A Saga das Cincias Sociais - Saga das Cincias Sociais na rea da Sade Coletiva: Elementos para Reflexo 253 Physis Revista de Sade Coletiva, Rio de Janeiro, 18 [ 2 ]: 251-275, 2008

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    A Saga das Cincias Sociaisna rea da Sade Coletiva: elementospara reflexo1

    | 1 Maria Andra Rios Loyola |

    Resumo: O aporte das cincias sociais, a partir dos anos1970, atravs de suas teorias e metodologias j consolidadas,

    foi indispensvel para o desenvolvimento e consolidao da

    rea que, no campo da sade, se tornou conhecida comoSade Coletiva. Em contraste com sua participao, as

    cincias sociais sempre ocuparam um lugar subalterno neste

    campo, dominado, em seus primrdios, isto , durante asdcadas de 1970 e 1980, pelo planejamento em sade e, a

    partir da dcada de 1990, pela epidemiologia. O domnio

    da epidemiologia acontece justamente quando, reconhecidapela Capes como uma rea autnoma, esperava-se maior

    equilbrio entre as diferentes disciplinas que compem a rea

    da Sade Coletiva. Este estudo levanta questes sobre asituao das cincias sociais na rea, em relao com a

    execuo da poltica de fomento das agncias nacionais -

    Capes e CNPq. A imposio de uma lgica custo-benefciode carter predominantemente economicista e quantitativista,

    aplicada pelas agncias na concesso de recursos, interfere

    tanto na produo quanto na circulao do conhecimento,com prejuzos para as cincias sociais. Contornar essa situao

    constitui um dos desafios que se colocam hoje para as

    cincias sociais e, em particular, para a rea da SadeColetiva.

    Palavras-chavePalavras-chavePalavras-chavePalavras-chavePalavras-chave: Cincias sociais e sade; peridicos em SADEcoletiva; produtividade e produtivismo em Sade Coletiva; agncias defomento e Sade Coletiva.

    1 Professora titular,Departamento de Polticas eInstituies de Sade, IMS-UERJ.Endereo eletrnico:andrea.loyola@terra.com.br

    Recebido em: 31/01/2008.Aprovado em: 14/04/2008.

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    Desde que as instituies de cunho mais acadmico (de ensino e pesquisa), emsade pblica e medicina social comearam a se implantar no Brasil, as cinciassociais e humanas foram chamadas a prestar sua contribuio. O aporte destascincias desde ento, atravs de suas teorias e metodologias, foi indispensvelpara o desenvolvimento e consolidao da rea que, no campo da sade, se tornouconhecida como Sade Coletiva. O prprio termo sade coletiva evoca no apenaso estudo da sade de uma coletividade, como a contribuio da coletividade emsi mesma, enquanto sistema social, para o entendimento do que sade, comoestado e como objeto de estudo.

    No obstante, a maior parte dos mdicos, sempre ciosa da hegemonia quedesfruta na rea, nunca tenha deixado de pensar as cincias sociais comodisciplinas auxiliares (o que, ainda hoje, coloca a sade coletiva como segundaopo, seno a ltima, de boa parte dos cientistas sociais), alguns poucosprofissionais dessas reas perceberam ser este um campo privilegiado para pensaro social. E, como o foi, para fazer avanar o conhecimento da sociedade, dateoria e da metodologia em cincias sociais; como tambm para trazer luz aimportncia de alguns temas ainda hoje tidos como menos nobres no prpriocampo daquelas cincias. Para citar apenas um exemplo, o tema da sexualidade,e no apenas como prtica responsvel pela transmisso de certas doenas, masno sentido foucaultiano, como lcus estratgico de controle social nas sociedadescontemporneas, fortemente medicalizadas.

    Graas a esse esforo, vrios e importantes estudos capitaneados ou influenciadospelas cincias sociais e pelas cincias humanas comearam a ser desenvolvidos:sobre a determinao social da doena, as instituies e as polticas de sade, asrelaes entre indivduo e sociedade, sobre os sistemas de sade, as representaessociais da doena, sobre as prticas de sade oficiais e alternativas, as diferentesracionalidades teraputicas, a histria das doenas e das epidemias, as profissesmdicas, os movimentos sociais em sade e tantos outros.

    Em contraste com este formidvel aporte, as cincias sociais da sade sempreocuparam um lugar subalterno em seu prprio campo e notadamente no campoda sade coletiva. Por que isto acontece? Primeiramente, por uma perspectiva declasse fortemente impregnada na cultura ocidental: tudo que diz respeito ao social,em oposio ao individual (domnio da medicina nobre), tende a ser desvalorizado.Basta, para constatar isto, como sugere Bourdieu (2002), consultar o dicionrio e

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    observar as definies de social = coletivo, povo; e de individual = uno, nico, etc.Em segundo lugar, pela hegemonia exercida pela medicina em tudo que diz respeito sade e, sobretudo, pela forma de construo desta hegemonia no campo daSade Coletiva, por definio um campo multidisciplinar.2

    O campo da Sade ColetivaNo perodo de formao e institucionalizao, o campo da Sade Coletiva foidominado principalmente pelos profissionais (com exceo de alguns cientistassociais que se destacaram no perodo), a maioria mdicos, que num contexto comoo dos anos 70 e 80, ao mesmo tempo extremamente politizado e politicamentereprimido, fizeram da sade pblica um instrumento poltico de transformaosocial. Esses profissionais estiveram na liderana do movimento sanitarista queculminou com a criao do SUS e com o reconhecimento da sade como umdireito universal consagrado na Constituio de 1988, movimento que, comomostra Nunes (2005), esteve intrinsecamente ligado formao do campo daSade Coletiva. Esses atores estavam voltados, sobretudo, para as tarefas deaprimoramento do Estado enquanto promotor e provedor da sade no pas, comoreza aquela Carta Magna. O planejamento e a administrao em sade dominaramo campo da Sade Coletiva praticamente at a dcada de 1990.

    Com a democratizao do pas e o relativo esgotamento desse projeto poltico,sem dvida bem-sucedido (muitos professores e pesquisadores passaram a exerceratividades ou a terem postos e funes diretamente nas instituies polticas eestatais, nacionais e internacionais), os planejadores e administradores de sade,agora atuando no interior do prprio Estado, gradativamente perderam importnciana dimenso acadmica do campo, abrindo espao para novos profissionais,notadamente para os epidemilogos.

    Na ausncia de um projeto poltico coletivo, capaz de aglutinar em uma sdireo os esforos do conjunto de profissionais e de disciplinas que compem area, esta foi aos poucos se burocratizando e disciplinarizando-se, ou seja, fechando-se em torno das diferentes disciplinas que compem o campo nas suas principaisreas de concentrao: Epidemiologia, Planejamento e Cincias Humanas.

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    A Sade Coletiva e o desenvolvimento da pesquisa no pasO rpido desenvolvimento da pesquisa ocorrido a partir dos anos 1980, que sedeu associado ao crescimento dos cursos de ps-graduao e, desta forma,concentrado nas universidades pblicas, agravou consideravelmente esta situao.De fato, a prioridade conferida s linhas de pesquisa, em detrimento dosdepartamentos e das instituies em seu conjunto, no raramente tem levado,para alm de uma forte especializao, a uma verdadeira atomizao e autonomizaodo conhecimento produzido pelos pesquisadores da rea. Isso se faz sentir tambmno ensino, que passa a ser ministrado em funo dos interesses dos pesquisadorese de seus projetos de pesquisa, levando a um empobrecimento, para no dizer auma quase perda do sentido e da concepo original de Sade Coletiva.

    Esses processos de atomizao e autonomizao, com tendncia a se radicalizaremem algumas instituies da rea, se manifestam na multiplicao de siglas distintivasde grupos dentro de uma mesma instituio e de um mesmo departamento. Siglasque passam a funcionar como principal elemento identificador de grupos, comopode ser facilmente observvel nos crditos das atividades, publicaes etc. de seusmembros, onde a sigla das instituies geralmente consta em segundo lugar, ou svezes nem aparece. Alm de marketing, essas siglas so utilizadas como instrumentode captao e distribuio de recursos, em geral privados (para pesquisa, publicaes,condies de trabalho, realizaes de eventos, pr-labore, bolsas, etc.), o que, faceao progressivo sucateamento das universidades pblicas, vem levando formaode verdadeiros feudos em algumas dessas instituies, apontando para um perversoe silencioso processo de privatizao das universidades pblicas.

    Na ausncia de um projeto poltico mais amplo, aumentar o conceito doscursos junto Capes (e por conseqncia dos recursos a ele atrelados) vem-seconstituindo na principal bandeira das instituies, no principal elementoaglutinador da vontade daqueles grupos - em muitas delas, num verdadeiroprojeto institucional. Na prtica, entretanto, a perseguio deste fim vem-setornando mais um fator de desagregao, reforando e ampliando as tradicionaiscontradies e a complexidade da rea de Sade Coletiva, principalmente entrea rea predominantemente mdica, como a epidemiologia, e as reas das cinciashumanas e sociais e do planejamento.

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    O papel das agncias de fomentoAs agncias governamentais de fomento, notadamente Capes e CNPq, tiveram etm um papel fundamental nesse processo: menos por sua poltica global, cujacontribuio para o desenvolvimento da pesquisa e da ps-graduao no pas inegvel, mas pela fo