Trabalho remunerado e trabalho doméstico no cotidiano das mulheres

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    Maria Betnia vilaVernica Ferreira

    organiZaDoras

    Trabalho remunerado e trabalho domstico no cotidiano das mulheres

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    Trabalho remunerado e trabalho domstico no cotidiano das mulheres

    Maria Betnia vilaVernica Ferreira

    organiZaDoras

    Recife/ 2014

    ApoioRealizao

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    Projeto Mais Direitos e Mais Poder, desenvolvido porColetivo Leila DinizCfemea Centro Feminista de estudos e assessoriaCunh Coletivo Feministageleds instituto da Mulher negrainstituto patrcia galvo Mdia e Direitosredeh rede de Desenvolvimento Humanosos Corpo instituto Feminista para a Democracia

    Com o apoio daonU Mulheres

    Assistente de produogssica BrandinoRevisoCeclia LuedemannProjeto Grfico e Editorao Eletrnicaalusio Barbosaimagem de capa: br.freepik

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    Rotinas de mulher........................................................7Albertina de Oliveira Costa

    Trabalho produtivo e reprodutivono cotidiano das mulheres brasileiras.................13Maria Betnia vila e Vernica Ferreira

    Trabalho remunerado etrabalho domstico: conciliao? .........................51Mara Saru Machado

    O dia deveria ter 48 horas: prticas sociais do cuidado edemandas das mulheres brasileiraspor polticas pblicas paraa sua democratizao.................................................79Mariana Mazzini Marcondes

    Apresentao

    Artigo 1

    Artigo 2

    Artigo 3

    Sumrio

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    Rotinas de mulherapresentao

    Albertina de Oliveira Costa*

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    * Albertina de Oliveira Costa, sociloga, pesquisadora snior da Fundao Carlos Chagas.

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    Uma jornada que no termina, regulada por obrigaes inescapveis, mulheres divididas entre a aspereza do cotidiano onde os servios da casa e o servio de fora disputam sua dedicao e o anseio por tempo livre. Esta a imagem forte que transmitem os resultados da pesquisa Trabalho remunerado e trabalho domstico - uma tenso permanente, realizada em 2012 pelo Instituto Data Popular, SOS Corpo e Instituto Patrcia Galvo para conhecer o cotidiano das mulheres brasileiras.

    Os achados da pesquisa, por um lado, reiteram e evidenciam dados ampla-mente conhecidos sobre a injusta distribuio das tarefas domsticas entre os sexos, mas, por outro, sinalizam indcios de mudana na percepo das mulhe-res sobre suas atribuies. De um lado, dados de realidade; de outro, aspiraes.

    Num mundo em rpida mudana, surpreende que os afazeres domsticos continuem sendo assunto exclusivamente de mulheres.

    No Brasil da ltima dcada, ocorreram mudanas radicais no estatuto social das mulheres. Maior nvel de escolaridade, aumento expressivo da participao na fora de trabalho, queda da natalidade e mais acesso independncia econmica e jurdica configuram esse novo quadro. Mais instrudas, as brasileiras vm aumentando de for-ma significativa e constante sua participao no mercado de trabalho; nesta dcada, ocorreu um incremento de 24% na atividade feminina. O perfil da trabalhadora tam-bm mudou, a maioria casada e tem filhos. A maternidade no afasta mais as mulhe-res do trabalho, continuam ativas na fase reprodutiva, o que no ocorria anteriormente. Caminho sem volta, as mulheres j so 44% da populao economicamente ativa e 91% das entrevistadas considera que o trabalho remunerado fundamental em sua vida. A famlia, no escapou desta vaga de mudanas, tende a desaparecer o arranjo familiar que atribui prover o sustento da casa exclusivamente ao homem.

    Os resultados da pesquisa permitem descortinar aspectos menosprezados do cotidiano domstico. A reside seu grande interesse. Segundo Maria Angeles Duran1, possumos informaes mais atualizadas sobre o processo de trabalho na indstria automobilstica, nas plataformas de petrleo ou sobre as toneladas _____________

    1 DURAN, M. Angeles. O valor do tempo: quantas horas te faltam ao dia? Braslia: Secretaria de Polticas para as Mulheres, 2010.

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    de carvo extradas num dado perodo de tempo do que sobre o esforo e tempo necessrios para manter em condies de funcionamento normal, ou seja, de bem estar mdio, a vida dentro dos lares.

    Os dados so gritantes. Trabalho domstico no compartilhado com os homens: todas as mulheres realizam tarefas em casa e 71% dentre elas no contam com qualquer ajuda masculina. Cerca de 60% acreditam que os maridos do mais trabalho do que ajudam. A ausncia sistemtica dos homens nas atividades cotidianas dos servios da casa ressaltada por Ma-ria Betnia vila e Vernica Ferreira. A percepo dos entrevistados de que as mulheres so as maiores, seno as nicas, responsveis pelo traba-lho domstico vem sendo apontada de longa data em estudos feministas. Coincide com a opinio expressa pelos entrevistados em recente pesquisa Mulheres brasileiras e gnero nos espaos pblico e privado da Fundao Perseu Abramo2. comprovada pelos dados fornecidos pelo Instituto Bra-sileiro de Geografia e Estatstica/IBGE.

    Uma realidade imune mudana, a injusta distribuio entre os sexos do tempo gasto em afazeres domsticos permaneceu intocada na ltima dca-da. As mulheres continuam as principais responsveis pelos cuidados com a casa, com as crianas, com os idosos e os doentes. Dedicam 25 horas por semana ao trabalho domstico, um pouco menos que as 27 horas gastas em 2002; j a situao dos homens permanece inalterada: continuam despen-dendo 10 horas como faziam anteriormente. Enquanto para as as mulheres renda um fator que afeta o tempo consumido em afazeres domsticos por-que permite obter ajuda paga; para os homens, posio de classe e renda so indiferentes, no tem impacto sobre o tempo que gastam nos servios da casa, como mostra Bila Sorj, em seu artigo Arenas de cuidado nas intersec-es entre gnero e classe social no Brasil3._____________

    2 VENTURI, Gustavo e GODINHO, Tatau (Orgs). Mulheres brasileiras e gnero nos espaos p-blico e privado: uma dcada de mudanas na opinio pblica.So Paulo: Editora Perseu Abra-mo: Edies Sesc So Paulo , 2013.3 SORJ, Bila. Arenas de cuidado nas interseces entre gnero e classe social no Brasil. Cadernos de Pesquisa, vol. 43, n.149, p.478-91, maio/ago. 2013.

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    Mas a imagem surpreendente transmitida pelos dados recolhidos no se esgota na aparente imutabilidade da diviso desigual do trabalho do-mstico, revela tambm mudanas em curso. A novidade de maior im-pacto reside no peso da reivindicao feminina por um tempo para se cuidar. A pesquisa flagra um momento do processo em que as mulheres vo se individualizando em relao ao grupo familiar, em que vo se asse-nhorando de suas necessidades individuais e passam a se conceber como sujeitos . Mariana Marcondes, parafraseando com felicidade a afirmao clssica de Virginia Woolf sobre a importncia de um espao prprio na vida das mulheres, discerne na reivindicao de um tempo para cuidar de si um reclamo de um tempo todo seu. A comparao das percepes das brasileiras colhidas nas duas edies da pesquisa Mulher brasileira no espao pblico e privado realizadas com um intervalo de 10 anos j permitia captar movimento semelhante em direo a uma maior indivi-dualizao e de ruptura com uma concepo tradicional de famlia onde, primordialmente como um atributo natural, a mulher deve se dedicar ao cuidado de outrem.

    Em Trabalho remunerado e trabalho domstico: conciliao?, Mara Saru Machado examina a metodologia e os resultados da pesquisa, enfatizando em sua concluso que as estratgias de conciliao das duas esferas de trabalho so relacionadas ordem do privado e do familiar e so vividas como problemas pessoais. Enquanto Mariana Mazzini Marcondes, em O dia deveria ter 48 ho-ras..., embora reconhea que a desvalorizao social tenha relegado as prticas sociais do cuidado ao mbito familiar e responsabilidade feminina, ressalta as demandas das mulheres por polticas pblicas e a responsabilidade do Estado na proviso de suporte para as atividades de cuidado.

    Maria Betnia vila e Vernica Ferreira fornecem, em trabalho produti-vo e reprodutivo no cotidiano das mulheres brasileiras, uma viso abrangen-te de interpretaes tericas sobre diviso sexual do trabalho como moldura para sua anlise das contradies geradas pela entrada macia das mulheres no mercado de trabalho.

    Leituras diferentes convergem para explicitar os efeitos da primazia do tra-balho produtivo na organizao do tempo social das mulheres.

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    As interpretaes aqui reunidas nos alertam que o dilema de lidar com as exigncias conflitantes do trabalho e da famlia, de conciliar o inconcilivel e o milagre da multiplicao das horas, deveriam deixar de ser um assunto exclusi-vamente feminino e privado.

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    Trabalho produtivoe reprodutivo nocotidiano dasmulheres brasileiras

    artigo

    Maria Betnia vila* e Vernica Ferreira **

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    * Maria Betnia de Melo vila, Doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Per-nambuco (UFPE) e Pesquisadora do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia. Militante feminista da Articulao de Mulheres Brasileiras - AMB e Articulao Feminista MARCOSUR.

    **Vernica Ferreira, Assistente Social, Doutoranda do Programa de Ps-Graduao em Servio Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Pesquisadora do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia. Militante feminista da Articulao de Mulhe-res Brasileiras - AMB e Articulao Feminista MARCOSUR.

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    1. Reflexes sobre diviso sexual do trabalho A separao espao/tempo entre trabalho produtivo e trabalho reprodutivo se faz no processo de construo da vida social no siste-ma capitalista a partir da qual se estrutura a diviso sexual do traba-

    lho, elemento central na constituio das relaes sociais de sexo/gnero, que modulada historicamente e societalmente (KERGOAT,