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Política, manifestações e o pensamento conservador no Brasil Parte I Sérgio Botton Barcellos* " Desconfio de todo o idealista que lucra com seu ideal ." Millôr Fernandes - Roda Viva ( 1989) . Atualmente é comum ouvir e ler comentários, mesmo que tímidos, sobre uma “onda conservadora” que está pouco a pouco se formando no Brasil, a exemplo da Europa e de alguns dos países dos BRICS, como na Rússia, por exemplo. Bom, no Brasil não se pode negar um nítido cerceamento e repressão das manifestações nas ruas, ao mesmo tempo em que também experimentamos um momento de revoltas contra os constantes abusos policiais em comunidades e favelas e de formação de movimentos e coletivos sociais em meio a proibições das manifestações e greves, como a mobilização do MTS T , ou seja, uma realidade com diversas nuances sociais em ebulição. Mas as ações do Estado e dos diversos movimentos sociais não podem ser consideradas antagônicas, apesar de opostas, pois surgem em um cenário de interdependência entre si e são fruto do atual momento histórico e do arranjo de forças do capitalismo no Brasil e no mundo, com reverberações sócio culturais no campo da política. Essa não é uma provocação ao debate para aqueles que comemoram dados espetaculares e estatísticas em relação a outros países, que acham bacana a “corrida maluca” por índices como o de Gini ou PIB , os quais foram criados como forma de medir, ranquear e julgar o desenvolvimento capitalista dos “países em desenvolvimento” em relação aos “países desenvolvidos”. Nessa perspectiva, é necessário considerar que as mudanças nos Estados nacionais e a influência neoliberal ocorreram em diversos países e de diferentes maneiras ao longo dos últimos anos. Contudo, evidencia-se que algumas características em comum estiveram presentes em muitos países, como a reconfiguração do poder mercantilista sobre a força e o mercado de trabalho com as reformas trabalhistas, o agenciamento de muitos sindicatos, a concessão para a iniciativa privada de muitos serviços sociais e das empresas estatais, bem como um maior refluxo das forças históricas e políticas de esquerda. Observa-se, em escala global, como atualmente com a crise em muitos países da Europa , uma segmentação crescente dos Estados de bem-estar social e a dualização do seu papel social com uma participação cada vez maior dos grupos privados e de uma rede de organizações que em sua maioria cumprem um papel assistencial e filantrópico, o que seria no Brasil conhecido como terceiro setor.

Política, manifestações e o pensamento conservador no Brasil - Parte I

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As ações do Estado e dos diversos movimentos sociais não podem ser consideradas antagônicas, apesar de opostas, pois surgem em um cenário de interdependência entre si e são fruto do atual momento histórico e do arranjo de forças do capitalismo no Brasil e no mundo, com reverberações sócio culturais no campo da política. Essa não é uma provocação ao debate para aqueles que comemoram dados espetaculares e estatísticas em relação a outros países, que acham bacana a “corrida maluca” por índices como o de Gini ou PIB, os quais foram criados como forma de medir, ranquear e julgar o desenvolvimento capitalista dos “países em desenvolvimento” em relação aos “países desenvolvidos”.

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Política, manifestações e o pensamento conservador no Brasil

Parte I

Sérgio Botton Barcellos*

"Desconfio de todo o idealista que lucra com seu ideal." Millôr Fernandes - Roda Viva (1989).

Atualmente é comum ouvir e ler comentários, mesmo que tímidos, sobre uma “onda

conservadora” que está pouco a pouco se formando no Brasil, a exemplo da Europa e de alguns dos

países dos BRICS, como na Rússia, por exemplo. Bom, no Brasil não se pode negar um nítido

cerceamento e repressão das manifestações nas ruas, ao mesmo tempo em que também

experimentamos um momento de revoltas contra os constantes abusos policiais em comunidades e

favelas e de formação de movimentos e coletivos sociais em meio a proibições das manifestações e

greves, como a mobilização do MTS T , ou seja, uma realidade com diversas nuances sociais em

ebulição.

Mas as ações do Estado e dos diversos movimentos sociais não podem ser consideradas

antagônicas, apesar de opostas, pois surgem em um cenário de interdependência entre si e são fruto do

atual momento histórico e do arranjo de forças do capitalismo no Brasil e no mundo, com

reverberações sócio culturais no campo da política. Essa não é uma provocação ao debate para aqueles

que comemoram dados espetaculares e estatísticas em relação a outros países, que acham bacana a

“corrida maluca” por índices como o de Gini ou PIB , os quais foram criados como forma de medir,

ranquear e julgar o desenvolvimento capitalista dos “países em desenvolvimento” em relação aos

“países desenvolvidos”.

Nessa perspectiva, é necessário considerar que as mudanças nos Estados nacionais e a

influência neoliberal ocorreram em diversos países e de diferentes maneiras ao longo dos últimos anos.

Contudo, evidencia-se que algumas características em comum estiveram presentes em muitos países,

como a reconfiguração do poder mercantilista sobre a força e o mercado de trabalho com as reformas

trabalhistas, o agenciamento de muitos sindicatos, a concessão para a iniciativa privada de muitos

serviços sociais e das empresas estatais, bem como um maior refluxo das forças históricas e políticas

de esquerda. Observa-se, em escala global, como atualmente com a crise em muitos países da Europa,

uma segmentação crescente dos Estados de bem-estar social e a dualização do seu papel social com

uma participação cada vez maior dos grupos privados e de uma rede de organizações que em sua

maioria cumprem um papel assistencial e filantrópico, o que seria no Brasil conhecido como terceiro

setor.

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No Brasil, com o governo Lula, a partir de 2003, e com o governo Dilma, sua sucessora,

ocorreram mudanças que sinalizaram uma determinada reorganização financeira do Estado, com

investimentos em infraestrutura (com o Programa de Aceleração do Crescimento, PAC), políticas de

inclusão produtiva e educacional para as comunidades consideradas em situação de baixa renda e em

condições de pobreza e uma emergência destacada do país no cenário internacional. Nesse período

ainda, o mercado interno passou a ser fomentado pelo pré-sal, pela construção civil e habitacional com

alta especulação imobiliária, pelo setor de fabricação de máquinas e equipamentos, bem como a

produção de alimentos para o consumo interno. Essa reorganização financeira do Estado auxiliou na

formação e reformulação de grupos econômicos, que redesenharam a ac umulação de capital no Brasil,

que têm a sua reprodução e os seus negócios vinculados a um modelo de desenvolvimento gerenciado

pelo Estado por meio das suas instituições e empresas estatais.

Atualmente, áreas como a saúde, a assistência social e a economia solidária, por exemplo,

foram espaços efetivos de implementação de políticas com algumas iniciativas interessantes, mas são

constantemente mediados ou tolhidos em seu orçamento pelo Ministério do Planejamento, Orçamento

e Gestão e pela lógica do Estado gerencial por meio da subserviência à política de pagamento da dívida

pública que ainda chega a 50% do PIB brasileiro (destaca-se que esse índice era maior no governo

FHC). O atual governo, até então, não contesta esse pagamento nem se propôs a auditar a “dívida” e

fazer esse debate com a sociedade.

O atual governo do PT não alcançou a presidência por conta de um alinhamento histórico a

concessão certos preceitos dos empresários, transnacionais e banqueiros. Se ganhou as eleições e tem

apoio popular foi pela acumulação de forças das organizações e movimentos sociais, sindicais e

pastorais nos últimos 40 anos. Entretanto, esse governo e o próprio partido parecem estar com uma

grande dificuldade em administrar o compromisso político e se manter próximo das bases populares,

para além dos períodos eleitorais.

É evidente, entretanto, que nessa experiência de governo está tendo (e com a reeleição de Dilma

haverá ainda) mesas redondas e encontros para reunir os movimentos sociais conforme atualmente foi

regulamentado pela Lei de participação social. Mas com uma questão essencial, pois enquanto os

setores oligopolistas do capital levam suas demandas ao atual governo e as efetivam, as demandas das

organizações e movimentos sociais que tenham fundo estrutural, por mais mudanças e inovações que

tenham ocorrido, não são geralmente atendidas ou executadas em larga escala.

No atual governo, uma considerável fração da classe média se formou e também é oriunda da

base social e partidária do PT e de muitos dos partidos que compõem a sua base aliada. Muitos nesse

setor apoiam as concessões à iniciativa privada, ao agronegócio e aos especuladores das mais diversas

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categorias. Junto a isso, mais uma coisa é fato, quase todo mundo obteve benefícios com o PT na

presidência, desde os banqueiros aos trabalhadores formais e informais.

Se uma parcela significativa do eleitorado histórico do PT está identificando no governo Dilma

retrocessos no que tange à qualidade do debate político e aos direitos democráticos é porque no seu

mandato as forças conservadoras com quem o PT fez acordos estão mais exigentes. Junto a isso,

desencadeou-se o processo que culminou, em 2013, com outra parcela da população querendo retornos

e mais resultados do governo, como mobilidade, mais investimentos públicos em saúde, segurança

pública que proteja o povo, mais educação em todos os níveis e qualidade no serviço público. Contudo,

estamos chegando em um momento em que parece que uma outra questão também tem que ser feita:

quando não é possível que todos ganhem como antes, qual é o lado que vai perder ou ser impelido a

renunciar?

Outra situação que está ficando corriqueira e naturalizada, não somente em São Paulo, é a

criminalização ou tentativa de regulação das greves. Antes de ser anunciada a greve dos metroviários

paulistas, a Justiça do Trabalho decidiu liminarmente proibir greve no horário de pico e manutenção de

70% dos trens em funcionamento nos outros horários. Como os metroviários de SP, os rodoviários no

RJ foram praticamente impedi dos de exercer o direi to de greve . Outro caso, pouco divulgado, foi o dos

funcionários federais de Cultura, que se não voltassem a trabalhar teriam os seus pontos cortados , no

acender das luzes da Copa do Mundo. Mais exemplos desse tipo não estão faltando. Há nitidamente

um recuo significativo com relação a conquistas que implicavam na convivência entre os diferentes – a

base da suposta democracia.

Ao governar e conceder, com um olho nos recursos naturais e no que pode ser gentrificado ou

aumentado o consumo, e outro olho pensando em se igualar a índices, estatísticas e taxas de

desenvolvimento criados por eles mesmos, vai se sintetizado um tom da política nos limites do Estado

gerencial e capitalista, junto à desregulação gradual do mercado econômico mundial. Sob essa

perspectiva, começamos a pensar na acomodação, padronização do ato político e distopia quando

fala-se em projeto de desenvolvimento para o Brasil, pois o modelo já está dado e a meta é sempre

estar comparando PIB e demais indicadores com os outros países. E quem ousar interromper isso?

Pelos últimos fatos, parece que ou poderá a qualquer momento ser escanteado do jogo político ou

detido por “prevenção”.

Estaríamos em um duelo entre o complexo de vira-latas (cabeça subdesenvolvida e que torce

contra o Brasil) e o complexo de pet shop (espécie de protótipo neocolonial e neodesenvolvido tocado

por “cidadãos de bem”)? Optar por esse tipo de debate parece contraproducente para pensarmos um

projeto político contextualizado com o mundo atual e situado à esquerda para um Brasil soberano. Ao

rebaixar o nível do debate e da cultura política e ao reproduzir esses preceitos, a colonização do

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pensamento segue nos impactando, seja na produção de conhecimento, seja na formação de cultura

política, e deixa de efetivamente fazer a critica e elaborar outra alternativa aquém da experiência

eurocêntrica no Brasil. E setores que se dizem à esquerda ou vinculados ao PT optam pelo

maniqueísmo para fazer o diálogo com a sociedade, em especial via redes sociais.

Uma vez que um jeito de administrar o governo foi arranjado, em especial durante o governo

Lula, evidencia-se que alguns setores do atual governo mantém e conservam confortavelmente uma

rotina em um mundo lento de certezas, que com otimismo permite algumas mudanças controladas.

Conservadores preferem ordem, rigidez, controle e resultados previsíveis. Não se pode negar que há

uma sabedoria nisso, e há, de fato, vantagens para um restrito grupo seguir nessa perspectiva, já que

demanda apenas políticas de ajustes e o gerenciamento do que está concebido. Parece que alguma

mudança mais drástica e à esquerda nesse jeito de gerenciar o Estado são temidas por talvez afetar

rotinas, levar a situações que demandariam posições políticas mais coerentes, mais esforço e

dinamicidade, do que apenas gerenciar demandas e fazer ajustes nas políticas públicas. "Conservar"

pode ser uma estratégia, mas não deixa de ser algo arriscado politicamente, apesar de eleitoralmente

eficiente a curto e médio prazo.

O conservadorismo que está em voga e se formulando pouco a pouco é diverso e tem que ser

analisado com cuidado, evitando generalizações. Ele também se forja em uma classe média que não se

distingue pelo consumo dos produtos da alta cultura europeia ou americana, mimetiza gostos, modos, a

cultura popular e os pasteuriza. Essa classe média que vaia a Dilma por aí é um tipo de classe m édia

que, por exemplo, também gosta de forró universitário, festas juninas, vai em comédias stand up

“politicamente incorretas”, curte as comédia do cinema nacional. Esse estilo cria um devir nos variados

setores da classe média, propagado pelos grandes meios de comunicação e uma intelligentsia

conservadora, não só pelo padrão de consumo, mas também na forma de destilar ódio, segregação social

e preconceito em relação a grupos sociais que historicamente são considerados subalternos.

Contudo, Löwy (2014) dá uma dica interessante sobre a possível crença atual de determinados

setores da esquerda em nível mundial sobre uma leitura ainda economicista em relação à direita ou a

posturas mais conservadoras de influência fascista, pois o “o grande capital não tem interesse em

sustentar movimentos de extrema direita […]” e ainda ele completa:

Trata-se, mais uma vez, de uma visão economicista, que não abarca aautonomia própria aos fenômenos políticos - os eleitores podem escolher umpartido que não tem a simpatia da grande burguesia - e que parece ignorar que ogrande capital pode se acomodar em todos os tipos de regimes políticos, semmuitas preocupações.

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Diante desse cenário, alguns atores utilizam bengalas discursivas e se escoram sobre questões

superficiais, como, por exemplo: “Porque a elite está tão revoltada com o governo Dilma, então?”, pois

na acepção destes isso é a chancela para que o governo seja considerado de esquerda. Não é um

“privilégio” só do PT ser alvo do “ódio” de um grupo elitista que está tendo uma perda lenta e gradual

dos seus privilégios em detrimento de outros grupos que ocupam atualmente o poder no Estado, ou

porque mudou a forma de se beneficiarem do Estado (falo em forma, não em quantia). Além disso,

outros setores da sociedade, ao ascenderem socialmente, deixaram de ser mão de obra fácil e barata da

exploração desses grupos (jardineiros, copeiras, domésticas, babas, motoristas etc.).

Mas essa contextualização apenas inicia a conversa sobre a emergência popular da esquerda,

essencial para a eleição de Lula e que apoiou o governo atual e a formulação de um conservadorismo

de apelo político atraente e com alicerce popular que está vindo à tona e poderá ser hegemônico em um

ciclo histórico não muito longínquo. É interessante que isso não seja ignorado, inclusive pelo atual

governo. Ainda cabe lembrar que quando os setores históricos de esquerda se furtam de fazer um

debate ideológico mais consistente, fazem política cotidiana de forma muito ambígua com o pêndulo

inclinado ao capital e reduzem a disputa política a maniqueísmos, deixam os flancos bem abertos para

que outros setores, inclusive os setores conservadores mais sagazes, ocupem esse espaço e a partir de

um determinado ciclo histórico exerçam hegemonia política.

Ao mesmo tempo, também não podem ser ignoradas as situações de manifestação nas ruas

desde junho de 2014, fortemente reprimidas pela polícia com o aval do Ministério da Justiça e a

omissão da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, as revoltas comunitárias contra as UPPs no Rio

de Janeiro e contra a intensificação da gentrificação, a tentativa de invasão do Consulado do Uruguai

para prender a advogada e militante de Direitos Humanos Eloisa Samy, a consolidação de coletivos

midiativistas, a resistência dos indígenas e dos povos e comunidades tradicionais, que tensionam esse

conservadorismo em gestação e questionam o atual cenário político com uma forma de fazer política

mais ampla do que nos partidos e organizações e movimentos sociais amalgamados pelo Estado.

Essa provocação, não termina aqui, continua...

* Pesquisador e um monte de outras coisas. Doutor pelo CPDA/UFRRJ.