DesenvolvimentoSustentáveleaAbordagemGrassroots ...· esses críticos, outros indicativos a par da

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  • Desenvolvimento Sustentvel e a Abordagem Grassroots:delineando caminhos convergentes

    AUGUSTO MARCOS CARVALHO DE SENAUniversidade de Fortalezaamsena@unifor.brFTIMA REGINA NEY MATOSUniversidade de Fortalezafneymatos@unifor.brRAFAEL FERNANDES DE MESQUITAUniversidade de Fortalezafernandesrafael@live.comDIEGO DE QUEIROZ MACHADOUniversidade de Fortalezadiegoqueirozm@yahoo.com.br

  • XVI ENGEMA 2014 1

    Desenvolvimento Sustentvel e a Abordagem Grassroots: delineando caminhos

    convergentes

    Resumo

    O objetivo deste trabalho analisar a conjectura de convergncia existente entre a concepo do

    desenvolvimento sustentvel tradicional pilares econmico, social e ambiental e a perspectiva do

    desenvolvimento sustentvel considerando o spectrum de resistncia contido na abordagem grassroots

    economia solidria, movimentos sociais, ecologia poltica e identidade local. Mesclas entre os pilares

    do desenvolvimento sustentvel tradicional e o spectrum de resistncia da abordagem grassroots pilar

    econmico com economia solidria, pilar social com movimentos sociais, pilar ambiental com ecologia

    poltica, e pilar cultural (um novo pilar acrescido concepo tradicional) com identidade local so

    conjecturadas de forma a evidenciar caminhos convergentes entre as abordagens analisadas, ensejando

    um delineamento mais robusto para uma nova concepo de desenvolvimento sustentvel.

    Palavras-chave: Desenvolvimento Sustentvel. Abordagem Grassroots. Resistncia.

    Sustainable Development and Grassroots Approach: outlining converging paths

    Abstract

    This article aims to analyze a convergence conjecture that there exists between the traditional approach

    of sustainable development and a sustainable development perspective that considers a spectrum of

    resistance coming from the grassroots approach solidarity economy, social movements, political

    ecology and local identity. Merging of the traditional sustainable development pillars and the resistance

    spectrum of the grassroots approach economic pillar with solidarity economy, social pillar with social

    movements, environmental pillar with political ecology, and cultural pillar (a new pillar added to the

    traditional conception) with local identity is conjectured in order to evidence convergent paths

    between the analyzed approaches, leading to a more robust structure for a new conception of

    sustainable development.

    Keywords: Sustainable Development. Grassroots Approach. Resistance.

    Introduo

    As ltimas dcadas do sculo passado e o incio de sculo XXI tm sido marcados por intensas

    transformaes nas relaes socioeconmicas, ambientais e culturais, resultantes de cleres mudanas

    nos padres tcnicos, cientficos e informacionais e nas interaes multifacetadas que permeiam a

    dinmica das sociedades hodiernas. Isso, de algum modo, pode ser interpretado como nuanas da atual

    fase do sistema capitalista que vislumbra a expanso das atividades produtivas em um intenso processo

    de globalizao multidimensional (BOSSLE, 2011).

    Na dinmica desse processo tem-se tambm observado a emergncia de novos

    encaminhamentos que o capitalismo tradicional no est apto a absorver a forte tendncia de

    possibilidades produtivas que embutem preocupaes sociais, ambientais e culturais em suas atividades

    econmicas. Tal nova perspectiva de importncia crucial, como foco de resistncia, em relao s

    demandas por acumulao tradicional que, muitas vezes, forjam um imaginrio social voltado ao

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    consumismo material e difunde um padro de vida social insustentvel, com parte

    substancial das populaes ficando margem dos benefcios.

    A estrutura econmica do modo de produo capitalista tradicional caracteriza-se, no mbito

    das foras produtivas, pelo emprego da mquina e do trabalho coletivo, baseando-se na propriedade

    privada dos meios de produo. Isso quer dizer que a partir da Revoluo Industrial, s quem possui

    capital, ou s quem o acumulou durante sculos, pode ser proprietrio dos meios de produo.

    Segundo Escobar apud Lander (2005), a economia geralmente pensada como um sistema de

    produo. Da perspectiva da antropologia da modernidade, entretanto, a economia deve ser vista como

    uma instituio composta de sistemas de produo, poder e significao. Os trs sistemas uniram-se no

    final do sculo XVIII e esto inseparavelmente ligados ao desenvolvimento do capitalismo e da

    modernidade ocidental. Devem ser vistos como formas culturais por meio das quais os seres humanos

    so transformados em sujeitos produtivos. A economia no apenas, nem sequer principalmente, uma

    entidade material. , antes de tudo, uma produo cultural, uma forma de produzir sujeitos humanos e

    ordens sociais de um determinado tipo.

    Tendo em vista o carter crtico que envolve o debate sobre o capitalismo tradicional com suas

    nuanas e as novas conjecturas produtivas que possibilitam um olhar socioambiental, poltico,

    solidrio, e cultural em atividades capitalistas (no tradicionais), o presente estudo engrossa a massa

    crtica de contribuies que defendem sociedades menos desenvolvidas dos meandros do capitalismo

    tradicional que, no mais das vezes, tenta impor padres socioeconmicos e culturais completamente

    alheios aos das comunidades locais.

    Apenas considerando a primeira mescla, economia solidria com o pilar econmico do

    desenvolvimento sustentvel tradicional, pode-se sugerir uma conjectura de resistncia que expande a

    concepo tradicional a uma perspectiva bem mais promissora e adequada ao verdadeiro carter

    econmico do desenvolvimento sustentvel, incluindo igualdade, cooperao, liberdade e autogesto,

    valores-chave da economia solidria (NUNES, 2009). Assim, uma melhor forma de se referir a esse

    pilar seria intitul-lo Pilar Econmico Solidrio e no apenas Pilar Econmico.

    Diante do exposto, o objetivo deste trabalho analisar a conjectura de convergncia entre a

    concepo do desenvolvimento sustentvel tradicional e a perspectiva do desenvolvimento sustentvel

    considerando o spectrum de resistncia contido na abordagem grassroots. Dessa forma, a concepo do

    desenvolvimento sustentvel padro apresentada de incio. Para os trs pilares (econmico, social e

    ambiental), mais a adio do pilar cultural, so conjecturadas mesclas de modo a revestir a concepo

    tradicional com a perspectiva de resistncia da abordagem grassroots (ESCOBAR, 1995).

    Concepo do Desenvolvimento Sustentvel

    A construo do conceito de desenvolvimento um retrato da evoluo da economia global,

    dividindo-se em trs fases: i) a que o coloca como sinnimo de crescimento econmico; ii) a que nega a

    possibilidade de existir um efetivo desenvolvimento mundial; e iii) a que agrega o valor ambiental

    como sustentculo desenvolvimentista, dando destaque ao desenvolvimento sustentvel

    (MAGALHES; MOTA, 2012).

    Segundo Sachs (2008), por tempos, a ideia de desenvolvimento confundia-se com crescimento,

    tendo como base os fundamentos econmicos, como citado anteriormente. Entretanto, o crescimento

    econmico parte da premissa de que quanto maior o progresso material, maior ser a melhoria dos

    padres sociais de determinada populao, ou seja, a elevao dos benefcios sociais seria uma

    consequncia natural do crescimento econmico. Tem-se uma viso de desenvolvimento que privilegia

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    uma viso quantitativa do fenmeno econmico e seus impactos sociais, ao mesmo tempo

    em que prega o no intervencionismo estatal, bem como a capacidade dos atores econmicos de se

    autodeterminarem e de encontrarem o ponto de equilbrio necessrio manuteno da sade do cenrio

    econmico global.

    Surgem ento crticas ao associativismo do crescimento econmico e do desenvolvimento

    sustentvel, no negando a importncia deste primeiro elemento para o desenvolvimento, entretanto, o

    crescimento econmico deixa de ser encarado como um fim em si mesmo e tampouco como o nico

    caminho para se chegar ao desenvolvimento (VEIGA, 2005).

    Segundo Magalhes e Mota (2012), a referida constatao nasce da observncia do recorrente

    descompasso entre desenvolvimento e crescimento econmico, que nem sempre acompanhado de

    mudanas sociais ocorridas na mesma proporo ou velocidade. Com efeito, em cenrios de rpido

    crescimento econmico, o desenvolvimento tem se mostrado uma exceo histrica e no a regra geral.

    Outro fato muito criticado em relao ao crescimento econmico o favorecimento alta concentrao

    de riqueza e de renda nas mos de poucas pessoas. Essa caracterstica se mostra especialmente presente

    em modelos econmicos que estimulam a criao de arquiplagos isolados de gerao de riqueza,

    propiciando padres de crescimento excludente. Um exemplo desse arqutipo de arquiplago a Zona

    Franca de Manaus, cidade que h anos vem se situando entre os melhores ndices do PIB brasileiro,

    mas que tambm apresenta enormes e crescentes desigualdades sociais.

    Diante dessas percepes, muitos tericos se insurgiram contra a idealizao do

    desenvolvimento, dos quais destacamos aqui Arrigi