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A RACIONALIDADE SUBSTANTIVA DEMONSTRADA NA PRÁTICA

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  • Organizao, Recursos Humanos e Planejamento

    A RACIONALIDADE SUBSTANTIVADEMONSTRADA NA PRTICA

    ADMINISTRATIVA

    Maurcio ServaDoutor em Administrao pela EAESP/FGV, Pesquisadorna cole des Hautes tudes Commerciales de Montral,

    Professor Associado do PPGAlUFRN eProfessor Associado da FACS - Faculdades Salvador.

    RESUMO: Sob a perspectiva geral da emancipao do homem no mbito do trabalho, este artigo trata do tema daracionalidade em organizaes produtivas, enfocando-o mediante a abordagem substantiva da organizao, pro-posta por Guerreiro Ramos. Empreende a complementaridade entre essa abordagem de Guerreiro Ramos e ateoria da ao comunicativa, de Habermas, a partir da qual elabora um quadro de anlise, examinando empiricamentetrs empresas de Salvador, Bahia, com o intuito de demonstrar como a razo instrumental e a razo substantivase concretizam na prtica administrativa. Da, define organizaes substantivas e estabelece uma escala deintensidade de racionalidade substantiva, que, juntamente com o quadro de anlise, pode ser utilizada para oexame da racionalidade de qualquer organizao produtiva.

    ABSTRACT: Under the general perspective of human's emancipation at work, this article analyzes the rationality inproductive organizations through a substantive boarding, according to the proposal of Guerreiro Ramos. It showsthe complementarity between the Guerreiro's proposition and the theory of communicative action, created byHabermas. It also propose an analytical board, that examines empiricaly three companies in Salvador, Bahia,aiming to demonstrate how either substantive and instrumental rationalities came true. Finalr. the author definessubstantive organizations and establishes a scale of intensity, that jointly with the analytical board, could be usefulto examine the rationality of any productive organization.

    KEY WOROS: substantive rationality, substantive organizations, organizations theory, emancipation.

    PALAVRAS-CHAVE: racionalidade substantiva, organizaes substantivas, teoria das organizaes,emancipao.

    18 RAE- Revistade Administraode Empresas SoPaulo,v. 37, n. 2, p. 18-30 Abr./Jun. 1997

  • 1. Ver GUERREIRO RAMOS, A. A novactncie das organizaes - umareconceituao da riqueza das naes. Riode Janeiro: FGV, 1981; SYMONS, Gladys.Les femmes cadres dans I'universebureaucratique - une perspective critique.In: Chanlat, J.-F. (dir.) L'individu dansI'organisation, les dimensions oublies.Qubec: Les Presses de l'Universit Lavai,pp. 417-429, 1990; BARRETO, Csar.Sobre a racionalidade humana: conceitos,dimenses e tendncias. In: Anais do XVIIENANPAD, v. 9, Salvador: ANPAD, 1993;TENRIO, Fernando. Tem razo aadministrao? In: Revista deadministrao pblica. Rio de Janeiro:FGV, v. 24, n. 2, pp. 5-9, 1990; PIZZAJNIOR, W. Razo substantiva. In: Revistade administrao pblica. Rio de Janeiro:FGV, v. 28, n. 2, pp. 7-14, 1994; MAR-TINS, Wellington. Mudana organizacionale ao comunicativa: rumo ao resgate dadignidade e da errnncipao hurrnna. SoPaulo, EAESP/FGV, tese de doutorado,1994.

    A RACIONALIDADE SUBSTANTIVA DEMONSTRADA NA PRTICA ADMINISTRATIVA

    " nuionntktsttsubsumtiv srrin umatributo nnturn! doser Iumuuto e qurcsittr /liJ psiqur.

    A busca da compreenso da razo, enquan-to fundamento das aes humanas, tambm nointerior das organizaes produtivas, temguiado o interesse de diversos pesquisadores.Os estudos de Guerreiro Ramos, Symons,Barreto, Tenrio, Pizza Jnior, Martins, e demuitos outros, inserem-se no rol daqueles queexaminam a racionalidade subjacente s aesdos indivduos nas organizaes, numa pers-pectiva crtica.'

    Guerreiro Ramos fundamentou seus estu-dos sobre a racionalidade nas organizaesnuma abordagem ampla, por ele mesmo de-nominada "teoria substantiva da vida huma-na associada". Para ele, tal teoria apresenta-ria a razo substantiva como a sua principalcategoria de anlise e te-ria a tica como a sua dis-ciplina preponderante so-bre qualquer outra que ve-nha a abordar a vida social.Guerreiro defendia a idiade uma razo substantivade amplo espectro, confes-sadamente no sentido aris-totlico, que transcendeem muito a estreita relaoque atualmente se faz en-tre razo e clculo. Assim, a racionalidadesubstantiva seria um atributo natural do serhumano que reside na psique. Por meio dela,os indivduos poderiam conduzir a sua vidapessoal na direo da autorealizao, contra-balanando essa busca de emancipao e au-torealizao com o alcance da satisfao so-cial, ou seja, levando em conta tambm o di-reito dos outros indivduos de faz-lo. Aschaves para esse balanceamento seriam o de-bate racional e o julgamento tico-valorativodas aes.

    V-se claramente que a proposio acimasoa muito diferente daquela que apresenta busca do sucesso individual desprendido datica, apenas pautado no clculo utilitrio eno xito econmico; esta atitude tpica doembasamento fornecido pela lgica da razodita instrumental. Guerreiro Ramos reconhe-ceu que, na grande maioria das organizaesprodutivas, a razo instrumental prevalececomo lgica subjacente s aes, determinan-do o padro de "sucesso" a ser atingido, umsucesso orientado pelas "leis" do mercado eegocntrico por natureza.

    Por conseguinte, liberado das premissas

    tico-valorativas, o ambiente organizacionaltomou-se propcio aos abusos de poder, do-minao, ao mascaramento de intenes pelasubstituio da verdadeira comunicao huma-na por padres informativos, dentre outras con-seqncias. Tudo isso acaba conduzindo os in-divduos a se lanarem numa competio per-manente, produtora de ansiedades e de pato-logias psquicas. Guerreiro Ramos ressalta queo predomnio da razo instrumental nas orga-nizaes produtivas engendra uma sociedadecentrada no mercado, responsvel pela inse-gurana psicolgica, pela degradao da qua-lidade de vida, pela poluio, pelo desperdciodos recursos naturais do planeta, alm de pro-duzir uma teoria organizacional incapaz de en-

    sejar espaos sociais gra-tificantes aos indivduos.

    A formulao deGuerreiro Ramos apre-senta uma forte influn-cia dos estudos de KarlPolanyi," o qual, frentede uma equipe interdis-ciplinar sediada naColumbia University,fundou a conceposubstantiva da econo-

    mia, nos anos 40. Polanyi rejeitava a idia deque a razo instrumental tem que ser empre-gada como o ponto de partida para a anlisede toda e qualquer atividade econmica. Ele esua equipe defendiam que a economia deveriaser analisada como um processo social, isto ,inserido na configurao institucional prpriade cada sociedade historicamente percebida.A racionalidade instrumental e o mercado noserviriam como categorias gerais de anlise detodas as economias. Prosseguindo nessadmarche, Polanyi cunhou a expresso con-cepo substantiva, a qual concentra o inte-resse sobre "os valores, a motivao e a pol-tica". Da a concepo de Polanyi constituiruma das principais fontes de inspirao deGuerreiro Ramos, provavelmente, de onde eleaproveitou o termo substantiva.

    A morte de Guerreiro Ramos, aos 67 anos,em plena atividade intelectual e apenas umano depois da publicao de A nova cinciadas organizaes ... , no nos deixa dvidasde que o seu projeto foi interrompido, poisno prefcio desse livro ele afirmava que, umavez lanada as bases da nova cincia, se ocu-paria de dar continuidade tal proposta.

    1997, RAE - Revista de Administrao de Empresas / EAESP / FGV, So Paulo, Brasil.

    2. POLANYI, Karl et alli. Les systemesconomiques dans I'histoire et dans lathone. Paris: Librairie Larrousse, 1975.

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  • 3. O prprio Guerreiro Ramos confirmaclaramente esta opo, ao comentarsobre o seu livro em: Minha dvida aLorde Keynes. In: Revista deadministrao pblica. Rio de Janeiro:FGV, v. 16, n.2, pp. 91-95, 1982.

    4. Ver VASCONCELOS, Flvio.Racionalidade, tica e organizaes - umaviso analtica. In: Anais do XVIIENANPAD,v. 9, Salvador, ANPAD, 1993;TENRIO, Fernando. Tem razo aadministrao? Op. cil.; PIZZA JNIOR.Razo substantiva. Op, cit.: CALDAS,Miguel. Explorando outros viveres: ensaiosobre a escolha e a diversidade em designorganizacional. In: Anais do XVIIIENANPAD, v. 8, Curitiba: ANPAD, 1994;BARRETO, Csar. Sobre a racionalidadehumana: conceitos, dimenses etendncias. Op. cit.; OLIVEIRA, Francisco.A teoria crtica e a totalizao daracionalidade instrumental ou opessimismo da Escola de Frankfurt. In:Anais do XVII ENANPAD, v. 9, Salvador:ANPAD, 1993.

    5. Ver ROTHSCHILD-WHITT, Joyce. Thecollectivist organization: an alternative tobureaucrartic models. In: Rothschild-Whitt, J. & Lindenfeld, F. (dirs.) Work-place democracy and social change.Boston: Porter Sargent Publishers,1982; HUBER, Joseph. Quem devemudar todas as coisas as alternativasdo movimento alternativo. Rio deJaneiro: Paz e Terra, 1985; GAGNON, G.& RIOUX, M. A prooos d'autogestion etd'mancipation. Oubec: IORC, 1988;DUPUIS, Jean-Pierre. Le ROCC deRimouski, la recherche de nouvettessolidarits. Oubec: IORC, 1985;BHRER, H. & JOYAL, A. Lecheminement de I'entreprise altemative:mirages et ralits. Montral: Albert-Saint-Martin, 1987; DEFOURNY, J. Lesecteur de I'conomie sociale enBelgique. In: CIRIEC Working paper.Lige, Universit de Lige, n. 92-05;HABERMAS, J. Teoria de la accincomunicativa. Madrid: Taurus, vols. I e11, 1987; NERFIN, M. Ni prncipe nimercader, ciudadano: una introduccinai Tercer Sistema. In: Socialismo eparticipao. Lima, CEDEP, n. 41,1988;TEMPLE, D. Les ONG's comme chevalde Troie. In: IFDA Dossier. Nyon: IFDA,n. 60, 1987.

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    o PROBLEMA ENFOCADO POR ESTEESTUDO: O "IMPASSE"

    As idias de Guerreiro Ramos vm tendogrande ressonncia nos meios acadmicos, no-tadamente no Brasil, onde a abordagem subs-tantiva da organizao tem muitos adeptos. Di-versos autores brasileiros vm elaborando traba-lhos pautados na anlise de organizaes toman-do como base a racionalidade substantiva, ense-jando gradativamente a criao de mais um temaespecfico de estudos organizacionais no pas.

    Uma questo crucial que Guerreiro Ra-mos ao propor a abordagem substantiva das or-ganizaes, o fez de maneira puramen