Captulo 7 - books. V., org. Filosofia, histria e ... tivas de formalizao desta ruptura com a tradio pretrita da sociologia da cincia e de recuperao

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  • Captulo 7 O programa forte da sociologia do conhecimento e o princpio da causalidade

    Manuel Palcios

    SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros PORTOCARRERO, V., org. Filosofia, histria e sociologia das cincias I: abordagens contemporneas [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 1994. 272 p. ISBN: 85-85676-02-7. Available from SciELO Books .

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  • O Programa Forte da Sociologia do Conhecimento e o Princpio

    da Causalidade

    Manuel Palcios

    Este ensaio atende a um duplo objetivo. Primeiro, apresentar o Programa Forte da sociologia do conhecimento, tal como foi formulado pela Escola de Edim-burgo, atravs de obras publicadas na dcada de 1970 e incio dos anos 80. Se-

    gundo, mantendo-se nos limites de uma exposio do Programa Forte, propor-

    cionar uma discusso um pouco mais detalhada sobre o princpio da causalidade

    na sociologia do conhecimento cientfico1.

    As controvrsias geradas pelo trabalho dos socilogos de Edimburgo per-

    sistem ocupando uma parte significativa dos debates contemporneos da socio-

    logia da cincia. No entanto, outras abordagens tericas, ainda que em princpio

    associadas ao sentido geral do Programa Forte, vieram se desenvolvendo com

    inspirao diversa do trabalho da Escola de Edimburgo. Um exemplo so as in-

    vestigaes da atividade cientfica de carter etnogrfico, que contriburam para

    o desenvolvimento de temas contidos no mbito do Programa Forte, mas dificil-

    mente seriam compatveis com alguns de seus princpios originais. Do mesmo

    modo, os estudos mais recentes, inspirados na teoria das redes, guardam uma

    relao ambgua com o Programa Forte2.

    1 A denominao "Escola de Edimburgo" terminou por se consagrar na literatura, reconhecendo a sin-gularidade da abordagem desenvolvida por alguns socilogos da Unidade de Estudos da Cincia da Universidade de Edimburgo, com nfase particular na contribuio terica de Barry Barnes e David Bloor. Das obras que demarcam a perspectiva terica da Escola, merecem destaque especial: Bloor, 1976 e 1983; Barnes, 1982. Os argumentos desenvolvidos neste ensaio, com o objetivo de expor as li-nhas gerais do Programa Forte, tm como base, em grande medida, estas trs obras.

    2 Para uma abordagem construtivista da cincia, ver: Knorr-Cetina, 1981. A elaborao terica mais de-senvolvida, segundo o paradigma ator/rede, encontra-se em Latour, 1987.

  • O ensaio foi organizado em quatro sees. Na primeira, apresentam-se as

    caractersticas gerais do Programa Forte, assinalando os seus vnculos com uma

    tradio de investigao sociolgica do conhecimento que inclui Durkheim e

    Mannheim. Na segunda seo, expuseram-se as objees de alguns crticos

    pretenso de estender os mtodos e teorias da sociologia do conhecimento

    anlise da cincia. Nesta seo, procuram-se enfatizar argumentos derivados da

    cincia contempornea da cognio. Na terceira parte, analisa-se a teoria dos jo-

    gos de linguagem - desenvolvida pelos socilogos de Edimburgo com base na

    contribuio de Wittgenstein. Por fim, na ltima seo, apresentam-se as propos-

    tas tericas que associam interesses sociais aos processos de formao de crenas

    e produo de conhecimento.

    1. O PROGRAMA FORTE DA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO E O PRIN-

    CPIO DA CAUSALIDADE

    A proposio de que h uma relao a ser investigada entre conhecimento cientfico e o contexto social no interior do qual produzido encontra-se na origem da sociologia da cincia. As primeiras observaes nesta direo datam da virada do sculo. Pode-se, portanto, legitimamente perguntar os motivos que justificariam a pretenso de se formular um "programa forte" para a sociologia do conhecimento, supostamente mais audacioso e de alcance mais largo dos que os esforos at ento empreendidos. Ainda mais quando se tem em vista o fato de que uma boa parte da audcia do programa residiria na tentativa de devassar o territrio da cincia com os instrumentos analticos da sociologia do conhecimento.

    Uma resposta satisfatria a esta pergunta levaria a investigar duas trajet-rias: a sociologia do conhecimento que se desenvolve orientada para o entendi-mento da cultura, das crenas compartilhadas pelos membros de uma comuni-dade ou um grupo social, incluindo-se neste rol o tema clssico das ideologias e a investigao antropolgica das crenas das sociedades primitivas, e, de outro lado, os estudos sobre a cincia, em particular a atividade cientfica institucio-nalizada das sociedades modernas.

    No seria abusivo afirmar que a tendncia dominante, durante muito tempo, foi o confinamento da sociologia do conhecimento ao territrio das ideo-logias e das crenas do homem comum, conferindo um estatuto particular ao co-nhecimento cientfico, supostamente impermevel aos mtodos e teorias dos so-cilogos. Os estudos sobre a cincia orientavam-se para a investigao histrica das descobertas cientficas e a anlise das instituies contemporneas que do suporte e continuidade ao trabalho dos cientistas. No primeiro caso, a anlise histrica contribua para explicar o nascimento de uma nova teoria ou o descr

  • dito de antigas disciplinas, estabelecendo nexos entre os processos sociais e as inovaes cientficas. Contudo, as relaes estabelecidas permaneciam restritas elucidao do que se convencionou chamar "contexto da descoberta". A verda-deira histria do conhecimento cientfico transcenderia as circunstncias contin-gentes dos cientistas singulares. Para alm dos fatos que informam a atividade cotidiana, a trajetria da cincia obedeceria a uma lgica prpria, ditada pela natureza especial do conhecimento cientfico.

    Desta perspectiva, a anlise das instituies cientficas contemporneas no poderia deixar de se pautar pela lgica atribuda ao processo de desenvolvi-mento cientfico. Se a cincia obedece a suas prprias determinaes, o que im-porta investigar a funcionalidade das instituies existentes para o livre curso do progresso cientfico. Constitui-se uma sociologia da cincia que no tem pro-priamente como objeto o conhecimento cientfico.

    A partir da dcada de 1970, a sociologia da cincia sofreu um duplo pro-cesso de mudana. De um lado, veio a se consolidar como uma rea de especia-lizao reconhecida, atraindo um nmero significativo de novos pesquisadores. De outro, assistiu constituio de novas abordagens, rompendo-se o predom nio da perspectiva funcionalista neste campo de estudos sociolgicos .

    O processo de institucionalizao da sociologia da cincia no universo acadmico trouxe consigo duas tendncias: a ampliao dos limites at ento fi-xados para a investigao sociolgica da atividade cientfica, ao mesmo tempo que estimulou um esforo de demarcao terica e metodolgica frente s ou-tras disciplinas envolvidas com o estudo do conhecimento cientfico.

    A tradio funcionalista havia implicitamente estabelecido uma diviso de trabalho com a filosofia da cincia. Aos socilogos caberiam os estudos sobre as instituies da cincia moderna e a investigao histrica das inovaes cientfi-cas, com a perspectiva de se identificarem as determinaes sociais atuantes nos diversos contextos relevantes para a histria da cincia. Mantinha-se, no entanto, o monoplio filosfico sobre os estudos relacionados com o contedo do conhe-cimento cientfico. A sociologia investigava o contexto de uma descoberta, mas se deteria, impotente, diante das questes - especificamente filosficas - relacio-nadas com o contedo daquela descoberta.

    A ruptura que se estabelece durante a dcada de 1970 contesta os limites estabelecidos, propondo como objeto legtimo de investigao sociolgica o co-nhecimento cientfico enquanto tal. O socilogo deve investigar o conhecimento

    3 Segundo Barnes, por esta poca, a sociologia da cincia nos Estados Unidos comea a se concentrar

    no estudo das especialidades cientficas. Na Inglaterra e no continente europeu, torna-se pela primeira

    vez uma rea de estudos reconhecida (Barnes, 1982:14).

  • cientfico do mesmo modo que formula e desenvolve hipteses para explicar as origens sociais das ideologias polticas ou as razes das crenas religiosas. Neste movimento, so revisitados os clssicos da sociologia do conhecimento e procu-ra-se estender as suas indagaes e mtodos anlise da cincia.

    O Programa Forte da sociologia do conhecimento representa uma das tenta-tivas de formalizao desta ruptura com a tradio pretrita da sociologia da cincia e de recuperao dos clssicos da sociologia do conhecimento para a anlise da cincia. Neste aspecto, Durkheim e Mannheim so as duas referncias mais impor-tantes para a formulao original do programa, apresentado de modo sistematizado por David Bloor, em Knowledge and Social Imagery, publicado em 1976.

    Ultrapassaria os limites deste artigo uma anlise mais exaustiva da in-fluncia de Durkheim e Mannheim na obra dos socilogos de Edimburgo, alm do fato de esta influncia no ser uniforme entre os integrantes do grupo4. Ao longo da exposio, acredito tornar-se patente a incorporao, decerto inovado-ra, de muitas idias cuja formulao exemplar se encontra nesses dois autores. Apenas com o intuito de situar alguns elementos mais significativos desta influn-cia, cabem duas breves observaes.

    As remisses obra de Durkheim so bastante freqentes no trabalho de David Bloor. Porm, uma noo particularmente relevante: a concepo durk heimiana de correspondncia e

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