Afinal, trabalhar para quê?

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Afinal, trabalhar para quê? - Um sentido a vida através da atividade profissional [por Ed René Kivitz

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  • O ser humano est preocupado de forma ltima com seu ser e sentido [...] O ser humano est incondicionalmente preocupado por aquilo que condiciona seu ser para alm de todos os condicionamentos que existem nele e ao redor dele. O ser humano est preocupado de forma ltima por aquilo que determina seu destino ltimo para alm de todas as necessidades e acidentes preliminares.

    H um lugar em que o incondicional est presente no mundo finito: nas profundezas da alma humana. Essas profundezas so o lugar onde o finito se toca com o infinito. A fim de l chegar, o homem precisa despojar-se de todos os contedos finitos. Ele precisa renunciar todas as preocupaes provisrias em prol da preocupao ltima.

    Deus a resposta pergunta implcita na finitude do homem. Ele o nome que damos quilo que nos preocupa de forma ltima, pois tudo aquilo que preocupa o ser humano de forma ltima se torna deus para ele e, inversamente, um ser humano s pode estar preocupado de forma ltima por aquilo que, para ele, deus.

    [Paul Tillich]

  • 5ESPIRITUALIDADE NO MUNDO DO TRABALHO

    A dimenso sagrada do trabalho e das corporaes ganhou a conscincia de pessoas no mundo inteiro. Centenas de artigos e livros que tratam da espiritualidade no mundo corporativo ocupam as mentes dos especialistas em business. J no so raras as empresas que buscam no mercado consultores mais parecidos com gurus para a alma do que com administradores, gestores e empreendedores bem sucedidos.

    Um dos maiores, seno o maior, best seller voltado para gesto e trabalho em equipe um texto escrito por James Hunter, um pastor batista do interior dos Estados Unidos, que ganhou notoriedade no Brasil ao popularizar o modelo de liderana de Jesus, o conceito de lder servo, em seu livro O monge e o executivo.

    O termo espiritualidade amplamente utilizado, mas seu sentido ainda difuso para a maioria das pessoas. Como disseram Laura Nash e Scotty McLennan, buscas espirituais parecem estar em toda parte, mas no existem duas pessoas com a mesma definio de espiritualidade.1 Quem melhor me ajudou a entender o que se entende por espiritualidade e como ela se manifesta na experincia humana foi o telogo alemo Paul Tillich (1886 1965).

    Formado em teologia e filosofia, Tillich figura entre os mais destacados intelectuais do idealismo alemo do sculo XX. Em razo de sua posio anti-nazista, foi destitudo de sua ctedra em Frankfurt, em 1933, e se transferiu para os Estados Unidos, onde passou a lecionar e proferir palestras em universidades, como Columbia, Harvard e Chicago. Seu compromisso com o socialismo e o ecumenismo o levou a

    1- Laura NASH e Scotty McLENNAN. Igreja aos domingos, trabalho s segundas. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2003.

  • 6dialogar com lideranas polticas, acadmicas e religiosas de grande proeminncia. considerado um telogo da cultura, pois atravs do mtodo da correlao, essencial e indispensvel eixo no seu pensamento, Tillich faz a teologia dialogar com as outras formas de saber, especialmente a filosofia.

    O elemento fundamental da reflexo de Tillich a respeito de religio e, especialmente, espiritualidade a preocupao ltima [do ser humano] com o fundamento e sentido do ser.2 Seguindo a trilha de outros tericos conceituados como Rudolf Otto, Mircea Eliade e Friedrich Schleiermacher, Tillich estabelece relaes entre as vivncias fundantes da experincia de sentido da/na existncia. Quando o ser humano vivencia uma manifestao do sagrado (Otto), chamada de hierofania (Eliade), imediatamente inundado de um sentimento de dependncia incondicional (Scheleirmacher) ou estado de sentimento de criatura (Otto), acompanhado de um sentimento de terror mstico e fascnio, pois se percebe diante do mysterium tremendum (Otto). Esse fenmeno, que mistura o sagrado com a sensao de finitude e assombro diante de algo desconhecido e extraordinrio, at mesmo amedrontador, mas tambm absolutamente desejvel, insere o ser humano na esfera do divino a dimenso da sua preocupao ltima.

    O sagrado a qualidade daquilo que preocupa o ser humano de forma ltima, diz Tillich. Somente aquilo que sagrado pode dar ao ser humano uma preocupao ltima, e somente aquilo que confere ao ser humano uma preocupao ltima possui qualidade de santidade (sacralidade).

    A manifestao e a experincia do sagrado, portanto, colocam o ser humano diante de sua preocupao ltima. Mas, qual o contedo de nossa preocupao ltima? O que de fato nos preocupa incondicionalmente? Tillich responde que nossa preocupao ltima aquilo que determina nosso ser ou no ser (...) nada que no tenha o poder de ameaar e salvar nosso ser pode ser para ns preocupao ltima. O termo ser, neste contexto, no designa existncia no tempo e no espao. A existncia continuamente ameaada e salva por coisas e eventos que no so de preocupao ltima para ns. O termo ser significa a totalidade da realidade humana, a estrutura, o sentido e a finalidade da existncia. Tudo isso est ameaado e pode ser perdido ou salvo. O ser humano est preocupado de forma ltima com seu ser e sentido. Ser ou no ser, neste caso, uma preocupao ltima, incondicional, total e infinita. O ser humano est infinitamente preocupado pelo infinito ao qual pertence, do qual est separado e pelo qual anseia. O ser humano est preocupado pela totalidade que seu verdadeiro ser e que est rompida no tempo e no espao. O ser humano est incondicionalmente preocupado por aquilo que condiciona seu ser para alm de todos os condicionamentos que existem nele e ao redor dele. O ser humano est preocupado de forma

    2- Ibid., p. 57.

  • 7ltima por aquilo que determina seu destino ltimo para alm de todas as necessidades e acidentes preliminares.3

    Para Tillich, Deus a resposta pergunta implcita na finitude do homem. Ele o nome que damos quilo que nos preocupa de forma ltima,4 pois tudo aquilo que preocupa o ser humano de forma ltima se torna deus para ele e, inversamente, um ser humano s pode estar preocupado de forma ltima por aquilo que, para ele, deus.5 Toda vez, portanto, que o ser humano est diante da possibilidade da perda do seu ser e sentido, est diante do que o preocupa de forma ltima e, exatamente por isso, est diante do sagrado, do infinito, confrontado pelas limitaes do tempo e do espao, sendo precisamente nesse limiar que se manifesta sua dimenso espiritual. Expresses como ser e sentido, infinito ao qual pertence, do qual est separado e pelo qual anseia, totalidade que seu verdadeiro ser e que est rompida no tempo e no espao e destino ltimo extrapolam o domnio da religio institucionalizada e fincam seus ps no ambiente da secularidade, pois mesmo o ser humano despido de sentimento religioso vive a angstia de sua finitude, isto , vive o que prprio da espiritualidade.

    Ao indagar pelo sentido do ser, observa Tillich, a teologia busca o fundamento supremo, o poder, a norma e o alvo do ser [...] Indaga tambm pelo poder ameaador e promissor, pela norma exigente e julgadora, e pelo rejeitador e, ao mesmo tempo, realizador da minha existncia. Em outras palavras: ao indagar pelo sentido do ser, a teologia [e o ser humano] busca Deus.6

    nessa dimenso de pergunta a respeito do ser e todas as tenses nela embutidas que se manifesta a espiritualidade humana, pois o esprito a dimenso da vida que une o poder de ser ao sentido de ser.7 O esprito a dimenso da vida que se manifesta na busca da superao do limite da finitude humana e encontro com o que no pode ser encontrado: o incondicional.8 Os msticos afirmam que h um lugar em que o incondicional est presente no mundo finito: nas profundezas da alma humana. Essas profundezas so o lugar onde o finito se toca com o infinito. A fim de l chegar, o homem precisa despojar-se de todos os contedos finitos. Ele precisa renunciar todas as preocupaes provisrias em prol da preocupao ltima.9 A espiritualidade, portanto, se manifesta nesse encontro entre o finito e o infinito nas profundezas do ser humano.

    A pergunta pelo sentido da existncia e pelo sentido humano de existir uma pergunta espiritual. Isso distingue o ser humano dos bichos e das coisas. E isso o que revela que o ser humano um ser espiritual, o que exige a ateno s realidades da espiritualidade.

    3- Paul TILLICH, Teologia sistemtica, p. 31

    4- Ibid., p. 219.

    5- Ibid,. p. 219.

    6- Ibid., p. 115.

    7- Paul TILLICH, Teologia Sistemtica, p. 567.

    8- Paul TILLICH, Dinmica da f, p. 40.

    9- Ibid., p. 43.

  • 8A CORAGEM DE SER

    A preocupao suprema do ser humano encontra-se no limiar entre o ser e o no-ser, isto , na possibilidade da perda do sentido humano de ser e existir. Tillich considera que somente Deus pode ser a resposta para essa preocupao suprema. Primeiro, porque somente Deus, o Ser em Si, atende a essa necessidade de realizar e afirmar o ser diante do no-ser. Em segundo lugar, porque na vivncia humana tudo quanto atende a essa necessidade passa a ser encarado como um deus. Qualquer outro objeto de resposta preocupao suprema que no seja infinito, incondicional, implica idolatria, isto , a elevao de uma preocupao preliminar (secundria) ultimidade. Algo essencialmente condicionado considerado como incondicional, algo essencialmente parcial elevado universalidade, e algo essencialmente finito revestido de significado infinito.10

    Na busca de afirmao do ser, isto , escapar do no-ser, enquanto luta para no perder o sentido humano de ser, o ser humano pergunta-se no apenas o que o ser?, como tambm indaga-se a respeito do vir a ser: como realizar nosso ser em nossa situao concreta? Essa a questo ontolgica posta em termos existenciais, esse o tema da predileo de Paul Tillich, conforme observa-se em sua afirmao: o fato de q