10.1590/s0103-40142017.3190019 Um paradoxo entre o existir ... ?· Introdução: a moda de viola enquanto…

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    Introduo: a moda de viola enquanto gnero da msica caipirao percurso histrico podemos observar de forma bastante clara a influ-ncia que elementos no tradicionais exerceram sobre a grande maioria dos gneros considerados tradicionais da msica caipira, principalmente

    se levarmos em considerao os avanos dos processos de mundializao da cultura e a chegada da indstria fonogrfica no pas. Alm de uma gradativa mudana na temtica das letras da msica caipira, que passaram a incorporar assuntos relacionados vida urbana, refletindo inclusive o prprio processo mi-gratrio, houve tambm uma mudana significativa na instrumentao desses gneros mais tradicionais. Aos poucos, ritmos como toada, valseado, cururu, arrasta-p, querumana, entre tantos outros, passaram a incorporar instrumen-tos modernos em sua instrumentao, como bateria, contrabaixo e at mesmo guitarra havaiana.

    Em meio a um cenrio de profundas transformaes culturais, a moda de viola foi o gnero da msica caipira que, mesmo depois de inserida na indstria fonogrfica, manteve suas caractersticas tradicionais, no que diz respeito tanto s temticas quanto instrumentao. Esse provavelmente o principal motivo que faz que a moda de viola seja considerada um dos principais smbolos da msica caipira tradicional, remetendo consequentemente construo de uma ideia de identidade caipira genuna.

    A mesma ideia que discrimina um bloco de ritmos e instrumentos, atribuin-do-lhes caractersticas que remetem a uma noo de identidade caipira (ou seja, separao entre, de um lado, o que genuinamente tradio e, de outro, o que vem de fora),, estabelece tambm uma hierarquizao entre o que consegue expressar com maior completude os signos de identidade e o que s o consegue imperfeitamente. Neste caso, encontram-se, como rit-mos, a catira e a moda de viola e, como instrumentos, a viola e o violo, en-tre os itens mais valorizados por compositores, produtoras e consumidores da msica caipira. Tanto assim que, a partir de determinado momento, a moda de viola e a prpria viola passam a exigir, como dado valorativo, uma marca cultural que as caracterizou como moda caipira e viola caipira. (Pimentel, 1997, p.198, grifo do autor)

    Um paradoxo entre o existir e o resistir: a moda de viola atravs dos temposRAFAEL MARIN DA SILVA GARCIA I

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    Esse status que a moda de viola possui entre os gneros da msica caipira se deve tambm pelo fato de ela evidenciar muitos dos impasses, dos dilemas e das angstias do homem do campo, sendo utilizada como ferramenta de denn-cia e crtica a processos de excluso e opresso social, enaltecendo a humildade e a honestidade enquanto virtudes humanas e desmoralizando a ostentao de smbolos de riqueza e de m conduta, como a arrogncia, a prepotncia, a so-berba, a inveja e a desonestidade. a moda de viola que, por excelncia, traz nos enredos de suas narrativas temticas cujo principal objetivo transmitir aos ouvintes algum ensinamento de conduta tica ou uma lio de vida.

    A moda-de-viola um outro gnero praticado e valorizado pelos violeiros piracicabanos. tida, por vrios deles, como o exemplo da verdadeira msica caipira, e sempre que eles querem se referir ao que no msi-ca caipira ou sertanejo-raiz, eles citam duplas miditicas que no cantam modas-de-viola. Esse carter de smbolo da msica caipira fica claro quan-do observamos que a expresso moda-de-viola, ou simplesmente moda, abrangente com relao aos outros gneros da msica caipira. Tocar uma moda pode significar tocar uma moda-de-viola, mas, tambm, qualquer gnero caipira, como um cururu, por exemplo. (Paula Oliveira, 2004, p.127-8, grifos do autor)

    Com uma estrutura bsica preestabelecida, as modas de viola geralmente so compostas de uma melodia tonal cantada em teras ou sextas paralelas. Os cantadores fazem o dueto de vozes capela ou com o acompanhamento da viola caipira dobrando as vozes da melodia. Entre uma estrofe e outra a viola caipira sempre faz os interldios instrumentais chamados repique ou recortado como transio entre as partes cantadas da narrativa. As estrofes cantadas e esses inter-ldios instrumentais feitos na viola so as nicas partes fixas e imprescindveis em uma moda de viola, embora ela possa possuir outras partes em sua estrutura, consideradas mveis ou opcionais,1 ficando a critrio do compositor ou do intr-prete incluir ou no essas partes durante a cantoria.

    Rosa Nepomuceno (2005, p.69) observou que, de toda essa mistura cul-tural e rtmica, a expresso musical mais tpica do caipira ficou sendo a moda de viola. Parte do catira que ganhou vida prpria [...]. Seus versos contaram a his-tria do Brasil, documentaram os preconceitos sociais, os problemas polticos, as crises do caf e as modificaes culturais. Em meio a essas modificaes cultu-rais, a moda de viola foi o gnero da msica caipira que mais conseguiu manter suas estruturas tradicionais, tanto na dimenso musical e instrumental quanto na temtica e textual, sendo sobre o carter de permanncia dessas caractersticas tradicionais que este artigo traz alguma contribuio.

    A moda de viola no sculo XX:entre o registro escrito e fonogrficoLogo no incio do sculo XX a moda de viola passou a ser objeto de regis-

    tro folclrico, antes mesmo dos pioneiros registros fonogrficos de outubro de

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    1929. Na rea dos estudos folclricos, os primeiros registros de modas de viola provavelmente foram realizados pelos primos Amadeu Amaral (1875-1929) e Cornlio Pires (1884-1958) na passagem do sculo XIX para o sculo XX. Cor-nlio Pires iniciou o registro de material folclrico provavelmente em 1907, tendo publicado em 1910 uma srie de artigos intitulados Poetas caipiras no jornal O Comrcio de So Paulo, onde foram transcritas modas de viola reunidas posteriormente no livro Sambas e caterets (1932).

    Nesse ano tambm foi lanado o livro Tarrafadas: contos, anedotas e va-riedades, onde Cornlio Pires (2007, p.93) menciona algumas modas de vio-la que eram cantadas pelo menos desde a dcada de 1840, por vezes narran-do acontecimentos de relevncia como a Guerra do Paraguai ou a Revoluo Constitucionalista de 1932. Alguns versos dessas modas de viola haviam sido cantados em 1845 pelo interior de So Paulo, tendo sido assimilados pelo mo-dista Benedicto Gregrio de Mendona e Silva, poeta que teve uma posio de destaque dentro da obra de Cornlio Pires e que, segundo o folclorista, sabia classificar muito bem as modas que colhia daquelas que eram de sua autoria.

    Alguns anos antes Cornlio Pires havia publicado os livros Conversas ao p-do-fogo (1921) e Mixrdia (1927), onde esto registradas modas de bicho, modas trgicas, modas de namorao, modas de jogo, modas de acontecimentos, modas de italianos e modas de valentia. Entre esses registros de 1927 est a moda de viola Mec diz que vai cas (Pires, 2008, p.164-5), gravada em fono-grama dois anos depois e lanada em outubro de 1929 pela gravadora Columbia na Srie Cornlio Pires, ano esse que marca precisamente a transio entre os registros escritos e fonogrficos das modas de viola.

    O principal incentivador para que Cornlio Pires tenha dedicado boa par-te de sua vida ao registro e resgate da cultura tradicional paulista foi seu primo Amadeu Amaral, que o alertou para as potencialidades de um campo de estudos ainda pouco explorado e o encorajou a lanar seu primeiro livro em 1910, in-titulado Musa caipira. Nascido em uma fazenda no municpio de Monte Mor, Amadeu Amaral foi o primeiro intelectual a produzir de forma sistemtica tra-balhos dedicados cultura tradicional paulista, ainda sob o rtulo de estudos fol-clricos. Tendo atuado a partir de 1899 em diversos jornais que foram decisivos para sua formao intelectual, dentre os quais o Correio Paulistano e O Estado de S. Paulo, foi neste ltimo que publicou os primeiros rodaps intitulados Tra-dies Populares, que constituram o livro homnimo que figura como sua principal obra. Embora tenha comeado a se interessar pelos estudos folclricos por volta de 1916, tendo dado a eles um carter mais metdico a partir de 1920, provvel que seus primeiros registros tenham sido realizados ainda no final do sculo XIX, muito antes de suas obras de grande envergadura sobre o folclore e a cultura popular paulista. Em sua obra figuram modas de amor, modas de bichos, modas de boi, modas de fantasia, entre muitos outros temas colhidos em cidades do interior de So Paulo e Minas Gerais.

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    O amor que fornece tema para a maioria dessas composies; mas tam-bm cantam elas em vrios tons as misrias do pobre campnio, cantam as aventuras e trabalhos, cantam os mais diversos acontecimentos da vida social, observados pelo cantador. E h tambm as modas de pura fantasia e brincadeira, como esta que ouvi cantada por um caipira dos arredores desta cidade e que , indisputavelmente, bem tecida. [...] So muito frequentes os cantos de ndole impessoal sobre assuntos gerais da vida e da sociedade, sobre as misrias da gente humilde, sobre as desigualdades e injustias da fortuna, sobre a morte, sobre os costumes. (Amaral, 1982 p.72 e 113)

    Uma moda de viola que se tornou recorrente nos registros folclricos foi colhida por Amadeu Amaral (1982, p.74-6 e 204-6) em 1921 na cidade de So Sebastio da Grama (SP), com o nome As queixas do boi. Segundo o informante Pedro Saturnino, essa moda de viola tambm seria muito conhecida em Minas Gerais, alm do parentesco que o prprio Amadeu Amaral estabelece entre ela e algumas narrativas da regio Nordeste. Na dcada de 1970 Rossini Tavares de Lima (1971, p.104-7) fez um levantamento dos parentescos dessa moda de viola nas cidades de Santo Amaro (SP) e em uma regio prxima Ilha do Bananal (TO), em 1952, e na cidade de Porto Feliz (SP), em 1953, com os nomes Moda do Terneirinho, Terneirinho e Boizinho que nasceu no ms de maio.

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