DESAFIOS DAVIDA LíQUIDA À NOSSA .não há nada a ser debatido. Isso é pós-modernismo" (BAUMAN,2003)

  • View
    213

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of DESAFIOS DAVIDA LíQUIDA À NOSSA .não há nada a ser debatido. Isso é pós-modernismo"...

  • RESENHA

    DESAFIOS DA VIDA LQUIDA NOSSA IMAGINAOSOCIOLGICA

    Chega-nos a ns, leito-res brasileiros, maisum livro de ZygmuntBauman. O terceiro de umasrie de livros em que o signi-ficante "lquido" aparece nosttulos, substituindo uma outra,de quatro obras, do socilogo polons que trazia aexpresso "ps-rnodernidade" (das quais temos tra-duo de O mal-estar na ps-modernidade, e ticaps-moderna). Seria mais uma palavra da modaacadmica prt--porter, para satisfazer os apetitessociolgicos menos exigentes, que, reivindicando umapretensa identificao com uma reflexo social defeio "ensastca', nela encontrariam seu passaportecomo intrpretes up-to-date do presente?

    J descrito como "profeta da ps-modernidade"(PALLARES-BURKE, 2003) e sendo consideradoum dos socilogos contemporneos clebres - hajavista a quantidade de ttulos editados e traduzidosem vrias lnguas, numa rapidez mpar -, Baumantem o domnio de uma narrativa cujos ingredientesseriam suficientes para ser classificada como uma"moda sociolgica" (portanto, passageira e rapida-mente descartvel) e para tornar seu autor um dndique nos orientaria a viver em nosso atual "mundo emdescontrole" (ttulo de um livro de Giddens, amigo deBauman), ensinando-nos as mutaes dessa persona-lidade lquida, que somos compelidos a performatizar,fazendo-se e desfazendo-se na velocidade frenticade nossas sociedades de consumo. Uma sociologiaps-moderna, celebrando as novas configuraes dolao social, quase uma sociologia clnica, em que asquestes estruturais, os mecanismos de interpretaoe superao das iluses que nos turvam a viso doreal, e todo o iderio de transformao e revoluosocial estariam ausentes. Livrando-nos dessa cangapesada, demasiado "slida", libertando-nos sem cul-pa de nossa "tentao de profetismo" (BOURDIEU,2004: 36), poderamos agora, ns, cientistas sociais,debruarmo-nos com gosto sobre esses objetos mais"tenros": o amor, o eu, a intimidade, a sexualidade,

    De: Zygmunt Bauman. Vida lquida.Traduo de Carlos Alberfo Medeiros.Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.Por: ANTONIO CRISTIAN PAIVADoutor em Sociologia, professor adjuntoda Universidade Federal do Cear.

    as microssocialidades, as emo-es, a hospitalidade, etc. Seriaum tranqilizante para nossain-compreenso do mundo.Mas as coisas no so assim.

    Para compreender o quesignifica, no pensamento de

    Bauman, "a vida num mundo lquido-moderno': te-mos que fazer alguns esclarecimentos. Primeiro: o queteria ocasionado o deslocamento significante de "ps-modernidade" para "Iiquido/Iiquidez"! Bauman, quesempre recusou o rtulo de socilogo ps-moderno,faz a distino entre uma sociologia ps-modernae uma sociologia da ps-modernidade. Prope umsmile contundente para explicar a diferena: "domesmo modo que ser um ornitlogo no significa serum pssaro, ser um socilogo da ps-modernidadeno significa ser um ps-modernista, o que definiti-vamente no sou. Ser um ps-modernista significater uma ideologia, uma percepo do mundo, umadeterminada hierarquia de valores que, entre outrascoisas, descarta a idia de um tipo de regulamentaonormativa da comunidade humana e assume que to-dos os tipos de vida humana se equivalem, que todasas sociedades so igualmente boas ou ms; enfim,uma ideologia que se recusa a fazer julgamentos ea debater seriamente questes relativas a modos devida viciosos e virtuosos, pois, no limite, acredita queno h nada a ser debatido. Isso ps-modernismo"(BAUMAN,2003).

    Alm de explicitar essa distncia entre o teorde uma sociologia ps-moderna e o de sua reflexo,Bauman abandona o prprio termo ps-moderni-dade, usado at ento como "espcie de conceitoimprovisado': que continha pelo menos dois grandesinconvenientes: apesar de sugerir corretamente que"as condies de vida j so um tanto diferentes doque pensamos que seriam as condies modernas", oconceito era "descornprometido sobre a natureza dessadiferena'; alm disso, "sugeria, erradamente, que amodernidade 'terminou' e j estamos em outra era"(BAUMAN, 2007). Da a proposta de usar o conceito

    1147

  • de "modernidade lquida" como "modernidade semiluses': que destacaria a radicalizao da tendnciada vida moderna no sentido de destradicionalizao,de desencantamento, de desenraizamento, expressana frmula clebre de Marx e Engels, segundo a quala modernidade "derretia os slidos e profanava os sa-grados". A metfora da liquidez alude a esse carter de"solvente" (PIERUCCI, 2006), tpico da vida moderna,que dilui, liquefaz, deforma as instituies, os saberes eas subjetividades institudos, uma vez que caracters-tica do estado lquido no possuir forma definida.

    Ensasmo? Sim, no melhor sentido da palavra,e no no sentido de improvisao rasa, adornativa,de simulacro de pensamento. H, ao contrrio, umgrande esforo de ateno ao que se passa na vida,s pulsaes do mundo, uma sociologia da escuta denossos modos de vida e das formas de experinciadeterioradas. Da que, num outro texto (PAIVA,2006), falei da sociologia de Bauman como esforo de"crtica e clnica" (ttulo de um livro de G. Deleuze):a narrativa sociolgica seria um esforo de fornecerum insight profundo sobre a experincia humana deestar no mundo (BAUMAN, 2003). Mas, utilizandoa bela analogia de Bauman, sendo a vida "um lenolmuito curto: quando se cobre o nariz, os ps ficamfrios, e, quando se cobrem os ps, o nariz fica gelado': aanlise da vida social no seria possvel seno na basedessas tentativas sucessivas, inconclusas, envolvendogrande esforo intelectual, "sensibilidade potica"(BASTIDE, s/d: 86), e mesmo "ascese": experinciamodificadora de si nesse jogo da verdade, segundoFoucault (1988: 13); ou como metanoia, conversioad se, segundo Bourdieu (1989: 49). Vivendo nessaencruzilhada, nesse dilema, nesse perptuo exlio - ocientista social ao mesmo tempo agente e analistasocial - o socilogo se assemelhando a um meteco(BAUMAN, 2001: 236s) e a sociologia como uma"loucura" (TOURAINE, 1976: 14), pensar sociolo-gicamente propor mapas cognitivos para entendero presente, mas atentando que esses mapas nocessam de desmanchar-se, se querem estar alturados territrios que pretendem cartografar (sobre adistino entre mapa e territrio, ver Zygouris, 2002).Ensasmo, portanto, para evitar a segurana de teoriasdefinitivas, "segurana do sistema, em que tudo temseu lugar claro e definido" (WAIZBORT, 2000: 67),

    '481 REVISTA DE O'NCIAS SOCIAIS v.38

    que nos dispensaria da aventura de ouvir os rumoresdo cotidiano.

    Um terceiro e ltimo esclarecimento, antes depassarmos ao contedo de Vida lquida. Seria a so-ciologia de Bauman uma "novidade", no sentido deconfigurar-se como modalidade de reflexo sociol-gica excntrica tradio da teoria social cannica?Segundo nosso socilogo, a sociologia "constituium empenho constante para ampliar os horizontescognitivos dos indivduos e uma voz potencialmentepoderosa nesse dilogo sem fim com a condio hu-mana" (2003). Ao insistir na urgncia de seu papel debuscar solues coletivas para problemas individuais(contra as "homilias insistentes" das sociedades neo-liberais, globalizadas, consumistas, no sentido de queos indivduos encontrem, abandonados sua prpriasorte, solues individuais para os problemas coleti-vos, o que o fazem sob forma de consumismo e daproduo variada de sintomas relativos dificuldadede viver), Bauman convida-nos a exercitar aquelaqualidade de esprito que combina pensamento, sen-timento, imaginao e sensibilidade (MILLS, 1982:22), que nos diferencia enquanto socilogos, e quedita nossa tarefa e a promessa deste empreendimentointelectual fascinante: a imaginao sociolgica, que"nos permite compreender a histria e a biografia e asrelaes entre ambas, dentro da sociedade", segundoWright Mills (idem: 12). Penso que a sociologia deBauman est completamente pautada por essa tarefa eessa promessa. Contra uma certa sina acadmica queconsiste em "deixar o mundo como ': para Bauman,a interpretao sociolgica do mundo deve conduzir,sim, transformao das formas de vida viciosas, ex-cludentes e deterioradas, contribuindo, assim, "para abatalha por uma sociedade melhor, mais hospitaleiraaos seres humanos e sua modernidade" (2003).

    Enquanto crtica do presente, conscincia crticada sociedade, auto conscincia da modernidade (verCardoso, 2001; Bottomore, 1976; Horkheimer, 1966;Simmel, 1986), como "ontologia da atualidade", asociologia se dedica a compreender o presente, aatualidade: "o que se passa hoje? Que que se passaagora? E o que este 'agora', no interior do qual esta-mos uns e outros; e quem define o momento em queescrevo?" (FOUCAULT, 1994: 813-814; 1984: 103).Portanto, pensar criticamente o presente como estra-

    n.l 2007

  • tgia de compreenso e de libertao de possibilidadeshumanas at ento emparedadas (BAUMAN, 2001). Asociologia se situa, a, no meio fio entre reflexividadee opacidade (MELUCCI, 2005) em relao ao que nosacontece individual e coletivamente. Diante disso, oesforo terico de Bauman se insere na longa esteirada melhor tradio sociolgica, no servindo ao bur-burinho das novidades de consumo rpido ...

    Mas, vejamos a caracterizao que Baumanprope de nossa atual Vida lquida.

    O livro compe-se de sete captulos, precedidosde uma introduo, que serve de fio condutor do livro,e trata, sob o ngulo de sucessivas mas, interligadasjanelas analticas, da temtica das ambivalncias, ris-cos, ansiedades e aporias que os indivduos enfrentamnas relaes consigo (as emoes, os sentimentos, aidentidade, a auto-estima, a relao com a comida eo corpo), nas relaes familiares (nova distribuiosocial das idades, relaes pais e filhos, relao coma maternidade, a infncia e a eroso da instituio fa-miliar) e nas relaes com a gora, isto , com a esferapblica (caracterizao do novo cosrnopolitismo, daatual dificuldade de conviver com o prximo, relaocom a cidade e o sentido das polticas comunitriase de guetizao, mediadas pelo consumo), alm darelao com a arte e o trabalho - relaes todas elasmediadas pelos "processos de marketizao das for-mas de vida".

    A verso brasileira desta obra perde um tanto daqualidade editoria