A Santa Sé ?· quanto a todas as suas fraquezas humanas: esta consciência, precisamente, é e deve

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    03-Dec-2018

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  • A Santa S

    CARTA ENCCLICAREDEMPTOR HOMINISDO SUMO PONTFICE

    JOO PAULO IIAOS VENERVEIS IRMOS NO EPISCOPADO

    AOS SACERDOTESE S FAMLIAS RELIGIOSAS

    AOS FILHOS E FILHAS DA IGREJAE A TODOS OS HOMENS DE BOA VONTADE

    NO INCIO DO SEU MINISTRIO PONTIFICAL

    Venerveis Irmos e carssimos FilhosSade e Bno Apostlica!

    I. HERANA

    No final do segundo Milnio

    O Redentor do homem, Jesus Cristo, o centro do cosmos e da histria. Para Ele se dirigem omeu pensamento e o meu corao nesta hora solene da histria, que a Igreja e a inteira famliada humanidade contempornea esto a viver. Efectivamente, este tempo, no qual, depois dopredilecto Predecessor Joo Paulo I, por um seu misterioso desgnio Deus me confiou o serviouniversal ligado com a Ctedra de So Pedro em Roma, est muito prximo j do ano Dois Mil. difcil dizer, neste momento, o que aquele ano vir a marcar no quadrante da histria humana, ecomo que ele vir a ser para cada um dos povos, naes, pases e continentes, muito emborase tente, j desde agora, prever alguns eventos. Para a Igreja, para o Povo de Deus que seestendeu se bem que de maneira desigual at aos mais longnquos confins da terra, esseano vir a ser o ano de um grande Jubileu. Estamos j, portanto, a aproximar-nos de tal data que respeitando embora todas as correces devidas exactido cronolgica nos recordar erenovar em ns de uma maneira particular a conscincia da verdade-chave da f, expressa por

  • So Joo nos incios do seu Evangelho: O Verbo fez-se carne e veio habitar entre ns ; [1] enuma outra passagem Deus, de facto, amou de tal modo o mundo, que lhe deu o Seu filhounignito, para que todo o que nele crer no perea, mas tenha a vida eterna . [2]

    Estamos tambm ns, de alguma maneira, no tempo de um novo Advento, que tempo deexpectativa. Deus, depois de ter falado outrora aos nossos pais, muitas vezes e de muitosmodos, pelos Profetas, falou-nos nestes ltimos tempos pelo Filho ... , [3] por meio do Filho-Verbo, que se fez homem e nasceu da Virgem Maria. Com este acto redentor a histria dohomem atingiu, no desgnio de amor de Deus, o seu vrtice. Deus entrou na histria dahumanidade e, enquanto homem, tornou-se sujeito mesma, um dos milhares de milhes e, aomesmo tempo, nico! Deus, atravs da Encarnao, deu vida humana aquela dimenso, queintentava dar ao homem j desde o seu primeiro incio e deu-lha de maneira definitiva daquelemodo a Ele somente peculiar, segundo o seu eterno amor e a sua misericrdia, com toda a divinaliberdade e, simultaneamente, com aquela munificncia, que, perante o pecado original e todaa histria dos pecados da humanidade e perante os erros da inteligncia, da vontade e docorao humano, nos d azo a repetir com assombro as palavras da Sagrada Liturgia: ditosaculpa, que tal e to grande Redentor mereceu ter . [4]

    2. Primeiras palavras do novo Pontificado

    A Cristo Redentor elevei os meus sentimentos e pensamentos a 16 de Outubro do ano passado,quando, aps a eleio cannica, me foi feita a pergunta: Aceitais? E eu respondi ento: Com obedincia de f em Cristo, meu Senhor, e confiando na Me de Cristo e da Igreja, noobstante as muitas dificuldades, eu aceito . Quero hoje dar a conhecer publicamente aquelaminha resposta a todos, sem excepo alguma, tornando assim manifesto que est ligado com averdade primeira e fundamental da Encarnao o ministrio que, com a aceitao da eleio paraBispo de Roma e para Sucessor do Apstolo Pedro, se tornou meu especfico dever na suamesma Ctedra.

    Escolhi os mesmos nomes que havia escolhido o meu amadssimo Predecessor Joo Paulo I.Efectivamente, quando a 26 de Agosto de 1978 ele declarou ao Sacro Colgio (dos Cardeais) quequeria ser chamado Joo Paulo um binmio deste gnero no tinha antecedentes na histriado Papado j ento reconheci nisso um eloquente bom auspcio da graa sobre o novoPontificado. E dado que esse Pontificado durou apenas trinta e trs dias, cabe-me a mim nosomente continu-lo, mas, de certo modo, retom-lo desse mesmo ponto de partida. Istoprecisamente confirmado pela escolha, feita por mim, desses dois nomes. E ao escolh-losassim, em seguida ao exemplo do meu venervel Predecessor, desejei como ele tambm euexprimir o meu amor pela singular herana deixada Igreja pelos Sumos Pontfices Joo XXIII ePaulo VI; e, ao mesmo tempo, manifestar a minha disponibilidade pessoal para a desenvolvercom a ajuda de Deus.

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  • Atravs destes dois nomes e dos dois pontificados, quero vincular-me a toda a tradio desta SApostlica, com todos os Predecessores no espao de tempo deste sculo vinte e dos sculosprecedentes, ligando-me gradualmente, segundo as diversas pocas at s mais remotas, quelalinha da misso e do ministrio que confere S de Pedro um lugar absolutamente particular naIgreja. Joo XXIII e Paulo VI constituem uma etapa, qual desejo referir-me directamente, comoa um limiar do qual minha inteno, de algum modo juntamente com Joo Paulo I, prosseguirno sentido do futuro, deixando-me guiar por confiana ilimitada e pela obedincia ao Esprito, queCristo prometeu e enviou sua Igreja. Ele, efectivamente dizia aos seus Apstolos, na vsperada sua Paixo: melhor para vs que eu v; porque, se Eu no for, o Consolador no vir avs; mas, se eu for, enviar-vo-lo-ei . [5] Quando vier o Consolador, que Eu vos hei-de enviarda parte do Pai, o Esprito da verdade que do Pai procede, ele dar testemunho de Mim. E vstambm dareis testemunho de Mim, porque estais comigo desde o princpio . [6] Quando,porm, Ele vier, o Esprito da verdade, Ele guiar-vos- para a verdade total, porque no falar porSi mesmo, mas dir tudo o que tiver ouvido e anunciar-vos- as coisas vindouras . [7]

    3. Confiana no Esprito da Verdade e do Amor

    , pois, confiando plenamente no Esprito da verdade, que eu entro na posse da rica herana dospontificados recentes. Esta herana acha-se fortemente radicada na conscincia da Igreja demaneira absolutamente nova, nunca dantes conhecida, graas ao II Conclio do Vaticano,convocado e inaugurado por Joo XXIII e, em seguida, concludo felizmente e actuado comperseverana por Paulo VI, cuja actividade eu prprio pude observar de perto. Fiquei sempremaravilhado com a sua profunda sapincia e com a sua coragem, e igualmente com a suaconstncia e pacincia no difcil perodo ps-conciliar do seu Pontificado. Como timoneiro daIgreja, barca de Pedro, ele sabia conservar uma tranquilidade e um equilbrio providenciaismesmo nos momentos mais crticos, quando parecia que ela estava a ser abalada por dentro,mantendo sempre uma inquebrantvel esperana na sua compacidade. Aquilo, de facto, que oEsprito disse Igreja mediante o Conclio do nosso tempo, e aquilo que esta Igreja diz a todas asIgrejas [8] no pode apesar das inquietudes momentneas servir para outra coisa senopara uma compacidade mais maturada ainda de todo o Povo de Deus, bem consciente da suamisso salvfica.

    Desta conscincia contempornea da Igreja precisamente, Paulo VI fez o primeiro tema da suafundamental Encclica, que se inicia com as palavras Ecclesiam suam; e seja-me permitido fazerreferncia e pr-me em conexo, antes de mais nada, com esta Encclica, neste primeiro e, porassim dizer, inaugural documento do presente Pontificado. Com as luzes e com o apoio doEsprito Santo a Igreja tem uma conscincia cada vez mais aprofundada quer pelo que se refereao seu mistrio divino, quer pelo que se refere sua misso humana, quer mesmo, finalmente,quanto a todas as suas fraquezas humanas: esta conscincia, precisamente, e devepermanecer a primeira fonte do amor por esta Igreja, assim como o amor, da sua parte, contribuipara consolidar e para aprofundar tal conscincia. Paulo VI deixou-nos o testemunho de uma

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    http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_06081964_ecclesiam.html

  • conscincia da Igreja assim, extremamente perspicaz. Atravs das multplices e no raro sofridascomponentes do seu Pontificado, ele ensinou-nos o amor destemido pela Igreja, a qual comoafirma o Conclio sacramento, ou sinal, e instrumento da ntima unio com Deus e daunidade de todo o gnero humano . [9]

    4. Referncia primeira Encclica de Paulo VI

    Por tal razo, exactamente, a conscincia da Igreja h-de andar unida com uma aberturauniversal, a fim de que todos possam nela encontrar as imperscrutveis riquezas de Cristo ,[10] das quais fala o Apstolo das gentes. Uma tal abertura, organicamente conjunta com aconscincia da prpria natureza, com a certeza da prpria verdade, da qual o mesmo Cristo disse no minha, mas do Pai que me enviou , [11] determina o dinamismo apostlico, que omesmo dizer missionrio, da Igreja, professando e proclamando integralmente toda a verdadetransmitida por Cristo. E simultaneamente ela, a Igreja, deve conduzir aquele dilogo que PauloVI na sua Encclica Ecclesiam suam chamou dilogo da salvao , diferenciando com precisocada um dos crculos no mbito dos quais ele deveria ser conduzido. [12]

    Quando assim me refiro hoje a este documento programtico do Pontificado de Paulo VI, nocesso de dar graas a Deus, pelo facto de este meu grande Predecessor e ao mesmo tempoverdadeiro pai ter sabido no obstante as diversas fraquezas internas, por que foi afectada aIgreja no perodo posconciliar patentear ad extra , para o exterior , o seu autntico rosto.De tal maneira, tambm grande parte da famlia humana, nas diversas esferas da sua multiformeexistncia, se tornou na minha opinio mais consciente do facto de lhe ser necessriaverdadeiramente a Igreja de Cristo, a sua misso e o seu servio. E esta conscincia algumasvezes demonstrou-se mais forte do que as diversas atitudes crticas, que atacavam ab intra ,vindas de dentro , a mesma Igreja, as suas instituies e estruturas, e os homens da Igreja eas suas actividades.

    Um tal crtica crescente teve sem dvida diversas causas e, por outro lado, estamos certos deque ela no foi sempre destituda de um sincero amor Igreja. Manifestou-se nela,indubitavelmente, entre outras coisas, a tendncia para superar o chamado triunfalismo, de quese discutia com frequncia durante o Conclio. No entanto, se uma coisa acertada que a Igreja,seguindo o exemplo do seu Mestre que era humilde de corao , [13]esteja bem assentetambm ela na humildade, que possua o sentido crtico a respeito de tudo aquilo que constitui oseu carcter e a sua actividade humana e que seja sempre muito exigente para consigo prpria, bvio igualmente que tambm a crtica deve ter os seus justos limites. Caso contrrio, ela deixade ser construtiva, no revela a verdade, o amor e a gratido pela graa, da qual principal eplenamente nos tornamos participantes exactamente na Igreja e mediante a Igreja. Alm disto, oesprito crtico no exprime a atitude de servio, mas antes a vontade de orientar a opinio deoutrem segundo a prpria opinio, algumas vezes divulgada de maneira assaz imprudente.

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    http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/encyclicals/documents/hf_p-vi_enc_06081964_ecclesiam.html

  • Deve-se gratido a Paulo VI ainda, porque, respeitando toda e qualquer parcela de verdadecontida nas vrias opinies humanas, ele conservou ao mesmo tempo o equilbrio providencial dotimoneiro da Barca. [14] A Igreja que atravs de Joo Paulo I quase imediatamente depoisdele me foi confiada, no se acha certamente isenta de dificuldades e de tenses internas.Entretanto, ela encontra-se interiormente mais premunida contra os excessos do autocriticismo;poder-se-ia dizer, talvez, que ela mais crtica diante das diversas crticas imprudentes, e estmais resistente no que respeita s vrias novidades , mais maturada no esprito dediscernimento e mais idnea para tirar do seu perene tesouro coisas novas e coisas velhas ,[15] mais centrada no prprio mistrio e, graas a tudo isto, mais disponvel para a misso dasalvao de todos: Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento daverdade . [16]

    5. Colegialidade e apostolado

    Esta Igreja contra todas as aparncias est mais unida na comunho de servio e naconscincia do apostolado. Tal unio nasce daquele princpio de colegialidade, recordado pelo IIConclio do Vaticano, que o prprio Cristo enxertou no Colgio Apostlico dos Doze, com Pedrona chefia, e que renova continuamente no Colgio dos Bispos, o qual cresce cada vez mais sobretoda a terra, permanecendo unido com o Sucessor de So Pedro e sob a sua orientao. OConclio no se limitou a recordar este princpio de colegialidade dos Bispos, mas vivificou-oimensamente, alm do mais, auspiciando a instituio de um rgo permanente, que Paulo VIestabeleceu constituindo o Snodo dos Bispos, cuja actividade no somente deu uma novadimenso ao seu Pontificado, mas, em seguida, se reflectiu claramente logo desde os primeirosdias no Pontificado de Joo Paulo I e no do seu indigno Sucessor.

    O princpio de colegialidade demonstrou-se particularmente actual no difcil perodo ps-conciliar,quando a comum e unnime posio do Colgio dos Bispos o qual manifestou a sua unio aoSucessor de Pedro sobretudo atravs do Snodo contribua para dissipar as dvidas e indicavaao mesmo tempo as justas vias da renovao da Igreja, na sua dimenso universal. Do Snodo,efectivamente, se originou, entre outras coisas, aquele impulso essencial para a evangelizaoque teve a sua expresso na Exortao Apostlica Evangelii nuntiandi, [17] acolhida com tantaalegria como programa da renovao de carcter apostlico e conjuntamente pastoral. A mesmalinha foi seguida tambm nos trabalhos da ltima sesso ordinria do Snodo dos Bispos, aquelaque se realizou cerca de um ano antes da morte do Sumo Pontfice Paulo VI, a qual foi dedicada,como sabido, Catequese. Os resultados daqueles trabalhos requerem ainda umasistematizao e uma enunciao por parte da S Apostlica.

    E uma vez que estamos a tratar do manifesto desenvolvimento das formas em que se exprime aColegialidade episcopal, devemos pelo menos recordar o processo de consolidao dasConferncias Episcopais Nacionais em toda a Igreja e de outras estruturas colegiais de carcterinternacional ou continental. Referindo-nos, depois, tradio secular da Igreja, convm salientar

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    http://w2.vatican.va/content/paul-vi/pt/apost_exhortations/documents/hf_p-vi_exh_19751208_evangelii-nuntiandi.html

  • a actividade dos diversos Snodos locais. Foi de facto ideia do Conclio, coerentemente actuadapor Paulo VI, que as estruturas deste gnero, de h sculos comprovadas pela Igreja, bem comoas outras formas de colaborao colegial dos Bispos por exemplo a que se centra nasmetrpoles, para no falar j de cada uma das dioceses singularmente tomadas pulsassem emplena conscincia da prpria identidade e conjuntamente da prpria originalidade, na unidadeuniversal da Igreja.

    Um idntico esprito de colaborao e de corresponsabilidade se est a difundir tambm entre ossacerdotes, o que confirmado pelos numerosos Conselhos Presbiterais que surgiram aps oConclio. O mesmo esprito se difundiu tambm entre os leigos, no apenas confirmando asorganizaes de apostolado laical j existentes, mas criando outras novas, que no raro seapresentam com um perfil diverso e uma dinmica excepcional. Alm disto, os leigos, conscientesda sua responsabilidade pela Igreja, aplicaram-se de boa vontade na colaborao com osPastores e com os representantes d...

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