Garantia Bancária Autónoma - fd.unl.pt .Faculdade De Direito Universidade Nova de Lisboa Garantia

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    Universidade Nova de Lisboa

    Garantia Bancria

    Autnoma Sumrio: 1. Noo de garantia bancria autnoma e distino em relao fiana. 2.

    Origem e fundamento da garantia autnoma. 3. Processo conducente relao jurdica

    no mbito da qual se encontra a garantia bancria autnoma propriamente dita. 4.

    Causalidade e Abstraco. 5. Qualificao da relao jurdica entre o garante e o

    beneficirio a garantia bancria autnoma como contrato. 6. Qualificao da relao

    jurdica entre o garante e o beneficirio a garantia bancria autnoma como negcio

    jurdico unilateral. 7. A relao entre o dador de ordem e o garante qualificvel de

    contrato a favor de terceiro? 8. Modalidades de garantia bancria autnoma: garantia

    simples e primeira interpelao (on first demand). 9. Fundamento de recusa legtima

    de pagamento pelo garante ao beneficirio - limite autonomia. 10. Bibliografia. 11.

    Jurisprudncia.

    Ano lectivo 2010/2011, 1. semestre

    Cadeira: Direito Bancrio e dos Seguros

    Elaborado por: Lisete Rodrigues, n. 1271

    Miguel Archer, n. 1065

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    1. Noo de garantia bancria autnoma e distino em relao fiana.

    A garantia bancria autnoma1 uma garantia pessoal, prestada por uma instituio

    de crdito (geralmente um banco) que tem como propsito indemnizar algum em

    determinado montante pela verificao de determinado evento a que as partes tenham

    atribudo relevncia num contrato celebrado entre elas (normalmente designado de

    contrato base). Esse evento , em princpio, o alegado incumprimento do contrato base.

    Como indica o nome, esta garantia caracteriza-se pela sua autonomia, distinguindo-se,

    por isso, claramente da fiana, cuja caracterstica essencial a acessoriedade.

    A distino entre a fiana e a garantia bancria autnoma passa necessariamente por

    distinguir as suas caractersticas essenciais: a acessoriedade e a autonomia. Enquanto a

    acessoriedade da fiana se traduz no facto de a obrigao do fiador se moldar

    necessariamente do afianado arts. 627./1 e /2 e 634. CC, a autonomia significa

    que o garante assegura a verificao de um determinado resultado, totalmente

    independente da obrigao assumida pelo devedor no contrato base2.

    Em termos prticos, na fiana, o fiador pode invocar a invalidade da fiana por

    causa da invalidade da obrigao principal (632./1 CC), bem como invocar contra o

    credor quaisquer meios de defesa que competem ao devedor (637./1 CC). Na garantia

    bancria autnoma, o garante no pode invocar, em princpio3, quaisquer meios de

    defesa provenientes de relaes jurdicas distintas da assumida por este com o

    beneficirio.

    Por outras palavras, a autonomia destas garantias traduz-se na inoposio de

    excepes por parte do garante ao beneficirio, salvo os meios de defesa que forem

    prprios do garante na relao que tenha com o beneficirio.

    Veja-se, a este propsito, a sntese feita pelo recente Acrdo do STJ de 19-05-

    20104, dizendo que da autonomia retira-se que no podem ser opostas ao beneficirio

    pelo garante excepes relacionadas com o contrato garantido, mas to s com o

    negcio de garantia, concretizando-se no facto de que o garante no tem possibilidade

    de invocar a prvia excusso de bens do garantido ou a invalidade ou impossibilidade

    da obrigao por este contrada (vo exactamente no mesmo sentido outros tantos

    acrdos TRC 27-01-20045 e TRP 08-05-2008

    6, a ttulo de exemplo).

    1 Doravante as expresses garantia bancria autnoma e garantia autnoma sero usadas como sinnimos.

    2 Veja-se sobre a distino desenvolvida entre a figura da fiana e da garantia autnoma e sobre a caracterstica da

    autonomia, entre outros, INOCNCIO GALVO TELLES, Garantia bancria autnoma in O Direito, Associao Promotora de O Direito, Lisboa, ano 120, III e IV, Julho-Dezembro 1988, pp. 275-279 e 284-286; FRANCISCO CORTEZ, A garantia bancria autnoma Alguns problemas, in Revista da Ordem dos Advogados, ano 52, vol. II, Julho 1992, pp. 532-535 e 546-558;; MNICA JARDIM, A garantia autnoma, Almedina, Coimbra, 2002, pp. 115-150 e 169-199; PEDRO ROMANO MARTINEZ/PEDRO FUZETA DA PONTE, Garantias de cumprimento, Almedina, Coimbra, 5. ed. 2006, pp. 127-129. Veja-se tambm genericamente sobre o assunto JOO DE MATOS ANTUNES VARELA, Das obrigaes em geral, vol. II, Almedina, Coimbra, 7. ed., 1997 (3. reimpresso), p. 515; LUS MANUEL TELES DE MENEZES LEITO, Direito das obrigaes, vol. II, Almedina, Coimbra, 2007, p. 342. 3 V. infra, n. 9.

    4 Acrdo do STJ 19-05-2010 (Azevedo Ramos), in www.dgsi.pt.

    5 Acrdo do TRC de 27-01-2004 (Tvora Victor), CJ, ano XXIX, 2004, tomo I, pp. 17-21.

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    Ora, a qualificao de fiana ou de garantia autnoma s se poder aferir no

    caso concreto, tendo de se interpretar o sentido das declaraes efectuadas pelo

    garante, interpretao que deve ser feita por recurso s regras dos arts. 236./1 e

    238./1 CC, sobre o sentido normal da declarao7. Assim, se os tribunais

    consideram que existem elementos no clausulado da garantia que apontam para a sua

    autonomia, nos termos enunciados, valer a garantia em causa como garantia bancria

    autnoma.

    2. Origem e fundamento da garantia autnoma.

    O grande desenvolvimento do comrcio internacional na 2 metade do sculo XX

    fez disparar o recurso a garantias autnomas pelos comerciantes, procura essa que foi

    atendida pelos bancos e companhias de seguros. Esta grande procura por parte dos

    comerciantes tem justificao nas fragilidades da fiana, que conferem ao fiador

    demasiadas defesas, no sendo por isso vocacionada para as relaes comerciais, pois o

    beneficirio no se sente suficientemente salvaguardado.

    O comerciante (em princpio, o adquirente) nas transaces comerciais que realiza

    (contratos de fornecimento de bens, empreitada, etc.), pretende e exige uma garantia,

    pois na maior parte dos casos no conhece nem confia na contraparte. E,

    particularmente, exige que essa garantia seja prestada por um garante conhecido pela

    sua forte solvabilidade, da que normalmente exija que seja prestada por um banco ou

    por uma companhia de seguros. S nesses termos que o contrato base ser levado

    avante.

    Assim, a garantia autnoma uma garantia mais enrgica que a fiana, porque

    confere mais segurana, celeridade e eficcia satisfao do interesse do seu

    beneficirio8. Se, por um lado, esta garantia incentiva o cumprimento do devedor (que

    responder posteriormente perante o banco garante, no caso de no cumprir ou cumprir

    defeituosamente), por outro lado, o beneficirio est seguro de que receber a quantia

    determinada a ttulo de garantia, mesmo que existam controvrsias entre si e o devedor

    do contrato base acerca da validade, subsistncia ou cumprimento da obrigao

    garantida.

    O desenvolvimento das garantias autnomas no comrcio internacional culminou

    com o esforo da CCI (Cmara de Comrcio Internacional) para criar regras de

    6 Acrdo do TRP 08-05-2008 (Manuel Capelo), in www.dgsi.pt .

    7 Veja-se as decises citadas nesta pgina. O citado Acrdo do TRP 08-05-2008 bem claro: a definio da

    verdadeira natureza da garantia bancria accionada matria que se prende com a interpretao da declarao

    negocial que nela se contm (). 8 Veja-se, neste sentido, INOCNCIO GALVO TELLES, ob. cit., pp. 280 e 282-283; FRANCISCO CORTEZ, ob. cit., pp.

    517-519; MNICA JARDIM, ob. cit., pp. 35-41.

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    uniformizao das clusulas de tais garantias, de modo a que no se suscitassem

    dvidas quanto sua natureza e condies de aplicao.

    Pode-se assim dizer que o fundamento deste tipo de garantias nas prticas

    comerciais o de atribuir ao beneficirio uma soluo rpida e eficaz, evidenciando-se

    como prefervel a outro tipo de garantias.

    3. Processo conducente relao jurdica no mbito da qual se encontra a

    garantia bancria autnoma propriamente dita, ou o processo gentico

    de emisso de uma garantia bancria autnoma9.

    Feita a introduo figura da garantia autnoma, e tendo sempre presente as suas

    caractersticas10

    , constatamos que esta a mais enrgica das garantias e serve no s os

    fins do comrcio internacional, mas tambm os do comrcio interno. de uso corrente

    entre ns, nomeadamente na rea dos concursos de obras pblicas e dos contratos de

    empreitada, sendo eleita pelos agentes dos negcios como a mais segura, expedita e

    eficaz das garantias11

    .

    A figura da garantia bancria autnoma exige no mnimo trs intervenientes, a

    saber: um ordenante, que tambm ser devedor (na relao subjacente) e garantido; um

    banco que ser o garante e um beneficirio que ser tambm credor. Teremos, ento,

    trs intervenientes, que assumiro estas diferentes designaes de acordo com a relao

    que estaremos a tratar, que vo dar lugar a trs relaes jurdicas entre si. Podemos,

    desta forma, constatar que o processo de formao de uma garantia bancria autnoma

    assenta num tringulo cujas trs faces so trs relaes jurdicas distintas, normalmente