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CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL 53ª Assembleia Geral Aparecida - SP, 15 a 24 de abril de 2015 04B/53ª AG(Sub) DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA NO BRASIL 2015 - 2019

DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO EVANGELIZADORA DA …files.curso-de-teologia-etel.webnode.com/200000009-14b2915ac1... · A experiência do encontro transformador com Jesus Cristo insere

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CONFERNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

53 Assembleia Geral

Aparecida - SP, 15 a 24 de abril de 2015

04B/53 AG(Sub)

DIRETRIZES GERAIS DA AO

EVANGELIZADORA DA IGREJA

NO BRASIL

2015 - 2019

2

OBJETIVO GERAL

EVANGELIZAR,

a partir de Jesus Cristo e na fora do Esprito Santo,

como Igreja discpula, missionria e proftica,

alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia,

luz da evanglica opo preferencial pelos pobres,

para que todos tenham vida,

rumo ao Reino definitivo.

3

I N T R O D U O

1. A Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil CNBB, com as presentes Diretrizes Gerais da Ao Evangelizadora (DGAE) 2015-2019, prossegue a sua histria de

promoo da pastoral orgnica de conjunto no Brasil. Desde o Plano de Emergncia

(1962), os Bispos tm tomado decises colegiais a respeito da evangelizao em suas

Igrejas particulares, apresentando-as sob a forma de Planos e de Diretrizes.

2. Na sua Assembleia Ordinria de 2014, a CNBB decidiu dar continuidade s DGAE 2011-2015, atualizando-as luz da Exortao apostlica Evangelii Gaudium, sobre a

alegria do Evangelho. A continuidade foi motivada pela necessidade de dar

prosseguimento ao processo de aplicao do Documento de Aparecida, que a principal

referncia das Diretrizes 2011-2015. O renovado empenho missionrio que a

Conferncia de Aparecida nos pede e o amplo processo de converso pastoral que ela

prope, esto em pleno curso. Alm disso, a reviso das DGAE luz da Evangelii

Gaudium mostrou-se igualmente necessria. O Papa Francisco apresentou a sua

Exortao indicando caminhos para o percurso da a Igreja nos prximos anos 1 e

convocou toda a Igreja a avanar no caminho da converso pastoral e missionria, a

no deixar as coisas como esto e a se constituir em estado permanente de misso.2

A recepo da Evangelii Gaudium pela Igreja no Brasil refora e aprofunda as grandes

opes da Conferncia de Aparecida assumidas pela CNBB, em suas diretrizes para

ao evangelizadora. A celebrao do quinquagsimo aniversrio da concluso do

Conclio Vaticano II (08.12.1965) e o Ano Santo da Misericrdia (08.12.2015 a

20.11.2016) nos convidam a prosseguir no caminho da renovao pastoral, no contexto

de uma nova evangelizao, com novo ardor missionrio e criatividade pastoral.

3. Com renovada conscincia de que a evangelizao continuamente parte da contemplao de Jesus Cristo presente em sua Igreja e se desenvolve em dilogo com os

contextos em que se realiza, estas Diretrizes so oferecidas a todas as Igrejas

particulares do Brasil e demais organismos eclesiais. Que elas possam contribuir para

que a alegria do Evangelho renove profundamente nossas comunidades e anime

continuamente nosso entusiasmo missionrio.

1 EG, n. 1. 2 EG, n. 25.

4

C A P T U L O I

PARTIR DE JESUS CRISTO

1 - A Igreja vive de Cristo

4. Jesus Cristo a fonte de tudo o que a Igreja e de tudo o que ela cr3. Em sua misso evangelizadora, ela no comunica a si mesma, mas o Evangelho, a palavra e a presena

transformadora de Jesus Cristo, na realidade em que se encontra. Ela a comunidade

dos discpulos missionrios, que respondem permanentemente pergunta decisiva:

quem Jesus Cristo? (Mc 8,27-29). O fundamento do discipulado missionrio a

contemplao de Jesus Cristo. Como afirma o Papa Francisco, a melhor motivao

para se decidir comunicar o Evangelho contempl-lo com amor, deter-se nas suas

pginas e l-lo com o corao4. Na comunho eclesial, eles experimentam o fascnio

que faz arder seus coraes (Lc 24,32), e os leva a tudo deixar (Lc 5,8-11) e a viver um

amor incondicional a Ele (Jo 21,9-17). A paixo por Jesus Cristo os leva verdadeira

converso pessoal e pastoral (Lc 24,47; At 2,36ss).

5. A Igreja, fiel a Jesus Cristo, coloca-se a servio do Reino de Deus. Os evangelhos apresentam o Reino como o centro da vida e da pregao de Jesus. Completou-se o

tempo e o Reino de Deus est prximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho (Mc

1,15). Afirmar que o Reino de Deus est prximo anunciar que Deus mesmo est

prximo. Seu reinado significa sua atuao salvadora e sua proximidade paterna e

misericordiosa para com todos, especialmente para com os pobres, marginalizados e

sofredores de todo tipo. Por isso, a pregao e a conduta de Jesus suscitaram surpresa,

fascnio e entusiasmo, mas despertaram tambm suspeitas, fechamento, escndalo e

dio. O Reino de Deus no apenas a mensagem de Jesus. Ele mesmo a chegada

desse Reino. Sua mensagem e sua pessoa so inseparveis. Nele, o Reino dado

gratuitamente (Mt 21,34; Lc 12,32), deixado em herana (Mt 25,34; Lc 22,29). Cabe

ao discpulo acolhe-lo por meio da converso e da f (Mc 1,15). Como afirma o Papa

Francisco, o primado sempre de Deus, a verdadeira novidade aquela que o

prprio Deus misteriosamente quer produzir, a iniciativa pertence a Deus5.

6. Neste sentido, a Igreja no Brasil se alegra com a proclamao do Ano Santo da Misericrdia. Na Sagrada Escritura [...] a misericrdia a palavra-chave para indicar o

agir de Deus para conosco. Ele no se limita a afirmar o seu amor, mas torna-o visvel e

palpvel em seu Filho Jesus, que o rosto da misericrdia do Pai. Por isso, a Igreja

tem a misso de anunciar a misericrdia de Deus, corao pulsante do Evangelho, que

por meio dela deve chegar ao corao e mente de cada pessoa, especialmente atenta

queles que vivem nas mais variadas periferias existenciais6.

7. A experincia do encontro transformador com Jesus Cristo insere seus discpulos na comunho com a Santssima Trindade e lhes comunica a misso de anunciar o Reino de

Deus, com palavras e sinais. A Igreja existe no mundo como obra das trs Pessoas

divinas, povo de Deus (em relao ao Pai), corpo e esposa de Cristo (em relao ao

Filho) e templo vivo (em relao ao Esprito Santo). Ela o povo unido pela unidade

do Pai e do Filho e do Esprito Santo7. Como comunho (koinonia) divino-humana ela

3 DV, n. 8. 4 EV, n. 264. 5 EG, n. 12. 6 MV, 9, 1, 12, 15. 7 LG, n. 4.

5

constitui na terra o germe e o incio do Reino, pois Jesus a iniciou pregando a boa

nova, que a chegada do Reino de Deus8. E, desse modo, ela no mundo sacramento

de salvao, como afirmou o Conclio Vaticano II: Jesus Cristo, ao ressuscitar dentre

os mortos (Rm 6,9), comunicou seu Esprito vivificante, por meio do qual constituiu seu

corpo, que a Igreja, como sacramento universal de salvao9.

2 - Igreja: lugar de encontro com Jesus Cristo

8. na comunho eclesial que o discpulo missionrio, ao contemplar Jesus Cristo, descobre o Verbo que arma sua tenda entre ns, o Filho nico do Pai, cheio de amor e

fidelidade (Jo 1,14); aquele que, sendo rico, se fez pobre para a todos enriquecer (2Cor

8,9),10 sendo de condio divina, no se fecha em si mesmo, mas se esvazia at a morte

e morte de cruz (Fl 2,5ss) e no tem sequer onde reclinar a cabea (Mt 8,20). Ele est

sempre a caminho para anunciar o Reino, a graa, a justia e a reconciliao (Lc 4,43).

Ele se preocupa com as ovelhas que no fazem parte do rebanho (Jo 10,16), mesmo que

seja uma nica ovelha perdida, sofrida (Lc 15,4-7), para reanim-las diante da dor e da

desesperana (Lc 24,13-35). Deus se comunica conosco por meio de sua Palavra que

Jesus Cristo, Verbo feito carne. 11 este mesmo Jesus que vir, um dia, em sua glria,

para julgar os vivos e os mortos (Mt 25,31-46).

9. O encontro com Jesus enche a vida de alegria, convida converso e ao discipulado missionrio. No incio do ser cristo, no h uma deciso tica ou uma grande ideia,

mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que d vida um novo

horizonte e, desta forma, o rumo decisivo12. Por sua vez, este encontro mediado pela

ao da Igreja, que se concretiza em cada tempo e lugar, de acordo com o jeito de ser de

cada povo, de cada cultura. A descoberta do amor de Deus manifestado em Jesus Cristo,

dom salvfico para toda a humanidade, no acontece sem a mediao dos outros (Rm

10,14). Aqui est a fonte da ao evangelizadora. Porque, se algum acolheu este amor

que lhe devolve o sentido da vida, como que pode conter o desejo de o comunicar aos

outros?13 . A primeira motivao para evangelizar o amor que recebemos de

Jesus, a experincia de sermos salvos por Ele, que nos impele a am-lo cada vez

mais14.

10. A f no nasce de uma deciso pessoal mas de um encontro com uma pessoa (Bento XVI, Discurso inaugural de Aparecida, 315). E por ser encontro pessoal tambm

decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. E este estar com Ele introduz na

compreenso das razes pelas quais se acredita.16 Devido ao respeito pelo interlocutor

e pela liberdade que o ato de f exige, que este dilogo f e razo necessrio. Ele se

faz ainda mais urgente no contexto da nova evangelizao, desafiado por

sentimentalismos efmeros e emocionalismo insacivel.17

8 LG, n. 5. 9 LG, n. 48; LG, n. 1, 4, 59; SC, n. 5, 26; GS, n. 42, 45; AG, n. 1, 5. 10 BENTO XVI, Discurso inaugural da Conferncia de Aparecida, n. 3; DAp, n. 31. 11 VD, n. 6. 12 DCE, n. 217. 13 EG, n. 8. 14 EG, n. 264. 15 BENTO XVI, Discurso inaugural da Conferncia de Aparecida, 3 16 PF, n. 10. 17 VD, n. 5.

6

3 Atitudes fundamentais do discpulo missionrio

11. O discpulo missionrio encontra nas atitudes de alteridade e gratuidade as marcas que configuram sua vida de Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre para nos

enriquecer com sua graa (2Cor 8,9) e que veio para servir e dar a vida em resgate

por muitos (Mt 20,28). A se encontram a fonte de duas atitudes fundamentais.

Alteridade se fundamenta na encarnao e se refere ao outro, ao prximo, quele que,

em Jesus Cristo, meu irmo ou minha irm, mesmo estando do outro lado do

planeta.18 As diferenas convidam ao respeito mtuo, ao encontro, ao dilogo, partilha

e ao intercmbio de vida e solidariedade. O cristo vive a gratuidade, que encontra no

mistrio pascal sua mxima expresso e sua fonte permanente. A vida s se ganha na

entrega, na doao. Quem quiser perder a sua vida por causa de mim a encontrar!

(Mt 10,39). Gratuidade significa amar, em Jesus Cristo, o irmo e a irm, respondendo,

atravs de atitudes fraternas e solidrias, a grande questo: quem o meu prximo? (Lc

10,29), querendo e fazendo bem ao outro sem nada esperar em troca. Ainda mais, Jesus se

declara presente nos sofredores e, o que feito ou negado a eles, declara feito ou negado a

Si mesmo, fazendo do amor-servio o critrio do julgamento (Mt 25,31-46). Com essas

atitudes, corta-se a raiz mais profunda da violncia, da excluso, da explorao e de toda

discrdia.

12. Com as atitudes de gratuidade e alteridade, expresses do Amor, os discpulos missionrios promovem justia, paz, reconciliao e fraternidade. Desse modo,

oferecem sociedade atual o testemunho do perdo e da reconciliao (Lc 23,34), que

devem ser incessantemente testemunhados e transmitidos (Mt 18,21-22) em um

contexto de crescente violncia. A radicalidade do amor de Deus atinge sua extrema

manifestao no amor aos inimigos. A reconciliao supera toda diviso que nos afasta

de Deus e nos separa uns dos outros. Os discpulos missionrios, ao contemplar o

Crucificado Ressuscitado reconhecem que a loucura e o escndalo (1Cor 1,18.21) do

Reino de Deus chegam a seu pice na reconciliao (Rm 5,6-8; Lc 23,34). Diante de

graves situaes que fazem os irmos sofrerem, os discpulos se enchem de compaixo,

clamam por justia e paz e sabem que s se vence o mal com o bem (Rm 12,17-21).

Motivados pela atitude de constante ida ao encontro do outro, contemplam a realidade,

encarnando-se nela, discernindo os sinais do Reino de Deus e trabalhando para que ele

cresa cada vez mais.

4 A Igreja em sada

13. Ser verdadeiro discpulo missionrio exige o vnculo efetivo e afetivo com a comunidade dos que descobriram fascnio pelo mesmo Senhor.19 Ele sabe que exerce

sua misso na Igreja, em sada20. Naquele ide de Jesus, esto presentes os cenrios e

os desafios sempre novos da misso evangelizadora da Igreja, e hoje todos somos

chamados a esta nova sada missionria.21 O papa Francisco afirma: prefiro uma

Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter sado pelas estradas, a uma Igreja enferma

pelo fechamento e a comodidade de se agarrar s prprias seguranas. Por isso ela sabe

ir frente, tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar

18 NMI, n. 43. 19 EN, n. 16. 20 EG, n. 20. 21 EG, n. 20.

7

s encruzilhadas dos caminhos para convidar os excludos. Vive um desejo inesgotvel

de oferecer misericrdia. 22 A sada exige prudncia e audcia, coragem e

ousadia.23

14. A Igreja, Me de corao aberto, casa aberta do Pai 24, conclama a todos para reunir-se na fraternidade, acolher a Palavra, celebrar os sacramentos e sair em misso, no

testemunho, na solidariedade e no claro anncio da pessoa e da mensagem de Jesus

Cristo. Na Igreja, o fiel encontra a fora de uma unio que ultrapassa raas, condies

econmico-sociais, preconceitos, discriminaes (Gl 3,28). A unidade de todos, em

meio diversidade de dons, servios, carismas e ministrios25, testemunha o amor

trinitrio do Pai, pelo Filho, no Esprito.

15. Viver o encontro com Jesus Cristo implica necessariamente amor, gratuidade, alteridade, unidade, eclesialidade, fidelidade, , perdo e reconciliao. Torna o o cristo

firmemente enraizado e edificado em Jesus Cristo (Ef 3,17; Cl 2,7), semelhana da

casa que se constri sobre a rocha (Mt 7,24-27). Com Jesus, somos chamados a viver

uma intimidade itinerante26, que partilha da sua vida, da sua misso e dos seus

sentimentos (Fl 2,5). A Igreja vive sua fidelidade a Cristo e ao Evangelho nos contextos

em que se encontra. O povo de Deus se encarna nos povos da Terra27. Uma f

autntica que nunca cmoda nem individualista comporta sempre um profundo

desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da

nossa passagem por ela28.

22 EG, n. 49. 23 EG, n. 33, 47, 85, 129, 167, 194. 24 EG, n. 46, 47.

25 LG, n. 9-13.

26 EG n. 23

27 EG, n. 115. 28 EG, n. 183.

8

C A P T U L O I I

MARCAS DE NOSSO TEMPO

16. Como o Filho de Deus assumiu a condio humana, nascendo e vivendo como membro de um determinado povo e em uma realidade histrica (Lc 2,1-2), seus discpulos, fiis

a Ele, anunciam o Evangelho luz da pessoa, da vida e da palavra de Jesus Cristo,

Senhor e Salvador. Assim, testemunham o Evangelho acolhendo as alegrias e

esperanas, tristezas e angstias do homem de hoje, especialmente dos mais pobre.29 Os

discpulos missionrios sabem que evangelizam tambm procurando enfrentar os

diferentes desafios que podem se apresentar,30 e que, para isto, devem conhecer a

realidade sua volta, atentos aos sinais dos tempos e, em atitude de discernimento, nela

mergulhar iluminados pela f.

17. Evangelizar , em primeiro lugar, dar testemunho.31 A Igreja no Brasil tem sido testemunha do Evangelho da vida e da promoo da justia e da paz e acompanha com

ateno a realidade cultural, econmica e poltica da sociedade brasileira,

especialmente atenta aos pobres, que, tendo de lutar para viver e muitas vezes com

pouca dignidade, so a maioria da populao e vivem seu dia a dia precariamente. 32

18. Os elementos do contexto em que a Igreja vive e age so aqui apresentados e interpretados numa perspectiva pastoral, na linha do discernimento evanglico.33 Em

grande parte, so condicionados pela conjuntura cultural e econmica mundial.

Assumem caractersticas comuns em todo o territrio nacional, mas em cada local que

abrem possibilidades novas e fazem sentir o peso de seus limites e distores. Por isso,

cada comunidade convidada a conhecer bem os desafios locais, entre os quais tem que

viver e com os quais tem que interagir no cumprimento de sua misso.34

1. Contexto atual: mudana de poca

19. Vivemos uma poca de transformaes profundas. 35 No se trata de poca de mudanas, mas de uma mudana de poca36. So tempos nos quais se constatam

avanos e conquistas no mundo das cincias e da tcnica, que proporcionam conforto e

bem-estar. Constatam-se tambm avanos em vrios mbitos da sociedade: a promoo

da mulher; a valorizao das minorias tnicas; o destaque justia, paz e ecologia; a

conscincia da importncia dos movimentos sociais e dos direitos educao e sade;

iniciativas para a superao da misria e da fome.37

20. O fenmeno da globalizao, embora atinja todos os recantos do planeta, no se restringe ao mbito geogrfico, mas produz transformaes que atingem todos os

setores da vida humana. Vive-se sob o imperativo da racionalizao tcnico-cientifica,

voltada para a produtividade, o consumo e o lucro, que representam, muitas vezes,

29 GS, n. 1. 30 EG, n. 61. 31 EN, 26. 32 EG, n. 52. 33 EG, n. 50, 51. 34 EG, n. 108. 35 DAp, n. 33-100; EG, n. 52. 36 DAp, n. 44. 37 EG, n. 52.

9

hipotecas pesadas para a natureza e as futuras geraes. O que at bem pouco tempo era

tido como referncias seguras, orientaes determinantes para viver e conviver, se

tornou insuficiente para responder s novas situaes com seus desafios.

2. Riscos e consequncias de uma mudana de poca

21. Mudanas de poca, de fato, afetam os critrios de compreenso, os valores mais profundos, a partir dos quais se afirmam identidades e se estabelecem aes e relaes.

Alm disso, constata-se o aumento progressivo do relativismo, a ausncia de referncias

slidas, o excesso de informaes, a superficialidade, o desejo a qualquer custo de

conforto e facilidades, a acelerao do tempo, trazendo desafios existenciais e

produzindo incertezas, precariedade, insegurana, inquietao.38 Surgem ou se agravam

tendncias desafiadoras como o individualismo, o fundamentalismo, o relativismo e

diversas formas de unilateralismos. A atual crise cultural atinge, de modo particular, a

famlia.39 Difunde-se a noo de que a pessoa livre e autnoma precisa se libertar da

famlia, da religio e da sociedade. 40 Fortes ideologias apresentam, por exemplo,

noes confusas da sexualidade, do matrimnio e da famlia. Estas tendncias

desdobram-se em outras tantas como: o laicismo militante, com posturas fortes contra a

Igreja e a Verdade do Evangelho; a negao da Cruz e de sua fora redentora; a

irracionalidade da chamada cultura miditica; o amoralismo generalizado; as atitudes de

desrespeito diante do povo, especialmente para com os mais frgeis; uma compreenso

de economia que no considera a pessoa humana e os anseios do povo.41

22. No campo social e econmico, os critrios que regem o mercado regulam tambm as relaes humanas. Crescem as ofertas de felicidade, realizao e sucesso pessoal, em

detrimento do bem comum e da solidariedade, desconsiderando as atitudes altrustas,

solidrias e fraternas. Os pobres so considerados suprfluos e descartveis, resduos e

sobras42. Preocupa-nos o avano de empreendimentos imobilirios, agropecurios e de

minerao sobre os territrios dos povos indgenas, quilombolas e pescadores

artesanais, gerando processos de degradao ambiental, que ameaam a sobrevivncia

desses povos. Ficam assim comprometidos o cuidado pela vida, o equilbrio social, a

preservao da natureza, o acesso terra para trabalho e renda, entre outros fatores.

Trata-se de uma economia caracterizada pela negao da primazia do ser humano, e,

por isso, pela excluso e pela desigualdade social, geradora uma cultura do bem-estar e

do descartvel e uma globalizao da indiferena.43 Em termos evanglicos, o discpulo

sabe que se trata de uma nova idolatria do dinheiro44 sustentada pela ideologia da

autonomia absoluta dos mercados comandada pela especulao financeira. Sabe que

preciso dizer no a um dinheiro que governa em vez de servir.45

23. Em consequncia, surgem prticas preocupantes de banalizao da vida, tais como: a manipulao de embries, prticas abortivas e tantas outras mortes absurdas; ausncia

de polticas pblicas para uma vida digna com educao, sade, segurana, trabalho,

lazer, moradia; de efetiva proteo vida e famlia, s crianas e aos adolescentes, aos

jovens e aos idosos e s pessoas com deficincia. A banalizao da vida traz consigo a

violncia. Verdadeiro cncer social, a corrupo agrava a situao e gera, em muitos,

38 EG, n. 64. 39 EG, n. 66-67. 40 CNBB, Comunidade de Comunidades: uma Nova Parquia (Doc. 100), n. 13. 41 EG, n. 61-62. 42 EG, n. 53. 43 EG, n. 53-55. 44 EG, n. 55-56. 45 EG, n. 57-58.

10

atitudes de desconfiana e descrdito nas possibilidades de mudana. preciso

transformar a sociedade, repensar a funo do Estado e redescobrir os valores ticos,

para a superao da corrupo, da violncia, do narcotrfico, bem como do trfico de

pessoas e de armamentos46.

24. Em razo da hegemonia que a economia exerce sobre a cultura atual, preciso discernir a origem profunda da atual crise econmico-financeira. luz da dignidade humana, ela

se revela como uma crise antropolgica: reduz a pessoa humana a uma de suas

necessidades, o consumo. luz da f crist, ela se caracteriza como rejeio da tica e

de Deus.47

25. No mbito religioso, constata-se um forte pluralismo, no qual se encontram, muitas vezes, prticas marcadas por fundamentalismo, emocionalismo e sentimentalismo. Isto

por um lado, resulta de uma reao contra a sociedade materialista, consumista e

individualista, procurando preencher o vazio deixado pelo racionalismo secularista e,

por outro, se aproveita das carncias da populao. 48 Tais movimentos religiosos

favorecem a manipulao da mensagem do Evangelho. Exclui-se assim a salvao em

Cristo, que passa a ser apresentada como sinnimo de prosperidade material, sade

fsica e realizao afetiva. Existe tambm uma corrente secularista que mundialmente

invade a sociedade49, produzindo negao da transcendncia, indiferena religiosa e

generalizao do relativismo. Estes fatores contribuem para a diluio do sentido de

pertena eclesial e do vnculo comunitrio, dificultando a iniciao vida crist e o

compromisso com a evangelizao e a transformao social.

26. No mbito catlico, um considervel nmero de pessoas se afasta, por diferentes razes, da comunidade eclesial, sinal da crise do compromisso comunitrio.50 Constata-se,

em algumas comunidades, situaes que interpelam a ao evangelizadora: a

persistncia de uma pastoral de manuteno em detrimento de uma pastoral

decididamente missionria; a compreenso da comunidade como mera prestadora de

servios religiosos do que lugar de vivncia fraterna da f; a passividade do laicato do

que o engajamento nas diversas instncias da vida social; a concentrao do clero em

determinadas reas do que efetiva solidariedade eclesial; a tendncia de centralizao

excessiva do que ao exerccio da comunho e participao; o mundanismo sob vestes

espirituais e pastorais do que a efetiva converso; sinais de apegos a vantagens e

privilgios do que ao esprito de servio; celebraes litrgicas que tendem mais

exaltao da subjetividade do que a comunho com o Mistrio; a utilizao de uma

linguagem inadequada do que uma linguagem acessvel e atual; a tendncia

uniformidade do que a unidade na diversidade. Sente-se a necessidade de encontrar uma

nova figura de comunidade eclesial, acolhedora e missionria.

27. Em virtude do enfraquecimento das instituies e das tradies, cresce a responsabilidade pessoal. Em outras pocas, instituies e tradies protegiam bem

mais os indivduos. Nesta mudana de poca, instituies e tradies tendem a ser

socioculturalmente julgadas com base na ao dos indivduos. Em tempos de

perplexidade e incertezas, os discpulos missionrios necessitam de retido ainda maior

e fidelidade a Cristo ao pensar, sentir e agir. Devem verificar se esto, de algum modo,

deixando de realmente defender, promover e testemunhar a vida em todas as suas

dimenses.

46 EG, n. 50, 60. 47 EG, n. 63-64. 48 EG, n. 63, 65. 49 EG, n. 65. 50 EG, ttulo ao cap. II.

11

28. Nesse contexto sociocultural, o discpulo missionrio no desanima nem se acomoda, mas reage segundo o esprito das bem-aventuranas (Mt 5,1ss), colocando-se atento na

presena do Senhor (1Sm 3,9-10). Ele cr que o Esprito a fora de Deus presente na

vida das pessoas e da comunidade eclesial e confia que Ele o conduz, orienta e ilumina.

No faltam sinais de esperana. Constata-se o avano do trabalho de leigos na Igreja e

na sociedade, ministros ordenados e membros da vida consagrada se dedicam com ardor

misso, comunidades respondem aos novos desafios, setores de juventude se

organizam, crescem movimentos, associaes, grupos, pastorais e servios.

29. Os desafios existem para serem superados. [...] No deixemos que nos roubem a fora missionria. 51 Eles oferecem oportunidade para discernir as urgncias da ao

evangelizadora. Este um tempo para responder missionariamente mudana de poca

com o recomear a partir de Jesus Cristo, atravs de novo ardor, novos mtodos e nova

expresso52, com criatividade pastoral53. O semeador, quando v surgir o joio no

meio do trigo, no tem reaes lastimosas ou alarmistas. Encontra o modo para fazer

com que a Palavra se encarne numa situao concreta e d frutos de vida nova.54

51 EG, n. 109. 52 JOO PAULO II, Homilia na abertura da 19 Assembleia Geral do CELAM (Porto Prncipe, Haiti, 09.03.1983). 53 BENTO XVI, Homilia no encerramento da 12a Assembleia Geral Ordinria do Snodo dos Bispos (28.10.2012). 54 EG, n. 24.

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C A P T U L O I I I

URGNCIAS NA AO EVANGELIZADORA

30. Diante da realidade que se transforma, a Igreja em sada55 convocada a superar uma pastoral de mera conservao ou manuteno para assumir uma pastoral decididamente

missionria, numa atitude que chamada de converso pastoral,56 como caminho da

ao evangelizadora. Voltar s fontes e recomear a partir de Jesus Cristo,57 faz a Igreja

superar a tentao de ser autorreferencial58 e a coloca no caminho do amor-servio aos

sofredores desta terra.59

31. Neste contexto emergem cinco urgncias na evangelizao que precisam estar presentes nos processos de planejamento pastoral das Igrejas particulares e instituies

eclesiais. Tais urgncias dizem respeito busca de caminhos para a vivncia e a

transmisso da f. Elas so o elo entre tudo que se faz em termos de evangelizao no

Brasil. Pem a Igreja em movimento de sada de si mesma, de misso centrada em

Jesus Cristo, de entrega aos pobres.60

32. De acordo com essas urgncias, a Igreja no Brasil se empenha em ser uma Igreja em estado permanente de misso, casa da iniciao vida crist, fonte da animao bblica da

vida e da pastoral, comunidade de comunidades, a servio da vida em todas as suas

instncias. Estes aspectos encontram-se unidos de tal modo, que assumir um deles implica

que se assumam os outros. Esto sempre presentes, pois se referem a Jesus Cristo,

Igreja, vida comunitria, Palavra de Deus como alimento para a f, Eucaristia como

alimento para o servio ao Reino de Deus, a caminho da vida eterna.

33. Por seu testemunho e por suas aes pastorais, a Igreja suscita o desejo de encontrar Jesus Cristo. Este encontro se d atravs do mergulho gradativo no mistrio do Redentor.

Da a importncia do primeiro anncio e da iniciao vida crist, a qual no acontece

plenamente se no se tem contato com a Sagrada Escritura. 61 A Palavra de Deus,

alimentando, iluminando e orientando toda a ao pastoral, transborda para a totalidade da

existncia de pessoas e grupos, tornando-se luz para o caminho (Sl 119,105).

Transformados por Jesus Cristo e comprometidos com o Reino de Deus, os discpulos

missionrios formam comunidades que no podem fechar-se em si mesmas, como ilhas.

Por suas atitudes fraternas e solidrias, trabalhando incessantemente pela vida em todas as

suas instncias, tornam-se sinais de que o Reino de Deus vai se manifestando em nosso

meio (Mt 11,2-6; At 2,42), na vitria sobre o pecado e suas consequncias.

34. As cinco urgncias apresentam a evangelizao na perspectiva da inculturao,62 em vista de fazer a proposta do Evangelho chegar variedade dos contextos culturais e dos

55 EG, n. 20. 56 DAp, n. 370. 57 DAp, n. 12, 41, 549. 58 EG, n. 95; PAPA FRANCISCO, Discurso no encontro com os Bispos do Brasil durante a JMJ 2013, n. 3; ID., Discurso no encontro com

a coordenao do CELAM durante a JMJ 2013, 5,2. 59 DAp, n. 365. 60 EG, n. 97. 61 VD, n. 23-25. 62 EG, n. 122.

13

destinatrios.63 Entre esses contextos, sobressaem a cultura urbana64 e a Amaznia,

teste decisivo, banco de prova para a Igreja e a sociedade brasileiras.65

3.1. Igreja em estado permanente de misso

Ide pelo mundo inteiro

e anunciai a Boa Nova a toda criatura!

Quem crer e for batizado ser salvo! (Mc 16,15)

35. Jesus Cristo, o grande missionrio do Pai, envia, pela fora do Esprito, seus discpulos em constante atitude de misso (Mc 16,15), por meio do testemunho e do anncio

explcito de sua pessoa e mensagem. A Igreja missionria por natureza.66 Existe para

anunciar, por gestos e palavras, a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo. Fechar-se

dimenso missionria implica fechar-se ao Esprito Santo, sempre presente, atuante,

impulsionador e defensor (Jo 14,16; Mt 10,19-20). Em toda a sua histria, a Igreja

nunca deixou de ser missionria. Em cada tempo e lugar, esta misso assume

perspectivas distintas, nunca, porm, deixa de acontecer. Se hoje partilhamos a

experincia crist, porque algum nos transmitiu a beleza da f, apresentou-nos Jesus

Cristo, acolheu-nos na comunidade eclesial e nos fascinou pelo servio ao Reino de

Deus.

36. A Conferncia de Aparecida e a exortao apostlica Evangelii gaudium convocam a Igreja a ser toda missionria e em estado permanente de misso. Fiel ao modelo do

Mestre, vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os

lugares, em todas as ocasies, sem demora, sem repugnncias e sem medo. A alegria do

Evangelho para todo o povo, no se pode excluir ningum. 67 Todos somos

convidados a aceitar este chamado: sair da prpria comodidade e ter a coragem de

alcanar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho.68

37. A misso o paradigma de toda a obra da Igreja.69 Ela assume um rosto prprio, com pelo menos trs caractersticas: urgncia, amplitude, incluso. urgente em

decorrncia da oscilao atual de critrios. Ampla e includente, porque reconhece que

todas as situaes, tempos e locais so seus interlocutores.

38. necessrio, portanto, suscitar, em cada batizado e em cada forma de organizao eclesial, uma forte conscincia missionria que interpele o discpulo missionrio a

primeirear70, isto , a tomar iniciativa, a sair ao encontro das pessoas, das famlias,

das comunidades e dos povos para lhes comunicar e compartilhar o dom do encontro

com Cristo.71 O discpulo missionrio anuncia Jesus Cristo, em todos os lugares e

situaes em que se encontrar, apresentando com clareza e fora testemunhal, quem

Ele e qual sua proposta para toda a humanidade, 72 reconhecendo sempre que

63 EG, n. 133. 64 EG, n. 71-75. 65 PAPA FRANCISCO, Discurso no encontro com os Bispos do Brasil durante a JMJ 2013, n. 4. 66 AG, n. 2; DAp, n. 347. 67 EG, n. 23. 68 EG, n. 20. 69 EG, n. 15; PAPA FRANCISCO, Discurso no encontro com a coordenao do CELAM durante a JMJ 2013, n. 3. 70 EG, n. 24. 71 DAp, n. 548. 72 DAp, n. 348.

14

precedido pelo Esprito Santo, protagonista da evangelizao. O testemunho pessoal, a

base sobre a qual o anncio explcito haver de ser desenvolvido.73

39. O discpulo missionrio consciente que o distanciamento em relao a Jesus Cristo e ao Reino de Deus traz graves consequncias para toda a humanidade. Estas

consequncias so sentidas principalmente nas inmeras formas de desrespeito e

destruio da vida. O cristo sabe que no lhe cabe a exclusividade na construo da

nova poca que est para surgir. Esta conscincia, no entanto, no o exime da

responsabilidade por testemunhar e anunciar, oportuna e inoportunamente (2Tm 4,2),

Jesus Cristo e o Reino de Deus, que vida, paz, justia, concrdia e reconciliao (Gl

5,22s).

40. Surge tambm a urgncia de pensar estruturas pastorais que favoream a realizao da atual conscincia missionria. Esta deve impregnar todas as estruturas eclesiais e todos

os planos pastorais,74 a ponto de deixar para trs prticas, costumes e estruturas que,

por corresponderem a outros momentos histricos, atualmente no favorecem a

transmisso da f.75 O que derruba as estruturas caducas, o que leva a mudar os

coraes dos cristos justamente a missionariedade.76 Continua a nos interpelar a

convocao da Conferncia de Aparecida converso pastoral, atravs da qual se

ultrapassam os limites de uma pastoral de mera conservao para uma pastoral

decididamente missionria. 77 Neste sentido, a Igreja precisa agir com firmeza e

rapidez, reforando seu compromisso com a Misso Continental.78

3.2. Igreja: casa da iniciao vida crist

Paulo e Silas anunciaram a Palavra do Senhor

ao carcereiro e a todos os da sua casa.

E, imediatamente, foi batizado,

junto com todos os seus familiares

(At 16,32s)

41. O estado permanente de misso implica uma efetiva iniciao vida crist. Cada tempo e lugar tm um modo caracterstico para apresentar Jesus Cristo e suscitar nos coraes

o seguimento apaixonado sua pessoa, que a todos convida para com Ele vincular-se

intimamente.79 A admirao pela pessoa de Jesus, seu chamado e seu olhar de amor

despertam uma resposta consciente e livre desde o mais ntimo do corao do

discpulo.80 A mudana de poca exige que o anncio de Jesus Cristo no seja mais

pressuposto, porm explicitado continuamente.81

42. preciso ajudar as pessoas a conhecer Jesus Cristo, fascinar-se por Ele e optar por segui-lo. Anunciar Cristo significa mostrar que crer nele e segui-lo no algo apenas

verdadeiro e justo, mas tambm belo, capaz de cumular a vida dum novo esplendor e

duma alegria profunda, mesmo no meio das provaes.82

73 EN, n. 21. 74 DAp, n. 365. 75 DAp, n. 365. 76 PAPA FRANCISCO, Discurso no encontro com a coordenao do CELAM durante a JMJ 2013, n. 3. 77 DAp, n. 370. 78 DAp, n. 550-551. 79 DAp, n. 131. 80 DAp, n. 136. 81 DAp, n. 549. 82 EG, n. 167.

15

43. A Conferncia de Aparecida, ao elevar a iniciao vida crist categoria de urgncia, recorda que ela, no se esgota na preparao aos sacramentos do Batismo, Confirmao

e Eucaristia, mas se refere, principalmente, adeso a Jesus Cristo. Trata-se de uma

catequese de inspirao catecumenal. A adeso que tal processo de inspirao

catecumenal promove deve ser feita pela primeira vez, mas refeita, fortalecida e

ratificada tantas vezes quantas o cotidiano exigir.83 Nossas comunidades precisam ser

mistaggicas, lugar por excelncia da catequese84, preparadas para favorecer que o

encontro com Jesus Cristo85 se faa e se refaa permanentemente.

44. A catequese de inspirao catecumenal a servio da Iniciao Vida Crist fundamenta-se na centralidade do querigma ou primeiro anncio na misso da Igreja.

Primeiro significa que o principal, que sempre se tem de voltar a anunciar e a

ouvir de diversas maneiras. 86 Este primeiro anncio desencadeia um caminho de

formao e de amadurecimento87 que o catecumenato, propriamente dito, um tempo

de acompanhamento em vista da iluminao da vida a partir da f crist. Para se chegar

a um estado de maturidade [...], preciso dar tempo ao tempo, com uma pacincia

imensa.88

45. A catequese de inspirao catecumenal traz consigo importantes consequncias para a ao evangelizadora. Requer uma srie de atitudes: acolhida, dilogo, partilha, escuta da

Palavra de Deus e adeso vida comunitria. Implica estruturas eclesiais apropriadas,

nos mais diversos lugares e ambientes, sempre disponveis a acolher, apresentar Jesus

Cristo e dar as razes da nossa esperana (1Pd 3,15). Pressupe, por fim, um perfil de

catequista/evangelizador, ponte entre o corao que busca descobrir ou redescobrir

Jesus Cristo e Seu seguimento na comunidade de irmos, em atitudes coerentes e na

misso de colaborar na edificao do Reino de Deus.

46. Esta perspectiva de crescimento destaca o lugar que a liturgia, celebrada na comunidade dos fiis, ocupa na ao missionria da Igreja e no seguimento de Jesus Cristo. Sendo

intimamente unida ao contedo do anncio (lex orandi, lex credendi), ela o pice

para o qual tende a ao da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua

fora. 89 Por isso, nenhuma atividade pastoral pode se realizar sem referencia

liturgia.90 Enfim, ela, fonte de verdadeira alegria (At 2,46), tem um papel fundamental

na misso evangelizadora da Igreja, na consolidao da comunidade crist, e na

formao dos discpulos missionrios.

83 DAp, n. 288. 84 CNBB, Diretrio Nacional da Catequese (Doc. 84), n. 301-302. 85 DAp, n. 246-257, 278. 86 EG, n. 164. 87 EG, n. 160. 88 EG, n. 171. 89 SC, n. 10. 90 DP, n. 927.

16

3.3. Igreja: lugar de animao bblica da vida e da pastoral

Toda Escritura inspirada por Deus

e til para ensinar, para argumentar, para corrigir,

para educar conforme a justia

(2Tm 3,16).

47. Iniciao vida crist e Palavra de Deus esto intimamente ligadas. Uma no pode acontecer sem a outra. Ignorar as Escrituras ignorar o prprio Cristo.91 Este um

tempo muito rico para que cada pessoa seja iniciada na contemplao da vida, luz da

Palavra e no empenho para que ela seja efetivamente colocada em prtica (Tg 1,22-25).

48. Deus se d a conhecer no dilogo que estabelece conosco.92 Quem conhece a Palavra divina conhece plenamente tambm o significado de cada criatura93 A Palavra divina,

pronunciada no tempo, deu-Se e entregou-Se Igreja definitivamente para que o

anncio da salvao possa ser eficazmente comunicado em todos os tempos e lugares.

[] Disto conclui-se como importante que o Povo de Deus seja educado e formado

claramente para se abeirar das Sagradas Escrituras na sua relao com a Tradio viva

da Igreja, reconhecendo nelas a prpria Palavra de Deus.94

49. O discpulo missionrio convidado a redescobrir o contato pessoal e comunitrio com a Palavra de Deus como lugar privilegiado de encontro com Jesus Cristo. 95 Na

alvorada do terceiro milnio, no s existem muitos povos que ainda no conheceram a

Boa Nova, mas h tambm muitos cristos que tm necessidade que lhes seja anunciada

novamente, de modo persuasivo, a Palavra de Deus, para poderem assim experimentar

concretamente a fora do Evangelho. 96 A Igreja hoje tem conscincia de que

particularmente as novas geraes tm necessidade de ser introduzidas na Palavra de

Deus atravs do encontro e do testemunho autntico do adulto, da influncia positiva

dos amigos e da grande companhia que a comunidade eclesial.97

50. O atual excesso de informaes exige formao adequada que auxilie na sntese, no discernimento e nas escolhas. O desafio para todos os que aceitam Jesus como caminho

escutar a voz de Cristo em meio a tantas outras vozes.98 O discpulo missionrio,

bombardeado a todo o momento por questes que lhe desafiam a f, a tica e a

esperana, precisa estar de tal modo familiarizado com a Palavra de Deus e com o Deus

da Palavra que, mesmo pressionado, mas no abalado (At 2,25; 2Cor 4,8-9), continue

solidamente firmado em Cristo Jesus e, por seu testemunho, interpele os coraes que o

questionam (At 16,16-34). Infelizmente, tambm podemos constatar que a Bblia,

algumas vezes, no compreendida como luz para a vida. Ao contrrio,

instrumentalizada at mesmo para engodo.

51. A Palavra de Deus dirige-se a todos, indistintamente: crianas, jovens, adultos, idosos, e em todas as situaes e contextos em que se encontrem.99 Ouvida e celebrada na

comunho com os irmos, a Palavra de Deus gera solidariedade, justia, reconciliao,

91 S. JERNIMO, Prlogo ao Comentrio sobre o Livro do Profeta Isaas, n. 1.2: CCL 73, 1-3. 92 DV, n. 15; VD, n. 6. 93 VD, n. 10. 94 VD, n. 17-18. 95 DAp, n. 247-249. 96 VD, n. 96. 97 VD, n. 97. 98 CNBB, Evangelizao da Juventude (Doc. 85), n. 60. 99 VD, n. 99-108.

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paz e defesa de toda a criao. O discpulo missionrio haver de reconhecer e

testemunhar que a Palavra de Deus e como tal deve ser acolhida e praticada. No o

discpulo missionrio quem indica Palavra o que ela deve dizer. Antes, ele mesmo

um ouvinte assduo da Palavra (Is 50,5; Tg 1,25). O discpulo missionrio a acolhe na

gratuidade e na alteridade, deixando-se apaixonadamente interpelar.

52. O discpulo missionrio acolhe e vive a Palavra de Deus em comunho com a Igreja. Ao escutar atentamente a Palavra, sabe que no o faz isoladamente, mas na comunho

com esta mesma Palavra e com todos que tambm a acolhem, como dom na Igreja e

com toda a Igreja. Assim, a Palavra saboreada sobretudo na eclesialidade.

53. A Palavra de Deus luz para a vida (Sl 119,105). Quanto bem tem feito, pelo Brasil afora, nas mais diversas realidades, a leitura da vida luz da Palavra. Quantas

comunidades se nutrem dominicalmente da Palavra de Deus, experimentando a fora

deste alimento salutar. 100 Quanta riqueza evangelizadora acontece nos Crculos

Bblicos, nos Grupos de Reflexo, nos Grupos de Quadra e outros similares.

54. A animao bblica de toda a pastoral, indo alm de uma pastoral bblica especializada, 101 um caminho de conhecimento e interpretao da Palavra, um

caminho de comunho e orao com a Palavra e um caminho de evangelizao e

proclamao da Palavra. O contato interpretativo, orante e vivencial com a Palavra de

Deus no forma, necessariamente, doutores; forma santos.102

3.4. Igreja: comunidade de comunidades

Sois uma raa escolhida, um sacerdcio rgio,

uma nao santa, um povo adquirido para Deus(1Pd 2,9).

55. O discpulo missionrio de Jesus Cristo, necessariamente, vive sua f em comunidade (1Pd 2,9-10)103, em ntima unio ou comunho das pessoas entre si e delas com Deus

Trindade.104 Sem vida em comunidade, no h como efetivamente viver a proposta

crist. Comunidade implica convvio, vnculos profundos, afetividade, interesses

comuns, estabilidade e solidariedade nos sonhos, nas alegrias e nas dores. A

comunidade eclesial acolhe, forma e transforma, envia em misso, restaura, celebra,

adverte e sustenta. Ao mesmo tempo em que hoje se constata uma forte tendncia ao

individualismo, percebe-se igualmente a busca por vida comunitria. Esta busca nos

recorda como importante a vida em fraternidade. Mostra tambm que o Esprito Santo

acompanha a humanidade suscitando, em meio s transformaes da histria, a sede por

unio e solidariedade.

56. As parquias tm importante papel na vivncia da f. Para a maioria das pessoas a relao com a Igreja se d atravs das parquias. Em vista da converso pastoral que a

misso hoje exige, elas precisam tornar-se cada vez mais comunidades vivas e

dinmicas, capazes de propiciar a seus membros uma real experincia de discpulos e

100 DAp, n. 253. 101 DAp, n. 248; VD, n. 73. 102 VD, n. 49, 77. 103 LG, n. 9. 104 CNBB, Comunidade de Comunidades: uma Nova Parquia (Doc. 100), n. 170.

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missionrios de Jesus Cristo, em comunho. 105 Assim havero de se tornar mais

prximas das pessoas sendo mbitos de viva comunho, participao e misso.106

57. A busca sincera por Jesus Cristo faz surgir a correspondente busca por diversas formas de vida comunitria. Alimentadas pelo po da Palavra e da Eucaristia, articuladas entre

si, na partilha da f e na misso, estas comunidades se unem, dando lugar a verdadeiras

comunidades de comunidades. Entre elas, encontram-se as Comunidades Eclesiais de

Base107 e outras formas vlidas de pequenas comunidades108, cada uma vivendo seu

carisma, assumindo a misso evangelizadora de acordo com a realidade local e se

articulando de modo a testemunhar a comunho na pluralidade.

58. Alm das comunidades territorialmente estabelecidas, deparamo-nos com comunidades transterritoriais, ambientais e afetivas. Estes fatos abrem o corao do discpulo

missionrio a novos horizontes de concretizao comunitria.

59. Dentre os desafios dois se destacam. O primeiro diz respeito aos ambientes marcados por aguda urbanizao, para os quais vizinhana geogrfica no significa

necessariamente convvio, afinidade e solidariedade. O segundo se refere aos ambientes

virtuais, onde a rapidez da comunicao e a superao das distncias geogrficas

tornam-se grandes atrativos, especialmente aos jovens. necessria a conscincia de

que, na ao evangelizadora, estes desafios devem ser seriamente considerados e que

nada substitui o contato pessoal.

60. Em todas estas situaes, contradiz profundamente a dinmica do Reino de Deus e de uma Igreja em estado permanente de misso, a existncia de comunidades fechadas em

torno de si mesmas, sem relacionamento intraeclesial, com a sociedade em geral, com

as culturas, com os demais irmos que creem em Jesus Cristo e com as outras religies.

61. A experincia comunitria, quando efetivamente vivida luz da Boa-Nova do Reino de Deus, conduz ao empenho para que a fraternidade e a unio sejam assumidas em todas

as instncias da vida. Para isso, no interior da comunidade eclesial, o dilogo o

caminho permanente para a boa convivncia e o aprofundamento da comunho. A

variedade de vocaes, carismas, espiritualidades e movimentos uma riqueza e no

motivo para competio, rejeio ou discriminao. Grande o desafio da educao

para a vivncia da unidade na diversidade, fundada na consagrao batismal e no

princpio de que todos so irmos e iguais em dignidade (Gl 3,27-29).109 Quanto maior

for a comunho, tanto mais autntico e eficaz ser o testemunho da comunidade.

105 DAp, n. 172. 106 EG, n. 28. 107 DAp, n. 178-180, 307-310. 108 DAp, n. 180. 109 LG, n. 32.

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3.5. Igreja a servio da vida plena para todos

Eu vim para que todos tenham vida

e a tenham em abundncia

(Jo 10,10)

62. A vida dom de Deus! O Evangelho da vida est no centro da mensagem de Jesus.110 misso dos discpulos o servio vida plena.111 Por isso, a Igreja no Brasil proclama

com vigor que as condies de vida de muitos abandonados, excludos e ignorados em

sua misria e dor, contradizem o projeto do Pai e desafiam os discpulos missionrios a

maior compromisso a favor da cultura da vida.112

63. Ao mergulhar nas profundezas da existncia humana, o discpulo missionrio abrindo seu corao em louvor, por todas as criaturas, angustia-se diante de todas as formas de

vida ameaada, desde o seu incio, em todas as suas etapas, at a morte natural. Na

medida em que nenhuma vida existe apenas para si, mas para os outros e para Deus,

este tempo mais do que propcio para a articulao e a integrao de todas as formas

de paixo pela vida. S assim conseguiremos, de fato, vencer a cultura de morte.

64. Atravs da promoo da cultura da vida os discpulos missionrios de Jesus Cristo testemunham verdadeiramente sua f naquele que veio dar a vida em resgate de todos,

comprometendo-se de modo especial com os pobres e excludos 113 , em vista da

construo de uma sociedade justa e fraterna.

65. Contemplando os diversos rostos de sofredores, especialmente os resduos e sobras114 o discpulo missionrio enxerga, em cada um, o rosto de seu Senhor: chagado,

destroado, flagelado (Is 52,13ss).115 Seu amor por Jesus Cristo e Cristo Crucificado

(1Cor 1,23-25) leva-o a buscar o Mestre em meio s situaes de morte (Mt 25,31-46).

Leva-o a no aceit-las, sejam elas quais forem, envolvendo-se na preservao da vida.

O discpulo missionrio no se cala diante da vida impedida de nascer, seja por deciso

individual, seja pela legalizao e despenalizao do aborto. No se cala igualmente

diante da vida sem alimentao, casa, terra, trabalho, educao, sade, lazer, liberdade,

esperana e f. Torna-se, deste modo, algum que sonha e se compromete com um

mundo onde seja, efetivamente, reconhecido o direito a nascer, crescer, constituir

famlia, seguir a vocao, envelhecer e morrer naturalmente, crer e manifestar sua f.

66. Para a Igreja, a caridade no uma espcie de atividade de assistncia social que poderia mesmo deixar para outros, mas pertence sua natureza, expresso

irrenuncivel de sua prpria essncia. 116 Da ratificar e potencializar a opo

preferencial pelos pobres,117 implcita f cristolgica naquele Deus que se fez pobre

por ns, para nos enriquecer com sua pobreza118 e que dever atravessar todas as suas

estruturas e prioridades pastorais 119 manifestando-se em opes e gestos

concretos. 120 Devemos evitar a tentao de ser cristos, mantendo uma prudente

distncia das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a misria humana, que

110 EV, n. 1. 111 DAp, cap. VII. 112 DAp, n. 358. 113 EG, n. 53. 114 EG, n. 53. 115 DAp, n. 65, 402. 116 DCE, n. 25. 117 DAp, n. 396, 407-430. 118 BENTO XVI, Discurso inaugural da Conferncia de Aparecida, n. 3. 119 DAp, n. 396. 120 DAp, n. 397.

20

toquemos a carne sofredora dos outros. Espera que renunciemos a procurar aqueles

abrigos pessoais ou comunitrios que permitem manter-nos distncia do n do drama

humano, afim de aceitarmos verdadeiramente de entrar em contato com a vida concreta

dos outros e conhecermos a fora da ternura.121

67. Consciente de que precisa contribuir para superar a misria e a excluso, o discpulo missionrio tambm sabe que no pode restringir sua solidariedade ao gesto imediato

da doao caritativa. Embora importante e mesmo indispensvel, a doao imediata do

necessrio sobrevivncia no abrange a totalidade da opo pelos pobres. Antes de

tudo, esta implica convvio, convvio, relacionamento fraterno, ateno, escuta,

acompanhamento nas dificuldades, buscando, a partir dos prprios pobres, a mudana

de sua situao e a transformao social. Os pobres e excludos so sujeitos da

evangelizao e da promoo humana integral. 122 Eles esto no centro da vida da

Igreja.123

68. Em tudo isso, a Igreja reconhece a importncia da atuao no mundo da poltica e incentiva os leigos e leigas, especialmente os jovens, participao ativa e efetiva nos

diversos setores voltados para a construo de um mundo mais justo, fraterno e

solidrio.124 Da, a urgncia na formao e apoio aos cristos leigos e leigas para que

atuem nos movimentos sociais, conselhos de polticas pblicas, associaes de

moradores, sindicatos, partidos polticos e outras entidades, sempre iluminados pelo

Ensino Social da Igreja. To desacreditada em nossos dias, a poltica, no entanto,

uma sublime vocao, uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o

bem comum125.

69. Frente aos efeitos das mudanas climticas na vida das famlias, comunidades e regies, preciso avanar na conscincia ecolgica. Ns, os seres humanos, no somos

meramente beneficirios, mas guardies das outras criaturas126. A criao no uma

propriedade, que podemos manipular a nosso bel-prazer; nem muito menos uma

propriedade que pertence s a alguns, a poucos: a criao um dom, uma ddiva

maravilhosa que Deus nos concedeu, para a cuidarmos e utilizarmos em benefcio de

todos, sempre com grande respeito e gratido127. A Igreja tem uma responsabilidade

a respeito da criao e deve fazer valer essa responsabilidade na esfera pblica128.

70. O servio testemunhal vida, de modo especial, vida fragilizada e ameaada, a mais forte atitude de dilogo que o discpulo missionrio pode e deve estabelecer com uma

realidade que sente a negao da primazia do ser humano129 e o peso da cultura da

morte. Na Igreja samaritana,130 o discpulo missionrio vive o anncio de um mundo

diferente que, acima de tudo, por amar a vida, convoca comunho efetiva entre todos

os seres vivos.

121 EG, n. 270. 122 DAp, n. 397-398. 123 EG, n. 198. 124 AA, n. 7; LG, n. 35; CfL, n. 3; DCE, n. 28; DAp, n. 99f, 100c, 210. 125 EG, n. 205. 126 EG, n. 215. 127 PAPA FRANCISCO, Audincia Geral (21.05.2014). 128 CV, n. 51. 129 EG, n. 55. 130 DAp, n. 27.

21

C A P T U L O I V

PERSPECTIVAS DE AO

71. Em nosso imenso Brasil, cada Igreja Particular responda s urgncias na ao evangelizadora de acordo com as suas peculiaridades regionais. Alm de caractersticas

comuns da realidade brasileira em suas diferentes regies, a fidelidade ao Evangelho no

hoje de nosso tempo e o carter indispensvel do testemunho de unidade exigem uma

ao orgnica em torno a alguns referenciais comuns.

72. Estas perspectivas de ao querem contribuir, por um lado, com uma Igreja comunho e participao, 131 despertando a criatividade e fornecendo subsdios s diversas

iniciativas da ao evangelizadora. Por outro, quer promover, nas Igrejas Particulares e

entre elas, uma pastoral orgnica e de conjunto mais eficaz, pois a Igreja Igreja de

Igrejas. 132 Trata-se de linhas e formas de ao, de critrios, que precisaro ser

concretizadas nos processos de ao pastoral em cada Igreja Particular, segundo as

condies e necessidades dos respectivos contextos.

73. A proposta destas perspectivas de ao se situa no contexto de celebrao dos 50 anos do encerramento do Conclio Vaticano II. Ele representa um acontecimento eclesial que

marcou fortemente a caminhada da Igreja, promovendo a atualizao de mtodos e de

linguagem, verdadeiro Pentecostes do sculo XX.

4.1. Igreja em estado permanente de misso

74. A experincia de f faz transbordar o anncio explcito de Jesus Cristo para alm da comunidade crist,133 nos ambientes onde os mensageiros se fazem presentes como

Jesus, cheio de graa e de verdade. A Igreja oferece a todos o Evangelho de Jesus

Cristo, assumindo com renovado ardor missionrio e criatividade uma nova

evangelizao134:

a) aos fiis que frequentam regularmente a comunidade e aos que, embora no tenham frequncia regular, conservam uma f catlica intensa e sincera. A estes, a Igreja

acompanha com a pastoral ordinria, que visa o crescimento na f e o consequente

compromisso cristo no mundo;

b) s pessoas batizadas que j no vivem as exigncias do batismo, a Igreja oferece oportunidade de converso, que os pode levar a reencontrar a alegria da f, o

compromisso com o Evangelho e a vivncia comunitria;

c) aos que no conhecem Jesus Cristo ou que o recusam, os cristos tm o dever de lhes anunciar o Evangelho, como partilha de uma alegria que confere vida um horizonte

de significado e realizao, especialmente atravs do testemunho de vida.

75. Cabe a cada comunidade eclesial perguntar quais so os grupos humanos ou as categorias sociais que merecem ateno especial e lhes dar prioridade no trabalho de

evangelizao. Entre esses grupos esto: pessoas vivendo na periferia de nossas cidades,

indgenas e afrodescendentes, intelectuais, artistas, polticos, formadores de opinio,

131 DAp, n. 213, 368. 132 LG, n. 23. 133 EN, n. 22. 134 EG, n. 14.

22

esportistas, trabalhadores com grande mobilidade, nmades, pessoas com deficincia

etc. Importa ir ao encontro deles, no apenas nas famlias e nas residncias, nas

periferias existenciais, mas tambm em todos os ambientes.

76. A juventude merece ateno especial. Uma Igreja sem jovens uma Igreja sem futuro. A CNBB motiva e norteia os projetos de evangelizao da juventude135. A crescente

participao do Brasil nas Jornadas Mundiais da Juventude, e especialmente os frutos da

Jornada realizada no Rio de Janeiro tm mostrado, ao lado dos outros projetos pastorais,

a fora evangelizadora dos jovens e sua significativa predisposio para as iniciativas

missionrias e servios voluntrios. O atual projeto 300 anos de bnos: com a Me

Aparecida Juventude em Misso vem reforar a dimenso missionria na formao

dos jovens.

77. As misses populares, em suas diversas modalidades, respondendo ao apelo da Misso Continental, tm se mostrado um caminho eficaz de evangelizao. Tambm as visitas

sistemticas nos locais de trabalho, nas moradias de estudantes, nas favelas e nos

cortios, nos alojamentos de trabalhadores, nas instituies de sade, nos

assentamentos, nas prises, nos albergues e junto aos moradores de rua,136 entre outros,

so testemunho de uma Igreja em sada, que se sente interpelada a buscar maior

organicidade e eficcia neste servio.

78. Uma Igreja em estado permanente de misso nos leva a assumir a misso ad gentes, dando de nossa pobreza,137 em outras regies e alm fronteiras. Uma Igreja Particular

no pode esperar atingir a plena maturidade eclesial para, s ento, comear a se

preocupar com a misso para alm de seu territrio. Atravs dos Conselhos

Missionrios chamada a articular e animar as iniciativas de misso em seu territrio,

com abertura misso alm fronteiras. A maturidade eclesial consequncia e no

apenas condio de abertura missionria.

79. Na misso, o discpulo se depara com o desafio do ecumenismo, a buscar cordialmente a unidade com os irmos e irms que creem em Jesus Cristo. O escndalo da diviso entre

os cristos138 nos desafia exigindo respostas para a sua superao. No bastam as

manifestaes de bons sentimentos. So necessrios gestos concretos que penetrem nos

espritos e sacudam as conscincias, impulsionando cada um converso interior, que

o fundamento de todo progresso no caminho do ecumenismo. 139 Sobretudo, Cada

Igreja Particular est desafiada a dar passos mais consistentes no campo do

ecumenismo.

80. Outro desafio o dilogo inter-religioso, o encontro fraterno e respeitoso com os seguidores de religies no crists e com todas as pessoas empenhadas na busca da

justia e na construo da fraternidade universal.140 Especial ateno merece o dilogo

com os judeus e os muulmanos, irmos de f no Deus Uno; com as expresses

religiosas afrodescendentes e indgenas, assim como com os ateus. Tal como o

ecumenismo, o dilogo inter-religioso precisa integrar a vida e a ao de nossas

comunidades eclesiais.

81. O dilogo e a cultura do encontro tornam-se atitudes necessrias e urgentes diante de manifestaes, s vezes violentas, de intolerncia em relao a outras expresses de f e

135 CNBB, Evangelizao da Juventude (Doc. 85). 136 DAp, n. 407. 137 DP, n. 368; CNBB, Igreja: comunho e misso (Doc. 40), n. 119. 138 UR, n. 1; JOO PAULO II, Homilia na abertura da porta santa da baslica de So Paulo Fora dos Muros (18.01.2000), n. 2. 139 DAp, n. 234. 140 PONTIFCIO CONSELHO PARA A UNIDADE DOS CRISTOS, Diretrio para a aplicao dos princpios e normas sobre o

ecumenismo, n. 210.

23

cultos religiosos. As nossas comunidades, a exemplo de Jesus que soube acolher e

atender pessoas de outras tradies religiosas e dialogar com elas e de Paulo, chamado a

evangelizar os gentios, se tornem sensveis diversidade religiosa do povo brasileiro e

lugar de encontro para uma convivncia fraterna com todos.

82. Faz-se necessrio estimular, sempre mais, com oportunas iniciativas, a partilha e a comunho dos recursos da Igreja no Brasil, desenvolvendo e ampliando o projeto Igrejas

irms nas Igrejas Particulares, nos regionais e em mbito nacional, levando em conta a

situao de grave necessidade de pessoal e de recursos financeiros nas regies mais

carentes do pas. Neste sentido, merece especial apoio o projeto Comunho e Partilha,

em favor das Igrejas com maior carncia de recursos econmicos, promovido pela CNBB.

A regio amaznica merece especial ateno e renovado empenho missionrio.

4.2. Igreja: casa da iniciao vida crist

83. necessrio desenvolver, em nossas comunidades, um processo de iniciao vida crist, que conduza ao encontro pessoal com Jesus Cristo,141 no cultivo da amizade

com Ele pela orao, no apreo pela celebrao litrgica, na experincia comunitria e

no compromisso apostlico, mediante um permanente servio ao prximo.142

84. A catequese de inspirao catecumenal143 adquire grande importncia. Trata-se no de uma catequese ocasional, como preparao para receber algum sacramento, mas

continuada. Isso implica melhor formao dos responsveis144 e um itinerrio catequtico

permanente, assumido pela Igreja Particular, com a ajuda da Conferncia Episcopal,145

que no se limite a uma formao doutrinal, mas integral. A catequese de inspirao

bblica, mistaggica e litrgica condio fundamental para a iniciao crist de crianas,

bem como de adolescentes, jovens e adultos que no foram suficientemente orientados na

f e nas obras inspiradas pela f.

85. A inspirao catecumenal implica em uma estreita relao entre bblia e catequese. De fato, a catequese h de haurir sempre o seu contedo na fonte viva da Palavra de Deus,

transmitida na Tradio e na Escritura, porque a Sagrada Tradio e a Sagrada Escritura

constituem um s depsito inviolvel da Palavra de Deus. 146 Ao mesmo tempo, a

catequese fornece uma adequada formao bblica dos cristos.147

86. Essa mesma inspirao implica, tambm, uma estreita relao entre a catequese e a liturgia. Ela assume o carter de eco do mistrio experimentado e vivenciado na liturgia e

se abre para a misso: a formao catequtica ilumina e fortifica a f, nutre a vida

segundo o esprito de Cristo, leva a uma participao consciente e ativa no mistrio

litrgico e desperta para a atividade apostlica.148 Por sua vez, a celebrao litrgica, ao

mesmo tempo que atualizao do mistrio da salvao, requer, necessariamente, uma

iniciao aos mistrios da f. Neste contexto, sobressai a formao litrgica, em todos os

nveis da vida eclesial,149 num processo mistaggico, integrando na ao ritual o sentido

141 DAp, n. 289. 142 DAp, n. 299. 143 DAp, n. 294; CNBB, Diretrio Nacional de Catequese (Doc. 84), n. 45; COMISSO EPISCOPAL PARA A ANIMAO BBLICO-

CATEQUTICA, , Itinerrio Catequtico. Iniciao vida crist um processo de inspirao catecumenal. 144 DAp, n. 296. 145 DAp, n. 298. 146 CT, n. 27. 147 VD n. 75. 148 GE, n. 4. 149 SC, n. 14-19.

24

teolgico e litrgico nela expresso. Nessa perspectiva, compreende-se que a melhor

catequese litrgica a liturgia bem celebrada.150

87. A pastoral da liturgia deve conjugar os esforos e as iniciativas necessrias para animar a vida litrgica de uma comunidade, parquia, diocese, levando em conta sua realidade

histrica, cultural, eclesial, de modo que os cristos possam tomar parte das celebraes

de forma ativa, consciente e plena, e colher dela os frutos espirituais. Isto supe:

a) formar permanentemente a assembleia litrgica, dedicando especial ateno aos ministros ordenados e s equipes de celebrao;

b) preparar as celebraes, respeitando-se as partes que compem o rito; c) realizar com dignidade e competncia as aes celebrativas; d) avaliar a preparao e a realizao em busca do crescimento na qualidade das

celebraes.

88. As muitas manifestaes da piedade popular catlica precisam ser valorizadas e estimuladas e, onde for necessrio, purificadas. Tais prticas tm grande significado

para a preservao e a transmisso da f e para a iniciao vida crist, bem como para

a promoo da cultura151. As expresses da piedade popular tm muito que nos ensinar

e, para quem as sabe ler, so um lugar teolgico a que devemos prestar ateno

particularmente na hora de pensar a nova evangelizao152.

89. O processo de iniciao vida crist requer grande ateno s pessoas, com atendimento personalizado153 . Trata-se de estabelecer um dilogo interpessoal, de reflexo sobre a

experincia de vida e de seu verdadeiro sentido. importante valorizar a experincia de

vida de cada pessoa, ajudando-a a reconhecer a prpria busca de Deus e a abrir-se Sua

presena e ao salvadora. sempre necessrio recordar que a pedagogia evanglica

consiste na persuaso do interlocutor pelo testemunho de vida e por uma argumentao

sincera e rigorosa, que estimula a busca da verdade.

90. A comunidade eclesial o lugar da iniciao vida crist e da educao na f das crianas, adolescentes e jovens, como tambm dos adultos batizados e no

suficientemente evangelizados.154 Junto com a comunidade eclesial, a famlia tem papel

indispensvel nesta iniciao.

91. A formao dos discpulos missionrios precisa articular f e vida e integrar cinco aspectos fundamentais: o encontro com Jesus Cristo; a converso; o discipulado; a

comunho; a misso.155 O processo formativo se constitui no alimento da vida crist e

precisa estar voltado para a misso, que se concretiza no anncio explcito de Jesus

Cristo, vida plena, para todos, em especial para os pobres. A formao no se reduz a

cursos. Ela integra a vivncia comunitria, a participao em celebraes e encontros, a

interao com os meios de comunicao, a insero nas diferentes atividades pastorais e

espaos de capacitao, movimentos e associaes.

92. A formao dos leigos e leigas precisa ser uma das prioridades da Igreja Particular; um direito e dever para todos.156 Ela se torna mais efetiva e frutuosa quando integrada em

um projeto orgnico de formao,157 que contemple a formao bsica de todos os

membros da comunidade e a formao especfica e especializada, sobretudo para aqueles

150 SCa, n. 64. 151 EG, n. 122-126. 152 EG, n. 126. 153 CNBB, Diretrio Geral para a Catequese (Doc. 84) , n. 170; RM, n. 14. 154 DAp, n. 293; CNBB, Comunidade de Comunidades: uma Nova Parquia (Doc. 100), n. 268-270. 155 DAp, n. 278. 156 CfL, n. 57. 157 DAp, n. 281.

25

que atuam na sociedade, onde se apresenta o desafio de dar testemunho de Cristo e dos

valores do Reino.158

4.3. Igreja: lugar de animao bblica da vida e da pastoral

93. A Igreja no Brasil deseja incrementar a animao bblica da vida e da pastoral, com o envolvimento de toda a comunidade, pessoas, pastorais, movimentos, associaes e

servio. A animao bblica indispensvel para que a vida da Igreja seja, ainda mais,

uma escola de interpretao ou conhecimento da Palavra, escola de comunho e orao

com a Palavra e escola de evangelizao e proclamao da Palavra.159 Seus principais

objetivos so: propiciar meios de aproximao das pessoas Palavra de Deus, para

conhec-la e interpret-la corretamente; entrar em comunho e com a Palavra de Deus por

meio da orao; evangelizar e proclam-la como fonte de vida em abundncia para

todos.160

94. A Igreja, casa da Palavra, valoriza a liturgia como mbito privilegiado onde Deus fala comunidade. Nela Deus fala e o povo escuta e responde. Cada ao litrgica est, por

sua natureza, impregnada da Escritura Sagrada.161

95. Especial ateno merece a homilia que atualiza a mensagem da Bblia de tal modo que os fiis sejam levados a descobrir a presena e a eficcia da Palavra de Deus, no

momento atual de sua vida. Ela pode ser uma experincia intensa e feliz do Esprito,

um consolador encontro com a Palavra, uma fonte constante de renovao e

crescimento.162

96. Em todos os nveis da ao evangelizadora, sejam criadas e fortalecidas equipes de animao bblica da pastoral. Essas equipes impulsionam a responsabilidade de todos

batizados com relao Palavra de Deus. Entre as atividades que se propem

sobressaem, em particular, aquelas que renem grupos de famlias, crculos bblicos e

pequenas comunidades em torno meditao e vivncia da Palavra, 163 em estreita

relao com seu contexto social, e os cursos e escolas bblicas, voltados, sobretudo, para

leigos e leigas.164

97. Deparamo-nos com a necessidade de possuir a Bblia. Nesse sentido, devem ser estimuladas iniciativas que permitam coloc-la nas mos de todos, especialmente dos

mais pobres. No entanto, no basta possui-la. necessrio ajudar a ler e interpretar

corretamente a Escritura, chegar interpretao adequada dos textos bblicos e

empreg-los como mediao de dilogo com Jesus Cristo.165 O encontro com a Palavra

viva exige a experincia de f. Para isso, o catlico precisa ser devidamente capacitado

tanto no contedo bblico quanto na pedagogia para iniciar e manter contato permanente

com a Escritura.

98. Merece destaque a leitura orante,166 que favorece o encontro pessoal com Jesus Cristo, o Verbo de Deus.167 Seja, portanto, incentivada e reforada, conforme as orientaes da

Igreja, de modo que proporcione comunho com o Senhor e ilumine a realidade vivida

158 DAp, n. 216. 159 DAp, n. 248; VD, n. 73. 160 Cf. DAp 248; CNBB, Discpulos e servidores da Palavra de Deus na misso da Igreja (Doc. 97), n. 36. 161 VD, n. 52. 162 EG, n. 135-159; VD, n. 59. 163 VD, n. 73. 164 VD, n. 75. 165 DAp, n. 248; VD, n. 73. 166 VD, n. 29; 87; EG, n. 152-153, 175, 262. 167 DAp, n. 249.

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pelos participantes, animando-os e despertando-os para o compromisso evanglico a

servio do Reino de Deus. Esta perspectiva deve orientar tambm a formao inicial e

permanente dos ministros ordenados.

99. Considerando que a Bblia encerra valores antropolgicos e filosficos que influram positivamente sobre toda a humanidade, importante favorecer o seu conhecimento

entre os agentes culturais, mesmo nos ambientes secularizados e entre os no

crentes,168 assim como nas escolas e universidades, sobretudo atravs da educao

religiosa.169 Tambm se pode estimular manifestaes artsticas inspiradas na Sagrada

Escritura, nas artes figurativas e na arquitetura, na literatura e na msica,

acompanhadas de uma slida formao dos artistas.170

100. Importa utilizar o espao dos novos meios de comunicao social, especialmente a internet com inmeras redes sociais, que constituem um novo frum onde fazer ressoar

o Evangelho, cuidando para que o mundo virtual jamais substitua o mundo real, pois

o encontro pessoal permanece insubstituvel.171

101. Investir na animao bblica da vida e da pastoral, em agentes e em equipes, leva instituio e formao continuada dos ministros e ministras da Palavra.172 Implica a

necessidade de cuidar, com uma adequada formao, do exerccio do mnus de leitor

na celebrao litrgica e de modo particular o ministrio do leitorado, [...] com

capacitao no apenas bblica e litrgica, mas tambm tcnica.173

4.4. Igreja: comunidade de comunidades

102. A Igreja no Brasil se compromete em acelerar ainda mais o processo de animao e fortalecimento de comunidades, que buscam intensificar a vida crist por meio de

autntico compromisso eclesial. Em vista disto, a CNBB publicou o documento

Comunidade de comunidades: uma nova parquia a converso pastoral da

parquia (Doc. 100). Importa muito investir na descentralizao das parquias, seja

iniciando experincias significativas, seja reconhecendo, no dia a dia das comunidades,

o que j existe, atentos ao que afirma o Documento de Aparecida: ningum pode se

isentar de dar estes passos.174

103. Entre as formas de renovao da parquia est a urgncia de sua setorizao em unidades menores, com equipes prprias de animao e de coordenao, para favorecer

a maior proximidade com as pessoas e grupos da regio 175 e o nascimento de

comunidades,176 pois valoriza os vnculos humanos e sociais. Assim, a Igreja se faz

presente nas diversas realidades, vai ao encontro dos afastados, promove novas

lideranas e a iniciao vida crist acontece no ambiente em que as pessoas vivem.

104. As comunidades eclesiais de base, as CEBs, alimentadas pela Palavra, pela fraternidade, pela orao e pela Eucaristia, so sinal de vitalidade da Igreja.177 So tambm presena

eclesial junto aos pobres, partilhando as suas alegrias e angstias e se comprometendo

168 VD, n. 110. 169 VD, n. 111. 170 VD, n. 112. 171 VD, n. 113; CNBB, Diretrio de Comunicao da Igreja no Brasil (Doc. 99). 172 EN, n. 22; DAp, n. 211, 248. 173 VD, n. 58. 174 DAp, n. 365. 175 DAp, n. 372; SD, n. 58. 176 DAp, n. 197, 172, 372. 177 CNBB, Mensagem ao Povo de Deus sobre as CEBs (Doc. 92).

27

na construo de uma sociedade justa e solidria. Tambm elas se deparam com os

desafios da mudana de poca e se veem desafiadas a no esmorecer, mas a discernir,

na comunho da Igreja, caminhos para enfrentar os desafios oriundos de um mundo

plural, globalizado, urbanizado e individualista.

105. As diversas formas vlidas de pequenas comunidades, de movimentos, de associaes, de grupos de vida, de orao e de reflexo da Palavra de Deus so uma riqueza da

Igreja que o Esprito suscita para evangelizar todos os ambientes e setores.178 Eles

possibilitam a experincia da gratuidade dos relacionamentos e do compromisso

missionrio.179 Todos so convocados a se comprometerem com a parquia local, a

assumirem os planos pastorais de cada Igreja Particular, e, com elas, se unirem em torno

das Diretrizes da Ao Evangelizadora da Igreja no Brasil.180

106. A pastoral vocacional se torna prioritria neste novo momento da histria da evangelizao, colaborando para suscitar e acompanhar vocaes para o servio da

comunidade e para a atuao proftico-transformadora na sociedade. Destaca-se em seu

trabalho o cuidado com as vocaes ao ministrio ordenado e vida consagrada e com a

constante adequao da formao diaconal e presbiteral, inicial e permanente. Trata-se

de suscitar e desenvolver uma verdadeira cultura vocacional nas comunidades,

especialmente entre os adolescentes e jovens.181

107. Para uma Igreja comunidade de comunidades, imprescindvel o empenho por uma efetiva participao de todos nos destinos da comunidade, pela diversidade de carismas,

servios e ministrios.182 Para isso, faz-se necessrio promover:

a) a diversidade ministerial, na qual todos, trabalhando em comunho, manifestam a nica Igreja de Cristo, 183 sejam eles leigos, leigas, ministros ordenados,

consagrados e consagradas. Urge aos pastores abrir espaos de participao aos

leigos e a confiar-lhes ministrios e responsabilidades, para que todos na Igreja

vivam de maneira responsvel seu compromisso cristo.184 Entre as vocaes

laicais, preciso valorizar especialmente as que brotam do matrimnio, como a de

ser esposo e esposa, me, pai, filho e irmo. No perder de vista, igualmente, que a

misso fundamental de leigos e leigas a presena e o testemunho na sociedade,

especialmente nos ambientes de trabalho e em associaes laicais;

b) a unio dos presbteros, diconos, consagrados e leigos, sob a orientao do bispo diocesano, em torno das grandes metas evangelizadoras e dos projetos pastorais

que as concretizam. Uma Igreja com diversas formas de ser comunidade deve ser

igualmente uma Igreja que testemunha a comunho de dons, servios e

ministrios;

c) o carisma da vida consagrada, em suas dimenses apostlica e contemplativa, presente em fronteiras missionrias; inserida junto aos pobres; atuante no mundo

da educao, da sade, da ao social; orante em mosteiros, comprometida a

evangelizar por sua vida e misso;

d) a formao e a atuao de assembleias, conselhos e comisses, tanto em mbito pastoral como em mbito econmico-administrativo. Os leigos, corresponsveis

com o ministrio ordenado, atuando nessas assembleias, conselhos e comisses,

tornam-se cada vez mais envolvidos na comunidade atravs do planejamento,

execuo e na avaliao de suas atividades. Estes organismos so instrumentos que

178 EG, 29; DAp, n. 180, 312. 179 DAp, n. 307. 180 EG, n. 29. 181 CNBB, Comunidade de comunidades: uma nova parquia (Doc. 100), 309-311. 182 DAp, n. 162. 183 CNBB, Misso e Ministrios dos Cristos Leigos e Leigas (Doc. 62), n. 77-79; DAp, n. 211. 184 DAp, n. 211.

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levam valorizao dos diferentes servios pastorais e podem ser um meio para

evidenciar a necessidade de todos os membros da comunidade eclesial tornaram-se

sujeitos corresponsveis na ao evangelizadora;

e) a articulao das aes evangelizadoras, atravs da pastoral orgnica e de conjunto, para evitar o contratestemunho da diviso e a competio entre grupos.

A articulao da diversidade de carismas e iniciativas de evangelizao contribui

para efetivar a unidade eclesial. Instrumento privilegiado de uma pastoral orgnica

e de conjunto o planejamento, com a participao de todos os membros da

comunidade eclesial na projeo da ao evangelizadora, tanto no processo de

discernimento, como na tomada de deciso e avaliao.

108. A efetivao de uma Igreja comunidade de comunidades com esprito missionrio, manifesta-se tambm na bela experincia das parquias-irms, dentro e fora da diocese,

anloga ao mencionado projeto Igrejas-irms. A exemplo das primeiras comunidades,

importante estimular a experincia da partilha, principalmente atravs do dzimo. A

constituio de um fundo diocesano de comunho e partilha, expresso da comunho

eclesial da Igreja particular e da solidariedade entre suas comunidades, garante que a

nenhuma comunidade falte o necessrio.

4.5. Igreja a servio da vida plena para todos

109. A Igreja, atravs de uma pastoral social estruturada, orgnica e integral, tem a vocao e misso de promover, cuidar e defender a vida em todas as suas expresses. Ao fazer

isso, testemunha que o querigma possui um contedo inevitavelmente social: no

prprio corao do Evangelho, aparece a vida comunitria e o compromisso com os

outros. O contedo do primeiro anncio tem uma repercusso moral imediata, cujo

centro a caridade.185

110. O servio vida comea pelo respeito dignidade da pessoa humana, atravs de iniciativas como: a) defender e promover a dignidade da vida humana em todas as

etapas da existncia, desde a fecundao at a morte natural; b) tratar o ser humano

como fim e no como meio, respeitando-o em tudo que lhe prprio: corpo, esprito e

liberdade; c) tratar todo ser humano sem preconceito nem discriminao, acolhendo,

perdoando, recuperando a vida e a liberdade de cada pessoa, tendo presentes as

condies materiais e o contexto histrico, social, cultural em que cada pessoa vive.

Neste sentido, destaca-se a importncia da Campanha da Fraternidade, que est entre as

aes eclesiais de maior impacto na sociedade.

111. Um olhar especial merece a famlia, patrimnio da humanidade, lugar e escola de comunho, primeiro espao para a iniciao vida crist das crianas, no seio da qual,

os pais so os primeiros catequistas.186 Tamanha sua importncia que precisa ser

considerada um dos eixos transversais de toda a ao evangelizadora187. Portanto,

preciso uma pastoral intensa, vigorosa e frutuosa, capaz de animar a vivncia da

santidade no matrimnio e na famlia, atendendo tambm as diversas situaes

familiares e reivindicando as condies socioeconmicas necessrias ao bem estar da

pessoa, da famlia e da sociedade.188

185 EG, n. 177. 186 DAp, n. 118, 302. 187 DAp, n. 435. 188 BENTO XVI, Discurso Inaugural da Conferncia de Aparecida, n. 5.

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112. preciso intensificar o empenho na defesa da dignidade das mulheres, das pessoas com deficincia e dos idosos. A conscincia da igualdade de seus direitos e sua plena

incluso na sociedade precisam ser promovidas. Para a Igreja, o apoio a essas causas

um eloquente testemunho de sua f em Jesus Cristo e de seu compromisso com o Reino

de Deus, por Ele anunciado e mostrado presente entre ns.

113. Crianas, adolescentes e jovens precisam de maior ateno por parte de nossas comunidades eclesiais, pois so os mais expostos ao abandono, s drogas, violncia,

venda de armas, ao abuso sexual, ao trfico humano, s vrias forma de explorao do

trabalho, bem como falta de oportunidades e perspectivas de futuro. Em vista disso,

importante promover e apoiar a pastoral da sobriedade, a pastoral juvenil, a pastoral do

menor, a pastoral da criana. Neste contexto, preciso acompanhar com ateno a

discusso sobre a criminalizao de menores e manifestar com clareza a posio da

Igreja a respeito.189 Tambm as pessoas idosas, expostas ao risco da excluso, precisam

ser valorizadas em sua experincia e sabedoria, reconhecidas em sua dignidade e

protegidas em seus direitos.

114. No mbito da Economia, necessrio compartilhar as alegrias e preocupaes dos trabalhadores e das trabalhadoras, por meio da presena evanglica, nos locais de

trabalho, nos sindicatos, nas associaes de classe e lazer. Atravs das diversas pastorais

e movimentos ligados ao mundo do trabalho, urge lutar contra o desemprego e o

subemprego, a precarizao do trabalho e perda de direitos, criando ou apoiando

alternativas de gerao de renda, assim como a economia solidria, a agricultura

familiar, a agroecologia, a reforma agrria 190 , o consumo solidrio, a segurana

alimentar, as redes de trocas, o acesso ao crdito popular, o trabalho coletivo, a busca do

desenvolvimento local sustentvel e solidrio.

115. Ateno especial merecem os migrantes191 forados pela busca de trabalho e moradia: a) os migrantes brasileiros no exterior, vivendo no meio de outras culturas e

tradies, que precisam de amparo, apoio e assistncia social e religiosa;

b) os migrantes sazonais, que constituem mo de obra barata e superexplorada pelo agronegcio em variadas formas;

c) as vtimas do trfico de pessoas seduzidas por propostas de trabalho que levam explorao tambm sexual;

d) os trabalhadores explorados pelos mtodos de terceirizao, vtimas de atravessadores de mo de obra;

e) os novos migrantes estrangeiros em busca de sobrevivncia em nossa ptria, muitos se encontrando em situao de no cidadania e discriminao.

urgente o estabelecimento de estruturas nacionais e diocesanas destinadas no apenas a

acompanhar os migrantes e refugiados, como tambm a se empenharem junto aos

organismos da sociedade civil, para que os governos tenham uma poltica migratria que

leve em conta os direitos das pessoas em mobilidade.

116. No mbito da cultura, cabe promover uma sociedade que respeite as diferenas, combatendo o preconceito e a discriminao nas mais diversas esferas, efetivando a

convivncia pacfica das vrias etnias, culturas e expresses religiosas, o respeito s

legtimas diferenas. Torna-se urgente trabalhar pela criao e aplicao de mecanismos

legais para o combate a qualquer forma de discriminao, mas sempre vigilantes para

evitar a afirmao exasperada de direitos individuais e subjetivos, 192 bem como a

ideologia do multiculturalismo relativista. A Igreja, como me misericordiosa, deve ser

189 PAPA FRANCISCO, Discurso delegao da Associao Internacional de Direito Penal (23.10.2014). 190 CNBB, A Igreja e a questo agrria brasileira no incio do sculo XXI (Doc. 101). 191 CV, n. 62. 192 DAp, n. 47.

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a primeira a se interessar pela defesa dos direitos humanos. Deve estar atenta, porm, s

eventuais manipulaes ou distores prejudiciais vida plena. A tica dos direitos

humanos exige que se garanta a vida plena em todas as dimenses da pessoa e para

todas as pessoas da sociedade.

117. Neste particular, cabe apoiar as iniciativas em prol da incluso social e o reconhecimento dos direitos das minorias, como os povos originrios, indgenas,

comunidades tradicionais, afrodescendentes, ciganos, pescadores, ribeirinhos,

extrativistas, populaes de rua e outros.193 Como Igreja advogada da justia e dos

pobres,194 cabe-nos denunciar toda prtica de discriminao e de racismo em suas

diferentes expresses e apoiarmos as reivindicaes pela defesa, reconhecimento e

demarcao de seus territrios, na afirmao de seus direitos, sua cidadania, seus

projetos e de sua cultura.195

118. Tarefa de grande importncia a formao de pensadores e pessoas que estejam em nveis de deciso, evangelizando, com especial ateno e empenho, os novos

arepagos:196

a) um dos primeiros arepagos o mundo universitrio. Uma consistente pastoral universitria necessria em todas as Igrejas Particulares. Quanto mais nos

empenharmos em conscientizar e capacitar os leigos, a partir de sua prpria

profisso, para o dilogo f e razo, estaremos animando a sua vocao no mundo

e, consequentemente, auxiliando na melhoria da sociedade;

b) outro urgente arepago o mundo da comunicao. Tornam-se inadiveis mais investimentos tecnolgicos e qualificao de pessoal, para o uso adequado dos

meios de comunicao; uma proftica e abrangente pastoral da comunicao,

garantindo a presena da Igreja no dilogo com a mentalidade e a cultura

contemporneas, luz dos valores do Evangelho;

c) o terceiro arepago liga-se presena pastoral junto aos empresrios, aos polticos, aos formadores de opinio no mundo do trabalho, dirigentes sindicais e

lderes comunitrios, disponibilizando e formando pessoas que se dediquem a ser

presena significativa nestes meios.

119. Cabe tambm incentivar a Pastoral da Cultura, viva e atuante, atravs de centros culturais catlicos e de projetos que visem atingir os ncleos de criao e difuso

cultural e a diversidade das culturas de cunho popular.197

120. Num contexto cultural cada dia mais marcado pelo cetic