EMBARGOS DE DECLARA‡ƒO E A OMISSƒO INDIRETA

  • View
    223

  • Download
    5

Embed Size (px)

Text of EMBARGOS DE DECLARA‡ƒO E A OMISSƒO INDIRETA

  • 1

    EMBARGOS DE DECLARAO E A OMISSO INDIRETA

    (matrias que devem ser resolvidas de ofcio, independentemente de

    argio prvia pelo interessado) *-**

    RODRIGO MAZZEI

    Professor da Universidade Federal do Esprito Santo (UFES) e do Instituto Capixaba de Estudos (ICE).

    Advogado. Vice-presidente do Instituto de Advogados do Estado do Esprito Santo (IAEES). Mestre pela Pontifcia

    Universidade Catlica de So Paulo (PUC-SP).

    Sumrio: 1. A natureza jurdica dos embargos de declarao (recurso de saneamento); 1.1.

    A devolutividade vinculada: vcios formais tipificados; 1.1.1. Situaes que ensejam a

    oposio dos declaratrios; 1.2. Recurso de integrao ou de saneamento?; 2. Omisso

    (necessidade de sistematizao); 2.1. Omisso ontolgica e omisso relacional; 2.1.1.

    Omisso direta e indireta; 2.2. Relevncia da sistematizao (exemplos de omisso

    indireta): 3. Do erro manifesto (erro evidente); 4. A relevncia da classificao da

    omisso direta ou indireta para efeito de verificao de necessidade de contraditrio.

    1. A natureza jurdica dos embargos de declarao: recurso de saneamento

    Como curial, o art. 535 do CPC define os limites dos embargos de declarao, elencando a

    obscuridade, a contradio e a omisso como as hipteses fechadas de seu cabimento. A partir da

    interpretao do artigo em tela possvel desvendar a natureza jurdica do instituto, que possui

    funo mpar no nosso ordenamento.

    importante notar, desde logo, que os declaratrios tm ndole diversa dos recursos que

    permitem o efeito substitutivo previsto no artigo 512 do CPC, na medida em que visam sanear (e

    no substituir) o ato judicial impugnado.1 Vale dizer, nesse sentido, que o enfoque que se d ao

    * Para a justa homenagem Professora Teresa Arruda Alvim Wambier escolhemos os embargos de declarao e as

    matrias que devem ser resolvidas pelo rgo judicial independentemente da provocao das partes, tendo em vista a

    grande contribuio da homenageada para os estudos que envolvem os poderes do juiz e o controle das decises

    judiciais.

    ** O presente trabalho faz parte de uma srie de textos que estamos desenvolvendo acerca dos embargos de declarao,

    a saber: Dos embargos de declarao. In: Dos recursos - Temas obrigatrios e atuais. (vetores recursais). Rodrigo Reis

    Mazzei (Coord.). Vitria: Instituto Capixaba de Estudos - ICE, 2002, v. 2; O manejo dos declaratrios pelo terceiro

    prejudicado. In: Aspectos polmicos e atuais sobre terceiros no processo civil e assuntos afins. Fredie Didier Jr. e

    Teresa Arruda Alvim Wambier (Coords). So Paulo: RT, 2004; Embargos de declarao. Evoluo legislativa em 30

    anos de CPC. Horizontes de uma nova reforma. In: Linhas mestras do Processo Civil (comemorao dos 30 anos de

    vigncia do CPC). Hlio Rubens Batista Ribeiro Costa, Jos Horcio Halfeld Rezende Ribeiro e Pedro da Silva

    Dinamarco (Coords). So Paulo: Atlas, 2004; Embargos de Declarao na CLT: diferenas e convergncias com o CPC.

    In: Revista do Tribunal Superior do Trabalho, 2004, ano 70, n. 2, jul-dez, p.146-174. Esperamos, em breve, finalizar

    estudo mais amplo sobre os embargos de declarao, trazendo todas as nossas idias sobre o instituto.

    1 Em sentido contrrio, vinculando o art. 512 do CPC aos embargos de declarao: Luiz Guilherme Marinoni e Sergio

    Cruz Arenhart (Manual do processo de conhecimento. So Paulo: Revista dos Tribunais, p. 545).

  • 2

    chamado efeito modificativo ou infringente, com todo respeito, no o ponto basilar para o exame

    da natureza jurdica do instituto, uma vez que, por se tratar de situao excepcional, constitui apenas

    efeito secundrio do saneamento das hipteses de errores in procedendo tipificadas.2

    Em que pese autorizada doutrina que nega natureza recursal figura em comento,3 no temos

    a menor dvida de que os embargos declaratrios ho de ser classificados como recurso, pois (i)

    trata-se de ato postulatrio que, (ii) mantendo a litispendncia (quer dizer, adiando ou retardando

    os efeitos da precluso e/ou coisa julgada),4 (iii) busca corrigir ato judicial.

    2 Adiantamos nossa posio de que o artigo 512 do CPC no guarda qualquer relao com o efeito modificativo (ou

    infringente) dos embargos de declarao. De todo modo, certo que desenvolver adequadamente esta concluso

    transbordaria aos objetivos do presente trabalho, razo pela qual optamos por expor a questo de forma sumria adiante

    (item 1.1.1). Para exame mais profundo da matria reportamos o leitor ao nosso: Dos embargos de declarao. In: Dos

    recursos. Temas obrigatrios e atuais: vetores recursais. Vitria: Instituto Capixaba de Estudos ICE, 2002, v. 2, p.

    283-446.

    3 Apenas como registro, seguem essa linha, entre vrios: Srgio Bermudes. Comentrios ao Cdigo de Processo Civil.

    2. ed. So Paulo: Revista dos Tribunais: 1975, v. 7; Lopes da Costa. Direito processual civil brasileiro. 2. ed. Rio de

    Janeiro: Forense, 1959, v. 3; Egas Dirceu Moniz de Arago. Embargos de declarao. Revista dos Tribunais, ano 77, v.

    663, p. 11-23, jul. 1988 e Wellington Moreira Pimentel. Comentrios ao Cdigo de Processo Civil. 2. ed. So Paulo:

    Revista dos Tribunais, 1979, v. 3, p. 531. O ltimo jurista indicado, ao sintetizar os principais argumentos daqueles que

    sustentam que os declaratrios no tm natureza jurdica de recurso, afirma: Por eles o embargante no procura

    infringir ou modificar o julgado. Nem formula pedido de nova deciso. Nem se exige, para a legitimao recursal, que a

    deciso embargada lhe haja imposto qualquer gravame ou prejuzo. Nem se estabelece o contraditrio, e finalmente,

    independem de preparo. (ob. cit., p. 531). Os argumentos invocados para desconsiderar os declaratrios como recurso,

    a nosso sentir, no so capazes de retirar-lhes a natureza recursal. Quanto ao preparo, tambm o agravo, na modalidade

    retida, possui dispensa expressa (art. 522, pargrafo nico do CPC), localizando-se a mesma cortesia no agravo de

    inadmisso (art. 544, 2 do CPC). No que se refere devoluo, um exame mais acurado ir apontar que existe efeito

    devolutivo nos declaratrios, pois eles proporcionam um novo pronunciamento jurisdicional, ainda que pelo mesmo

    rgo julgador. Nesse sentido, precisa a fala da homenageada Teresa Arruda Alvim Wambier: A devoluo deve ser

    entendida como sendo o submeter novamente a deciso impugnada apreciao do Poder Judicirio, devolvendo-lhe a

    matria. De regra, este reexame dever dar-se por outro rgo, diferente daquele que proferiu a deciso;

    excepcionalmente pelo mesmo rgo (Omisso Judicial e Embargos de Declarao. So Paulo: RT, 2005, p. 75).

    Quanto formao do contraditrio, mesmo sem adentrar ao posicionamento majoritrio de que, no caso dos

    declaratrios com efeito infringente, necessria a oitiva do embargado, o foco para seu exame bem diverso do que a

    doutrina tradicionalmente tem buscado, pois no se trata de mera fala sobre a pretenso recursal, mas, em outro prisma,

    de se aferir se a questo levantada nos embargos j tinha sido contraditada ou no pela parte at aquele momento. Mais

    ainda, diante do espectro de atuao dos declaratrios relativos apenas aos defeitos formais no julgado , o vcio que

    est sendo denunciado existe para todo o processo, ou seja, no s para o embargante, mas tambm para aquele que no

    embargou, pois o ato judicial deve ser preciso e completo, qualidade essa que deve ser isonmica.

    4 Teresa Arruda Alvim Wambier, em correta lio, afirma que todos os recursos, no direito brasileiro, tm pelo menos

    um efeito, que o de obstar que passe a pesar sobre a deciso recorrida a autoridade da coisa julgada, ou que, a respeito,

    ocorra a precluso. Na verdade, o recurso adia ou retarda a coisa julgada ou a precluso, que so inevitveis (Os

    agravos no CPC brasileiro. 3. ed. So Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 219).

  • 3

    Absorver a idia de que os declaratrios funcionam como recurso de saneamento, com

    fundamentao vinculada, por atacarem vcios formais (errores in procedendo) previamente

    tipificados, o ponto chave para a compreenso da sua natureza jurdica. Tentaremos explicar.

    1.1. A devolutividade vinculada: vcios formais tipificados

    Os vcios formais de julgamento no podem ser confundidos com a eventual injustia que o

    Estado-juiz venha a cometer no exerccio da funo jurisdicional, no obstante, em ambos os casos

    seja possvel ocorrer prejuzo ao litigante. Da porque, com acerto, necessria a distino do error

    in procedendo5 que est vinculado prpria atividade de julgar no aspecto da forma , em relao

    ao error in judicando, que se finca no equvoco ocorrido na soluo de fato e de direito, ou seja, no

    prprio contedo da deciso.6 Aqui surge ponto relevante no estudo: todas as hipteses de

    oponibilidade dos declaratrios esto atreladas estrutura do ato judicial, reclamando-se o acerto

    da questo formal (error in procedendo).

    O direito positivo brasileiro protege a forma dos atos processuais, exigindo uma srie de

    condies para validade desses atos, tais como a imparcialidade do juiz, a observncia do

    contraditrio, de prazos, entre outras. Temos esses requisitos postos no ordenamento jurdico, pois a

    observao emprica nos tem levado a esperar, indutivamente, que essa teia procedimental seja apta

    a garantir a prolao de decises mais justas, por meio de provimentos que revelem um direito

    material (contedo) com sentido mais prximo ao intentado pelos textos legais.7 A forma dos atos

    5 Segundo Luis Guilherme Aidar Bondioli, o chamado error in procedendo um vcio de atividade, uma desateno

    do juiz pa