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Página | 46 REDE - Revista Eletrônica do Prodema, v.8, n.1, p. 46-66, abr. 2014, Fortaleza, Brasil, ISSN: 1982-5528 REDE - Revista Eletrônica do Prodema Journal homepage: www.revistarede.ufc.br ISSN: 1982-5528 Fortaleza, BRA Artigo Avaliação das Pressões e Ameaças Ambientais sobre o Parque Nacional de Ubajara-Ceará: Uma perspectiva da Efetividade de Gestão Bartolomeu Bueno Cunha 1 *, Rogério César Pereira Araújo 2 1 Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente - UFC/ E-mail: [email protected] 2 Universidade Federal do Ceará – UFC, Brasil/ Professor do Departamento de Economia Agrícola/ Doutor em Agricultural Economics, University of Illinois at Urbana Champaign, USA * Autor para correspondência. Artigo recebido em: 24/10/2011 Artigo aceito em: 06/01/2014 ABSTRACT: The increasing pressures and threats, mainly, due to the social and economic factors and inefficient management are placing the biodiversity of the Brazilian National Parks under risk. The identification and evaluation of those factors make them essential to execute its management plan and biodiversity preservation. Taking the case of the National Park of Ubajara, Ceará, this research has as objective assess the management effectiveness under the context of main pressures and threats existing in the Park. The approach used in this study followed the RAPPAM method, which is composed of five modules: (i) Profile; (ii) Context; (iii) Planning; (iv) Inputs; and, (v) Procedures. Based on the evaluations done by the technicians working in the PNU, the results showed that the index of management effectiveness for the Park is moderately satisfactory, since more than forty percent of the analyzed factors showed index of effectiveness from unsatisfactory to poorly satisfactory. Keywords: Management, Effectiveness, National Park of Ubajara. RESUMO: As pressões e ameaças crescentes, principalmente, devido aos fatores socioeconômicos e gestão ineficiente vêm colocando a biodiversidade dos Parques Nacionais brasileiros em risco. A identificação e avaliação desses fatores tornam-se essenciais para a execução do seu Plano de Manejo e a preservação da biodiversidade. Tomando o caso do Parque Nacional de Ubajara (PNU), Ceará, esta pesquisa tem como objetivo avaliar a efetividade de gestão, sob o contexto das principais pressões e ameaças presentes no Parque. A abordagem utilizada neste estudo seguiu o método RAPPAM, o qual contém cinco componentes: (i) Perfil; (ii) Contexto; (iii) Planejamento; (iv) Insumos; e (iv) Processos. Com base em avaliações feitas por técnicos que atuam no PNU, os resultados revelaram que o índice de efetividade de gestão deste Parque mostrou-se moderadamente satisfatório, uma vez que mais de quarenta por cento dos fatores analisados apresentaram índice de efetividade de insatisfatório a pouco satisfatório. Palavras-chaves: Gestão, Efetividade, Parque Nacional de Ubajara. FINANCIAMENTO: Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico e Universidade Federal do Ceará.

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    REDE - Revista Eletrnica do Prodema Journal homepage: www.revistarede.ufc.br

    ISSN: 1982-5528 Fortaleza, BRA

    Artigo

    Avaliao das Presses e Ameaas Ambientais sobre o Parque Nacional de Ubajara-Cear: Uma perspectiva da

    Efetividade de Gesto

    Bartolomeu Bueno Cunha1*, Rogrio Csar Pereira Arajo2 1 Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente - UFC/ E-mail: [email protected]

    2 Universidade Federal do Cear UFC, Brasil/ Professor do Departamento de Economia Agrcola/ Doutor em

    Agricultural Economics, University of Illinois at Urbana Champaign, USA

    * Autor para correspondncia. Artigo recebido em: 24/10/2011 Artigo aceito em: 06/01/2014

    ABSTRACT: The increasing pressures and threats, mainly, due to the social and economic factors and inefficient management are placing the biodiversity of the Brazilian National Parks under risk. The identification and evaluation of those factors make them essential to execute its management plan and biodiversity preservation. Taking the case of the National Park of Ubajara, Cear, this research has as objective assess the management effectiveness under the context of main pressures and threats existing in the Park. The approach used in this study followed the RAPPAM method, which is composed of five modules: (i) Profile; (ii) Context; (iii) Planning; (iv) Inputs; and, (v) Procedures. Based on the evaluations done by the technicians working in the PNU, the results showed that the index of management effectiveness for the Park is moderately satisfactory, since more than forty percent of the analyzed factors showed index of effectiveness from unsatisfactory to poorly satisfactory. Keywords: Management, Effectiveness, National Park of Ubajara.

    RESUMO: As presses e ameaas crescentes, principalmente, devido aos fatores socioeconmicos e gesto ineficiente vm colocando a biodiversidade dos Parques Nacionais brasileiros em risco. A identificao e avaliao desses fatores tornam-se essenciais para a execuo do seu Plano de Manejo e a preservao da biodiversidade. Tomando o caso do Parque Nacional de Ubajara (PNU), Cear, esta pesquisa tem como objetivo avaliar a efetividade de gesto, sob o contexto das principais presses e ameaas presentes no Parque. A abordagem utilizada neste estudo seguiu o mtodo RAPPAM, o qual contm cinco componentes: (i) Perfil; (ii) Contexto; (iii) Planejamento; (iv) Insumos; e (iv) Processos. Com base em avaliaes feitas por tcnicos que atuam no PNU, os resultados revelaram que o ndice de efetividade de gesto deste Parque mostrou-se moderadamente satisfatrio, uma vez que mais de quarenta por cento dos fatores analisados apresentaram ndice de efetividade de insatisfatrio a pouco satisfatrio. Palavras-chaves: Gesto, Efetividade, Parque Nacional de Ubajara.

    FINANCIAMENTO: Fundao Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico e Universidade Federal do Cear.

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    1. INTRODUO

    A Poltica Nacional de Meio Ambiente (PNMA) do Brasil tem como objetivo compatibilizar o desenvolvimento socioeconmico com a preservao da qualidade do meio ambiente e do equilbrio ecolgico, buscando a sustentabilidade ambiental do pas. Um instrumento utilizado no alcance destes objetivos so as Unidades de Conservao, cujas normas para sua criao, implantao e gesto esto definidas na Lei 9.985, de 18 de julho de 2000 da Constituio Federal, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservao da Natureza (BRASIL, 2002).

    De acordo com a Lei do SNUC, em seu Art. 2, a unidade de conservao definida como: Espao territorial e seus recursos ambientais, incluindo as guas jurisdicionais, com caractersticas naturais relevantes, legalmente institudo pelo Poder Pblico, com objetivos de conservao e limites definidos, sob regime especial de administrao, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteo.

    De acordo com a PNMA, as unidades conservao no Brasil, segundo o grau de uso em suas reas, so classificadas em duas categorias: Unidades de Proteo Integral e Unidade de Uso Sustentvel. A unidade de proteo integral admite apenas o uso indireto dos seus recursos naturais, com exceo dos casos previstos em lei, enquanto as unidades de uso sustentvel visam a compatibilizar a conservao da natureza com o uso sustentvel de parcela dos seus recursos naturais.

    O parque nacional enquadra-se na categoria de Unidade de Proteo Integral, tendo como objetivo bsico a preservao de ecossistemas naturais de grande relevncia ecolgica e beleza cnica, possibilitando a realizao de pesquisas cientficas e o desenvolvimento de atividades de educao e interpretao ambiental, de recreao em contato com a natureza e de turismo ecolgico.

    Sendo de posse e domnio pblico, os parques nacionais so reas que passam por uma srie de problemas, dentre eles destaca-se a negligncia do poder pblico, que se reflete na ineficincia de recursos financeiros para custear a operao e fiscalizao das unidades de conservao. Estes problemas comprometem o desempenho da gesto dos parques, particularmente quanto s aes que venham a coibir atividades ilegais, tais como invaso, caa e outras atividades no condizentes com os objetivos das Unidades.

    Os parques nacionais possuem um Plano de Manejo, cujos objetivos devem ser respeitados pela entidade gestora. Este instrumento tem como finalidade ordenar o uso da rea e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantao das instalaes necessrias gesto da Unidade. Porm, o maior desafio para as unidades de conservao, em geral, e dos parques nacionais, em particular, assegurar a efetividade da gesto, diante das presses, ameaas e problemas de gesto que as unidades de conservao enfrentam (BRASIL, 1979).

    A Conveno sobre a Diversidade Biolgica, realizada em 2004, adotou o Programa de Trabalho para as reas Protegidas, que determina aos pases signatrios a realizao peridica da avaliao da efetividade de gesto de seus sistemas de reas protegidas, com prazo para sua concluso at 2010.

    Em geral, uma avaliao de efetividade busca entender quo efetivo o regime de gerenciamento corrente de uma atividade e dar subsdios a aes de melhoria. Do ponto de vista da gesto ambiental, definido como a avaliao de quo bem a rea protegida est sendo gerenciada, principalmente no que diz respeito proteo e alcance dos objetivos e

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    metas pr-estabelecidas. Esta avaliao leva em considerao os aspectos biolgicos e socioeconmicos e suas vulnerabilidades, planejamento, insumos, processos, produtos e resultados alcanados em relao aos objetivos traados.

    Neste sentido, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis (IBAMA), em parceria com a World Wildlife Fund-Brasil (WWF-Brasil), realizou a avaliao da efetividade de gesto das unidades de conservao federais do Brasil, em 2007. Outros estudos sobre efetividade da gesto de parques, anteriores a este, tambm haviam sido realizados no Brasil, com destaque para Faria (1997), Pires et al. (2000), Primo e Pellens (2000), Tocantins e Almeida (2000), Brito (2000), Lima (2003) e Lima et al. (2005). Dando continuidade aos esforos de pesquisa nesta rea, este estudo foca na avaliao da efetividade de gesto do Parque Nacional de Ubajara (PARNA de Ubajara) na serra de Ibiapaba, Cear.

    O Parque Nacional de Ubajara importante para a regio por permitir a preservao da flora e da fauna, apresentar grande beleza cnica, ser considerado um laboratrio vivo e se constituir em atrativo turstico importante. Segundo o Plano de Manejo do PARNA de Ubajara (ICMBIO), o Parque vem sendo afetado pelo crescimento urbano desordenado, ocupao indevida de seu solo, uso indiscriminado de agrotxicos, uso inadequado de seus recursos hdricos, e perda da flora e da fauna. Portanto, esta pesquisa tem como objetivo avaliar a efetividade de gerenciamento do Parque Nacional de Ubajara, tendo como base a percepo de tcnicos que atuam no PARNA de Ubajara.

    Esta pesquisa assume sua relevncia por permitir conhecer melhor o desempenho atual da gesto do Parque Nacional de Ubajara e munir os gestores de elementos para melhorar suas aes nos prximos ciclos de gesto. Tambm contribui para instituir a avaliao da efetividade de gesto como uma prtica de gesto dos parques nacionais. Desta forma, espera-se contribuir para a efetiva gesto do Parque Nacional de Ubajara e a preservao da biodiversidade para as geraes futuras.

    2. AVALIAO DA GESTO DE REAS PROTEGIDAS

    A avaliao o processo que assegura a obteno de resultados, aferidos com base em certos critrios que so comparveis aos propsitos originalmente estabelecidos e oferecem lies que podem ser incorporadas ao prximo ciclo de gesto. No contexto da gesto de reas protegidas, Thorsell (1982) considera a avaliao como o processo de fazer julgamentos sobre as aes, efetividade, eficincia e adequabilidade do programa aos objetivos, de forma a us-los para melhorar a efetividade da gesto.

    Nesse processo, o monitoramento torna-se importante por oferecer os dados bsicos necessrios avaliao. O monitoramento o processo mediante o qual se faz observaes repetidas com propsitos especficos, de um ou mais elementos do ambiente, seguindo uma programao pr-estabelecida, no espao e no tempo, e usando mtodos de coleta de dados comparveis.

    No contexto de avaliao da efetividade de gesto, deve-se abordar no apenas o estado do ambiente fsico e social externo, mas tambm as atividades e processos de gesto. Devem-se incluir tambm as questes que estejam sob o controle do gestor, bem como dos gestores individuais, de tal forma a permitir gerar respostas frente s ameaas e deficincias da gesto, tanto decorrentes de aes locais quanto de polticas mais abrangentes.

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    Uma avaliao da efetividade de gesto pode prestar-se a trs propsitos: (i) promover a gesto adaptativa; (ii) melhorar o planejamento dos projetos; e, (iii) auxiliar na prestao de contas. Na prtica, os resultados de uma avaliao so comumente usados para mais de um propsito.

    A gesto adaptativa, que se constitui na viso moderna de gesto, baseia-se em processo cclico que permite que as informaes ancoradas no passado sejam reaproveitadas para melhorar a forma como a gesto ser conduzida no futuro. A melhoria do planejamento de programas e projetos consiste em rever os programas anteriores, extraindo lies que possam ser aplicadas em programas posteriores. Finalmente, a prestao de contas consiste em desenvolver uma abordagem profissional com relao gesto em substituio prtica de apenas checar onde os gestores falharam, e procurar torn-la uma parte normal do processo de gesto.

    De acordo com a abordagem da avaliao da efetividade de gesto da Comisso Mundial para reas Protegidas (do ingls, World Commission on Protected reas, WCPA), a gesto composta de vrias fases interdependentes e interativas, que so: planejamento, alocao de recursos, implantao, monitoramento e avaliao, e retroalimentao. Desta forma, a gesto comumente influenciada por questes contextuais, tais como significncia, unicidade, ameaas e oportunidades encaradas pelas reas protegidas.

    Na prtica, o monitoramento e avaliao da gesto de reas protegidas requerem a investigao dos seguintes aspectos: questes relacionadas ao desenho da unidade de conservao (contexto e planejamento); adequabilidade dos sistemas e processos de gesto (insumos e produtos) e alcance dos objetivos das reas protegidas (produtos e resultados). Graficamente, esse processo representado na Figura 1.

    Figura 1 O ciclo de avaliao da gesto.

    VisoOnde queremos estar?

    Processo de gerenciamentoComo faremos isto?

    PlanejamentoComo chegaremos l?

    InsumosO que precisamos?

    ResultadosO que alcanamos?

    ProdutoO que fizemos e quais produtos

    ou servios foram produzidos?

    Contexto: status e ameaasOnde ns estamos agora?

    Avaliao

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    De acordo com a Comisso Mundial de reas Protegidas, a avaliao da gesto envolve questes que so agrupadas em trs categorias, a saber: (i) desenho; (ii) adaptabilidade dos processos e sistemas de gesto; e, (iii) alcance dos objetivos da rea protegida. Essas questes esto relacionadas com elementos especficos que so conceituados a seguir.

    a) Questo de Desenho

    Contexto Onde estamos agora? Esta questo investiga a conservao e outros

    valores atribudos s reas protegidas, seu status corrente, e as ameaas e oportunidades particulares que as afetam, inclusive o ambiente poltico mais amplo. Esta etapa no faz parte da avaliao da gesto, mas importante por gerar informaes que possibilitam colocar as decises de gesto em contexto especfico.

    Planejamento Onde queremos estar e como chegaremos l? Esta questo foca

    nos resultados desejados para um sistema de reas protegidas ou uma rea protegida individual. Procura construir a viso de futuro para o sistema ou stio que est sendo planejado.

    b) Adequabilidade dos sistemas e processos de gesto

    Insumos O que precisamos? Esta questo aborda a adequao dos recursos em

    relao aos objetivos de gesto para um sistema ou stio, baseado primeiramente na mensurao dos recursos humanos, fundos, equipamentos e instalaes requeridas, ao nvel de agncia ou stio.

    Processo Como faremos isto? Esta questo trata da adequao dos processos e

    sistemas de gesto em relao aos objetivos de gesto para um sistema ou um stio. A avaliao envolver uma variedade de indicadores, tais como questes de manuteno cotidiana ou a adequao das abordagens para as comunidades locais e os vrios tipos de gesto dos recursos naturais e culturais.

    c) Alcance dos Objetivos da rea Protegida

    Produtos O que foi realizado e quais produtos ou servios foram produzidos?

    Questes sobre a avaliao do produto consideram o que foi realizado em termos de gesto, e examina a amplitude com que os objetivos, os programas ou planos de trabalho foram implantados. As metas podem ser estabelecidas atravs de planos ou uma programao de trabalho.

    Resultados O que foi alcanado? Esta questo avalia se a gesto teve sucesso com

    relao aos objetivos estabelecidos no plano de gesto ou plano nacional de reas protegidas, que podem ser definidos pela legislao e/ou polticas nacionais ou planos de gesto de stios especficos. No final da anlise, a avaliao dos resultados o teste verdadeiro da efetividade da gesto.

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    De forma ideal, os sistemas para a avaliao da efetividade de gesto das reas protegidas devem incorporar componentes que abordem cada um dos elementos delineados acima, e que complementam um ao outro. Nesta pesquisa, maior nfase dada s quatro primeiras etapas do ciclo de avaliao de gesto (contexto, planejamento, insumos e processos) pela relativa facilidade de se obter dados confiveis para efetuar as avaliaes. As etapas Produto e Resultados no so considerados na avaliao em virtude da dificuldade de se obter dados sobre o desempenho ambiental da unidade de conservao.

    3. REA DE ESTUDO 3.1. Planalto da Ibiapaba

    O Parque Nacional de Ubajara (PARNA de Ubajara) localiza-se no Planalto da Ibiapaba, ao norte do estado do Cear, a 320 Km de Fortaleza. O Planalto da Bacia Sedimentar do Piau-Maranho, conhecido pelo nome de Planalto Ibiapaba, comea a uma distncia de 40 Km do litoral cearense, estendendo-se de norte a sul em sua poro oriental, limitando-se com o estado do Piau.

    Pelo fato de apresentar condies ambientais melhores do que aquela apresentada pela depresso sertaneja, o planalto sedimentar da Ibiapaba considerado uma das reas de exceo no semirido Nordestino os chamados Osis do serto. Entretanto, esta rea est sujeita a intensa presso de natureza antrpica, colocando-a na condio de elevada vulnerabilidade, o que evidencia, mais uma vez, sua importncia como o refgio da biodiversidade local.

    O clima dominante nesta unidade marcado pela ocorrncia de uma estao seca que abrange o perodo de julho a dezembro e por uma estao chuvosa que se estende pelo primeiro semestre do ano. Nos perodos quentes do ano, quando todo o Nordeste est em torno de 34 a 40C, o Planalto Ibiapaba apresenta temperatura em torno de 20oC (RADAMBRASIL, 1981).

    De acordo com o RADAMBRASIL (1981), no cimo do planalto da Ibiapaba, existe atualmente uma floresta secundria de palmeiras, pertencentes regio da Floresta Ombrfila Aberta. O babau (Orbygnya sp.) a espcie mais numerosa desses agrupamentos secundrios, provavelmente ampliados pela ao humana, atravs do uso do fogo como prtica agrcola rotineira. Alm disso, existe em reas litlicas do planalto da Ibiapaba uma comunidade relquia, imposta por condio ambiental rupcola de altitude, onde sobrevivem Vellozia e outros gneros cosmopolitas. Devido s condies singulares (altitude elevada, temperaturas mais amenas e maiores ndices pluviomtricos), observa-se nessa rea uma vegetao mais exuberante caracterstica da Mata Atlntica.

    Segundo Cavalcante (2005), o que mantm at hoje o recobrimento florestal dessas elevaes a ao combinada da localizao geogrfica, altitude, disposio do relevo em relao ao deslocamento dos ventos oriundos do litoral e do solo.

    3.2. O Parque Nacional de Ubajara (PARNA de Ubajara)

    O PARNA de Ubajara foi criado pelo Decreto n 45.954 de 30 de abril de 1959,

    abrangendo uma rea de 563 hectares que, por sua pequena dimenso, era considerado o menor Parque Nacional do Brasil (LIMA, 2008). Em 13 de dezembro de 2002, sua rea foi

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    ampliada para 6.299 hectares, passando a abranger os municpios de Ubajara, Frecheirinha e Tiangu. Entretanto, esta ampliao ocorreu apenas no papel, uma vez que nenhuma iniciativa at a presente data foi tomada para sua regularizao. A rea do Parque est compreendida entre a latitude 346 S e longitude 4054 O, com a extenso de 110 Km de serra e altitudes que variam de 800 a 1.100 m.

    Os objetivos especficos do Parque Nacional de Ubajara esto de acordo com os objetivos do Sistema Nacional de Unidades de Conservao (SNUC) que englobam desde a proteo de pequena amostra da Floresta Subcaduciflia Tropical, representando uma rea de transio entre a serra mida at atingir a caatinga. Dentre os objetivos da unidade de conservao, destacam-se a proteo dos afloramentos de rochas calcrias e grutas encontradas em alguns destes afloramentos; a proteo dos elementos da fauna e flora presentes no Parque; a promoo de aes que diminuam a eroso nas encostas; a proteo dos recursos hdricos; o incentivo ao aumento de reas protegidas na regio; e o estmulo pesquisa cientfica e educao ambiental.

    A principal atrao do Parque uma caverna encravada nos afloramentos de rochas calcrias, a aproximadamente 520 m de altitude, conhecida popularmente como Gruta de Ubajara. O Parque Nacional de Ubajara dispe de infraestrutura administrativa e de apoio ao visitante, quatro trilhas com sinalizao e um mirante.

    Como o PARNA de Ubajara uma Unidade de Proteo Integral, dispe de um conselho consultivo, onde so realizadas reunies mensais, constitudo pelos seguintes representantes (Titular e Suplente): Prefeituras municipais de Frecheirinha, Tiangu, Ubajara, e Ibiapina; SEBRAE; Universidade Estadual Vale do Acara (UVA); Superintendncia Estadual do Meio Ambiente (SEMACE); Ministrio Pblico de Tiangu; EMATERCE de Tiangu; Secretaria de Turismo do Estado do Cear (SETUR); Associao Comunitria de Araticum; Rede Ibiapabana de Turismo (RITUR); Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Tiangu; Sindicato Rural de Ubajara; Associao Comunitria do Sitio Torre; Associao Vila Chapada; Associao Comunitria dos Stios Santa Luzia e Rio do Peixe; Cooperativa de Trabalho, Assistncia ao Turismo e Prestao de Servios Gerais Ltda (COOPTUR); Associao Comunitria do Stio Paraba.

    4. MTODO

    4.1. RAPPAM

    A avaliao do contexto e efetividade de gesto do PARNA de Ubajara baseou-se no mtodo RAPPAM (Rapid Assestment and Priorization of Protected Area Management). Este mtodo foi proposto, em 2002, pelo Wolrd Wildlife Fund for Nature (WWF), tendo sido utilizado para avaliar a efetividade de gesto das Unidades de Conservao do Brasil (IBAMA, 2007). Segundo Ervin (2003), a metodologia RAPPAM foi desenvolvida com base no Painel da Comisso Mundial de reas Protegidas (WCPA), que tinha como finalidade desenvolver um referencial terico e metodolgico para a avaliao da efetividade de gesto.

    Essa avaliao, de modo geral, visa a melhorar a efetividade de manejo das unidades de conservao. Neste sentido, o mtodo prope-se a alcanar os seguintes objetivos especficos: identificar os pontos fortes e fracos do manejo; analisar o escopo, a severidade, a predominncia e a distribuio das diversas ameaas e presses; identificar as reas de

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    alta importncia ecolgica e social, e de vulnerabilidade; indicar a urgncia e a prioridade de conservao das unidades de conservao individuais; ajudar no desenvolvimento e na priorizao das intervenes polticas adequadas; e definir passos posteriores de monitoramento.

    Embora tenha sido concebido para fazer comparaes de longa escala envolvendo vrias unidades de conservao, o RAPPAM tambm pode ser aplicado a apenas uma unidade de conservao (ERVIN, 2003).

    Os mdulos que compem o mtodo RAPPAM so cinco, a saber: (i) Perfil; (ii) Contexto; (iii) Planejamento; (iv) Insumos; e, (v) Processos. No mdulo Perfil feita a descrio da unidade de conservao, como nome, data de criao, rea, objetivos etc. O mdulo Contexto rene as informaes necessrias para avaliar as presses, ameaas, vulnerabilidades e a importncia biolgica e socioeconmica da unidade de conservao. No mdulo Planejamento feita a avaliao da legislao e poltica voltada para a rea protegida, do desenho do sistema e do plano de manejo. O mdulo Insumo avalia os recursos necessrios para realizar a gesto da unidade gestora, do stio e dos parceiros. No mdulo Processo feita a avaliao da forma como a gesto conduzida (HOCKINGS et al., 2000). Cada um desses mdulos descrito por meio de seus elementos especficos, os quais so aferidos por questes a serem respondidas pelos gestores e tcnicos das reas protegidas.

    A seguir so descritas duas avaliaes a serem realizadas neste estudo: (i) Avaliao do Contexto; e (ii) Avaliao da Efetividade de Gesto.

    4.1.1. Avaliao do Contexto

    De acordo com o mtodo RAPPAM, o mdulo Contexto compreende a anlise das

    presses, ameaas, vulnerabilidades, e a importncia biolgica e socioeconmica das unidades de conservao. Apesar da importncia desses aspectos para a compreenso dos fatores que podem afetar as unidades de conservao, nesta pesquisa, a avaliao do Contexto restrita apenas avaliao das presses e ameaas. Esta simplificao feita com o propsito de reduzir o grau de dificuldade em responder os questionrios e formulrios por parte dos informantes chaves.

    As presses sobre as unidades de conservao envolvem os impactos que vm ocorrendo nos ltimos cinco anos enquanto as ameaas traduzem os impactos potenciais nas reas nos prximos cinco anos. Do ponto de vista prtico, Ervin (2003) sugere avaliar as presses com base no aumento, diminuio ou invariabilidade (constncia) dos fatores que determinam os impactos e suas tendncias. Com relao avaliao das ameaas, Ervin prope aferio o risco dos impactos, em termos de baixa, mdia, e alta probabilidade de ocorrncia das mudanas, podendo os aumentos e diminuies ser qualificados quanto a sua extenso (amplitude), impacto e a permanncia de uma atividade. Esta abordagem, embora permita aferir a tendncia e magnitude das presses e ameaas, impe ao respondente uma elevada carga cognitiva que torna a tarefa de avaliao difcil de ser realizada.

    Diante dessas dificuldades, preferiu-se, nesta pesquisa, adotar a verso simplificada da abordagem proposta por Ervin para avaliar as presses e ameaas sobre uma unidade de conservao. Neste sentido, utilizou-se a escala qualitativa definida em funo da significncia dos fatores de presses e ameaas na determinao dos impactos. Esta abordagem oferece menor grau de dificuldade aos informantes na avaliao das questes. A

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    Figura 2 apresenta as classes de significncia das presses e ameaas e suas respectivas definies.

    Categoria Escore Definio

    Alta significncia

    3 So aqueles que esto seriamente degradando os valores da UC.

    Mdia significncia

    2 So aquelas que causam algum impacto negativo.

    Baixa significncia

    1 So aquelas que esto presentes, mas no causam impactos srios.

    No se aplica 0 A presso/ameaa no est presente ou no se aplica (N/A).

    Figura 2 Categorias de significncia dos impactos sobre uma unidade de conservao determinados pelas presses e ameaas.

    A avaliao das presses e ameaas feita em trs etapas. Primeiro, identificam-se as principais atividades potencialmente impactantes do PARNA de Ubajara. Para esta pesquisa, utiliza-se a mesma lista de atividades potencialmente impactantes empregada na avaliao da efetividade de gesto das Unidades de Conservao no Brasil feita pelo IBAMA (2007), quais sejam: a extrao de madeira, cultivo de pastagem, caa e pesca, coleta de produtos no madeireiros, turismo e recreao, deposio de resduos, ocorrncia de processos seminaturais, construo de infraestrutura, mudana do uso do solo, presena de espcies exticas invasoras, presso das populaes humanas sobre os recursos naturais e culturais, influncias externas, expanso urbana e incndio de origem antrpica.

    Segundo, cada uma das atividades potencialmente impactantes so classificadas em funo do grau de significncia do impacto, como descritos na Figura 3.

    Variao do total pssimo Nvel de Criticidade

    At 35% Baixo De 35,1% a 75% Mdio Acima de 75% Alto

    Figura 3 - Classificao dos Nveis de Criticidade das Presses e Ameaas do PARNA de Ubajara.

    Terceiro, para cada uma das atividades potencialmente impactantes, faz-se o clculo de um coeficiente, denominado de Nvel de Criticidade (NC), com base nos escores obtidos pelos fatores de presso e ameaa atribudos pelo informante, como sugerido por Castro (2007).

    Matematicamente, o Nvel de Criticidade, medido em termos percentuais, pode ser calculado tanto para um fator especfico quanto para um conjunto de fatores que define uma categoria de presso/ameaa. A Equao (1) e (2) apresentam, respectivamente, as frmulas para o clculo do Nvel de Criticidade de um fator nico j e de uma categoria de fatores k.

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    Onde: NCj o nvel de criticidade do j-simo fator, com j = 1, ..., J; NCk o nvel de criticidade da k-sima categoria, com k=1,..., K. Eij o escore obtido pelo j-simo fator atribudo pelo i-simo respondente, com i = 1,..., N; Ejmax o escore mximo possvel a ser atribudo ao j-simo fator; Ejmin o escore mnimo possvel a ser atribudo ao i-simo fator;

    Depois de efetuado o clculo dos nveis de criticidade dos fatores e categorias, os

    valores so enquadrados de acordo com as categorias de nvel de criticidade, como mostra a Figura 3.

    4.1.2. Avaliao da Efetividade de Gesto

    A avaliao da efetividade de gesto feita com base no desempenho dos mdulos de

    Planejamento, Insumos, e Processos do ciclo de avaliao de gesto. Cada um desses mdulos descrito em termos de seus elementos especficos os quais so aferidos por meio de questes que descrevem diferentes padres de gesto.

    O mtodo RAPPAM (IBAMA, 2007) tem seus mdulos e seus respectivos elementos descritos como seguem:

    Planejamento: objetivos de criao; desenho e planejamento da rea; situao fundiria; e demarcao da rea; Insumos: recursos humanos; comunicao e informao; infraestrutura; equipamentos; recursos financeiros; e materiais; Processos: planejamento e gesto da rea; modelos existentes utilizados para tomada de deciso; gesto dos aspectos de pesquisa cientfica; educao e interpretao ambiental; uso pblico; relaes pblicas e divulgao; mecanismos de fiscalizao e monitoramento; proteo contra incndios florestais; relao com o entorno; e parcerias institucionais.

    A avaliao da efetividade de gesto pode ser feita parcial ou globalmente: o primeiro quando se avalia um elemento individual, mdulo especfico, ou grupo de mdulos; e o segundo quando se avalia todos os mdulos conjuntamente (Planejamento, Insumos e Processos). Para isto, cada um dos elementos avaliado com base nas categorias de respostas descritas na Figura 4.

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    Categoria de Respostas Escore Descrio Sim (S) 3 Todas as exigncias so atendidas

    Predominantemente Sim (PS) 2 A maioria das exigncias atendida Predominantemente No (PN) 1 Poucas exigncias so atendidas

    No (N) 0 Nenhuma das exigncias atendida Figura 4 - Categorias de respostas, escores e descries da avaliao dos elementos e mdulos de gesto. Fonte: Ervin (2003).

    Com base nos escores atribudos aos elementos pelos informantes, calcula-se o ndice de Efetividade de Gesto (IEG) para um elemento, mdulo ou grupo de mdulos. A frmula do ndice assemelha-se quela utilizada para calcular o Nvel de Criticidade, em termos percentuais, como apresentada pelas equaes (3) e (4) abaixo:

    Onde: IEGj o ndice de Eficincia de Gesto do j-simo elemento, com j = 1, 2, ..., J. IEGk o ndice de Eficincia de Gesto do k-simo elemento, com k = 1, 2, ..., K. Eij o escore obtido pelo j-simo elemento atribudo pelo i-simo respondente, com i = 1,2,..., N. Ejmax o escore mximo possvel a ser atribudo ao j-simo elemento; Ejmin o escore mnimo possvel a ser atribudo ao i-simo elemento;

    O ndice de Eficincia de Gesto estimado enquadrado dentre as cinco categorias

    qualitativas de eficincia Insatisfatrio, Pouco Satisfatrio, Moderadamente Satisfatrio (ou Regular), Padro Satisfatrio e Plenamente Satisfatrio (ou Padro Excelente) , como sugerida por Castro (2007) (Figura 4).

    4.2. Procedimentos Metodolgicos 4.2.1. Instrumentos de Coleta de Dados e Amostragem

    O Formulrio utilizado para avaliar as presses e ameaas do PARNA de Ubajara apresenta doze categorias de presses e ameaas, abrangendo 51 fatores de impactos (ou atividades potencialmente impactantes)1. Este formulrio foi aplicado a dois tcnicos que

    1 O Formulrio, na sua ntegra, omitido neste artigo por limitao de espao, mas pode ser obtido por solicitao direta

    aos autores ou consultando a dissertao intitulada Avaliao de Efetividade de Gesto do Parque Nacional De Ubajara Ce (2010) de autoria de Bartolomeu Bueno Cunha.

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    atuam no Parque Nacional de Ubajara, o analista ambiental e o Chefe do PARNA de Ubajara. Para cada fator importante, os informantes podiam responder sim, no, ou no se aplica quanto sua ocorrncia.

    O Formulrio destinado a avaliar a efetividade de gesto do PARNA de Ubajara coleta dados sobre os mdulos de Planejamento, Insumos e Processos, abrangendo ao todo vinte e seis elementos, assim distribudos: 6 do mdulo de Planejamento; 9 do mdulo de Insumos; e 11 do mdulo de Processos. Cada elemento expresso por uma questo e quatro nveis de respostas, cada nvel refletindo um padro de gesto. Esse formulrio foi aplicado a doze informantes que trabalhavam diretamente com o PARNA de Ubajara, sendo 1 analista ambiental, 4 tcnicos ambientais, 1 tcnico administrativo e 6 condutores de trilhas ecolgicas da COOPTUR. Dos doze formulrios aplicados, apenas nove se mostraram teis para a anlise.

    IEG Categorias Descrio

    40 Insatisfatrio Os objetivos no so alcanveis; faltam muitos elementos da gesto; no garantem a permanncia da unidade no longo prazo.

    41-60 Pouco Satisfatrio

    Alguns objetivos primrios podem no ser atingidos; h recursos para a gesto, porm a rea vulnervel a fatores externos e/ou internos devido a poucos meios disponveis para o manejo.

    61-75 Moderadamente Satisfatrio

    ou Regular

    Alguns objetivos secundrios podem no ser atendidos; apresentam deficincias que no proporcionam uma slida base para a gesto efetiva.

    76-89 Padro Satisfatrio Existem fatores e meios para a gesto e as atividades essenciais so desenvolvidas normalmente.

    90 Plenamente Satisfatrio ou

    Padro Excelncia

    Os componentes-chaves para a efetiva gesto esto presentes; podem absorver demandas e exigncias futuras sem comprometer a conservao dos recursos protegidos; o cumprimento dos objetivos est assegurado.

    Figura 5 Intervalos de classes, classificao e descrio do ndice do ndice de Efetividade de Gesto. Fonte: Adaptado de Castro (2007).

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    4.2.2. Anlise Estatstica

    A anlise estatstica predominantemente descritiva. Segundo Ferreira (2005), a anlise descritiva lida com a organizao, resumo e apresentao dos dados. Desta forma, a anlise das presses e ameaas faz uso da mdia, desvio padro e nmero mximo e mnimo das escalas numricas para a avaliao da efetividade de gesto e a anlise das atitudes da populao. Nesta ltima anlise, foram utilizadas tambm as frequncias relativas e absolutas das caractersticas demogrficas dos respondentes e das respostas aos itens da escala de Likert. Os dados quantitativos foram codificados e analisados usando o programa estatstico SPSS Statistic Package for Scientifc Studies, verso 12.0 para Windows.

    4.3. Fonte de Dados

    Considerando que o Parque Nacional de Ubajara um patrimnio natural de domnio

    da Unio, foi necessria uma autorizao do Instituto Chico Mendes para realizao desta pesquisa. A pesquisa baseou-se em dados primrios, os quais so provenientes dos questionrios aplicados aos funcionrios do PARNA de Ubajara e populao residente. As anlises tambm fizeram uso de informaes e dados obtidos atravs de reviso bibliogrfica, tais como livros, teses, artigos referentes s unidades de conservao. Porm, os trabalhos de Ervin (2003), Castro (2007) e sobre a metodologia RAPPAM foram de crucial importncia para a realizao desta pesquisa.

    5. RESULTADOS E DISCUSSO

    5.1. Anlise do Contexto do PARNA de Ubajara Presses e Ameaas

    Dos 52 fatores de presso e ameaas, segundo escores atribudos pelos respondentes, vinte e dois deles (ou 42,3%) no se aplicavam ao Parque Nacional de Ubajara, ou seja, obtiveram valores mdios dos escores aproximadamente zero. Por exemplo, cultivo de drogas, aquicultura, trajetos areos, gerao de energia, material gentico introduzido obtiveram mdias de aproximadamente zero; plantaes florestais, extrao de petrleo, minerao e extrao, estrada de ferro e guerra obtiveram mdia de 0,1; e linhas de cadeias porturias, terremotos, excesso de energia, e atividades de gestores, dentre outros, obtiveram mdias entre 0,2 e 0,4 (Tabela 1). Esses fatores experimentaram desvios padres variando entre 0,0 e 0,7, o que pode ser considerado bastante baixo, ou seja, a percepo dos tcnicos mostrou-se bastante consistente.

    Vinte e seis fatores de presso e ameaas obtiveram nveis de significncia baixos, ou seja, escores mdios variando entre 0,6 e 1,4, correspondendo a 41,6% do total de fatores. Observou-se baixo nvel de significncia nas seguintes categorias: Desenvolvimento (moradia, comrcio), Agricultura (cultivos agrcolas no madeireiros, pecuria e pastagem), Uso e Danos aos Recursos Biolgicos (caa, coleta de plantas, corte ilegal de madeira), Invases e Distrbios Humanos (turismo, pesquisa, educao, vandalismo), Modificaes dos Sistemas Naturais (incndios e queimadas, fragmentao da UC, efeitos de borda, perda das espcies estruturantes), Espcies Invasoras (invases de animais no nativos, patgenos), Entrada ou Gerao de Poluio (esgoto residenciais, esgotos de instalaes na rea

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    protegida, efluentes agrcolas e florestais, lixos e resduos slidos, poluentes atmosfricos), Eventos Geolgicos (deslizamentos), Mudanas Climticas e Climas Rigorosos (mudana e alterao do habitat, secas, tempestades e inundao) e Ameaas Culturais e Sociais (perda de ligao cultural). Os desvios padres desses fatores variaram entre 0,4 e 1,2, sendo que 70% deles obtiveram desvio padro maior que a unidade.

    Apenas quatro (ou 7,7%) fatores de presso e ameaas obtiveram escores mdios que correspondem ao nvel de significncia mdia, ou seja, aproximadamente 2, quais sejam: infraestrutura (1,8), na categoria de Desenvolvimento; linhas de servios pblicos (2,0), na categoria de Corredores de Transportes; invaso de plantas exticas (2,1), nas Espcies Invasoras; e eroso e assoreamento (1,8), na categoria de Eventos Geolgicos. O desvio padro para esses fatores variaram entre 0,4 e 0,9.

    Nenhum dos fatores de presso e ameaa obteve alto nvel de significncia, em termos mdios, embora os fatores moradia, comrcio, infraestrutura, cultivos agrcolas no madeireiros, linhas de servios pblicos, caa, coleta de plantas, turismo, invaso de plantas exticas, patgenos, esgotos residenciais, esgotos de instalaes na rea protegida, efluentes agrcolas e florestais e lixos e resduos slidos tenham obtido escore mximo (3). Isto significa que tais fatores se configuraram como matria de preocupao por parte alguns tcnicos, merecendo, assim, ateno especial dos gestores do PARNA de Ubajara.

    A grande maioria dos fatores (75%) obteve nvel de criticidade baixo, ou seja, igual ou menor a 35%. Os nveis de criticidade mdio, ou seja, entre 35% e 75%, foram obtidos por 25% dos fatores, enquanto nenhum dos fatores apresentou nvel de criticidade alta, ou seja, superior a 75%.

    TABELA 1 Estatstica descritiva dos escores e Nvel de Criticidade das categorias de presso e ameaas, e seus fatores, sobre o Parque Nacional de Ubajara, 2010.

    Categoria/Fator Escore

    NC2 Mdia DP1 Min. Max. N.

    Desenvolvimento 46,9 Moradia 1,444 1,236 0 3 9 48,1 Comrcio 1,000 1,116 0 3 9 33,3 Infraestrutura 1,778 0,667 1 3 9 59,3

    Agricultura 17,0 Cultivos agrcolas no-madeireiros

    1,444 1,130 0 3 9 48,1

    Cultivo de drogas 0,000 0,000 0 0 9 0,0 Plantaes florestais 0,111 0,333 0 1 9 3,7 Pecuria e pastagem 1,000 0,707 0 2 9 33,3 Aqicultura 0,000 0,000 0 0 9 0,0

    Produo de energia 2,5 Extrao de petrleo 0,111 0,333 0 1 9 3,7 Minerao e extrao 0,111 0,333 0 1 9 3,7 Gerao de energia 0,000 0,000 0 0 9 0,0

    Corredores de transportes 19,4 Rodovias e estrada de ferro

    0,111 0,333 0 1 9 3,7

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    Linhas de servios pblicos 2,000 0,707 1 3 9 66,7 Linhas de cadeias porturias

    0,222 0,667 0 2 9 7,4

    Trajetos areos 0,000 0,000 0 0 9 0,0 Uso e danos aos recursos biolgicos

    27,8

    Caa 1,444 1,014 0 3 9 48,1 Coleta de plantas 0,889 1,014 0 3 9 29,6 Corte ilegal de madeira 1,000 1,000 0 2 9 33,3 Pesca 0,000 0,000 0 0 9 0,0

    Invases e distrbios humanos

    28,1

    Turismo 1,333 1,225 0 3 9 44,4 Guerra 0,111 0,333 0 1 9 3,7 Pesquisa e educao 1,222 0,441 1 2 9 40,7 Atividades dos gestores 0,444 0,726 0 2 9 14,8 Vandalismo 1,111 0,982 0 2 9 37,0

    Modificaes dos sistemas naturais

    20,4

    Incndio e queimadas 0,889 0,601 0 2 9 29,6 Audes 0,111 0,333 0 1 9 3,7 Aumento da fragmentao da U.C.

    0,889 0,928 0 2 9 29,6

    Isolamento de outras reas protegidas

    0,333 0,707 0 2 9 11,1

    Outros efeitos de borda 0,778 0,441 0 1 9 25,9 Perda das espcies estruturantes

    0,667 0,500 0 1 9 22,2

    Espcies invasoras 32,4 Invaso de plantas exticas

    2,111 0,928 0 3 9 70,4

    Invaso de animais no-nativos

    0,667 0,707 0 2 9 22,2

    Patgenos (no-nativos e nativos)

    1,111 1,269 0 3 9 37,0

    Material gentico introduzido

    0,000 0,000 0 0 9 0,0

    Nota: (1) DP: Desvio padro; (2) NC: Nvel de Criticidade. Fonte: Dados da Pesquisa.

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    TABELA 1 Estatstica descritiva dos escores e Nvel de Criticidade das categorias de presso e ameaas, e seus fatores, sobre o Parque Nacional de Ubajara, 2010. (Cont.)

    Categoria/Fator Escore

    NC Mdia DP1 Min. Max. N.

    Entrada ou gerao de poluio 29,1 Esgotos residenciais 1,222 1,093 0 3 9 40,7 Esgotos de instalaes na rea protegida

    0,778 0,972 0 3 9 25,9

    Efluentes e descargas industriais 0,222 0,667 0 2 9 7,4 Efluentes agrcolas e florestais 1,444 1,014 0 3 9 48,1 Lixos e resduos slidos 1,444 0,726 1 3 9 48,1 Poluentes atmosfricos 0,667 0,707 0 2 9 22,2 Excesso de energia 0,333 0,500 0 1 9 11,1

    Eventos geolgicos 25,9 Vulces 0,000 0,000 0 0 9 0,0 Terremotos 0,333 0,500 0 1 9 11,1 Deslizamentos 1,000 0,707 0 2 9 33,3 Eroso e assoreamento 1,778 0,441 1 2 9 59,3

    Mudanas climticas e climas rigorosos

    19,4

    Mudana e alterao do habitat 0,667 0,500 0 1 9 22,2 Secas 0,667 0,707 0 2 9 22,2 Temperaturas extremas 0,444 0,726 0 2 9 14,8 Tempestades e inundao 0,556 0,527 0 1 9 18,5

    Ameaas culturais e sociais especficas

    13,6

    Perda da ligao cultura 0,778 0,667 0 2 9 25,9 Deteriorao de valores culturais locais

    0,111 0,333 0 1 9 3,7

    Destruio do patrimnio cultural 0,333 0,500 0 1 9 11,1 Geral 23,9

    Nota: (1) DP: Desvio padro; (2) NC: Nvel de Criticidade. Fonte: Dados da Pesquisa.

    Apenas a categoria de Desenvolvimento obteve nvel de criticidade mdio (46,9%) enquanto as demais categorias obtiveram nvel de criticidade baixo, entre 25% e 32,4%. Os fatores que obtiveram nveis de criticidade mdios, apresentados aqui em ordem decrescente, foram: invaso de plantas exticas (70,4%), linhas de servios pblicos (66,7%), infraestrutura (59,3%), eroso e assoreamento (59,3%), moradia (48,1%), cultivos agrcolas no madeireiros (48,1%), caa (48,1%), efluentes agrcolas e florestais (48,1%), lixos e resduos slidos (48,1%), turismo (44,4%), esgotos residenciais (40,7%), pesquisa e educao (40,7%), vandalismo (37%) e patgenos (37%).

    Deste modo, os fatores de presses e ameaas com nveis de criticidade mdios sobre o PARNA de Ubajara surgem a partir das atividades potencialmente impactantes da categoria de Desenvolvimento (46,9%), na forma de moradia (48,1%) e infraestrutura

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    (59,3%); da categoria de Espcies Invasoras (32,4%), na forma de invaso de plantas exticas (70,4%); da categoria Entrada ou Gerao de Poluio (29,1%), na forma de esgotos residenciais (40,7%), efluentes agrcolas e florestais (48,1%), lixos e resduos slidos (48,1%); da categoria Invases e Distrbios Humanos (28,1%), na forma de turismo (44,4%), pesquisa e educao (40,7%), e vandalismo (37%); da categoria de Usos e Danos aos Recursos Biolgicos (27,8%), na forma de caa (48,1%).

    O nvel de criticidade geral do PARNA de Ubajara ficou em 23,9%, que corresponde a um nvel de criticidade baixo, ou seja, inferior a 35%. Este resultado determinado fortemente pelo elevado percentual de fatores de presso e ameaas no aplicveis rea de estudo. Quando excluem-se aqueles fatores no aplicveis ao PARNA de Ubajara, o nvel de criticidade se eleva para 37,5%, passando para um nvel de criticidade mdio.

    5.2. Avaliao da Efetividade da Gesto do PARNA de Ubajara

    Dos 26 elementos avaliados quanto efetividade de gesto, trs deles (ou 11,5%)

    receberam escores mdios de aproximadamente 3, significando que todas as exigncias foram cumpridas; 17 elementos (ou 65,4%) receberam escores mdios de aproximadamente 2, significando que a maioria das exigncias foram cumpridas; e 6 elementos (ou 23,1%) tiveram escores mdios de aproximadamente 1, significando que poucas exigncias foram cumpridas (Tabela 2).

    Em termos mdios, nenhum elemento teve escore mdio igual a zero ou prximo disto, que representaria ausncia de cumprimento das exigncias. Embora para alguns elementos os informantes tenham atribudo escore igual a zero, como foi o caso dos seguintes elementos: plano para uso da terra e gua, taxas, demarcao dos limites, manuteno dos equipamentos, educao e conscincia, estado e vizinhos comerciais, comunidades locais e operadores de turismo (Tabela 2).

    TABELA 2 - Estatstica descritiva dos elementos dos mdulos e os percentuais do ndice de Efetividade de Gesto (IEG), 2010.

    Mdulo/Elemento Escore IEG1

    (%) Mdia DP Min. Max. N.

    Planejamento 70,8 Regulamentao da UC 2,167 0,577 1 3 12 72,2 Objetivo da UC 2,667 0,492 2 3 12 88,9 Desenho da UC 2,500 0,674 1 3 12 83,3 Plano de manejo 2,417 0,515 2 3 12 80,6 Plano de trabalho 1,500 0,674 1 3 12 50,0 Plano para o uso da terra e gua

    1,500 1,000 0 3 12 50,0

    Insumos 57,4 Fiscalizao 1,917 0,669 1 3 12 63,9 Inventrio dos recursos 2,167 0,718 1 3 12 72,2 Nmero de funcionrios 1,917 0,900 1 3 12 63,9 Treinamento de funcionrios 2,000 0,953 1 3 12 66,7 Oramento 1,333 0,492 1 2 12 44,4

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    Segurana do Oramento 1,500 0,674 1 3 12 50,0 Equipamento 1,917 0,669 1 3 12 63,9 Instalaes de visitantes 1,667 0,492 1 2 12 55,6 Taxas 1,083 0,900 0 3 12 36,1

    Processos 57,3 Demarcao dos limites 1,500 0,905 0 3 12 50,0 Sistema de proteo 2,167 0,718 1 3 12 72,2 Pesquisa 2,250 0,866 1 3 12 75,0 Gesto de recurso 2,500 0,798 1 3 12 83,3 Gerenciamento do oramento 1,417 0,669 1 3 12 47,2 Manuteno dos equipamentos

    1,917 0,793 0 3 12 63,9

    Educao e conscincia 1,917 0,900 0 3 12 63,9 Estado e vizinhos comerciais 1,250 0,866 0 3 12 41,7 Comunidades locais 1,333 0,778 0 3 12 44,4 Monitoramento e avaliao 1,833 0,577 1 3 12 61,1 Operadores de turismo. 0,833 1,115 0 3 12 27,8

    Geral 60,5

    Nota: (1) IEG: ndice de Efetividade da Gesto. Fonte: Dados da Pesquisa.

    Os elementos que receberam escores mdios correspondentes ao nvel mais elevado de cumprimento, ou seja, escore igual a 3 ou prximo disto, que significa que todas as exigncias foram cumpridas, foram: objetivo da UC (2,6), desenho da UC (2,5) e gesto dos recursos (2,5). Por outro lado, os elementos que receberam escores mdios mais baixos (prximo de 1), significando que poucas exigncias foram cumpridas, foram oramento (1,3), taxas (1,1), gerenciamento do oramento (1,4), estado e vizinho comercial (1,3), comunidades locais (1,3) e operadores de turismo (0,8). Os demais elementos receberam escores mdios correspondentes ao nvel em que a maioria das exigncias foi cumprida (2).

    Segundo os resultados da avaliao da efetividade de gesto, o Parque Nacional de Ubajara apresentou desempenho geral pouco satisfatrio, tendo obtido o valor do ndice de Efetividade de Gesto (IEG) de 60,5%, o que significa que alguns objetivos secundrios podem no ter sido atendidos e que poderiam fragilizar a gesto do PARNA de Ubajara. Porm, deve-se destacar que, praticamente, este nvel de efetividade de gesto est bem prximo do limite inferior da gesto moderadamente satisfatria (Figura 6).

    O desempenho geral da efetividade de gesto, medido pelo IEG, reflete o desempenho dos mdulos de Planejamento, Insumos e Processos. Esses mdulos obtiveram IEG, respectivamente, de 70,8%, 57,4% e 57,3% (Figura 6). O mdulo Planejamento foi o que apresentou melhor desempenho em termos de efetividade de gesto, correspondente ao nvel moderadamente satisfatrio. Os mdulos de Insumos e Processos, por sua vez, demonstraram desempenho pouco satisfatrio.

    Ainda com base na Tabela 2, verifica-se que, dos 26 elementos investigados, 7,7% deles mostraram-se insatisfatrios (abaixo de 40%); 34,6%, pouco satisfatrios (entre 41% e 60%); 42,3%, moderadamente satisfatrios (entre 61% e 75%); e, 15,4%, padro satisfatrio (entre 76% e 89%). Nenhum dos elementos apresentou nvel de efetividade de padro

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    excelente. No geral, 84,6% dos parmetros apresentaram efetividade de gesto abaixo de moderadamente satisfatrio.

    Mdulo IEG (%)

    Classificao da Efetividade de Gesto

    Planejamento 70,8 Moderadamente satisfatrio Insumos 57,4 Pouco satisfatrio

    Processos 57,3 Pouco satisfatrio Geral 60,5 Pouco satisfatrio

    Figura 6- Desempenho final (qualidade de gesto dos mdulos) e geral (efetividade de gesto do PARNA de Ubajara).

    Os elementos taxas e operadores de turismo foram os nicos a obterem nvel de

    efetividade insatisfatrio, respectivamente, de 36,1% e 27,8%. Isto pode ser devido ao fato de haver insatisfao por parte dos funcionrios do PARNA de Ubajara de como as receitas das taxas aplicadas aos visitantes do PARNA de Ubajara so gerenciadas. Isto porque as duas taxas cobradas dos visitantes taxa de visitao da gruta cobrada pela COOPTUR e a taxa do telefrico cobrada pelo Governo do Estado constituem receitas da Unio no vinculadas ao gerenciamento do PARNA de Ubajara. Outro aspecto que pode ter determinado este resultado foi o fato de que, no perodo em que esta pesquisa foi conduzida, os valores das taxas de visitao encontravam-se defasados. Portanto, no intuito de estabelecer novas tarifas, o Instituto Chico Mendes estaria realizando estudos especficos sobre esquemas de tarifao no PARNA de Ubajara.

    Com base na avaliao da efetividade de gesto, pode-se constatar que aes devem ser empreendidas no sentido de melhorar aqueles elementos que se encontram com nveis de efetividade baixos, ou seja, pouco satisfatrios ou insatisfatrios, e que abrangem 42,3% dos elementos do ciclo de avaliao e gesto do PARNA de Ubajara. Portanto, os elementos que devem ter prioridade em termos de aes que visem melhorar o nvel de efetividade da gesto do PARNA de Ubajara so: plano de trabalho (50%) e plano para o uso da terra e gua (50%), no mdulo de Planejamento; taxas (36,1%), oramento (44,4%), segurana do oramento (50%) e instalaes de visitantes (55,6%), no mdulo de Insumos; operadores de turismo (27,8%), estados e vizinhos comerciais (41,7%), comunidades locais (44,4%), gerenciamento do oramento (47,2%), e demarcao dos limites (50%).

    6. CONCLUSES E SUGESTES

    Os resultados da pesquisa mostraram que o Parque Nacional de Ubajara apresenta um ndice de efetividade de gesto pouco satisfatrio. So mltiplas as causas para esta situao. Dentre elas, convm ressaltar o fato que, nos mdulos Insumos e Processos, os ndices de efetividade tambm se apresentaram pouco satisfatrios, o que contribuiu decisivamente para este resultado. Somado a isto, at o presente momento, a situao fundiria do Parque no se encontra regularizada, visto que o PARNA de Ubajara teve sua rea aumentada mais de dez vezes, desde sua criao, e nenhum levantamento fundirio e das famlias que vivem nesta rea foi realizado.

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    De forma geral, a maioria dos fatores analisados apresentou baixo ndice de criticidade. Mas, isto no significa que a Unidade em questo no possa estar sofrendo a influncia de impactos exercidos pelas ameaas e presses identificadas. Isto porque alguns fatores analisados, por no se aplicarem ao PARNA de Ubajara, mas sim a outras regies do mundo, reduziram o ndice de criticidade do PARNA de Ubajara. Cerca de 30% dos fatores apresentaram um nvel de criticidade mdio, o que indica certo grau de vulnerabilidade do PARNA de Ubajara s presses e ameaas.

    Torna-se imprescindvel, entretanto a regularizao fundiria da rea em questo para que esta unidade seja gerenciada de acordo com seu Plano de Manejo. Alm disso, faz-se necessrio que as comunidades do entorno participem efetivamente no processo de deciso no mbito de gesto do PARNA de Ubajara. REFERNCIAS BRASIL. Decreto n. 84.017, de 21 de setembro de 1979. Regulamento dos Parques Nacionais Brasileiros. Legislao Federal. Braslia, 1979. BRASIL. Lei n. 9985, de 18 de julho de 2000. SNUC Sistema Nacional de Unidades de Conservao. Braslia, 2002. Legislao Federal. Editora IBAMA, 37p. BRITO, M. C. W. Unidades de conservao: intenes e resultados. FAPESP. So Paulo, 2000. 230p. CASTRO, R.C.L. Avaliao da efetividade de gesto e do uso pblico no parque estadual Serra do brigadeiro MG. Universidade Federal de Viosa, 2007. 130 f. Dissertao (Mestrado em Cincia Florestal). Universidade Federal de Viosa, Viosa, Minas Gerais, 2007. CAVALCANTE, A. Jardins suspensos no serto. Scientific American Brasil, Duetto Editorial, So Paulo, No. 32, janeiro, 2005. ERVIN, J. Metodologia para Avaliao Rpida e Priorizao de Manejo de Unidades de Conservao (RAPPAM). Gland, Sua: WWF, 2003. FARIA, H.H. Avaliao da Efetividade do Manejo de Unidades de Conservao: como proceder? In: CONGRESSO BRASILEIRO DE UNIDADE DE CONSERVAO, Curitiba, 1997. Anais... 1997. p. 478-499. FERREIRA, D.F. Estatstica Bsica. 1 ed. Lavras: Editora UFLA, 2005. HOCKINGS, M.; STOLTON, S.; DUDLEY, N. Evaluating Effectiveness A Framework for Assessing Management Effectiveness of Protected Areas. World Commission on Protected Areas Best Practice Protected Area Guidelines Series No. 6. Swizertland: University of Cardiff and IUCN, 2000. 121 p. IBAMA Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis. Efetividade de Gesto das Unidades de Conservao Federais do Brasil. Ibama, WWF-Brasil. Braslia: Ibama, 2007. LIMA, G.S. Criao, Implantao e Manejo de Unidades de Conservao no Brasil: Estudo de caso em Minas Gerais. Viosa: UFV, 2003. 85p. LIMA, G.S.; RIBEIRO, G.A.; GONALVES, W. Avaliao da Efetividade de Manejo das Unidades de Conservao de Proteo Integral em Minas Gerais. R. rvore, Viosa-MG, v. 26, n. 4, p. 647-653, 2005.

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