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Artigo Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes, Cultura e Linguagens Instituto de Artes e Design :: UFJF 128 Artigo Histórias do design: narrativas patrimoniais no MUDE 1 Rafaela Norogrando 2 Resumo Este artigo apresenta o MUDE – Museu do Design e da Moda. Para a pesquisa, utilizou-se de metodologia etnográfica, entrevistas, análise qualitativa e referenciais bibliográficos. Como resultado, coloca-se em destaque a formação de sua coleção, a sua missão, a sua proposta de exposição permanente − na qual conjuga o design de produto ao design de moda − e algumas ações temporárias. Por esse contexto, propõe-se uma reflexão quanto à mediação expositiva do design de moda e à relevância da instituição museológica como plataforma de comunicação para além de narrativas históricas. Palavras-chave: Exposições museológicas. Cultura material. Comunicação. Construção cultural. Design history: patrimonial narratives at MUDE Abstract This paper presents the MUDE − Museum of Design and Fashion. Its a qualitative research by an ethnographic methodology, interviews, qualitative analysis and bibliographic references. As a result it puts emphasis on origin of the museum collection, the mission, and the proposal for a permanent exhibition - in which combines product design to fashion design − and some temporary exhibitions. For this context we propose a reflection about the expository mediation of fashion design and the relevance of the museum as a communication platform beyond historical narratives. Keywords: Museum exhibitions. Material culture. Communication. Cultural construction. 1 Este trabalho é parte da tese de doutorado em Design da autora, a qual foi realizada com a orientação de João A. Mota e Nuno Porto, pela Universidade de Aveiro, Portugal. Recebeu o apoio do ID+ Instituto de Investigação em Design, Media e Cultura, da Fundação para Ciência e Tecnologia (FTC), do Fundo Social Europeu e do Programa Operacional Potencial Humano (POPH). O MUDE é um dos quatro estudos de caso centrais abordados na pesquisa sobre museus de moda e sobre as narrativas feitas dos objetos da cultura material indumentária e as conexões acerca do universo em que esses objetos estão inseridos. 2 Doutora em Design pela Universidade de Aveiro. Docente na Universidade da Beira Interior (UBI) e Instituto Politécnico de Viseu (IPV) e pesquisadora associada do ID+ Instituto de Investigação em Design, Media e Cultura.

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    Histrias do design: narrativas

    patrimoniais no MUDE1

    Rafaela Norogrando2

    Resumo

    Este artigo apresenta o MUDE Museu do Design e da Moda. Para a

    pesquisa, utilizou-se de metodologia etnogrfica, entrevistas, anlise qualitativa

    e referenciais bibliogrficos. Como resultado, coloca-se em destaque a formao

    de sua coleo, a sua misso, a sua proposta de exposio permanente na qual

    conjuga o design de produto ao design de moda e algumas aes temporrias.

    Por esse contexto, prope-se uma reflexo quanto mediao expositiva do design

    de moda e relevncia da instituio museolgica como plataforma de comunicao

    para alm de narrativas histricas.

    Palavras-chave: Exposies museolgicas. Cultura material. Comunicao. Construo cultural.

    Design history: patrimonial narratives at MUDE

    Abstract

    This paper presents the MUDE Museum of Design and Fashion. Its a

    qualitative research by an ethnographic methodology, interviews, qualitative analysis

    and bibliographic references. As a result it puts emphasis on origin of the museum

    collection, the mission, and the proposal for a permanent exhibition - in which

    combines product design to fashion design and some temporary exhibitions.

    For this context we propose a reflection about the expository mediation of fashion

    design and the relevance of the museum as a communication platform beyond

    historical narratives.

    Keywords: Museum exhibitions. Material culture. Communication. Cultural construction.

    1

    Este trabalho parte da tese

    de doutorado em Design da autora,

    a qual foi realizada com a orientao

    de Joo A. Mota e Nuno Porto, pela

    Universidade de Aveiro, Portugal.

    Recebeu o apoio do ID+ Instituto

    de Investigao em Design, Media

    e Cultura, da Fundao para Cincia

    e Tecnologia (FTC), do Fundo Social

    Europeu e do Programa Operacional

    Potencial Humano (POPH).

    O MUDE um dos quatro

    estudos de caso centrais abordados

    na pesquisa sobre museus de moda e

    sobre as narrativas feitas dos objetos

    da cultura material indumentria e as

    conexes acerca do universo em que

    esses objetos esto inseridos.

    2

    Doutora em Design pela

    Universidade de Aveiro. Docente na

    Universidade da Beira Interior (UBI)

    e Instituto Politcnico de Viseu (IPV)

    e pesquisadora associada do ID+

    Instituto de Investigao em Design,

    Media e Cultura.

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    NIntroduo e Metodologia

    Neste artigo, apresenta-se a instituio portuguesa MUDE Museu

    do Design e da Moda, que foi inaugurada em maio de 2009 e est vinculada

    Cmara Municipal de Lisboa.

    Foram feitas diversas visitas ao museu, sendo que a coleta de

    informaes e verificao de dados ocorreu, principalmente, em julho de

    2010, dezembro de 2011, maro de 2013 e maro e novembro de 2014.

    Na primeira data, realizou-se entrevista com a diretora do museu, Brbara

    Coutinho (Norogrando 2011, Anexo 5) e, em 2013, fez-se, tambm, incurso

    s reservas e entrevista com Anabela Becho, responsvel pela coleo

    de moda do museu. Nas outras visitas, o foco foi exclusivamente para as

    exposies.

    Como metodologia ao espao expositivo, adotou-se um processo

    etnogrfico, primeiramente de maneira intuitiva, com o investigador a ser

    conduzido pela prpria narrativa do espao e, na sequncia, a retomada

    analtica para recolha de material e elaborao de notas de campo. Como

    orientao, seguiram-se as indicaes de Falk e Dierking (1992), Plowman

    (2003), Flick (2005, 2009), Stake (2005) e Clifford (2007). As entrevistas

    seguiram por mtodo semiestruturado (Manzini 2004, Flick 2005) e, por

    uma questo metodolgica, foram feitas depois das visitas aos espaos

    expositivos.

    Tambm foram realizadas pesquisas ao website do museu e

    vinculao por parte desta autora pgina social da instituio no

    Facebook e lista de cadastros para contatos por e-mail. Considera-se que

    a ao do museu no espao web sempre esteve voltada para a rede social,

    porque somente em 2014 (segundo semestre) passou a proporcionar mais

    informaes e registro de suas aes no seu website. Sobre suas colees

    e o acesso a estas, o MUDE atua vinculado plataforma do Europeana

    Fashion3, na qual disponibiliza na web as imagens e informaes de sua

    coleo de moda. Neste artigo, no ser realizada uma explorao analtica

    sobre essas atuaes no universo web, somente so consideradas como

    uma informao geral sobre a instituio.

    3

    Existe a plataforma

    Europeana, que faz a vinculao

    de catlogos de museus europeus

    e proporciona uma investigao

    alargada sobre um determinado

    tema, no limitando a informao

    patrimonial a um ponto geogrfico/

    poltico. O Europeana Fashion

    surgiu com os mesmos objetivos

    prticos. O projeto se iniciou em

    maro de 2012 e contou com a

    participao de 22 parceiros de 12

    pases, como instituies promotoras

    de contedo para a plataforma:

    MoMu (BE), V&A (UK), Royal Museums

    for Arts and History (BE), Nederlands

    Instituut voor Beeld en Geluid (NL),

    Stiftung Preussischer Kulturbesitz

    (DE), Catwalk Pictures (BE),

    Stockholm University (SE), Belgrade

    Museum of Applied Arts (RS), Les

    Arts Dcoratifs (FR), MUDE (PT),

    Peloponnesian Folklore Foundation

    (GR), Emilio Pucci Archive (IT), Pitti

    Immagine (IT), Centraal Museum

    Utrecht (NL), Nordiska Museet (SE),

    Rossimoda Shoe Museum (IT), MT-

    CIPE (ES), Wien Museum (AT) e

    Archivio Missoni (IT). Est prevista

    para o incio de 2015 a verso final da

    plataforma, que promete apresentar

    mais de 700 mil objetos digitalizados,

    desde vestidos histricos, acessrios,

    desenhos, fotografias, catlogos de

    moda, vdeos e o que mais estiver

    relacionado temtica.

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    Museu do Design e da Moda

    O museu est instalado no prdio do antigo Banco Nacional

    Ultramarino4 na capital portuguesa. A escolha desse lugar fez parte de linhas

    de ao para a valorizao e revitalizao da capital, conforme declarou

    o presidente da Cmara Municipal de Lisboa, Antnio Costa (2009).

    Atualmente pode-se considerar que o objetivo da Cmara foi realizado.

    A inaugurao do espao museolgico deu-se antes mesmo da

    concluso de reestruturao arquitetnica ainda inacabada , a incluir, em

    seu contexto e objetos patrimoniais, a prpria arquitetura desconstruda.

    Em outubro de 2011, abriu ao pblico, pela primeira vez, todos os seus

    andares/salas de exposio de maneira ativa, alm de sediar o MUSCON5

    e receber os participantes do CIPED6. Essas atuaes, junto de eventos

    correlacionados s temticas abordadas pela instituio, mostram um

    pouco do posicionamento estratgico e vinculao de parcerias.

    A designao MUDE no formada como sigla, mas como palavra

    de ao, mudar pelo verbo imperativo: mude.

    Coleo Patrimonial

    O MUDE teve sua formao com base em uma coleo privada,

    agrupada por critrios de seleo feitos por Francisco Capelo7. Por esse

    motivo, junto do nome institucional, segue o nome do colecionador:

    Figura 1 :: Logotipo do museu. Desenvolvido por RM/D (Ricardo Mealhada/Design).

    Toda essa coleo, com peas emblemticas dos principais nomes da

    moda internacional e peas icnicas da histria do design de produto dos

    4

    Esse prdio histrico ocupa um

    quarteiro inteiro da Baixa Pombalina

    em Lisboa e foi concebido por trs

    grandes intervenes arquitetnicas,

    a considerar a ampliao de seu

    espao. A mudana do Banco

    Nacional Ultramarino para essa

    regio foi em 1866 e as alteraes

    realizadas na dcada de 1920 foram

    com tecnologia de construo

    pioneira na poca. Quando o museu

    assume o prdio, o seu interior

    estava completamente delapidado,

    havendo poucos vestgios do antigo

    banco - tal como os cofres de

    particulares.

    5

    European Museum Network

    Conference |MUSCON 2011.

    Realizada entre 19 e 22 de outubro

    de 2011.

    6

    6 Congresso Internacional de

    Pesquisa em Design, organizado

    pela ANPENDesign e o Centro

    de Investigao de Arquitetura,

    Urbanismo e Design da Universidade

    Tcnica de Lisboa.

    7

    O colecionador portugus

    Francisco Capelo possui outras

    colees alm das temticas de

    design e moda. Ao que consta

    na mdia, o colecionador negocia

    com instituies portuguesas a

    venda ou depsito de suas obras,

    possibilitando sua conservao e

    destaque.

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    ltimos 50 anos, foi adquirida pela Cmara Municipal de Lisboa, em 2002,

    por 6.666.667,00 euros (Cardoso 2013). Deve-se registrar que a Coleo de

    Design (produto e no a de moda) foi anteriormente vinculada ao Centro

    de Exposies do CCB - Cultural de Belm, quando da abertura do Museu

    do Design, em maio de 1999, sob a direo de Margarida Veiga. Segundo

    o Anurio de Design de 2000, realizado pelo Centro Portugus de Design,

    em um ano da existncia do museu, foram mais de 50000 entradas, o que

    fez deste o museu mais visitado de Lisboa.

    O MUDE dispe de um acervo de mais de 2.500 objetos, sendo mais

    de 1.300 coordenados somente da coleo de moda (Norogrando 2011,

    Anexo 5). Essa coleo era composta, no incio, por 600 coordenados8. Nesse

    sentido, conforme os planos do processo de inventrio (seja por doao,

    aquisio ou depsito), o crescimento da coleo uma consequncia bvia

    e, at 31 de dezembro de 2012, j se somavam mais 589 peas incorporadas

    (Torres 2013) conforme a ltima informao oficial.

    Conforme a diretora do MUDE especificou em entrevista (Norogrando

    2011, Anexo 5), a instituio faz uso de trs critrios norteadores como linha

    de atuao para a aquisio de objetos ou colees, os quais pretendem:

    1. Alargar o perodo de abrangncia da coleo,

    a incluir peas do incio do sculo XX (dcada de 10) e

    algumas do final do sculo XIX, dos primeiros estilistas9.

    2. Apanhar a contemporaneidade pelas grandes

    questes da moda na atualidade. No incide somente

    aos grandes estilistas, mas tambm aos jovens criadores,

    s questes de sustentabilidade (seja somente

    ecolgica, no campo social, ou no alargamento geral do

    conceito), s questes de tcnica e cincia e, por fim, s

    questes do mundo global e novas filosofias do sistema

    de moda.

    3. Privilegiar o design feito em portugus. Ou

    seja, o design feito por pases que esto em ligao

    culturalmente, a ter como referncia a lngua.

    O componente autoral muito importante e evidente na coleo

    patrimonial do MUDE, tanto que a catalogao interna e a consequente

    8

    Quando a diretora menciona

    coordenados da coleo de moda,

    est a considerar alguns objetos

    agrupados e no individualmente.

    Por exemplo, um biquni um

    coordenado de duas peas, o que

    tambm ocorre com outros objetos;

    cada parte pode ser considerada

    individualmente, mas foram

    concebidas para estarem juntas.

    9

    Primeiros estilistas foi o termo

    utilizado por Brbara Coutinho. No

    Brasil, conforme o perodo histrico

    em questo, muito provavelmente

    seria empregado o termo

    costureiros. Essas terminologias

    podem ser exaustivamente discutidas

    por enfoque histrico contextual e

    lingustico, principalmente quando

    so percebidas alteraes no

    entendimento e emprego de termos

    que designam o profissional de

    moda que est ligado ao processo

    de criao do produto. Por exemplo,

    ao consultar o texto (em ingls) de

    Constantino (1977), nota-se que

    a autora define Charles Frederick

    Worth como o primeiro designer

    de moda; dessa maneira, para o

    mesmo profissional, j so trs

    termos empregados para classificar

    sua atuao: estilista, costureiro e

    designer.

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    disposio das peas em reserva so feitas por essa relao conforme

    esclareceu Becho sobre a coleo de moda (Norogrando 2013). Em outros

    casos museolgicos, o mais comum, para a organizao do acervo, uma

    relao cronolgica ou por tipologia.

    Tambm pode ser considerado, temtica da moda, o acervo

    documental do museu com um vasto conjunto de fotografias, desenhos,

    bibliografia, convites das passagens de modelos que Capelo assistiu e

    colecionou, e ainda, as doaes do antigo ICEP e o depsito do acervo

    documental do Centro Portugus de Design (Torres, 2013). Para alm disso,

    h um conjunto de livros especializados que vo sendo adquiridos pelo

    museu para seu trabalho de pesquisa e que depois formaro sua biblioteca

    de acesso ao pblico. Atualmente, conforme comentou Anabela Becho,

    essa possibilidade s dada a investigadores que comprovem seu interesse

    e necessidade.

    Misso | Posicionamento estratgico

    O MUDE no se fecha sobre o design de produto

    e moda. Equaciona o conceito de design nas suas

    vrias expresses durante o sculo XX, entendendo

    a sua evoluo como uma realidade inserida num

    contexto histrico e acompanha a contemporaneidade,

    mostrando as novas tendncias e caminhos do design

    do sc. XXI. Pretende ser um espao para o debate

    entre a criao experimental e a produo industrial, a

    discusso sobre a relao design/arte/artesanato ou a

    reflexo sobre os desafios urbanos, scio-econmicos,

    ambientais e tecnolgicos da actualidade. Um lugar

    onde se sublinha a transversalidade da criao

    contempornea, e para o qual se convidam as outras

    expresses artsticas e reas do pensamento a dialogar

    com o design (Disponvel em http://www.mude.pt,

    acesso em: 28/03/2012 e 18/04/2014. Grifo do museu).

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    Na segunda metade de 2014, a declarao da misso institucional

    deixa de ser apresentada de maneira objetiva e somente ao meio de um

    texto possvel recolher os pontos chaves do posicionamento estratgico.

    Esses so mais enfticos, pois se pautam nos processos de consolidao da

    instituio desde sua inaugurao:

    [...] o MUDE hoje um museu dedicado a todas as

    expresses do design, com reas de exposio, criao,

    convvio, educao e debate.

    [] Um museu que gera uma rede de sinergias com

    escolas e universidades, empresas, museus, instituies

    culturais e criativos. Multigeracional e transversal. Um

    lugar onde as outras expresses artsticas e reas do

    pensamento encontram espao para dialogar com

    o design e um espao para o debate sobre a criao

    experimental e a produo industrial, a relao

    design/arte/artesanato ou os desafios urbanos,

    socioeconmicos, ambientais e tecnolgicos da

    atualidade.

    [] uma das suas misses contribuir para a formao

    de utilizadores mais informados, conscientes, crticos

    e criativos de modo a provocar a mudana de atitude

    perante a cultura material e a prpria vida (Disponvel

    em http://www.mude.pt, acesso em: 10/011/2014).

    Alm disso, o museu declara dirigir-se a um pblico alargado, o

    qual definia da seguinte maneira: turistas, pblico jovem, professores e

    educadores, famlias, pblicos com necessidades educativas especiais,

    pblicos especializados e comunidade cibernauta. Atualmente resumiu isso

    ao declarar-se inclusivo e de todos (Disponvel em http://www.mude.pt,

    acesso em: 10/11/2014). Parte dessa perspectiva est relacionada prpria

    localizao do museu, ao crescente interesse pelo Design e singularidade

    da coleo/posicionamento, o que tambm direciona naturalmente a

    pblico da rea de design, arquitetura e artes.

    Em 2010, recebeu prmio de distino em Inovao e Qualidade pela

    APOM Associao Portuguesa de Museologia (A.M.R. 2010) e, em 2011, na

    categoria de Arte & Cultura pela Revista Marketeer (Marketeer-online 2011).

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    Pelas declaraes institucionais ou mesmo entrevistas com a diretora

    (Norogrando 2011, Anexo 5; Torres 2013), percebe-se a preocupao

    com o trabalho educativo oferecido pelo museu, e isso no somente por

    atividades, mas pela inteno e realizao de parcerias com instituies de

    ensino superior e voltadas temtica do museu. Isso no deixa de ser reflexo

    do background de sua diretora que, entre 1998 e 2006, foi coordenadora

    do Servio Educativo da Fundao Centro Cultural de Belm (CCB) como

    tambm coordenadora e programadora de alguns dos cursos de formao

    oferecidos por essa instituio. Tambm pode-se dizer que, com uma certa

    frequncia, o museu promove discusses sobre reas de sua temtica a

    trazer profissionais com diferentes atuaes para debates, palestras e outras

    dinmicas de encontros intelectuais. Outra forte ao tem sido a parceria

    com empresas (Torres 2013) do mercado portugus e empresas internacionais

    que tenham relao com o design em suas aes estratgicas ou tticas, tal

    como a IKEA10 ou a Renova11, somente para citar algumas. E ainda, como

    melhor defende Antnio Costa, o museu forma-se como plataforma de

    articulao entre as indstrias e as universidades (Freitas 2013).

    O MUDE uma instituio muito recente e, por esse motivo, boa

    parte de suas atividades esto a ser implementadas. Conforme se pode

    averiguar com os profissionais do museu, ainda h muitos projetos que no

    tiveram a oportunidade de seguir em frente, seja por questes estruturais

    arquitetnicas, consolidao de parcerias, ou mesmo pela necessidade de

    traar prioridades equipe.

    Espao expositivo

    Com um espao expositivo inacabado, ou pouco adaptado s

    novas funes museolgicas, o museu encara o desafio de mudar mais

    rapidamente os artefatos em apresentao de 3 a 4 meses (txteis) para

    que seja possvel sua preservao, pois tambm preferiu no adotar vitrines

    ou uma luminosidade recomendada, conforme padres reconhecidos

    internacionalmente pelos profissionais e instituies da rea12.

    10

    Empresa fundada em 1943, na

    Sua, atualmente a maior rede

    de lojas de mobilirio do mundo

    formada por um grupo multinacional

    de empresas que projeta e vende

    mveis (pr-montados), aparelhos e

    acessrios para casa. IKEA: .

    11

    Renova o nome da marca

    mais conhecida (nacional e

    internacionalmente) da empresa

    portuguesa produtora de bens de

    consumo de papel (como tecidos e

    papel higinico): Renova - Fbrica

    de Papel do Almonda, SA. Seus

    produtos so vendidos e anunciados

    em pases como Japo, Frana,

    Reino Unido, Estados Unidos,

    Blgica e Espanha. O seu grande

    diferencial pontua-se na mudana

    estratgica por valorizao simblica

    de seu produto. Ver site da RENOVA:

    .

    12

    H regras para o armazenamento

    de objetos patrimoniais, bem como

    para a sua exposio. Essas normas

    so traadas para que seja possvel

    uma salvaguarda dos objetos,

    conforme a sua natureza. No caso de

    trajes, sendo feitos de txtil, um dos

    materiais mais frgeis, orientado

    um cuidado com a luminosidade,

    com a umidade do ar, entre outras

    coisas. O uso de vitrines permite

    um maior controle desse ambiente

    interno para a exposio e uma baixa

    luminosidade exerce um desgaste

    menor s cores e fibras txteis.

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    com esse esprito de urgncia e convergncia de conceitos

    (design, moda, arquitetura, comunicao) que o museu inicia seu processo

    de instalao, consolidao e planos diversificados para a implementao

    de exposies e outras atividades culturais. Ao pblico especializado

    tem proporcionado diversos eventos e, at o final de 2012, realizou 23

    exposies temporrias e conseguiu atrair ao seu ambiente expositivo cerca

    de 849 mil visitantes, uma mdia de 850 visitantes por dia nos seus primeiros

    quatro anos (Torres 2013). Ao fim de 2014, somam-se mais 23 exposies

    temporrias e a renovao da exposio permanente.

    Por meio dos objetos da coleo patrimonial, principalmente em sua

    exposio permanente, o museu faz paralelo narrativo da histria esttica

    e contextual da moda com a do design de produto (em destaque para

    mveis e utenslios domsticos). Ou seja, conforme informado em catlogo

    (Norogrando, 2011, Anexo 8), traz em seu discurso todas as expresses de

    design do sculo XX e XXI [] da produo em srie ao design de autor.

    Como se pode perceber nessa declarao, os objetos que constituem a

    coleo no abrangem um largo contexto histrico, estando centrados em

    dois sculos, sendo que um aponta para a cronologia contempornea e em

    formao. Esse fato tambm propicia uma maior flexibilidade expositiva,

    pois so peas que ainda no sofreram com a passagem do tempo, a ter em

    considerao cada caso.

    Figura 2 :: Perspectiva da atual exposio permanente nico e Mltiplo, ncleo 1960/1970.Fonte :: Notas de Campo | Arquivos desta Investigao (NC|AI), em 31/10/2014.

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    Exposio permanente

    Com algumas interrupes ou intervenes, o museu apresenta em

    permanncia e em narrativa cronolgica tpicos de suas colees de moda

    e design de maneira conjugada (ver Figuras 2 e 4), sendo que, por mais

    de uma vez, esteve a alterar sua composio (troca de peas) e mesmo a

    narrativa museogrfica.

    Dessa maneira, em menos de cinco anos de atuao, o museu

    remodelou sua exposio permanente 3 vezes, uma frequncia pouco

    habitual para essa designao nos museus em geral, mas, conforme

    apresentou-se anteriormente, est de acordo com seu posicionamento

    institucional.

    A primeira ao feita pelo MUDE por uma concepo de exposio

    permanente foi a Ante-estreia Flashes da Coleo (2009-2011), a qual,

    como diz o nome, trazia objetos pontuais da coleo, relevantes no contexto

    histrico do design de produto e do design de moda.

    A nova exposio permanente, assim denominada pelo museu, foi

    inaugurada em maio de 2011, pelo nome nico e Mltiplo. Conforme

    foi verificado, em maro de 2013, alguns objetos expostos, principalmente

    os txteis, haviam sido trocados por motivos de conservao, no entanto,

    a estrutura narrativa foi mantida. Assim, a ao denominada permanente

    apresenta-se dinmica. Entretanto, diferente da primeira exibio das

    peas da coleo, foi dado mais espao para autores portugueses. Esse

    posicionamento de valorizao do nacional no visto na abertura do museu

    cada vez mais faz parte de suas aes museolgicas e institucionais.

    Em 14 de maro de 2014, essa exposio permanente tambm foi

    encerrada para uma nova remodelao, e pelo mesmo nome foi reinaugurada

    em 3 de abril de 2014. Conforme os painis de informao e delimitao

    cronolgica/temtica compilados em 1 de novembro de 2014, e pelo

    catlogo (MUDE, 2011) a narrativa da atual exposio permanente assim

    estruturada:

    1851/1914 De meados do sculo XIX primeira grande

    guerra.

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    1914/1945 Da 1 grande guerra ao ps-segunda guerra

    mundial.

    1945/1960 Do ps-guerra sociedade de consumo.

    Milagre econmico, bom design e boa forma ().

    1960/1970 poca que revolucionou o mundo.

    Contestao, Design Radical e anti-design ().

    1980/1990 Os anos do ps-modernismo.

    Ecletismo e pluralidades.

    1990/200013 Design Global.

    Figura 3 :: Detalhe do display (caixa acrlica), na seo 1851/1914, na primeira verso da exposio nico e Mltiplo: Aqui nasceu... clipes, alfinete, bola de futebol, Levis, abre-latas, palhinha de

    beber [canudo], canivete Suo, lmina Gillete, pines, mola de metal, T-shirt, fecho-eclir, suti.

    Fonte :: NC|AI.

    Figura 4 :: Perspectiva da exposio permanente nico e mltiplo em sua primeira verso (05/2011-03/2014).

    Fonte :: NC|AI. Todas as imagens foram registradas com a autorizao da instituio.

    13

    Embora no mapa da exposio

    (primeira verso) aparecesse a seo

    6 como sendo de 1990/2010, nos

    painis sobre o perodo, o que estava

    identificado era 1990/2000. J os

    objetos patrimoniais em exposio

    expandiam mais 11 anos dessa

    cronologia.

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    Com relao primeira e segunda verso da exposio nico e

    Mltiplo, as diferenas mais marcantes na museografia foram: a incluso

    de objeto sonoro em dois ncleos (1945/60 e 1960/1970) e a eliminao das

    caixas Aqui nasceu.... Nestas eram apresentados objetos vulgares do

    design, assim discriminados por sua total incluso nos hbitos do dia a dia e

    de seus contextos industriais e comerciais, muitos deles por uma produo

    de massa, baixo custo e relativo valor simblico. Em alguns ncleos, a escolha

    de objetos deu-se pela cor, o que fortaleceu a ideia de um conjunto. Apesar

    disso, uma das caractersticas mais fortes dessas exposies a relao de

    objetos cones por uma exposio contemplativa, alusiva a obras de arte

    conforme conceitos de percepo traados por Lord e Lord (2002).

    Apesar do curto perodo de existncia do museu, as aes que

    tem apresentado em seu espao discursivo permanente so dinmicas,

    mas seguem uma lgica constante e mostram-se bastante distintas, ao

    considerarmos outras instituies que tambm possuem colees de design

    por diferentes reas, tal como o Design Museum (UK), Victoria and Albert

    Museum (V&A, UK) ou o Metropolitan Museum of Art (MET, US). Em todos

    com exceo de algumas exposies temporrias, como a British Design

    1948-2012 (pelo V&A em 2012) as exposies no vinculam os objetos

    de design por diferentes reas em uma mesma narrativa como discurso

    institucional. Portanto, esse modelo agregador bastante prprio dessas

    exposies e tambm uma forma de apresentar um diferencial em

    acordo com o posicionamento institucional do MUDE frente a instituies

    mais antigas e com colees mais completas e representativas.

    Exposies temporrias

    A atuao do MUDE est muito centrada em sua rotatividade

    expositiva, a qual baseada em seu acervo e temticas abordadas pela

    instituio, mas tambm por temticas relacionadas a essas e, nos ltimos

    anos, por abordagens nacionalistas.

    Nota-se que a estrutura narrativa da exposio permanente

    transposta tambm para algumas exposies temporrias j realizadas pelo

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    museu, por exemplo, L vai ela, formosa e segura. Scooters da coleo de

    Joo Seixas (1945-1970), realizada entre julho e outubro de 2010, e Morte

    ao Design! Viva o Design!, realizada entre outubro de 2011 e janeiro

    de 2012, onde, respectivamente, lambretas, mveis e outros artefatos

    estavam dispostos em comunho com objetos de moda do mesmo perodo

    cronolgico ou por relao conceitual e outras abordagens.

    Aqui no detalharemos as dezenas de exposies realizadas, j que

    apresentam, cada qual, um conceito diferente e, para esta investigao, o

    que conta mais o fato de a instituio ter essa dinmica expositiva como

    posicionamento estratgico. Pois por meio da exposio permanente que

    possvel fazer uma anlise mais especfica sobre a narrativa institucional,

    j que esta constante e, por regra, costuma adotar, de maneira mais

    conservadora, a imagem da instituio e a maneira como ela se comunica

    com o pblico.

    O museu tambm pode fazer uso da cave onde esto os antigos co-

    fres de particulares do banco; assim proporciona uma museografia j contex-

    tualizada e prpria para alguns temas expositivos, tal como foi a exposio

    Kukas Uma nuvem que desaba em chuva (14/10/2011-19/02/2012), com

    joias desenvolvida pela designer portuguesa de mesmo nome (Figura 6), ou

    para a exposio Sementes. Valor capital (12/2010-03/2011), que apresen-

    tou 500 variedades de sementes agrcolas plantadas em Portugal.

    Figura 5 :: Entrada da caixa-forte (cobre).Fonte :: NC|AI, 08/12/2011.

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    Figura 6 :: Exposio em visitao no interior do cofre: Kukas - Uma nuvem que desaba em chuva.

    Fonte :: NC|AI, 08/12/2011.

    Outro espao expositivo, assim transformado pelo museu, a

    prpria fachada do edifcio, a qual sempre transformada por intervenes

    temporrias, conforme se pode ver nas Figuras 7a e 7b:

    Figura 7a :: Fachadas do MUDE: maro/2010 (painel e Beatles).Fonte :: NC|AI.

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    Figura 7b :: Fachadas do MUDE: outubro/2014 (pranchas de surf frente do mesmo painel).

    Fonte :: NC|AI.

    Na Figura 8, apresenta-se em visitao parte da exposio Morte

    ao Design! Viva o Design!. Aqui interessante ressaltar a utilizao das

    fichas de identificao dos objetos e textos explicativos como estruturas

    relevantes ao conjunto museogrfico, o que defendido por Schaffner (2011)

    como uma boa estratgia de comunicao pela ruptura de paradigmas, por

    exemplo, onde o objeto o destaque e a informao sobre este deve ser

    o mais discreta possvel, ainda que legvel. Nessa exposio, as fichas de

    identificao e textos explicativos inserem-se no contexto expositivo de

    maneira ativa, a delimitar espaos, gerar uma dinmica e mesmo definem

    o conceito do design expositivo, passando, algumas vezes, tambm a ser o

    objeto exposto.

    Algumas aes expositivas do MUDE tambm devem ser referidas,

    por seu posicionamento institucional. Uma delas seria a exposio 22

    anos de Design na FAUL (24/01-23/03/2014), a qual celebrava a atuao

    da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa com trabalhos de

    alunos. A segunda exposio tambm foi marcada por celebrao, mas a

    outro parceiro da instituio, a Ikea: A Vida em Casa: 10 anos da Ikea em

    Portugal (30/10-30/11/2014). Embora bastante questionvel a musealizao

    de objetos ou marcas atuantes no mercado econmico, essa iniciativa

    condiz com a atuao do MUDE frente sua temtica.

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    Figura 8 :: Exposio Morte ao Design! Viva o Design! no primeiro andar do museu.Fonte :: NC|AI, 08/12/2011.

    Consideraes analticas

    O fato de o museu ser temtico em considerao ao contexto

    histrico e socioeconmico contemporneo, unindo objetos e expresses

    por seus processos de criao, desenvolvimento e consumo (objetos

    identitrios), faz dele uma instituio que foi inicialmente concebida como

    reflexo da atualidade. Isso abre diversas possibilidades e conexes a serem

    feitas com diferentes setores de maneira mais direta, o que alarga a atuao

    do museu a uma perspectiva mais ativa e interativa. Pelas aes do MUDE,

    parcerias e eventos, nota-se que uma constante essa incurso do museu

    na atualidade como um agente ativo do cenrio do design portugus e, aos

    poucos, no cenrio museolgico internacional.

    Com exceo aos museus de arte e artes decorativas que se formaram

    por uma diversidade de objetos e tipologias os quais permanecem em

    acervo, como o caso do Metropolitan Museum of Art (USA), Victoria and

    Albert Museum (UK), ou deram origem a outros museus, como o Museu

    de Arte Antiga (PT), quando cedeu sua coleo de indumentria para

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    a formao do Museu Nacional do Traje (PT) de modo geral, o que se

    encontra so museus de traje/moda e museus de design como narrativas

    totalmente desligadas. Essa distino bastante possvel, pois ambos

    os direcionamentos possuem suas especificidades e aprofundamentos.

    Por exemplo, o Design Museum (UK) possui uma coleo de moda, mas

    sua posio institucional mais alargada. J o Museo del Traje (ES) est

    direcionado temtica da moda, apesar de tambm possuir uma vasta

    coleo de objetos para alm do vesturio, j que resguarda, em suas

    reservas, o que antes era o Museu de Antropologia (com uma coleta

    contempornea do design de produto).

    Como possvel perceber, esses exemplos no traam a mesma

    narrativa apresentada pelo MUDE, pois a constituio deste como museu de

    design e de moda bastante singular no contexto internacional. Tambm

    se deve considerar que, por ele possuir uma coleo pouco alargada

    em perodo histrico, ou mesmo bastante contempornea, acaba por

    inevitavelmente flertar com as tendncias e manifestaes da atualidade.

    Nesse sentido, a escolha de uma curadoria que se distancia do imaginrio

    museogrfico, como exemplo a opo em excluir vitrines e barras de

    segurana e localizar os objetos em plataformas (pouco acima do nvel do

    cho) ou, ainda, a opo de iluminar bem os objetos. Essas escolhas fazem

    com que a experincia no ambiente expositivo do museu seja mais prxima

    de uma exposio em feira comercial, onde os objetos so apresentados

    com destaque por sua particularidade (esttica/tcnica), mas prximos ao

    toque, utilizao e comercializao. Porm esse vnculo termina antes do

    limite da mo e a experincia na exposio orientada contemplao e

    no a processos interativos, em uma forte ligao com a herana expositiva

    de obra de arte.

    Conforme se apresentou em evidncia na Figura 3, o museu trouxe

    narrativa patrimonial objetos no autorais. Repetiu essa forma de contar

    histria em sua exposio Tesouros da Feira da Ladra14. A beleza do

    design annimo (24/05-30/09/2012) totalmente dedicada a esses objetos

    sem marca. Essa valorizao da histria do design por uma vertente

    desvinculada ao estrelato autoral e fundamentada na criao e apropriao

    de objetos por seu uso e integrao ao dia a dia bastante discutida e

    14

    A Feira da Ladra o maior

    mercado de rua da cidade de Lisboa

    e, desde 1882, localiza-se no Campo

    de Santa Clara.

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    defendida por diversos autores (Bassi, Papanek, Bonsiep, entre outros)

    e muito comum aos museus de etnografia, onde a lgica de mercado/

    consumo no faz parte da histria narrativa dos objetos como foco de sua

    razo de existir. Tanto no design de produto como no design de moda, a

    questo autoral representa um forte apelo ao seu processo de valorizao;

    ao serem patrimonializados, os objetos carregam esse valor recebido em

    sua atuao no contexto econmico. Objetos de autores annimos, para

    serem inseridos em narrativa museolgica, precisam justificar-se de outra

    maneira; na moda, por sua iconizao diante do mercado de massa

    (Rothstein, 2010). No design de produto, como se verificou nas caixas

    acrlicas, tambm por sua massificao, ou mesmo total submerso na

    vida cotidiana.

    Ao considerar os conceitos de espao e discurso elaborados por

    Dernie (2006), nota-se que, apesar das narrativas aqui j discutidas, o

    MUDE atua com um modelo de percepo pautado pela contemplao dos

    objetos. Na exposio Viva o Design! Morte ao Design!, percebeu-se a

    inevitabilidade que alguns objetos impunham a essa narrativa, e assim, o

    modelo expositivo precisou ser contextualizado e vdeos com o processo

    de produo da obra foram apresentados. Do contrrio, grande parte da

    histria desses seria perdida. Nesse sentido, Fallan (2010) defende que, se

    for considerada somente a herana de um estudo e narrativa pela histria

    da arte, a histria do design amputada, pois, segundo o autor, ela exige

    outras anlises, outra forma de ser pesquisada e narrada. De encontro com

    isso, Riello (2011) pontua trs maneiras de estudar a histria de moda, j

    que esta inclui objetos materiais e conceitos abstratos. Dessa maneira, o

    autor expe (1) a importncia dos objetos em si, (2) os conceitos a eles

    relacionados e, principalmente, (3) os significados a eles atribudos na sua

    relao com a vida humana.

    So essas relaes e conexes do objeto com a sua imaterialidade,

    teorias, conceitos e humanidade que acabam por ser eclipsadas em algumas

    narrativas patrimoniais. Esses objetos acabam por ser apresentados muito

    mais prximos herana museolgica de arte do que por outras disciplinas,

    devido ao forte apelo visual que carregam, pois, apesar de fazerem parte

    de uma cultura material, tambm so testemunhos da cultura visual. Um

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    claro exemplo disso a prpria ficha de identificao dos objetos que

    discrimina autor/objeto/ano/material/produo-coleo/n inventrio.

    So informaes importantes, mas limitam-se ao essencial, no instigam

    questionamentos ou, como Schaffner (2011) tambm defende, poderiam ser

    mais significativas. No entanto, esse o senso comum e, em uma exposio

    permanente, raramente transporiam essa normativa padro e correta.

    Por fim, importante tambm considerar o fato de o MUDE,

    abarcado pela Cmara Municipal de Lisboa, partilhar o espao urbano

    com o Museu Nacional do Traje15. Ambos possuem, com especificaes, a

    mesma tipologia de coleo: roupa. O MNT assume um conceito histrico

    e etnogrfico centrado no traje, enquanto o MUDE atua por contexto

    socioeconmico e industrial por uma abordagem mais contempornea,

    em uma perspectiva alargada do design de produto a partir do sculo XX.

    No entanto, inevitavelmente, por alguns fatores eles se cruzam e mesmo

    poderiam conversar em dilogos visuais e patrimoniais. Apesar disso, ainda

    no perceptvel a nvel pblico esse tipo de parceria16, em que o municipal

    e o nacional produzam projetos correlacionados para suprir lacunas e

    estimular um circuito patrimonial mais intenso, seja na cidade ou no pas.

    Concluso

    O MUDE como instituio museolgica um importante agente

    ativo para a promoo do design portugus ou em portugus no

    contexto nacional e internacional. Suas prticas expositivas procuram estar

    mais prximas percepo do pblico por um modelo de contemplao

    dos objetos, recusando-se ao uso de anteparos nessa relao. A promoo

    de eventos vinculados a reas de sua temtica tambm uma forma de

    promover narrativas, discusses e reflexes acerca do patrimnio e do

    contexto em que ele est inserido, no s por enfoque histrico, mas

    tambm por enquadramento atualidade.

    Considera-se que ainda prevalece o desafio para a exposio

    dos objetos da cultura material de moda (design de produto) por outras

    15

    O Museu Nacional do Traje

    Parque do Monteiro-Mor (MNT)

    uma instituio portuguesa com

    quase quarenta anos de atuao.

    Possui relevantes colees histricas,

    inclusive objetos da corte portuguesa

    antes da partida para o Brasil.

    Localiza-se na regio do Lumiar em

    um palcio tombado e rodeado de

    um parque botnico, onde tambm

    est localizado o Museu Nacional

    do Teatro. Essa regio, apesar de

    ser atendida por linhas de nibus e

    a linha amarela do metr, fica fora

    do circuito turstico do centro da

    cidade. Mais informaes sobre

    o museu consultar o site: http://

    www.museudotraje.pt, a publicao

    Norogrando (2011), indicada nas

    referncias deste texto, ou outros

    artigos disponveis no blog i-material,

    em: .

    16

    As parcerias aqui discutidas

    no so referentes a emprstimos

    patrimoniais, como aconteceu para

    a exposio Com esta Voz me Visto.

    O Fado e a Moda (23/11/2012-

    28/04/2013), na qual eram expostos

    objetos do Museu Nacional do Traje,

    Museu Nacional do Teatro, Museu do

    Fado e outras colees.

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    narrativas, ou seja, pela compreenso ou interao de seu universo pr e

    ps-usurio. Assim sendo, o objeto no somente por sua materialidade,

    mas por sua relao material e imaterial com o ser humano.

    Em pases onde a cultura de design e design de moda j intrnseca

    ao cotidiano em uma natural valorizao de suas atuaes, a escolha de

    uma narrativa e outra pode ter pouco efeito. No entanto, acredita-se que,

    em situaes em que ainda existe a necessidade de consolidao de

    atividades ligadas ao design, de grande valia a presena da instituio

    museolgica como um agente comunicativo do setor a um pblico

    alargado. Os objetos de design no so somente fruto da criatividade

    humana, tambm representam contextos e intervenes no meio social e

    fsico. Dessa maneira, somente a narrativa esttica, em uma dinmica de

    valorizao patrimonial/comercial, deixa de apresentar todo um contexto

    de concepo, produo, uso e descarte que muito poderia contribuir para

    uma conscincia mais ampla da cultura material na atualidade e da herana

    que isso representa.

    Referncias

    A.M.R. MUDE distinguido com o Prmio Inovao e Qualidade. Correio

    da Manh, Lisboa, 16/12/2010. Disponvel em http://www.cmjornal.xl.pt/

    cultura/detalhe/mude-distinguido-com-o-premio-inovacao-e-qualidade.

    html.

    CARDOSO, Filipa. Bilhete de Lisboa. O Mude. LusoPresse. XVII, 2013.

    COSTA, Antnio O MUDE em Lisboa. In MUDE Museu do Design e da

    Moda Coleo Francisco Capelo. Lisboa: CML/MUDE, 2009.

    CENTRO PORTUGUS DE DESIGN. O tempo do Design. Cadernos de

    Design Anurio 2000. Ano 8, n. 21/22, Lisboa, 2000. ISBN: 972-9445-10-9.

    CLIFFORD, James. Quai Branly in Process. October. 2007. P: 3-23.

    DERNIE, David. (2006). Exhibition design. London: Laurence King, 2006.

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    Recebido em 20/07/2015

    Aprovado em 01/09/2015