A ilusão ocidental da natureza humana - ?· A ilusão ocidental da natureza humana Marshall Sahlins…

Embed Size (px)

Text of A ilusão ocidental da natureza humana - ?· A ilusão ocidental da natureza humana Marshall...

  • A iluso ocidental da natureza humana

    Marshall Sahlins

    Ttulo original: The Western Illusion of Human Nature.Traduzido por Peterson Silva.

    Retirado dos Discursos Tanner de 2005. Palestra apresentada na Universidadede Michigan no dia 4 de novembro de 2005.

    (Prefcio: Ao longo das duas ltimas dcadas, mais ou menos, disciplinas deCivilizao Ocidental tm desempenhado um papel cada vez menor no curr-culo de universidades americanas. Aqui eu fao uma tentativa de acelerar essatendncia ao reduzir a disciplina a uma aula de mais ou menos uma hora. Minhajusticativa o princpio nietzscheano de que assuntos grandes so como banhosfrios: voc tem que entrar e sair deles o mais rpido possvel.)

    Por mais de dois milnios, os povos que chamamos de ocidentais tm sidoassombrados pelo espectro de seus prprios seres interiores: uma ideia de natu-reza humana to mesquinha e destrutiva que, a no ser que seja de algum modogovernada, vai reduzir a sociedade anarquia. A cincia poltica do animal pe-tulante costuma vir em duas formas contrastantes e alternadas: ou hierarquia ouigualdade, autoridade monrquica ou equilbrio republicano: ou um sistema dedominao que (em tese) restringe o auto-interesse natural das pessoas atravsde um poder exterior; ou um sistema auto-organizado no qual a oposio de po-deres iguais e livres (em tese) reconcilia os interesses particulares no interessecomum. Para alm da poltica, essa uma metafsica total da ordem, j que amesma estrutura genrica de uma anarquia elementar resolvida pela hierarquiaou igualdade encontrada na organizao do universo assim como na organiza-o da cidade, e depois em conceitos teraputicos do corpo humano. Eu digo queela uma metafsica especicamente ocidental, j que ela pressupe uma oposi-o entre natureza e cultura que distintiva do Ocidente e contrastante com osmuitos outros povos que pensam que as bestas so, no fundo, humanas, ao in-vs de pensar que humanos so, no fundo, bestas para eles no h natureza,muito menos uma que tem que ser superada.

    Se o tempo me permitisse, eu falaria tanto sobre esses essencialismos quepensariam que eu sou um adepto do culto ps-moderno do fracasso auto-ini-gido (Zurburgg). No entanto, eu estou mais prximo posio de J. S. Mill e seu

    1

  • lsofo de um olho s, tentando derivar algumas verdades universais a partir daobsesso com um ponto de vista particular. Chamar isso de histria intelectualou mesmo arqueologia seria desingnuo tanto quanto pretensioso. S o queestou fazendo selecionar com critrio alguns exemplos de nossa longa tradi-o de natureza humana, e sugerindo que ela uma iluso. Mesmo que eu nosustente uma narrativa dessa lgubre ideia do que somos, ofereo como evidn-cia de sua durao o fato de que ancestrais intelectuais como Tucdides e SantoAgostinho, Maquiavel e os autores dos documentos federalistas, para no esque-cer dos contemporneos como os cientistas sociais do homem econmico e ossociobilogos do gene egosta, tm por direito o rtulo acadmico de Hobbesi-anos. Alguns destes eram monarquistas, outros apoiavam repblicas democrti-cas, mas todos compartilhavam, ainda assim, a mesma sinistra viso de naturezahumana.

    Inicio, contudo, com a conexo muito mais robusta entre as losoas polti-cas de Hobbes, Tucdides e John Adams. A curiosa interrelao entre essa tradede autores nos permitir rascunhar as coordenadas principais do tringulo meta-fsico da anarquia, hierarquia e igualdade. Por to diferentes que tenham sido assolues deles para o problema fundamental da maldade humana, tanto Hobbesquanto Adams encontraram no texto de Tucdides sobre a Guerra do Peloponeso,mais notavelmente a forma visceral como ele aborda a revoluo em Crcira, omodelo de suas prprias ideias quanto ao horror que a sociedade sofreria se os de-sejos naturais da humanidade por poder e lucro prprio no fossem controladospela imposio soberana, dizia Hobbes, ou equilbrio democrtico, dizia Adams.

    Adams e Hobbes como discpulos de TucdidesEm 1763, o jovem John Adams escreveu um breve ensaio entitulado Todos os ho-mens seriam tiranos se pudessem. Esse ensaio nunca foi publicado, mas Adamso revisitou em 1807 para dar suporte a sua concluso de que todas as formas sim-ples (no mistas) de governo, incluindo a democracia pura, bem como todas asvirtudes morais, todas as habilidades intelectuais, e todos os poderes de riqueza,beleza, arte e cincia no constituem uma prova de que possvel contrariar osdesejos egostas que agitam os coraes dos homens e originam, em ltima ins-tncia, governos cruis e tirnicos. Ele diz, ao explicar o ttulo do ensaio:

    Signica, na minha opinio, no mais que essa muito simples observao so-bre a natureza humana que todo homem que j leu um tratado sobre moralidade,ou tenha entrado em contato com o mundo. . . j deve ter feito, sendo ela que aspaixes egostas so mais fortes que as sociais, e que aquelas sempre prevalece-ro por sobre estas em todo homem que for deixado sob a inuncia das emoesnaturais em sua mente, sem restries e sem controle por parte de algum poder

    2

  • externo a ele prprio.1Adams conhecia as vises pessimistas de Hobbes e outros no que tange

    natureza humana, mas ao falar de evidncia histrica ele deu crdito especial aTucdides. No contexto dos conitos partidrios presentes no nascimento da re-pblica americana, incluindo conitos de classe parecidos com aqueles da Grciano quinto sculo antes da era crist, Tucdides foi para Adams uma importantetestemunha da confuso que pode ser causada por desejos e faces fora de con-trole. Assim explica-se o papel central do historiador grego no prefcio Defesada Constituio dos Estados Unidos, escrito de Adams em que ele escreve: impossvel ler em Tucdides, livro III, seu relato sobre as faces e confuses portoda Grcia, que comearam por causa dessa vontade de equilbrio, sem horror.Ele ento parafraseia elmente a narrativa de Tucdides (3.703.85) sobre a guerracivil (stasis) em Crcira.

    Eu abreviarei radicalmente o relato de Tucdides. Ele trata de uma rebeliode poucos contra muitos em Crcira: a rebelio da classe privilegiada contra ogoverno democrtico do povo, com o objetivo de minar a aliana da cidade comAtenas ao estabelecer um regime oligrquico aliado, em vez disso, a Esparta.Numa srie de episdios violentos, envolvendo tambm sacrilgio contra a lei ea religio, cada grupo foi vitorioso a cada conito, causando mortes que cres-ceram progressivamente at a interveno de Esparta em favor dos oligarcas, ea de Atenas do lado do povo. No m, a frota ateniense foi embora da cidade,onde a faco oligrquica sofreu um massacre brutal nas mos de uma massademocrtica fora de controle:

    A morte ocorria em todas as formas; e, como geralmente acontece em temposassim, no houve limites para a violncia; alguns foram mortos por seus pais, epessoas que imploravam por suas vidas foram arrastadas para fora do altar oumesmo assassinadas sobre ele; enquanto alguns estavam at mesmo detrs dasmuralhas do tempo de Dioniso, e l foram mortos (Thuc. 3.81.45).

    Aparentemente mais violenta que qualquer outra stasis anterior, a guerra ci-vil em Crcira foi apenas a primeira do tipo draconiano que ocorreu durante aGuerra do Peloponeso, em que espartanos e atenienses intervieram em coni-tos locais do lado dos oligarcas e do povo, respectivamente. Tucdides v essasconvulses polticas como epidemias, de forma que elas se tornaram mais ma-lignas medida que se espalharam de cidade para cidade. A doena aqui, no caso,era a natureza humana: a natureza humana, sempre rebelando-se contra a lei eagora contra seu mestre, com prazer mostrou-se ingovernvel na paixo, sem res-peito pela justia, inimiga de toda superioridade (3.84.2). A causa de todos essesmales, disse ele, foi a nsia por poder que surgiu da ganncia e da ambio, edessas paixes procedeu a violncia dos grupos que estavam no conito (3.82.8).Mas quando Tucdides arma que tal sofrimento sempre se repetiria enquantoa natureza humana permanecer a mesma (3.82.8), John Adams interrompe sua

    3

  • exposio do texto para dizer que se este historiador nervoso tivesse conhecidoo equilbrio entre os trs poderes, ele no teria chamado o destempero de in-curvel, mas teria adicionado enquanto os grupos nas cidades permaneceremdesequilibrados.

    No entanto, na sequncia da descrio de Tucdides quanto aos destempe-ros, no apenas as instituies principais da sociedade sucumbiram naturezahumana, mas a prpria linguagem sofreu uma corrupo similar. A iniquidademoral se juntou hipocrisia medida que palavras tiveram que mudar seu signi-cado e tomar um novo que lhes foi dado (3.82.4). Thomas Gustafson fala sobreum Momento de Tucdides arquetpico, quando a corrupo de pessoas e de lin-guagem tornou-se uma s2 (Para um exemplo contemporneo, pode-se pensar noto chamado conversadorismo compassivo da administrao americana atual,que corta impostos dos ricos expensa da sociedade em nome de justia, oupara o mesmo efeito chama o imposto sobre a herana de imposto da morte).Assim ocorreu em Crcira, quando palavras e promessas traduziram-se numaluta total por poder, e o que torpe tornou-se justo, o que justo tornou-se torpe.Planejamento meticuloso foi mascarado como auto-defesa; hesitao prudentefoi castigada como covardia espria; violncia frenetica tornou-se virilidadee moderao era a falta de virilidade. Juras no eram mais garantia contra asvantagens de quebr-las. O nico princpio que cou de p, como arma o clas-sicista W. Robert Connir, foi o clculo do auto-interesse. Nesse momento todasas convenes gregas quanto a promessas de vida, juras, suplicaes, obrigaes famlia e aos benfeitores e at mesmo a maior das convenes, a linguagem emsi mesma deram passagem. Foi o bellum omnium contra omnes de Hobbes.3

    E foi mesmo especialmente considerando que Hobbes foi o primeiro a tra-duzir Tucdides diretamente para o ingls. Se Tucdides parece ser hobbesiano, porque Hobbes foi inuenciado por Tucdides. Como Hobbes escreve em suaautobiograa em versos,

    Plauto,