A TRADIO WERTHEANA DAS DORES DE AMOR ROMNTICAS ?· fraquezas humanas. E qual é a maior dessas fraquezas,…

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  • www.interletras.com.br v. 2, n. 4 jan./jun. 2006

    A TRADIO WERTHEANA DAS DORES DE AMOR ROMNTICAS Rosana Cristina Zanelatto Santos*

    RESUMO: Este ensaio tem por objetivo pensar trs chaves interpretativas caras aos estudos romnticos Natureza, Amor e Morte considerando uma percepo metodolgica na qual se associam as anlises filosfica e literria.

    ABSTRACT: The aim of this essay is the reflection about three propositions of romantical studies Nature, Love, and Death based on a methodologic orientation of work which associates the filosifical and the same time the literary analysis. PALAVRAS-CHAVE: Romantismo; Literatura Comparada; Anlise Literria.

    KEYWORDS: Romantism; Comparative Literature; Literary Analysis. Um dos apelos romnticos mais eloqentes diz respeito procura da Natureza no mais como o locus amoenus rcade, porm como o lugar onde o poeta expande seus estados dalma, numa relao que parte de dentro para fora. Lembremo-nos de que, no Arcadismo, havia um movimento que partia do exterior para o interior: a Natureza buclica, carregada de uma paz quase infinita, tomava conta do ser do poeta e espraiava-se pelos textos.

    Outro desses apelos romnticos, e talvez o mais forte deles, a idealizao do Amor, num movimento paradoxal: ora de exacerbada exaltao, ora da mais (pro) funda lamentao. No entanto, h um agente a unir esse aparente paradoxo: o ser que provoca ambos os estados, a mulher, ora alvo de uma contemplao mstica, ora objeto do qual emana uma sensualidade diablica.

    O desequilbrio na postura do romntico, que ama a exuberncia da natureza, a criatividade do gnio, mas se entrega de caso pensado morte, [s agruras e aos

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    arroubos do amor], que se fecha egoisticamente em si e que ao mesmo tempo se entusiasma como a Ptria, com o destino de seu povo, que infantil em seu impulso sentimental e que valoriza tambm os mpetos varonis, evidencia que se deixa guiar pelas razes do corao (GOMES, 1992, p. 23).

    Por mais que tentemos demarcar as fronteiras do Romantismo sua maleabilidade (cf. VOLOBUEF, 1999, p. 15), sua capacidade de adaptao, permitiu-lhe que se adequasse s cores locais, isto , s condies e circunstncias estticas, histricas e culturais dos lugares onde se manifestou. Numa analogia (um tanto rasteira), poderamos dizer que em face da literatura/ da arte romntica estar historicamente identificada com a burguesia e com posturas caras a esta classe, como liberdade, igualdade e capacidade do homem se fazer a si mesmo (uma traduo capenga do self made man), seus padres estticos so relativos, baseados fundamentalmente em aes individuais, ao contrrio, por exemplo, dos padres clssicos, intrinsecamente ligados aristocracia e a uma certa imutabilidade dos estamentos sociais, portanto, com posturas absolutas.i

    Voltemos, pois, aos dois apelos romnticos inicialmente referidos: a procura da Natureza e a idealizao do Amor. A Natureza ganha vida, novas cores, numa extenso do ser potico / romntico e de seus estados dalma. Vejamos a descrio natural da brasileira Iracema:

    Alm, muito alm, daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lbios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da grana e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati no era doce como seu sorriso nem baunilha rescendia no bosque como seu hlito perfumado. Mais rpida que a ema selvagem, a morena virgem corria o serto e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nao tabajara. O p grcil e nu, mal roando, alisava apenas a verde pelcia que vestia a terra com as primeiras guas (ALENCAR, 1997, p. 20-21).

    No romance de Alencar, os elementos que identificam a ndia Iracema recebem, comparativamente, as cores locais, sem esconder, porm, uma chave medievalizante retomada pelo Romantismo, qual seja: a configurao possvel da mulher como virgem vestal e que ao dar as boas-vindas ao estrangeiro (no caso de Iracema, o portugus Martim), ao se abrir (e por abrir-se, entenda-se tambm a entrega amorosa / sexual) para o estranho, sela um destino, a um s tempo, marcado pela conciliao e pela destruio: Bem-vindo seja o

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    estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e cabana de Araqum, pai de Iracema (ALENCAR, 1997, p. 21). A identificao entre Iracema e a Natureza circundante, ambas virgens e dceis, como a esperar que algum as domine, flagrante.

    Desse modo, a contemplao do espetculo da Natureza no s forma de se educar o gnio [...] e de captar a poesia espontnea [...], mas tambm o meio de o homem integrar-se na suprema potncia, que o eterno Criador e sentir dentro de si a bem aventurana (GOMES, 1992, p. 42).

    Martim partilhar essa bem-aventurana ao possuir Iracema e ganhar a confiana dos tabajaras. O que em aparncia seria a conciliao de ndios e europeus, redundando mesmo no nascimento do sujeito fruto dessa unio tnica, ou seja, Moacir, filho de Iracema e de Martim, transforma-se em destruio: a dizimao dos tabajaras, o abandono do ndio pelo europeu depois do desbravamento / do desvirginamento e a morte da bela silvcola, como uma espcie de redeno de seus pecados. O espetculo da destruio toma de assalto todas as estruturas narrativas e o que se v o ocaso, contemplado no seio morto de Iracema.

    Passemos exaltao do Amor. Nos textos romnticos os acontecimentos parecem existir e subsistir como mero pretexto para mostrar as paixes que emanam do corao, revelando aquilo que se oculta clandestinamente no interior do ser humano. Desvendam tambm as facetas do bem e do mal que h em cada homem. Ao pretender penetrar na alma humana, o romntico quer desnudar o ser e expor o que ele esconde no seu ntimo. Segundo Madame de Stel,

    Observar o corao humano mostrar a cada passo a influncia da moral sobre o destino: h um nico segredo na vida, que o bem ou o mal que se faz; este segredo esconde-se sob mil formas enganadoras: algum sofre por um longo perodo sem merecer, ou prospera durante muito tempo por meios condenveis, mas de repente a sorte decide-se, a palavra-chave do seu enigma revela-se, essa palavra que a conscincia j tinha pronunciado muito antes de o destino a ter repetido (apud GOMES, 1992, p. 64).

    Parece bvio que subjaz aos textos romnticos uma funo moralizante, capaz de trazer tona as verdades ocultas, sejam elas boas, ou ms. Para tanto, o romntico explora a intimidade e as

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    fraquezas humanas. E qual a maior dessas fraquezas, aquela que abre os flancos ao inimigo? A paixo amorosa. Como no nos lembrarmos, por exemplo, de Amor de Perdio, a narrativa do amor impossvel entre Simo e Teresa (e tambm do amor de Mariana por Simo), um sentimento superior, porm, condenado por preconceitos sociais e familiares, brotado do fundo do corao dos envolvidos e levando os protagonistas ao desvario (e morte)?

    Simo Botelho amava. A est uma palavra nica, explicando o que parecia absurda reforma aos dezessete anos. Amava Simo uma sua vizinha, menina de quinze anos, rica herdeira, regularmente bonita e bem nascida. Da janela do seu quarto que ele a vira a primeira vez, para am-la sempre. No ficara ela inclume da ferida que fizera no corao do vizinho: amou-o tambm, e com mais seriedade que a usual nos seus anos. [...] Na vspera da sua ida para Coimbra, estava Simo Botelho despedindo-se da suspirosa menina, quando subitamente ela foi arrancada da janela. O alucinado moo ouviu gemidos daquela voz que, um momento antes, soluava comovida por lgrimas de saudade. Ferveu-lhe o sangue na cabea; contorceu-se no seu quarto como o tigre contra as grades inflexveis da jaula. Teve tentaes de se matar, na impotncia de socorr-la (CASTELO BRANCO, 1988, p. 26).

    A paixo e a exacerbao marcam todas as relaes humanas descritas pelos romnticos, com nfase nas amorosas. O Amor fora que reina absoluta, maculando de forma indelvel os coraes, mesmo que sejam recm-sados da adolescncia e o de Teresa, parece que nem isso o . Toda espcie de argumentos racionais ou racionalizados no so capazes de demover os impulsos passionais.

    No demais que nos lembremos do prefixo pthos, elemento constitutivo da expresso paixo: -pato- elem. comp., do gr. pthos doena paixo, sentimento, que se documenta em vocs. introduzidos na linguagem cientfica internacional, a partir do sc. XIX (CUNHA, 2000, p. 587).

    O que vulgarmente se chama Amor romntico refere-se, pois, ao pthos, paixo, estado sentimental doentio, cujo imperativo absoluto leva heris e heronas a entregarem-se languidez dos desvarios, s noites de delrios, aos estados mrbidos, o que lhes congestionar a vida e, no mais das vezes, ceifar essa mesma vida, numa receita trgica: o melhor remdio para vida a morte. Eis a alucinada Mariana diante do espetculo do cadver de Simo Botelho sendo atirado ao mar:

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    Mariana estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e parecia estupidamente encarar aqueles empuxes que o marujo dava ao cadver, para segurar a pedra na cintura. Dois homens ergueram o morto ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o balano para o arremessarem longe. E, antes que o baque do cadver se fizesse ouvir na gua, todos viram, e ningum j pde segurar Mariana, que se atirara ao mar. [...] Salv-la!... Viram-na, um momento, bracejar, no para resistir morte, mas para abraar-se ao cadver de Simo, que uma onda lhe atirou aos braos. O comandante olhou para o stio donde Mariana se atirara, e viu, enleado no cordame, o avental, e flor da gua, um rolo de papis que os marujos recolheram na lancha. Eram, como sabem, a correspondncia de Simo e Teresa (CASTELO BRANCO, 1988, p. 118).

    Os leitores ho de pensar: mas nisso tudo, onde entra o Werther? A publicao, em 1774, de Os sofrimentos do jovem Werther, romance epistolar de Johann Wolfgang Goethe, contribuiu decisivamente para a divulgao do que ficou conhecido como o mal do sculo, o Weltschmerz, misto de melancolia e de pessimismo, de exacerbao amorosa e de expanso incondicional dos estados de esprito para a Natureza, e de entusiasmo pela morte, posturas que marcaram os escritos romnticos.

    Falemos um pouco sobre o autor do Werther. Goethe nasceu em Frankfurt no ano de 1749 e faleceu em 1832. No Brasil, Goethe includo entre os autores romnticos alemes. Na Alemanha, no entanto, sua obra dividida, didaticamente, nas seguintes fases: os versos da adolescncia; as obras pr-romnticas (entre elas, o Werther), permeadas pelos preceitos do movimento Sturm und Drang; a fase da maturidade, de cunho iluminista (como o Urfaust); e as produes que o aproximam de um Romantismo j afrancesado (o Faust).ii

    Werther foi composto de fevereiro a abril de 1774 e publicado no mesmo ano. A edio que atualmente circula pelo mundo aquela publicada em 1787, revista e escolhida pelo prprio Goethe para compor suas obras completas. Quanto descoberta e ao entusiasmo dos romnticos pelo Werther, isto s se deu na dcada de 1830.

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    O enredo do Werther relativamente simples: Werther, o protagonista da histria, escreve cartas a seu amigo Wilhelm, narrando os sentimentos, as sensaes e as impresses que tm sobre a vida que leva. Ao conhecer Lotte / Carlotaiii e por ela se apaixonar, tudo no jovem se exacerba, passando condio de infeliz enamorado que inicialmente se afasta da bem-amada, para depois reencontr-la, desta feita casada, o que o leva a um desenlace trgico.

    Partamos do nome do jovem apaixonado, Werther. Em alemo o adjetivo wert significa digno, merecedor, prezado, estimado; h tambm o substantivo masculino Wert, que significa mrito, valor.iv Quanto expresso werter, refere-se ao superlativo, ou seja, o mais estimado, o mais prezado. Werther ter essa condio junto a Carlota, mas tambm ser ele prprio o mais: apaixonado, enlouquecido, miservel, tudo graas sua paixo. Atentemos, pois, que o exagero romntico j se faz presente no prenome do protagonista, Werther, o mais importante na sua relao com o mundo que o cerca.

    Duas tendncias antagnicas movero Werther: a necessidade / a busca de evaso do mundo dos homens junto Natureza, para uma pretensa fuso com o infinito; e a busca do apaziguamento nos braos de uma mulher aparentemente simples e prtica, diferente dele prprio.v

    Werther o moo estudado, de origem burguesa, que vai ao interior da Alemanha como uma espcie de assessor de um embaixador, e que conhece a jovem Carlota, filha do bailio (antigo magistrado provincial alemo) da pequena cidade onde se estabelece. Aps a morte da me, Carlota torna-se a responsvel pelos cuidados da casa, do velho pai e dos irmos menores. Ela inicialmente assim descrita: [...] uma jovem de estatura mdia, que trajava um vestido branco simples, adornado de fitas cor-de-rosa nas mangas e no corpete (GOETHE, 2000, p. 25). Mais adiante, porm, Werther esboar impresses sobre a jovem, frutos da contundncia de sua percepo e do enleio criado pelo cenrio natural:

    Durante a conversa, como me encantavam os seus olhos negros! Como sentia toda a minha alma atrada por aqueles lbios cheios de vida, aquelas faces viosas e vivazes! Tu [Wilhelm], que me conheces, bem podes imaginar como eu, absorto no sentido do que ela dizia, muitas vezes nem ouvia as palavras com que se expressava! [...] Estava to imerso em sonhos, em meio ao crepsculo que tudo envolvia, que

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    mal prestei ateno aos sons da msica, provenientes do salo iluminado (GOETHE, 2000, p. 28).

    Contudo, o que poderia ser o incio de um grande e bem sucedido amor, tem um obstculo: o noivo de Carlota, Alberto. Configura-se, ento, uma espcie de tringulo amoroso: Carlota (o vrtice, que ora pende para Werther, por seu amor ao belo, ao mundo subjetivo, ora por Alberto, por razes de ordem prtica), Werther (o mais sonhador, o mais apaixonado dos homens, inapto para o convvio com o mundo prtico) e Alberto (ativo, consciente de suas obrigaes para com o mundo objetivo).

    O convvio de Werther com o universo de Carlota e com o ambiente provinciano ser narrado por meio de cartas ao amigo Wilhelm, como j observamos. Mas por que a eleio da forma epistolar para extravasar os sofrimentos do jovem Werther? A carta, como gnero do discurso, presta-se tanto ao romance, novela, quanto s formas do lrico, no havendo melindres aparentes na intercalao da primeira e da terceira pessoas: Werther expe tanto suas impresses e sensaes com relao a Carlota, como descreve cenas nas quais a jovem aparece no contacto familiar,no cotidiano com o pai e irmos. A epstola tambm propicia o mesclar dos tempos passado, presente e futuro pois no importa o afastamento temporal. Nas cartas de Werther o que conta o afastamento geogrfico, uma vez que Wilhelm est distante. Essa distncia cria a tenso necessria para que no decorrer da narrativa, o destinatrio torne-se uma espcie de confessor a quem o missivista tenta prever as reaes diante do narrado e que pode, ao mesmo tempo, desculpar os possveis...

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