bush ao redor do mundo.

CANTANHÊDE, Eliane. Folha de S.Paulo, 18 abr. 2002, p. A-2. EXERCÍCIOS DO TEXTO:

1. No título, a que aludem os substantivos charutos e bombas? Que funções cumprem a conjunção ou e o ponto de interrogação? —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

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2. Que figura de linguagem é utilizada no título? —————————————————————————————— ——————————————————————————————

3. Como a autora do texto se posiciona diante da pergunta proposta no título? —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

4. Ao selecionar as palavras charutos e bombas, a autora do texto já está fazendo uso de um recurso de convencimento, ou seja, ela está tentando persuadir o leitor para que este concorde com suas posições. Considerando o posicionamento da jornalista, justifique a escolha das palavras do título. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

5. Aponte dois adjetivos cuja seleção denuncia o posicionamento da jornalista e se constituem em recursos persuasivos. —————————————————————————————— ——————————————————————————————

6. Releia o primeiro parágrafo e comente os vários recursos que a autora utiliza para relaçar um contraste, uma oposição de idéias. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

7. Considerando que o texto é argumentativo, explique qual o efeito do seguinte trecho: “Claro! Provavelmente, foram só conversas de velhos amigos. Sobre beisebol, quem sabe”. Em seguida, selecione uma outra passagem em que se encontre o mesmo efeito. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

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Texto 2 CARINHOSO Meu coração Ah! Se tu soubesses Vem sentir o calor Não sei por quê Como eu sou tão carinhoso Dos lábios meus Bate feliz E o muito e muito À procura dos teus Quando te vê Que te quero Vem matar esta paixão E os meus olhos ficam sorrindo E como é sincero o meu amor Que me devora o coração E pelas ruas vão te seguindo Eu sei que tu É só assim, então Mas mesmo assim Não fugirias mais de mim Serei feliz. Foges de mim. Vem, vem, vem, vem Bem feliz.

PIXINGUINHA e BARRO, João de. In: www.ediurb.hpg.ig.com.br/musicas/kraokmid.htm

1. A persuasão e argumentação não estão presentes apenas em textos publicitários ou dissertativos,

mas também em textos líricos. Comente os recursos persuasivos utilizados na letra da música “Carinhoso”. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

2. Na seção Classificados da Revista da Folha, edição de 28 abr. 2002, item “Homem procura mulher”, foi publicado o seguinte anúncio:

Bem-sucedido – situação definida, bem- humorado, viúvo, 49 anos, olhos verdes, para viver um grande amor.

Comente os recursos persuasivos empregados pelo anunciante. —————————————————————————————— —————————————————————————————— ——————————————————————————————

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Lição 7

Texto: objetividade e subjetividade

Objetividade e subjetividade no texto argumentativo

Após a definição dos vários tipos de gêneros textuais, analisaremos mais especificamente o texto argumentativo com a sua objetividade e subjetividade. Mas antes disso, o que é ser objetivo? E subjetivo? Ser objetivo significa que você é direto, não usa de “enrolações” para dizer o que realmente quer. Já o subjetivo é o que está ligado ao EU, ao sujeito, ao indivíduo. O subjetivo usa do seu pensamento e sentimento acerca de algo e o expressa, ressaltando suas opiniões próprias. Ao escrever um texto argumentativo, a característica que prevalece é a objetividade, pois os textos têm que ser impessoais, imparciais; deixar de lado a nossa opinião para relatar de modo direto fatos que ocorreram. A objetividade se prende muito a forma de estruturar um texto posicionamento do autor, seleção vocabular, percurso argumentativo etc). Um trabalho acadêmico, científico ou mesmo uma redação de vestibular terá a presença da 3º pessoa do singular identificando assim, um certo distanciamento do autor, ou seja, maior objetividade, imparcialidade. Embora o autor desejando ao máximo ser direto haverá casos em que a situação e até mesmo a sensibilidade de quem está escrevendo sobre o tem em questão pode leva-lo a usar a 1º pessoa do singular ( EU) e o seu discurso assume um caráter SUBJETIVO, pois ele estará opinando e expondo suas idéias e críticas pessoais. Exemplos destes tipos de textos são os poemas, entrevistas e ventrílocos.

Exercício

Observe os textos abaixo:

Texto I

Seus estudos recentes comprovam uma forte relação entre educação e crescimento econômico. Com o Brasil nas últimas colocações em rankings internacionais de ensino, o que se pode dizer sobre economia?

- Com esse desempenho, as chances do Brasil crescer em ritmo chinês e se tornar mais competitivo no cenário Internacional são mínimas. Digo isso baseado nos números que reuni nas últimas décadas. Eles mostram que avanços na sala de aula têm peso decisivo para a evolução dos indicadores econômicos de um país. Se o Brasil aumentasse as notas em até 15% nas avaliações, isso somaria meio ponto percentual às suas taxas de crescimento.Hoje, isso significaria avançar em um ritmo 10% maior.

( Eric Hanushek, economista americano. Veja, nº 37- 17 de setembro de 2008)

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Texto II

Há duas semanas, o candidato Barack Obama telefonou para o adversário, o republicano John Maccain, para saúda-lo pelo anúncio oficial de sua candidatura presidencial. Na conversa, Obama propôs que aparecessem juntos no sétimo aniversário do atentado terrorista ao World Trade Center em Nova York. Na quinta-feira passada, os dois estavam no Graund Zero, onde ficavam as duas torres. Estiveram juntos por 15 minutos, cumprimentaram parentes de algumas das 2751 vítimas do ataque e puseram rosas no lugar de homenagem aos mortos.

(Veja, nº 36- 10 de setembro de 2008)

1. Após a leitura atenta dos dois textos, responda as seguintes perguntas:

a) Qual texto pode ser enquadrado como argumentativo objetivo? ———————————————————————————

b) Qual texto é caracterizado como argumentativo subjetivo? ———————————————————————————

2. Um dos textos a serem analisados é argumentativo objetivo, como você já deve ter respondido nas questões acima, no entanto, quais características determinam esta forma impessoal?

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3. Quais outros tipos de textos podem ser exemplos de argumentativos subjetivos? Responda com exemplos.

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4. Agora é a sua vez de construir o seu texto. Formule um texto argumentativo objetivo e outro subjetivo para debatermos em sala de aula.

Objetivo: ——————————————————————————— ——————————————————————————— ——————————————————————————— ——————————————————————————— ——————————————————————————— ——————————————————————————— ——————————————————————————— ——————————————————————————— ——————————————————————————— ——————————————————————————— ——————————————————————————— ——————————————————————————— ——————————————————————————— ——————————————————————————— —————————————————————————— Subjetivo: ——————————————————————————— ——————————————————————————— ——————————————————————————— ———————————————————————————

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5. Pense rápido e responda: os telejornais que aparecem diariamente em várias emissoras de TV podem ser definidos como argumentativos objetivos ou subjetivos?

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Referências Bibliográficas

PLATÃO E FIORIN: lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 1996. A GRAMÁTICA Ê O TEXTO/ Florianete Guimarães, Margaret Guimarães. – São Paulo: Moderna, 1997.

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Lição 8 Texto narrativo e texto descritivo

Leia o texto I:

A Galinha Reivindicativa ou The hen's liberation

Em certo dia de data incerta, um galo velho e uma galinha nova encontraram-se no fundo de um quintal e, entre uma bicada e outra, trocaram impressões sobre como o mundo estava mudado. O galo, porém, fez questão de frisar que sempre vivera bem, tivera muitas galinhas em sua vida sentimental e, agora, velho e cansado, esperava calmamente o fim de seus dias. ―Ainda bem que você está satisfeito ― disse a galinha. ― E tem razão de estar, pois é galo. Mas eu, galinha, fêmea da espécie, posso estar satisfeita? Não posso. Todo dia pôr ovos, todo semestre chocar ovos, criar pintos, isso é vida? Mas agora a coisa vai mudar. Pode estar certo de que vou levar uma vida de galo, livre e feliz. Há já seis meses que não choco e há uma semana que não ponho ovo. A patroa se quiser que arranje outra para esses ofícios. Comigo, não, violão! O velho galo ia ponderar filosoficamente que galo é galo e galinha é galinha e que cada ser tem sua função específica na vida, quando a cozinheira, sorrateiramente, passou a mão no pescoço da doidivanas e saiu com ela esperneando, dizendo bem alto: "A patroa tem razão: galinha que não choca nem põe ovo só serve mesmo é pra panela." MORAL: UM TRABALHO POR JORNADA MANTÉM A FACA AFASTADA.

FERNANDES, Millôr. Fábulas Fabulosas. In: ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras: coesão e coerência. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.

• Qual fato é o mais importante nesse texto?

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• Quais são as personagens envolvidas nele?

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• Onde isso ocorreu?

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• Quando isso ocorreu?

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• Quem conta esse fato está ligado diretamente à construção das ações?

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NARRAÇÃO

O texto narrativo dá-se na construção de um relato de sucessivos acontecimentos vivenciados por personagens que se localizam num período de tempo e num local determinado.

Observemos que em todas narrativas existem elementos essenciais ou elementos da narrativa, são eles: um acontecimento, as personagens, as circunstâncias em que esse fato ocorre (onde, como e quando) e um narrador.

Agora, leia atentamente o texto II:

O PENTEADO

Capitu deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho. Peguei-lhe dos cabelos, colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente, desde a testa até as últimas pontas, que lhe desciam à cintura. Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.

— Senta aqui, é melhor.

Sentou-se. "Vamos ver o grande cabeleireiro", disse-me rindo. Continuei a alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tato aqueles fios grossos, que eram parte dela. O trabalho era atrapalhado, às vezes por desazo, outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis. Não pedi ao Céu que eles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa... Uma ninfa! Todo eu estou mitológico. Ainda há pouco, falando dos seus olhos de ressaca, cheguei a escrever Tétis; risquei Tétis, risquemos ninfa; digamos somente uma criatura amada, palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs. Enfim, acabei as duas tranças. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa, um triste pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um laço, retoquei a obra alargando aqui, achatando ali, até que exclamei:

— Pronto!

— Estará bom?

— Veja no espelho.

Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada, de costas para mim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela, rosto a rosto, mas trocados, os olhos de uma na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu.

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— Levanta, Capitu!

Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro, até que ela abrochou os lábios, eu desci os meus, e...

Grande foi a sensação do beijo; Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até à parede com uma espécie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando eles me clarearam, vi que Capitu tinha os seus no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me língua. Preso, atordoado, não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas... Não mofes dos meus quinze anos, leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos.

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Cap. XXXIII. São Paulo: Sol 90, 2004.

• É sabido que uma narrativa está centrada numa situação inicial que pode se dar entre o personagem e o meio físico, entre ele e sua consciência, ou entre dois personagens. Em qual dessas situações o texto acima pode ser colocado?

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• Onde as personagens se encontram (em qual ambiente/espaço a ação ocorre)? Justifique sua resposta com elementos do texto.

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• O narrador apenas observa a ação ou também participa como personagem? Como podemos evidenciar isso no texto? Qual a relevância dessa característica na obra?

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• O texto “O penteado” também é caracterizado por um evento que transforma as personagens não só para modificar o rumo desse capítulo, mas, com efeito, para transformar o rumo das personagens para o restante da obra. Que acontecimento é esse?

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O FOCO NARRATIVO

O narrador é uma peça indispensável em um texto narrativo, pois é ele quem nos apresenta o enredo e as personagens. O modo como ele faz isso também é muito importante para compreendermos quais fatos são mais relevantes no desenrolar da trama. A maneira como se narra é denominada de foco narrativo e está atrelada aos três tipos de narrador, são eles:

1) O narrador-personagem; 2) O narrador-observador; 3) O narrador-onisciente.

Texto III:

A METAMORFOSE

Certa manhã, ao despertar de sonhos intranqüilos, Gregor Samsa viu-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça, e ao erguer um pouco a cabeça viu o seu ventre marrom, abaulado, dividido em saliências arqueadas, em cima do qual o cobertor, quase escorregando, mal se mantinha. As suas muitas pernas, lastimavelmente finas em comparação com a largura de seu corpo, tremulavam desamparadas diante de seus olhos.

“O que aconteceu comigo?”, pensou. Não era um sonho. O seu quarto, um verdadeiro quarto humano, só que um pouco pequeno demais, estava quieto entre as quatro paredes bem conhecidas. Sobre a mesa, onde um mostruário de tecidos, desempacotado, estava espalhado – Samsa era caixeiro-viajante – pendia o retrato que ele recentemente tinha recortado de uma revista ilustrada e colocado numa linda moldura dourada. Representava uma senhora sentada ereta com um chapéu e um boá de pele, estendendo em direção ao observador um pesado regalo de pele, que ocultava todo o seu antebraço.

(KAFKA, Franz. A metamorfose. In: TERRA, Ernani & NICOLA, José de. Português: língua, literatura e produção de textos. Vol. 3. São Paulo: Scipione, 2003.)

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• O que ocorreu com o personagem Samsa? R=_________________________________________________________________________________________________________________________________________________

• A situação demonstrada acima no texto não é um evento real, mas por que mesmo assim podemos imaginá-la? R=___________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

DESCRIÇÃO

A descrição é um ato lingüístico que serve para expressar a imagem que temos das coisas, cenas ou pessoas. Quando utilizamos esse evento, construímos um texto descritivo. É importante ressaltar que a descrição do narrador nos revela também o ponto de vista dele.

• Não há um texto que seja apenas narrativo ou descritivo, o que há atualmente é uma mistura de características. Identifique no texto “O penteado” as descrições que o narrador faz de Capitu sobre: a) a altura; b) os fios de cabelo; c) o penteado.

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Lição 9. 1

Texto dissertativo

Conceito:

O que é texto dissertativo?

É o tipo de texto que permite interpretar, analisar, relacionar fatos, informações e conceitos gerais, a fim de construir argumentos em favor de uma determinada tese. O texto dissertativo representa uma possibilidade de sintetizar as principais competências intelectuais ideais em um cidadão mediamente letrado, e, mais especificamente, em um aluno de nível universitário. Este tipo de texto que tem o objetivo de comentar, analisar, julgar o que existe (realidade) e o que acontece (fato) é denominado dissertação.

Exemplificação do texto dissertativo

Antigamente o homem tinha a impressão de que esses recursos da natureza eram infinitos. Por exemplo, o caçador de mamutes via tantos deles e só conseguia capturar um ou outro, entendendo assim que seu número era infindável. A noção de que a natureza era infinita mudou a partir do momento em que o homem, dominando a técnica, fabricou máquinas capazes de, em poucos dias destruir uma floresta; ou, indo a extremos, acabar com o mundo em minutos caso resolva experimentar algumas de suas bombas atômicas. Sabemos agora que os recursos materiais da terra têm fim, e que, se a agressão ao meio ambiente continuar, em poucos anos o planeta não será capaz de assimilar tanta “pancada”. E tudo indica que, para resolver os problemas da sobrevivência do homem, é preciso mudar as formas de exploração da própria natureza que o alimenta de tudo: ar, água matéria-prima, tudo. A terra é frágil. Melhor, ficou frágil. Antigamente, quando caçava mamutes, o homem tinha medo da natureza: raios e trovões, inundações, rios e mares enormes, frio e calor. O homem não conhecia a natureza. À medida que a foi conhecendo, também a foi aniquilando, a tal ponto que a situação se inverteu: hoje, ele tem medo da própria delicadeza da terra, enfraquecida diante de sua hostilidade, com seus mecanismos naturais de auto-regeneração destruídos pela capacidade desmedida. Declaramos guerra à natureza e somos os perdedores ao vencê-la. Se a tratássemos com amor, ela poderia ser infinita, desde que não fosse saqueada ao extremo de sua resistência e capacidade regenerativa.

Júlio José Chiavenato,

O massacre da natureza, São Paulo: Moderna.

Organização do texto ASSUNTO Todo texto dissertativo trata de um tema. Todos os aspectos nele tratados estão relacionados ao mesmo assunto: Os recursos da natureza.

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• Antigamente o homem tinha a impressão que os recursos da natureza eram infinitos. • A noção de que a natureza era infinita mudou a partir do momento em que, o homem,

dominando a técnica, fabricou máquinas (...) • Sabemos agora que os recursos materiais da terra têm fim (...) • A terra é frágil. • Declaramos guerra à natureza e somos os perdedores ao vencê-la.

Este tema se constitui no fio do condutor das afirmações, das conclusões, das comprovações

feitas pelo autor. Tudo que é dito no texto está relacionado a este tema. É isso que dá unidade de sentido ao texto. TÍTULO Um dos elementos que o autor utiliza para antecipar ao leitor o assunto do texto. Um bom título deve ter três características:

• resumir o texto; • antecipar para o leitor o assunto sobre o qual ele vai ler; • atrair o leitor para a leitura do texto.

Exercícios:

1) Omiti o título do texto que você leu sobre os recursos da natureza. Com base nas características apontadas anteriormente, dê um título ao texto.

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2) Para os dois textos abaixo, informe o assunto e crie um título adequado. TEXTO 1 Uma boa parte da propaganda direta, como os comerciais, e indireta, como, por exemplo, atores e atrizes como parte de seus papéis, veicula as drogas não proibidas de uma forma erótica. O homem vencedor, esperto, esportivo, forte fuma uma determinada marca de cigarro, beba esta ou aquela marca de cerveja ou de conhaque. A idéia é sempre a mesma: pessoas que usam determinados produtos fazem mais sucesso com o sexo oposto. A mesma coisa sempre aconteceu na propaganda dos produtos de beleza femininos: usar determinada marca de xampu, de calça ou de perfume faz você mais provocante, mais sensual, e em condições de atrair o olhar de um número maior de homens.

Flávio Girovate, Drogas, opção do perdedor. São Paulo: Moderna. Assunto:

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Título: —————————————————————————

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TEXTO 2 Cada país desenvolve uma linguagem própria da televisão. Essa linguagem depende da cultura, do passado e do desenvolvimento das outras formas de comunicação social. O Brasil, embora já tivesse uma produção de filmes e uma tradição teatral antigas, não contou, pode-se dizer, com essa participação na constituição de uma linguagem televisiva. Ela derivou-se mais das formas de comunicação populares: o circo e o rádio. No começo da televisão brasileira, no início dos anos 50, o que se fazia era um rádio televisionado, pois a TV ainda não havia conquistado sua linguagem. A influência do circo sobre a TV brasileira é vista não apenas pela presença dos palhaços ou do homem de auditório, mas também pelo estilo circense de alguns animadores, como Chacrinha, Sílvio Santos, Bolinha.

Ciro Marcondes Filho, Televisão – A vida pelo vídeo. São Paulo: Moderna Assunto:

—————————————————————————— ——————————————————————————

Título:

——————————————————————————— As partes de um todo Quanto à forma, costuma-se caracterizar a dissertação como:

a) Escrita em prosa; b) Distribuída em parágrafos; c) Composta por três partes clássicas.

Exercícios: Para verificar se você entendeu o que é dissertação, leia o texto “violência epidêmica” e responda as questões a seguir.

Violência epidêmica “A violência urbana é uma enfermidade contagiosa. Embora possa acometer indivíduos vulneráveis em todas as classes sociais, é nos bairros pobres que elas adquirem características epidêmicas.

A prevalência varia de um país para outro e entre as cidades de um mesmo país, mas, como regra, começa nos grandes centros urbanos e se dissemina pelo interior. A incidência nem sempre é crescente, mudanças de fatores ambientais e medidas mais eficazes de repressão, por exemplo, podem interferir em sua escalada.

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As estratégias que as sociedades adotam para combater a violência flutuam ao sabor das emoções, raramente o conhecimento científico sobre o tema é levado em consideração. Como reflexo, a prevenção das causas e o tratamento das pessoas violentas evoluíram pouco no decorrer do século 20, ao contrário dos avanços ocorridos no campo das infecções, câncer, diabetes e outras enfermidades.

A agressividade impulsiva é conseqüência de perturbações nos mecanismos biológicos de controle emocional. Tendências agressivas surgem em indivíduos com dificuldades adaptativas que os tornam despreparados para lidar com as frustrações de seus desejos.

A violência urbana é uma doença com múltiplos fatores de risco, dos quais os mais relevantes são a pobreza e a vulnerabilidade biológica.

Os mais vulneráveis são os que tiveram a personalidade formada num ambiente desfavorável ao desenvolvimento psicológico pleno. A revisão dos estudos científicos já publicados permite identificar três fatores principais na formação das personalidades com maior inclinação ao comportamento violento:

1) Crianças que apanham, foram abusadas sexualmente, humilhadas ou desprezadas nos primeiros anos de vida.

2) Adolescência vivida em famílias que não lhes transmitiram valores sociais altruísticos, formação moral e não lhes impuseram limites de disciplina.

3) Associação com grupos de jovens portadores de comportamento anti-social. Na periferia das cidades brasileiras vivem milhões de crianças que se enquadram nessas três

condições de risco. Associados à falta de acesso aos recursos materiais, à desigualdade social, à corrupção policial e ao péssimo exemplo de impunidade dado pelos chamados criminosos de colarinho branco, esses fatores de risco criam o caldo de cultura que alimenta a violência crescente nas cidades.

Na falta de outra alternativa, damos à criminalidade a resposta do aprisionamento. Embora pareça haver consenso de que essa seja a medida ideal e de que lugar de bandido é na cadeia, não se pode esquecer que o custo social de tal solução está longe de ser desprezível. Além disso, seu efeito é passageiro: o criminoso fica impedido de delinqüir apenas enquanto estiver preso. Ao sair, estará mais pobre, terá rompido laços familiares e sociais e dificilmente encontrará quem lhe dê emprego. Ao mesmo tempo, na prisão, terá criado novas amizades e conexões mais sólidas com o mundo do crime.

Construir cadeias custa caro; administrá-las, mais ainda. Para agravar, obrigados a optar por uma repressão policial mais ativa, aumentaremos o número de prisioneiros ao ponto de não conseguirmos edificar prisões na velocidade necessária para albergá-los. As cadeias continuarão superlotadas, e o poder dentro delas, nas mãos dos criminosos organizados.

Seria mais sensato investir o que gastamos com as cadeias em educação, para prevenir a criminalidade e tratar os que ingressaram nela. Mas como reagir diante da ousadia sem limites dos que fizeram do crime sua profissão sem investir pesado no aparelho repressor e no aprisionamento, mesmo reconhecendo que essa é uma guerra perdida?

Estamos nesse impasse! Na verdade, não existe solução mágica a curto prazo. Precisamos de uma divisão de renda

menos brutal, motivar os policiais a executar sua função com dignidade, criar leis que acabem com a impunidade dos criminosos bem sucedidos e construir cadeias novas para substituir as velhas, mas isso não resolverá o problema enquanto a fábrica de ladrões colocar em circulação mais criminosos do que nossa capacidade de aprisioná-los.

Só teremos tranqüilidade nas ruas quando entendermos que ela depende do envolvimento de cada um de nós na educação das crianças nascidas na periferia do tecido social. O desenvolvimento físico e psicológico das crianças acontece por imitação. Sem nunca ter visto um adulto, ela andará literalmente de quatro pelo resto da vida. Se não estivermos por perto para dar atenção e exemplo de condutas mais dignificantes para esse batalhão de meninos e meninas soltos nas ruas pobres das cidades brasileiras, vai faltar dinheiro para levantar prisões.

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Enquanto não aprendemos a educar e oferecer medidas preventivas para que os pais evitem ter filhos que não serão capazes de criar, cabe a nós a responsabilidade de integrá-los na sociedade por meio de educação formal de bom nível, das práticas esportivas e da oportunidade de desenvolvimento artístico.”

VARELLA, DRAUZIO. In: Folha de São Paulo. 9 de março de 2002.

A) No texto, “violência epidêmica”, afirma-se que nos bairros pobres a violência urbana “adquire características epidêmicas”. Considerando o conceito de epidemia (doença infecciosa que ataca simultaneamente grande número de indivíduos), explique como o autor justifica essa afirmação.

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B) Este texto apresenta introdução, desenvolvimento e conclusão. Identifique tal divisão.

——————————————————————————— ——————————————————————————— ——————————————————————————— ———————————————————————————

C) Na introdução é apresentada a tese, para inteirar do que será desenvolvido em seguida.

Identifique esta tese.

——————————————————————————— ———————————————————————————

D) A enumeração é uma das características do texto dissertativo. Nesse texto de Varella, foi

utilizada para apontar as causas pela formação de personalidades com maior inclinação ao comportamento violento. Escreva, com suas próprias palavras, quais são essas causas.

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E) O autor é a favor da construção de cadeias novas em substituição às velhas. A partir dessa

posição ele defende o argumento de que “lugar de bandido é na cadeia”? Justifique sua resposta.

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F) Referindo-se a criança, Drauzio Varella afirma: “Sem nunca ter visto um adulto, ela andará

literalmente de quatro pelo resto da vida”. Que conclusão está implícita nessa afirmação?

——————————————————————————— ——————————————————————————— ———————————————————————————

G) Na conclusão, o argumentador retoma o que foi dito no início: “a violência é uma doença

contagiosa”. Ele afirma que não existe solução mágica para o problema da violência urbana, portanto é preciso adotar algumas medidas. Quais são elas?

——————————————————————————— ——————————————————————————— ———————————————————————————

2) Já que foram estudadas as três partes clássicas da dissertação, peço que classifique numa destas partes remetidas à citação efetuada anteriormente fragmentos de textos correspondentes a grandes temas do momento atual ou do momento passado.

a) Com compromisso de servir a cidadania, as autoridades deveriam criar medidas de

combate ao comércio de armas, proibindo que as armas alto calibre possam circular livremente tanto nas mãos dos cidadãos, como dos marginais.

——————————————————————————

b) Para muitos, a vida é uma loteria, pois existem famílias de posição que os filhos têm uma vida de luxo e conforto desde criança, enquanto outras, não têm condição de dar uma vida digna ao filho. A sorte de algumas crianças viverem num mundo fantástico vem de berço, enquanto outras, se acostumam com muma vida sacrificada desde pequenos.

————————————————————————— c) Muitas mulheres por não encontrarem um equilíbrio interior entre o ser e o estar, ou seja,

muitas delas por não estarem satisfeitas com algo em você, não encontrando uma definição agradável para aquilo que ela é, optam a passar por transformações estéticas para atender as suas necessidades.

—————————————————————————

d) Um mundo construído a partir da igualdade principalmente entre os sexos continua a espera de profundas mudanças econômicas e sociais. Mas a revolução cultural e comportamental está sendo encaminhada. Neste ponto de propagação de novos valores, a

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escola pode se apresentar como uma das principais trincheiras, desde que os educadores aceitem assumir sua tarefa com dedicação.

—————————————————————————

e) Cada frisar que a ignorância ora explícita, ora subentendida presente nas atitudes das pessoas ao é um mal necessário, pois em vez de beneficiar trazendo experiências e feitos positivos, prejudica-os.

————————————————————————— f) Exuberante, exótica e rica nas suas variedades e utilidades, na qual o homem era

subordinado a ela desde o aparecimento dos primeiros hominídeos na terra. Com a exploração ilimitada e pelo fato do homem poder transformá-la para atender as suas necessidades, hoje, a natureza se encontra deteriorada.

————————————————————————— g) Embora as taxas de crescimento populacional vêm caindo nos últimos 20 anos, os

problemas sócio-econômicos não deixaram de existir nos países. Segundo dizia Malthus: “a pobreza e a fome existirá em todo mundo inclusive nos países desenvolvidos devido à presença de uma lei natural”. Para Thommas Malthus, houve um período de desequilíbrio entre a população e a produção de alimentos que servia a ela, surgindo uma crise: fome acompanhada de doenças provocando mortes, resultantes de epidemias, guerras e fome.

——————————————————————————

h) O planejamento populacional deve ser visto de forma extremamente sério, mas não como uma solução para os problemas sociais existentes. O que gera pobreza é a concentração de renda, ou seja, filhos não geram pobreza e sim pobreza é quem gera filhos. Cabe o governo de cada país investir em saúde e educação, pois o mercado de trabalho é cada vez mais exigente e seletivo, havendo uma melhoria na qualidade de vida, e por conseqüência o planejamento viria.

—————————————————————————

i) A questão do crescimento populacional é extremamente discutível, pois varia de acordo com a realidade de cada país á que alguns necessitam de planejamento, outros não. Daí não se pode assumir posições radicais como as dos Neomalthusianos pois a miséria não é resultado do crescimento populacional e sim da concentração de renda; como não se pode admitir posições de diversas igrejas contrárias ao planejamento.

—————————————————————————

j) Na sociedade contemporânea, no qual o capitalismo domina o mundo, existem as disparidades sociais: a maioria da população é pobre, uma restrita parte, rica. Estas disparidades acarretam uma série de conseqüências: altas taxas de desemprego, altos índices de vários tipos de violência praticados nos trânsitos, no meio familiar, ambiente profissional, entre outros. A sociedade, para se proteger e poder viver mais tranqüila, convive intimamente com a arma.

—————————————————————————

k) Embora esta violência seja um tipo de epidemia exposta diretamente na sociedade, existe outra, subentendida no próprio ambiente familiar, na qual muitas crianças de ambos os sexos e faixas etárias são humilhadas, desprezadas, castigadas e até violentadas pelos

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próprios pais, desenvolvendo um complexo de inferioridade, humilhação, vergonha, nojo, e outros, perante a sociedade. Muitas crianças que sofreram este tipo de violência por terem sido exploradas, maltratadas, espancadas durante a infância e adolescência, se tornam, no futuro, jovens rebeldes, grosseiros, frios, e sem perspectiva de vida procuram um caminho mais rápido de obter dinheiro, entretanto repugnante tornando-se, no futuro, perigosos assassinos.

—————————————————————————

l) Milhares de pais sem condições de ter e dar uma vida digna ao filho, pelo menos, o básico: saúde, educação e alimentação; e sem grau de instrução e capacidade para obter empregos razoáveis são religados a cargos muitos baixos, quando não fazem parte do grupo de desempregados ou subempregados. Revoltados, com a vida que levam, chegam a roubar ou até matar para sobreviver. Neste caso, o cidadão deverá andar armado para se prevenir, controlando o seu temperamento e tendo cautela nas atitudes antes de tomá-las para que o problema não se torne mais grave e repercuta a você.

—————————————————————————

m) Vale salientar que, para as taxas de violência presentes não só no Brasil, mas em todo mundo, o governo deve investir no social, dando oportunidade de estudo e trabalho para todos, podendo o jovem aprimorar seus conhecimentos e conseguir uma posição de destaque na sociedade como profissional e sobretudo, cidadão.

—————————————————————————

n) Um pequeno número de crianças que freqüentam escola não consegue ter proveito nas aulas, nem adquire informações, pois, quando não se dirige à escola apenas nos dias em que a instituição oferece refeição, a fim de compensar a fome dos dias anteriores; chegam cansados depois de um dia de maratona, chegando a dormir sobre as bancas.

—————————————————————————

o) A violência praticada pelos adolescentes, um dos assuntos que vem crescendo em larga

escala no Brasil, é decorrente da falta de diálogo e informação dos pais com seus filhos, dos diversos meios de comunicação que os influenciam indiretamente e da falta de instrução ou profissionalização que os capacite a obter bons empregos.

—————————————————————————

3) A partir da classificação de uma das partes clássicas que compõem o texto dissertativo- argumentativo nos fragmentos do texto da questão anterior, há possibilidade de identificar qual o tema que aborda cada letra. Identifique-o.

——————————————————————————— ———————————————————————————

4) Escolha um dos temas expostos acima e, sobre ele, redija uma composição com i mínimo de 20 e o máximo de 25 linhas. Nela, deverá discutir criticamente os aspectos que foram abordados em sala de aula. A compreensão adequada dos temas, a articulação precisa de referências ( textos lidos e aulas) e o encadeamento consistente de argumentos são fatores diretamente relacionados a um bom resultado nas redações. A enfática vinculação da redação às normas gramaticais, a coesão e a coerência do texto produzido deve ser respeitada. Registre qual foi o tema eleito e, por fim, sugira um título a seu texto.

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Tema:

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5) Qual o grau de importância da disciplina “Redação” para você enquanto aluno!

Para a vida? Para o mercado de trabalho tão exigente e seletivo? Faça um juízo de valor com fundamentos críticos.

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Lição 9. 2

Texto dissertativo

Texto I:

Existem receitas para fazer uma boa dissertação? Não existem receitas, mas apenas métodos. A diferença é capital: a receita é do padronizado, o método é do sob medida. Todos gostariam de “macetes” (supostamente infalíveis); ora, não há macetes. O conselho mais importante é o seguinte: para avançar, o único meio é fazer o máximo possível de planos. Pratique. Se você está terminando o secundário, faça planos uma hora por semana. Estude também os do professor, mas jamais para aprendê-los de cor, seria cair outra vez na mania da receita. E procure reconhecer que o estresse do vestibular, a perspectiva do exame, faz aumentar a tentação. Mas ela não fortalece a inteligência, pois a receita jamais integra-se ao espírito: ela lhe é imposta de fora, não penetra, apenas veste o espírito. Não é lendo um manual de natação que se aprende a nadar, é mergulhando na piscina. O mesmo vale para a dissertação.

(IDE, Pascal. A arte de pensar. In: AMARAL, Emília et al. Português: novas palavras: literatura, gramática, redação. São Paulo: FTD, 2000. p. 530)

• De maneira sucinta, escreva o ponto de vista que o autor defende no texto? R=__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

• Em qual parágrafo estão localizados os argumentos do texto acima? E qual a função dos outros dois? R=________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

• O que achou da opinião exposta pelo autor? Concorda ou discorda? Escreva seus argumentos nas linhas abaixo de acordo com a sua opinião. __________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

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DISSERTAÇÃO

O texto dissertativo (ou argumentativo) é aquele que defende uma tese, um ponto de vista e utiliza argumentos para justificá-lo.

Características gerais que preferivelmente compõem um texto dissertativo: a. Linguagem objetiva; b. Sentido denotativo; c. Ordem direta; d. Uso da terceira pessoa.

Na maioria das vezes, o texto dissertativo estrutura-se do seguinte modo:

1) Introdução (apresentação do ponto de vista); 2) Desenvolvimento (argumentos); 3) Conclusão (reafirmação do ponto de vista).

É de extrema relevância afirmar que as partes da dissertação supracitadas não precisam ser

esquematizadas em apenas três parágrafos, porém essa ordem deve ser preservada. Texto II:

TRABALHO INFANTIL

Apesar da proibição constitucional do trabalho de crianças e adolescentes menores de 16 anos, estima-se que cerca de 3,8 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 16 anos trabalhem no Brasil. Isso prejudica seu desenvolvimento físico, emocional e intelectual. Duas, de cada 10 crianças trabalhadoras, não freqüentam a escola e, como conseqüência, a taxa de analfabetismo entre essas crianças atinge 20,1%, contra 7,6% no caso das crianças que não trabalham. Na faixa etária de 15 a 17 anos, também se notam os efeitos danosos do trabalho sobre a escolarização. Dentre os adolescentes que trabalham, somente 25,5% conseguiram concluir os oito anos de escolaridade básica, enquanto, entre os adolescentes que não trabalham, esse percentual é significativamente maior: 44,2%.

Para reduzir o trabalho infantil, é preciso ter uma abordagem integrada que identifique as crianças que trabalham, sensibilize a sociedade sobre os danos morais, físicos e intelectuais do trabalho infantil, adapte as escolas para receber essas crianças, ofereça atividades culturais, esportivas, educativas e de lazer às crianças e compense a redução da renda familiar.

fonte: http://www.unicef.org/brazil/(Acessado em abril/2003)

• Qual a função de cada parágrafo no texto “Trabalho Infantil”? R=________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

• Você o considera como um texto dissertativo? Justifique a sua resposta exemplificando com trechos do texto.

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R=________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

• Que dados o autor utilizou no texto? Qual a finalidade desse recurso na construção de um texto dissertativo? R=________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

A LINGUAGEM DISSERTATIVA

� O que devo fazer ao escrever minha dissertação: � Escrever com adequação (de acordo com a norma padrão); � Escrever com clareza (sem ambigüidades); � Escrever com concisão; � Escrever com coesão (organizar o texto/parágrafos com sentido lógico); � Escrever com criatividade (evitar lugar-comum);

� A impessoalidade

Escrever com impessoalidade não significa dizer que a sua opinião não pode ser explícita

em uma dissertação. A impessoalidade/objetividade é “se prende mais à forma de estruturar o texto (posicionamento do autor, seleção vocabular, percurso argumentativo, espaço para as diferentes vozes que são citadas, ou seja, a que ‘autoridades’ apelar para confirmar a argumentação, etc.)”.