Estado, (Neo) desenvolvimentismo e a atualiza§£o da ... 2 ESTADO E O MERGULHO IDEOL“GICO NO NEODESENVOLVIMENTISMO

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Estado, (Neo) desenvolvimentismo e a atualizao da cultura de solidariedade e

participao como estratgias de controle do poder hegemnico

Karnina Fonsca Silva1 Lisiane de Oliveira Costa Castro2

RESUMO Este artigo discute o Estado capitalista e a estratgia (neo) desenvolvimentista, como forma de organizao das foras produtivas, das relaes entre as classes e como sistema de regras e condutas que regulam o mercado. Nessa direo, aponta as estratgias homogeneizadoras da noo de solidariedade e de participao, difundidas por meio de discursos e prticas envolventes na garantia da produo, reproduo e ampliao do capital e de controle do poder hegemnico. Traz uma reflexo sobre as lutas sociais como fora poltica e pedaggica na construo de uma nova cultura de participao para uma emancipao humana. Palavras-chave: Estado. (Neo) desenvolvimentismo. Cultura. Hegemonia. Solidariedade.

State, ( Neo) developmentalismandupdatingthecultureof " solidarity " and "

participation " as control strategies of the hegemonic power

ABSTRACT

This article discusses the capitalist state and the strategy ( neo) developmentalist as a form of organization of the productive forces , the relations between the classes and how rules and conducts system regulating the market. In this direction, pointing the homogenizing strategies of the concept of " solidarity " and "participation" , disseminated through speeches and engaging practices in ensuring the production, reproduction and expansion of capital and control of the hegemonic power. A reflection on the social struggles as a political and educational force in building a new culture of participation for human emancipation. Keywords : State. ( Neo) developmentalism . Culture. Hegemony. Solidarity..

1 Assistente Social e Doutoranda do Programa de Ps-Graduao em Polticas Pblicas da Universidade Federal

do Maranho (UFMA). Email: kareninafsilva@bol.com.br 2 Assistente Social e Mestre em Educao pela Universidade Catlica de Braslia (UCB). Email:

lisianecastro.profa@gmail.com

1 INTRODUO

Entende-se que o Estado capitalista representa os interesses e garantias de

uma classe social, em favor da propriedade privada e acumulao de riqueza, sendo que,

de maneira polarizada, diante de conflitos emergentes, subsidia estrategicamente polticas

que atendam s necessidades da classe dominada para mediar os conflitos. Assim, o

Estado capitalista no pode ser outra coisa que no instrumento de dominao de classe,

pois se organiza para sustentar a relao bsica entre capital e trabalho (MARX e ENGELS,

1984, p. 99).Nessa direo, Mszros (2002, p.106) aponta que a formao e

desenvolvimento do Estado moderno traz, em sua estrutura, o comando poltico para

assegurar e proteger permanentemente a produtividade do sistema do capital, articulado

necessidade material da ordem sociometablica do capital.

Assim, o (neo) desenvolvimentismo surge, no sculo XXI, como uma estratgia

que acompanha a crise estrutural do capital e, portanto, a crise do Estado, considerando

este como expresso poltica do capital, como a forma de organizao das foras

produtivas, das relaes entre as classes e como sistema de regras e condutas que regulam

o mercado.

Dessa forma, torna-se fundamental compreender que a poltica

neodesenvolvimentista assume a expanso dos valores de mercado e a disseminao de

uma cultura de classe que vem se desenvolvendo, historicamente, por intermdio da

pedagogia da hegemonia, com prticas e ideologias que se tornam essenciais e quase

nicas, a saber: a catequese de superao da crise econmica, com medidas de conteno

de gastos, gerenciamento pblico, com o extermnio de direitos sociais e trabalhistas,

privatizaes e terceirizaes, em defesa de impulso do crescimento econmico, sob as

ordens do capital financeiro internacional e, portanto, de legitimao ao processo de

acumulao capitalista e de manuteno do status quo, com dimenses e determinaes

ideopolticas na formao de consensos de classe, negando seus antagonismos.

Nessa perspectiva, Oliveira (2010) nominou de hegemonia s avessas a

estratgia de cooptao dos trabalhadores, que assumem como suas ou so constrangidos

a assumir como suas as ideias propostas da burguesia. Esse movimento da hegemonia das

classes dominantes, ganha fora mediante as estratgias da despolitizao da classe

trabalhadora, versadas do discurso da eficincia, privatizao e mercantilizao das

polticas pblicas, da apologia ao empreendedorismo e empregabilidade, reforando a

responsabilizao dos insucessos e excluso ao indivduo.

Este movimento de dominao restaura as bases do processo de acumulao

capitalista sob o poder do bom capitalismo, do manto sagrado da moral, da participao,

da solidariedade, com o intuito de responder questo da desigualdade, de forma

superficial, focalizada, imediata, mas com o significado reiterado da ajuda, benesse e

humanidade, que assegura um novo consenso e conformismo, trabalhado pela terceira

via. nessa imerso ideolgica e poltica neodesenvolvimentista que o espetculo do

crescimento proposto, desistoricizando sua raiz econmica e de interesses polticos,

reanimando, fantasmagoricamente, as estratgias homogeneizadoras da noo de

solidariedade e de participao, com discursos e prticas envolventes na garantia da

produo, reproduo e ampliao do capital, sob a face oculta de garantia da sua

hegemonia.

No entanto, contrrio a essa proposta, as lutas sociais tm descortinado a

encenao deste espetculo, por meio da recriao de condies objetivas pela

sobrevivncia, buscando espaos de interveno e confronto, coletivizando demandas e

interesses em redes que alcanam um vnculo poltico, cultural, em defesa de uma

pedagogia para a emancipao humana.

Parte-se da compreenso de que as lutas sociais ocorrem em funo das

necessidades reais, a partir dos processos de desigualdade social, fomentados pela

organizao do modo de produo; nesse mesmo sentido, a existncia de um movimento

que perpassa todas as classes sociais vai alm da luta por direitos sociais, pois envolve

organizao de uma cultura, de correlaes de fora que esto imbricadamente ligadas e

em oposio.

Dessa forma, este trabalho discute a questo do Estado e a ideologia

(neo)desenvolvimentista, diante da crise estrutural do capital e, no campo das disputas

e relaes antagnicas que envolvem o movimento e a (re)organizao da sociedade em

busca de uma direo e ordenamento das relaes sociais, traz a necessidade de reflexo

sobre o entendimento de participao e solidariedade no mbito da cultura e poltica, numa

luta pela emancipao ou pela manuteno da perspectiva de dominao.

2 ESTADO E O MERGULHO IDEOLGICO NO NEODESENVOLVIMENTISMO SOB O

MANTO SAGRADO DA CULTURA DE SOLIDARIEDADE E PARTICIPAO

Partindo da compreenso em Marx e Engels (1973, v.3, p.137 ), o Estado nem

sempre existiu, ele nasce a partir da necessidade de mediar o antagonismo das classes e,

logicamente, de atender prioritariamente a uma classe que detm as condies polticas e

econmicas para manter seus meios de represso e explorao da classe oprimida.

Nessa compreenso, o Estado burgus, mediante a apropriao dos meios de

produo, mantm no somente o monoplio econmico, mas, tambm, o poltico, por meio

da cultura e direo espiritual e ideolgica trabalhadas intelectualmente, com vistas ao

processo de manuteno de um consenso entre as classes quando da internalizao de

valores, conduta, modos de vida, leis, transformando os interesses privados (da minoria que

detm os meios de produo) em ideais absorvidos pela classe oprimida, abrangendo

toda a sociedade.

O Estado, para Gramsci (1980), est articulado organicamente sociedade,

ou seja, faz parte dela. Para ele, a distino entre sociedade civil e Estado de natureza

metodolgica e no orgnica. Dessa forma, compreende o Estado como sendo ligado

sociedade, amalgamado ao conjunto das vontades coletivas, que se articulam e organizam,

embora em condies opostas e que se expressam contraditoriamente nas relaes e nas

subjetividades inerentes ao processo de acumulao do capital.

Segundo Coutinho (1992, p.76), Gramsci, ao analisar o processo de expanso

do capitalismo da sua poca, percebe que, em sociedades nas quais o conjunto de

vontades coletivas so mais bem absorvidas, movidas pelo iderio vivenciado pelo senso

comum dessas sociedades e fortalecidas pela elaborao e difuso das ideologias, menor

ser necessrio o uso da fora pelas instituies de represso que representam a

hegemonia.

A reflexo gramsciana sobre hegemonia traz grande contribuio sobre os

aspectos de direo cultural e poltica que envolve essas relaes interdependentes e

antagnicas. Nessa concepo, o poder no advm apenas da classe dominante, mas pelos

dois modos como se manifesta. Um pelo domnio e outro pela direo intelectual e moral.

Um grupo domina quando submete o grupo oposto e dirige quando se pe frente dos

grupos afins ou aliados. O domnio pressupe o acesso ao poder e o uso da fora de

maneira coercitiva; e a direo intelectual e moral faz-se por meio da persuaso e da

adeso ideolgica, que exercem a funo hegemnica.

A hegemonia um conceito atrelado ao entendimento da