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LÍNGUA Latina Rodrigo Tadeu Gonçalves

Língua Latina

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LÍNGUA Latina

Rodrigo Tadeu Gonçalves

LÍNGUA Latina

LÍN

GU

A Latina

Fundação Biblioteca NacionalISBN 978-85-387-1146-9

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20102ª edição

LÍNGUA Latina

Rodrigo Tadeu Gonçalves

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Doutor e Mestre em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Bacharel em Letras-Português, Inglês e Latim pela UFPR.

Rodrigo Tadeu Gonçalves

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Sumário

História do latim e as línguas neolatinas | 11

A hipótese do indo-europeu | 12

Fases e variedades da língua latina | 15

A passagem do latim para as línguas românicas modernas | 18

A latinização | 19

Fonologia e prosódia do latim | 27

A questão da duração das vogais | 28

O alfabeto latino | 29

O acento de intensidade | 32

As pronúncias do latim | 33

Estrutura da língua latina comparada com a da língua portuguesa | 41

A estrutura da língua portuguesa | 41

A estrutura da língua latina | 43

Comparação entre as duas línguas | 48

Sistema nominal latino: primeira e segunda declinações, adjetivos de primeira classe e preposições | 59

As declinações nominais | 59

Primeira declinação | 61

Segunda declinação | 62

Adjetivos de primeira classe | 64

Preposições | 66

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Sistema nominal latino: terceira declinação e adjetivos de segunda classe | 75

Terceira declinação | 75

Adjetivos de segunda classe | 80

Graus dos adjetivos e formação de advérbios | 95

A formação do comparativo dos adjetivos | 95

A formação do superlativo dos adjetivos | 97

Comparativos e superlativos irregulares | 99

Advérbios regulares | 99

A estrutura do verbo latino | 109

Características morfológicas dos verbos em latim | 109

Primeira conjugação verbal | 114

Aprofundamento da morfologia verbal latina | 127

Terceira conjugação verbal | 127

Quarta conjugação verbal | 129

Conjugação mista | 131

Verbos irregulares | 134

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A voz passiva e os verbos depoentes | 153

Voz passiva | 153

Verbos depoentes | 160

Os pronomes em latim | 173

Pronomes pessoais | 173

Pronomes possessivos | 174

Pronomes interrogativos e indefinidos | 175

Pronomes demonstrativos | 176

Pronomes relativos | 179

Conjunções: coordenação e subordinação | 195

Conjunções | 195

Os numerais, o calendário romano, a quarta e quinta declinações | 217

Os numerais | 217

O calendário romano | 219

A quarta e quinta declinações nominais | 223

Anotações | 233

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Apresentação

É muito difícil não reconhecer a importância da língua latina para todos os estudiosos e profissionais de áreas relacionadas com a língua portuguesa, dada a relação de descendência histórica direta entre elas. Assim, ainda que incipiente, a inclusão do estudo do latim nos currículos dos cursos de Letras é fundamental.

Este livro se propõe a apresentar questões importantes da língua latina para alunos de graduação em Letras. Portanto, o ensino do latim pretendido aqui é instrumental, voltado para uma compreensão da nossa língua. Em especial, pen-samos, o contato com a língua da qual a nossa deriva diretamente deve aumen-tar a capacidade de refletirmos sobre estruturas linguísticas e sobre a concepção que temos da nossa própria língua, tanto no sentido histórico quanto no sentido sistemático, nos termos da diacronia e da sincronia saussureanas.

Dessa forma, não pretendemos, por razões de escopo do material e do papel que essa disciplina exerce em uma licenciatura em Letras-Português, oferecer um ensino extremamente complexo e aprofundado de todas as formas pos-síveis da gramática latina, nem pretendemos levar os aprendizes aos caminhos dos textos originais de forma milagrosa. Mas sim, por outro lado, em uma ten-tativa metodologicamente reflexiva e crítica, pretendemos abrir o caminho ao aluno interessado, para que, a partir daqui e das referências apresentadas, con-tinue seus estudos a fim de se apoderar dos tesouros do conhecimento, do pen-samento, da literatura, da religião e da filosofia ocidentais aos quais o domínio pleno da língua latina conduz.

Isso não quer dizer, no entanto, que não tentaremos incentivar os alunos ao acesso, desde o primeiro momento, aos textos autênticos do vasto corpus da literatu-ra latina, pois com glossários explicativos e adaptações mínimas, apresentaremos alguns excertos como base dos exercícios, para que, por meio de metodologia mo-derna no ensino da habilidade de leitura, possamos ajudar os alunos a se tornarem leitores capazes de compreender uma língua como o latim em sua base estrutural tão diversa da nossa.

Por esse mesmo motivo, como o ensino da língua latina (que não tem mais falantes nativos vivos) só pode ser pensado de modo plausível visando a ha-bilidade de leitura (e não as de escrita, produção e compreensão oral), será necessário trabalhar com exemplos não autênticos e que fogem aos moldes da literatura latina canônica. Faremos tudo, esperamos, de maneira dosada e sem distorcer o que deveria ter sido de fato a língua de Roma.

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O latim era a língua falada na região central da Itália, chamada de Lácio, durante o primeiro milênio antes de Cristo e que, juntamente com o Impé-rio Romano, estendeu-se por grande parte da Europa, pelo norte da África e por diversas regiões da Ásia, até se transformar, através do curso natural das línguas, em dialetos incompreensíveis entre si, que acabaram dando origem a línguas como o nosso português, o francês, o catalão, o espa-nhol, o italiano, o romeno, o provençal, entre outras.

O latim que aprendemos hoje corresponde à variante literária do período que, de maneira geral, compreende os séculos I a.C e I d. C. Esse período é muito importante para a história do Ocidente, pois foi nele que gran-des autores escreveram obras literárias que ajudaram a moldar as bases culturais, políticas, sociais, filosóficas e religiosas da Europa e, consequen-temente, do mundo ocidental. Dentre esses autores, podemos destacar o mantuano Públio Virgílio Maro1, que, entre outras obras, escreveu a Eneida no final do século I a.C. Nessa obra, Virgílio narra, em doze livros de cerca de 700 a 1 000 versos cada, as origens históricas e mitológicas da gran-diosa Roma governada, no seu tempo, pelo imperador Augusto2, que, após longas décadas de guerras civis, havia sido declarado imperador em Roma, e criaria um período de paz e prosperidade para a capital de um im-pério que, se já vinha se expandindo enormemente ao longo dos séculos precedentes, avançaria seus domínios para lugares tão distantes quanto as Ilhas Britânicas, a costa do norte da África (incluindo o Egito), e vários territórios do atual Oriente Médio, até as bordas do Mar Negro.

Na Eneida de Virgílio, o surgimento de Roma está ligado às raízes mito-lógicas europeias, pois Enéias, o herói do poema, fugindo como um dos poucos sobreviventes da Guerra de Troia3, recebe a missão de buscar uma nova terra para fundar uma cidade que viria a ser a capital do mundo.

1 Virgílio nasceu no ano 70 a. C., perto de Mântua, na Gália Cisalpina, e morreu no ano 19 a.C.2 De nome Gaio Júlio César Otaviano, Augusto recebeu esse título quando se tornou o primeiro imperador de Roma. Nasceu em 63 a.C. e morreu no ano 14 da nossa era. Sob seu império, cessam quase cem anos de guerras civis entre os romanos, em especial, a mais importante, travada entre seu tio, Júlio César, e Pompeu.3 Os gregos sitiaram a cidadela de Troia por cerca de dez anos e finalmente a destruíram porque o belo Páris, filho de Príamo, rei de Troia, raptara a belíssima princesa Helena, esposa do chefe grego Menelau. Dentre os gregos, destacavam-se o engenhoso Odisseu, protago-nista da Odisseia do poeta grego Homero, e o furioso Aquiles, tema do outro poema épico homérico, a Ilíada. Também durante a Guerra de Troia, encontramos o ardil do cavalo de madeira cheio de soldados, o famoso “presente de grego”.

História do latim e as línguas neolatinas

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História do latim e as línguas neolatinas

Os destinos e os deuses então guiam Enéias por terras distantes, até que ele chega na foz do Rio Tibre, por volta do século VIII a.C., perto das famosas sete co-linas que hoje ficam em Roma. Lá, seu filho Ascânio dá origem a uma linhagem de reis que misturam sua ascendência com as dos povos locais, que incluíam etruscos, faliscos, oscos, sabinos, entre outros, e que, com seus descendentes Rômulo e Remo, fundam a cidade de Roma.

Acompanhemos as palavras que Enéias ouve de seu pai, Anquises, quando desce aos infernos para encontrar-se com ele e conhecer o futuro glorioso de Roma:

Outros, é certo, hão de o bronze animado amolgar com a mão destra, ninguém o nega; do mármore duro arrancar vultos vivos. Nos tribunais falar bem, apontar com o seu rádio as distâncias na azul abóbada e os astros marcar quando a leste despontam. Mas tu, romano, aprimora-te na governança dos povos. Essas serão tuas artes; e mais: leis impor e costumes, poupar submissos e a espinha dobrar dos rebeldes e tercos.4

A partir dos relatos míticos da fundação de Roma, as conquistas dos roma-nos – um povo belicoso e austero – fizeram grande parte do mundo conhecido tornar-se falante de latim. Com a fusão do Império Romano com a Igreja, nos primeiros séculos da era cristã, a religião, a cultura, a literatura, a filosofia e a administração pública levaram a língua de Roma, ao longo da Antiguidade e da Idade Média, para grande parte da Europa.

Assim, se falamos português hoje, é porque a região onde hoje fica Portugal fez parte desse processo de recepção da cultura dos conquistadores romanos, e a língua latina lá falada foi aos poucos se diferenciando do latim falado pelas outras regiões, até que já não fosse a mesma língua. Somos, de certa forma, her-deiros linguísticos da empreitada do mítico Enéias e, por isso, é muito importan-te aprendermos ao menos um pouco dessa língua que constitui um dos pilares fundamentais da cultura ocidental.

A hipótese do indo-europeuAo longo principalmente do século XVIII, estudiosos europeus interessados

em várias línguas e culturas começaram a perceber similaridades muito claras entre palavras de línguas que já se sabia serem aparentadas, como o grego e o latim, e línguas de regiões muito afastadas da Europa Ocidental, como o sâns-crito, língua sagrada da antiga civilização dos vedas, da Índia. Perplexos, os pes-

4 Tradução de Carlos Alberto Nunes para os versos 847 a 853 do Livro VI da Eneida. Em latim: Excudent alii spirantia mollius aera, / credo equidem, vivos ducent de marmore voltus, / orabunt causas melius, caelique meatus / describent radio, et surgentia sidera dicent: / tu regere imperio populos, Romane, memento; / hae tibi erunt artes; pacisque imponere morem, / parcere subiectis, et debellare superbos.

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quisadores começaram a perceber relações entre essas línguas e a maioria das línguas faladas na Europa, e foram mapeando semelhanças que levaram à hipó-tese de que todas essas línguas teriam derivado de algum ancestral comum. Em 1786, sir William Jones, magistrado do Império Britânico que fora enviado para a Índia, pronunciou em um discurso na Sociedade Asiática aquilo que seria o pon-tapé inicial da ciência linguística que viria a se desenvolver ao longo do século XIX: a linguística histórico-comparativa. Eis o famoso trecho do discurso:

O sânscrito, sem levar em conta a sua antiguidade, possui uma estrutura maravilhosa: é mais perfeito que o grego, mais rico que o latim e mais extraordinariamente refinado que ambos. Mantém, todavia, com essas duas línguas tão grande afinidade, tanto nas raízes verbais quanto nas formas gramaticais, que não é possível tratar-se do produto do acaso. É tão forte essa afinidade que qualquer filólogo que examine o sânscrito, o grego e o latim não pode deixar de acreditar que os três provieram de uma fonte comum, a qual talvez já não exista. Razão idêntica, embora menos evidente, há para supor que o gótico e o celta tiveram a mesma origem que o sânscrito. (ROBINS, 1983, p. 107)

Essa nova ciência buscava compreender a sistematicidade das relações his-tóricas entre as línguas, que passaram a ser chamadas de indo-europeias. Elas foram assim chamadas porque os pesquisadores acreditavam que não só o latim, o grego e o sânscrito, mas também a maioria das línguas europeias e muitas asiáticas, como o inglês, o alemão, o russo, o persa, o hindi, o francês, e tantas outras, derivavam de uma mesma língua-mãe, o protoindo-europeu.

Essa protolíngua5 da Europa e de grande parte da Ásia teria sido falada há cerca de sete mil anos por um povo de origem ainda relativamente misterio-sa, que, em virtude da necessidade de migrações em massa, levou sua língua e costumes (como seus hábitos agrícolas, o uso de cavalos e de instrumentos de guerra, e sua sociedade patriarcal) por diversas regiões em ondas migratórias que deixaram o grupo original fragmentado em grupos menores, sem contato uns com os outros. Assim, as regiões que, em períodos e locais diferentes, rece-beram grupos de nômades indo-europeus, desenvolveram seus dialetos de ma-neiras diferentes, gerando ramos dialetais que foram se diferenciando e forman-do línguas distintas. Dessa forma, temos o ramo indo-iraniano, do qual fazem parte línguas como o persa, o sânscrito e o bengalês; o ramo eslávico, do qual fazem parte línguas como o russo, o búlgaro, o servo-croata, o polonês; o ramo germânico, do qual fazem parte línguas como o alemão, o inglês, o islandês, o norueguês, o holandês; o ramo helênico, do qual fazem parte, entre outras, o grego antigo e o grego moderno; o ramo céltico, do qual fazem parte línguas como o gaulês, o gaélico escocês e irlandês, o galês, entre outras; o ramo anató-lico, do qual fazem parte línguas de locais bastante distantes da Europa, como o tocário, falado numa região da Ásia Central, hoje pertencente à China, e, por fim, o ramo itálico, do qual fazem parte o latim, o osco e o umbro, por exemplo.5 Chamam-se protolínguas as línguas originárias de todo um ramo de uma família linguística ou da família inteira. Assim, a família das línguas indo-europeias tem a sua protolíngua, o indo-europeu, enquanto que dentro dessa família várias outras são protolínguas, como o protogermânico, o protoeslavo e assim por diante.

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História do latim e as línguas neolatinas

islandês

dinamarquês

sueco

norueguês

Protoindo-Europeu

ITÁLICO

latim

[Romance]

francês

italiano

espanhol

português

romeno

grego clássico

grego koiné

(Novo Testamento)

grego moderno

HELêNICO

gaélico escocês

gaélico irlandês

galês

CÉLTICO BALTO-ESLÁVICO

lituano

búlgaro

russo

polonês

ucraniano

sânscrito

hindi

ÍNDICO ALBANêS ARMêNICO GERMâNICO

Germânico Ocidental

frísio alemãoinglês holandês

Germânico Setentrional

nórdico antigo

Germânico Oriental

gótico

bengalês

Assim como nos outros ramos, línguas mais antigas deram origens a línguas mais novas com base em processos de dialetação semelhantes aos que leva-ram o protoindo-europeu a vários lugares diferentes e que o transformaram em várias línguas diferentes. Do mesmo modo que do gótico antigo nós temos hoje o alemão e o inglês modernos, do latim antigo nós temos hoje um sub-ramo, chamado de ramo das línguas neolatinas ou românicas, composto por línguas como o português, o francês, o italiano, o espanhol, entre outras.

Vejamos um quadro com algumas palavras em várias línguas indo-europeias:

Português pai mãe irmão lobo

Latim pater mater frater lupus

Grego pater meter phrater lykos

Sânscrito pitar matar bhratar vrkas

Espanhol padre madre hermano lobo

Francês père mère frère loup

Inglês moderno father mother brother wolf

Inglês antigo faeder modor brothor wulf

Alemão Vater Mutter Bruder Wolf

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Fases e variedades da língua latina Estudamos o latim por meio de seus registros escritos, que são dos mais va-

riados, como inscrições em muros, monumentos fúnebres, documentos trans-critos e copiados em várias épocas, citações de textos mais antigos em textos de autores mais recentes, entre outras fontes. Assim, há documentos de vários períodos, e há, obviamente, escassez maior de registros escritos de estágios mais antigos da língua. A história do latim que faremos aqui é, portanto, bastante re-sumida e de caráter didático.

Latim arcaicoSupõe-se que o latim tenha sido falado na região do Lácio por volta do século

XI a.C., mas os primeiros registros da língua escrita encontrados datam do século VII ou VI a.C. Mais tarde, por volta do século III a.C., começam a ser produzidos textos literários em latim, em grande parte por meio de um processo de assimi-lação da cultura e literatura gregas do período.

Roma, já uma potência, conquistava territórios de vários fundos culturais di-ferentes e, em pouco tempo, por volta do século II a.C., o Mar Mediterrâneo já era praticamente dominado pelos romanos.

O ambiente cultural efervescente, constituído pelo contato de várias cultu-ras, produziu em Roma o início de uma literatura que, de certa forma, surgiu como adaptação, para o público falante de latim, de textos épicos e dramáticos da tradição grega. É desse período, por exemplo, a suposta primeira obra da li-teratura latina, uma tradução da Odisseia de Homero feita pelo escravo grego Lívio Andrônico para propósitos educacionais. Lívio, capaz de ler e escrever em grego, trazido para Roma como escravo, tornou-se responsável pela educação dos filhos de seu senhor e, pela escassez de material, traduz o poema homérico para poder ensinar as letras às crianças em Roma. Assim surge a literatura latina. Nesse período, ainda, outros autores produziram textos mais ou menos adapta-dos da tradição grega, como as comédias de Plauto e Terêncio, de gosto popu-lar, que seguem a tradição da Comédia Nova6 grega e as tragédias (em grande parte perdidas) de Névio e ênio, por exemplo. Névio e ênio, seguindo o caminho aberto por Lívio, também escrevem os primeiros textos épicos em latim, dos quais, infelizmente, restaram apenas fragmentos. 6 A Comédia Nova grega surge no período da virada do século IV para o III a.C., e baseia-se em tramas familiares, convencionais, com personagens caricaturais, como o velho imbecil, seu filho sem responsabilidades e, em geral, apaixonado por uma moça que não pode se casar com ele, o escravo sagaz do velho que ajuda o filho em suas desventuras etc. O principal autor grego dessa tradição é Menandro.

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História do latim e as línguas neolatinas

Latim clássicoConvencionou-se chamar de latim clássico o estilo literário da língua ao longo

do primeiro século a.C. até o início do primeiro século da era cristã. São desse período a prosa elaborada do político, filósofo e orador Cícero, a poesia lírica e a épica nacional de Virgílio, com As Bucólicas e a sua Eneida, e a lírica amorosa de Catulo, Propércio, Tibulo, Horácio e Ovídio. Em geral, o latim que ensinamos hoje em dia é a língua literária desse período, tanto por causa da beleza do estilo cui-dadosamente trabalhado desses autores quanto pelo fato de que grande parte do corpus mais substancial dos textos clássicos é literário, o que nos deixou sem muito acesso aos outros registros linguísticos do período.

Latim cultoO latim culto era a variedade falada pela classe culta de Roma. Esse dialeto

era a base do latim clássico, a variante literária. O latim culto deveria ser muito mais rígido quanto às normas gramaticais que estudamos hoje como sendo a gramática do latim, mas certamente muito menos estilizado que a língua literá-ria, o chamado latim clássico. Documentos escritos nessa variedade linguística são menos comuns, mas é possível encontrar esse tipo de registro, por exemplo, em cartas de autores antigos, como as de Cícero para seu irmão ou as de Sêneca para sua mãe, nas quais a estilização e o trabalho estético consciente com a lin-guagem são menos intensos, ainda que presentes.

Latim vulgarA variedade do latim chamada de latim vulgar é a língua das massas, dos

analfabetos, do povo em geral. Os registros dessa língua são mais difíceis de se encontrar, mas dão testemunhos muito interessantes da evolução do latim. As inscrições encontradas em muros, em banheiros públicos, e até mesmo em obras literárias que tentavam retratar a variedade linguística (como o romance chama-do Satyricon, de Petrônio, autor do século I d.C., que apresenta longas passagens que tentam representar a língua do povo de Roma) nos mostram uma língua viva, muito frequentemente aberta às mudanças que ocorrem naturalmente nas línguas.

Um texto extremamente interessante é o chamado Appendix Probi, anônimo, provavelmente datado do século III a.C., que se constitui simplesmente de uma

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lista na forma de “X non Y”, que funcionaria para que as pessoas dissessem ou es-crevessem X ao invés da forma realmente usada, Y. Nessa lista, temos, por exem-plo, a seguinte linha: auris non oricla. Essa linha nos diz muita coisa sobre como as pessoas falavam e sobre como a língua seguia seu curso de mudança natural. A forma auris, em latim culto, que significa “orelha”, na fala popular, possivelmente recebia o sufixo diminutivo -cula, resultando em auricula7 – “orelhinha”. Daí para a forma oricla, que deveria ser evitada, temos a mudança do ditongo au para simplesmente o, e a queda da vogal u entre c e l. Ao estudarmos a passagem do latim para o português, vemos que é sistemática e regular essa mesma mu-dança de ditongos a vogais plenas, essas quedas de vogais, e, além disso, vemos que frequentemente formas como -cla resultam em “-lha” e que vogais como i podem se “transformar” em e. Assim, “orelha” em português descende direta-mente de auris ou de oricla? Parece claro que, ao menos nesse caso, a instrução do Appendix não funcionou, pois, mais de 20 séculos depois, sobrevive a forma “errada”! Curiosamente, como vimos, oricla já era uma forma diminutiva, então, etimologicamente, quando dizemos “orelha”, remetemo-nos historicamente ao jeito de dizer “orelhinha” em latim.

Latim tardioApós o período do latim clássico, o latim continuou sendo usado como

língua do Império Romano, que cresceu cada vez mais e, posteriormente, o latim tornou-se a língua oficial da Igreja Católica ocidental. Assim, ao longo de muitos séculos, o latim foi usado como língua universal para relações in-ternacionais, para administração do Império e da Igreja e, ao longo da Anti-guidade e da Idade Média, tudo que fosse importante era escrito em latim. Aos poucos, as comunidades foram desenvolvendo seus dialetos de forma que se afastassem mais e mais do latim, dando origem a línguas diferentes. Mas a língua escrita continuava a seguir, na medida do possível, os padrões do latim culto, de forma que temos muito material escrito em latim “culto” por falantes nativos de outras línguas ou de outras variedades do latim. Como exemplo, temos desde a tradução latina dos textos bíblicos, a Vulgata, vertida por São Jerônimo para o latim nos fins do século IV, até os documentos portugueses de administração e legislação do século XI, passando pela filosofia medieval e renascentista. Encontramos, escritas em latim, até mesmo teses e monografias

7 De onde vem, por exemplo, “auricular” em português? Essa é uma palavra que foi emprestada do latim muito tempo depois de a forma “orelha” já estar em uso pelos falantes de português. Esse tipo de empréstimo é considerado “erudito”, pois os falantes voltam ao latim para recuperar formas que, quando depois acolhidas pela língua, vivem lado a lado com as formas populares que já existiam. Os exemplos são muitos, como a forma popular “maduro” e a forma erudita “maturidade”, vindos do latim maturus, a forma popular “pai” e as formas eruditas como “patronímico”, ambos do latim pater, patris.

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História do latim e as línguas neolatinas

de universidades no século XX, como a monografia de Karl Marx sobre a filoso-fia do grego Epicuro.

É evidente que o latim, ao longo de tantos séculos de usos tão variados, foi sofrendo alterações substanciais, de forma que as variedades linguísticas resul-tantes foram se tornando incompreensíveis entre si, resultando, no curso dos séculos, em línguas diferentes, as chamadas línguas românicas.

A passagem do latim para as línguas românicas modernas

Como vimos anteriormente, o latim é a língua da qual surgem as chamadas línguas românicas, grupo que inclui não só o nosso português, mas também línguas importantes como o francês, o espanhol, o italiano, e línguas menores e menos conhecidas como o galego (falado na região da Galícia), na Espanha, o provençal (idioma quase extinto falado em algumas regiões de fronteira da Itália com a França), o catalão (língua oficial de Andorra e falado na Catalunha na Espanha), o romeno (língua oficial da Romênia), entre outras.

Como sabemos, além do latim, que foi a língua de um dos maiores impé-rios que o mundo já viu durante tantos séculos e da administração religiosa, da produção científica e filosófica de grande parte da Europa por tanto tempo, as línguas diretamente derivadas dele também encontraram seu caminho ao redor do mundo. O português, como sabemos, é falado não só no Brasil e em Portugal, mas também em Angola, Cabo Verde, Macau, Moçambique, Guiné-Bissau, Timor Leste, São Tomé e Príncipe, entre outros países asiáticos e africanos pelos quais os portugueses passaram nos séculos XV e XVI, quando navegaram ao redor do mundo. Os espanhóis, de modo similar, levaram seu idioma a grande parte das Américas, o que explica o nome América Latina. O francês, também falado no Canadá, Suíça, Luxemburgo, Congo, Haiti, Senegal e em vários outros países, ajuda a dar uma ideia da importância das línguas românicas ou neolatinas ao redor do globo.

Além disso, mas não somente por esse fato, grande parte do vocabulário do inglês (que, embora seja uma língua indo-europeia, faz parte de outro ramo, o das línguas germânicas) é de origem latina, via empréstimos do francês, ocor-ridos durante o período em que a Inglaterra foi dominada pelos Normandos, por volta dos séculos XI e XII. Assim, a expansão de um vocabulário de origem

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latina ao longo das línguas mais importantes do mundo na atualidade faz com que grande parte do núcleo comum dessas línguas seja aparentado, facilitando a nós, falantes de uma língua latina, o reconhecimento de muitas palavras das outras línguas europeias importantes.

A latinizaçãoTendo sido exposta a importância das línguas neolatinas no contexto mundial,

passemos ao estudo de como o latim veio a se transformar nessas outras línguas.

Durante o período em que o Império Romano mantinha uma administração política centralizada, as conquistas de territórios significavam a instalação de um governo local, que deveria utilizar-se do latim para fins gerenciais. Não só isso, mas também os povos dominados, por motivos diversos, acabavam falantes do latim, ou como língua materna ou como segunda língua. As línguas locais, mais ou menos aparentadas do latim, acabavam influenciando a língua latina usada na região e, com o passar do tempo, conforme os dialetos latinos das províncias iam se consolidando, eles iam tomando características individualizadas, e aos poucos esses dialetos se constituíam como línguas autônomas. A seguinte pas-sagem explica esse processo chamado latinização:

Latinização ou romanização é a assimilação cultural e linguística dos povos incorporados ao universo da civilização latina. O fato de tantos povos de língua, raça e cultura diferentes terem adotado a língua e, pelo menos em parte, a civilização dos vencedores é um fenômeno único na história da humanidade. Essa aceitação, porém, não se deveu a imposições diretas. As conquistas romanas tinham caráter político e econômico; não houve por parte de Roma pretensão de impor aos conquistados sua língua ou sua religião; ao contrário, considerava o uso da língua latina como uma honra. Se os drúidas foram perseguidos na Gália, isso aconteceu porque a utilização de vítimas humanas nos sacrifícios feria o direito romano, ao qual se dava grande valor e importância. O Novo Testamento mostra que os romanos não eliminavam instituições políticas, religiosas ou jurídicas, obviamente desde que não conflitantes, dos povos incorporados: o povo judeu manteve a religião, o sinédrio, o sumo sacerdote, os levitas e os saduceus; a casa real de Herodes continuou a existir. Deviam pagar os impostos, enquanto as legiões cuidavam da segurança e ao governador romano era reservada a palavra final em questões jurídicas específicas, como no caso da condenação à morte. (BASSETO, 2005, p. 103)

Esse processo não é nada simples. Por exemplo, embora o latim tenha sido usado nas Ilhas Britânicas, uma das últimas províncias a serem conquistadas (o que se deu por volta do século I d.C.) ao longo do período de queda do Impé-rio Romano8, as províncias mais afastadas e aquelas onde havia menor centrali-zação do poder e unidade cultural não mantiveram o latim como língua “oficial”. Isso explica porque territórios mais próximos de Roma, como as terras onde hoje

8 A queda do Império Romano atinge seu ápice quando o Império Romano Ocidental deixa de ter um centro político no século V, em virtude das invasões bárbaras.

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História do latim e as línguas neolatinas

temos França, Espanha, Portugal e Itália, mantiveram-se falando latim, enquanto províncias como a Bretanha acabaram por continuar a falar as línguas locais, e isso aconteceu em grande parte do resto da Europa e das outras regiões ao redor do Mar Mediterrâneo, da Ásia Menor, entre outros. Por isso, os ingleses, os egípcios, os escandinavos e tantos outros hoje em dia não falam uma língua neolatina.

Nos locais em que a língua latina foi falada por mais tempo, mesmo com o enfraquecimento e posterior queda do domínio do império, os dialetos foram se diferenciando cada vez mais dos dialetos das outras regiões falantes do latim. Aos poucos, falantes do latim da Ibéria já não conseguiam entender plenamente falantes da península Itálica, por exemplo.

Como vimos anteriormente, havia uma diferença substancial entre o dialeto da classe urbana culta de Roma, base da língua literária que conhecemos como latim clássico, e o chamado latim vulgar, língua falada pelas classes mais baixas, em geral analfabetas. Esse latim vulgar, provavelmente muito diferente de região para região, por ser a língua viva que fervilhava nos mercados, que era falada pelos estrangeiros, pelos escravos de outros lugares, pelos trabalhadores, pelos soldados de baixa patente em tantos lugares diferentes, deve ter sofrido mudan-ças mais rapidamente que o dialeto urbano culto de Roma. Com o passar dos séculos, esse latim vivo das províncias foi o que serviu de base para as transfor-mações posteriores que resultaram nas línguas neolatinas.

Vejamos alguns exemplos de semelhanças nos vocabulários das línguas ro-mânicas ou neolatinas:

Nomes de algumas cores

Português Francês Espanhol Italiano Latim

branco blanc blanco bianco album

negro noir negro nero niger, nigra, nigrum

verde vert verde verde viridis

Nomes dos números de um a dez

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Latim unus duo tres quattuor quinque sex septem octo novem decem

Espanhol uno dos tres cuatro cinco seis siete ocho nueve diez

Catalão un dos tres quatre cinc sis set vuit nou deu

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História do latim e as línguas neolatinas

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Galego un dous tres catro cinco seis sete oito nove dez

Português um dois três quatro cinco seis sete oito nove dez

Francês un deux trois quatre cinq six sept huit neuf dix

Italiano uno due tre quattro cinque sei sette otto nove dieci

Romeno unu doi trei patru cinci şase şapte opt noua zece

Texto complementarO seguinte texto corresponde a um trecho da Eneida de Virgílio, na tradução

do paraense Carlos Alberto Nunes. O trecho conta o início da história do Cavalo de Troia, e consiste no início do Canto II do poema. Nele, o protagonista Enéias narra à sua amante, Dido, a rainha de Cartago, como foi esse episódio da Guerra de Troia, na qual ele lutou e da qual ele saiu como sobrevivente e com a missão de encontrar a terra prometida, a Nova Troia, que viria a ser Roma.

Prontos à escuta calaram-se todos, dispostos a ouvi-lo.O pai Enéias, então, exordiou do seu leito elevado: Mandas, rainha, contar-te o sofrer indizível dos nossos, como os aquivos1 a grande potência dos teucros2 destruíram,reino infeliz, espantosa catástrofe que eu vi de perto,e de que fui grande parte. Quem fora capaz de conter-se sem chorar muito, mirmídone ou dólope ou cabo de Aquiles? A úmida noite do céu já descamba, e as estrelas, caindo devagarinho no poente, os mortais ao repouso convidam. Mas, se realmente desejas ouvir esses tristes eventos, breve relato do lance postremo3 da Guerra de Troia, bem que a lembrança de tantos horrores me deixe angustiado, principiarei. – Pela guerra alquebrados, dos Fados4 repulsos em tantos anos corridos, os cabos de guerra da Gréciacom a ajuda da arte de Palas5 construíram na praia um cavalo alto como uma montanha, de bojo com tábuas de abeto.

1 Gregos.2 Troianos.3 Último.4 Os Fados são os destinos, os desígnios que fogem até mesmo à vontade dos deuses.5 A deusa da sabedoria, Palas Atena.

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História do latim e as línguas neolatinas

Voto de pronto regresso era a máquina, todos diziam. Nessa medonha caverna, tirados por sorte, os guerreiros de mais valor ingressaram, num ápice enchendo as entranhasdaquele monstro, com armas e gente escolhida de guerra. Tênedo, ilha famosa se encontra defronte de Troia, rica no tempo em que o império de Príamo ainda existia, ora uma enseada de pouco valor ou nenhum para as naves.Prestes mudaram-se os dânaos; na praia deserta se ocultam.Nós os supúnhamos longe, a caminho da rica Micenas. Com isso a Têucria respira mais leve no luto penoso.Abrem-se as portas; alegram-se os troas de ver mais de espaço o acampamento dos dórios, as praias desertas agora: O ponto era este dos dólopes; eis onde Aquiles se achava; surtos na terra, os navios; o campo em que as hostes lutavam. Muitos pasmavam de ver o presente ominoso da deusa, a imensidão do cavalo. Timetes, primeiro de todos,aconselhou derrubarmos o muro e direto o postarmos na cidadela, ou por dolo isso fosse ou dos Fados previsto. Cápis, porém, e outros mais de melhor parecer insistiam para que ao mar atirássemos logo a armadilha dos dânaos, fogo deitássemos nela ou que ao menos o ventre do monstrofosse explorado ou sondadas as vísceras sem mais reservas. Assim, o vulgo inconstante oscilava entre vários alvitres.Nisso, Laocoonte ardoroso, seguido de enorme cortejo,da sobranceira almeidina desceu para a praia, e de longe mesmo gritou: – Cidadãos infelizes, que insânia vos cega? Imaginais porventura que os gregos já foram de volta,ou que seus dons sejam limpos? A Ulisses, então, a tal pontodesconheceis? Ou esconde esta máquina muitos guerreiros, ou fabricada ela foi para dano de nossas muralhas, e devassar nossas casas ou do alto cair na cidade. Qualquer insídia contém. Não confieis no cavalo, troianos! Seja o que for, temo os dânaos, até quando trazem presentes.Disse, e arrojou com pujança viril um venábulo dos grandes contra os costados e o ventre abaulado do monstro da praia, no qual se encrava, a tremer; sacudida com o baque, a caverna solta um gemido, abaladas no fundo as entranhas do monstro. Oh! Se não fosse a vontade dos deuses e a nossa cegueira,

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com o ferro, então, deixaríamos frustra a malícia dos gregos, e em pé, ó Troia, estarias, o paço luxuoso de Príamo.

(Eneida, II, 1-56)

Dicas de estudoSugerimos dois filmes e uma série que tratam da cultura romana e que nos

ajudam a visualizar a vida cotidiana dos povos antigos, além de nos dar informa-ções importantes sobre os costumes das pessoas daquela época:

Gladiador � , dirigido por Ridley Scott.

A Paixão de Cristo � , dirigido por Mel Gibson.

Roma � , de John Milius, William Macdonald e Bruno Heller.

Atividades1. Analise as indicações do Appendix Probi abaixo e discuta em que medida ain-

da hoje cometemos os mesmos “erros” e por quê.

a) umbilicus non imbilicus.

b) uiridis non uirdis.

c) formica non furmica.

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História do latim e as línguas neolatinas

2. Explique a chamada hipótese do indo-europeu.

ReferênciasALMENDRA, Maria Ana; FIGUEIREDO, José Nunes. Compêndio de Gramática Latina. Porto: Porto Editora, 2003.

BASSETO, Bruno Fregni. Elementos de Filologia Românica: história externa das línguas. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2005. v. 1.

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JONES, Peter V.; SIDWELL, Keith C. Reading Latin: grammar, vocabulary and exercises. Cambridge: Cambridge University Press, 1986a.

______; ______. Reading Latin: text. Cambridge: Cambridge University Press, 1986b.

PEREIRA, Maria Helena M. da R. Romana: Antologia da cultura latina. 3. ed. Coim-bra: Instituto de Estudos Clássicos, 1994. (Org. e trad. do latim).

______. Estudos de História da Cultura Clássica II: cultura romana. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.

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História do latim e as línguas neolatinas

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PLAUTO; TERêNCIO. A Comédia Latina. Tradução de: SILVA, Agostinho da. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.].

REZENDE, Antônio Martinez de. Latina Essentia: preparação ao latim. Belo Ho-rizonte: UFMG, 2003.

REZENDE, A. M.; BIANCHET, Sandra Gualberto. Dicionário do Latim Essencial. Belo Horizonte: Crisálida: Tessitura, 2005.

ROBINS, R. H. Pequena História da Linguística. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1983.

RÓNAI, Paulo. Gradus Primus: curso básico de latim. São Paulo: Cultrix, 2006.

TORRINHA, F. Dicionário Latino-Português. Porto: Gráficos Reunidos, 1993.

VIRGÍLIO. Eneida. Tradução de: NUNES, Carlos Alberto. Brasília: Ed. UnB; São Paulo: A Montanha, 1983.

Gabarito1.

a) Ainda hoje, alguns falantes utilizam-se da forma “imbigo” ao invés da for-ma “umbigo”, o que constitui um “erro” desde a época dos falantes de latim.

b) Sobre “uiridis”, os falantes já naquela época produziam “uirdis”, que veio a dar o nosso “verde” em português, indicando um ponto de passagem do latim para o português.

c) A forma “furmica” ao invés de “formica” indica um “erro” tão comum para os falantes de latim quanto para os falantes de português, ou seja, a troca de um “o” por uma vogal mais alta, o “u”.

2. A hipótese do indo-europeu é basicamente a hipótese de que a grande maioria das línguas europeias e algumas da Ásia derivam de uma língua an-cestral comum, chamada indo-europeu. Os pesquisadores chegaram a ela comparando muitas línguas, como o latim, o grego e o sânscrito, a partir do final do século XVIII e especialmente durante o século XIX.

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Este capítulo pretende capacitar os alunos a pronunciar o latim de acordo com o que se considera a maneira mais correta, segundo estudos baseados em várias evidências. Algumas delas são os erros cometidos por falantes de latim menos cultos em inscrições (por exemplo, quando um falante de português escreve “caza” ao invés de “casa”, sabemos que é porque o som do grafema1 “s”, quando em posição intervocálica, e o do “z” são iguais), os testemunhos de gramáticos antigos (quando tentavam descrever articulatoriamente o som de cada letra2) e o modo como certos grafemas são pronunciados em diversas línguas derivadas do latim.

Portanto, é aceitável que haja consenso no modo como se pronuncia o latim hoje e uma sistematização (inclusive se mais próxima do modo como os falantes do latim no período clássico falavam) do modo como se pronuncia uma língua que já não possui mais falantes, é extremamente desejável e importante. Por exemplo, podemos superar barreiras interna-cionais quando pensamos em estudos que envolvam o latim e podemos nos comunicar com estudiosos do latim no mundo todo e sermos enten-didos. Como outro exemplo da importância da tentativa de padronizar a pronúncia do latim, se a reconstituição da pronúncia do latim clássico é realmente acurada, poderemos nos treinar para pronunciar a literatura escrita em latim de maneira correta, o que nos permitirá admirar uma di-mensão extremamente importante da literatura do período, que envolvia ritmo e duração de vogais.

A pronúncia que usaremos, portanto, é a chamada pronúncia reconsti-tuída ou restaurada do latim, que é resultante de evidências como as des-critas acima. Há ainda pelo menos duas outras maneiras de pronunciar o latim que são importantes e comuns. Uma delas, mais ampla em nível internacional, é a chamada pronúncia eclesiástica. A pronúncia eclesiástica é mais comum entre estudiosos do latim ligados à religião e apresenta 1 Tentaremos não cometer confusões terminológicas sérias como atribuir um “som” a uma “letra”. Na verdade, as letras são símbolos gráficos (unidades chamadas “grafemas”) que representam “fonemas”, ou unidades mínimas de som de uma dada língua. Ainda que estejamos lidando com uma língua chamada de “morta”, porque não há mais falantes nativos vivos dela, com os avanços da linguística é possível falar em “grafemas” e “fonemas” para o latim. Ainda que não estejamos empregando os símbolos do Alfabeto Fonético Interna-cional (International Phonetic Alphabet – IPA), usaremos algumas notações caras aos estudos linguísticos, como os sinais “[ ]” para indicar pronúncia aproximada (neste livro, sempre de modo impressionístico, dadas as características do latim, língua já sem falantes nativos).2 Conforme se pode ver no texto complementar, ao final deste capítulo.

Fonologia e prosódia do latim

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Fonologia e prosódia do latim

algumas diferenças com relação à pronúncia reconstituída, como veremos. Uma outra maneira de pronunciar o latim é mais regional, e, no caso do Brasil e de Portugal, é chamada de pronúncia tradicional (ou portuguesa). Na verdade, as pronúncias tradicionais locais são pronúncias do latim influenciadas pela fono-logia da língua local. Assim, além da pronúncia tradicional portuguesa, encon-tramos uma pronúncia tradicional do latim influenciada pelo inglês, outra pelo alemão e assim por diante.

Os motivos que nos levam a adotar a pronúncia reconstituída nesse material são de diversas ordens:

Como exposto anteriormente, os argumentos para a reconstituição da �pronúncia do latim que chamamos de pronúncia restaurada ou recons-tituída são baseados em várias evidências, muitas delas baseadas em di-versos dados, como os erros de ortografia dos falantes nativos do latim de épocas antigas, os testemunhos de gramáticos antigos sobre como eram pronunciadas as letras e a evolução da pronúncia das diversas línguas de-rivadas do latim, as línguas românicas.

Se as evidências são de natureza variada, é plausível que a pronúncia re- �constituída seja mais próxima do que se considera que fosse a pronúncia do latim pela classe culta no período clássico. Isso inclui o fato de que a construção poética na literatura latina se baseava fortemente no som das palavras e, assim, pronunciando o latim de forma mais próxima como se deveria pronunciar, apreciamos a literatura latina mais plenamente.

Uma pronúncia adotada em vários lugares do mundo e sem vieses ideoló- �gicos (como o religioso ou o nacionalista) é mais apropriada para estudos também não enviesados.

A questão da duração das vogaisSão cinco as vogais em latim: a, e, i, o, u (o y também é considerado vogal,

porém é usado basicamente em palavras estrangeiras, como as gregas). No entanto, cada vogal poderia ser pronunciada de forma longa ou breve. Comu-mente, representam-se as vogais longas com o sinal diacrítico mácron ( ¯ ) e as vogais breves com o sinal diacrítico braquia ( ˘ ) sobre as vogais. Assim, temos as vogais longas ā, ē, ī, ō e ū, e as vogais breves ă, ĕ, ĭ, ŏ e ŭ.

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De acordo com os testemunhos da métrica clássica e dos gramáticos antigos, a duração de uma vogal dizia respeito ao tempo relativo de produção de cada vogal. Cada vogal longa corresponderia ao tempo de duração da pronúncia de duas breves. Dessa forma, um ā corresponderia à pronúncia seguida de dois ă ( ¯ = ˘˘ ).

A pronúncia adequada de vogais breves e longas em latim era extremamen-te importante, uma vez que palavras de mesma grafia pronunciadas com dife-rença apenas na duração de uma vogal poderiam significar coisas totalmente diferentes. Por exemplo, hĭc significa “este”, enquanto que hīc significa “aqui”; ĕst é a forma de terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “ser” latino, enquanto que ēst é a forma de terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “comer” latino.

Por isso, ainda que não pronunciemos todas as vogais longas e breves como os falantes de latim as pronunciavam, já que, em português, a duração de vogais não é fonologicamente distintiva como era em latim , nesse material tentaremos marcar como longa ou breve toda vogal que, para fins de reconhecimento e dis-tinção de formas linguísticas, seja necessariamente breve ou longa.

O alfabeto latinoO alfabeto latino teve origem no alfabeto usado pelos gregos. Em períodos

mais antigos, o latim era escrito apenas com letras maiúsculas, sem sinais de pontuação. Hoje, costuma-se usar pontuação e letras minúsculas, mesmo em início de sentenças. Maiúsculas são usadas apenas em nomes próprios.

O alfabeto latino é praticamente igual ao alfabeto usado hoje por nós, falan-tes de português, exceto pelo fato de que a letra U/u exercia as funções do que hoje são as letras V/v e U/u e a letra I/i do que hoje são o I/i e o J/j.

Vejamos as letras individualmente:

A a – lê-se como o nosso “a” aberto, não nasal, como em “amor”, “casa”.

B b – como o nosso “b” em “boca”.

C c – na pronúncia reconstituída, o “c” sempre se lê como uma consoante oclusiva3 [k], e nunca como uma fricativa [s]. Assim, Cicero lê-se sempre “kíkero”, e não “síssero”.

3 Uma consoante oclusiva é uma consoante que, para ser produzida, requer que haja fechamento completo da passagem do ar pela boca e soltura posterior. São oclusivas, por exemplo, as consoantes [d, t, p, b, k], entre outras, enquanto as fricativas são consoantes que requerem passagem constante do ar pela boca, com alguma constrição (que nunca é completa) em algum local, como com a língua perto dos dentes superiores, o que produz os sons [s] e [z], ou com os dentes superiores no lábio inferior, que produz os sons [f ] e [v].

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D d – como o nosso “d” em “dedo”. A regra que transforma o “d” antes de “i” em alguns dialetos do português em [dj] não se aplica em latim.

E e – o “e” breve (ĕ) lê-se como o “e” aberto em português, como em “pé”. O “e” longo (ē) lê-se como o “e” fechado em português, como em “cabelo”.

F f – como o nosso “f” em “flor”.

G g – assim como o “c”, o “g” em latim era sempre oclusivo, como em “gato”. Assim, genus deveria ser lido como [guênus] em português, e não como [jênus].

H h – o “h” latino era sempre uma consoante fricativa aspirada e, portanto, era sempre pronunciado. Assim, o “h” em hodie deveria ser pronunciado como uma consoante, aspirado na garganta, e não como o “h” em “hoje”, que não é pro-nunciado. O “h” era pronunciado aspirado mesmo quando logo após consoantes oclusivas, como em philosophia (lido com um “p” seguido da soltura do ar entre os lábios antes da produção da vogal), e thalamus (com a soltura do ar antes da vogal depois da pronúncia do “t”), por exemplo.

I i – essa letra em latim representava tanto o “i” vocálico quanto o “i” semivo-cálico (que aparece imediatamente antes ou depois de uma outra vogal, funcio-nando como uma ditongação da vogal – um exemplo em português é o “i” em “pai”, que não é pronunciado como uma vogal plena, e sim como uma semivogal, ou seja, algo intermediário entre a vogal “i” e a consoante “j”). Assim, o “i” latino se pronuncia como o “i” em “ilha” (vogal) ou como o “i” em “ioiô” (semivogal). Pos-teriormente, o “i” semivocálico latino transformou-se no “j” do português. Assim, de Iuppiter em latim temos “Júpiter” em português. Não havia em latim o som que representamos pela consoante J/j em português, embora alguns dicionários e edições de textos latinos apresentem a semivogal latina grafada como J/j e a vogal grafada como I/i, por questões didáticas.

K k – assim como o “k” em português, o “k” latino era usado em palavras em-prestadas de outras línguas, em especial do grego. Assim, o “k” em kalendas se pronuncia como o “c” em “calendário”.

L l – como o “l” em “lua”.

M m – antes de vogal e em posição intervocálica, como em “mel”. Em fim de palavra, ocorria nasalização da vogal anterior, assim como em “amaram”.4

4 Há controvérsias entre os teóricos sobre se o “m” final representava apenas a nasalização da vogal anterior ou se era pronunciado como consoante oclusiva bilabial nasal, ou seja, com o fechamento completo dos lábios e a produção de um “m” como o de “minha”. Sigo aqui a teoria de que o “m” final nasaliza a vogal anterior em virtude de que, em métrica latina, uma sílaba final de uma palavra pode sofrer o processo chamado de “crase” quando termina em vogal + “m” e a palavra seguinte inicia-se por vogal, o que indica que o “m” possivelmente não era consonantal em final de palavra. Outra evidência a favor dessa posição é que palavras com “n” final não se encaixam nessa regra de crase na métrica.

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N n – antes de vogal e em posição intervocálica, como em “nariz”. Em fim de palavra, diferentemente do “m”, o “n” era pronunciado como consoante plena, e não como nasalização da vogal. Por exemplo, o “n” sublinhado em nomen est é pronunciado da mesma forma que o “n” sublinhado em “benefício”.

O o – assim como o “e”, o “o” breve (ŏ) era pronunciado como o “o” aberto em “ódio” e o “o” longo (ō) era pronunciado como o “o” fechado em “orelha”.

P p – como o “p” em “pipoca”.

Q q – o “q” em latim era sempre seguido da semivogal “u”, de forma que sempre era pronunciado como o [kw] de “aquário” [akwário], e nunca como o [k] de “quente” [kente].

R r – o “r” latino nunca era pronunciado como o “r” aspirado fricativo de “rua” [hua], e era sempre pronunciado como o “r” em “era” ou, ainda, como o “r” vibran-te de alguns dialetos do Sul do Brasil, que é como se fosse uma sequência rápida de vários “r” como o de “era”.

S s – como o “s” em “silêncio”. O “s” latino nunca era pronunciado sonorizado como o “s” de “casa”, mesmo quando em final de palavra. Não ocorre em latim o processo de sonorização que ocorre em português. Em português, o “s” em final de palavra antes de outra palavra que comece com vogal ou com conso-ante sonora sofre sonorização, e assim a pronúncia de “casas”, por exemplo, tem [s] ou [z] pronunciados no final, a depender do que vem depois. Dessa forma, temos [kazas] em “casas quadradas” e [kazaz] em “casas azuis” ou “casas vermelhas”.

T t – como o “t” em “tatu”. A regra que transforma o “t” antes de “i” em alguns dialetos do português em [tch] não se aplica em latim.

U u – essa letra em latim representava tanto o “u” vocálico quanto o “u” se-mivocálico (que aparece imediatamente antes ou depois de uma outra vogal, funcionando como uma ditongação da vogal – um exemplo em português é o “u” em “mau” [maw], que não é pronunciado como uma vogal plena, e sim como uma semivogal, ou seja, algo intermediário entre a vogal “u” e a consoante “v”; outro exemplo é o som do “w” em “kiwi”). Assim, o “u” latino se pronuncia como o “u” em “uva” (vogal) ou como o u em “auê” (semivogal). Posteriormente, o “u” semivocálico latino transformou-se no “v” do português. Assim, de uita em latim temos “vida” em português. Não havia, em latim , o som que representamos pela consoante V/v em português, embora alguns dicionários e edições de textos la-tinos apresentem a semivogal latina grafada como V/v e a vogal grafada como U/u por questões didáticas.

X x – sempre como o encontro [ks] em português, assim como no estrangei-rismo “ecstasy”, e nunca como em “êxtase”.

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Y y – como o “ü” francês ou alemão, ou seja, trata-se de uma vogal como “i”, mas pronunciada com os lábios arredondados para produzir um “u”. Estrangei-rismos como “Müller” exemplificam o som dessa vogal, de origem grega no alfa-beto latino.

Z z – Assim como o “x”, o “z” era pronunciado como consoante dupla, e devia ser lido como [dz].

Os ditongos em latim são apenas os seguintes:

ae (também grafado æ) � como o ditongo “ai” no português “pai”.

oe (também grafado œ) � como o ditongo “oi” no português “foi”.

ei � como o ditongo “ei” no português “andei”.

ui � como o ditongo “ui” no português “fui”.

au � como o ditongo “au” no português “mau”.

eu � como o ditongo “eu” no português “cresceu”.

O acento de intensidadeO latim, além de marcar todas as vogais como longas ou breves, mantinha

em seu sistema prosódico a marca de intensidade das sílabas relativamente in-dependente do sistema de duração.

A marcação de intensidade de sílabas cria o fenômeno chamado acento. Tra-ta-se de acento do ponto de vista da produção das sílabas mais fortes (tônicas) ou mais fracas (átonas), e não do ponto de vista da marcação gráfica de acentos (graves, agudos e circunflexo, por exemplo).

Em latim, não havia palavras cujo acento principal caía na última sílaba (oxí-tonas), a não ser que a palavra consistisse de apenas uma sílaba.

Todas as outras palavras tinham acento tônico principal ou na penúltima ou na antepenúltima sílaba, a depender dos seguintes fatores:

se a penúltima sílaba for longa, recebe o acento principal (a palavra é pa- �roxítona).

se a penúltima sílaba for breve, o acento não recai sobre ela, e o acento �principal cai sobre a antepenúltima sílaba (a palavra é proparoxítona).

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Reconheceremos uma sílaba longa das seguintes maneiras:

a vogal principal é naturalmente longa (marcada com o sinal de mácron; �ex.: habēre);

a sílaba contém um ditongo (ex.: � prōēlium);

uma vogal é seguida por duas consoantes � 5 ou por consoante dupla “x” ou “z” (ex.: āctus).

Por isso, saber se uma vogal é longa ou breve é bastante importante, e mar-caremos a vogal longa neste livro sempre que ela for importante para o reco-nhecimento do padrão acentual da palavra. Bons dicionários de latim marcam as vogais longas e breves de todas as palavras.

As pronúncias do latimExistem várias maneiras de pronunciar o latim. Como neste livro adotaremos

a pronúncia reconstruída ou reconstituída, é importante saber que adeptos de outras formas acabam pronunciando ligeiramente diferente da que adotaremos aqui. Vejamos quais são as formas mais comuns de se pronunciar “o latim”.

Pronúncia reconstituídaComo vimos nas seções anteriores, a pronúncia reconstituída é aquela que

tenta resgatar o modo como os romanos cultos do período clássico pronuncia-vam a sua língua. As evidências para a reconstituição da pronúncia original do latim são, por exemplo, erros de ortografia de falantes menos cultos (escrever “caza” ao invés de “casa” indica, em português, que pronunciamos o “s” e o “z” nesses contextos da mesma forma – assim acontecia com exemplos em latim que servem para que se possa reconstituir a pronúncia do latim), testemunhos de gramáticos antigos sobre a pronúncia das letras, regras do sistema poético latino, entre outros.

Trata-se da pronúncia que tenta, com a maior quantidade de dados empíri-cos que for possível coletar, reproduzir a exata forma como os falantes nativos de latim pronunciavam seu idioma.

5 O grupo formado por consoante seguida de “r” ou “l”, as chamadas líquidas, não conta como consoante dupla para essa regra.

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Pronúncia eclesiásticaO latim foi pronunciado por muito tempo com forte influência da língua-mãe

da região onde era falado. Assim, o italiano influenciou fortemente a pronúncia do latim na Itália, sede da Igreja Católica. Os ritos tradicionais da Igreja acabaram adotando a pronúncia italiana do latim, o que fez com que houvesse grande influência dessa pronúncia ao redor do mundo, em especial no que concerne às relações entre latim e Igreja Católica. A essa pronúncia com forte influência do italiano chamamos eclesiástica do latim.

Algumas características da pronúncia eclesiástica são:

Os ditongos “ae” e “oe” são sempre pronunciados como um “e” aberto �(como em pé). Assim, feminae, que na pronúncia reconstituída se pronun-cia com um ditongo [ai] no final, na pronúncia eclesiástica se pronuncia [feminé], com acento principal em “fe”.

A letra “c” não é pronunciada sempre como se fosse um “k”, como na pro- �núncia reconstituída, e sim como o “tch” de “tchê” antes de “e” e “i”. Assim, na pronúncia eclesiástica, Cicero pronuncia-se “tchítchero”, e não “kíkero”.

As pronúncias locaisAs pronúncias influenciadas por outras línguas locais acabaram por gerar va-

riações regionais no modo como o latim é pronunciado. Por exemplo, na chama-da pronúncia tradicional portuguesa, pronunciam-se as palavras latinas quase como se estivesse usando o sistema de pronúncia do português.

Algumas características são, por exemplo:

Os ditongos “ae” e “oe” são pronunciados [é], assim como na pronúncia �eclesiástica.

Os grafemas “j” e “v” são pronunciados como consoantes, e não como se- �mivogais. Assim, a forma Iupiter é pronunciada [Júpiter], como em portu-guês, e a forma uita se pronuncia [vita], como no português “vitalidade”.

O “t” antes de “i” e não precedido das consoantes “s”, “t” e “x” é pronunciado �[ss]. Portanto, iustitia lê-se [justíssia].

Listamos aqui apenas algumas das características das pronúncias eclesiástica

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e tradicional portuguesa, para que se saiba que pode haver variação no modo como se pronuncia o latim. No entanto, pelos motivos listados ao longo deste capítulo, sugere-se que o aprendiz de latim tente pronunciar as palavras do modo mais próximo ao que teria sido o modo como os romanos pronunciavam o latim em Roma por volta dos séculos I a.C. e I d.C., ou seja, usando a pronúncia chamada de restaurada ou reconstituída.

Texto complementarO seguinte texto trata das teorias dos autores antigos sobre as letras e seus

sons. O trecho destacado em negrito serve como exemplo de testemunho de tentativas de descrição dos sons das letras pelos autores antigos.

(WEEDWOOD, 2002, p. 43-46)

Gregos e romanos compartilhavam concepções semelhantes da natureza da littera (grego: grámma), a menor unidade da fala (vox; grego: phoné). Havia duas visões distintas, frequentemente expostas lado a lado. De acordo com uma, a littera era o símbolo escrito, a representação do som da fala (latim: ele-mentum; grego: stoikheïon). Essa visão, a precursora da moderna dicotomia letra-som, foi menos importante na Antiguidade (e, de fato, até por volta de 1800) do que a segunda visão, mais complexa. Estoicos e romanos descre-viam a littera como uma entidade com três propriedades: seu nome (nomen), sua forma ou aspecto escrito (figura) e seu som ou valor (potestas). Essa visão mais flexível, suscetível de extensão e refinamento num grau muito maior que a crua oposição entre letra e som, foi a base para uma série de aborda-gens multifacetadas e infinitamente variadas da littera por parte dos estu-diosos antigos e, mais ainda, dos medievais.

Potestas era a propriedade da littera cujo domínio mais se aproximava do moderno campo da fonética. Platão, Aristóteles e os latinos classificam as litterae do seguinte modo:

Vogais

Litterae

Consoantes

Mudas

Semivogais

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(A categoria das “semivogais” incluía o que modernamente chamamos de continuantes: Donato inclui F, L, M, N, R, S, X sob essa rubrica.)

Só uns poucos estudiosos sentiram a necessidade de ir mais fundo na fo-nética articulatória. Entre eles estavam Dionísio de Halicarnasso (em ativida-de entre 30 e 8 a.C.), cuja notável descrição da articulação dos sons do grego ficou desconhecida do Ocidente latino até sua primeira edição em 1508 pelo grande impressor veneziano Aldo Manúcio, e o metricista Terenciano Mauro (século II), cujo relato em versos dos sons e metros latinos foi pouco lido antes do Renascimento. Na prática, as vinhetas de uma linha oferecidas por Marciano Capela (século V) em sua enciclopédia alegórica, O Casamento de Filologia e Mercúrio (III, 261), foram as únicas descrições articulatórias dos sons do latim disponíveis para a maioria dos estudiosos medievais. Caracte-rizações do tipo “o D surge do ataque da língua perto dos dentes superiores” ou “o L soa docemente com língua e palato” ou “Apio Cláudio detestava o Z porque imita os dentes de um cadáver” ainda eram citadas no século XVI. Somente depois de se familiarizarem com as descrições articulatórias muito mais de-talhadas, que eram lugar-comum nas gramáticas medievais do hebraico e do árabe, é que os cristãos do Renascimento começaram a se interessar pela fonética articulatória.

Em contrapartida, as propriedades do nomen e da figura despertavam um interesse mais ativo e criativo entre os estudiosos medievais. Coleções de alfabetos exóticos – grego, hebraico, “caldeu”, gótico, runas, ogamos, vários códigos e cifras – circulavam amplamente, bem como breves tratados sobre a invenção de várias escritas. Uma antiga forma de taquigrafia, as notas tiro-nianas, era praticada em alguns centros monásticos nos séculos IX e X, en-quanto em outros os escribas adicionavam subscrições em latim translitera-do em caracteres gregos. Um notável pequeno tratado do século VII ou VIII, atribuído a certo Sergílio[...], descreve o movimento da pena ao formar cada letra e dá o nome de cada gesto em latim, grego e hebraico: “Quais são os nomes dos três gestos da letra A nas três línguas sagradas? Em hebraico, abst ebst ubst. Como são chamados em grego? Albs elbs ulbs. E em latim? Duas linhas oblíquas e uma reta traçada entre elas”.

Mas o que interessava aos autores medievais não era a littera como uma unidade de fala fisicamente visível ou audível e, sim, muito mais, sua possível importância na iluminação dos aspectos superiores da ordem do mundo. Um autor do século VII, Virgílio Gramático, explicava: “Tal como o homem

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consiste de corpo, alma e uma espécie de fogo celeste, assim a littera é cons-tituída de corpo – isto é, sua forma, sua função e sua pronúncia (suas juntas e membros, por assim dizer) – e tem sua alma em seu sentido, e seu espírito em sua relação com as coisas superiores”. Outros autores aplicavam interpre-tações tipológicas e alegóricas a vários aspectos da littera, no mais das vezes à sua forma. Seu som era de menor importância: era a parte terrena da litte-ra, seu “corpo”. Só lentamente, à medida que a Idade Média se encerrava, é que os pensadores ocidentais começaram a voltar seu interesse para a parte física da fala, tal como passaram a levar mais a sério as manifestações físicas do mundo natural. O ímpeto para tal iniciativa não veio de dentro da própria tradição ocidental, mas de fora dela: primeiro, durante o Renascimento, do mundo semita; mais tarde, por volta de 1800, da Índia.

Dica de estudoLendo o Passado: do cuneiforme ao alfabeto. A história da escrita antiga, de J. T.

Hooker et. al., Editora Melhoramentos e Edusp.

Atividades1. Selecione palavras de três ou mais sílabas na lista a seguir, escreva-as abaixo,

marque a sílaba tônica da palavra com um acento agudo ( ´ ) e justifique, segundo as regras de acentuação aprendidas nesta aula.

abīre dexter ingens proponĕre tendĕreaccusāre diuus iubēre puella tollereaddĕre eques iuuāre quietus utilitasaestas facĕre luna quis uehemensamicitia ferox luxuria redīre uenīreaqua gens mediocris rex uoluntasbibĕre grauitas necessario saeuus uoluptascaput homo nuntius sapientiaciuis hora obiicĕre saxumdecem humanĭtas paruus suauisdelēre indignus postridie surgĕre

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ReferênciasALMENDRA, Maria Ana; FIGUEIREDO, José Nunes. Compêndio de Gramática Latina. Porto: Porto Editora, 2003.

CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao Latim. São Paulo: Ática, 1993. (Série Princípios).

JONES, Peter V.; SIDWELL, Keith C. Reading Latin: grammar, vocabulary and exercises. Cambridge: Cambridge University Press, 1986a.

______; ______. Reading Latin: text. Cambridge: Cambridge University Press, 1986b.

PEREIRA, Maria Helena M. da R. Romana: Antologia da cultura latina. 3. ed. Coim-bra: Instituto de Estudos Clássicos, 1994. (Org. e trad. do latim).

______. Estudos de História da Cultura Clássica II: cultura romana. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.

PLAUTO; TERêNCIO. A Comédia Latina. Tradução de: SILVA, Agostinho da. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.].

REZENDE, Antônio Martinez de. Latina Essentia: preparação ao latim. Belo Ho-rizonte: UFMG, 2003.

REZENDE, A. M.; BIANCHET, Sandra Gualberto. Dicionário do Latim Essencial. Belo Horizonte: Crisálida: Tessitura, 2005.

RÓNAI, Paulo. Gradus Primus: curso básico de latim. São Paulo: Cultrix, 2006.

TORRINHA, F. Dicionário Latino-Português. Porto: Gráficos Reunidos, 1993.

WEEDWOOD, Barbara. História Concisa da Linguística. São Paulo: Parábola, 2002.

Gabarito1. Accusáre (penúltima sílaba acentuada porque é longa); fácere (antepenúl-

tima sílaba acentuada, pois a penúltima é breve); hómo (penúltima sílaba acentuada, pois não há oxítonas em latim); réx (última sílaba acentuada por-que é a última); e assim por diante.

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Neste capítulo, veremos as principais diferenças entre a estrutura mor-fossintática1 da língua portuguesa e do latim. Para um curso com a exten-são deste, é possível que essa seja a questão mais relevante a ser apren-dida apropriadamente sobre o latim, pois, ainda que a língua portuguesa seja diretamente derivada do latim, a estrutura das duas línguas é bastante diferente no que concerne ao modo de estabelecer as conexões entre as palavras.

A estrutura da língua portuguesaBasicamente, o sentido de uma oração em português depende da

ordem em que colocamos as palavras uma diante das outras. Assim, as seguintes orações têm sentidos diferentes:

a) O poeta vê a lua.

b) A lua vê o poeta.

Claramente a segunda sentença significa algo bastante diferente da primeira. Isso se dá porque, nas sentenças normais da língua, a ordem em que sujeito e objeto direto são ditos influencia na nossa percepção de quem faz o quê para quem. Explicando melhor, na primeira sentença, é o sujeito “o poeta” quem “vê” com seus olhos o objeto direto “a lua”, a coisa vista. Na segunda, a mesma expressão linguística, “o poeta”, aparece depois do verbo transitivo direto, de modo que ele passa a ser o que é visto no evento de “ver” denotado pela sentença. Nesse segundo caso, por causa da ordem das palavras, quem age no evento de ver é a lua (mesmo que pareça implausível ou estranho imaginar que a lua veja alguma coisa – mas, afinal, o que seria da linguagem se ela não nos permitisse dizer todas as coisas que quiséssemos?), que, através dos seus “olhos”, “vê” o poeta.

1 Morfossintática porque envolve tanto a forma interna das palavras quanto o modo como as palavras se combinam umas com as outras para produzir expressões bem formadas da língua.

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O que queremos mostrar é que o processo sintático na língua portuguesa en-volve a colocação das palavras em uma ordem linear mais rígida, e o que define quem é o sujeito e quem é o objeto em sentenças transitivas simples, como as duas anteriores, é qual expressão nominal aparece antes e qual expressão nomi-nal aparece depois do verbo.

Isso se dá de várias formas e em vários níveis. Por exemplo, dizemos “o poeta”, e não “poeta o”; dizemos “vê a lua”, e não “a vê lua”, nem “vê lua a”. Tudo isso tem a ver com o fato de que em português as palavras são concatenadas às outras seguindo regras sintáticas rígidas de colocação.

Vejamos quais são as funções sintáticas importantes em uma sentença mais complexa, e como elas se realizam em português:

c) O cozinheiro dá um camelo para o escravo do senhor no fórum.

Analisando a sentença, temos o seguinte:

“o cozinheiro” é a expressão sujeito do verbo principal da sentença, pois �concorda com ele e aparece antes dele.

“dá” é o verbo principal da sentença, e requer três argumentos � 2 para ter a ideia do evento completa: alguém que dá (o sujeito), algo que é dado (o objeto direto) e para quem se dá a coisa (o objeto indireto).

“um camelo” é o objeto direto do verbo, o � algo que é dado.

“para o escravo” é o objeto indireto, o � para quem se dá algo.

“do senhor” é uma expressão preposicionada que se junta a um nome (o �escravo) de modo a formar uma adjunção, ou seja, uma expressão que pode (mas não precisa) se unir a outro nome para especificá-lo mais (um adjetivo poderia fazer a mesma coisa – por exemplo, poderíamos ter “o escravo esperto” ao invés de “o escravo do senhor”).

“no fórum” é uma expressão preposicionada que funciona como um cir- �cunstancializador do evento, que diz onde o evento ocorreu.

Com essa sentença analisada, passamos à análise da estrutura do latim.

2 Argumentos são aqueles termos que são obrigatórios para que um verbo expresse seu sentido completo. Por exemplo, um verbo transitivo direto requer dois argumentos: o sujeito e o objeto. Caso um falte, o evento não é expresso propriamente. Exemplo: “o menino quebrou...”, “a menina viu...” são sentenças em que falta o argumento objeto. A terminologia remete à lógica tradicional.

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A estrutura da língua latinaDiferentemente do português, que estabelece a maioria das relações sintáti-

cas através da ordem sequencial em que colocamos as palavras, o latim estabe-lece as relações das funções dos termos da oração através do chamado sistema de casos. Assim, embora a ordem das palavras seja relativamente importan-te em latim, ainda mais importante é o caso em que uma palavra se encontra flexionada.

Os casosTodas as palavras pertencentes a categorias nominais3 em latim acontecem

em uma oração necessariamente em um dos seis casos latinos4, o que significa que elas apresentam flexões morfológicas correspondentes a esses casos. Cada caso corresponde basicamente a uma função sintático-semântica na maneira de construir expressões linguísticas. Segue-se uma lista dos nomes dos casos lati-nos e de suas principais funções:

O � nominativo é o caso da nomeação, é o caso fundamental de um nome5. É o caso em que os substantivos se encontram quando são sujeitos dos verbos. Os substantivos são encontrados no dicionário na forma nomi-nativa. Um nome como dominus (“senhor, dono, mestre”) tem marca de nominativo singular -us e plural -i (dominus, domini). Um exemplo seria dominus camelum uidet, “o senhor vê o camelo”.

O � vocativo é o caso que se usa quando o nome está sendo usado para interpelar um interlocutor na segunda pessoa, como quando chamamos alguém (um exemplo é “ó, senhor, venha cá”, que terá a forma domine, hūc ueni). Exceto por alguns tipos de substantivos, como o tipo em que se enquadra dominus, todos os vocativos são iguais em sua forma aos nomi-nativos.

3 Categorias nominais se definem em oposição a categorias verbais. Assim, nome (substantivo), adjetivo, pronome e particípio são classes de pala-vras que apresentam o traço nominal. O traço verbal é encontrado nos verbos e nos particípios (por participar tanto do grupo das categorias verbais quanto das nominais, o particípio recebe esse nome). As outras classes de palavras não se flexionam, ou seja, são invariáveis (entre essas, temos os advérbios, as conjunções, as preposições e os numerais).4 A palavra “caso”, etimologicamente, vem de casus em latim, particípio do verbo cado, cadere, que significa “cair”. Assim, casus significa “aquele ou aquilo que caiu”, “caído”, “queda”. Daí temos a ideia de que “caso” significa o modo pelo qual o substantivo acontece, se dá, “cai” em uma estrutura linguística.5 Chamo de “nomes” todas as palavras pertencentes a categorias nominais, ou seja, que podem ser flexionadas em casos.

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O � acusativo é o caso que corresponde basicamente aos objetos diretos latinos. No caso acusativo, “senhor” será dominum no singular e dominos no plural. É do acusativo plural que derivam os nomes em português que vieram direto do latim (“donos” de dominos)6. Outro uso importante do acusativo é o que dá ideia de movimento para dentro de ou para junto de algum outro ponto. Esse uso é, em geral, oposto ao do caso ablativo. Um exemplo de acusativo em uma sentença seria dominum camelus uidet, “o camelo vê o senhor”.

O � genitivo é o caso que corresponde basicamente à ideia de posse. Assim, domini significa, em latim, “do senhor”, e seu plural é dominorum. O ge-nitivo, juntamente com os próximos dois casos, o dativo e o ablativo, são casos que foram sendo substituídos por formas preposicionadas nas lín-guas derivadas do latim. O nome do caso apresenta relação com a ideia de genus, gens, gentis, ou seja, de geração, pertencimento a alguma família, por exemplo. Um exemplo simples poderia ser camelus domini, “camelo do senhor”.

O � dativo é o caso que melhor representa o objeto indireto, de modo que dominō significa “para o senhor” e dominis significa “para os senhores”. O nome do caso deriva do verbo do, dare, datus “dou, dar, dado”, ou seja, se trata do argumento “para quem se dá alguma coisa” no evento de dar. O dativo também expressa uma ideia básica de movimento em direção a um alvo, como quando dizemos algo “a alguém” ou entregamos algo “a alguém”. Um exemplo desse substantivo no dativo seria seruus camelum domini dat, “o escravo dá o camelo para o senhor”.

O � ablativo é o caso que tem significados básicos de afastamento a partir de algum ponto ou de meio ou instrumento pelo qual se faz alguma coisa. O nome dominō significa, então, “através do senhor”, “pelo senhor”, “a partir do senhor” (essas formas de ablativo serão melhor entendidas no contexto das orações latinas), e seu plural é dominis7. O ablativo tam-bém significa posicionamento em algum ponto ou afastamento a partir do mesmo ponto. Nesse sentido, o ablativo é oposto ao acusativo. Um exemplo do ablativo com o uso instrumental ou de meio com dominus seria seruum thesaurum habet dominō, “o escravo possui um tesouro através do senhor/por causa do senhor”. Outro exemplo, mais com-preensível, poderia ser dominus seruum necat gladio, “o senhor mata o escravo com o gládio”.

6 Entenderemos melhor isso se pensarmos que em italiano os nomes derivam das formas de nominativo, por isso temos plural ragazzi para “meninos”.7 No caso desse substantivo especificamente as formas de dativo e ablativo são iguais. Veremos adiante que isso não acontece com todos os substantivos.

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Funções sintáticasPara entendermos melhor o funcionamento básico da língua latina, voltemos

à oração em português usada como exemplo:

a) O cozinheiro dá um camelo para o escravo do senhor no fórum.

Ao traduzirmos essa sentença com a mesma ordem de palavras para o latim, teremos:

b) coquus dat camelum seruō domini in forō

As primeiras observações que precisam ser feitas são:

Não há, em latim, artigos (o, a, os, as, um, uma, uns, umas). Os artigos, se �necessários, são expressos através de pronomes. No exemplo acima, não há necessidade de artigos, e um nome como coquus poderia significar, a princípio, tanto “o cozinheiro” quanto “um cozinheiro”. O contexto resolve-rá essa questão.

A ordem das palavras e o tipo de vocabulário adotados nos exemplos se- �rão bastante artificiais, com relação ao modo como o latim realmente era utilizado.

Vejamos o vocabulário utilizado no exemplo, analisando-o morfologicamente:

coquus � : o substantivo aqui significa “O cozinheiro” e, dado o final -us, sabe-mos que se trata do sujeito do verbo da frase.

dat � : o verbo dare está flexionado na terceira pessoa do singular do presen-te do indicativo e significa “[ele/ela] dá [algo] [a alguém]”.

camelum � : o substantivo camelus aqui se encontra no acusativo (veja o final -um) e, portanto, é o objeto direto do evento representado pela sentença.

seruō � : o substantivo seruus aqui está no dativo (final -ō8) e, portanto, repre-senta o objeto indireto, ou seja, para quem se dá o camelo.

domini � : o substantivo dominus aqui está no caso genitivo, e sabemos disso pela terminação -i. Assim, sabemos que domini significa “do senhor”, então procuraremos algum substantivo na sentença que possa representar algo que seja do senhor.

8 O final (-o) também poderia significar a forma de ablativo. Embora essa ambiguidade seja legítima, o contexto aqui favorece a leitura de dativo para seruō, uma vez que o evento de dar requer um objeto indireto para quem se dá a coisa dada.

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in � : trata-se da preposição “em”. Veremos adiante que as preposições em latim exigem que os substantivos selecionados por ela estejam em casos específicos. Nesse caso, o in se segue de um substantivo no caso ablati-vo, dando a ideia de que algo aconteceu “em” algum lugar. Nesse caso, o evento de dar um camelo para o escravo do senhor pelo cozinheiro acon-teceu “no fórum”.

forō � : como vimos acima, pelo fato de que a preposição in significa, nesse contexto, “em”, no sentido de dentro de algum lugar, sem pressupor movi-mento para dentro de (que seria um outro uso da preposição in com outro caso), o caso que ela exige do seu substantivo é o ablativo, significando estaticidade dentro de algum lugar. Por isso, forō está no ablativo, por esse motivo sabemos que o evento se deu dentro do [no] fórum.

Vejamos um quadro que resume as informações a respeito dos casos:

Caso Exemplo no singular

Exemplo no plural Funções básicas Tradução

Nominativo dominus domini sujeito “o(s) senhor(es)”

Vocativo domine domini interpelação “ó senhor”

Acusativo dominum dominos objeto direto / movimento em direção a ou para dentro de

“o(s) senhor(es)”

Genitivo domini dominorum posse / adjunto adno-minal

“do(s) senhor(es)”

Dativo dominō dominis objeto indireto “para o(s) senhor(es)”

Ablativo dominō dominis meio / instrumento / afastamento a partir de / estaticidade em

“(a partir d)o(s) senhor(es)” / “pelo(s) senhores”

A ordem das palavras em latimComo vimos, as funções sintáticas em latim se dão basicamente por meio

das marcas morfológicas de caso, e não da ocorrência sequencial das palavras, como em português. Para exemplificar, manteremos as funções sintáticas prin-cipais da sentença latina usada como exemplo anteriormente, e mostraremos como a ordem das palavras é secundária em latim, com relação ao processo de marcação de caso.

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A sentença, na ordem em que está, mantidas as funções sintáticas principais9, é como se segue:

c) coquus dat camelum seruō

Assim, embora a ordem das palavras na sentença acima mantenha-se fiel à ordem de palavras de uma sentença com o mesmo sentido em português, isso é apenas um acidente. Isso porque qualquer uma das sentenças listadas abaixo poderia significar exatamente a mesma coisa que a sentença (c) em latim:

d) coquus seruō camelum dat

e) coquus camelum dat seruō

f ) coquus camelum seruō dat

g) camelum seruō dat coquus

h) dat seruō camelum coquus

i) camelum dat seruō coquus

Qualquer uma das sentenças listadas acima, e qualquer outra possível orde-nação das palavras, poderia significar exatamente a mesma coisa: “O cozinheiro dá um camelo para o escravo”. Como vimos, isso acontece porque não é a posi-ção na frase que diz que coquus é sujeito do verbo dat, e sim a marcação morfo-lógica de nominativo (nesse caso, -us). Da mesma forma, é a marcação de acusa-tivo (-um) que diz que camelum é o objeto direto do verbo dat, e não sujeito ou qualquer outra coisa. O mesmo se dá finalmente com seruō, que, com a marca de dativo (-ō), é reconhecido como objeto indireto do verbo dat.

Isso significa que o latim dependia fundamentalmente de informação morfo-lógica para estabelecer as relações sintáticas, ou seja, o modo como as palavras se conectam para produzir sentido e a ordem das palavras era relativamente secundária10 no modo de construção da oração latina.

9 A decisão de se trabalhar apenas com as funções sintáticas básicas aqui tem a ver com o fato de que certas funções acessórias, como as expressões adjuntas e adverbiais (como “do senhor” e “no fórum”), dependem um pouco mais de ordem do que as funções básicas – sujeito, verbo, objeto direto e objeto indireto.10 Dizemos aqui secundário, pois não é verdade, em absoluto, que qualquer ordem de palavras em latim era permitida para os falantes. Os falantes costumavam usar ordenações mais ou menos comuns de sujeito, verbo e complementos, por exemplo, ou de substantivo e o adjetivo que o modi-fica e assim por diante. As ordens mais comuns constituíam a forma não marcada da língua, e quaisquer alterações de ordem surtiriam efeitos de sentido que, embora sutis, seriam percebidos pelos falantes. Para termos uma ideia, a sentença (d) entre as sentenças (d) a (i) do conjunto anterior era a mais comum do ponto de vista da ordem para um falante de latim. Ou seja, “sujeito – objeto indireto – objeto direto – verbo” era a ordem considerada não marcada, neutra.

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Comparação entre as duas línguasComo vimos, as estruturas do latim e do português são bastante diferentes.

Se a mesma palavra em português pode ser sujeito ou objeto direto do verbo, bastando que a posicionemos antes ou depois do verbo, em latim a mesma pa-lavra sofrerá flexão de caso para poder exercer função de sujeito ou objeto (por exemplo, em uma oração declarativa simples com um verbo transitivo direto, dominus pode ser sujeito, mas não objeto direto, enquanto dominum pode ser objeto direto, e não sujeito).

Isso se dá em virtude de que a língua portuguesa não manteve o sistema de casos que existia em latim11. Assim, se analisarmos a mesma sentença usada anteriormente para exemplificar a liberdade relativa de ordem em latim e se efe-tuarmos as mesmas permutações da posição das palavras, obteremos sentenças que, ou significam coisas completamente diferentes, ou são agramaticais e não podem significar nada porque não são sentenças que seriam ditas por nenhum falante da língua portuguesa. Vamos à mesma sequência de sentenças:

a) O cozinheiro ao escravo um camelo dá.

b) O cozinheiro um camelo dá ao escravo.

c) O cozinheiro um camelo ao escravo dá.

d) Um camelo ao escravo dá o cozinheiro.

e) Dá ao escravo um camelo o cozinheiro.

f ) Um camelo dá ao escravo o cozinheiro.

Fica claro que esse conjunto de sentenças não possui o mesmo significado, como o conjunto das sentenças latinas possuía. Ainda que, nas sentenças de (a) a (c), o significado seja quase o mesmo, e ainda que consigamos entender pelo contexto o que acontece, no caso das três últimas fica claro que a relação de quem dá o que é invertida (ainda que implausível): o camelo é que dá um cozinheiro ao escravo.

Ao eliminarmos a dificuldade relacionada com a questão do contexto estra-nho (camelos, cozinheiros e escravos na mesma sentença formam um cenário bem estranho), perceberemos claramente a diferença fundamental entre uma

11 Exceto em alguns resquícios, como no caso dos pronomes pessoais “eu, me, mim, meu, tu, te, ti, teu”, que significam a mesma coisa do ponto de vista semântico, mas que têm formas diferentes para funções sintáticas diferentes. O “eu” pode ser sujeito do predicado “ver o camelo”, mas não pode ser objeto direto que preenche a expressão “o camelo viu”. Na posição de objeto direto, o pronome pessoal “eu” transforma-se em “me”, ou seja, “O camelo me viu” é uma sentença em que o “eu” se encontra no caso acusativo, por assim dizer.

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estrutura linguística baseada na ordem das palavras e uma baseada no sistema de casos. Imaginemos um verbo transitivo simples como “vê” (uidet), que signi-fica que “x vê y” (sequência que não é igual a “y vê x”). Com esse verbo, criemos uma frase simples como:

g) O cozinheiro vê o escravo.

Em latim, a frase pode ser dita de inúmeras maneiras do ponto de vista da ordem, pois quem dirá com certeza quem é o sujeito de “vê” e quem é o objeto direto de “vê” são as flexões de nominativo e acusativo, respectivamente. Assim, as seguintes ordenações em latim significarão a mesma coisa que (g) acima (com pequenas alterações no ponto de vista de ênfase, estilo etc., que não são impor-tantes nesse ponto):

h) coquus seruum uidet. (ordem mais comum em latim)

i) coquus uidet seruum.

j) seruum coquus uidet.

k) seruum uidet coquus.

l) uidet coquus seruum.

m) uidet seruum coquus.

Se fizermos o mesmo com a oração em português, obteremos significados diferentes e algumas sentenças que causarão sensação de estranheza:

n) O escravo vê o cozinheiro. (sentido completamente diferente)

o) O cozinheiro o escravo vê. (estranha)

p) O escravo o cozinheiro vê. (estranha)

q) Vê o cozinheiro o escravo. (estranha)

r) Vê o escravo o cozinheiro. (estranha)

Resumindo, se em português quem aparece antes do verbo costuma ser o seu sujeito e quem aparece depois costuma ser o seu objeto direto, em latim essa relação se dá antes pela marcação morfológica de caso em cada palavra, e não através da posição das palavras na frase.

Por causa dessa diferença, será crucial identificar as formas em que as pala-vras de categorias nominais estão quando aparecem em um texto latino, sob pena de simplesmente não entendermos o sentido das expressões.

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Texto complementarO texto a seguir foi retirado do livro Uma Estranha Língua?, de Alceu Dias

Lima, um dos maiores classicistas vivos do Brasil. Trata-se de um trecho de um dos capítulos do livro, no qual o autor discute, com um elevado grau de eru-dição, as questões de ensino da estrutura da sentença latina, nosso objeto de estudo nesta aula.

A frase latina segundo o esquema: nome sujeito versus nome objeto + verbo.

Considerações de ordem sintática(LIMA, 1995, s.p.)

Sejam os enunciados:

a) O patrão chama o criado;

b) O criado chama o patrão.

Aqui aleatória e globalmente assumidos, sem nenhum esforço, em razão apenas do seu acabamento gramatical de unidades frasais quaisquer, co-naturais ao falante nativo do português, tudo como convém a essas con-siderações com vistas à descrição do sistema, mas que, em situação real de discurso, são concebíveis no latim de Roma, quando mais não seja por para-frasearem ocorrências autênticas. [...]

Submetido um e outro enunciado (a e b) às perguntas que a competência em língua natural materna, corroborada por uma correta escolarização ele-mentar, deve autorizar, tais como: 1. Quais são as unidades morfossintáticas do enunciado a?; 2. Quais são as unidades morfossintáticas do enunciado b?; 3. Quais as unidades léxicas de a?; 4. Quais as de b?, força é constatar que, no tocante à gramática, pelo menos a gramática do Ensino Médio, e ao vocabulário, eles são idênticos. Não há, pois, como explicar com esses co-nhecimentos, ainda que tenham sido objeto de ensino na escola, a diferença óbvia entre os dois enunciados no que concerne à sua referência, ou seja, à sua indicação de sentido. Nem será difícil concluir que a análise sintática tra-dicional – as coisas não parecem mudar muito no ensino linguístico moder-no, ao qual ela está pressuposta – deixou sempre de valorizar e, por isso, de

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batizar esse componente básico, por mais que de natureza não segmental que faz da colocação dos nomes antes e depois do verbo, fator indispensável da significação frásica em idiomas como o português. Ninguém duvida que a conotação não apenas constatativa da declaração algo malcriada e provo-cadora do menino à mesa: “Feijão eu não quero” retira sua força expressiva, conotadora mais de um estado emocional do que denotadora da emissão de um juízo, da alteração dessa colocação dos nomes no enunciado e, portanto, fornece mais um fundamento ao seu valor morfemático. A força desse morfe-ma constituinte básico da frase vernácula dos falantes naturais do português (aqueles para quem ele é a língua de berço) responde por forte interferência desse idioma sobre o latino. Requer-se por isso particular cuidado para que mesmo um enunciado gramaticalmente latino, mas tão pouco romano em seu uso discursivo quanto

philosophum non facit barba

não seja entendido e apressadamente traduzido pelo incauto aprendiz falante nativo dessa língua moderna como “O filósofo não faz a barba”. O erro do principiante tem como causa outro maior, pois envolve o leitor moderno: não perceber o chiste do humanista cristão que forjou essa “versão latina” para o popular “O hábito não faz o monge”. Mesmo depois de ter-lhe sido, ao discípulo, metodicamente ensinado em aula que: 1. no latim, a colocação anterior e posterior ao verbo, pertinente no que concerne à ênfase, não o é pelo que toca à gramática, que opõe nominativo a acusativo, quer dizer, não faz parte do que, segundo R. Jakobson, “deve ser dito” na língua de Lucré-cio; 2. tratando-se do latim, a competência verbal do romano antigo põe em jogo, com base na flexão, um sistema de pressuposições sintagmáticas por-tador de alto índice de autocorreção (sem escapar, talvez, a um certo grau de redundância), em que cada nome deve chegar à frase provido de uma desinência específica, conforme exigências contextuais ou sintáticas. Estas o fazem pressentir, antes mesmo da identificação, na linearidade frasal, dos outros termos da seleção determinada pela regência e pela concordância, na função de sujeito, objeto direto ou indireto, adjunto adnominal, adjunto adverbial, aposição, regime de preposição, predicativo, simples exclamativo, além de portador daquelas indicações comuns às línguas modernas, ainda que, com uso diverso, isto é, com outra realização fonética, quais sejam o gênero e o número. Ou não é sequer de redundância, nem no sentido corrente, nem no da teoria da informação, que se há de falar aqui, e sim de

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legítima força expressiva! Nem, por um lado, a eventualidade, aliás compro-vada, de serem muitos os fatos da expressão situados fora das relações da fonologia, da morfossintaxe e da lexicologia, os quais explicam plenamente a existência e o bom desenvolvimento de domínios inteiros, como o da re-tórica, da estilística e da poética, nem, por outro, a grande incidência de va-riantes, quer contextuais, quer livres, no latim, como, de resto, em qualquer língua, nada justifica os exageros da chamada morfologia latina das gramá-ticas de inspiração donatiana, conforme visto.

Dicas de estudoEsse é o momento de se iniciar consultas a dicionários e gramáticas. Para isso

sugerimos:

Gradus Primus � , de Paulo Rónai, Editora Cultrix.

Dicionário do Latim Essencial � , de Antonio Martinez de Rezende e Sandra Braga Bianchet, Editora Crisálida.

Atividades1. Através do que se aprendeu sobre a marcação de casos nessa aula, flexione

os substantivos abaixo para construir sentenças com os verbos disponíveis e traduza as sentenças construídas.

Substantivos: deus “deus” mundus “mundo” Verbos:

agnus “cordeiro” dominus “senhor” philosophus “filósofo” habet “tem, possui”

amicus “amigo” equus “cavalo” populus “povo” uidet “vê”

asinus “asno” filius “filho” porcus “porco” amat “ama”

Augustus “Augusto” fungus “cogumelo” oculus “olho” est “é”

Brutus “Bruto” gladius “gládio, espada” seruus “escravo” ēst “come”

camelus “camelo” Homerus “Homero” ursus “urso” dat “dá”

capillus “cabelo” Marcus “Marco” necat “mata”

coquus “cozinheiro” medicus “médico” laudat “louva”

crocodilus “crocodilo” Minotaurus “Minotauro” docet “ensina”

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Exemplos:

a) Augustus mundum docet: “Augusto ensina o mundo”.

b) agnus asinum amat: “O cordeiro ama o asno”.

c) porcum necat equus: “O cavalo mata o porco”.

d) Minotaurus amicō ursum dat: “O Minotauro dá um urso para o amigo”.

e) Brutus est fungus: “Bruto é um cogumelo12”.

f) Brutus ēst fungum: “Bruto come um cogumelo”.

12 Em latim, fungus também era uma maneira de chamar alguém de imbecil ou pouco inteligente (via a metáfora da cabeça grande, como a de um cogumelo).

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2. Explique por que, entre os exemplos da atividade 1, o exemplo (e) tem dois nominativos (Brutus e fungus), e não um nominativo e um acusativo. Para isso, compare a sentença com a sua tradução em português e com a senten-ça seguinte, a letra (f ).

3. Com base nos exemplos da atividade 1, explique a diferença na ordem de palavras nas sentenças latinas e portuguesas.

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ReferênciasALMENDRA, Maria Ana; FIGUEIREDO, José Nunes. Compêndio de Gramática Latina. Porto: Porto Editora, 2003.

CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao Latim. São Paulo: Ática, 1993. (Série Princípios).

JONES, Peter V.; SIDWELL, Keith C. Reading Latin: grammar, vocabulary and exercises. Cambridge: Cambridge University Press, 1986a.

______; ______. Reading Latin: text. Cambridge: Cambridge University Press, 1986b.

LIMA, Alceu Dias. Uma Estranha Língua? Questões de linguagem e de método. São Paulo: UNESP, 1995.

PEREIRA, Maria Helena M. da R. Romana: Antologia da cultura latina. 3. ed. Coim-bra: Instituto de Estudos Clássicos, 1994. (Org. e trad. do latim).

______. Estudos de História da Cultura Clássica II: cultura romana. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.

PLAUTO; TERêNCIO. A Comédia Latina. Tradução de: SILVA, Agostinho da. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.].

REZENDE, Antônio Martinez de. Latina Essentia: preparação ao latim. Belo Ho-rizonte: UFMG, 2003.

REZENDE, A. M.; BIANCHET, Sandra Gualberto. Dicionário do Latim Essencial. Belo Horizonte: Crisálida: Tessitura, 2005.

RÓNAI, Paulo. Gradus Primus: curso básico de latim. São Paulo: Cultrix, 2006.

TORRINHA, F. Dicionário Latino-Português. Porto: Gráficos Reunidos, 1993.

Gabarito1. Os exemplos constituem a solução dos exercícios. Quaisquer sentenças bem

formadas com os substantivos flexionados como sujeito, objeto direto e ob-jeto indireto do verbo selecionado servem para essa atividade.

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2. A resposta não se encontra no texto, mas o aluno deverá fazer uma analogia entre o verbo “est” (é, está, existe) em latim e o verbo “é” em português. Os verbos servem apenas para ligar uma coisa à outra e, portanto, são chamados de “verbo de ligação”. O verbo “ser” não estabelece uma relação de sujeito- -objeto direto, e sim uma relação de predicativo do sujeito. Assim, os verbos “est” e “é” servem para igualar dois termos. Por isso, o segundo termo fica no nominativo. O aluno também poderá observar o sexto exemplo, em que há um verbo transitivo direto e, portanto, há caso acusativo em fungum.

3. Por causa da marcação de caso, a ordem em latim é mais livre, pois quem marca as relações de sujeito, predicativo, objeto direto e indireto são os ca-sos. Em português, é a ordem rígida das palavras que faz isso.

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Veremos, neste capítulo, como os substantivos são divididos em decli-nações e como os adjetivos são divididos em classes. Também conhecere-mos algumas preposições e seus sentidos básicos.

As declinações nominaisTodos os substantivos latinos estão sujeitos à flexão de caso. Assim,

todos eles apresentam, idealmente, 12 formas diferentes (singular e plural, nos casos nominativo, vocativo, acusativo, genitivo, dativo e abla-tivo). Os substantivos latinos também apresentam a categoria gramatical de gênero. Os gêneros possíveis em latim são o masculino, o feminino e o neutro (em português, temos apenas o masculino e o feminino). É im-portante que tenhamos em mente que gênero é apenas uma categoria gramatical e que não reflete necessariamente as nossas intuições sobre o que deve ser masculino ou feminino no mundo real. As línguas dife-rem quanto à marcação de gênero, e isso é natural. Devemos aprender o gênero do substantivo juntamente com seu significado, pois, do ponto de vista gramatical, os substantivos sempre estabelecem concordância de gênero, número e caso com outras palavras nominais que os modificam.1

Os gramáticos estabeleceram uma tipologia para todos os substantivos latinos, de acordo com características comuns deles. A característica mais usada para separar os substantivos em classes de forma didática envolve o chamado tema. O tema é a parte do substantivo pronta para receber as desinências de caso, ou seja, constitui-se do radical do substantivo e, em alguns casos, uma vogal temática que segue-se imediatamente ao radical. Os substantivos latinos podem ter, então, seis tipos de tema: os com vogal

1 Tirando o caso, o mesmo acontece em português, pois devemos flexionar, por exemplo, o adjetivo “preto” conforme as informações de gênero e número presentes no nome a ser qualificado: assim, temos “o gato preto”, “a gata preta”, “os gatos pretos”, e não “o gato pretas”.

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temática a, o, i, u, e, e os sem vogal temática (que têm o radical terminado em consoante, portanto). Isso nos dá um total de seis classes possíveis para os subs-tantivos. No entanto, os substantivos de tema consonântico e os de tema em “i” foram incluídos na mesma categoria, o que nos deixa com cinco conjuntos (ou paradigmas) de declinações nominais. O quadro a seguir apresenta as cinco de-clinações nominais e a terminação2 de genitivo de cada uma delas:

Quadro 1

Declinação Vogal temática Genitivo singular Exemplo

Primeira a -ae luna, lunae “lua”

Segunda o -ī camelus, cameli “camelo”

Terceirai / nenhuma (consonantal)

-ĭs fur, furis “ladrão”

Quarta u -ūs manus, manus “mão”

Quinta e -eī res, rei “coisa, assunto”

Apresentamos os genitivos singulares como característicos de cada declinação nominal, pois é essa a forma que não se confunde de uma declinação para outra. Por exemplo, no quadro 1 temos pelo menos dois nomes que no nominativo singular parecem fazer parte da mesma declinação. Camelus e manus parecem iguais, mas seus genitivos singulares são diferentes: cameli diz que se trata de um substantivo da segunda declinação, enquanto que manūs nos diz que o substantivo pertence à quarta declinação dos nomes.

Nos dicionários, em geral, não é a declinação do nome que encontramos, e sim a sequência “nominativo, genitivo” como aparece no quadro 1, ou como luna, ae; camelus, i; fur, is; manus, us; res, ei. Por isso, é importante aprender os substantivos juntamente com sua declinação, gênero e significado básico. A dica que damos é que o aluno faça listas de vocabulário nos seguintes moldes:

luna, lunae, substantivo da primeira declinação, feminino de significado “lua” pode ser anotado luna 1f. 3 “lua” (essa é a forma que adotaremos nos vocabulários daqui por diante).

2 Chamaremos de terminação o final das palavras que apresentam algum tipo de flexão. No caso dos substantivos, temos originalmente o radical, a vogal temática e a desinência número-causal (uma forma subjacente que, quando combinada com o tema real da palavra, resulta em uma forma chamada de terminação).3 Essa notação é lida como “substantivo luna, primeira declinação feminino, significado ‘lua’”.

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Primeira declinaçãoEssa é a declinação dos nomes de tema em a. Isso significa que o radical do

substantivo se liga às desinências dos casos através de uma vogal intermediária a. Vejamos o quadro com um exemplo de nome dessa declinação:

Caso Singular Significado Plural Significado

Nominativo lună a / uma lua lunae as / umas luas

Vocativo lună ó lua lunae ó luas

Acusativo lunăm a / uma lua lunās as / umas luas

Genitivo lunae da lua lunārum das luas

Dativo lunae para a / à lua lunīs para as / às luas

Ablativo lunā pela / com a lua lunīs pelas / com as luas

É importante observar o seguinte com relação aos nomes da primeira declinação:

Há terminações que podem ser referentes a vários casos simultaneamente, �como -ae, que pode ser genitivo e dativo singular e nominativo plural, -a (se não estiver marcado como longa ou breve) que pode ser nominativo, voca-tivo ou ablativo singular e -īs, que pode ser dativo ou ablativo plural.

O tema do substantivo pode ser encontrado através da remoção do final �-rum do genitivo plural: lunarum menos rum nos dá o tema luna-.

Os substantivos de primeira declinação são mais frequentemente femini- �nos, mas também há alguns masculinos.

Alguns substantivos comuns da primeira declinação são:

Femininos

aquila 1f. “águia”aqua 1f. “água”columba 1f. “pomba”ara 1f. “altar”cena 1f. “ceia, jantar”insŭla 1f. “ilha”littera 1f. “letra”pecunia 1f. “dinheiro”sagitta 1f. “flecha”scaena 1f. “palco, cena”silva 1f. “bosque, selva”

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Masculinosagricŏla 1m. “agricultor”nauta 1m. “marinheiro”poeta 1m. “poeta”

Nomes usados sempre no plural4

diuitiae, arum 1f. “riquezas”nuptiae, arum 1f. “núpcias”litterae, arum 1f. “carta”

Segunda declinaçãoA segunda declinação é a dos nomes de tema em o. No entanto, exceto por

algumas formas, as desinências de caso, ao encontrarem o tema em o, sofreram diversas mudanças historicamente, de modo que em muitas das desinências temos um u ao invés de um o. Isso se dá apenas na superfície; nas formas morfo-lógicas subjacentes, a vogal temática o está lá.

Os nomes de segunda declinação apresentam alguns subtipos que são melhor entendidos se vistos separadamente. Temos nomes de segunda declina-ção comuns, nomes de segunda declinação com apenas nominativo e vocativo singulares diferentes, em -er, e nomes de segunda declinação de gênero neutro com terminação em -um no nominativo e vocativo singular5. A partir daqui, será evitada a tradução das formas latinas nas tabelas, pois ela dependerá mais do contexto e do caso do que de memorização pura e simples. As atividades ajuda-rão nesse sentido.

Vejamos o quadro dos nomes de segunda declinação:

Caso Singular: “senhor”

Singular: “menino”

Singular: “palavra”

Plural: “senhores”

Plural: “meninos”

Plural: “palavras”

Nominativo domĭnŭs puer uerbŭm domĭnī puerī uerbă

Vocativo domĭnĕ puer uerbŭm domĭnī puerī uerbă

Acusativo domĭnŭm puerŭm uerbŭm dominōs puerōs uerbă

Genitivo domĭnī puerī uerbī domĭnōrum puerōrum uerbōrum

Dativo domĭnō puerō uerbō domĭnīs puerīs uerbīs

Ablativo domĭnō puerō uerbō domĭnīs puerīs uerbīs

4 Nomes como esses ou não possuem formas no singular, ou possuem formas singulares com significados diferentes.5 Também há nomes neutros que declinam com nominativo singular em -us.

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Sobre os substantivos da segunda declinação, podemos observar que:

Há substantivos dos três gêneros que se declinam exatamente como � do-minus.

Só há substantivos masculinos que se declinam como � puer.

Só há substantivos neutros que se declinam como � uerbum.

Observando a tabela, verificamos que, exceto por nominativos, vocativos �e acusativos, os outros casos são iguais para os três subgrupos.

Somente em nomes da segunda declinação terminados em � -us é que te-mos uma terminação específica para o vocativo. Em todos os outros subs-tantivos, de todas as declinações, tanto no singular quanto no plural, o vocativo é sempre igual ao nominativo.

Os substantivos de segunda declinação terminados em � -er só são diferen-tes dos terminados em -us no nominativo e vocativo singulares.

Os substantivos neutros, como vemos pelo subtipo representado por � uer-bum, sempre têm nominativos, vocativos e acusativos iguais, no singular e no plural. Os neutros de segunda declinação têm nominativo, vocativo e acusativo plural em -ă. Não confunda com os nomes da primeira decli-nação. O fato de os nominativos serem iguais aos acusativos nos nomes neutros causa grandes confusões, pois, como aprendemos, os nominati-vos em geral representam sujeitos, e os acusativos, objetos diretos. As am-biguidades surgem quando não temos mais a marca unívoca de sujeito e objeto, se a língua tem mais flexibilidade na ordem das palavras, como é o caso do latim.

Os dativos e ablativos são iguais, tanto no singular quanto no plural, o que �representa uma diferença com relação aos substantivos de primeira decli-nação, em que os dativos singulares eram iguais aos genitivos singulares.

Seguem substantivos comuns pertencentes à segunda declinação:

Masculinos em -us

popŭlus, i 2m. “povo”equus, i 2m. “cavalo”camelus, i 2m. “camelo”filius, i 2m. “filho”philosophus, i 2m. “filósofo”

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Femininos em -us

domus, i 2f. “casa”ficus, i 2f. “figueira”laurus, i 2f. “loureiro”humus, i 2f. “terra”

Neutros em -us pelăgus, i 2n. “mar”vulgus, i 2n. “povo”

Masculinos em -er

ager, agri 2m. “campo”magister, magistri 2m. “mestre, professor”aper, apri 2m. “javali”liber, libri 2m. “livro”uir, uiri 2m. “homem, varão”

Neutros em -um

bellum, i 2n. “guerra”castrum, i 2n. “fortificação, castelo”signum, i 2n. “sinal, estandarte”somnium, i 2n. “sonho”

Adjetivos de primeira classeOs adjetivos são as palavras que podem ser usadas diretamente para quali-

ficar um substantivo. Os exemplos em português são muitos, como o substan-tivo “casas”, ao qual podemos acrescentar a especificação “amarelas”, produzin-do “casas amarelas”. Como se vê, em português, o adjetivo costuma aparecer imediatamente em seguida ao substantivo e costuma concordar com ele em gênero e número (por isso “casas amarelas”, e não “casas amarelo” ou qualquer coisa assim). O mesmo se dá em latim, com a diferença que, como o sistema de casos permite a flexibilidade de ordem já mencionada, um substantivo pode receber qualificação de um adjetivo mesmo que ele não apareça em uma posi-ção imediatamente posterior ou anterior. Basta que o substantivo e o adjetivo estabeleçam relação de concordância para que eles estejam em uma relação de modificação.

No entanto, um adjetivo em latim deve concordar com o substantivo não somente em número e gênero, como em português, mas também em caso. Por isso, os adjetivos em latim são palavras que podem ter até 36 formas diferentes: seis casos, vezes dois números, vezes três gêneros é igual a 36.

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Os adjetivos que têm 36 formas diferentes são os chamados adjetivos de primeira classe, uma vez que eles seguem a primeira declinação dos nomes no gênero feminino, a segunda declinação em -us para as formas masculinas e a segunda declinação em -um para as formas neutras. Vejamos o quadro a seguir com o adjetivo de exemplo magnus, a, um “grande”6:

Masculino Feminino Neutro

Nominativo singular magnŭs magnă magnŭm

Vocativo singular magnĕ magnă magnŭm

Acusativo singular magnŭm magnăm magnŭm

Genitivo singular magnī magnae magnī

Dativo singular magnō magnae magnō

Ablativo singular magnō magnā magnō

Nominativo plural magnī magnae magnă

Vocativo plural magnī magnae magnă

Acusativo plural magnōs magnās magnă

Genitivo plural magnōrum magnārum magnōrum

Dativo plural magnīs magnīs magnīs

Ablativo plural magnīs magnīs magnīs

Esse é um adjetivo típico da chamada primeira classe dos adjetivos: ele segue a primeira e a segunda declinações nominais. Observe as terminações e você verá que elas correspondem aos paradigmas apresentados anteriormente para os substantivos de primeira e segunda declinação.

Qualquer substantivo, não importa a qual declinação pertença, poderá ser modificado por um adjetivo, bastando que suas informações de número, gênero e caso sejam iguais. Vejamos alguns exemplos a seguir.

O substantivo cena, ae 1f. “ceia” é de gênero feminino. Se pegarmos ao acaso qualquer uma de suas formas, como o acusativo singular cenam, poderemos 6 Essa é uma maneira comum de listar um adjetivo: perceba que há as formas dos três gêneros (magnus, a, um = magnus, magna, magnum), iden-tificando que o adjetivo pertence à primeira classe, e a tradução. Os adjetivos que aparecerem listados dessa forma declinam-se como magnus, a, um acima.

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modificar essa forma com qualquer adjetivo que também esteja no acusativo singular, na forma feminina. Dessa forma, teremos magnam cenam “grande ceia” (na posição de objeto direto – lembre-se do acusativo).

No entanto, não é sempre que as terminações do substantivo e do adjetivo são exatamente iguais. Isso se dá em virtude de que muitos substantivos perten-cem a declinações que costumam ter a maioria dos seus membros de um gênero, mas que apresentam uma menor parte de substantivos de outro gênero. Veja-mos o exemplo de nauta, ae 1m. “marinheiro”, que é um substantivo da primeira declinação, mas que não é feminino. Um adjetivo que concorde com a forma de nominativo singular masculino nauta poderá ser, por exemplo, magnus, geran-do a forma magnus nauta, “grande marinheiro”.

Por isso, para identificar o substantivo com o qual um certo adjetivo concorda em uma sentença latina, devemos saber reconhecer a declinação e o gênero do substantivo, bem como o gênero, o número e o caso em que o adjetivo está.

Segue uma pequena lista de adjetivos comuns da primeira classe:

altus, a, um “alto”beatus, a, um “feliz”bellus, a, um “bonito, belo”bonus, a, um “bom”clarus, a, um “famoso”diuinus, a, um “divino”falsus, a, um “falso”ignarus, a, um “ignorante”

malus, a, um “mau”multus, a, um “muito”paruus, a, um “pequeno”plenus, a, um “cheio [de + genitivo.]”nullus, a, um “nenhum”secundus, a, um “favorável”stultus, a, um “imbecil, estúpido”tutus, a, um “salvo, protegido”

PreposiçõesAs preposições latinas sempre escolhem o caso em que o substantivo sele-

cionado por ela deverá estar. Por isso, você deve aprender as preposições junta-mente com o(s) caso(s) que ela seleciona. Algumas preposições, ainda, podem selecionar mais de um caso, com alteração no significado a depender do caso utilizado. Com essas primeiras preposições que veremos já será possível ter acesso a um fragmento interessante do latim para as atividades que proporemos

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e, ainda, com o diagrama básico dos usos de casos em preposições, grande parte dos problemas relacionados ao significado das preposições será sanada.

Vejamos as preposições mais comuns e importantes para o início do apren-dizado do latim:

in � “em” / “para dentro de”:

A preposição in tem dois sentidos básicos muito distintos, um ligado à noção de permanência e estaticidade, e outro ligado à noção de movimento para dentro de algum lugar ou corpo. O primeiro se expressa com o ablativo e o se-gundo com o acusativo:

in + ablativo: estaticidade → in forō “no fórum”; in uiā “no caminho”; in scaenā “no palco”.

in + acusativo: movimento para dentro de → in forŭm “para dentro do fórum”; in uiăm “para dentro do caminho (vindo de fora dele)”; in scaenăm “para dentro do palco (vindo de fora dele)”.

A preposição in com seus dois usos dependentes do caso acusativo e do caso ablativo é um dos melhores exemplos de como esses casos se relacionam, em geral, com movimento versus estaticidade ou com movimento para dentro versus movimento para fora. As próximas preposições ilustram isso.

ad � + acusativo: “até” / “até junto a” → ad domum “para junto da casa (mas não entrando nela)”; “até a casa”.

a(b � 7) + ablativo: “para longe de” (contrário de ad + acusativo ) → ab agrō “para longe do campo (sem a pressuposição de que o que está se afas-tando do campo estava antes dentro do campo)”.

e(x) � + ablativo: “para fora de” (contrário de in + acusativo) → ex agrō “para fora do campo (com a pressuposição de que o que está indo para fora estava dentro do campo)”.

Uma boa maneira de aprender essas preposições e a relação dos casos acu-sativo e ablativo com movimento e/ou estaticidade é observar bem o diagrama a seguir:

7 As preposições ab e ex podem perder o “b” e o “x”, respectivamente, antes de consoantes. Portanto, temos ab arā, mas a forō, e ex arā, mas ē foro.

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Domus

ad + acusativo

in + acusativo

in + ablativo

e(x) + ablativo

a(b) + ablativo

Texto complementarO seguinte poema de Catulo é um dos textos mais famosos e comentados

da literatura latina. Abaixo, segue uma versão bilíngue que poderá ser bastante apreciada via tradução. No entanto, estão marcadas no texto latino as palavras cujas formas já possam ser reconhecidas pelo que se apresentou até o momento quanto à morfologia do latim. O aluno poderá olhar para o texto latino com o auxílio de um dicionário e do material desta aula, e tentar encontrar sentido para as expressões em negrito. É possível, também, com o auxílio da tradução, tentar adivinhar outras formas.

Há também questões literárias bastante importantes a serem comentadas sobre esse poema. Trata-se do Carmen VIII, poema no qual encontramos um in-teressante jogo de vozes. A mudança do ponto de vista do “eu” para o “nós” e, fi-nalmente, para o “tu” faz com que o poeta se desdobre em dois e se veja de várias maneiras e ângulos. Tente identificar essas questões na leitura a seguir.

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Miser Catulle, desinas ineptire,

et quod uides perisse perditum ducas.

fulsere quodam candidi tibi soles,

cum uentitabas quo puella ducebat

amata nobis quantum amabitur nulla.

ibi illa multa tum iocosa fiebant,

quae tu uolebas nec puella nolebat.

fulsere uere candidi tibi soles.

nunc iam illa non uolt; tu quoque, inpotens, noli,

nec quae fugit sectare, nec miser uiue,

sed obstinata mente perfer, obdura.

vale, puella. Iam Catullus obdurat,

nec te requiret nec rogabit inuitam;

at tu dolebis, cum rogaberis nulla.

scelesta, uae te; quae tibi manet uita!

quis nunc te adibit? cui uideberis bella?

quem nunc amabis? cuius esse diceris?

quem basiabis? cui labella mordebis?

at tu, Catulle, destinatus obdura.

Meu pobre Catulo, põe um termo neste delirar

e considera perdido o que vês que se perdeu.

Em tempos passados sóis luminosos brilharam

quando tu, constantemente, corrias

para onde te chamava a jovem por nós tão amada

quanto nenhuma outra será jamais amada.

Nestes encontros então aconteciam aqueles

inumeráveis momentos de prazer: o que tu querias

a jovem também não o deixava de querer.

Sóis luminosos realmente brilharam para ti.

Hoje, porém, ela já não quer mais.

Também tu, incapaz de te conteres, não queiras mais,

não persigas aquela que te foge, não vivas infeliz,

mas conserva inflexível teu espírito, resiste.

Adeus, minha jovem amiga, Catulo já resiste,

não mais irá te procurar, não mais te convidará

a um encontro, se não o desejares.

Mas tu chorarás quando não mais fores solicitada.

Ai de ti, infeliz. Que vida te está reservada?

Que homem irá ter contigo?

A quem parecerás bela? Agora a quem amarás?

A quem dirão que pertences? A quem beijarás?

De quem morderás os lábios?

Mas tu, Catulo, resiste.

(In: NOVAK; NERI, 2003. Tradução de: MISTURA, Lauro.)

Dica de estudoConsulte as cinco primeiras lições do método Gradus Primus, de Paulo Rónai,

Editora Cultrix.

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Sistema nominal latino: primeira e segunda declinações, adjetivos de primeira classe e preposições

Atividades1. Determine as formas das palavras abaixo, identificando, em cada uma, qual é

a declinação (primeira ou segunda), o número (singular ou plural), o gênero (masculino, feminino ou neutro) e o caso. Se a palavra puder estar em vários casos e números, indique todas as possibilidades. Use as informações dadas ao longo dessa aula para isso.

Exemplos:

a) arārum: (1f. gen. pl.)

b) columbās: (1f. acus. pl.)

c) nautae: (1m. gen. sing. / dat. sing. / nom. pl.)

d) pecuniā:

e) equŭm:

f) popŭlŭs:

g) magistrīs:

h) signă:

i) cenă:

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j) insula:

k) agricolārum:

l) filiōs:

m) bellŭm:

n) domī:

o) aprīs:

2. Complete o quadro a seguir com o adjetivo bonus, a, um “bom”.

Feminino Masculino NeutroNominativo singular

Vocativo singular

Acusativo singular

Genitivo singular

Dativo singular

Ablativo singular

Nominativo plural

Vocativo plural

Acusativo plural

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Genitivo plural

Dativo plural

Ablativo plural

3. Explique qual a diferença das seguintes combinações de preposições:

in + acusativo

in + ablativo

ReferênciasALMENDRA, Maria Ana; FIGUEIREDO, José Nunes. Compêndio de Gramática Latina. Porto: Porto Editora, 2003.

CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao Latim. São Paulo: Ática, 1993. (Série Princípios).

JONES, Peter V.; SIDWELL, Keith C. Reading Latin: grammar, vocabulary and exercises. Cambridge: Cambridge University Press, 1986a.

______; ______. Reading Latin: text. Cambridge: Cambridge University Press, 1986b.

NOVAK, Maria da Glória; NERI, Maria Luiza (Orgs.). Poesia Lírica Latina. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

PEREIRA, Maria Helena M. da R. Romana: Antologia da cultura latina. 3. ed. Coim-bra: Instituto de Estudos Clássicos, 1994. (Org. e trad. do latim).

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______. Estudos de História da Cultura Clássica II: cultura romana. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.

PLAUTO; TERêNCIO. A Comédia Latina. Tradução de: SILVA, Agostinho da. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.].

REZENDE, Antônio Martinez de. Latina Essentia: preparação ao latim. Belo Ho-rizonte: UFMG, 2003.

REZENDE, A. M.; BIANCHET, Sandra Gualberto. Dicionário do Latim Essencial. Belo Horizonte: Crisálida: Tessitura, 2005.

RÓNAI, Paulo. Gradus Primus: curso básico de latim. São Paulo: Cultrix, 2006.

TORRINHA, F. Dicionário Latino-Português. Porto: Gráficos Reunidos, 1993.

Gabarito1. Sugestões de solução nas primeiras palavras. Todas as palavras foram apre-

sentadas na aula e suas formas nas tabelas.

2.

Feminino Masculino NeutroNominativo singular bonus bona bonum

Vocativo singular bone bona bonum

Acusativo singular bonun bonam bonum

Genitivo singular bonī bonae bonī

Dativo singular bonō bonae bonō

Ablativo singular bonō bonā bonō

Nominativo plural bonī bonae bona

Vocativo plural boni bonae bonī

Acusativo plural bonōs bonās bona

Genitivo plural bonōrum bonārum bonōrum

Dativo plural bonīs bonīs bonīs

Ablativo plural bonīs bonīs bonīs

3. A preposição in tem dois sentidos básicos muito distintos: um ligado à noção de permanência e estaticidade (no caso ablativo) e outro ligado à noção de movimento para dentro de algum lugar ou corpo (no caso acusativo).

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Neste capítulo serão estudados os substantivos da terceira declinação e os adjetivos de segunda classe, que são nomes de tema em i ou tema consonantal. O paradigma para todos eles é praticamente idêntico, com alterações principalmente nos nominativos singulares e nos genitivos plurais. Assim, serão vistos um modelo básico de declinação de todos os nomes de terceira declinação e adjetivos de segunda classe, e depois as exceções mais importantes e subparadigmas ligeiramente diferentes.

O objetivo é que todos os nomes de terceira declinação sejam aprendi-dos (incluindo na categoria de nomes, aqui, os adjetivos, uma vez que os adjetivos de segunda classe seguem os substantivos da terceira declina-ção), pois seguem basicamente o mesmo padrão de declinação.

Terceira declinaçãoSepararemos os substantivos de terceira declinação em dois grandes

grupos: os de tema em i e os de tema consonântico.

Um exemplo de substantivo de tema consonântico é rex, regis 3m. “rei”. Vejamos a sua declinação1:

Singular Plural

Nominativo rex regēs

Acusativo regĕm regēs

Genitivo regĭs regŭm

Dativo regī regĭbŭs

Ablativo regĕ regĭbŭs

1 Não mais listaremos os vocativos nas tabelas de declinação, pois, como sabemos, apenas nos nomes masculinos terminados em -us da segunda declinação no singular é que temos uma terminação exclusiva para o vocativo. Em todos os outros casos, o vocativo é exatamente igual ao nominativo.

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Os substantivos de tema consonantal pertencentes a essa declinação pos-suem, em geral, nominativo singular com uma sílaba a menos que o genitivo singular, o que se convencionou chamar, na literatura de ensino de latim, de substantivos imparissilábicos. Isso se dá em virtude de que o tema consonan-tal não recebe nenhuma vogal de ligação entre o final do tema e a desinência abstrata de nominativo singular -s (que não aparece na maioria dos casos, mas que aqui se torna clara: o tema reg- mais a desinência -s gera a forma pronun-ciada [reks], resultante desse encontro consonantal. A depender da consoante final do tema, outros tipos de transformação ocorrerão no nominativo singular dos substantivos de temas consonantais da terceira declinação. Por isso, preste atenção sempre ao genitivo singular, que, para todos os substantivos da terceira declinação, se realiza como -is.

Atenção às seguintes características desses substantivos:

Todos têm acusativo singular em � -em (exceto os de gênero neutro, que sempre têm nominativos iguais a acusativos, tanto no singular quanto no plural).

Os genitivos plurais são em � -um, diferentemente do genitivo plural dos nomes da terceira de tema em i, como veremos.

Nominativos e acusativos plurais são iguais, em � -es.

Dativos e ablativos plurais em � -ibus passam a ser a característica de todos os substantivos da terceira, quarta e quinta declinações (diferentemente dos dativos e ablativos plurais da primeira e segunda declinação, em -is).

Vejamos uma lista de nomes da terceira declinação, de acordo com a consoante final do tema. Preste atenção ao que acontece com os nominativos plurais, pois em geral as alterações dependem do tipo de consoante final do tema:

Temas com final em l ou r:

consul, consulis 3m. “cônsul” [tema consul-]

uxor, uxoris 3f. “esposa” [tema uxor-]

fur, furis 3m. “ladrão” [tema fur-]

soror, sororis 3f. “irmã” [tema soror-]

labor, laboris 3m. “trabalho” [tema labor-]

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Temas com final em d ou t:

pes, pedis 3m. “pé” [tema ped-]

dos, dotis 3f. “dote” [tema dot-]

ciuitas, ciuitatis 3f. “cidade” [tema ciuitat-]

salus, salutis 3f. “saúde, salvação” [tema salut-]

miles, militis 3m. “soldado” [tema milit-]

Temas com final c ou g:

dux, ducis 3m. “comandante, condutor” [tema duc-]

iudex, iudicis 3m. “juiz” [tema iudic-]

lex, legis 3f. “lei” [tema leg-]

Temas em -ōn ou -iōn:

praedo, praedonis 3m. “pirata” [tema praedon-]

legio, legionis 3f. “legião, exército” [tema legion-]

religio, religionis 3f. “rito, obrigação, religião” [tema religion-]

Agora vejamos os substantivos de terceira declinação de tema em i. Um exemplo de substantivo desse tipo é aedis, aedis 3f. “templo, casa”2. Vejamos a sua declinação:

Singular Plural

Nominativo aedĭs aedēs

Acusativo aedĕm aedīs ou aedēs

Genitivo aedĭs aediŭm

Dativo aedī aedĭbŭs

Ablativo aedĕ (ou aedī) aedĭbŭs

Como podemos ver, o nominativo e o genitivo singular têm o mesmo número de sílabas. Por isso, esses substantivos são considerados parissilábicos, e se opõem aos imparissilábicos (cujo nominativo tem uma sílaba a menos que

2 Esse é um dos exemplos de substantivos que têm um significado específico somente para o plural e outro para os dois números. aedis, no singular e no plural, pode significar “templo”, mas apenas no plural significa “casa”.

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o genitivo singular), formando uma espécie de subparadigma específico, com suas características específicas.

As diferenças principais a serem notadas com relação aos substantivos de tema consonantal e imparissilábicos são as seguintes:

O ablativo singular pode ser como o dos imparissilábicos ou como o dati- �vo singular. As duas formas são comuns.

O nominativo e o acusativo plural podem ser diferentes. Uma forma espe- �cial de adjetivo plural em -īs (note a longa, que diferencia do nominativo singular) é encontrada, assim como a forma já vista em -ēs dos imparissi-lábicos.

A � diferença mais importante dos parissilábicos com relação aos imparissilá-bicos se encontra no genitivo plural, em -iŭm ao invés de em -ŭm. Isso se dá em virtude de a maioria dos parissilábicos terem radical temático em i.

Vejamos alguns dos substantivos da terceira declinação de tema em i:

auis, is 3f. “ave, agouro”

hostis, is 3m. “inimigo”

piscis, is 3m. “peixe”

finis, is 3m. “fim (singular), território, fronteiras, bordas, limites (plural)”

nox, noctis 3f. “noite”3

urbs, urbis 3f. “cidade, Roma”

arx, arcis 3f. “fortaleza, cidadela, fortificação”

ars, artis 3f. “arte”

dens, dentis 3m. “dente”

mons, montis 3m. “monte”

pons, pontis 3m. “ponte”

Há alguns nomes neutros da terceira declinação que apresentam diferenças especiais apenas no nominativo singular (e consequentemente no acusativo sin-gular, visto que, como já vimos, todos os nomes neutros sempre apresentam 3 Alguns nomes imparissilábicos declinam-se conforme aedis, is porque apresentam genitivo plural em -ium. Assim, eles serão apresentados nessa lista. Será fácil reconhecê-los; basta contar uma sílaba a menos no nominativo singular.

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nominativos e acusativos iguais), e listaremos alguns dos mais importantes aqui, seguidos de seu genitivo transcrito na íntegra, a partir do qual se poderá declinar o restante dos casos e números, bastando que se reconheça o tema (retirando o -is do genitivo singular) e que se apliquem as desinências normais de neutro. Declinamos completamente um parissilábico e um imparissilábico como exemplo:

Imparissilábico (consonantal)

singular

Imparissilábico (consonantal)

plural

Parissilábico (tema em i)

singular

Parissilábico (tema em i)

plural4

Nominativo caput capĭtă mare marĭă

Acusativo caput capĭtă mare marĭă

Genitivo capĭtĭs capĭtŭm marĭs marĭum

Dativo capĭtī capĭtĭbŭs marī marĭbŭs

Ablativo capĭtĕ capĭtĭbŭs marī marĭbŭs

Observamos que, fora o nominativo/acusativo singular, os nomes neutros da terceira seguem os subparadigmas consonantal e de tema em i, conforme vemos pelo caso distintivo básico, o genitivo plural, capitum versus marium.

Outra questão relevante é que no ablativo singular os substantivos neutros de tema consonantal apresentam terminação ĕ enquanto os de tema em i apre-sentam terminação ī.

Segue a lista com outros neutros, com genitivos inteiros para identificar o tema (quando houver um hífen no meio da palavra, salvo informação em con-trário, ele servirá apenas como informação didática que separa a terminação e o tema).

uulnus, uulner-is 3n. “ferida”

corpus, corpŏr-is 3n. “corpo”

opus, opĕr-is 3n. “obra, trabalho”

onus, onĕr-is 3n. “peso, carga”

pectus, pectŏr-is 3n. “peito”

scelus, scelĕr-is 3n. “crime”4 É importante lembrar que a correspondência imparissilábico-consonantal/parissilábico-tema em i nem sempre vale. Haverá eventuais exceções, como o substantivo nox listado anteriormente.

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tempus, tempŏr-is 3n. “tempo”

ius, iur-is 3n. “lei, direito”

nomen, nomĭn-is 3n. “nome”

animal, animal-is 3n. “animal” (embora não pareça, trata-se de um parissilábico, cujo nominativo teria sido animalĕ)

exemplar, exemplar-is 3n. “exemplo” (mesmo caso de animal)

Adjetivos de segunda classeA maioria dos adjetivos de segunda classe baseia-se na declinação dos subs-

tantivos de terceira declinação de tema em i, mas há também os que seguem a declinação de tema consonantal. A literatura sobre a língua latina classifica os ad-jetivos de segunda classe em uniformes, biformes e triformes. No entanto, essas formas diferentes só se manifestam no nominativo singular nos gêneros masculi-no, feminino e neutro (os uniformes apresentam uma só forma para os três gêne-ros, os biformes apresentam uma forma para o masculino e feminino, chamada de comum, e os triformes apresentam uma forma para cada gênero). Todos os outros casos e números apresentam terminações iguais para os três gêneros. As tabelas a seguir apresentarão adjetivos de segunda classe desses três tipos, além de um exemplo de adjetivo de segunda classe de tema consonantal. Veremos adiante o que todos eles têm em comum.

Uniformes – exemplo: � ingēns, ingentis “enorme”.

Masculino singular

Feminino singular

Neutro singular

Masculino plural

Feminino plural

Neutro plural

Nominativo ingens ingens ingens ingentēs ingentēs ingentia

Acusativo ingentĕm ingentĕm ingens ingentēs(īs) ingentēs(īs) ingentia

Genitivo ingentĭs ingentĭs ingentĭs ingentĭum ingentĭum ingentĭum

Dativo ingentī ingentī ingentī ingentĭbŭs ingentĭbŭs ingentĭbŭs

Ablativo ingentī ingentī ingentī ingentĭbŭs ingentĭbŭs ingentĭbŭs

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Biformes – exemplo: � omnis, omn-e “todo, todos”.

Masculino singular

Feminino singular

Neutro singular

Masculino plural

Feminino plural

Neutro plural

Nominativo omnis omnis omne omnēs omnēs omnia

Acusativo omnem omnem omne omnēs(īs) omnēs(īs) omnia

Genitivo omnis omnis omnis omnĭum omnĭum omnĭum

Dativo omnī omnī omnī omnĭbŭs omnĭbŭs omnĭbŭs

Ablativo omnī omnī omnī omnĭbŭs omnĭbŭs omnĭbŭs

Triformes – exemplo: � acer, acris, acre “amargo, afiado”.

Masculino singular

Feminino singular

Neutro singular

Masculino plural

Femini-no plural

Neutro plural

Nominativo acer acris acre acrēs acrēs acria

Acusativo acrem acrem acre acrēs(īs) acrēs(īs) acria

Genitivo acris acris acris acrĭum acrĭum acrĭum

Dativo acrī acrī acrī acrĭbŭs acrĭbŭs acrĭbŭs

Ablativo acrī acrī acrī acrĭbŭs acrĭbŭs acrĭbŭs

Adjetivos de segunda classe de tema consonantal – exemplo: � uetus, ueteris “velho”.

Masculino singular

Feminino singular

Neutro singular

Masculino plural

Feminino plural

Neutro plural

Nominativo uetus uetus uetus ueterēs ueterēs uetera

Acusativo ueterem ueterem uetus ueterēs ueterēs uetera

Genitivo ueteris ueteris ueteris ueterum ueterum ueterum

Dativo ueterī ueterī ueterī ueterĭbŭs ueterĭbŭs ueterĭbŭs

Ablativo ueterĕ ueterĕ ueterĕ ueterĭbŭs ueterĭbŭs ueterĭbŭs

É importante perceber que todos os tipos de adjetivos de segunda classe só se apresentam “uniformes, biformes ou triformes” com relação ao nominativo singular, conforme se pode perceber pelos quadros anteriores. Tirando o no-minativo singular, os adjetivos de segunda classe são, em geral, biformes: têm uma forma para o masculino e feminino e uma forma para o gênero neutro. Os genitivos, dativos e ablativos, no entanto, são iguais para os três gêneros. É im-

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portante estudar as tabelas com calma, muito mais para encontrar as similarida-des entre as diferentes subclasses dos adjetivos do que para identificar exceções ou anomalias.

Vejamos uma lista de exemplos de adjetivos da segunda classe. Primeiro, os “uniformes”:

prudens, prudentis “prudente”

sapiens, sapientis “sensato, sábio”

audax, audacis “audaz”

ferox, ferocis “feroz”

feliz, felicis “feliz”

Agora, exemplos dos biformes:

ciuilis, ciuile “civil”

grauis, graue “grave”

nobilis, nobile “nobre”

incredibilis, incredibile “incrível”

humilis, humile “humilde”

utilis, utile “útil”

fortis, forte “forte”

Vejamos alguns dos triformes:

celer, celeris, celere “rápido”

celeber, celebris, celebre “célebre”

Agora, vejamos alguns exemplos de adjetivos de segunda classe baseados nos substantivos de terceira declinação de tema consonantal:

diues, diuitis “rico”

pauper, pauperis “pobre”

princeps, principis “primeiro”

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O seguinte quadro resume os nomes dessas declinações:

Substantivos e adjetivos de segunda classe de tema em i

Substantivos e adjetivos de segunda classe de tema consonantal

Masculino Feminino Neutro Masculino Feminino Neutro

Nom. sing. -s/variável -s/-e -s/variável -s

Acus. sing. -em -s/-e -em -s

Gen. sing. -is -is

Dat. sing. -ī -ī

Abl. sing. -ī/-e -ī/-e

Nom. pl. -ēs -ia -ēs -a

Acus. pl. -ēs/īs -ia -ēs/īs -a

Gen. pl. -ium -um

Dat. pl. -ibus -ibus

Abl. pl. -ibus -ibus

As três primeiras declinações dos substantivos dão conta da grande maioria dos substantivos em latim, e só há duas classes de adjetivos. Assim, já é possível ter acesso ao reconhecimento da maioria das formas nominais latinas. É impor-tante ter em mente que, embora os quadros apresentados pareçam assustar à primeira vista, há muito em comum entre os subparadigmas. O quadro acima, que resume a terceira declinação dos substantivos e a segunda classe dos adje-tivos mostra isso claramente. Ainda, o que precisa ficar claro é que o ensino do latim deve ter ênfase muito mais na capacitação do aluno à leitura dos textos latinos do que à produção destes. Assim, mais que decorar formas específicas, é importante que o aluno seja capaz de reconhecer as formas quando elas ocor-rem nos textos.

Outra questão importante a ser enfatizada, agora que o sistema nominal latino está apresentado em uma extensão relativamente grande, é que as dife-rentes declinações dos substantivos podem ser modificadas por qualquer uma das duas classes dos adjetivos. Não é porque os adjetivos de segunda classe têm suas flexões baseadas nos substantivos de terceira declinação que eles só podem modificar os substantivos dessa declinação. Qualquer adjetivo pode modificar qualquer substantivo, pois o que é realmente necessário é que haja concordância de gênero, número e caso entre eles. É a partir desse momento

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que o processo de concordância substantivo-adjetivo pode ficar um pouco mais complexo, já que não poderemos mais confiar apenas na aparência externa das palavras para estabelecer a concordância. Os seguintes exemplos comentados ilustram isso:

magna cena “grande ceia” – magna: fem. sing. nom., cena: fem. sing. nom.

clarus philosophus “filósofo famoso” – clarus: masc. sing. nom., philosophus: masc. sing. nom.

felix filius “filho feliz” – felix: masc./fem./neut. sing. nom., filius: masc. sing. nom. (aqui vemos um adjetivo que possui uma forma comum para os três gêneros, e que, portanto, pode concordar com o substantivo que está no masculino).

felix filia “filha feliz” – felix: masc./fem./neut. sing. nom., filia: fem. sing. nom.

felicem filium (ambos masculino singular acusativo).

felicem filiam (ambos feminino singular acusativo).

felicis filii (ambos masculino singular genitivo).

felicis filiae (ambos feminino singular genitivo).

Texto complementarO texto a seguir é um excerto do livro I do longo poema de Ovídio chamado

Metamorfoses, no qual o poeta narra em pequenos episódios, nos moldes da poesia épica grega e latina de até então, histórias de formas mudadas em outras formas, desde a criação do mundo até os seus dias. O trecho a seguir narra a cria-ção do mundo através do Caos primordial e das coisas que nele foram colocadas pelo Factor universal (factor é aquele que faz, em latim).

As formas já identificáveis pelas declinações e formas de adjetivos ensina-das serão sublinhadas nos primeiros dez versos, para que você possa ler o texto nas duas línguas e verificar quanto do vocabulário latino já pode ser analisado morfologicamente.

A tradução é do poeta lírico português Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), famoso por sua própria produção literária e também um excelente tradutor de textos clássicos.

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Ante mare et terras et quod tegit omnia caelumunus erat toto naturae vultus in orbe,quem dixere chaos: rudis indigestaque molesnec quicquam nisi pondus iners congesta que eodemnon bene iunctarum discordia semina rerum.nullus adhuc mundo praebebat lumina Titan,nec nova crescendo reparabat cornua Phoebe,nec circumfuso pendebat in aere tellusponderibus librata suis, nec bracchia longo margine terrarum porrexerat Amphitrite;utque erat et tellus illic et pontus et aer,sic erat instabilis tellus, innabilis unda,lucis egens aer; nulli sua forma manebat,obstabatque aliis aliud, quia corpore in unofrigida pugnabant calidis, umentia siccis,mollia cum duris, sine pondere, habentia pondus.

Hanc deus et melior litem natura diremit.nam caelo terras et terris abscidit undas et liquidum spisso secrevit ab aere caelum.quae postquam evolvit caecoque exemit acervo,dissociata locis concordi pace ligavit:ignea convexi vis et sine pondere caeliemicuit summaque locum sibi fecit in arce;proximus est aer illi levitate locoque;densior his tellus elementaque grandia traxitet pressa est gravitate sua; circumfluus umorultima possedit solidumque coercuit orbem.

Sic ubi dispositam quisquis fuit ille deorumcongeriem secuit sectamque in membra coegit,principio terram, ne non aequalis ab omniparte foret, magni speciem glomeravit in orbis.tum freta diffundi rapidisque tumescere ventisiussit et ambitae circumdare litora terrae;addidit et fontes et stagna inmensa lacusquefluminaque obliquis cinxit declivia ripis,quae, diversa locis, partim sorbentur ab ipsa,in mare perveniunt partim campoque receptaliberioris aquae pro ripis litora pulsant.iussit et extendi campos, subsidere valles,fronde tegi silvas, lapidosos surgere montes,utque duae dextra caelum totidemque sinistraparte secant zonae, quinta est ardentior illis,sic onus inclusum numero distinxit eodemcura dei, totidemque plagae tellure premuntur.

Antes do mar, da Terra e céu que os cobre Não tinha mais que um rosto a Natureza: Este era o Caos, massa indigesta, rude, E consistente só num peso inerte. Das coisas não bem juntas as discordes, Priscas sementes em montão jaziam; O Sol não dava claridade ao mundo, Nem crescendo outra vez se reparavamAs pontas de marfim da nova Lua.Não pendias, ó Terra, dentre os ares,Na gravidade tua equilibrada Nem pelas grandes margens AnfitriteOs espumosos braços dilatava.Ar, e pélago, e Terra estavam mistos: As águas eram pois inavegáveis,Os ares negros, movediça a Terra.Forma nenhuma em nenhum corpo havia, E neles uma coisa a outra obstava, Que em cada qual dos embriões enormes Pugnavam frio, e quente, úmido, e seco,Mole, e duro, o que é leve, e o que é pesado.

Um Deus, outra mais alta NaturezaÀ contínua discórdia enfim põe termo: A Terra extrai dos Céus, o mar da Terra, E ao ar fluido, e raro abstrai o espesso.Depois que a mão divina arranca tudo Do enredado montão, e o desenvolve, Em lugares diversos, que lhe assina, Liga com mútua paz os corpos todos. Súbito ao cume do convexo espaçoO fogo se remonta ardente, e leve; A ele no lugar, na ligeirezaPróximo fica o ar; mais densa que ambos A Terra puxa os elementos vastos, Da própria gravidade é comprimida.O salitroso humor circunfluenteA possui, a rodeia, a lambe, e aperta.

Assim depois que o Deus (qualquer que fosse) O grão corpo dispôs, quis dividi-lo, E membros lhe ordenou. Para que a Terra Não fosse desigual em parte alguma, Por todas a compôs na forma de orbe. Ao mar então mandou que se esparzisse, Que ao sopro inchasse dos forçosos ventos,

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quarum quae media est, non est habitabilis aestu;nix tegit alta duas; totidem inter utramque locavittemperiemque dedit mixta cum frigore flamma.

Inminet his aer, qui, quanto est pondere terraepondus aquae levius, tanto est onerosior igni.illic et nebulas, illic consistere nubesiussit et humanas motura tonitrua menteset cum fulminibus facientes fulgura ventos.

His quoque non passim mundi fabricator habendumaera permisit; vix nunc obsistitur illis,cum sua quisque regat diverso flamina tractu,quin lanient mundum; tanta est discordia fratrum.Eurus ad Auroram Nabataeaque regna recessitPersidaque et radiis iuga subdita matutinis;vesper et occiduo quae litora sole tepescunt,proxima sunt Zephyro; Scythiam septemque trioneshorrifer invasit Boreas; contraria tellusnubibus adsiduis pluviaque madescit ab Austro.haec super inposuit liquidum et gravitate carentemaethera nec quicquam terrenae faecis habentem.

Vix ita limitibus dissaepserat omnia certis,cum, quae pressa diu fuerant caligine caeca,sidera coeperunt toto effervescere caelo;neu regio foret ulla suis animalibus orba,astra tenent caeleste solum formaeque deorum, cesserunt nitidis habitandae piscibus undae,terra feras cepit, volucres agitabilis aer.

Sanctius his animal mentisque capacius altaedeerat adhuc et quod dominari in cetera posset: natus homo est, sive hunc divino semine fecitille opifex rerum, mundi melioris origo,sive recens tellus seductaque nuper ab alto aethere cognati retinebat semina caeli.quam satus Iapeto, mixtam pluvialibus undis,finxit in effigiem moderantum cuncta deorum,pronaque cum spectent animalia cetera terram,os homini sublime dedit caelumque videre iussit et erectos ad sidera tollere vultus:sic, modo quae fuerat rudis et sine imagine, tellusinduit ignotas hominum conversa figuras.

E orgulhoso abrangesse as louras praias;À mole orbicular deu fontes, lagos, Rios cingindo com oblíquas margens, Os quais, em parte absortos pelas terras Várias, que vão regando, ao mar em parteChegam, e recebidos lá no espaçoDe águas mais livres, e extensão mais ampla, Em vez das margens assalteiam praias.

O universal Factor também dissera:“Descei, ó vales, estendei-vos, campos,Surgi, montanhas, enramai-vos, selvas!” Como o Céu repartido à destra parte Tem duas zonas, à sinistra duas, E uma no centro mais fogosa que elas,Assim do Deus o próvido cuidado Pôs iguais divisões no térreo globo; Ele é composto de outras tantas plagas; Aquela que das mais está no meio Em calores inóspitos se abrasa; Alta neve enregela, e cobre duas;Outras duas, porém, que entre elas ambas O Númen situou, são moderadas, Misto o frio, e calor. Fica iminente A estas o ar, que assim como é mais leve O peso d’água que da terra o peso, Tanto mais peso coube ao ar que ao fogo. Deus ordenou que as névoas, e que as nuvens Errassem no inconstante, aéreo seio; Que os ventos o habitassem, produtoresDos penetrantes frios, que estremecem, E os raios, os trovões, que o mundo aterram; Mas o supremo Autor não deu nos ares Arbitrário poder aos duros ventos: Bem que rebentem de encontrados climas, Resistir-se-lhe pode à fúria apenas, Vedar que em turbilhões lacere o mundo: Tanta é entre os irmãos a desavença!

Euro foi sibilar ao céu da aurora,Aos reinos Nabateus, à Pérsia, aos cumes Que o raio da manhã primeiro alcança. O Véspero, essas plagas, que se amornam

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Sistema nominal latino: terceira declinação e adjetivos de segunda classe

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Com Febo ocidental, estão vizinhasAo Zéfiro amoroso; o fero BóreasDa Cítia fera, e dos Triões se apossa;As regiões opostas umedeceAustro chuvoso com assíduas nuvens. O Númen sobrepôs aos elementos O líquido, e sem peso éter brilhante, Que das terrenas fezes nada envolve.

Logo que tudo com limites certosFoi pela eterna destra sinalado,As estrelas, que opressas, que abafadas Houve em si longamente a massa escura, A arder por todo o céu principiaram; E porque não ficasse do universoAlguma região desabitada, Astros, e deuses têm o etéreo assento, O mar aos peixes nítidos é dado, Aves ao ar, quadrúpedes à Terra.

A estes animais faltava um enteDotado de mais alta inteligência, Ente, que a todos legislar pudesse:Eis o homem nasce, e – ou tu, suprema Origem De melhor Natureza, e quanto há nela, Ou tu, pasmoso Artífice, o formaste Pura extração de divinal semente, Ou a Terra ainda nova, inda de fresco Separada dos céus, lhe tinha o germe. Com águas fluviais embrandecida, Dela o filho de Jápeto afeiçoa, Organiza porções, e as assemelha Aos entes imortais, que regem tudo. As outras criaturas debruçadas Olhando a Terra estão; porém ao homem O Factor conferiu sublime rosto, Erguido para o céu lhe deu que olhasse.A Terra, pois, tão rude, e informe dantes, Presentou finalmente assim mudada, As humanas, incógnitas figuras.

(OVÍDIO. Metamorfoses. Tradução de: Bocage. São

Paulo: Hedra, 2007. Versos 5 a 88, Livro I)

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Sistema nominal latino: terceira declinação e adjetivos de segunda classe

GlossárioPrimeira declinação: agricŏla 1m. “agricultor”

aqua 1f. “água”aquila 1f. “águia”ara 1f. “altar”cena 1f. “ceia, jantar”columba 1f. “pomba”diuitiae, arum 1f. “riquezas”filia 1f. “filha”insŭla 1f. “ilha”littera 1f. “letra”litterae, arum 1f. “carta”luna 1f. “lua”nauta 1m. “marinheiro”nuptiae, arum 1f. “núpcias”pecunia 1f. “dinheiro”poeta 1m. “poeta”sagitta 1f. “flecha”scaena 1f. “palco, cena”silua 1f. “bosque, selva”

Segunda declinação: ager, agri 2m. “campo”aper, apri 2m. “javali”bellum, i 2n. “guerra”camelus, i 2m. “camelo”castrum, i 2n. “fortificação, castelo”dominus, i 2m. “senhor”domus, i 2f. “casa”equus, i 2m. “cavalo”

ficus, i 2f. “figueira”filius, i 2m. “filho”humus, i 2f. “terra”laurus, i 2f. “loureiro”liber, libri 2m. “livro”magister, magistri 2m. “mestre, professor”pelăgus, i 2n. “mar”philosophus, i 2m. “filósofo”popŭlus, i 2m. “povo”puer, i 2m. “menino”signum, i 2n. “sinal, estandarte”somnium, i 2n. “sonho”uerbum, i 2n. “palavra”uir, uiri 2m. “homem, varão”uulgus, i 2n. “povo”

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Sistema nominal latino: terceira declinação e adjetivos de segunda classe

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Terceira declinação: aedis, aedis 3f. “templo (sing.), casa (plural)”animal, animal-is 3n. “animal” ars, artis 3f. “arte”arx, arcis 3f. “fortaleza, cidadela, fortificação”auis, -is 3f. “ave, agouro”caput, capita 3n. “cabeça”ciuitas, ciuitatis 3f. “cidade” [tema ciuitat-]consul, consulis 3m. “cônsul” [tema consul-]corpus, corpŏr-is 3n. “corpo”dens, dentis 3m. “dente”dos, dotis 3f. “dote” [tema dot-]dux, ducis 3m. “comandante, condutor” [tema duc-]exemplar, exemplar-is 3n. “exemplar, que serve de exemplo”finis, is 3m. “fim (singular), território, fronteiras, bordas, limites (plural)”fur, furis 3m. “ladrão” [tema fur-]hostis, is 3m. “inimigo”iudex, iudicis 3m. “juiz” [tema iudic-]ius, iur-is 3n. “lei, direito”labor, laboris 3m. “trabalho” [tema labor-]legio, legionis 3f. “legião, exército” [tema legion-]lex, legis 3f. “lei” [tema leg-]mare, maria 3n. “mar”miles, militis 3m. “soldado” [tema milit-]mons, montis 3m. “monte”nomen, nomĭn-is 3n. “nome”

nox, noctis 3f. “noite”onus, onĕr-is 3n. “peso, carga”opus, opĕr-is 3n. “obra, trabalho”pectus, pectŏr-is 3n. “peito”pes, pedis 3m. “pé” [tema ped-]piscis, is 3m. “peixe”pons, pontis 3m. “ponte”praedo, praedonis 3m. “pirata” [tema praedon-]religio, religionis 3f. “rito, obrigação, religião” [tema religion-]rex, regis 3m. “rei”salus, salutis 3f. “saúde, salvação” [tema salut-]scelus, scelĕr-is 3n. “crime”soror, sororis 3f. “irmã” [tema soror-]tempus, tempŏr-is 3n. “tempo”urbs, urbis 3f. “cidade, Roma”uulnus, uulner-is 3n. “ferida”uxor, uxoris 3f. “esposa” [tema uxor-]

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Sistema nominal latino: terceira declinação e adjetivos de segunda classe

Adjetivos de primeira classe: altus, a, um “alto”beatus, a, um “feliz”bellus, a, um “bonito, belo”bonus, a, um “bom”clarus, a, um “famoso”diuinus, a, um “divino”falsus, a, um “falso”ignarus, a, um “ignorante”magnus, a, um “grande”malus, a, um “mau”multus, a, um “muito”nullus, a, um “nenhum”paruus, a, um “pequeno”plenus, a, um “cheio [de + genitivo.]”secundus, a, um “favorável”stultus, a, um “imbecil, estúpido”tutus, a, um “salvo, protegido”

Adjetivos de segunda classe: acer, acris, acre “acre, amargo”audax, audacis “audaz”celeber, celebris, celebre “célebre”celer, celeris, celere “rápido”ciuilis, ciuile “civil”diues, diuitis “rico”felix, felicis “feliz”ferox, ferocis “feroz”

fortis, forte “forte”grauis, graue “grave”humilis, humile “humilde”incredibilis, incredibile “incrível”ingens, ingens “enorme”nobilis, nobile “nobre”omnis, omne “todo, toda, todos”pauper, pauperis “pobre”princeps, principis “primeiro”prudens, prudentis “prudente”sapiens, sapientis “sensato, sábio”uetus, ueteris “velho”utilis, utile “útil”

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Sistema nominal latino: terceira declinação e adjetivos de segunda classe

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Dica de estudoLer os textos e as explicações contidas no método Gradus Primus, de Paulo

Rónai, Editora Cultrix.

Atividades1. Traduza as sentenças.

a) diues rex in castro ingente cum multis seruibus habitat.

b) equi nobiles, feroces aquilae et multa animalia in silua sunt.

c) seruus ignarus ferocem aquilam forte sagittā uulnerat.

Vocabulário da atividade:

cum: “com” + ablativo

habitat: “vive, habita”

sunt: são, estão, existem, há

sagittā: “flecha” no ablativo singular; pode significar “com a flecha”, “por meio da flecha”

uulnerat: “fere, machuca”

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Sistema nominal latino: terceira declinação e adjetivos de segunda classe

2. Sublinhe as palavras após os dois pontos com as quais a primeira palavra pode estabelecer relação de concordância.

praedonis: multis, altō, felicis, ignari, ignarōs, beatōrum, prudentis.

celere: nautā, aquis, equis, aprō, animali, opus, lex, montem.

hostium: multōrum, clarārum, felicibus, ueterum, stultum.

incredibilibus: oneris, urbium, sceleribus, scaenis, diuitiis, arcis.

3. Decline os seguintes adjetivos em todos os casos, no singular e no plural.

bonus audax diues

Nom. sing. uir

Acus. sing. uirum

Gen. sing. uiri

Dat. sing. uiro

Abl. sing. uiro

Nom. pl. uiri

Acus. pl. uiros

Gen. pl. uirorum

Dat. pl. uiris

Abl. pl. uiris

ReferênciasALMENDRA, Maria Ana; FIGUEIREDO, José Nunes. Compêndio de Gramática Latina. Porto: Porto Editora, 2003.

CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao Latim. São Paulo: Ática, 1993. (Série Princípios).

JONES, Peter V.; SIDWELL, Keith C. Reading Latin: grammar, vocabulary and exercises. Cambridge: Cambridge University Press, 1986a.

______; ______. SIDWELL, Keith C. Reading Latin: text. Cambridge: Cambridge University Press, 1986b.

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Sistema nominal latino: terceira declinação e adjetivos de segunda classe

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OVÍDIO. Metamorfoses. Tradução de: Bocage. São Paulo: Hedra, 2007.

PEREIRA, Maria Helena M. da R. Romana: Antologia da cultura latina. 3. ed. Coim-bra: Instituto de Estudos Clássicos, 1994. (Org. e trad. do latim).

______. Estudos de História da Cultura Clássica II: cultura romana. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.

PLAUTO; TERêNCIO. A Comédia Latina. Tradução de: SILVA, Agostinho da. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.].

REZENDE, Antônio Martinez de. Latina Essentia: preparação ao latim. Belo Ho-rizonte: UFMG, 2003.

REZENDE, A. M.; BIANCHET, Sandra Gualberto. Dicionário do Latim Essencial. Belo Horizonte: Crisálida: Tessitura, 2005.

RÓNAI, Paulo. Gradus Primus: curso básico de latim. São Paulo: Cultrix, 2006.

TORRINHA, F. Dicionário Latino-Português. Porto: Gráficos Reunidos, 1993.

Gabarito1.

a) O rei rico mora na fortaleza enorme com muitos escravos.

b) Há cavalos nobres, águias ferozes e muitos animais na selva.

c) O escravo ignorante fere a águia forte com uma flecha.

2. praedonis: multis, altō, felicis, ignari, ignarōs, beatōrum, prudentis.

celere: nautā, aquis, equis, aprō, animali, opus, lex, montem.

hostium: multōrum, clarārum, felicibus, ueterum, stultum.

incredibilibus: oneris, urbium, sceleribus, scaenis, diuitiis, arcis.

3. Bonus: bonus, bonum, boni, bono, bono, boni, bonos, bonorum, bonis, bonis.

Audax: audax, audacem, audacis, audaci, audaci, audaces, audaces, audacium, au-dacibus, audacibus.

Diues: diues, diuitem, diuitis, diuiti, diuite, diuites, diuites, diuitum, diuitibus, diui-tibus.

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Neste capítulo veremos como os adjetivos em latim também apresen-tam flexão de grau (comparativo e superlativo), bem como serão conheci-dos os processos de formação dos advérbios em latim.

Quanto aos graus do adjetivo, o latim admite duas maneiras de estabe-lecer essa relação: a analítica e a sintética. A forma analítica é aquela que expressa a comparação através do uso de mais de uma palavra e se dá, por exemplo, com os comparativos de igualdade, quando dizemos Petrus tam felix est quam Paulus “Pedro é tão feliz quanto Paulo”. A forma analítica também é encontrada em português, tanto no comparativo de igualdade quanto no de superioridade e inferioridade (“x é mais/menos ... que y”). Em latim, embora esse último também possa ser estabelecido com formas analíticas (magis/plus ... quam / minus ... quam), as formas preferenciais são as sintéticas, ou seja, aquelas que aplicam processos morfológicos aos adjetivos já existentes para que eles se flexionem em grau. Passemos aos dois tipos de flexão de grau dos adjetivos latinos.

A formação do comparativo dos adjetivos Qualquer adjetivo em latim pode receber as desinências de grau com-

parativo, que são basicamente -ius para os neutros no nominativo e acu-sativo singular ou -ior para as outras formas. A desinência de comparativo será acrescentada entre o tema do adjetivo e a desinência de caso. Assim, com um adjetivo como felix, por exemplo, teremos o seguinte padrão:

Masc. e fem. sing. Neutro sing. Masc. e fem. pl. Neutro pl.

Nominativo felicior felicius feliciores feliciora

Acusativo feliciorem felicius feliciores feliciora

Genitivo felicioris feliciorum

Dativo feliciori felicioribus

Ablativo feliciore felicioribus

Graus dos adjetivos e formação de advérbios

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Graus dos adjetivos e formação de advérbios

As terminações dos casos para os adjetivos no grau comparativo seguem as terminações dos adjetivos de segunda classe. Isso acontecerá com todos os ad-jetivos que se flexionarem para o grau comparativo, mesmo se eles pertence-rem à primeira classe no grau neutro. Ou seja, um adjetivo como diuinus, a, um (divino) terá suas formas de comparativo como as do quadro anterior, a saber: diuinior, diuiniorem, diuinioris etc.

Desse modo, vemos que o processo de formação dos adjetivos no grau compa-rativo segue o seguinte processo: pega-se o adjetivo no grau neutro (de primeira ou de segunda classe), separa-se o tema (fazendo a retirada do -i ou do -is do genitivo singular), acrescenta-se o infixo -ior- (ou -ius para o neutro nominativo e acusativo singular) e, finalmente, as desinências de caso e número do paradigma da segunda classe (-em, -is, -i, -e, -es etc.). O processo resume-se da seguinte forma:

TEMA + IOR + DESINêNCIA DE ADJETIVOS DE SEGUNDA CLASSE

Quanto ao significado, uma forma como felicior pode ser usada de dois modos, basicamente: isoladamente, significa “muito feliz”, “bastante feliz”, en-quanto que, em composição com a forma quam (o nosso “que” da comparação), significa “mais feliz que”. Note que apenas o segundo uso é esperado quando se fala de uma forma “comparativa”. No entanto, o primeiro uso é bastante comum e é facilmente interpretável, uma vez que, além de faltar a forma quam, faltará o segundo elemento da comparação. Assim, as seguintes orações latinas exempli-ficam esses usos do comparativo:

a) Petrus felicior est. “Pedro é muito feliz”.

b) Petrus felicior est quam Paulus. “Pedro é mais feliz que Paulo”.

É importante notar que, no segundo caso, temos a forma quam estabele-cendo a relação entre dois termos x e y, Petrus e Paulus, e que ambos estão no mesmo caso, o nominativo. O caso poderia ser qualquer um, a depender da es-trutura da sentença, mas o que se deve ter em mente é que, em uma estrutura de comparação, os dois termos que são comparados têm que estar no mesmo caso. Um outro exemplo ilustra essa questão:

c) uideo seruum diuiniorem quam regem. “Eu vejo um escravo mais divino que um rei”.

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Graus dos adjetivos e formação de advérbios

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Aqui, percebemos que o caso acusativo é necessário apenas em virtude de que hominem, o núcleo da construção comparativa, é núcleo do objeto direto. Por isso ele leva o segundo termo da comparação e o adjetivo para o acusativo.

Há um detalhe importante com relação ao uso do comparativo de relação: é possível trocar a construção “quam + segundo elemento no mesmo caso do primeiro” pela construção “segundo elemento no ablativo sem o quam”. Esse é o chamado uso comparativo do ablativo, e pode ser exemplificado pelas senten-ças b e c, repetidas a seguir:

d) Petrus feliciorem est Paulō. “Pedro é mais feliz que Paulo”.

e) uideo seruum diuiniorem rege. “Eu vejo um escravo mais divino que o rei”.

A formação do superlativo dos adjetivos Assim como os comparativos, os superlativos latinos são formados através de

um processo de infixação. O infixo básico de superlativo latino é o -issim- (ou -errim- para os adjetivos terminados em -er). No entanto, se os comparativos são formas adjetivas baseadas no paradigma dos adjetivos de segunda classe, os superlativos baseiam-se na primeira classe dos adjetivos. Segue o quadro com o mesmo adje-tivo usado anteriormente:

Masc. sing. Fem. sing. Neut. sing. Masc. pl. Fem. pl. Neut. pl.

Nominativo felicissimus felicissima felicissimum felicissimi felicissimae felicissima

Acusativo felicissimum felicissimam felicissimum felicissimos felicissimas felicissima

Genitivo felicissimi felicissimae felicissimi felicissimorum felicissimarum felicissimorum

Dativo felicissimo felicissimae felicissimo felicissimis

Ablativo felicissimo felicissima felicissimo felicissimis

Fica claro, aqui, que o processo de flexão de grau cria um novo adjetivo cada vez que é aplicado. Se felix é um adjetivo de segunda classe quando está no grau normal, ele se transforma em um adjetivo de primeira classe quando está no superlativo. Por outro lado, um adjetivo como diuinus, a, um é da primeira classe no grau normal e no superlativo, mas não no comparativo. Por isso é tão importante aprender a distinção entre primeira e segunda classes de adjetivos,

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Graus dos adjetivos e formação de advérbios

uma vez que ela terá implicações importantes para processos morfológicos tão relevantes como o da flexão de grau. Podemos resumir a formação do superlati-vo da seguinte maneira:

TEMA + ISSIM + DESINêNCIA DE ADJETIVOS DE PRIMEIRA CLASSE

Quanto ao sentido, uma forma como felicissimus pode significar, basicamen-te, duas coisas: “muitíssimo feliz/felicíssimo” ou “o mais feliz de todos os...”. Basica-mente, os dois significados podem ser ilustrados pelas sentenças abaixo:

a) Petrus felicissimus est. “Pedro está muitíssimo feliz/Pedro está felicíssimo”.

b) Petrus felicissimus est omnium hominum. “Pedro é o mais feliz de todos os homens”.

O primeiro sentido é bastante comum em português nas formas em -íssimo(a) que derivam claramente dessa mesma forma latina. No entanto, o segundo será estabelecido basicamente pela presença de um genitivo (no caso da sentença b, omnium hominum, “de todos os homens”), que estabelece o conjunto das coisas com relação às quais aquele elemento é modificado pelo adjetivo em relação a outra coisa ou alguém (o “alguma coisa” estabelece-se pelo sentido básico do adjetivo no superlativo).

É importante perceber as diferenças importantes entre os comparativos e os superlativos em latim:

Os adjetivos na forma comparativa pertencem à declinação de segunda �classe.

Os adjetivos na forma superlativa pertencem à declinação de primeira �classe.

Os adjetivos comparativos constroem-se com a partícula � quam para intro-duzir o segundo elemento da comparação.

Os adjetivos superlativos constroem-se com um genitivo que representa o �conjunto de dentro do qual se seleciona a entidade denotada pelo subs-tantivo modificado.

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Comparativos e superlativos irregularesAssim como em português, alguns comparativos e superlativos são irregulares

e não seguem o padrão do modelo de construção analítico (os exemplos incluem formas como “melhor” ao invés de “mais bom”, “pior” ao invés de “mais ruim” ou “menos bom” e assim por diante); em latim há adjetivos que são irregulares no modo como se constroem e, portanto, eles devem ser aprendidos separadamente. Segue o quadro dos adjetivos com os comparativos e superlativos irregulares mais importantes em latim:

Adjetivo base Comparativo Superlativo Tradução

bonus, a, um melior, melioris optimus, a, um bom, melhor, o melhor/ótimo

malus, a, um peior, peioris pessimus, a, um ruim, pior, o pior/péssimo

multus, a, um plus, pluris plurimus, a, um muito, mais, o mais/a maior parte de

magnus, a, um maior, maioris maximus, a, um grande, maior, o maior

paruus, a, um minor, minoris minimus, a, um pequeno, menor, o menos

É curioso que a maioria das formas irregulares de adjetivos nos graus compara-tivo e superlativo tem formas que foram transmitidas quase que inalteradas para o português. Do sistema dos irregulares sobreviveram as formas sintéticas de com-parativos e superlativos em português. As outras formas, como vimos, são expres-sas em português por perífrases (expressões com mais de uma palavra).

Advérbios regularesAdvérbios são palavras que não sofrem nenhum tipo de flexão, são inva-

riáveis e modificam o sentido de verbos, adjetivos e de outros advérbios ou de sentenças inteiras. Os seguintes exemplos incluem advérbios em latim:

a) hodie Petrus dormit bene. “Hoje, Pedro dorme bem”.

b) Petrus ualde felix est. “Pedro é muito feliz”.

Em a, hodie é um advérbio que modifica toda a sentença, enquanto bene mo-difica a ideia do evento expresso pelo verbo dormit. Em b, ualde modifica o adje-tivo felix, resultando em “muito feliz”, ao invés de apenas “felix”.

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Graus dos adjetivos e formação de advérbios

Muitos advérbios, como non “não”, sic “assim”, não são derivados de alguma outra palavra com sentido parecido. Mas há advérbios que são resultantes de um processo de sufixação: acrescentar -e ou -(i)ter ao tema de um adjetivo para trans-formá-lo em um advérbio. O mesmo se dá em português quando acrescentamos o sufixo -mente a adjetivos e criamos advérbios a partir desse processo. Exemplos em português são “estúpido” > “estupidamente” e “feliz” > “felizmente”.

As explicações sobre a formação dos advérbios regulares em latim foram colo-cadas nesse ponto em virtude de dependerem da diferença entre adjetivos de pri-meira e de segunda classe. Assim, os advérbios formados de maneira regular con-tinuam a marcar uma diferença clara entre as duas classes dos adjetivos, e tornam bastante didática a tentativa de deixar claro, através da exposição da importância dessas classes de adjetivos para a gramática latina como um todo, o modo como as duas classes têm influência sobre vários processos gramaticais (como acaba-mos de ver com a flexão de grau de adjetivos).

Advérbios em -eOs advérbios formados a partir do acréscimo do infixo -e ao tema do adjetivo

são, em geral, derivados de adjetivos de primeira classe. Assim, vejamos uma pequena lista de advérbios em -e:

beatus, a, um > beate “feliz” > “felizmente”

miser, misera, miserum > misere “miserável” > “miseravelmente”

diuinus, a, um > diuine “divino” > “divinamente”

Advérbios em -(i)terOs advérbios formados a partir do acréscimo do infixo -(i)ter ao tema do ad-

jetivo são, em geral, derivados de adjetivos da segunda classe. Vejamos alguns deles:

felix, e > feliciter “feliz” > “felizmente”

fortis, e > fortiter “forte” > “fortemente”

celer, is, e > celeriter “rápido” > “rapidamente”

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Há, também, algumas exceções importantes a serem listadas:

bonus, a, um > bene “bom” > “bem”

paruus, a, um > paulum “pequeno” > “um pouco, ligeiramente, pequenamente”

multus, a, um > multum “muito (adj.)” > “muito (adv.)”

facilis, e > facile (e não faciliter) “fácil” > “facilmente”

Texto complementarO seguinte trecho do romance Satyricon, de Petrônio1, nos traz duas breves

histórias contadas no famoso “Banquete de Trimalquião”, um dos episódios que restaram dessa obra. O romance retrata as classes baixas de Roma no período de Nero, e nesse trecho tem-se dois narradores contando histórias de terror que soam bastante contemporâneas para nós. A primeira, uma típica história de lo-bisomem; a segunda, uma típica história de bruxaria. O romance como um todo é bastante fragmentário, mas, ainda assim, muito interessante e variado.

(PETRôNIO, 2004)

Assim que disse essas palavras, contou a seguinte história:

“Quando eu ainda era escravo, nós morávamos em Vicus Angustus, agora a casa pertence a Gavila. Aí, como os deuses assim o queriam, eu me tornei amante da esposa de Terêncio, o taberneiro. Vocês a conhecem, Melissa Ta-rentina, mulher pra ninguém botar defeito. Mas, por Hércules, eu não me aproximei dela por motivos materiais, ou por causa dos prazeres do sexo, mas porque ela era uma pessoa de muito bons costumes. Se eu pedi alguma coisa a ela, nunca me foi negado; se ela ganhou um centavo, eu recebi a metade; eu me entreguei de corpo e alma a ela e nunca fui enganado. O marido dela passou dessa para melhor em uma casa de campo. E, assim, eu fiz o possível e o impossível para chegar até ela, pois, como dizem, é nas horas difíceis que os amigos aparecem.

1 Gaius ou Titus Petronius Arbiter, autor de origem e biografia incertas, mas que deve ter vivido de 20 a 66 d.C., segundo a biografia que chegou a nós pelo historiador e biógrafo Tácito (56-117 d.C) nos seus Anais, foi aceito por Nero na corte, ocupou cargos públicos em Roma e nas províncias do Império, e foi condenado ao suicídio após ter sido acusado de envolvimento com uma conspiração para tirar o imperador do poder (conspiração que também foi responsável pelas mortes dos autores Sêneca e Lucano, contemporâneos de Petrônio e autores de extrema importância nesse período).

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LXII – Por coincidência, meu senhor tinha ido a Cápua para se livrar de uns móveis usados. Eu, aproveitando a oportunidade, convenci o homem que nos hospedou a vir comigo por uns cinco quilômetros. A propósito, ele era um soldado, forte como o Orco. Sós, caminhamos até quase o cantar do galo; a lua iluminava como se fosse meio-dia. Nós chegamos a um cemité-rio: meu homem começou a andar entre as lápides; eu permaneci sentado, cantando, e fiquei contando as lápides. Logo depois, quando olhei para meu companheiro, ele tinha se despido e colocado todas as suas roupas à beira do caminho. Meu coração quase saiu pela boca; eu estava imóvel, tal como um morto. Mas ele mijou em volta de suas roupas e, de repente, transfor-mou-se em um lobo. Não pensem que eu estou brincando; nem toda a for-tuna do mundo faria com que eu mentisse. Mas, como eu estava dizendo, depois que se transformou em lobo, começou a uivar e fugiu para a floresta. No começo, eu não sabia nem onde eu estava; em seguida, eu me aproxi-mei para pegar as roupas dele: elas, no entanto, se transformaram em pedra. Quem, senão eu, morreu de medo? Contudo, eu empunhei minha espada e cortei os galhos [que faziam sombras assustadoras], até que pudesse chegar à casa de minha amiga. Entrei feito um fantasma, quase sem respiração, o suor escorria abundantemente pelas duas bochechas, os olhos mortos; com muita dificuldade eu me refiz um pouco depois. Minha Melissa estranhou que eu tivesse ido lá tão tarde e disse: “Se você tivesse chegado antes, pelo menos teria nos ajudado; um lobo entrou aqui na casa e todas as cabeças de gado ele sangrou, como se fosse um açougueiro. Mas ele não ficou zom-bando de nós não, mesmo que tenha fugido, pois nosso escravo atravessou o pescoço dele com uma lança”. Quando eu ouvi essa história, não pude ficar com os olhos mais arregalados do que fiquei, mas, à luz do dia, fugi para a casa de nosso Gaio, como um taberneiro que tinha sido roubado; e quando cheguei àquele lugar em que as roupas tinham-se transformado em pedra, não encontrei nada, a não ser sangue. Porém, quando eu cheguei à casa dele, meu soldado jazia em uma cama, como um boi, e um médico cuidava de seu pescoço. Eu compreendi que ele era um lobisomem e, depois disso, não con-segui comer nem um pedaço de pão na casa dele, nem se ele me quisesse matar por causa disso. Cada um que faça sua avaliação sobre essa história; se eu estou mentindo, quero que os gênios protetores de todos vocês se voltem contra mim”.

LXIII – Enquanto todos estavam paralisados pelo espanto, Trimalquião disse: “Eu dou crédito à sua palavra, se alguém duvida que haja verdade no

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que você contou, pois eu fiquei todo arrepiado, porque eu sei que Nicerote não fica contando lorotas por aí. Muito pelo contrário, ele é de confiança e não é tagarela. E agora eu também contarei uma história horripilante para vocês, tão inacreditável como um asno no telhado. Quando eu ainda tinha cabelos compridos, pois desde criança levei uma vida mansa, o queridinho do senhor de nossa casa morreu. Por Hércules, ele era uma pérola, [perfeito] em todos os sentidos. Então, quando sua pobre mãezinha chorava por ele e muitos de nós também compartilhavam de sua tristeza, subitamente, bruxas começaram a fazer um barulho estridente; a gente podia pensar que era um cachorro per-seguindo uma lebre. Naquela época, nós tínhamos um homem da Capadócia, alto, muito corajoso e forte: conseguia carregar um touro bravo. Ele corajosa-mente avançou para fora, espada em punho, com a mão esquerda cuidadosa-mente protegida, e atravessou uma daquelas mulheres bem no meio, como se fosse neste lugar aqui – que o meu que eu estou mostrando esteja a salvo! Nós ouvimos um gemido, mas – é claro que eu não vou mentir – ver as bruxas nós não vimos. Porém, nosso corajoso imbecil, acuado, projetou-se sobre uma cama e seu corpo estava todo da cor de chumbo, como se tivesse sido ferido por chicotadas, evidentemente porque uma mão funesta tinha tocado nele. Nós, com a porta fechada, retomamos novamente nossas obrigações, mas, no momento em que a mãe quis abraçar o corpo de seu filho, ela o tocou e viu um feixe de palha. Não tinha coração, nem intestino, nem nada: é claro que as bruxas já tinham se apoderado do menino e posto em seu lugar um boneco de palha. Por favor, vocês precisam acreditar em mim, existem mulheres que sabem demais, existem feiticeiras que agem nas trevas e o que está em cima elas põem abaixo. De resto, aquele imbecil grandalhão, depois do acontecido, jamais recuperou sua cor. Muito pelo contrário, poucos dias depois, morreu debatendo-se”.

LXIV – Nós ficamos assombrados e igualmente acreditamos e, beijando a mesa, pedimos às feiticeiras que ficassem em casa, até que nós voltássemos do jantar.

Dica de estudoNão Perca o Seu Latim, de Paulo Rónai, Editora Nova Fronteira.

Neste livro encontram-se muitas frases latinas traduzidas e comentadas que ajudarão nesse itinerário de aprendizagem da língua latina.

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Graus dos adjetivos e formação de advérbios

Atividades1. Traduza as seguintes orações:

a) aquila ferocior est quam columba.

b) animalia ignariores quam homines sunt.

c) pueri fortiores quam puellae sunt.

d) nauigamus per mare ingentissimum.

e) equus nobilissimus est omnium animalium.

f) feroces praedones male aggrediunt urbem claram.

g) uxor grauiter uirō bona uerba dicit.

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2. Complete o quadro com os adjetivos a seguir nos graus comparativo e su-perlativo e forme o advérbio.

Adjetivo Comparativo Superlativo Advérbio

diuinus diuinior, is diuinissimus, a, um diuine

fortis fortior, is fortissimus, a, um fortissime

nobilis

diues

tutus

beatus

ReferênciasALMENDRA, Maria Ana; FIGUEIREDO, José Nunes. Compêndio de Gramática Latina. Porto: Porto Editora, 2003.

CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao Latim. São Paulo: Ática, 1993. (Série Princípios).

JONES, Peter V.; SIDWELL, Keith C. Reading Latin: grammar, vocabulary and exercises. Cambridge: Cambridge University Press, 1986a.

______; ______ . Reading Latin: text. Cambridge: Cambridge University Press, 1986b.

PEREIRA, Maria Helena M. da R. Romana: Antologia da cultura latina. 3. ed. Coim-bra: Instituto de Estudos Clássicos, 1994. (Org. e trad. do latim).

______ . Estudos de História da Cultura Clássica II: cultura romana. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.

PETRôNIO. Satyricon. Edição Bilingue. Tradução e Posfácio de: BIANCHET, Sandra Braga. Belo Horizonte: Crisálida, 2004.

PLAUTO; TERêNCIO. A Comédia Latina. Tradução de: SILVA, Agostinho da. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.].

REZENDE, Antônio Martinez de. Latina Essentia: preparação ao latim. Belo Ho-rizonte: UFMG, 2003.

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Graus dos adjetivos e formação de advérbios

REZENDE, A. M.; BIANCHET, Sandra Gualberto. Dicionário do Latim Essencial. Belo Horizonte: Crisálida: Tessitura, 2005.

RÓNAI, Paulo. Gradus Primus: curso básico de latim. São Paulo: Cultrix, 2006.

TORRINHA, F. Dicionário Latino-Português. Porto: Gráficos Reunidos, 1993.

Gabarito1.

a) A águia é mais feroz que a pomba.

b) Os animais são mais ignorantes que os homens.

c) Meninos são mais fortes que meninas.

d) Navegamos por um mar enorme.

e) O cavalo é o mais nobre dos animais.

f) Piratas ferozes atacam de forma má a famosa cidade.

g) A esposa diz palavras boas gravemente ao marido.

2. nobilior, is nobilissimus, a, um nobiliter

diuitior, is diuitissimus, a, um diuiniter

tutior, is tutissimus, a, um tute

beatior, is beatissimus, a, um beate

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Nesta aula serão estudadas as categorias gramaticais relacionadas aos verbos em latim, ou seja, o número, a pessoa, a voz, o modo, o tempo e o aspecto. Veremos quais são essas categorias e como se realizam. Além disso, iniciaremos o estudo das conjugações verbais como paradigmas aos quais os verbos pertencem, dependendo da estrutura do seu radical.

Características morfológicas dos verbos em latim

Os verbos em latim funcionam de maneira bastante parecida com os verbos em português. Há uma base temática (radical e, às vezes, vogal te-mática, como ama- do verbo “amar” em português) que carrega o signi-ficado básico do verbo, a que se seguem uma eventual vogal de ligação, infixos específicos de tempo, aspecto, modo e voz (como o infixo -va do imperfeito no português) e as desinências número-pessoais, que carregam a informação de pessoa (primeira, o locutor, segunda, o interlocutor, ou ter-ceira, aquele de quem se fala) e de número (singular ou plural); exemplos de desinências número-pessoais em português seriam -s para a segunda do singular (“amas”) e -mos para a primeira do plural (“amamos”).

Conheceremos as formas dos verbos latinos aos poucos, tentando dar conta da maior parte do sistema verbal que caiba nos limites realistas de tempo, espaço e profundidade que precisamos impor a este material.

As conjugaçõesAssim como os nomes latinos sofrem o mecanismo de flexão morfoló-

gica que chamamos de declinação, conjugação é o mecanismo de flexão morfológica dos verbos, responsável por nos dizer, de cada forma verbal, a qual número, pessoa, modo, voz, tempo e aspecto o verbo faz referência. Conheceremos essas categorias gramaticais aos poucos. Comecemos pela

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questão mais básica de como os verbos se classificam em paradigmas diferentes de acordo com a conjugação.

Os gramáticos latinos estabeleceram basicamente quatro paradigmas de conjugação verbal, com base nas diferenças entre os temas dos verbos em latim. Em português, as conjugações são três: em -a-, em -e- e em -i-, ou seja, a de verbos como “amar”, “comer” e “dormir”. Essas três conjugações estavam presen-tes em latim, mas havia ainda uma outra, a conjugação dos verbos com tema em consoante.

A tradição também estabeleceu uma subconjugação derivada da conjuga-ção consonantal, mas que tem muitas formas parecidas com as da conjugação de temas em -i-, que chamaremos aqui de conjugação mista.

Vejamos uma listagem das conjugações com o verbo básico que usaremos de exemplo:

Primeira conjugação � – temas em -a-: am-o, ama-s, amau-i, amat-um, amāre1 “amar”.

Segunda conjugação � – temas em -e-: habe-o, habe-s, habu-i, habit-um, habē-re “ter”.

Terceira conjugação � – temas consonantais: dic-o, dic-i-s2, dix-i, dict-um, dicĕ-re “dizer”.

Quarta conjugação � – temas em -i-: audi-o, audi-s, audiu-i, audit-um, audī-re “ouvir”.

Conjugação mista � – temas consonantais: capi-o, capi-s, cep-i, capt-um, capĕ-re “pegar, capturar”.

Dessas informações, facilmente encontráveis nos dicionários para qualquer verbo latino, o que deve ser aprendido antes de qualquer coisa é o modo de identificar a conjugação de um verbo. Os verbos em latim são enunciados pela primeira pessoa do singular do presente do indicativo, e não pelo infinitivo,

1 Daremos aqui a entrada do verbo nas seguintes formas: primeira pessoa do singular do presente do indicativo, segunda pessoa do singular do presente do indicativo, primeira pessoa do singular do perfeito do indicativo, supino/particípio perfeito e infinitivo presente. Com essas formas, como veremos adiante, seremos capazes de derivar todas as outras formas possíveis dos verbos latinos. Em geral, os dicionários apresentam os verbos com essas formas listadas, nessa ordem (eventualmente sem a segunda do singular). Os hífens servem apenas para fins didáticos, eles não são parte das palavras latinas. 2 O -i- aqui é uma vogal breve que serve apenas para ligar o tema consonantal à desinência que o segue.

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como em português. No entanto, as primeiras pessoas singulares do presente do indicativo são construídas com uma desinência -o que às vezes mascara al-gumas características dos verbos e, para conhecermos com toda a certeza a con-jugação a que o verbo pertence, precisaremos conhecer também o infinitivo do referido verbo. Com esses dois elementos, não restarão dúvidas quanto a que conjugação um verbo pertence. Vejamos o quadro a seguir, que contém apenas a primeira pessoa do singular do presente do indicativo e o infinitivo presente dos verbos das cinco conjugações.

Primeira conjugação amo amāre amar

Segunda conjugação habeo habēre ter

Terceira conjugação dico dicĕre dizer

Quarta conjugação audio audīre ouvir

Conjugação mista capio capĕre capturar

As sílabas em negrito no infinitivo são as sílabas que recebem o acento prin-cipal. Como se pode perceber, o acento na penúltima é motivado pela vogal longa. Olhando com atenção, podemos perceber que a vogal longa aparece nas conjugações vocálicas, ou seja, na primeira, segunda e quarta. As vogais breves -ĕ- dos infinitivos da terceira conjugação e da conjugação mista são vogais de ligação entre o tema e a desinência -re, o que causa o deslocamento do acento principal para a antepenúltima. Assim, há uma separação clara entre conjuga-ções vocálicas e consonantais, que percebemos no infinitivo. Isso também nos mostra claramente que, embora muitas formas da quarta conjugação e da con-jugação mista pareçam iguais, isso acontece apenas por uma anomalia no siste-ma verbal, pois, na verdade, a conjugação mista é como uma parte da terceira conjugação, o que, mais uma vez, fica claro ao olharmos para o seu infinitivo. Outra questão, a princípio problemática, que se resolve no cruzamento do infi-nitivo com a primeira pessoa do singular do presente do indicativo, é a aparente igualdade de construção dos verbos da primeira e da terceira conjugação, que têm primeira pessoa em -o, sem vogal temática (am-o e dic-o, contra habe-o e audi-o). Com o infinitivo, torna-se claro que amā-re e dicĕ-re fazem parte de con-jugações diferentes. Portanto, o estudo cuidadoso do quadro anterior nos capa-citará a aprender inequivocamente a conjugação de qualquer verbo em latim.

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Os temposO verbo latino flexiona-se em tempo (presente, passado e futuro) e em as-

pecto (eventos concluídos ou pontuais, ou seja, perfectivos, e não concluídos ou durativos, ou seja, imperfectivos). Há uma separação entre formas verbais de aspectos imperfectivos e perfectivos, que resulta em um sistema verbal com os seguintes tempos principais:

Tempos principais da voz ativa – infectum

Tempos principais da voz ativa – perfectum

Presente amo, amat, amamus...

amo, ama,amamos

(pretérito) Perfeito

amaui, amauisti...

amei,amaste

(pretérito) Imperfeito

amabam, amabas,...

amava,amavas

(pretérito) Mais-que- -perfeito

amaueram, amaueras...

amara,tinha amado

Futuro do presente

amabo, amabit...

amarei,amará

Futuro do pretérito

amauero, amaueris...

terei amado, terás amado

Os três tempos do lado esquerdo do quadro são os chamados tempos do sistema verbal infectum em latim, pois são imperfectivos quanto ao aspecto e se formam com o radical verbal chamado radical do presente (ama-, habe-, dic(ĕ)-, audi- e cap(ĕ)-), que conseguimos ao subtrair o -re do infinitivo presente. Os tempos da metade direita do quadro são os chamados tempos do perfectum, pois são perfectivos quanto ao aspecto e são formados a partir do radical do perfeito (amau-, habu-, dix-, audiu- e cep-). O radical do perfeito é idiossincrático3, ou seja, cada verbo apresenta o seu radical de perfeito, a princípio, sem regras predeterminadas para sua formação. Por isso o dicionário apresenta também o radical de perfeito na entrada de cada verbo. Todos os verbos possuem dois ra-dicais diferentes, um de infectum e um de perfectum, além de um terceiro, aquele que forma os particípios e alguns tempos verbais analíticos (formados por parti-cípio + verbo auxiliar), que é chamado de radical de supino (que também pode ser conseguido na entrada lexical dos verbos nos dicionários).

Agora, para podermos prosseguir é necessário falar das desinências núme-ro-pessoais. Além dos três radicais básicos dos verbos, para podermos construir qualquer forma de qualquer tempo, voz ou modo verbal, é preciso conhecer os possíveis conjuntos de desinências número-pessoais. O quadro a seguir sistema-tiza as desinências número-pessoais:3 Individual e particular de cada verbo, imprevisível segundo regras gerais.

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Número e pessoa Tempos do indicativo e subjuntivo na voz ativa

Tempos do indicativo e subjuntivo na voz

passiva

Perfeito do indicativo

ativo

1.ª pessoa do singular -o ou -m -or ou -r -i

2.ª pessoa do singular -s -ris -isti

3.ª pessoa do singular -t -tur -it

1.ª pessoa do plural -mus -mur -imus

2.ª pessoa do plural -tis -mini -istis

3.ª pessoa do plural -nt -ntur -ērunt ou -ēre

Esse quadro resume praticamente todas as possibilidades de desinências número-pessoais dos verbos latinos. Há algumas formas de tempos passivos no perfectum que são construídas com o particípio perfeito ou futuro com um verbo “ser” flexionado como auxiliar. Veremos essas formas oportunamente. Ti-rando essas últimas, todos os tempos, vozes e modos latinos podem ser cons-truídos, bastando que saibamos qual radical deve ser usado (presente/infectum, perfeito/perfectum ou supino/particípio), qual dos três conjuntos de desinências número-pessoais deve ser usado, e que infixo modo-temporal deve ser colocado entre o radical e a desinência número-pessoal.

Quando os quadros das conjugações forem apresentados, preste aten-ção a esses três fatores da construção de cada tempo em cada modo e em cada voz, e você verá facilmente os mecanismos regulares de construção verbal atuando.

As vozesDiferentemente do português, que constrói a voz passiva sempre com formas

analíticas (particípio mais verbo auxiliar), o latim, em vários tempos, constrói a voz passiva sinteticamente, ou seja: através de desinências número-pessoais es-pecíficas de voz passiva. Falaremos mais sobre a voz passiva adiante, mas, apro-veitando o quadro de desinências número-pessoais apresentado anteriormente,

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já é possível identificar, por exemplo, como seriam construídas as vozes passivas dos tempos principais:

Tempos principais da voz ativa – infectum

Tempos principais da voz passiva – infectum

Presente ativo

amo,amat, amamus...

amo,ama,amamos

Presente passivo

amor, amatur, amamur...

sou amado,é amado,somos amados

(pretérito) Imperfeito

ativo

amabam, amabas,...

amava,amavas

(pretérito) Imperfeito

ativo

amabar, amabaris...

era amado,eras amado

Futuro do presente

ativo

amabo, amabit...

amarei,amará

Futuro do presente passivo

amabor, amabitur...

serei amado,será amado

Como se pode perceber pelas desinências em negrito, a voz passiva é for-mada basicamente pela mudança da desinência número-pessoal. Esse tipo de flexão de voz passiva se perdeu em português.

Os modosHá em latim quatro modos: o indicativo, ligado à denotação de eventos tidos

como factuais, “reais”; o subjuntivo, que carrega os significados básicos de ir-realidade, hipótese, desejo; o imperativo, modo responsável pelas ordens; e o infinitivo, a forma verbal sem tempo nem pessoa. Não haverá espaço para tra-tarmos dos modos individualmente, mas na apresentação das conjugações, que iniciaremos a seguir, haverá a indicação das formas de todos os modos.

Primeira conjugação verbalNa apresentação das conjugações verbais, veremos os tempos principais no

indicativo e no subjuntivo, além das formas de infinitivo e imperativo, todos na voz ativa.

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Exemplo de primeira conjugação na voz ativa: amo, amas, amāre, amaui, amatum “amar”.

Presente do indicativo:

“amo, amas...”

Perfeito do indicativo: “amei,

amaste...”

Presente do subjuntivo:

“ame, ames...”

Perfeito do subjuntivo4:

“tenha amado”

1.ª pessoa do singular

amo amāui amem amauĕrim

2.ª pessoa do singular

amas amauisti ames amauĕris

3.ª pessoa do singular

amat amāuit amet amauĕrit

1.ª pessoa do plural

amāmus amauĭmus amēmus amauerĭmus

2.ª pessoa do plural

amātis amauistis amētis amauerĭtis

3.ª pessoa do plural

amant amauērunt / amauēre ament amauĕrint

Imperfeito do indicativo:

“amava, amavas...”

Mais-que-perfeito do indicativo: “tinha amado,

amara...”

Imperfeito do subjuntivo:

“amasse, amaria...”

Mais-que-perfeito do subjuntivo:

“tivesse amado, teria

amado...”

1.ª pessoa do singular

amābam amauĕram amārem amauissem

2.ª pessoa do singular

amābas amauĕras amāres amauisses

3.ª pessoa do singular

amābat amauĕrat amāret amauisset

4 O perfeito do subjuntivo é um tempo que não apresenta correlação direta com nenhum tempo específico do português, e que, em latim, é usado ou com um sentido de subjuntivo jussivo/desiderativo aoristo, ou seja, com um tempo indeterminado (algo como: amauerim = “que eu ame!”) ou como tempo relativo em estruturas de subordinação, como a maioria dos casos de subjuntivo.

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Imperfeito do indicativo:

“amava, ama-vas...”

Mais-que-perfeito do indicativo:“tinha amado,

amara...”

Imperfeito do subjuntivo:

“amasse, ama-ria...”

Mais-que-perfeito do subjuntivo:

“tivesse ama-do,

teria amado...”

1.ª pessoa do plural

amabāmus amauerāmus amarēmus amauissēmus

2.ª pessoa do plural

amabātis amauerātis amarētis amauissētis

3.ª pessoa do plural

amābant amauĕrant amārent amauissent

Futuro do indicativo:

“amarei, ama-rás...”

Futuro perfeito do indicativo: “te-rei amado, terás

amado...”

Infinitivo pre-sente: amāre

“amar”

Imperativo presente

1.ª pessoa do singular

amābo amauĕroInfinitivo perfei-to: amauisse “ter amado”

ama “ama tu” amāte “amai vós”

2.ª pessoa do singular

amābis amauĕris

Infinitivo futuro: amaturus, a, um esse “estar por amar”

Particípio perfei-to: amatus, a, um “amado, aquele que foi amado”

3.ª pessoa do singular

amābit amauĕritGerúndio5

(acusativo): amandum

Particípio pre-sente: amans, amantis “o que ama, amante”

1.ª pessoa do plural

amabĭmus amauerĭmus Gerúndio (geni-tivo): amandi

Particípio futuro: amaturus, a, um “o que está por amar”

2.ª pessoa do plural

amabĭtis amauerĭtisGerúndio (da-tivo): amando “para amar”

Gerundivo: amandus, a, um “para ser amado, a ser amado”

3.ª pessoa do plural

amābunt amauĕrintGerúndio (abla-tivo): amando “por amar”

Supino: amatum “para amar”

5 O gerúndio nada mais é, em latim, que a forma flexionada do infinitivo nos outros casos (o infinitivo é a forma de “nominativo”, ou seja, é o sujeito de uma nominalização verbal), por isso a tradução vai depender fortemente do contexto.

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Segue uma lista de verbos comuns da primeira conjugação:

ambulo “atravessar, andar”

celo “esconder, esconder-se”

clamo ”gritar”

cogito “pensar, considerar”

do, dāre, dedi, datus “dar”

dono “doar”

dubito “duvidar, hesitar”

habito “habitar, morar”

iuuo, iuuāre, iuui, iutus ”ajudar”

laboro “trabalhar”

loco “colocar, pôr”

monstro “mostrar, demonstrar”

muto “mudar”

neco “matar”

nego “negar, dizer (que) não”

nuntio ”anunciar”

opto “escolher, desejar, optar”

oro “implorar, orar”

paro “preparar”

porto “carregar, transportar”

pugno “lutar”

sto, stare, steti, staturus “estar em pé”

voco “chamar, convocar”

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A estrutura do verbo latino

Segunda conjugação verbalExemplo de segunda conjugação na voz ativa: habeo, habes, habēre, habui,

habitus “ter”

Presente do indicativo:

“tenho, tens...”

Perfeito do indicativo:

“tive, tiveste...”

Presente do subjuntivo:

“tenha, tenhas...”

Perfeito do subjuntivo: “tenha tido”

1.ª pessoa do singular

habeo habui habeam habuĕrim

2.ª pessoa do singular

habes habuisti habeas habuĕris

3.ª pessoa do singular

habet habuit habeat habuĕrit

1.ª pessoa do plural

habemus habuĭmus habeāmus habuerĭmus

2.ª pessoa do plural

habetis habuistis habeātis habuerĭtis

3.ª pessoa do plural

habent habuērunt / habuēre habeant habuĕrint

Imperfeito do indicativo:

“tinha, tinhas...”

Mais-que-per-feito do indica-

tivo:“tinha tido,

tivera...”

Imperfeito do subjuntivo:

“tivesse, teria...”

Mais-que-perfeito do subjuntivo:

“tivesse tido,teria tido...”

1.ª pessoa do singular

habēbam habuĕram habērem habuissem

2.ª pessoa do singular

habēbas habuĕras habēres habuisses

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3.ª pessoa do singular

habēbat habuĕrat habēret habuisset

Imperfeito do indicativo:

“tinha, tinhas...”

Mais-que-per-feito do indica-

tivo:“tinha tido,

tivera...”

Imperfeito do subjuntivo:

“tivesse, teria...”

Mais-que-perfeito do subjuntivo:

“tivesse tido,teria tido...”

1.ª pessoa do plural

habebāmus habuerāmus haberēmus habuissēmus

2.ª pessoa do plural

habebātis habuerātis haberētis habuissētis

3.ª pessoa do plural

habēbant habuĕrant habērent habuissent

Futuro do indicativo: “te-

rei, terás...”

Futuro perfeito do indicativo:

“terei tido, terás tido...”

Infinitivo pre-sente: habēre

“ter”

Imperativo presente

1.ª pessoa do singular

habēbo habuĕro Infinitivo perfeito: habuisse “ter tido”

habe “tem tu”habēte “tenhai vós”

2.ª pessoa do singular

habēbis habuĕrisInfinitivo futuro: habiturus, a, um esse “estar por ter”

Particípio per-feito: habitus, a, um “tido, aquele que foi tido”

3.ª pessoa do singular

habēbit habuĕritGerúndio (acusa-tivo): habendum “ter”

Particípio pre-sente: habens, habentis “o que tem”

1.ª pessoa do plural

habebĭmus habuerĭmusGerúndio (geniti-vo): habendi “de ter”

Particípio futuro: habiturus, a, um “o que está por ter”

2.ª pessoa do plural

habebĭtis habuerĭtis Gerúndio (dativo): habendo “para ter”

Gerundivo: ha-bendus, a, um “para ser tido, a ser tido”

3.ª pessoa do plural

habēbunt habuĕrintGerúndio (ablati-vo): habendo “por ter”

Supino: habi-tum “para ter”

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Segue uma lista de verbos comuns da segunda conjugação:

appareo, apparere, apparui, apparitus “aparecer”

careo, carere, carui, caritus “carecer, estar sem, faltar”

debeo, debere, debui, debitus “dever”

fleo, flere, flexi, fletus “chorar”

maneo, manere, mansi, mansus “permanecer”

moneo, monere, monui, monitus “aconselhar, avisar”

moueo, mouere, moui, motus “mover”

pareo, parere, parui, paritus “obedecer”

placeo, placere, placui, placitus “aprazer a, ser agradável” a (+ dativo)

respondeo, respondere, respondi, responsus “responder”

sedeo, sedere, sedi, sessus “sentar-se”

taceo, tacere, tacui, tacitus “calar-se”

teneo, tenere, tenui, tentus “ter (em mãos), segurar, manter”

terreo, terrere, terrui, territus “aterrorizar-se”

timeo, timere, timui, –, “temer, ter medo de”

uideo, uidere, uidi, uisus “ver”

Texto complementarNo Canto IV da Eneida de Virgílio, do qual tiramos o trecho a seguir, co-

nhecemos a história trágica do amor entre Dido, rainha de Cartago, e Enéias, sobrevivente troiano que deverá fundar Roma. Dido e Enéias, ambos viúvos, veem-se reféns de um amor motivado pelos deuses, e o amor de Dido. Ela,

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A estrutura do verbo latino

121

cada vez mais incapaz de controlar seus sentimentos, é retratada no trecho a seguir como enlouquecida de amor.

Ó ciência vã dos agouros! Quê somam delubros e votospara os delírios do amor? Enquanto isso, a medula enlanguesce e no imo peito a ferida se alastra sem ser pressentida. Arde a Rainha infeliz, vaga insana por toda a cidade, sem rumo certo, tal como veadinha nos bosques de Cretaque o caçador transfixou com uma flecha, sem que ele consciência então tivesse do fato. O volátil caniço ali fica; corre a coitada, vencendo florestas do Dicte e arvoredos, mas sempre ao lado encravada sentindo a fatal mensageira. Ora percorre as muralhas com o cabo de guerra troiano, mostra-lhe o burgo nascente, a famosa opulência dos tírios,ora começa a falar e interrompe no meio o discurso; novos banquetes lhe apresta no fim da jornada, à noitinha. No seu delírio, outra vez quer ouvir os desastres de Troia; pende da boca outra vez do orador eloquente e bem posto. Pouco depois, separados no ponto em que a lua nos priva do claro lume e ao repouso as cadentes estrelas convidam,geme por ver-se sozinha na sala; no leito se deitaque ele ocupara; na ausência do amado ainda o vê, ainda o escuta,retém a Ascânio no colo, na imagem paterna se embebe, por esse modo pensando iludir a paixão absorvente. Inacabadas, as torres pararam; não mais se exercitam moços esbeltos nos jogos da guerra, na faina dos portos; interrompidas as obras, o céu das ameaças descansa; por acabar as ameias, merlões, toda a fábrica altiva.

(Eneida, IV, 65-90)

Dica de estudoConsulte em diferentes gramáticas as explicações que os autores dão para o

sistema verbal latino.

Page 123: Língua Latina

122

A estrutura do verbo latino

Atividades1. Descreva todas as informações possíveis dos verbos a seguir, conforme o

exemplo:

monstrabant: terceira pessoa do plural do imperfeito do indicativo do verbo monstro: “eles/elas mostravam”.

a) celaremus:

b) locat:

c) respondi:

d) uidebimus:

e) seduit:

f) mansissem:

g) flexeratis:

Page 124: Língua Latina

A estrutura do verbo latino

123

h) pugnant:

i) dedisti:

j) apparere:

2. Traduza as seguintes orações para o português.

a) puer in ciuitate magna habitat.

b) mihi non placet laborare.

c) Petrus Paulō respondit cum uerba mala.

d) femina cenam ingentem parabit.

e) sapientes philosophos uir uetus non uidet.

Page 125: Língua Latina

124

A estrutura do verbo latino

ReferênciasALMENDRA, Maria Ana; FIGUEIREDO, José Nunes. Compêndio de Gramática Latina. Porto: Porto Editora, 2003.

CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao Latim. São Paulo: Ática, 1993. (Série Princípios).

JONES, Peter V.; SIDWELL, Keith C. Reading Latin: grammar, vocabulary and exercises. Cambridge: Cambridge University Press, 1986a.

______; ______. Reading Latin: text. Cambridge: Cambridge University Press, 1986b.

PEREIRA, Maria Helena M. da R. Romana: Antologia da cultura latina. 3. ed. Coim-bra: Instituto de Estudos Clássicos, 1994. (Org. e trad. do latim).

______. Estudos de História da Cultura Clássica II: cultura romana. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.

PLAUTO; TERêNCIO. A Comédia Latina. Tradução de: SILVA, Agostinho da. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.].

REZENDE, Antônio Martinez de. Latina Essentia: preparação ao latim. Belo Ho-rizonte: UFMG, 2003.

REZENDE, A. M.; BIANCHET, Sandra Gualberto. Dicionário do Latim Essencial. Belo Horizonte: Crisálida: Tessitura, 2005.

RÓNAI, Paulo. Gradus Primus: curso básico de latim. São Paulo: Cultrix, 2006.

TORRINHA, F. Dicionário Latino-Português. Porto: Gráficos Reunidos, 1993.

VIRGÍLIO. Eneida. Tradução de: NUNES, Carlos Alberto. Brasília: Ed. UnB; São Paulo: A Montanha, 1983.

Gabarito1.

a) celaremus: 1pp imperf. subj.

b) locat: 3ps pres. indic.

Page 126: Língua Latina

A estrutura do verbo latino

125

c) respondi: 1ps perfeito indic.

d) uidebimus: 1pp futuro indic.

e) seduit: 3ps perfeito indic.

f) mansissem: 1ps mais-que-perf. subj.

g) flexeratis: 2pp mais-que-perf. indic.

h) pugnant: 3pp pres. indic.

i) dedisti: 2ps perf. indic.

j) apparere: infinitivo pres.

2.

a) puer in ciuitate magna habitat (O menino mora na cidade grande).

b) mihi non placet laborare (Não me apraz trabalhar / Não gosto de trabalhar).

c) Petrus Paulō respondit cum uerba mala (Pedro respondeu a Paulo com pa-lavras más).

d) femina cenam ingentem parabit (A mulher preparará um jantar enorme).

e) sapientes philosophos uir uetus non uidet (O homem velho não vê os filó-sofos sábios).

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Neste capítulo serão apresentados verbos da terceira conjugação, de tema consonantal, da quarta conjugação, de tema em i, e os da chama-da conjugação mista, que, embora sejam basicamente verbos da terceira conjugação, se apresentam parecidos com verbos da quarta conjugação em alguns tempos. Além disso, veremos a conjugação dos verbos irregu-lares mais importantes.

Terceira conjugação verbalOs verbos da terceira conjugação possuem temas consonantais e, por

isso, têm infinitivos presentes ativos em -ĕre. O ĕ serve de vogal que liga o radical de final consonantal ao -re, por isso não se trata de um ē como o da segunda conjugação, que constitui uma vogal temática, a marca da segun-da conjugação. Vejamos o quadro com as formas da voz ativa dos verbos da terceira conjugação.

dico, dicis, dicĕre, dixi, dictum “dizer”

Presente do indicativo:

“digo, dizes...”

Perfeito do in-dicativo: “disse,

disseste...”

Presente do subjuntivo:

“diga, digas...”

Perfeito do subjuntivo:“tenha dito”

1.ª pessoa do singular

dico dixi dicam dixĕrim

2.ª pessoa do singular

dicis dixisti dicas dixĕris

3.ª pessoa do singular

dicit dixit dicat dixĕrit

1.ª pessoa do plural

dicimus dixĭmus dicamus dixerĭmus

2.ª pessoa do plural

dicitis dixistis dicatis dixerĭtis

3.ª pessoa do plural

dicunt dixērunt / dixēre dicant dixĕrint

Aprofundamento da morfologia verbal latina

Page 129: Língua Latina

128

Aprofundamento da morfologia verbal latina

Imperfeito do indicativo:

“dizia, di-zias...”

Mais-que- -perfeito do indicativo: “tinha dito,

dissera...”

Imperfeito do subjuntivo: “dissesse,

diria...”

Mais-que- -perfeito do subjuntivo:

“tivesse dito, teria dito...”

1.ª pessoa do singular

dicebam dixĕram dicerem dixissem

2.ª pessoa do singular

dicebas dixĕras diceres dixisses

3.ª pessoa do singular

dicebat dixĕrat diceret dixisset

1.ª pessoa do plural

dicebāmus dixerāmus dicerēmus dixissēmus

2.ª pessoa do plural

dicebātis dixerātis dicerētis dixissētis

3.ª pessoa do plural

dicebant dixĕrant dicerent dixissent

Futuro do indicativo:

“direi, dirás...”

Futuro perfeito do indicativo:

“terei dito, terás dito...”

Infinitivo presente:

dicĕre “dizer”

Imperativo presente

1.ª pessoa do singular

dicam dixĕro Infinitivo perfeito: dixisse “ter dito”

dic “diz tu”dicite “dizei vós”

2.ª pessoa do singular

dices dixĕris Infinitivo futuro: dicturus, a, um esse “estar por dizer”

Particípio per-feito: dictus, a, um “dito, que foi dito”

3.ª pessoa do singular

dicet dixĕrit Gerúndio (acusativo): dicendum

Particípio presente: dicens, dicen-tis “que diz”

1.ª pessoa do plural

dicemus dixerĭmus Gerúndio (geni-tivo): dicendi

Particípio futu-ro: dicturus, a, um “que está por dizer”

2.ª pessoa do plural

dicetis dixerĭtis Gerúndio (da-tivo): dicendo “para dizer”

Gerundivo: di-cendus, a, um “para ser dito, a ser dito”

3.ª pessoa do plural

dicent dixĕrint Gerúndio (abla-tivo): dicendo “por dizer”

Supino: dictum “para dizer”

Page 130: Língua Latina

Aprofundamento da morfologia verbal latina

129

Segue uma lista de verbos comuns da terceira conjugação:

ago, agere, egi, actus “agir”

cano, canere, cecini, cantus “cantar”

cado, cadere, cecidi, casus “cair”

cresco, crescere, crevi, creturus “crescer”

curro, currere, cucurri, cursus “correr”

duco, ducere, duxi, ductus “conduzir”

frango, fangere, fregi, fractus “quebrar”

gero, gerere, gessi, gestus “gerir, conduzir”

lego, legere, lexi, lectus “selecionar, ler”

mitto, mittere, misi, missus “enviar, mandar”

pono, ponere, posui, positus “pôr”

scribo, scribere, scripsi, scriptus “escrever”

Quarta conjugação verbalOs verbos da quarta conjugação são os de tema em i, ou seja, são os que re-

conheceremos pelo infinitivo em -īre. Vejamos o quadro com a conjugação das formas ativas dos verbos dessa conjugação.

audio, audis, audīre, audiui, auditum “ouvir”

Presente do in-dicativo: “ouço,

ouves...”

Perfeito do in-dicativo: “ouvi,

ouviste...”

Presente do subjuntivo:

“ouça, ouças...”

Perfeito do subjuntivo:

“tenha ouvido”

1.ª pessoa do singular

audio audiui audiam audiuĕrim

2.ª pessoa do singular

audis audiuisti audias audiuĕris

3.ª pessoa do singular

audit audiuit audiat audiuĕrit

Page 131: Língua Latina

130

Aprofundamento da morfologia verbal latina

Presente do in-dicativo: “ouço,

ouves...”

Perfeito do in-dicativo: “ouvi,

ouviste...”

Presente do subjuntivo:

“ouça, ouças...”

Perfeito do subjuntivo:

“tenha ouvido”

1.ª pessoa do plural

audīmus audiuĭmus audiāmus audiuerĭmus

2.ª pessoa do plural

audītis audiuistis audiātis audiuerĭtis

3.ª pessoa do plural

audiunt audiuērunt / audiuēre audiant audiuĕrint

Imperfeito do indicativo: “ou-

via, ouvias...”

Mais-que-perfeito do indicativo:

“tinha ouvido, ouvira...”

Imperfeito do subjuntivo:

“ouvisse, ouvi-ria...”

Mais-que-perfeito do

subjuntivo: “ti-vesse ouvido, teria ouvido...”

1.ª pessoa do singular

audiebam audiuĕram audirem audiuissem

2.ª pessoa do singular

audiebas audiuĕras audires audiuisses

3.ª pessoa do singular

audiebat audiuĕrat audiret audiuisset

1.ª pessoa do plural

audiebāmus audiuerāmus audirēmus audiuissēmus

2.ª pessoa do plural

audiebātis audiuerātis audirētis audiuissētis

3.ª pessoa do plural

audiebant audiuĕrant audirent audiuissent

Futuro do indicativo:

“ouvirei, ouvirás...”

Futuro perfei-to do indi-

cativo: “terei ouvido, terás

ouvido...”

Infinitivo presente:

audīre “ouvir”

Imperativo presente

1.ª pessoa do singular

audiam audiuĕroInfinitivo perfei-to: audiuisse “ter ouvido”

audi “ouve tu”audīte “ouvi vós”

2.ª pessoa do singular

audies audiuĕris

Infinitivo futuro: auditurus, a, um esse “estar por ouvir”

Particípio perfei-to: auditus, a, um “que foi ouvido”

3.ª pessoa do singular

audiet audiuĕrit

Gerúndio (acu-sativo): audien-dum “ouvir/para ouvir”

Particípio pre-sente: audiens, audientis “que ouve, ouvinte”

Page 132: Língua Latina

Aprofundamento da morfologia verbal latina

131

Futuro do indicativo:

“ouvirei, ouvirás...”

Futuro perfei-to do indi-

cativo: “terei ouvido, terás

ouvido...”

Infinitivo presente:

audīre “ouvir”

Imperativo presente

1.ª pessoa do plural

audiēmus audiuerĭmusGerúndio (geni-tivo): audiendi “de ouvir”

Particípio futuro: auditurus, a, um “que está por ouvir”

2.ª pessoa do plural

audiētis audiuerĭtisGerúndio (da-tivo): audiendo “para ouvir”

Gerundivo: audiendus, a, um “para ser ouvido, a ser ouvido”

3.ª pessoa do plural

audient audiuĕrintGerúndio (abla-tivo): audiendo “por ouvir”

Supino: auditum “para ouvir”

Segue uma lista de verbos comuns da quarta conjugação:

aperio, aperire, aperui, apertus “abrir”

dormio, dormire, dormiui, dormitus “dormir”

scio, scire, sciui, scitus “saber, conhecer”

sentio, sentire, sensi, sensus “sentir, perceber”

venio, venire, veni, ventus “vir”

Conjugação mistaA conjugação mista é frequentemente considerada uma conjugação separa-

da, quando, na verdade, se trata de uma subdivisão da terceira conjugação. Os verbos da chamada conjugação mista, ou “terceira e quarta” (3/4), são verbos de tema consonantal que apresentam algumas formas parecidas com as da quarta conjugação, como o presente do indicativo ativo (capio, capis...). No entanto, o infinitivo em -ĕre nos dá a informação necessária para que estejamos certos de que se trata de um verbo da terceira conjugação. Ainda assim, olharemos para essa subconjugação separadamente.

Um exemplo de verbo da conjugação mista é capio, capis, capĕre, cepi, captum “tomar, capturar”

Page 133: Língua Latina

132

Aprofundamento da morfologia verbal latina

Presente do indicativo:

“tomo, tomas...”

Perfeito do indicativo: “to-mei, tomaste...”

Presente do subjuntivo:

“tome, tomes...”

Perfeito do subjuntivo:

“tenha tomado”

1.ª pessoa do singular

capio cepi capiam cepĕrim

2.ª pessoa do singular

capis cepisti capias cepĕris

3.ª pessoa do singular

capit cepit capiat cepĕrit

1.ª pessoa do plural

capĭmus cepĭmus capiāmus ceperĭmus

2.ª pessoa do plural

capĭtis cepistis capiātis ceperĭtis

3.ª pessoa do plural

capiunt cepērunt / cepēre capiant cepĕrint

Imperfeito do indicati-vo: “toma-va, toma-

vas...”

Mais-que-perfeito do indicativo:

“tinha tomado, tomara...”

Imperfeito do subjuntivo: “tomasse, tomaria...”

Mais-que-perfeito do subjuntivo:

“tivesse tomado, teria

tomado...”

1.ª pessoa do singular

capiebam cepĕram caperem cepissem

2.ª pessoa do singular

capiebas cepĕras caperes cepisses

3.ª pessoa do singular

capiebat cepĕrat caperet cepisset

1.ª pessoa do plural

capiebāmus ceperāmus caperēmus cepissēmus

2.ª pessoa do plural

capiebātis ceperātis caperētis cepissētis

3.ª pessoa do plural

capiebant cepĕrant caperent cepissent

Page 134: Língua Latina

Aprofundamento da morfologia verbal latina

133

Futuro do indicativo: “tomarei,

tomarás...”

Futuro perfeito do indicativo: “terei tomado,

terás tomado...”

Infinitivo presente:

capĕre “tomar”

Imperativo presente

1.ª pessoa do singular

capiam cepĕro Infinitivo perfeito: cepisse “ter to-mado”

cape “toma tu”capĭte “tomai vós”

2.ª pessoa do singular

capies cepĕris Infinitivo futuro: capturus, a, um esse “estar por tomar”

Particípio perfei-to: captus, a, um “que foi tomado”

3.ª pessoa do singular

capiet cepĕrit Gerúndio (acusa-tivo): capiendum “tomar/para tomar”

Particípio pre-sente: capiens, capientis “que toma”

1.ª pessoa do plural

capiēmus ceperĭmus Gerúndio (geniti-vo): capiendi “de tomar”

Particípio futuro: capturus, a, um “que está por tomar”

2.ª pessoa do plural

capiētis ceperĭtis Gerúndio (dativo): capiendo “para tomar”

Gerundivo: capiendus, a, um “para ser tomado, a ser tomado”

3.ª pessoa do plural

capient cepĕrint Gerúndio (ablati-vo): capiendo “por tomar”

Supino: captum “para tomar”

Segue uma lista de verbos comuns da conjugação mista:

accipio, accipere, accepi, acceptus “receber”

incipio, incipere, incepi, inceptus “começar”

recipio, recipere, recepi, receptus “receber, tomar de volta”

facio, facere, feci, factus “fazer”

interficio, interficere, interfeci, interfectus “matar”

perficio, perficere, perfeci, perfectus “completar, terminar, perfazer”

Page 135: Língua Latina

134

Aprofundamento da morfologia verbal latina

fugio, fugere, fugi, fugitus “fugir, escapar”

iacio, iacere, ieci, iactus “lançar, arremessar”

conicio, conicere, conieci, coniectus “arremessar conjuntamente, conjecturar”

specio, specere, spexi, spectus “fitar, olhar para”

inspicio, inspicere, inspexi, inspectus “olhar para dentro, examinar”

suspicio, suspicere, suspexi, suspectus “estimar, suspeitar”

Verbos irregularesÉ importante conhecermos alguns dos verbos irregulares do latim, já que

são tão importantes e comuns. As conjugações desses verbos na voz ativa serão dadas a seguir, e veremos que compostos comuns são formados a partir deles.

O verbo sumO verbo sum em latim significa “ser, estar, existir, haver”. Vejamos a sua

conjugação:

Presente do indicativo:“sou, és...”

Perfeito do indicativo: “fui,

foste...”

Presente do subjuntivo:

“seja, sejas...”

Perfeito do subjuntivo:“tenha sido”

1.ª pessoa do singular

sum fui sim fuĕrim

2.ª pessoa do singular

es fuisti sis fuĕris

3.ª pessoa do singular

est fuit sit fuĕrit

1ª pessoa do plural

sumus fuĭmus simus fuerĭmus

2.ª pessoa do plural

estis fuistis sitis fuerĭtis

3.ª pessoa do plural

sunt fuērunt / fuēre sint fuĕrint

Page 136: Língua Latina

Aprofundamento da morfologia verbal latina

135

Imperfeito do indicativo:“era, eras...”

Mais-que- -perfeito do indicativo:“tinha sido,

fora...”

Imperfeito do subjuntivo:“tomasse, tomaria...”

Mais-que- -perfeito do subjuntivo:

“tivesse sido, teria sido...”

1.ª pessoa do singular

eram fuĕram essem fuissem

2.ª pessoa do singular

eras fuĕras esses fuisses

3.ª pessoa do singular

erat fuĕrat esset fuisset

1.ª pessoa do plural

erāmus fuerāmus essēmus fuissēmus

2.ª pessoa do plural

erātis fuerātis essētis fuissētis

3.ª pessoa do plural

erant fuĕrant essent fuissent

Futuro do indicativo:

“serei, serás...”

Futuro perfeito do indicativo:

“terei sido, terás sido...”

Infinitivo presente: esse “ser”

Imperativo presente:

1.ª pessoa do singular

ero fuĕro Infinitivo perfeito: fuisse “ter sido”

es “sê tu”este “sede vós”

2.ª pessoa do singular

eris fuĕris Infinitivo futuro: futurus, a, um esse “estar por ser”

3.ª pessoa do singular

erit fuĕrit

1.ª pessoa do plural

erimus fuerĭmus Particípio futuro: futurus, a, um “que está por ser”

2.ª pessoa do plural

eritis fuerĭtis

3.ª pessoa do plural

erunt fuĕrint

O verbo esse dá origem a vários outros verbos, com prefixos como in-, ad-, ab-, entre outros, que seguem a mesma conjugação. Os sentidos desses verbos costu-mam acompanhar basicamente os sentidos das preposições que são usadas como

Page 137: Língua Latina

136

Aprofundamento da morfologia verbal latina

prefixos. Assim, de ad + sum temos adsum, “estar junto a, estar presente”. De ab + sum temos absum, “estar afastado de, estar ausente” (particípio presente absens, absentis).

Um verbo derivado de sum extremamente importante é o verbo possum “poder”, que se compõe do radical pot- + sum. A conjugação de possum é prati-camente idêntica à do sum. Dessa forma, temos, no presente do indicativo ativo, possum, potes, potest, possumus, possetis, possunt.

O verbo eo e seus derivadosO verbo eo, ire, iui, itum é o equivalente ao nosso verbo “ir”. Há, assim como há

com os verbos derivados do verbo sum, derivações prefixais ligadas ao movimen-to denotado pelo significado dos verbos derivados de eo, como veremos adiante. Primeiramente, vejamos o quadro da conjugação do verbo eo.

Presente do indicativo:

“vou, vais...”

Perfeito do indicativo: “fui,

foste...”

Presente do subjuntivo: “vá, vás...”

Perfeito do subjuntivo: “tenha ido”

1.ª pessoa do singular

eo ii ou iui eam iuerim ou ierim

2.ª pessoa do singular

is iisti ou iuisti eas iueris ou ieris

3.ª pessoa do singular

it iit ou iuit eat iuerit ou ierit

1.ª pessoa do plural

imus iimus ou iuimus eāmus iuerimus ou ieri-mus

2.ª pessoa do plural

itis iistis ou iuistis eātis iueritis ou ieritis

3.ª pessoa do plural

eunt ierunt/re ouiuerunt/re

eant iuerint ou ierint

Page 138: Língua Latina

Aprofundamento da morfologia verbal latina

137

Imperfeito do indicativo:

“ia, ias...”

Mais-que-perfei-to do indicativo:“tinha ido, fora...”

Imperfeito do subjuntivo:

“fosse, iria...”

Mais-que-per-feito do sub-

juntivo: “tivesse ido, teria ido...”

1.ª pessoa do singular

ibam iueram ou ieram irem iuissem ou issem

2.ª pessoa do singular

ibas iueras ou ieras ires iuisses ou isses

3.ª pessoa do singular

ibat iuerat ou ierat iret iuisset ou isset

1.ª pessoa do plural

ibāmus iueramus ou ieramus

irēmus iuissemus ou isse-mus

2.ª pessoa do plural

ibātis iueratis ou ieratis irētis iuissetis ou issetis

3.ª pessoa do plural

ibant iuerant ou ierant irent iuissent ou issent

Futuro do indicativo: “irei, irás...”

Futuro perfeito do indicativo:

“terei ido, terás ido...”

Infinitivo presente: ire

“ir”

Imperativo presente

1.ª pessoa do singular

ibo iuĕro ou iĕro Infinitivo per-feito: iuisse ou iisse “ter ido”

i “vai tu”ite “ide vós”

2.ª pessoa do singular

ibis iuĕris ou iĕris Infinitivo futuro: iturus, a, um esse “estar por ir”

Particípio perfei-to: itus, a, um “que se foi”

3.ª pessoa do singular

ibit iuĕrit ou iĕrit Gerúndio (acu-sativo): eundum “ir/para ir”

Particípio presen-te: iens, euntis “que vai”

1.ª pessoa do plural

ibimus iuĕrimus ou ierĭmus

Gerúndio (genitivo): eundi “de ir”

Particípio futuro: iturus, a, um “que está por ir”

2.ª pessoa do plural

ibitis iuerĭtis ou ierĭtis Gerúndio (dativo): eundo “para ir”

Gerundivo: eun-dus, a, um “para se ir”

3.ª pessoa do plural

ibunt iuĕrint ou iĕrint Gerúndio (abla-tivo): eundo “por ir”

Supino: itum “para ir”

Page 139: Língua Latina

138

Aprofundamento da morfologia verbal latina

Os verbos derivados do verbo eo seguem a mesma conjugação dele e, em geral, possuem sentido ligado ao sentido da preposição que serve de base para a derivação. Exemplos são:

adeo: ir até

abeo: ir embora

redeo: retornar, ir novamente

exeo: sair

ineo: entrar

circumeo: circular

O verbo uolo e seus derivadosO verbo uolo é um verbo irregular que significa “querer”. Os derivados mais

importantes dele são o nolo (originalmente non uolo) “não querer” e o malo (ori-ginalmente, magis uolo) “preferir”. Esses três verbos são bastante irregulares em seu presente do indicativo ativo, mas, em geral, são regulares nas outras formas dos outros tempos.

As informações básicas desses verbos são:

uolo, uis, uelle, uolui, _____1: querer

nolo, non uis, nolle, nolui, _____: não querer

malo, mauis, malle, malui, _____: preferir

Indicativo:

Presente do indicativo: “que-

ro, queres...”

Presente do indicativo: “não

quero, não queres...”

Presente do indicativo: “prefiro,

preferes...”

1.ª pessoa do singular

uolo nolo malo

2.ª pessoa do singular

uis non uis mauis

3.ª pessoa do singular

uult non uult mauult

1 Os verbos derivados de uolo não apresentam particípio perfeito, nem gerúndio, nem gerundivo, nem voz passiva. As formas de imperativo só estão disponíveis para o nolo (noli “não queiras” e nolite “não queirais”). Os particípios também não são frequentes e, portanto, não aparecerão nos quadros.

Page 140: Língua Latina

Aprofundamento da morfologia verbal latina

139

Presente do indicativo: “que-

ro, queres...”

Presente do indicativo: “não

quero, não queres...”

Presente do indicativo: “prefiro,

preferes...”

1.ª pessoa do plural

uolumus nolumus malumus

2.ª pessoa do plural

uultis non uultis mauultis

3.ª pessoa do plural

uolunt nolunt malunt

Imperfeito do indicativo: “que-

ria, querias...”

Imperfeito do indicativo:

“não queria...”

Imperfeito do indicativo: “prefe-

ria...”

1.ª pessoa do singular

uolebam nolebam malebam

2.ª pessoa do singular

uolebas nolebas malebas

3.ª pessoa do singular

uolebat nolebat malebat

1.ª pessoa do plural

uolebamus nolebamus malebamus

2.ª pessoa do plural

uolebatis nolebatis malebatis

3.ª pessoa do plural

uolebant nolebant malebant

Futuro do indi-cativo: “quere-rei, quererás...”

Futuro do indicativo: “não quererei...”

Futuro do indicativo: “preferirei...”

1.ª pessoa do singular

uolam nolam malam

2.ª pessoa do singular

uoles noles males

3.ª pessoa do singular

uolet nolet malet

1.ª pessoa do plural

uolemus nolemus malemus

2.ª pessoa do plural

uoletis noletis maletis

3.ª pessoa do plural

uolent nolent malent

Page 141: Língua Latina

140

Aprofundamento da morfologia verbal latina

Perfeito do in-dicativo: “quis,

quiseste...”2

Mais-que-perfeito do indicativo: “quise-

ra,...”

Futuro do perfeito: “terei querido,...”

1.ª pessoa do singular

uolui uolueram uoluero

2ª pessoa do singular

uoluisti uolueras uolueris

3.ª pessoa do singular

uoluit uoluerat uoluerit

1.ª pessoa do plural

uoluimus uolueramus uoluerimus

2.ª pessoa do plural

uoluistis uolueratis uolueritis

3.ª pessoa do plural

uoluērunt/uoluēre uoluerant uoluerint

Subjuntivo:

Presente do subjuntivo: “queira,...”

Presente do subjuntivo: “não

queira,...”

Presente do subjuntivo: “prefira,...”

1.ª pessoa do singular

uelim nolim malim

2.ª pessoa do singular

uelis nolis malis

3.ª pessoa do singular

uelit nolit malit

1.ª pessoa do plural

uelimus nolimus malimus

2.ª pessoa do plural

uelitis nolitis malitis

3.ª pessoa do plural

uelint nolint malint

2 Os tempos do perfeito do indicativo são bastante regulares para uolo e seus derivados. Assim, daremos apenas as formas de uolo, bastando subs-tituir o radical de perfeito de um verbo pelo de outro para termos as formas de nolo e malo.

Page 142: Língua Latina

Aprofundamento da morfologia verbal latina

141

Imperfeito do subjuntivo:

“quisesse, quereria...”

Imperfeito do subjuntivo: “não

quisesse...”

Imperfeito do subjuntivo: “preferia...”

1.ª pessoa do singular

uellem nollem mallem

2.ª pessoa do singular

uelles nolles malles

3.ª pessoa do singular

uellet nollet mallet

1.ª pessoa do plural

uellemus nollemus mallemus

2.ª pessoa do plural

uelletis nolletis malletis

3.ª pessoa do plural

uellent nollent mallent

Perfeito do subjuntivo: “quis, quiseste...”3

Mais-que-perfeito do subjuntivo:

“quisera,...”

1.ª pessoa do singular

uoluerim uoluissem

2.ª pessoa do singular

uolueris uoluisses

3.ª pessoa do singular

uoluerit uoluisset

1.ª pessoa do plural

uoluerimus uoluissemus

2.ª pessoa do plural

uolueritis uoluissetis

3.ª pessoa do plural

uoluerint uoluissent

O verbo feroO verbo fero tem o sentido básico de “levar, carregar, transportar”. Há diver-

sos derivados de fero, como aufero (levar embora, roubar), affero (levar até), defero (delatar, entregar), transfero (transportar, transferir), entre outros. O verbo fero é um dos que apresentam maior irregularidade na constituição de

3 Vide nota 2 sobre o perfeito do indicativo.

Page 143: Língua Latina

142

Aprofundamento da morfologia verbal latina

seus radicais: o radical do presente baseia-se na forma fer-o, o do perfeito na forma tul-i, e o de particípio/supino na forma lat-us. Assim, a entrada de dicio-nário desse verbo é:

fero, fers, ferre, tuli, latus “levar, carregar”.

Presente do indicativo:

“levo, levas...”

Perfeito do indicativo: “levei,

levaste...”

Presente do subjuntivo:

“leve, leves...”

Perfeito do subjuntivo:

“tenha levado”

1.ª pessoa do singular

fero tuli feram tulerim

2.ª pessoa do singular

fers tulisti feras tuleris

3.ª pessoa do singular

fert tulit ferat tulerit

1.ª pessoa do plural

ferimus tulimus feramus tulerimus

2.ª pessoa do plural

fertis tulitis feratis tuleritis

3.ª pessoa do plural

ferunt tulērunt/tulēre ferant tulerint

Imperfeito do

indicativo: “levava...”

Mais-que-perfeito do indicativo: “tinha levado,

levara...”

Imperfeito do subjuntivo:

“levasse, leva-ria...”

Mais-que-perfeito

do subjuntivo: “tivesse levado, teria levado...”

1.ª pessoa do singular

ferebam tuleram ferrem tulissem

2.ª pessoa do singular

ferebas tuleras ferres tulisses

3.ª pessoa do singular

ferebat tulerat ferret tulisset

1.ª pessoa do plural

ferebāmus tuleramus ferremus tulissemus

2.ª pessoa do plural

ferebātis tuleratis ferretis tulissetis

3.ª pessoa do plural

ferebant tulerant ferrent tulissent

Page 144: Língua Latina

Aprofundamento da morfologia verbal latina

143

Futuro do indicativo:

“levarei, levarás...”

Futuro perfeito do indicativo: “terei

levado, terás levado...”

Infinitivo presente: ferre

“levar”

Imperativo presente

1.ª pessoa do singular

feram tulĕro Infinitivo perfeito: tulisse “ter levado”

fer “leva tu”ferte “levai vós”

2.ª pessoa do singular

feres tulĕris Infinitivo futuro: laturus, a, um esse “estar por levar”

Particípio perfei-to: latus, a, um “que foi levado”

3.ª pessoa do singular

feret tulĕrit Gerúndio (acusa-tivo): ferendum “levar/para levar”

Particípio presente: ferens, ferentis “que leva, levando”

1.ª pessoa do plural

feremus tulerĭmus Gerúndio (geni-tivo): ferendi “de levar”

Particípio futuro: laturus, a, um “que está por levar”

2.ª pessoa do plural

feretis tulerĭtis Gerúndio (dativo): ferendo “para levar”

Gerundivo: feren-dus, a, um “para ser levado”

3.ª pessoa do plural

ferent tulĕrint Gerúndio (ablati-vo): ferendo “por levar”

Supino: latum “para levar”

Texto complementarNo trecho de Eneida que veremos a seguir, teremos um embate entre Dido

e Enéias, quando o dever de fundar a Nova Troia e as ordens dos deuses impelem Enéias a se afastar da rainha de Cartago. O trecho inicia-se com Dido encontran-do-se com Enéias após descobrir que ele planejava partir.

Pérfido! Então esperavas de mim ocultar essa infâmia,

e às escondidas deixares meus reinos sem nada dizer-me?

Não te abalou nem a destra que outrora te dei, nem a morte

que a Dido aguarda, inamável, tão próxima já do seu termo?

Como se nada isso fora, teus barcos aprestas no inverno,

quadra infeliz, pretendendo cortar os furiosos embates

Page 145: Língua Latina

144

Aprofundamento da morfologia verbal latina

dos aquilões? Que crueldade! Se acaso moradas estranhas

não procurasses, nem campos, e Troia ainda em pé se encontrasse,

navegarias no rumo de Troia e o mar bravo cortaras?

Foges de mim? Por meu pranto e também pela mão que me deste –

Mísera! pois perdi tudo, sem nada me ter reservado –

por nosso enlace, o sagrado himeneu que de pouco nos une,

se algo mereço de ti ou se alguma ventura me deves,

doces lembranças, apiada-te ao menos de um lar ora esfeito.

Muda de ideia, no caso de as preces contigo valerem.

Por tua causa me odeia esta gente da Líbia, os tiranos

númidas, todos os tírios; por ti a vergonha deixou-me,

e aquela fama que aos astros meu nome impoluto levara.

A quem entregas uma moribunda como eu, querido hóspede?

Sim, esse é o único nome de quem me chamou de consorte.

Que mais espero? Que o irmão Pigmalião me derrube estes muros,

ou o próprio Jarbas Getúlio me arraste daqui como escrava?

Se pelo menos deixasses na fuga um produto do nosso

inesquecível amor, e nos paços brincasse comigo

um outro Enéias-menino, contigo semelho nos traços,

abandonada, em verdade, e sozinha não me julgaria.

Disse. Obediente ao mandado de Jove tinha ele no solo

fixos os olhos e a custo a emoção no imo peito guardava.

Fala-lhe alfim por maneira sucinta: – Jamais negaria

tantos favores, Senhora, e outros muitos de que me recordas;

nem nunca a imagem de Elisa sairá do meu peito, por quanto

tempo consciência tiver de mim mesmo e com vida eu mover-me.

Quanto ao que ocorre, direi simplesmente: intenção nunca tive

de retirar-me às ocultas – apaga essa ideia – nem menos

planos forgei de casar ou de alianças contigo firmarmos.

Se a meu arbítrio deixasse o Destino dispor do futuro

como eu quisesse, o primeiro cuidado seria a cidade

dos meus troianos reerguer, cultivar as relíquias tão caras

Page 146: Língua Latina

Aprofundamento da morfologia verbal latina

145

a todos nós. Então, sim; o palácio de Príamo ainda

de pé estaria, e estas mãos outra Pérgamo a todos construíra.

Porém Apolo de Grínia ordenou-me há pouquinho buscarmos

a Grande Itália, essa Itália que os vates da Lícia apontaram.

Ali, o amor; ali, a pátria. Se a ti, da Fenícia, te agradam

belos palácios e os muros construir na africana Cartago,

por que motivo impedires que os teucros na Ausônia se instalem?

É de justiça buscarmos também novos reinos por longe.

Noites seguidas Anquises, meu pai, quando as úmidas sombras

à terra baixam, ou quando se elevam fulgentes os astros,

sim, sua pálida imagem nos sonhos me admoesta, me aterra,

como também a lembrança de Ascânio, querida cabeça,

que do seu reino na Hespéria eu defraudo, da terra anunciada.

O mensageiro dos deuses da parte de Jove agorinha

mesmo me trouxe um recado pelo ar – por aqueles o juro,

Ascânio e Anquises –; eu próprio o enxerguei quando o burgo

no resplendor; sua voz ainda soa-me nos ouvidos.

Não venhas, pois, agravar minha mágoa – e a tua – com brigas.

Não busco a Itália por gosto

Durante a fala de Enéias manteve-se Dido alheada,

virando a vista de cá para lá. Finalmente, mirando-o

de alto a baixo, furiosa o despeito externou deste modo:

Não tens por mãe uma deusa nem vens de linhagem dardânia,

pérfido! A vida também a tiraste do Cáucaso adusto,

rico em penhascos; mamaste nos peitos das tigres da Hircânia

Para que dissimular por mais tempo? Que injúrias mais graves

aguentarei? Reservou-me uma lágrima? Ao menos olhou-me?

Chegou meu pranto a abalá-lo e de mim apiedado mostrou-se?

Que afronta há mais dolorosa? Nem Juno, possante deidade,

nem mesmo o filho do velho Saturno isto vê com bons olhos.

Não há fé pura. Jogado na praia, carente de tudo,

o recolhi – quanta insânia! – e no reino lhe dei parte ativa.

Page 147: Língua Latina

146

Aprofundamento da morfologia verbal latina

Desbaratados os barcos, salvei-lhe da morte a maruja.

Oh dor! As Fúrias me abrasam, me arrastam. Agora os augúrios

do próprio Apolo, da Lícia as sentenças e até mensageiros

das divindades, esta ordem terrível lhe trazem nas auras!

Como se os deuses cuidassem de nugas e o tempo esbanjassem

do ócio divino! Pois parte! não peço que fiques, nem brigo.

Vai! Segue os ventos da Itália; procura teus reinos nas ondas.

Se os justos deuses nos ouvem, espero que um dia hás de a morte

nas duras rochas sorver e que o nome de Dido mil vezes

invocarás. Mesmo ausente, hei de os passos seguir-te com atros

fachos, depois que minha alma dos membros a Morte separe.

Sombra terrível, por tudo estarei. Pagar-me-ás, miserável,

essa traição. Hei de ouvir teu clamor desde os manes profundos.

Corta no meio o sermão sem resposta aguardar e, fugindo

mesta, da luz se retira, deixando-o confuso entre o muito

que se dispunha a dizer e o que o medo prudente o impedia.

Desfalecida, até ao tálamo todo de mármore as servas

a carregaram, no leito a depondo aprestado para isso.

O pio Enéias, conquanto deseje acalmar-lhe o infortúnio,

e algum consolo lhe dar com palavras de muito carinho,

geme de dor ante os golpes violentos da sua desdita.

Mas, não se esquece das ordens do nume; revista as trirremes,

para que os teucros redobrem de esforços e as naus desencalhem

na praia ao longo, sem falta. As carinas breadas flutuam.

Do afã da fuga tocados, das matas carregam frondentes

galhos, à guisa de remos.

Pelos portões da cidade os vereis apressados correrem

como formigas no ponto em que um monte de trigo saqueiam,

quando do inverno mais perto e a seus paços escuros o levam:

vai pelos campos o negro esquadrão carregando a pilhagem

pelas picadas da relva; umas tantas, os grãos mais pesados

levam nos ombros; incumbem-se algumas das hostes em marcha

Page 148: Língua Latina

Aprofundamento da morfologia verbal latina

147

e as retardadas castigam. A trilha com a faina referve.

A esse espetáculo, Dido, quais foram os teus pensamentos,

quantos gemidos soltavas, ao veres do cimo das torres

do teu palácio animarem-se as praias com o estranho alarido

daquela turba, de envolta com o surdo marulho lá ao longe?

Ímprobo Amor! Que de estragos não causas no peito dos homens?

(Eneida, IV, 303-412)

Dica de estudoConsulte gramáticas de latim, na parte que trata dos verbos, e tente fazer

exercícios de morfologia e tradução.

Atividades1. Traduza as seguintes orações para o português. Explique as ambiguidades,

se houver.

a) uolebamus dormire.

b) homines regis seruos audaces interficērunt.

c) poetae cum auxilio musarum canunt.

Page 149: Língua Latina

148

Aprofundamento da morfologia verbal latina

d) philosophi currere non possunt.

e) duces legiones ducent.

2. Identifique todas as informações possíveis dos verbos a seguir e depois tra-duza a forma flexionada, conforme o exemplo:

dicetis: segunda pessoa do plural do futuro do indicativo ativo do verbo dico “dizer”. Tradução: “direis, vocês dirão”

a) cadent:

b) agere:

c) posuit:

d) scribuisse:

Page 150: Língua Latina

Aprofundamento da morfologia verbal latina

149

e) scis:

f) uenissetis:

g) faciunt:

h) perfecimus:

i) fugiebas:

ReferênciasALMENDRA, Maria Ana; FIGUEIREDO, José Nunes. Compêndio de Gramática Latina. Porto: Porto Editora, 2003.

CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao Latim. São Paulo: Ática, 1993. (Série Princípios).

JONES, Peter V.; SIDWELL, Keith C. Reading Latin: grammar, vocabulary and exercises. Cambridge: Cambridge University Press, 1986a.

Page 151: Língua Latina

150

Aprofundamento da morfologia verbal latina

______; ______. Reading Latin: text. Cambridge: Cambridge University Press, 1986b.

PEREIRA, Maria Helena M. da R. Romana: Antologia da cultura latina. 3. ed. Coim-bra: Instituto de Estudos Clássicos, 1994. (Org. e trad. do latim).

______. Estudos de História da Cultura Clássica II: cultura romana. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.

PLAUTO; TERêNCIO. A Comédia Latina. Tradução de: SILVA, Agostinho da. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.].

REZENDE, Antônio Martinez de. Latina Essentia: preparação ao latim. Belo Ho-rizonte: UFMG, 2003.

REZENDE, A. M.; BIANCHET, Sandra Gualberto. Dicionário do Latim Essencial. Belo Horizonte: Crisálida: Tessitura, 2005.

RÓNAI, Paulo. Gradus Primus: curso básico de latim. São Paulo: Cultrix, 2006.

TORRINHA, F. Dicionário Latino-Português. Porto: Gráficos Reunidos, 1993.

Gabarito1.

a) uolebamus dormire (Queríamos dormir).

b) homines regis seruos audaces interficērunt (Os homens do rei mataram os escravos audazes).

c) poetae cum auxilio musarum canunt (Os poetas cantam com auxílio das musas).

d) philosophi currere non possunt (Filósofos não podem correr).

e) duces legiones ducent (ambígua: “Os generais conduzirão as legiões” ou “As legiões conduzirão os generais”).

2.

a) cadent: 3pp futuro do indicativo “eles cairão”

b) agere: infinitivo presente “agir”

Page 152: Língua Latina

Aprofundamento da morfologia verbal latina

151

c) posuit: 3ps perfeito indic. “ele pôs”

d) scribuisse: infinitivo perfeito “ter escrito”

e) scis: 2ps pres. indic. “você sabe”

f) uenissetis: 2pp mais-que-perfeito subjuntivo “que vocês tivessem vindo”

g) faciunt: 3pp pres. indic. facio: “eles fazem”

h) perfecimus: 1pp perf. indic. “perfizemos, completamos”

i) ugiebas: 2ps imperfeito indic. “você estava fugindo, fugia”

Page 153: Língua Latina
Page 154: Língua Latina

Neste capítulo conheceremos as maneiras de expressar a voz em latim. A língua latina possui uma voz ativa e uma voz passiva verbais, e elas ex-pressam significados de atividade e passividade da mesma forma que em português. Assim, um verbo transitivo direto na voz ativa costuma atribuir ao seu sujeito, em geral, o papel de “agente”, enquanto o objeto direto recebe o papel de “paciente”, como na sentença “O menino (agente) viu a menina (paciente)”. Quando alteramos a voz verbal, o sujeito passa a ser o paciente, ou seja, o que teria sido objeto direto no correspondente ativo e o que tinha sido sujeito na versão ativa pode aparecer como agente da passiva, como em “A menina (sujeito paciente) foi vista pelo menino (agente da passiva)”.

O mesmo se dá em latim, mas, ao contrário do português, que faz todas as formas da voz passiva com um verbo auxiliar “ser” mais uma forma de particípio passado, o latim possui flexões de voz passiva para vários tempos.

Em seguida, conheceremos os verbos chamados depoentes, que pos-suem apenas forma da voz passiva, mas significado sempre ativo. Trata-se de uma anomalia no sistema verbal latino.

Voz passivaEm geral, constroem-se as vozes passivas latinas da mesma forma que

as vozes ativas, mas um novo conjunto de desinências número-pessoais será usado. A seguir temos, novamente, o quadro com as desinências nú-mero-pessoais possíveis em latim.

Número e pessoa

Tempos do indicativo e subjuntivo na voz

passiva

Tempos do indicati-vo e subjuntivo na

voz ativa

Perfeito do indicativo

ativo

1.ª pessoa do singular

-or ou -r -o ou -m -i

2.ª pessoa do singular

-ris -s -isti

3.ª pessoa do singular

-tur -t -it

A voz passiva e os verbos depoentes

Page 155: Língua Latina

154

A voz passiva e os verbos depoentes

Número e pessoa

Tempos do indicativo e subjuntivo na voz

passiva

Tempos do indicati-vo e subjuntivo na

voz ativa

Perfeito do indicativo

ativo

1.ª pessoa do plural

-mur -mus -imus

2.ª pessoa do plural

-mini -tis -istis

3.ª pessoa do plural

-ntur -nt -ērunt ou -ēre

Como veremos a seguir com as formas do infectum (presente, imperfeito e futuro simples), a construção da voz passiva nesses tempos, no indicativo e no subjuntivo, baseia-se nas mesmas formas de construção da voz ativa, substituindo-se as desinên-cias número-pessoais pelas de passiva. Algumas modificações no tema resultam dessa troca, mas, a rigor, as formas infixadas ficam inalteradas. Vejamos os quadros.

Primeira conjugação

Segunda conjugação

Terceira conjugação

Quarta conjugação

Conjugação mista

Presente do indicativo passivo: sou amado, é tido, é dito, somos ouvidos, são capturados...

1.ª pessoa do singular

amor habeor dicor audior capior

2.ª pessoa do singular

amaris / re haberis / re dicĕris / re audiris / re capĕris / re

3.ª pessoa do singular

amatur habetur dicitur auditur capitur

1.ª pessoa do plural

amamur habemur dicimur audimur capimur

2.ª pessoa do plural

amamĭni habemĭni dicimĭni audimĭni capimĭni

3.ª pessoa do plural

amantur habentur dicuntur audiuntur capiuntur

Imperfeito do indicativo passivo: era amado, era dito...

1.ª pessoa do singular

amabar habebar dicebar audiebar capiebar

2.ª pessoa do singular

amabaris / re habebaris / re dicebaris / re audiebaris / re capiebaris / re

3.ª pessoa do singular

amabatur habebatur dicebatur audiebatur capiebatur

Page 156: Língua Latina

A voz passiva e os verbos depoentes

155

Primeira conjugação

Segunda conjugação

Terceira conjugação

Quarta conjugação

Conjugação mista

Imperfeito do indicativo passivo: era amado, era dito...

1.ª pessoa do plural

amabamur habebamur dicebamur audiebamur capiebamur

2.ª pessoa do plural

amabamini habebamini dicebamini audiebamini capiebamini

3.ª pessoa do plural

amabantur habebantur dicebantur audiebantur capiebantur

Futuro do indicativo passivo: será amado, será dito...

1.ª pessoa do singular

amabor habebor dicar audiar capiar

2.ª pessoa do singular

amabĕris / re habebĕris / re dicēris / re audiēris / re capiēris / re

3.ª pessoa do singular

amabitur habebitur dicētur audiētur capiētur

1.ª pessoa do plural

amabimur habebimur dicēmur audiēmur capiēmur

2.ª pessoa do plural

amabimini habebimini dicēmini audiēmini capiēmini

3.ª pessoa do plural

amabuntur habebuntur dicēntur audiēntur capiēntur

Presente do subjuntivo passivo: seja amado, seja dito...

1.ª pessoa do singular

amer habear dicar audiar capiar

2.ª pessoa do singular

amēris / re habeāris / re dicāris / re audiāris / re capiāris / re

3.ª pessoa do singular

amētur habeātur dicātur audiātur capiātur

1.ª pessoa do plural

amēmur habeamur dicāmur audiāmur capiāmur

2.ª pessoa do plural

amēmĭni habeāmĭni dicāmĭni audiāmĭni capiāmĭni

3.ª pessoa do plural

amentur habeantur dicantur audiantur capiantur

Page 157: Língua Latina

156

A voz passiva e os verbos depoentes

Primeira conjugação

Segunda conjugação

Terceira conjugação

Quarta conjugação

Conjugação mista

Imperfeito do subjuntivo passivo: tenha sido amado, tenha sido dito...

1.ª pessoa do singular

amarer haberer dicerer audirer caperer

2.ª pessoa do singular

amareris / re habereris / re dicereris / re audireris / re capereris / re

3.ª pessoa do singular

amaretur haberetur diceretur audiretur caperetur

1.ª pessoa do plural

amaremur haberemur diceremur audiremur caperemur

2.ª pessoa do plural

amaremini haberemini diceremini audiremini caperemini

3.ª pessoa do plural

amarentur haberentur dicerentur audirentur caperentur

Com relação aos tempos do perfectum (baseados no tema de perfeito, ou seja, o perfeito, o mais-que-perfeito e o futuro perfeito), a construção da voz passiva é diferente, ainda que parecida, de certa forma, com a maneira que construímos a voz passiva em português. No entanto, é importante notar as diferenças, que são importantes: uma forma da voz passiva do perfeito do indicativo se cons-trói com particípio perfeito + verbo sum no presente, o que, na forma externa, é parecido com a forma como fazemos o presente passivo em português, ou seja, amatus sum se parece com “sou amado”, mas, em latim, essa forma passiva significa “fui amado”, enquanto que, em português, essa é a forma de voz passiva do presente.

Isso se dá porque as formas verbais de particípio + sum em latim são derivadas de uma construção que, etimologicamente, significa amatus sum = “estou (sum) [no estado atual] de ter sido amado (amatus)”, o que é perfeitamente possível, dada a forma naturalmente passiva e estativa de um particípio perfeito latino.

Dessa forma, os outros tempos do sistema do perfectum são vistos como que em relação ao tempo fundamental, o perfeito. Por exemplo, o mais-que-perfeito significa “antes de um tempo passado de referência” e, por isso, sua forma será amatus eram, ou seja, “eu estava no estado de ter sido amado → tinha sido amado”; o futuro perfeito, portanto, também estabelece a mesma relação, e tere-mos amatus ero “estarei no estado de ter sido amado → terei sido amado”.

Passemos ao quadro das formas de voz passiva do sistema do perfectum ou dos tempos baseados no radical do perfeito.

Page 158: Língua Latina

A voz passiva e os verbos depoentes

157

Primeira conjugação

Segunda conjugação

Terceira conjugação

Quarta conjugação

Conjugação mista

Perfeito do indicativo passivo: foi amado, foi tido, foi dito, foi ouvido, foi capturado

1.ª pessoa do singular

amatus, a, um1 sum

habitus, a, um sum

dictus, a, um sum

auditus, a, um sum

captus, a, um sum

2.ª pessoa do singular

amatus, a, um, es

habitus, a, um es

dictus, a, um, es

auditus, a, um es

captus, a, um, es

3.ª pessoa do singular

amatus, a, um, est

habitus, a, um est

dictus, a, um, est

auditus, a, um est

captus, a, um, est

1.ª pessoa do plural

amati, ae, a sumus

habiti, ae, a sumus

dicti, ae, a sumus

auditi, ae, a sumus

capti, ae, a sumus

2ª pessoa do plural

amati, ae, a estis

habiti, ae, a estis

dicti, ae, a estis

auditi, ae, a estis

capti, ae, a estis

3.ª pessoa do plural

amati, ae, a sunt

habiti, ae, a sunt

dicti, ae, a sunt

auditi, ae, a sunt

capti, ae, a sunt

Mais-que-perfeito do indicativo passivo: fora amado, tinha sido dito...

1.ª pessoa do singular

amatus, a, um eram

habitus, a, um eram

dictus, a, um eram

auditus, a, um eram

captus, a, um eram

2.ª pessoa do singular

amatus, a, um eras

habitus, a, um eras

dictus, a, um eras

auditus, a, um eras

captus, a, um eras

3.ª pessoa do singular

amatus, a, um erat

habitus, a, um erat

dictus, a, um erat

auditus, a, um erat

captus a, um, erat

1.ª pessoa do plural

amati, ae, a eramus

habiti, ae, a eramus

dicti, ae, a eramus

auditi, ae, a eramus

capti, ae, a eramus

2.ª pessoa do plural

amati, ae, a eratis

habiti, ae, a eratis

dicti, ae, a eratis

auditi, ae, a eratis

capti, ae, a eratis

3.ª pessoa do plural

amati, ae, a erant

habiti, ae, a erant

dicti, ae, a erant

auditi, ae, a erant

capti, ae, a erant

Futuro perfeito do indicativo passivo: terei sido amado, terá sido dito...

1.ª pessoa do singular

amatus, a, um ero

habitus, a, um ero

dictus, a, um ero

auditus, a, um ero

captus, a, um erro

2.ª pessoa do singular

amatus, a, um eris

habitus, a, um eris

dictus, a, um eris

auditus, a, um eris

captus, a, um eris

3.ª pessoa do singular

amatus, a, um erit

habitus, a, um erit

dictus, a, um erit

auditus, a, um erit

captus, a, um erit

1.ª pessoa do plural

amati, ae, a erimus

habiti, ae, a erimus

dicti, ae, a erimus

auditi, ae, a erimus

capti, ae, a erimus

2.ª pessoa do plural

amati, ae, a eritis

habiti, ae, a eritis

dicti, ae, a eritis

auditi, ae, a eritis

capti, ae, a eritis

3.ª pessoa do plural

amati, ae, a erunt

habiti, ae, a erunt

dicti, ae, a erunt

auditi, ae, a erunt

capti, ae, a erunt

1 Como particípio, amatus deve concordar em número, gênero e caso com o sujeito da oração.

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A voz passiva e os verbos depoentes

Primeira conjugação

Segunda conjugação

Terceira conjugação

Quarta conjugação

Conjugação mista

Perfeito do subjuntivo passivo: tenha sido amado, tenha sido dito...

1.ª pessoa do singular

amatus, a, um sim

habitus, a, um sim

dictus, a, um sim

auditus, a, um sim

captus, a, um sim

2.ª pessoa do singular

amatus, a, um sis

habitus, a, um sis

dictus, a, um sis

auditus, a, um sis

captus, a, um sis

3.ª pessoa do singular

amatus, a, um sit

habitus, a, um sit

dictus, a, um sit

auditus, a, um sit

captus, a, um sit

1.ª pessoa do plural

amati, ae, a simus

habiti, ae, a simus

dicti, ae, a simus

auditi, ae, a simus

capti, ae, a simus

2.ª pessoa do plural

amati, ae, a sitis

habiti, ae, a sitis

dicti, ae, a sitis

auditi, ae, a sitis

capti, ae, a sitis

3ª pessoa do plural

amati, ae, a sint

habiti, ae, a sint

dicti, ae, a sint auditi, ae, a sint

capti, ae, a sint

Mais-que-perfeito do subjuntivo passivo: teria sido amado, tivesse sido dito...

1.ª pessoa do singular

amatus, a, um essem

habitus, a, um essem

dictus, a, um essem

auditus, a, um essem

captus, a, um essem

2.ª pessoa do singular

amatus, a, um esses

habitus, a, um esses

dictus, a, um esses

auditus, a, um esses

captus, a, um esses

3.ª pessoa do singular

amatus, a, um esset

habitus, a, um esset

dictus, a, um esset

auditus, a, um esset

captus, a, um esset

1.ª pessoa do plural

amati, ae, a essemus

habiti, ae, a essemus

dicti, ae, a essemus

auditi, ae, a essemus

capti, ae, a essemus

2.ª pessoa do plural

amati, ae, a essetis

habiti, ae, a essetis

dicti, ae, a essetis

auditi, ae, a essetis

capti, ae, a essetis

3.ª pessoa do plural

amati, ae, a essent

habiti, ae, a essent

dicti, ae, a essent

auditi, ae, a essent

capti, ae, a essent

Passemos às formas nominais passivas dos verbos das cinco conjugações:

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A voz passiva e os verbos depoentes

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Primeira conjugação

Segunda conjugação

Terceira conjugação

Quarta conjugação

Conjugação mista

Infinitivo pre-sente passivo

amari haberi dici audiri capi

Infinitivo per-feito passivo

amatus, a, um esse2

habitus, a, um esse

dictus, a, um esse

auditus, a, um esse

captus, a, um esse

Infinitivo fu-turo passivo

amatum iri3 habitumiri dictumiri auditumiri captum iri

Imperativo presente sin-gular passivo

amare4 habere dicere audire capere

Imperativo presente plu-

ral passivo

amamini habemini dicimini audimini capimini

Supino passivo5

amatu deletu dictu auditu captu

Os verbos irregulares na voz passivaAntes de seguirmos adiante, é importante falarmos sobre as formas passivas

de alguns verbos irregulares.

O verbo sum, esse e seus derivados, e os verbos uolo, nolo e malo, não têm voz passiva.

O verbo fero conjuga-se na voz passiva de maneira regular, bastando que sejam usados o radical fer- para os tempos do infectum e o radical lat- para os tempos do perfectum. O mesmo se dá com seus derivados.

2 Os infinitivos perfeitos são usados apenas em orações subordinadas de acusativo com infinitivo, ou seja, orações subordinadas substantivas objetivas diretas que, em latim, são construídas sem conjunção, e que, portanto, têm o verbo na subordinação sempre no infinitivo e seu sujeito sempre no acusativo. Um exemplo desse tipo de oração seria “Ele disse que o escravo tinha sido capturado”, que em latim se constrói da seguinte forma: dixit seruum captum esse [literalmente, “ele disse o servo ter sido capturado”]. Por isso, apesar de a forma participial poder se flexionar em número e gênero, indiscriminadamente de acordo com a concordância com o sujeito, o caso sempre será acusativo. 3 Assim como explicamos sobre o infinitivo perfeito, o infinitivo futuro também só é usado em orações subordinadas como tempo relativo. A sua cons-trução, no entanto, é a mais estranha das construções dos infinitivos: trata-se de um supino (indeclinável, portanto) seguido de um infinitivo perfeito iri do verbo eo, ire, o que resulta, literalmente, em algo como “ir-se para ser ___-do”. Um exemplo, seguindo o mesmo princípio da nota 2, seria dixit seruum captum iri, que pode ser traduzida literalmente como “ele disse o servo ir-se para ser capturado”, o que resulta, em uma forma mais corrente, em “ele disse que o escravo seria capturado”.4 Os imperativos passivos presentes (os imperativos futuros que existem em latim são deixados de fora das nossas aulas, por serem pouquíssimo usados) são correspondentes às formas de segunda pessoa do singular e plural do presente indicativo passivo dos mesmos verbos. Na verdade, os imperativos passivos são idênticos às segundas pessoas do singular do presente do indicativo, uma vez que o sentido de certas formas de presente das segundas pessoas pode ser o mesmo que o de imperativos: amare = “você é amado” “seja amado”, como na forma atenuante do imperativo em português “você faz isso, por favor” ao invés da mais incisiva “faça isso, por favor”. Atenção também ao fato de que o imperativo presente passivo singular é idêntico em forma aos infinitivos presentes dos mesmos verbos.

5 O supino passivo é pouco utilizado e seu sentido pode ser parafraseado pela expressão “de se amar, ter, dizer etc.”. As outras formas não foram dadas ou porque não há correspondente passivo ou porque elas já são passivas por natureza, ainda que tivessem sido vistas antes (o particípio perfeito e o gerundivo se enquadram nessa categoria).

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A voz passiva e os verbos depoentes

O verbo eo e seus derivados não apresentam voz passiva, ainda que haja al-gumas formas impessoais, como itur “vai-se”, “alguém vai” e iri “ir-se”.

Verbos depoentesVerbos depoentes6 são verbos que possuem apenas as formas da voz passiva.

Seu significado, no entanto, é sempre ativo e não há sentido passivo possível para esses verbos. Esses verbos são anômalos, portanto. Os depoentes possuem temas que caem nas cinco conjugações, e são conjugados segundo os quadros vistos neste capítulo.

Vejamos uma listagem dos verbos depoentes mais importantes, separada pelas conjugações7:

Primeira conjugação:

minor, minari, minatus sum “ameaçar” (+ dat.)

hortor, hortari, hortatus sum “encorajar, incitar, exortar”

amplexor, amplexari, amplexatus sum “abraçar”

conor, conari, conatus sum “tentar”

imitor, imitari, imitatus sum “imitar, seguir”

meditor, meditari, meditatus sum “considerar, pensar sobre, meditar”

osculor, osculari, osculatus sum “beijar”

recordor, recordari, recordatus sum “lembrar-se de“

suspicor, suspicari, suspicatus sum “suspeitar”

opinor, opinari, opinatus sum “pensar, achar”

precor, precari, precatus sum “implorar”

6 Do verbo latino deponere, “pôr de lado, depor”.

7 Os verbos depoentes são enunciados na sequência: primeira pessoa do singular do presente do indicativo, infinitivo, primeira pessoa do singular do perfeito do indicativo.

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A voz passiva e os verbos depoentes

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Segunda conjugação:

polliceor, polliceri, pollicitus sum “prometer, advertir”

misereor, misereri, miseritus sum “sentir pena de, compadecer-se de”

fateor, fateri, fassus sum “confessar, admitir”

reor, reri, ratus sum “pensar, supor, acreditar”

uereor, uereri, ueritus sum “respeitar, temer”

Terceira conjugação:

loquor, loqui, locutus sum “falar”

irascor, irasci, iratus sum “ficar nervoso com, irar-se com”

obliuiscor, obliuisci, oblitus sum “esquecer-se de”

sequor, sequi, secutus sum “seguir”

adipiscor, adipisci, adeptus sum “obter, conseguir, tomar, ganhar”

nascor, nasci, natus sum “nascer”

morior, mori, mortuus sum “morrer”

ulciscor, ulcisci, ultus sum “vingar-se de”

Quarta conjugação:

mentior, mentiri, mentitus sum “mentir”

molior, moliri, molitus sum “lutar, construir, trabalhar”

orior, oriri, oritus sum “levantar, subir”8

sortior, sortiri, sortitus sum “escolher, eleger, sortear”

Conjugação mista:

adgredior “aproximar-se, chegar perto”

egredior “sair”

progredior “avançar”

patior, pati, passus sum “suportar, sofrer, passar por”8 Oriens, orientis é a forma de particípio presente que dá origem ao substantivo “oriente” em português.

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A voz passiva e os verbos depoentes

Há ainda alguns verbos que são chamados de semidepoentes, pois têm formas ativas para os tempos do infectum (radical do presente) e formas passivas para os tempos do perfectum (radical do perfeito). São exemplos de semidepoentes:

audeo, audere, ausus sum “ousar”

soleo, solere, solitus sum “costumar” (+ infinitivo)

fio, fieri, factus sum “tornar-se, acontecer, vir a ser”

O agente da passivaO agente da passiva, em latim, quando expresso, deve aparecer no caso ablativo

introduzido pela preposição a(b)9. Assim, voltando ao exemplo em português do início da aula, a oração básica em latim seria:

puer uidet puellam.

O menino vê a menina.

[nominativo/agente] [presente-indicativo-ativo] [acusativo/paciente]

Transformando-a para a voz passiva, devemos passar a expressão original-mente no caso acusativo/paciente para o caso nominativo/paciente da passi-va, flexionar o verbo na forma adequada da voz passiva, e acrescentar ou não o agente da passiva, como se segue:

puella uidetur a puerō.

A menina é vista pelo menino.

[nominativo/paciente] [presente-indicativo-passivo] [ablativo/agente da pas-siva]

Apesar de o agente da passiva ser opcional, quando presente numa oração passiva considera-se que as formas ativas e passivas apresentam a mesma oração dita de duas formas diferentes, porém equivalentes, ao menos com relação ao seu sentido básico.

9 A forma ab é usada antes de vogais. a é usado antes de consoantes.

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Já a nova Aurora saltara do leito do cróceo Titono

para a luz bela espargir pelo mundo e de cores orná-lo

no alvorecer, quando Dido avistou desde a sua atalaia,

em boa ordem a esquadra afastar-se, tendidas as velas,

bem como as praias vazias e sem remadores os portos.

Três, quatro vezes o peito formoso golpeando, e os cabelos

louros em fúria a puxar, – Há de esse homem, gritou, escapar-me,

Júpiter? Esse estrangeiro, e zombar de mim própria em meu reino?

Não se armarão meus guerreiros e toda a cidade não corre

no rastro dele? Dos seus estaleiros os barcos não tiram?

Ide, voai, trazei fogo, dai velas, os remos empunhem!

Mas, que profiro? Onde estou? que desvairo me cega a esse ponto?

Dido infeliz, ora sentes o peso da tua desgraça.

Mais valeria o saberes, no dia em que o cetro lhe deste.

Essa, a palavra de quem carregara os penates nos ombros,

quem nas espáduas o peso sentiu da velhice paterna?

E não poder apanhá-lo, atirá-lo em pedaços nas ondas,

passar à espada seus homens, e Ascãnio, seu filho mimado,

ao próprio pai num banquete ofertar como prato excelente!

Mas, nesse encontro a vitória estaria ao meu lado? Que importa?

Quem vai morrer, de quem pode temer-se? Incendiara de pronto

seu arraial, fogo às naus lhe pusera, e de um golpe extinguira

Texto complementarNa última parte do Canto IV da Eneida, Dido, a Rainha de Cartago, depois de

ver os navios do seu amado Enéias partirem, planeja a vingança mais grave que consegue, e tira a própria vida, criando uma inimizade que viria a durar séculos entre Roma e Cartago. Veremos então os últimos versos do livro IV, o fim da his-tória de amor entre Enéias e Dido.

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A voz passiva e os verbos depoentes

o pai com o filho, essa raça maldita, e eu por último, ufana.

Sol, que o universo iluminas e todas as coisas perlustras!

Juno, ajudante consciente da minha indizível desgraça!

Hécate, sempre invocada nas encruzilhadas, aos gritos!

Fúrias, do mal vingadoras, e deuses de Elisa expirante!

Minhas palavras ouvi, minhas preces, e contra os malvados

os vosso numes volvei! Mas, se o Fado impassível resolve

que chegue ao porto esse monstro, e é forçoso pisar no chão firme;

se isso os decretos de Júpiter o determinam, que ao menos

seja acossado por gente guerreira e, banido da Itália,

vague sem rumo; privado dos braços queridos de Iulo,

auxílio implore e contemple o extermínio dos seus companheiros,

morte sem glória de todos. E, vindo a obter paz vergonhosa,

do apetecido reinado não goze, da luz suspirada,

mas prematuro pereça e insepulto na areia se esfaça!

É o que vos peço; com o sangue vos lanço este apelo supremo.

Tirios! Vosso ódio infinito em seu filho e nos seus descendentes

extravasai! é o que esperam de vós minhas cinzas ardentes.

Nenhuma aliança jamais aproxime os dois povos imigos.

Há de nascer-me dos ossos quem possa vingar-me esta afronta

com ferro e fogo, quem limpe o meu nome com sangue dardânio.

Hoje, amanhã, no momento mais certo em que o acaso os ajunte

e força houver, briguem praias com praias e as ondas entre elas,

armas de guerra por tudo, até os últimos netos com forças!

Assim falando, volvia no peito projetos sem conta,

para cortar o mais breve possível a trama da vida.

Por fim, a Barce resolve chamar, de Siqueu a velha ama,

visto que a sua ficara enterrada na pátria distante.

Vai procurar minha irmã, querida ama, e lhe dize que ponha

pressa em se purificar na água limpa do rio aqui perto.

Traga também as ovelhas e as vítimas expiatórias.

Não se demore. Enquanto isso, na fronte usa a fita sagrada.

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A voz passiva e os verbos depoentes

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A Jove Estígio pretendo ofertar sacrifícios solenes,

já começados, a fim de curar-me de atroz sofrimento,

para, por último, a efígie do teucro lançar na fogueira.

Assim falou. A Velhinha apressou-se com passos tardonhos.

Dido, convulsa e obstinada no seu tenebroso projeto,

virando os olhos sanguíneos, manchadas as lívidas faces,

a palidez do trespasse futuro na cute mimosa,

pelo interior do palácio irrompeu e postou-se, iracunda,

no alto da pira, sacando da espada do chefe dardânio,

prenda jamais destinada para uso de tanta fereza.

Nessa postura, enxergando as ilíacas vestes e o leito,

pós recolher-se algum tempo, banhados de lágrima os olhos,

no toro excelso inclinada, estas últimas queixas profere:

Ó doces prendas enquanto um dos deuses e o Fado quiseram,

minha pobre alma acolhei e de cruel pesadelo livrai-me.

Vivi bastante e perfiz o caminho previsto dos Fados.

Cheia de glória, esta sombra ora baixa aos domínios subtérreos.

Uma cidade grandiosa fundei, vi suas fortes muralhas;

a meu esposo vinguei, castiguei um irmão inimigo.

Muito feliz, ah! demasiadamente o seria se as naves

desses guerreiros troianos aqui nunca houvessem chegado!

Disse. E no leito tocando com os lábios: Morremos inulta? –

torna a falar – Pois morramos; assim baixarei para as sombras.

Veja o Dardânio de longe o espetáculo desta fogueira,

e na alma negra o presságio carregue da minha desgraça.

Disse. Mal tinha acabado, as donzelas caída a percebem

por próprio impulso, no ferro. Tingidas de sangue espumante

tinha ela as mãos. Do clamor das mulheres os átrios atroam.

Percorre a Fama a cidade aterrada, o ulular feminino,

lamentações e gemidos, o pranto incontido de todas.

Fremem os tetos; no alto o éter ressoa com tanto alarido,

como se a própria Cartago ou a cidade de Tiro mais velha

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A voz passiva e os verbos depoentes

viessem por terra aos embates de turmas furiosas de imigos,

em chama envoltas as casas, os templos derruidos dos deuses.

Despavorida, sem forças ouve Ana os clamores da turba;

carpe-se, o rosto a arranhar, afeiando o gracioso semblante;

corre, atropela as pessoas, por Dido a chamar, moribunda:

Este era, irmã, o sacrifício aprestado? Quiseste lograr-me?

Isto as fogueiras forjaram, a pira, os altares dos deuses?

De quê primeiro queixar-me, se a irmã não me quis ao seu lado

no próprio instante da morte, associadas no mesmo destino?

Uma só dor para as duas, um ferro, o minuto supremo!

Com minhas mãos levantei esta pira, chamei pelos deuses

pátrios, e tudo porque te finasses de mim afastada?

Com tua morte, querida, mataste-me, ao povo, o senado,

tua cidade sidônia. Dai-me água, porque lavar possa

suas feridas. Se um simples vestígio de alento ainda mostre,

na minha boca o recolho. – Assim disse. E galgando a alta pira,

no peito aperta a cabeça donosa da irmã moribunda.

Entre gemidos, com o peplo afastava os cruores escuros.

Com muito esforço, ao querer levantar a cabeça, de novo

desfaleceu a Rainha. No peito a ferida estertora.

Três vezes tenta sentar-se, apoiando-se nos cotovelos,

três sobre o leito ela torna a cair. Com os olhos errantes,

busca no céu a luz bela do sol e, encontrando-a, suspira.

Foi quando Juno potente, apiedada da longa agonia,

da sua morte penosa, a Iris rápida enviou do alto Olimpo,

para soltar aquela alma do nexo pesado dos membros,

visto não ser decorrente este excídio do Fado ou de culpa

muito pessoal; prematura e de súbito acesso tomada,

ainda Prosérpina não lhe cortara da fronte o cabelo

louro, nem sua cabeça votara às deidades do Inferno.

Íris, então, orvalhadas as asas, no espaço desliza,

sarapintadas as penas com o brilho do sol esplendente.

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Sobre a cabeça de Dido detém-se: – Cumprindo o mandado

que recebi, te desligo do corpo e a Plutão vou levar-te. –

Assim falando, cortou com a direita o cabelo cor de ouro.

Foi-se o calor, e nas auras o espírito logo diluiu-se.

(Eneida, IV, 582-703)

Dica de estudoConsulte dicionários e gramáticas de latim e veja o que outros autores têm a

dizer a respeito do assunto tratado neste capítulo.

Atividades1. Traduza as orações abaixo para o português.

a) uerba serui nuntiantur a poetā.

b) leges faciebantur ab antiquis hominibus.

c) litterae falsae scriptae erant.

d) a coquō cena parata est ingens.

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A voz passiva e os verbos depoentes

e) bellum malum pugnabitur a populis amicis.

f) dominus multum locutus est cum seruo stulto.

2. Transforme as orações abaixo da voz ativa para a voz passiva e traduza o resultado.

a) miles bonus pugnam ducit.

b) uir uxorem bellam uidebat.

c) rex audax multos homines necauit.

d) urbs diues praedones timebit.

e) uulnera saggitārum senserant aquilae diuinae.

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3. Com a apresentação de praticamente todo o sistema verbal e de todas as for-mas nominais mais importantes, podemos dar início às atividades de tradu-ção de textos originais e não adaptados. Veremos inicialmente um trecho dos primórdios da literatura latina. Trata-se de um trecho de um dos fragmentos encontrados do poema épico que conta as origens de Roma, do autor arcaico Quintus Ennius (239-169 a.C.)10. Traduza o texto, com o auxílio do glossário.

proelia promulgantur:

pellitur e medio sapientia, ui geritur res;

spernitur orator bonus, horridus miles amatur;

(ênio, Anais, VIII, fr. 1, 247-249)

Glossário:

proelia: proelium 2n. “batalha, prélio”

promulgantur: voz passiva de promulgo 1 “tornar público”

pellitur: voz passiva de pello 3 “banir”

e: preposição ex + ablativo “para fora de”

medium 2n. “centro, meio”

sapientia 1f. “sapiência, sabedoria”

res 5f. “coisa, assunto”

geritur: voz passiva de gero 3 “gerir, conduzir”

ui: ablativo singular de uis 3f. “força, violência”

spernitur: voz passiva de sperno 3 “desprezar”

amatur: voz passiva de amo “amar”

10 Ennius, ou ênio, como é chamado em português, foi um dos autores mais importantes do período do início da literatura latina, entre os séculos III e II a.C. Escreveu muitas obras, das quais apenas fragmentos restaram. Do que restou, os fragmentos de seu poema épico Anais nos mostram que ênio foi o primeiro autor da literatura latina a fazer uso do esquema métrico típico da poesia épica grega, o hexâmetro datílico, tipo de verso com o qual Homero escreveu a Ilíada e a Odisseia e Virgílio escreveu a Eneida.

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A voz passiva e os verbos depoentes

ReferênciasALMENDRA, Maria Ana; FIGUEIREDO, José Nunes. Compêndio de Gramática Latina. Porto: Porto Editora, 2003.

CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao Latim. São Paulo: Ática, 1993. (Série Princípios).

JONES, Peter V.; SIDWELL, Keith C. Reading Latin: grammar, vocabulary and exercises. Cambridge: Cambridge University Press, 1986a.

______; ______. Reading Latin: text. Cambridge: Cambridge University Press, 1986b.

PEREIRA, Maria Helena M. da R. Romana: Antologia da cultura latina. 3. ed. Coim-bra: Instituto de Estudos Clássicos, 1994. (Org. e trad. do latim).

______. Estudos de História da Cultura Clássica II: cultura romana. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.

PLAUTO; TERêNCIO. A Comédia Latina. Tradução de: SILVA, Agostinho da. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.].

REZENDE, Antônio Martinez de. Latina Essentia: preparação ao latim. Belo Ho-rizonte: UFMG, 2003.

REZENDE, A. M.; BIANCHET, Sandra Gualberto. Dicionário do Latim Essencial. Belo Horizonte: Crisálida: Tessitura, 2005.

RÓNAI, Paulo. Gradus Primus: curso básico de latim. São Paulo: Cultrix, 2006.

TORRINHA, F. Dicionário Latino-Português. Porto: Gráficos Reunidos, 1993.

Gabarito1.

a) uerba serui nuntiantur a poetā (As palavras do escravo são anunciadas pelo poeta).

b) leges faciebantur ab antiquis hominibus (Leis eram feitas pelos homens antigos).

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c) litterae falsae scriptae erant (Cartas falsas tinham sido escritas).

d) a coquō cena parata est ingens (Uma ceia enorme foi preparada pelo cozi-nheiro).

e) bellum malum pugnabitur a populis amicis (Uma guerra má será lutada pelos povos amigos).

f) dominus multum locutus est cum seruo stulto (O senhor falou muito com o escravo estúpido).

2.

a) miles bonus pugnam ducit (solução: pugna ducitur a milite bono A bata-lha é conduzida pelo bom soldado).

b) uir uxorem bellam uidebat (solução: uxor bella uidebatur ab uirō A bela esposa era vista pelo marido).

c) rex audax multos homines necauit (solução: multi homines necati sunt a rege audace Muitos homens foram mortos pelo rei audaz).

d) urbs diues praedones timebit (solução: praedones timebuntur ab urbe diuite Os piratas serão temidos pela cidade rica).

e) uulnera saggitārum senserant aquilae diuinae (solução: uulnera saggitārum sensa erant ab aquilis diuinis Feridas de flechas tinham sido sentidas pelas águias divinas).

3. Solução aproximada:

“As batalhas são tornadas públicas

a sabedoria é expulsa do meio [do campo de batalha], as coisas são conduzi-das pela força; o bom orador é desprezado, o soldado horrível é amado.”

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Neste capítulo serão estudados os pronomes mais importantes do latim, juntamente com as estruturas que são formadas através deles, uma vez que essa classe de palavras tem extrema importância nessa língua. Natural-mente, alguns pronomes ficarão de fora, mas a declinação da maior parte deles é bastante regular e segue um padrão facilmente reconhecível.

Pronomes pessoaisOs pronomes pessoais em latim são os seguintes:

Singular Plural Singular Plural Singular/Plural

Primeira pessoa Segunda pessoa Terceira pessoa

Nominativo ego nōs tū uōs –

Acusativo mē nōs tē uōs sē

Genitivo meī nostrum/nostrī tuī uestrum/uestrī suī

Dativo mihi (mī) nōbīs tibi uōbīs sibi

Ablativo mē nōbīs tē uōbīs sē

Sobre os pronomes pessoais, é importante aprender o seguinte:

Os pronomes de primeira e segunda pessoa frequentemente não são �expressos da mesma forma que o são em português. Assim, é a mor-fologia verbal que nos diz se um verbo tem sujeito de primeira ou segunda pessoa. Quando o pronome pessoal aparece na posição de sujeito, ele tem a função de dar ênfase ou foco no sujeito. Ou seja, uma oração como seruum habeo já possui a informação da pessoa verbal na morfologia do próprio verbo e, portanto, significa “Eu tenho um es-cravo”. Quando acrescentamos o pronome ego no nominativo a essa oração, o significado se altera, e temos algo como “Eu mesmo tenho o escravo” ou “Sou eu quem tem o escravo”. O mesmo acontece com as formas de segunda pessoa e também com as formas de plural.

Os pronomes em latim

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Os pronomes em latim

Não há em latim um pronome equivalente ao pronome pessoal de ter- �ceira pessoa (como ele, ela). Essa função será preenchida pelos pronomes demonstrativos. As formas existentes de pronomes pessoais de terceira pessoa servem como pronomes reflexivos, sempre ligando-se ao sujeito do verbo que induz ao uso do pronome. Um exemplo seria dominus se ui-det “O senhor vê a si mesmo/se vê”, diferente de uma forma como dominus eum uidet “O senhor vê ele/o vê”, sendo que o “ele” aqui é necessariamente uma outra pessoa que não o senhor, e é representada pelo pronome eum, que veremos a seguir.

Pronomes possessivosOs pronomes possessivos são pronomes que declinam exatamente como

qualquer adjetivo de primeira classe, ou seja, como multus, multa, multum. Veja-mos as suas entradas de dicionário:

Primeira pessoa do singular: meus, mea, meum.

Segunda pessoa do singular: tuus, tua, tuum.

Primeira pessoa do plural: noster, nostra, nostrum (tema nostr-).

Segunda pessoa do plural: uester, uestra, uestrum (tema uestr-).

Reflexivo de terceira pessoa, singular e plural: suus, sua, suum.

É importante ter em mente as seguintes questões:

O pronome possessivo é como o possessivo na língua portuguesa “meu”, �“teu”, “vosso” etc. e, da mesma forma que em português, pode ser usado como adjetivo (seruus meus “o meu escravo”) ou como substantivo (meus “o meu”). Quando usado sozinho (e, portanto, como substantivo), o pro-nome pode levar consigo a significação ligada ao número e gênero em que está, ou seja: mea = “a minha (mulher)”, tuus = “o teu (homem)”, uestra (neutro plural) = “as vossas coisas”.

O vocativo de � meus no masculino singular é a forma irregular mi.

O pronome possessivo reflexivo de terceira pessoa, assim como o prono- �me pessoal reflexivo, só se refere anaforicamente ao sujeito da oração.1

1 Ou seja, o referente do pronome é buscado atrás no texto.

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Os pronomes em latim

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Pronomes interrogativos e indefinidosOs pronomes interrogativos (quem? que? qual?) também podem ser usados

como pronomes indefinidos (alguém, algum), por isso os veremos como se fossem um só pronome. A possibilidade do uso do pronome interrogativo como adjetivo ou como substantivo (“Que homem fez isso?” = pronome adjetivo vs. “Quem fez isso?” = pronome substantivo) e a possibilidade de algumas alter-nâncias nas formas dos pronomes por causa desses dois usos diferentes pode trazer alguma confusão. Por isso, sugerimos que esse pronome seja estudado com calma e damos alguns exemplos dos seus usos.

Singular Plural

Masculino Feminino Neutro Masculino Feminino Neutro

Nominativo quī/quis quae/quis quod/quid quī quae quae

Acusativo quem quam quod/quid quōs quās quae

Genitivo cuius quōrum quārum quōrum

Dativo cui quibus

Ablativo quō quā quō quibus

Todas as formas no quadro podem ser pronomes interrogativos adjetivos ou substantivos. No entanto, nas células em que temos formas em negrito ou em tachado duplo, as em negrito são formas predominantemente adjetivas e as em tachado duplo, substantivas.

Vejamos alguns exemplos de orações com pronomes interrogativos adjetivos e substantivos (as formas negrito e tachado duplo continuarão sendo usadas para identificar, respectivamente, as formas adjetivas e as substantivas).

qui seruus stultior est quam Sōsia? “Que escravo é mais imbecil que Sósia?”

quis est stultissimus seruōrum? “Quem é o mais estúpido dos escravos?”

quae mulier regem amat? “Que mulher ama o rei?”

quis regem amat? “Quem ama o rei?” (note-se que, como pronome interro-gativo substantivo, quis pode ser nominativo singular tanto masculino quanto feminino. Se essa oração for entendida como uma paráfrase da anterior, quis será uma forma feminina, que poderemos traduzir como “que mulher”. Fora de con-texto, há ambiguidade.)

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Os pronomes em latim

quem regina amat? “Quem a rainha ama?” (aqui, o quem é masculino singular e, portanto, pressupõe-se que esse “quem” seja equivalente a “que homem”)

quem regem regina amat? “Que rei a rainha ama?”

quam rex amat? “Quem o rei ama?” (“quem” = “que mulher”)

quam reginam rex amat? “Que rainha o rei ama?”

Uma forma possível desse pronome é a forma aliquis, aliqua, aliquid (subs-tantivo) e aliqui, aliqua, aliquod (adjetivo), que significam “alguém, alguma coisa, algo, algum”, e que seguem exatamente a declinação do interrogativo/indefi-nido quis/qui, quis/qua, quod/quid, mas com o infixo ali-. É dessas formas que historicamente deriva o nosso pronome indefinido “alguém, algum, algo”.

Há ainda o pronome indefinido quidam, quaedam, quoddam “um, uma, um certo, uma certa” (usado quando um referente ainda não apareceu no texto, o mais próximo que o latim tinha do nosso artigo indefinido).

Singular Plural

Masculino Feminino Neutro Masculino Feminino Neutro

Nominativo quidam quaedam quoddam / quiddam

quīdam quaedam quaedam

Acusativo quendam quandam quoddam / quiddam

quōsdam quāsdam quaedam

Genitivo cuiusdam quōrundam quārundam quōrundam

Dativo cuidam quibusdam

Ablativo quōdam quādam quōdam quibusdam

Como se pode notar, trata-se do pronome qui, quae, quod (interrogativo) com o sufixo -dam, que dá a ideia de indefinição. As flexões das declinações estão antes da forma sufixada, que não varia, gerando um tipo de pronome que recebe flexão no meio da palavra. Por isso, por exemplo, há mudança fonética do tipo quem quendam, motivada pelo ponto de articulação da consoante d, que empresta seus traços para o som imediatamente anterior.

Pronomes demonstrativosHá diversos pronomes demonstrativos em latim, dos quais os mais comuns

são os que servem para fazer referência anafórica a antecedentes textuais, cum-

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Os pronomes em latim

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prindo tanto as funções do nosso pronome pessoal de terceira pessoa (que, como vimos, não existe em latim) quanto as funções dos nossos demonstrativos esse, essa, este, esta, aquele, aquela, aquilo, aquele etc.

Veremos inicialmente o pronome is, ea, id, que funciona tanto como “este, esta, isto” (junto de mim) quanto como “aquele, aquela, aquilo” (junto dele), além de servir como pronome átono anafórico “o, a, os, as”:

Singular Plural

Masculino Feminino Neutro Masculino Feminino Neutro

Nominativo is ea id eī / iī eae ea

Acusativo eum eam id eōs eās ea

Genitivo eius eōrum eārum eōrum

Dativo eī eīs / iīs

Ablativo eō eā eō eīs / iīs

Assim como os pronomes já vistos, os demonstrativos podem funcionar isolados (como substantivos) ou juntamente com um nome (como adjetivos).2

Quando isolados, significam “esse homem”, “essa mulher”, “essa coisa/isso”, ou seja, pressupõem a existência de um substantivo que viria junto, mas que se dá apenas via marcação de número e gênero.

Passemos agora ao segundo demonstrativo, o pronome hic, haec, hoc, que possui a significação mais próxima do nosso “este, esta, isto (perto de mim)”.

Singular Plural

Masculino Feminino Neutro Masculino Feminino Neutro

Nominativo hic haec hoc hī hae haec

Acusativo hunc hanc hoc hōs hās haec

Genitivo huius hōrum hārum hōrum

Dativo huic hīs

Ablativo hōc hāc hōc hīs

2 Essa questão, inclusive, apresenta uma das inadequações da gramática tradicional quando discute as definições das classes de palavras. Mais especificamente, quanto ao pronome, a gramática tradicional em geral costuma apresentar a definição “é a classe de palavras que substitui o nome”, que só é verdadeira em parte: quando funciona como um adjetivo, um pronome não substitui o nome, e sim funciona junto com ele, predica sobre ele, modifica-o.

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Os pronomes em latim

Esse pronome, assim como o is, ea, id, costuma funcionar como demonstra-tivo para coisas próximas do interlocutor e como anafórico de terceira pessoa. Ambos, em construções de sequência de vários antecedentes, referem-se ao que foi mencionado por último, ou seja, ao mais próximo do momento da fala (em oposição ao que foi mencionado primeiro, mais distante do momento da fala – em geral, ille, illa, illud “aquele, aquela, aquilo”, que veremos a seguir).

Vejamos então o pronome que costuma se referir como demonstrativo a algo mais próximo do locutor, ou seja, o nosso “esse, essa, isso (perto de ti)”. Trata-se do pronome iste, ista, istud. Vejamos a sua declinação:

Singular Plural

Masculino Feminino Neutro Masculino Feminino Neutro

Nominativo iste ista istud istī istae ista

Acusativo istum istam istud istōs istās ista

Genitivo istīus istōrum istārum istōrum

Dativo istī istīs

Ablativo istō istā istō istīs

O pronome seguinte, naturalmente, será o que significa “aquele, aquela, aquilo (perto dele, dela)”. Trata-se do ille, illa, illud. Passemos à sua declinação:

Singular Plural

Masculino Feminino Neutro Masculino Feminino Neutro

Nominativo ille illa illud illī illae illa

Acusativo illum illam illud illōs illās illa

Genitivo illīus illōrum illārum illōrum

Dativo illī illīs

Ablativo illō illā illō illīs

Esse é o pronome que costuma ser usado apenas para coisas mais distantes do interlocutor, mais próximas de uma terceira pessoa do que do locutor ou do interlocutor. Esse é, também, o pronome utilizado para se fazer referência ao referente mais afastado, quando há dois possíveis referentes.

Vejamos alguns exemplos que envolvam vários demonstrativos:

a) is eam amat. Ele a ama. / Este (homem) ama esta (mulher).

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Os pronomes em latim

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b) is homo eam mulierem amat. Este homem ama esta mulher.

c) ille seruus est. Aquele (homem) é um escravo.

d) ille homo seruus est. Aquele homem é um escravo.

e) rex seruum habet. hic pauper, ille diues est. O rei tem um escravo. Este é pobre, aquele é rico.

Na primeira e na terceira frase, o pronome demonstrativo é usado isolada-mente, como substantivo, enquanto que na segunda e na quarta frases, ele mo-difica um substantivo e, portanto, funciona como adjetivo. Na última frase temos um exemplo do uso de pronomes demonstrativos correlativos em referências anafóricas aos referentes mais próximos (“este” = is, ea, id / hic, haec, hoc) versus os mais distantes (“aquele” = ille, illa, illud).

Pronomes relativosOs pronomes relativos em latim se parecem bastante com as formas do inter-

rogativo qui/quis, quae/quis, quod/quid. Vejamos as formas:

Singular Plural

Masculino Feminino Neutro Masculino Feminino Neutro

Nominativo quī quae quod quī quae quae

Acusativo quem quam quod quōs quās quae

Genitivo cuius quōrum quārum quōrum

Dativo cui quibus / quīs

Ablativo quō quā quō quibus / quīs

Os pronomes relativos em latim funcionam exatamente como em portu-guês, com uma única diferença ligada a uma questão de concordância. Como as formas nominais latinas apresentam casos, deveremos aprender como os pro-nomes relativos recebem as informações de gênero, número e caso.

A função de um pronome relativo é possibilitar que uma expressão oracional seja transformada em um adjetivo de um substantivo de uma outra oração. Em termos mais simples, se na expressão “Lá está o escravo pobre” a expressão adjeti-val em negrito funciona como adjetivo predicando algo a respeito da forma nomi-nal “escravo”, dizendo que se trata de um escravo pobre, e não de qualquer outro

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Os pronomes em latim

escravo, essa mesma expressão em negrito poderia ser reescrita como “que não tem dinheiro”, gerando uma sentença com um sentido muito próximo: “Lá está o escravo que não tem dinheiro.” Assim, a expressão incompleta “não tem dinheiro” pode ser aproveitada como uma expressão adjetiva se a expressão “que” unir “não tem dinheiro” a “escravo”, ligando as duas ao substantivo modificado.

Para começarmos a entender a maneira de construir as orações relativas em latim, passemos ao ponto mais importante: em português, há poucas variações possíveis para o “que” relativo: há formas como “cujo, cuja, o qual, a qual”, que cumprem papéis importantes, a depender da função que exercem dentro da es-trutura relativa. Por exemplo, na oração já dada como exemplo, o “que” em “que não tem dinheiro” funciona como sujeito do verbo “tem” da oração subordinada introduzida pelo “que”. O processo é mais ou menos o seguinte:

Lá está o escravo1. O escravo1 não tem dinheiro. Lá está o escravo1 [que1 não tem dinheiro] (o número subscrito serve para mostrar que há correferencia-lidade entre os termos).

Uma oração relativa na qual o “que” fosse objeto direto poderia ser:

Lá está o escravo1. Eu vi o escravo1. Lá está o escravo1 [que1 eu vi ___ 1].

Transformando essas sentenças em sentenças latinas, perceberemos que o “que”, antes não flexionado, precisará receber flexões de número, gênero e caso. Vejamos os exemplos:

Versão “que” de sujeito:

ibi est seruus1. seruus1 pecuniam non habet. ibi est seruus1 [quī1 pecuniam non habet].

Versão “que” de objeto:

ibi est seruus1. uidi seruum1. ibi est seruus1 [quem1 uidi]. (Lá está o escravo. Eu vi o escravo Lá está o escravo que eu vi).

Como podemos perceber, no primeiro caso, usamos o quī pois o antecedente do pronome (a expressão que ele retoma da oração principal, que, nos exemplos, apa-rece ligada a eles pelo índice numérico) é masculino e singular. O caso do pronome relativo, no entanto, não é dependente do seu antecedente, e sim da função que o pronome exerce dentro da oração relativa. Assim, no primeiro exemplo temos quī no nominativo porque o pronome exerce a função de sujeito dentro da oração rela-tiva e, no segundo, temos quem, pois o pronome exerce a função de objeto direto dentro da oração relativa. O seguinte diagrama ajudará a entender melhor a atribui-ção de gênero, número e caso ao pronome relativo:

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Os pronomes em latim

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ibi est seruus1 [quī1 pecuniam non habet.]

gênero: masculino

número: singular

caso: nominativo

ibi est seruus1 [quem1 uidi.]

gênero: masculino

número: singular

caso: acusativo

E agora um exemplo completamente diferente, com um novo tipo de pronome relativo:

ibi sunt feminae1 [quārum1 pecuniam uolo.]

gênero: feminino

número: plural

caso: genitivo

Nessa oração, temos um pronome relativo no genitivo, e a tradução poderia ser: “Lá estão as mulheres cujo dinheiro eu quero” ou “Lá estão as mulheres das quais eu quero o dinheiro”.

Haverá, portanto, muitas possibilidades de construção de orações relativas, mas todas seguirão as regras básicas de construção: (i) o pronome recebe informa-ção de número e gênero do seu antecedente e (ii) o pronome recebe informação de caso vinda da função que ele exerce dentro da oração relativa.

Vejamos mais alguns exemplos de orações relativas:

rex dicit mala uerba [quae non audiui]. O rei disse palavras más, [as quais eu não ouvi] (quae: acusativo plural neutro).

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Os pronomes em latim

milites pugnant in agro [quō ambulo]. Os soldados lutam no campo [pelo qual eu caminho] (quō: ablativo singular masculino).

rex uidit reginam [cui multa uerba dixit]. O rei viu a rainha [a quem disse muitas palavras] (cui: dativo singular feminino).

Assim, para encerrar este capítulo que apresentou tantos pronomes aparen-temente diferentes, seria importante fazer notar que, apesar de algumas dife-renças no significado, que precisam ser aprendidas, e apesar das novas constru-ções permitidas pelos pronomes, há muito na declinação deles que é comum à maioria dos pronomes e, portanto, o estudo dos quadros simultaneamente, procurando e anotando semelhanças e diferenças principais, pode trazer muito mais clareza sobre suas formas e usos.

Texto complementarVeremos a seguir uma cena de uma comédia latina muito famosa, o Anfitrião,

de T. Maccius Plautus (Plauto), nascido por volta de 254 a.C. e falecido por volta de 184 a.C. Essa comédia se inscreve na tradição da Comédia Nova latina, que imitava originais gregos da comédia de autores do século IV e III a.C., como Me-nandro, e faz parte do período de formação da literatura latina. O enredo envol-ve personagens mitológicos (Júpiter e Mercúrio) e personagens pertencentes ao ciclo tebano da mitologia grega: Anfitrião, casado com Alcmena, é general do rei Creonte de Tebas e está liderando o exército contra os Teleboanos. Aprovei-tando-se dessa ocasião, Júpiter, famoso por seus muitos casos extraconjugais, assume as feições do general e visita Alcmena, para com ela passar a noite mais longa de todas (Júpiter ordena que a deusa Noite permaneça até que ele ordene o contrário). Alcmena já estava grávida de Anfitrião, mas Júpiter a faz duas vezes grávida, e o filho que nasce dessa relação clandestina é nada menos que Hér-cules, o famoso herói grego. Para conseguir levar a cabo tal feito clandestino, Júpiter pede a Mercúrio, seu fiel ajudante nesse tipo de empreitada, que se faça similar ao escravo da casa, o estúpido Sósia. Na cena que leremos abaixo, Sósia está retornando para casa para narrar a Alcmena a vitória do marido, e anunciar que em breve Anfitrião retornará. No entanto, Sósia encontra um símile de si que bloqueia sua entrada, enquanto, dentro da casa, um outro Anfitrião está com Alcmena. A cena é antológica, e Mercúrio conseguirá convencer Sósia de que ele deixou de ser ele mesmo.

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SÓSIA: Quem haverá mais audaz e mais confiante do que eu, que bem sei dos costumes da juventude e que ando sozinho noite fora? Que vou eu fazer se os triúnviros me meterem na cadeia? Amanhã tiram-me da cela e levam--me para as chicotadas sem mesmo deixarem que me defenda; nenhum so-corro tenho a esperar de meu dono e não haverá ninguém que não ache que mereço o castigo. Oito homens fortes malhariam em mim como se eu fosse uma bigorna. E era com essa hospitalidade que eu seria recebido ao regres-sar. Mas a tudo isto me obrigou a impaciência de meu amo que me levou a sair do porto, sem eu querer, ainda de noite. Não é verdade que ele me pode-ria ter mandado de dia? Mas é duro servir um homem rico. O escravo do opu-lento é o mais infeliz de todos. De noite e de dia tem sempre alguma coisa que se faça, alguma coisa que se tem de realizar ou de dizer, só para que se não esteja quieto. Um amo rico e que não tem experiência nem de trabalho, nem de fadigas, julga que se pode fazer tudo o que lhe vem à cabeça; pensa que tudo está certo e não se importa com o trabalho que possa dar. E nem vai sequer refletir se é justo ou injusto aquilo que mandou. É por isso que quem serve tem de esperar muita injustiça; mas é uma carga que se tem de suportar e de aguentar, qualquer que seja o trabalho que dê.

MERCÚRIO (à parte): O mais acertado era ser eu a queixar-me deste modo da servidão, sempre fui livre, exceto hoje. Mas a ele já o pai o fez escravo; nasceu servindo, e ainda se queixa. Mas realmente só sou escravo de nome.

SÓSIA: O que eu pensava ao chegar era dar graças aos deuses, era mostrar- -lhes alguma gratidão pelos favores que me fizeram. Por Pólux! Se eles ten-cionassem recompensar-me pelos meus méritos com certeza arranjariam alguém para me partir a cara à chegada: de fato, sempre fui ingrato, nunca dei importância ao bem que me fizeram.

MERCÚRIO (à parte): Este faz o que não é costume: sabe o que merece.

SÓSIA: Aconteceu aquilo que eu não esperava, nem esperou nenhum dos nossos patrícios: voltar são e salvo à nossa terra. O exército regressa vitorioso,

Essa peça foi tão lida, apreciada e imitada que até mesmo Camões tem um Auto dos Enfatriões e, no século XX, o dramaturgo brasileiro Guilherme Figueire-do escreveu uma peça ainda mais burlesca, chamada Um deus dormiu lá em casa. Entre as realizações mais interessantes dessa peça, dado seu vigor e recepção posterior, estão as nominalizações do nome próprio Sósia, que passa a sig-nificar “o símile, o outro que é igual”, e do nome próprio Anfitrião, que passa a significar “aquele que recebe em sua casa”.

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Os pronomes em latim

depois de derrotado o inimigo, depois de terminada esta enorme guerra e de destruir os adversários, que tinham causado tantos desastres ao povo tebano. A cidade foi vencida e tomada de assalto pelo ímpeto, pelo valor dos nossos soldados sob o comando e a guia de meu amo, Anfitrião. Distribuiu aos seus concidadãos os despojos, as terras, e o cereal. E garantiu o seu trono a Creonte, rei de Tebas. Mesmo do porto mandou-me a casa, à sua frente, para anunciar tudo isso à mulher, a forma por que ele salvou o Estado com o seu comando, as suas ordens, a sua guia. E eu agora estou a pensar de que maneira lho hei de dizer quando chegar lá. Se eu disser mentiras, não procederei senão se-gundo o meu costume. Quando eles combatiam com toda a coragem, fugia eu o mais que podia e, no entanto, tenho de fingir que estive lá e contar-lhe o que ouvi. Mas o que eu desejo meditar a sós comigo é de que modo e com que palavras me convém mentir; o que eu vou fazer é falar assim.

Primeiro, logo que lá chegamos, e mal se desembarcou, escolheu Anfitrião os chefes principais e nomeou-os seus delegados, dando-lhes ordem de comunicar aos teléboas as suas determinações: se eles quisessem, sem vio-lência e sem guerra, entregar os raptores e o raptado, se restituíssem o que tinham levado, imediatamente ele faria regressar o exército, os argivos aban-donariam o campo e ele lhes daria sossego e paz. Mas que se outra fosse a sua intenção, que se não dessem aquilo que ele pedia, ele então tomaria de assalto com toda a violência e todo o seu exército a sua cidade.

Quando aqueles que Anfitrião tinha enviado disseram estas coisas por sua ordem aos teléboas, logo os outros, homens corajosos, confiados nas suas forças e no seu valor, e altivos, insultam os nossos delegados com toda a violência; respondem que podiam muito bem guardar-se pelas armas, a si e aos seus e que, portanto, tratassem de retirar o exército dos seus territórios, o mais depressa possível.

Quando os delegados vieram comunicar isso, Anfitrião mandou sair ime-diatamente do acampamento todo o seu exército; por seu lado os teléboas formam as suas legiões fora da cidade, todas equipadas de armas esplên-didas. Depois que duma banda e doutra saiu uma grande quantidade de gente, ficaram dispostos os homens e ficaram dispostas as formações: nós dispusemos as tropas segundo a nossa maneira, o nosso costume, e por seu turno fazem o mesmo os Inimigos com as legiões que lhes pertencem. Depois ambos os comandantes se dirigem ao meio para além das linhas e falam um com o outro; concordam em que os vencidos nessa batalha en-treguem a cidade, o campo, os altares, os lares, e a si próprios se entregam.

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Os pronomes em latim

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Depois de feito isso, soam as trombetas de um e de outro lado e em resposta a terra ecoa; levanta-se um clamor de ambos os lados e de ambos os lados faz o general seus votos a Júpiter e exorta o seu exército.

Então cada um mostra aquilo que pode o seu valor, e fere com o ferro; passam os dardos, reboa o céu com o clamor dos homens; forma-se uma nuvem com o seu fôlego, o seu bafo; caem prostrados pela violência das feridas e dos encontros. Finalmente, como era nossa vontade, o nosso exército sai vence-dor; os inimigos caem em grande número, e os nossos se lançam ao ataque. Vencemos pela nossa coragem terrível. Todavia, ninguém se põe em fuga, ninguém recua do seu lugar, mas ali combate; prefere morrer a recuar um passo; cada um fica jazendo no lugar em que estivera e morre no seu posto. Logo que Anfitrião, meu amo, viu tudo isso, imediatamente mandou a cava-laria atacar pela direita. Os cavaleiros obedecem logo e com grande clamor, com violento ímpeto, voam pela direita e derrotam, destroem com toda a justiça as injustas tropas inimigas.

MERCÚRIO (à parte): Até agora ainda ele não disse mentira nenhuma: eu e meu pai estávamos lá, enquanto se combatia.

SÓSIA: Os inimigos põem-se então em fuga, o que aumenta o ardor dos nossos; os teléboas que fugiam ficam com os corpos cobertos de dardos e o próprio Anfitrião matou com suas mãos el rei Ptérela. Combateu-se desde manhã até à noite, coisa que me lembro perfeitamente porque nesse dia não jantei. Por fim, a noite chegou e com sua intervenção decidiu o combate. No dia seguinte, vieram os chefes inimigos, da cidade para o acampamento para falar conosco; vinham chorando e, erguendo as mãos, pediam que lhes perdoássemos os seus erros. E todos eles se entregam, com os seus bens, com os seus deuses, com a cidade e com os filhos, ao arbítrio e à vontade do povo tebano. Depois foi entregue a meu amo, Anfitrião, por causa de sua coragem, uma taça de ouro por onde o rei Ptérela costumava beber. É isto o que eu vou dizer à senhora. E agora tenho de cumprir as ordens de meu amo e de entrar em casa.

MERCÚRIO (à parte): Que é lá isso? Entrar em casa? Vou-lhe já ao encontro. Hoje não vou deixar que este homem entre em casa e como tenho o seu aspecto acho que vou brincar um bocado com ele. E, assim como lhe tomei a forma e as ocupações, também tenho que praticar os mesmos feitos e mos-trar os mesmos costumes. Tenho de ser ruim, esperto, astuto e de afastá-lo da porta com a malícia, que é a sua arma especial. Mas que é isso? Está a olhar para o céu! Vou ver o que é que ele está a fazer.

SÓSIA: O que eu sei, ao certo, por Pólux, se há alguma coisa que eu realmente

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Os pronomes em latim

saiba ao certo, ou creia saber, é que me parece que esta noite Vésper se em-briagou e se deixou dormir. Efetivamente nem as estrelas da Ursa se mexem no céu, nem a lua se move do lugar onde nasceu. Nem Orionte, nem Vênus, nem as Plêiades vão para o poente. Todas as estrelas estão paradas e a noite não cede o lugar ao dia.

MERCÚRIO (à parte): Vamos, noite, continua como começaste, faze a vontade a meu Pai; fazes otimamente uma coisa ótima a uma ótima pessoa. Vais ver como ganhas!

SÓSIA: Eu acho que nunca vi noite maior do que esta, a não ser quando estive pendurado a apanhar chicotadas. No entanto, por Pólux! esta noite ainda me parece maior. Por Pólux! acho que o sol está dormindo por ter bebido em exces-so e muito me admiraria se ele não tivesse ceado hoje um bocadinho a mais.

MERCÚRIO (à parte): Ah é isso o que tu dizes, meu patife! Julgas que os deuses são iguais a ti? Por Pólux! hoje é que eu te vou dar o que mereces pelos teus ditos e malefícios, grande malandro! Anda cá, se queres ver o que te acontece.

SÓSIA: Onde estão esses pândegos que ficam deitados sozinhos e de má vonta-de? Isto é que é noite para se passar com moças e lhes fazer ganhar dinheiro!

MERCÚRIO (à parte): Então meu Pai está a proceder muito bem segundo a opinião deste homem, visto que está deitado com Alcmena, abraçando-a e amando-a, segundo sua vontade.

SÓSIA: Pois lá vou, segundo as ordens de meu amo, a dar a notícia a Alcmena. (Percebendo Mercúrio.) Mas que homem é esse que eu vejo, assim de noite, diante da porta? Não me agrada nada.

MERCÚRIO (à parte): Nunca vi ninguém com tanto me do.

SÓSIA (à parte): Quem será? Vem-me agora à ideia que ele é capaz de julgar que tem algum conserto a fazer-me no manto.

MERCÚRIO (à parte): O homem está com medo; vou brincar com ele.

SÓSIA (à parte): Estou perdido! Até tenho comichão nos dentes! Acho que ele me vai mesmo receber a soco! Naturalmente por bondade: como o amo me deu ordem de ficar acordado, ele me fará dormir com os punhos. Ai que estou mesmo morto! Por favor! Por Hércules! Que tamanho! Como é forte!

MERCÚRIO (à parte): Agora vou falar alto para ele ouvir o que digo, o que o fará ter um medo ainda muito maior. (Alto.) Vamos, punhos! Já há muito tempo que vós não dais comida para a barriga; e já me parece que foi há muito tempo, quando foi ontem, que vós pusestes a dormir, e nus, aqueles quatro homens.

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SÓSIA (à parte): Do que eu estou com medo é de ter que mudar de nome e passar de Sósia a Quinto1. Ele gaba-se de ter feito adormecer quatro homens! Estou com muito receio de ir aumentar o número!

MERCÚRIO (na atitude de quem se prepara para bater): Olá! Vamos embora! Toca a recebê-lo!

SÓSIA (à parte): Já está a arregaçar-se, já está a preparar-se!

MERCÚRIO (à parte): Quem apanhar, não aguenta!

SÓSIA (à parte): Mas quem?

MERCÚRIO: Quem vier, seja quem for, há de comer-me os socos!

SÓSIA (à parte): O quê? Agora assim de noite? Não! Acabei de cear, o melhor é tu ires oferecer essa ceia a quem esteja com fome!

MERCÚRIO (à parte): O peso deste punho não é nada mau.

SÓSIA (à parte): Estou perdido! Está pesando os punhos!

MERCÚRIO: E se eu lhe tocar um bocadinho, a ver se ele dorme?

SÓSIA (à parte): Isso é que era favor! Há três noites seguidas que estou acordado.

MERCÚRIO: Mas isto é uma coisa horrível! Esta mão não sabe senão bater à bruta; será que tem sempre que ficar doutro feitio tudo aquilo em que tocas?

SÓSIA (à parte): Então este homem não se vai pôr a trabalhar em mim? Quer fazer-me outra cara...!

MERCÚRIO (à parte): Cara em que tu bateres a jeito, tem de ficar logo sem ossos!

SÓSIA (à parte): Olha agora! Está pensando em tirar-me os ossos, como se eu fosse uma moreia! Oxalá estivesse bem longe quem assim desossa gente! Se ele me vê, estou perdido!

MERCÚRIO (à parte): Sinto o cheiro dum desgraçado!

SÓSIA (à parte): Será que eu deitei algum fedor?

MERCÚRIO: Acho que não deve estar longe. (Com ironia ameaçadora:) E já esteve longe...

SÓSIA (à parte): Mas este homem adivinha!

MERCÚRIO (à parte): Até as mãos já mexem!

SÓSIA (à parte): Pois se as vais exercitar em mim, o melhor era amansá-las pri-meiro na parede.

MERCÚRIO (à parte): Houve uma voz que voou até aos meus ouvidos.1 Quinto era efetivamente um nome próprio romano e designava primitivamente o quinto filho.

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Os pronomes em latim

SÓSIA (à parte): Ai que pena que foi não lhe ter cortado as asas; tenho voz de pássaro!

MERCÚRIO (à parte): Parece que este homem veio procurar carga para o burro.

SÓSIA (à parte): Mas eu não tenho burro nenhum!

MERCÚRIO (à parte): Pois vai levar uma carga de socos!

SÓSIA (à parte): Estou cansado do navio que me trouxe aqui; ainda sinto o enjoo. Mal posso andar. Como é possível que ainda me queiram carregar.

MERCÚRIO (à parte): Não sei quem anda a falar por aqui.

SÓSIA (à parte): Estou Salvo. Ele não me vê. Julga que anda a falar o Não-sei- -quem. Ora, eu chamo-me Sósia.

MERCÚRIO (à parte): Parece que a voz me chegou agora da direita.

SÓSIA (à parte): Se a voz lhe chegou da direita, lá me vai ele chegar a mim em vez de à voz.

MERCÚRIO: Ora muito bem, aqui vem ele.

SÓSIA (à parte): Estou cheio de medo, estou entorpecido de todo. Se alguém me perguntasse eu nem poderia dizer em que lugar estou da terra; e ai de mim, é tanto o medo que nem me posso mexer! Lá morrem juntos Sósia e os recados do amo! Mas o que tenho de fazer é de lhe replicar com coragem; talvez eu lhe pareça bastante forte para não me pôr as mãos.

(Anfitrião, ato II, cena I)

Dica de estudoConsulte algumas gramáticas e estude o funcionamento dos pronomes na

nossa língua. Depois compare com os pronomes latinos.

Atividades1. Com o poema de Catulo a seguir podemos estudar vários tipos de prono-

mes. Leia atentamente o texto e procure identificar a forma dos pronomes grifados (dando número, caso, gênero e tipo):

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Os pronomes em latim

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Miser Catulle, desinas ineptire,et (1) quod uides perisse perditum ducas.Fulsere quodam candidi tibi soles, cum uentitabas quo puella ducebatamata nobis quantum amabitur nulla. Ibi illa multa tum iocosa fiebant, (2) quae tu uolebas nec puella nolebat. Fulsere uere candidi tibi soles.Nunc iam illa non uolt; tu quoque, inpotens, noli, nec (3) quae fugit sectare, nec miser uiue, sed obstinata mente perfer, obdura. Vale, puella. Iam Catullus obdurat, nec te requiret nec rogabit inuitam; at tu dolebis, cum rogaberis nulla. Scelesta, uae te; (4) quae tibi manet uita! (5) Quis nunc te adibit? (6) Cui uideberis bella? (7) Quem nunc amabis? (8) Cuius esse diceris? (9) Quem basiabis? (10) Cui labella mordebis? At tu, Catulle, destinatus obdura.

Meu pobre Catulo, põe um termo neste delirare considera perdido (1) o que vês que se perdeu. Em tempos passados sóis luminosos brilharam quando tu, constantemente, corrias para onde te chama-va a jovem por nós tão amada quanto nenhuma outra será jamais amada. Nestes encontros então aconteciam aqueles inumeráveis momentos de prazer: (2) o que tu querias a jovem também não o deixava de querer. Sóis luminosos realmente brilharam para ti. Hoje, porém, ela já não quer mais.Também tu, incapaz de te conteres, não queiras mais, não persigas (3) aquela que te foge, não vivas infeliz, mas conserva inflexível teu espírito, resiste. Adeus, minha jovem amiga, Catulo já resiste, não mais irá te procurar, não mais te convidará a um encontro, se não o desejares. Mas tu chorarás quando não mais fores solicitada. Ai de ti, infeliz. (4) Que vida te está reservada? (5) Que homem irá ter contigo? (6) A quem parecerás bela? Agora (7) a quem amarás? (8) A quem dirão que pertences? (9) A quem beijarás? (10) De quem morderás os lábios? Mas tu, Catulo, resiste.

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Os pronomes em latim

2. Preencha o quadro abaixo com as formas flexionadas corretas dos pronomes de acordo com o substantivo com o qual eles devem concordar, dado na primeira coluna. Cuidado com as possíveis ambiguidades.

is, ea, id hic, haec, hoc

ille, illa, illud

iste, ista, istud

qui, quae, quod

feminam

dominōrum

miles

seruīs

uerba

aedī

3. Traduza as seguintes orações:

a) regina se amat.

b) ille coquus tibi haec uerba dixit.

c) ille seruus suum regem non uidet.

d) eae aedes dabuntur militibus quī bene pugnant.

e) nōs necamus hostes quōs uidimus.

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Os pronomes em latim

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ReferênciasALMENDRA, Maria Ana; FIGUEIREDO, José Nunes. Compêndio de Gramática Latina. Porto: Porto Editora, 2003.

CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao Latim. São Paulo: Ática, 1993. (Série Princípios).

JONES, Peter V.; SIDWELL, Keith C. Reading Latin: grammar, vocabulary and exercises. Cambridge: Cambridge University Press, 1986a.

______; ______. Reading Latin: text. Cambridge: Cambridge University Press, 1986b.

PEREIRA, Maria Helena M. da R. Romana: Antologia da cultura latina. 3. ed. Coim-bra: Instituto de Estudos Clássicos, 1994. (Org. e trad. do latim).

______. Estudos de História da Cultura Clássica II: cultura romana. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.

PLAUTO; TERêNCIO. A Comédia Latina. Tradução de: SILVA, Agostinho da. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.].

REZENDE, Antônio Martinez de. Latina Essentia: preparação ao latim. Belo Ho-rizonte: UFMG, 2003.

REZENDE, A. M.; BIANCHET, Sandra Gualberto. Dicionário do Latim Essencial. Belo Horizonte: Crisálida: Tessitura, 2005.

RÓNAI, Paulo. Gradus Primus: curso básico de latim. São Paulo: Cultrix, 2006.

TORRINHA, F. Dicionário Latino-Português. Porto: Gráficos Reunidos, 1993.

Gabarito1. (1) quod – neutro singular acusativo pronome relativo.

(2) quae – neutro plural acusativo pronome relativo.

(3) quae – feminino singular nominativo pronome relativo.

(4) quae – feminino singular nominativo pronome relativo.

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Os pronomes em latim

(5) quis – masculino singular nominativo pronome interrogativo.

(6) cui – masculino/feminino singular dativo pronome interrogativo.

(7) quem – masculino singular acusativo pronome interrogativo.

(8) cuius – feminino singular genitivo pronome interrogativo.

(9) quem – masculino singular acusativo pronome interrogativo.

(10) cui – masculino/feminino singular dativo pronome interrogativo.

2.

is, ea, id hic, haec, hoc

ille, illa, illud

iste, ista, istud

qui, quae, quod

feminam eam hanc illam istam quam

dominōrum eōrum hōrum illōrum istōrum quōrum

miles is hic ille iste qui

seruīs eīs hīs illīs istīs quibus

uerba ea haec illa ista quae

aedīeī / eā(dat ou abl)

huic / hāc illī / illā istī / istā cui / quā

3.

a) regina se amat (A rainha se ama).

b) ille coquus tibi haec uerba dixit (Aquele cozinheiro disse estas palavras para você).

c) ille seruus suum regem non uidet (Aquele escravo não vê o seu rei).

d) eae aedes dabuntur militibus quī bene pugnant (Aquela casa será dada para os soldados que lutam bem).

aedes, ium: templo (no singular) e casa (no plural).

e) nōs necamus hostes quōs uidimus (Nós mesmos matamos os inimigos que vimos). – nōs dá ideia de ênfase.

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Os pronomes em latim

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Neste capítulo veremos as principais conjunções, divididas em dois tipos básicos: as coordenativas e as subordinativas. As conjunções coor-denativas serão vistas com exemplos de sentenças em latim; já as con-junções subordinativas serão analisadas conforme o tipo de estrutura de subordinação, que serão explicadas separadamente. Por fim, veremos um tipo especial de subordinação feita sem o uso de conjunções, que estabe-lece o tipo de construção chamada acusativo com infinitivo.

ConjunçõesA classe de palavras das conjunções se constitui de palavras que jamais

se flexionam e que têm como função ligar duas estruturas do mesmo tipo. Por exemplo, uma conjunção como “e” pode ligar um substantivo a outro, um verbo a outro, uma sentença a outra. A maior parte das conjunções que veremos liga sentenças (completas ou incompletas) entre si. Muitas das conjunções que estudaremos aqui podem ser aproximadas do seu equivalente em português, ou pelo uso ou pela etimologia.

Conjunções coordenativasAs conjunções coordenativas são aquelas que ligam duas orações,

mas mantêm relativa independência sintática entre elas. Quando dize-mos “Pedro comeu” e “Pedro dormiu” temos duas sentenças isoladas, que podemos ligar por uma conjunção “e”, gerando uma sentença que ainda mantém a independência das duas orações: “Pedro comeu e dormiu”. Esse tipo de coordenação, portanto, estabelece algumas relações simples, como adição, contraste, disjunção, conclusão ou causa/explicação. O re-sultado pode ser separado em duas sentenças sintaticamente completas.

Conjunções: coordenação e subordinação

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Conjunções: coordenação e subordinação

Conjunções aditivasa) et, ac, -que, atque: “e”

Essas conjunções são as conjunções coordenativas simples que significam “e”. Vejamos exemplos:

seruum et dominum uideo. Eu vejo o escravo e o senhor.

seruum dominumque uideo. Eu vejo o escravo e o senhor.

O segundo exemplo nos mostra uma característica interessante da conjun-ção -que. Trata-se, na verdade, de uma espécie de sufixo que, acrescentado ao último elemento de uma lista, funciona como a conjunção “e” da língua portu-guesa. Como partícula enclítica ligada ao elemento coordenado, o -que modifi-ca o padrão acentual da palavra à qual se liga, pois passa a ser a última sílaba, atraindo o acento para a penúltima. Assim, por exemplo, o acento em dóminum, antes na antepenúltima, agora cai em dominúmque, uma vez que o encontro consonantal mq transforma a vogal anterior em vogal longa, o que favorece a atribuição do acento para uma penúltima sílaba quando longa.

b) etiam, quoque, et: “também”

A conjunção quoque aparece, via de regra, após a primeira palavra da senten-ça. A conjunção et com sentido de “também” pode ser distinguida daquela com sentido de “e” quando aparece na primeira posição de uma sentença, sem ligar dois ou mais elementos. Vejamos exemplos:

domini diuites sunt. reges quoque. / et reges. Senhores são ricos. Reis também.

c) nec, neque: “nem”, “e não”

seruum non uideo nec dominum uoco. Não vejo o escravo nem chamo o senhor.

d) et... et: “tanto... quanto”

Essa sequência, como várias outras sequências de conjunções, constitui o que chamamos de conjunções correlativas, pois estabelece um tipo de signi-ficado sempre que as duas conjunções integrantes da sequência ocorrem no mesmo período. Nesse caso, temos ainda mais um uso da mesma conjunção et. Vejamos um exemplo:

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Conjunções: coordenação e subordinação

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et seruum et dominum uideo. Vejo tanto o escravo quanto o senhor.

e) cum... tum, non solum... sed etiam: “não só... mas também...”

Trata-se de ainda outras correlativas aditivas. Vejamos um exemplo:

non solum milites hostes pugnauerunt, sed etiam eos necauerunt. Não so-mente os soldados lutaram contra os inimigos, mas também os mataram.

Conjunções adversativasa) at, sed, uerum: “mas”, “mas, pelo contrário,...”

Essas são as conjunções adversativas mais básicas, correspondentes ao nosso “mas”. Vejamos um exemplo:

serui pauperes sunt, sed habent diuites dominos. Escravos são pobres, mas têm senhores ricos.

b) uero, autem, tamen: “porém, todavia”

A conjunção autem é mais um exemplo de conjunção pospositiva, como quoque, ou seja, ela aparece como segunda palavra de uma oração. Exemplo:

milites boni sunt. ego autem eos timeo. Militares são bons. Eu, porém, os temo.

Conjunções disjuntivasa) aut, uel, siue, -ue: “ou”; seu... seu: “ou... ou”, “quer... quer”

Essas são as conjunções que significam “ou” em português. A nossa palavra “ou”, como percebemos, inclusive, descende diretamente da forma aut (assim como o nosso “e” é claramente derivado do et latino). Assim como a forma en-clítica aditiva -que “e”, o -ue é uma partícula acrescentada ao final do último elemento da disjunção. Vejamos dois exemplos com o mesmo significado:

argentum aut aurum uolo. Eu quero prata ou ouro.

argentum aurumue uolo. Eu quero prata ou ouro.

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Conjunções: coordenação e subordinação

Conjunções conclusivasa) ergo, igitur: “portanto, logo”

A conjunção igitur também faz parte do conjunto das conjunções que apare-cem na segunda posição da oração, como autem e quoque. Vejamos exemplos de uso dessas conjunções conclusivas:

cogito ergo sum. Penso, logo existo.

seruus dominum timet. ille igitur fugit. O escravo teme o senhor. Portanto, ele foge.

Conjunções causais/explicativas a) nam, enim: “pois”, “porque”

Dessas duas conjunções importantíssimas, enim também é pospositiva, e aparece sempre na segunda posição da sentença. Vejamos exemplos de conjun-ções coordenativas causais:

ille rex filios non habet, nam regina non uult. Aquele rei não tem filhos, pois a rainha não quer.

Conjunções subordinativasAs conjunções subordinativas são aquelas que fazem com que uma expres-

são sentencial passe a ser parte de outra, de modo a termos uma oração que chamamos de “principal” e outra que chamamos de “subordinada”. A diferença principal entre as orações coordenadas por conjunções e as subordinadas é que, no caso destas últimas, se separarmos as duas orações elas não farão sentido sintático completo sozinhas. No caso das coordenadas, é mais provável que elas possam fazer sentido sozinhas, como vimos anteriormente.

As conjunções subordinativas precisam ser aprendidas juntamente com o modo do verbo da oração subordinada. Muitas orações subordinadas levam os verbos sempre no subjuntivo, de maneira a nos fazer dizer, inclusive, que o subjuntivo é o caso da subordinação. Há, no entanto, alguns tipos de orações subordinadas que podem ter seus verbos no indicativo. Vejamos a seguir os tipos principais.

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Conjunções: coordenação e subordinação

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Conjunções condicionaisa) si “se”, sin “mas se”, siue “seja que”, nisi “se não, a não ser que”, dum “contanto

que”

Orações condicionais relacionam duas expressões, de modo que se considere uma como condição para que o evento expresso pela outra se realize. Podem se construir basicamente de duas maneiras: com verbos no indicativo ou no sub-juntivo. Vejamos as diferenças principais:

Com verbos no indicativo, o significado do condicional envolve situações reais, que podem acontecer.

si dominus seruum uidet, eum uerberat. Se o senhor vê o escravo, castiga-o.

Com verbos no subjuntivo, os significados do condicional podem ser varia-dos, e envolvem situações irreais ou desejadas. Vejamos exemplos:

si canis felem mordeat, laetus sit. Se o cão morder o gato, ficará feliz. [E ele poderá fazê-lo a qualquer momento.]

Os verbos no presente do subjuntivo dão ideia de possibilidade, e a tradu-ção em português reflete essa possibilidade.

si canis felem morderet, laetus esset. Se o cão mordesse [agora] o gato, ele estaria feliz. [Mas ele não está mordendo.]

Os verbos aqui no imperfeito do subjuntivo dão ideia de irrealidade, uma vez que o evento não aconteceu, mas poderia acontecer e, se acontecesse, teria as consequências da oração condicional.

si canis felem momordisset, laetus fuisset. Se o cão tivesse mordido o gato, teria ficado feliz. [Mas ele não mordeu, e fez qualquer outra coisa, ou não é mais possível mordê-lo.]

Os verbos aqui no mais-que-perfeito do subjuntivo expressam a ideia de que o evento considerado na oração principal não pode mais se realizar, de forma que se trata de algo impossível, irreal, apenas desejado.

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Conjunções: coordenação e subordinação

Conjunções causaisAs conjunções subordinativas causais como cum, quia, quod relacionam uma

expressão a outra, estabelecendo entre elas a relação de causalidade, de modo que uma das duas orações é a causa ou motivo pelo qual se deu o evento ex-presso pela outra.

a) cum: “como”, “uma vez que”

Essa conjunção constrói-se basicamente com subjuntivo. Vejamos um exemplo:

cum felem non uidisset, canis eum non momordit. Como / uma vez que não visse o gato, o cão não o mordeu.

b) quod, quia, quoniam: “quando”, “porque”, “uma vez que”, “já que”

Essas conjunções causais constroem-se basicamente com indicativos. Exemplo:

canis felem non momordit quia eum non uidit. O cão não mordeu o gato porque não o viu.

Conjunções consecutivas As conjunções consecutivas também podem ser chamadas de resultativas,

pois colocam duas orações em uma relação tal que uma exprime um evento que foi determinante para o acontecimento do evento denotado pela outra. Cons-troem-se com o modo subjuntivo.

a) ita, sic, tam... ut: “tanto/tão... que”

tam fortis erat ut omnes eum timuissent. Era tão forte que todos o temiam.

Conjunções finaisAs conjunções subordinativas finais são responsáveis por dar a ideia de que o

evento denotado pela oração principal foi realizado para que o da subordinada pudesse vir a se realizar.

a) ut: “para”, “para que”; ne: “para que não”

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Conjunções: coordenação e subordinação

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A conjunção ut com sentido final constrói-se com o subjuntivo, e a forma ne é sua forma negativa. A depender do tempo da oração principal, o subjuntivo da oração subordinada também sofrerá mudanças. Vejamos alguns exemplos:

canis felem petit ut eum mordeat. (presente do indicativo + presente do sub-juntivo) O cão procura o gato para que o morda / para mordê-lo.

canis felem petiuit ut eum morderet. (perfeito do indicativo + imperfeito do subjuntivo) O cão procurou o gato para que o mordesse.

Um exemplo na negativa:

felis non uenit ne morditus esset a cane. (subjuntivo imperfeito passivo) O gato não veio para que não fosse mordido pelo cão.

Conjunções concessivasAs conjunções concessivas mais importantes são quamquam e quamuis, que

expressam a ideia de que um certo evento da subordinada ocorre mesmo que ou apesar de um outro evento ocorrer.

a) quamquam: “embora” + indicativo

Essa preposição concessiva ocorre no indicativo em latim. Em português, ba-sicamente, as ideias concessivas são expressas pelo modo subjuntivo. Vejamos um exemplo:

quamquam felis celer est, eum canis mordet. Embora o gato seja rápido, o cão o morde.

b) quamuis: “embora” + subjuntivo

quamuis felis celer sit, eum canis mordet. Embora o gato seja rápido, o cão o morde.

Percebemos, contrastando o uso das duas conjunções concessivas mais im-portantes, que ambas acabam sendo traduzidas da mesma forma, em virtude de em português usarmos o subjuntivo com orações concessivas.

Conjunções comparativasAs conjunções comparativas estabelecem relações simples de comparação

entre duas orações. Uma delas, o quam, já conhecemos como conjunção que geralmente acompanha as construções de adjetivos comparativos.

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Conjunções: coordenação e subordinação

a) ac, atque, ut: “como”, “assim como”

seruum malus est ut serui mali solent esse. O escravo é mau como costumam ser maus os escravos.

b) ut si, uelut si, quasi: “como se”

seruum uerberat ut si malus esset. Ele castiga o escravo como se fosse mal.

Conjunções temporais As conjunções temporais estabelecem relações de simultaneidade, duração,

anterioridade e posterioridade entre eventos. Algumas pedem o modo indicati-vo, outras o subjuntivo.

a) cum, ubi: “quando”

Essas duas conjunções constroem-se com o indicativo. Como vimos anterior-mente, cum pode se construir com subjuntivo quando possui significado con-cessivo (e, de certa forma, também temporal), mas, no uso temporal mais sim-ples, usa-se o indicativo. Vejamos um exemplo:

cum/ubi felis peruenit, canis eum momordit. Quando o gato chegou, o cão o mordeu.

b) dum, donec + indicativo: “enquanto”

Diferentemente de ubi e cum, essas conjunções temporais dão a ideia de simultaneidade de eventos, e, com esse sentido, constroem-se com indicativo. Exemplo:

dum dominus dormit, seruus laborat. Enquanto o senhor dorme, o escra-vo trabalha.

c) dum, donec + subjuntivo: “até que”

Com o subjuntivo, essas conjunções dão ideia de que o evento da oração principal se estende até que o evento da subordinada aconteça e, juntamente com isso, podemos ter a ideia de que se espera ou se tem intenção de que o evento que ainda não chegou venha a acontecer. Vejamos alguns exemplos:

mane dum redeam. Espere até que eu volte. [E eu tenho intenção de voltar.]

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Conjunções: coordenação e subordinação

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canis felem mordebit donec fugiat. O cão morderá o gato até que ele fuja.

d) antequam, priusquam “antes (que)”; postquam “depois (que)”

Essas conjunções temporais expressam relações de anterioridade e posterio-ridade entre os eventos da principal e da subordinada. O modo utilizado é basi-camente o subjuntivo. Vejamos alguns exemplos:

seruus fugit antequam dominus eum uiderem. O escravo fugiu antes que o senhor o visse.

postquam felem inuenit, canis eum momordit. Depois que encontrou o gato, o cão o mordeu.

A questão da subordinação sem conjunção: o acusativo com infinitivo

Uma maneira muito peculiar de se fazer subordinação em latim é a que cha-mamos de acusativo com infinitivo. Trata-se de uma construção em que a oração subordinada não é introduzida por nenhuma conjunção, e a expressão inteira subordinada ao verbo da oração principal funciona como um objeto direto dele, de forma que o substantivo sujeito da oração subordinada recebe caso acusativo e o verbo da oração subordinada, sem conjunção para fazer com que ele se fle-xione, mantém-se no infinitivo.

Vejamos um exemplo simples:

nolo canem mordere felem. Literalmente: Eu não quero o cão morder o gato.

No entanto, como esse tipo de expressão literal da tradução não é comum em português, e pode inclusive resultar em expressões agramaticais, procura-mos dar uma tradução para essas sentenças que seja mais próxima do tipo de construção subordinativa que fazemos em português. Portanto, da expressão literal acima faremos:

nolo canem mordere felem. Eu não quero que o cão morda o gato.

Analisando mais detidamente a construção toda, podemos pensar em toda a oração subordinada como objeto direto do verbo da oração principal, da se-guinte forma:

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Conjunções: coordenação e subordinação

uolo [canem mordere felem]

Verbo da oração principal

Sujeito da subordinada no acusativo

Verbo da subordinada no infinitivo

Objeto direto do verbo da subordinada

Vários tipos de verbos exigem esse tipo de construção. Basicamente, o verbo uolo e seus derivados, como vimos, são dos mais comuns. Outros tipos comuns são os verbos de ordem, como iubeo “ordenar, mandar”, e os verbos de introdução de discurso indireto, como os verbos de dizer, de sentir, de pensar, de achar, como dico “dizer”, sentio “sentir”, puto “pensar, achar”, opinor “opinar, achar”.

Vejamos alguns exemplos:

dominus iubet [seruum adire ad agrum]. O senhor ordena [que o escravo vá até o campo].

dominus dixit [seruos esse stultos]. O senhor disse [que escravos são estúpidos].

seruus sentit [dominum malum esse]. O escravo sente [que o senhor é mau].

milites putant [hostes fugisse]. Os soldados acham [que os inimigos fugiram].

hostes opinantur [duces pugnaturos esse milites]. Os inimigos acham [que os chefes lutarão contra os soldados].

Sobre os últimos dois exemplos, é importante notar que o penúltimo apresen-ta um infinitivo perfeito e o último, um infinitivo futuro. O que os infinitivos pre-sentes, perfeitos e futuros fazem dentro de uma subordinada de acusativo com infinitivo não é carregar o tempo do acontecimento do evento denotado pelo in-finitivo, mas, por outro lado, colocar esse evento em relação ao tempo denotado pelo verbo da oração principal. Dessa forma, se o tempo da oração principal é pre-sente, os tempos da subordinada serão relativos a ele da seguinte forma:

infinitivo presente – simultâneo

infinitivo perfeito – anterior

infinitivo futuro – posterior

Assim, uma mesma oração principal pode ter na subordinada infinitivos dos três tipos, resultando no seguinte:

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Conjunções: coordenação e subordinação

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dominus dicit [seruum currere]. O senhor diz [que o escravo está correndo].

dominus dicit [seruum cucurrisse]. O senhor diz [que o escravo correu].

dominus dicit [seruum cursurum esse]. O senhor diz [que o escravo correrá].

Se trocarmos o tempo do verbo da oração principal, mantendo os infinitivos da subordinada exatamente como eles estão, perceberemos que o “tempo” do infinitivo nada mais é do que um estabelecedor de relação aspectual, ou seja, de simultaneidade, anterioridade e posterioridade. Vejamos primeiramente com o verbo da oração principal no passado:

dominus dixit [seruum currere]. O senhor disse [que o escravo estava correndo].

dominus dixit [seruum cucurrisse]. O senhor disse [que o escravo tinha corrido].

dominus dixit [seruum cursurum esse]. O senhor disse [que o escravo correria].

E finalmente com o verbo da principal no futuro:

dominus dicēt [seruum currere]. O senhor dirá [que o escravo está/estará correndo].

dominus dicēt [seruum cucurrisse]. O senhor dirá [que o escravo terá corrido].

dominus dicēt [seruum cursurum esse]. O senhor dirá [que o escravo estará por correr].

Texto complementarNo trecho seguinte da peça Anfitrião, de Plauto, Mercúrio e Sósia finalmente

começam a conversar e o deus tentará convencer o escravo de Anfitrião, por meio de violência, de que este perdeu a sua identidade. Sósia, demorando a se conven-cer, tentará convencer o deus de que é mesmo Sósia, e de que precisa anunciar a Alcmena, futura mãe de Hércules, as novas sobre a guerra.

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Conjunções: coordenação e subordinação

MERCÚRIO: Para onde vais tu, que assim levas Vulcano metido num chifre?

SÓSIA: Que queres tu que andas aos socos a tirar ossos da cara das pessoas?

MERCÚRIO: Tu és escravo ou homem livre?

SÓSIA: Sou aquilo que me apetece.

MERCÚRIO: Isso é mesmo assim?

SÓSIA: É mesmo assim.

MERCÚRIO: Então, apanhas.

SÓSIA: Não é verdade.

MERCÚRIO: Ah, sim? então já vais ver que é verdade!

SÓSIA: Mas para que é preciso isso?

MERCÚRIO: Pode-se saber quando é que vais, a quem pertences, e por que vieste?

SÓSIA: Venho aqui; sou escravo de meu amo, sabes mais alguma coisa?

MERCÚRIO: Pois hoje hei de espremer-te essa língua danada!

SÓSIA: Não podes, é uma língua discreta e de boa qualidade.

MERCÚRIO: Continuas com as graças? Que tens tu que fazer nesta casa?

SÓSIA: E tu? Que tens tu que fazer?

MERCÚRIO: El-rei Creonte sempre lhe põe sentinelas de noite.

SÓSIA: E faz muito bem; guardava a casa enquanto estávamos ausentes. Mas agora podes-te ir embora e dizer-lhe que já chegou a gente de Anfitrião.

MERCÚRIO: Não sei que gente és tu. E se te não vais imediatamente embora, acho que tenho de receber gente de forma nada gentil.

SÓSIA: Mas eu já disse que moro aqui e que sou escravo da casa.

MERCÚRIO: Pois olha: se te não vais embora, vou dar-te hoje uma grande honra.

SÓSIA: Como é isso?

MERCÚRIO: É que se eu pego num pau, não irás por teu pé. Vão ter que te levar.

SÓSIA: Mas se eu digo que pertenço à gente desta casa!

MERCÚRIO: Olha, se não queres apanhar pancada, o melhor é ires-te já embora.

SÓSIA: Mas tu não me queres deixar entrar em casa, quando eu venho assim de tão longe?

MERCÚRIO: Será que esta é a tua casa?

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Conjunções: coordenação e subordinação

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SÓSIA: Claro que é.

MERCÚRIO: Então quem é teu amo?

SÓSIA: É Anfitrião, que está comandando as legiões tebanas e que é marido de Alcmena.

MERCÚRIO: O que é que tu dizes? E tu? Que nome tens?

SÓSIA: Os tebanos chamam-me Sósia e meu pai chamava-se Davo.

MERCÚRIO: Pois tu hoje vens ao encontro da desgraça, com essas tuas men-tiras audaciosas e essas falsidades mal alinhavadas.

SÓSIA: Com o que eu venho alinhavado não é com as mentiras. É com as túnicas.

MERCÚRIO: Vês como estás a mentir. Tu não vens com as túnicas. Vens com os pés.

SÓSIA: Lá isso é verdade.

MERCÚRIO: Então agora vais apanhar pancada por causa dessa mentira.

SÓSIA: Mas eu não quero, por Pólux!

MERCÚRIO: Pois, por Pólux, apanhas mesmo sem querer! E não é uma pura suposição, é a verdade mesmo. (Bate-lhe.)

SÓSIA: Mas por favor!

MERCÚRIO: Então tu tens a audácia de vires dizer que és Sósia, quando sou eu que sou Sósia?

SÓSIA: Estou perdido!

MERCÚRIO: E olha que é pouco, em comparação com o que vai vir! A quem pertences tu?

SÓSIA: Agora sou teu; fizeste-me teu a soco. Socorro, patrícios tebanos!

MERCÚRIO: Ainda gritas, assassino! Dize lá a que é que vieste?

SÓSIA: Vim para haver alguém que tu abatestes a soco.

MERCÚRIO: A quem pertences tu?

SÓSIA: A Anfitrião, já disse. Sou Sósia.

MERCÚRIO: Então vais apanhar mais, por estares a dizer bobagens. Eu é que sou Sósia, não és tu!

SÓSIA (à parte): Queiram os deuses que tu o sejas! E que eu me transforme em quem te chega!

MERCÚRIO: Ainda rosnas?!

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Conjunções: coordenação e subordinação

SÓSIA: Já me calo.

MERCÚRIO: Quem é teu dono?

SÓSIA: Quem tu quiseres.

MERCÚRIO: E agora, como é que tu te chamas?

SÓSIA: Eu não sou ninguém a não ser quem tu mandares.

MERCÚRIO: Mas tu dizias que eras Sósia e que pertencias a Anfitrião.

SÓSIA: Foi engano. O que eu queria dizer é que era um sócio de Anfitrião.

MERCÚRIO: Eu bem sabia que não tínhamos nenhum escravo chamado Sósia a não ser eu. Tu não estavas em teu perfeito juízo.

SÓSIA (à parte): Oxalá não o estivessem também as tuas mãos.

MERCÚRIO: Eu sou o Sósia que tu há bocado dizias ser tu.

SÓSIA: Por favor, deixa-me falar em paz e não me batas.

MERCÚRIO: Então, se queres falar, vamos fazer umas tréguas.

SÓSIA: Eu só falo depois de concluída a paz, porque tu tens mais força do que eu.

MERCÚRIO: Então dize lá o que queres. Eu não te faço mal.

SÓSIA: Posso confiar na tua lealdade?

MERCÚRIO: Podes.

SÓSIA: E se me enganas?

MERCÚRIO: Então oxalá Mercúrio fique irritado com Sósia!

SÓSIA: Então toma cuidado. Olha que eu agora posso falar do que quiser. Eu sou Sósia, escravo de Anfitrião.

MERCÚRIO: O quê, outra vez?

SÓSIA: Eu fiz a paz, eu fiz um tratado, estou a dizer a verdade.

MERCÚRIO: Olha que apanhas!

SÓSIA: Podes fazer o que quiseres, visto que tens mais força. Mas seja o que for que tu faças, por Hércules, já não me calo.

MERCÚRIO: Tu, enquanto estiveres vivo, não consegues que eu não seja Sósia.

SÓSIA: E tu, por Pólux, também nunca me impedirás que eu pertença à minha casa. Não há nenhum outro escravo a não ser eu que se chame Sósia e que tenha ido para a guerra, juntamente com Anfitrião.

MERCÚRIO: Este homem não está bom da cabeça.

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Conjunções: coordenação e subordinação

209

SÓSIA: O defeito que me atribuis a mim és tu quem o tens. Ora esta, então eu não sou Sósia, o escravo de Anfitrião? Não foi esta noite que chegou do porto Pérsico o navio que me trouxe? Não foi meu amo quem me enviou para aqui? Não estou eu diante de nossa casa? Não tenho eu uma lanterna na mão? Não sou eu quem está a falar? Não estou acordado? Não foi a mim que este homem deu socos? Por Hércules, foi o que ele fez, que ainda me doem os queixos. Mas para que estou eu a hesitar? Por que não entro já em nossa casa?

MERCÚRIO: O quê? Em vossa casa?

SÓSIA: Pois claro.

MERCÚRIO: Tudo aquilo que disseste é mentira: sou eu que sou Sósia, escra-vo de Anfitrião. Foi esta noite que saiu do porto Pérsico o nosso navio; toma-mos de assalto a cidade em que reinou el-rei Ptérela, vencemos em batalha as legiões dos teléboas e foi o próprio Anfitrião quem matou no combate el-rei Ptérela.

SÓSIA: Eu não creio em mim quando o ouço dizer estas coisas! É que ele real-mente sabe tudo o que se passou como se lá tivesse estado. Mas ouve lá, que foi dado pelos teléboas a Anfitrião?

MERCÚRIO: Uma taça de ouro por onde costumava beber el-rei Ptérela.

SÓSIA: Aí está! E onde está essa taça?

MERCÚRIO: Num cofrezinho selado com o sinete de Anfitrião.

SÓSIA: E dize lá, que sinete é esse?

MERCÚRIO: O sol nascente com a sua quadriga. Julgas que me apanhas, assassino?

SÓSIA (à parte): Venceu na discussão. O que eu tenho é que procurar outro nome. Não sei onde é que ele viu tudo isto. Mas agora é que eu o vou atrapa-lhar. Porque com certeza ele não vai poder dizer o que eu fiz quando estava sozinho, metido na tenda, sem mais ninguém. (Alto.) Se tu és Sósia, dize lá o que é que fizeste na tenda, quando as legiões combatiam com toda a violên-cia? Se disseres, dou-me por vencido.

MERCÚRIO: Havia uma bilha de vinho e eu enchi uma garrafa.

SÓSIA: Deu logo certo.

MERCÚRIO: E eu bebi-o puro, tal como o deu a cepa.

SÓSIA: Já não é nada de espantar se ele não estava escondido na garrafa. Aconteceu mesmo isso. Que eu bebi o vinho e o bebi puro.

MERCÚRIO: Então, não é verdade que já te convenci que não és Sósia?

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210

Conjunções: coordenação e subordinação

SÓSIA: Então tu queres dizer que eu não sou eu?

MERCÚRIO: Que hei de eu fazer? Terei por acaso de negar que eu sou eu?

SÓSIA: Juro por Júpiter que sou eu e que estou a dizer a verdade!

MERCÚRIO: E eu juro por Mercúrio que Júpiter não acredita em ti! Mais acre-dita ele em mim, sem eu jurar, do que em ti, jurando tu.

SÓSIA: Então quem sou eu se não sou Sósia? Não farás favor de me dizer?

MERCÚRIO: Quando eu não quiser ser Sósia, podes tu ser Sósia, mas enquan-to eu o sou, olha que apanhas se não te vais sem pio.

SÓSIA: Por Pólux! Realmente quando me ponho a olhar para ele, vejo que tem o meu aspecto; é muito semelhante a mim, pelo que tenho visto no espelho. Tem o mesmo chapéu, o mesmo vestuário: é exatamente como eu: as pernas, os pés, a estatura, o corte do cabelo, os olhos, o nariz, a boca, a cara, o queixo, a barba, o pescoço. Tudinho! Que hei de eu dizer?! Se ele tem as costas com cicatrizes, não há nada mais parecido comigo. Mas também quando me ponho a pensar, eu devo ser aquele que sempre fui. Eu conheço o meu amo, conheço a nossa casa, estou com juízo, tenho os sentidos a fun-cionar. Eu o que vou é não querer saber do que ele diz. Toca a bater à porta.

MERCÚRIO: Para onde é que vais?

SÓSIA: Para casa.

MERCÚRIO: Mesmo que subisses agora ao carro de Júpiter e te pusesses a fugir, dificilmente escaparias a uma desgraça.

SÓSIA: Então não me é permitido ir comunicar à senhora aquilo de que me encarregou meu amo?

MERCÚRIO: Podes ir anunciar o que quiseres, mas à tua. Aqui à minha não tens licença. E olha que se tu me irritas vais sair daqui com o lombo em pedaços.

SÓSIA: Então prefiro ir-me embora. Ó deuses imortais, não quereis ajudar-me? Onde é que eu morri? Quando é que eu me transformei? Onde é que eu perdi a minha cara? Será que eu me deixei aqui por esquecimento? Efetivamente este tem a fisionomia que eu possuía dantes. Fazem-me enquanto vivo o que nunca ninguém me fará depois de morto. Vou ao porto, vou contar a meu amo o que sucedeu por aqui. A não ser que ele também me desconheça, o que Júpiter queira. Vou já hoje rapar a cabeça para usar o boné da liberdade . (Sai.)

(Anfitrião, ato II, cena I, cont.)

Page 212: Língua Latina

Conjunções: coordenação e subordinação

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Dica de estudoConsulte gramáticas de língua portuguesa e relembre como se comportam

as conjunções da nossa língua.

Atividades1. Com o seguinte poema de Horácio, que exemplifica belamente o tema da

brevidade da vida (é por causa desta ode que conhecemos a expressão car-pe diem), identifique as conjunções presentes e explique o uso de cada uma delas, com o auxílio da tradução, conforme o exemplo:

Tu ne quaesieris (scire nefas) quem mihi, quem tibifinem di dederint, Leuconoe, nec Babyloniostemptaris numeros. Vt melius quicquid erit pati!Seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,quae nunc oppositis debilitat pumicibus mareTyrrhenum, sapias, uina liques et spatio breuispem longam reseces. Dum loquimur, fugerit inuidaaetas: carpe diem, quam minimum credula postero.

Não buscarás, saber é proibido, ó Leucônoe,que fim reservarão a mim, a ti os Deuses;nem mesmo os babilônios números perscrutes... Seja lá o que for, melhor é suportar! Quer Júpiter nos dê ainda mil invernos, quer venha a conceder apenas este último, que agora estilha o mar Tirreno nos penhascos, tem siso, os vinhos vai bebendo, e a esperança, de muito longa, faz caber em curta vida. Foge invejoso o tempo, enquanto conversamos. Colhe o dia de hoje e não te fies nunca, um momento sequer, no dia de amanhã...

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Conjunções: coordenação e subordinação

2. Traduza as seguintes orações:

a) et serui et domini humani sunt.

b) si rex filium non habet, id malum est.

c) dum coquus cenam parat, serui multa mala faciunt.

d) quamuis seruus bene loquatur, eius uerba dominus non audit.

e) dominus dixit coquum bonam cenam parauisse.

Page 214: Língua Latina

Conjunções: coordenação e subordinação

213

ReferênciasALMENDRA, Maria Ana; FIGUEIREDO, José Nunes. Compêndio de Gramática Latina. Porto: Porto Editora, 2003.

CARDOSO, Zélia de Almeida. Iniciação ao Latim. São Paulo: Ática, 1993. (Série Princípios).

JONES, Peter V.; SIDWELL, Keith C. Reading Latin: grammar, vocabulary and exercises. Cambridge: Cambridge University Press, 1986a.

______; ______. Reading Latin: text. Cambridge: Cambridge University Press, 1986b.

PEREIRA, Maria Helena M. da R. Romana: Antologia da cultura latina. 3. ed. Coim-bra: Instituto de Estudos Clássicos, 1994. (Org. e trad. do latim).

______. Estudos de História da Cultura Clássica II: cultura romana. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.

PLAUTO; TERêNCIO. A Comédia Latina. Tradução de: SILVA, Agostinho da. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.].

REZENDE, Antônio Martinez de. Latina Essentia: preparação ao latim. Belo Ho-rizonte: UFMG, 2003.

REZENDE, A. M.; BIANCHET, Sandra Gualberto. Dicionário do Latim Essencial. Belo Horizonte: Crisálida: Tessitura, 2005.

RÓNAI, Paulo. Gradus Primus: curso básico de latim. São Paulo: Cultrix, 2006.

TORRINHA, F. Dicionário Latino-Português. Porto: Gráficos Reunidos, 1993.

Gabarito1. seu... seu: “quer... quer” – trata-se de uma conjunção coordenativa disjuntiva.

ne: “que não” – contrário de ut, dá ideia de negação da conjunção consecutiva/final “para, a fim de...”

nec: “nem, e não” – conjunção aditiva negativa.

ut: “como” – aqui, o ut é comparativo.

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Conjunções: coordenação e subordinação

et: “e” – conjunção coordenativa aditiva.

dum: “enquanto” – conjunção subordinativa temporal.

2.

a) Tanto os escravos quanto os senhores são humanos.

b) Se o rei não tem um filho, isto é ruim.

c) Enquanto o cozinheiro prepara a ceia, os escravos fazem muitas coisas ruins.

d) Embora o escravo fale bem, o senhor não escuta as palavras dele.

e) O senhor disse que o cozinheiro tinha preparado uma boa ceia.

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Conjunções: coordenação e subordinação

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Neste capítulo, aprenderemos como dizer os números, dias da semana, meses, e como representar a data em latim. Além disso, completaremos o sistema nominal com a quarta e quinta declinações dos substantivos, ou seja, os substantivos de tema em “u” e em “e”, respectivamente.

Os numeraisHá dois modos básicos em latim para fazer referência aos números:

temos os numerais cardinais, como os nossos “um, dois, três...”, e os ordi-nais, como os nossos “primeiro, segundo, terceiro...”. No quadro a seguir, veremos como esses números são expressos em latim, além de vermos como eles eram representados quando não escritos por extenso (confor-me o sistema que eventualmente ainda usamos e chamamos de “nume-rais romanos”). Além disso, será importante diferenciar os numerais que são expressos como adjetivos indeclináveis dos que são adjetivos decliná-veis e que, portanto, flexionam-se juntamente com os substantivos modi-ficados. A primeira coluna traz os numerais no formato arábico, a segunda na representação do sistema romano, a terceira traz os numerais cardinais em latim e a quarta traz os correspondentes ordinais em latim.

N.º Sistema romano Numeral cardinal

Numeral ordinal (todos declinam-se como adjetivo de primeira classe)

1 I nom.acus.genit.dat.abl.

unusunumuniusunīunō

unaunamuniusunīunā

unumunumuniusunīunō1

primus (prior)

Os numerais, o calendário romano, a quarta e quinta declinações

1 O plural é declinado como os plurais regulares de adjetivos de primeira classe: uni, unae, una.

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Os numerais, o calendário romano, a quarta e quinta declinações

N.º Sistema romano Numeral cardinal

Numeral ordinal (todos declinam-se como adjetivo de primeira classe)

2 II nom.acus.genit.dat.abl.

duoduo/duosduorum duobus duobus

duaeduas duarumduabus duabus

duoduoduorumduobusduobus2

secundus (alter)

3 III nom.acus.gen.dat.abl.

trestres / tristriumtribustribus

triatriatriumtribustribus3

tertius

4 IV/IIII quattuor quartus

5 V quinque quintus

6 VI sex sextus

7 VII septem septimus

8 VIII octo octauus

9 IX/VIIII nouem nonus

10 X decem decimus

11 XI undecim undecimus

12 XII duodecim duodecimus

13 XIII tredecim tertius decimus

14 XIV quattuordecim quartus decimus

15 XV quindecim quintus decimus

16 XVI sedecim sextus decimus

17 XVII septendecim septimus decimus

18 XVIII duodeuiginti duodeuicensimus4

19 XIX undeuiginti undeuicensimus

20 XX uiginti uicensimus

2 Naturalmente, não há formas singulares dos numerais maiores que “um”.

3 Trata-se de um adjetivo de segunda classe biforme, ou seja, com uma forma para masculino ou feminino e uma forma para neutros.

4 A terminação -ensimus, mais tarde, transforma-se na mais próxima do português -esimus.

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Os numerais, o calendário romano, a quarta e quinta declinações

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N.º Sistema romano Numeral cardinal

Numeral ordinal (todos declinam-se como adjetivo de primeira classe)

30 XXX5 triginta tricensimus

40 XL quadraginta quadragensimus

50 L quinquaginta quinquagensimus

60 LX sexaginta sexagensimus

70 LXX septuaginta septuagensimus

80 LXXX octoginta octogensimus

90 XC nonaginta nonagensimus

100 C centum centensimus

200 CC ducenti, ae, a (adjetivo de primeira classe) ducentensimus

300 CCC trecenti, ae, a trecentesimus

400 CD quadringenti, ae, a quadringentensimus

500 D quingenti, ae, a quingentesimus

1000 M mille (adjetivo indeclinável), plural nom. e acus. milia, plural genitivo milium, plural dativo e ablativo milibus6

millensimus

O calendário romanoHá algumas peculiaridades com relação à expressão da data, dos nomes dos dias

da semana e dos meses em latim. Comecemos com os nomes dos dias da semana.

Os � dias da semana são baseados nos nomes de divindades importantes para os romanos, como o Sol, a Lua, Marte (pai de Rômulo e Remo, funda-dores de Roma), Mercúrio, o mensageiro dos deuses e deus do comércio, Jove ou Júpiter, o pai dos deuses, Vênus, sua filha, a deusa do amor, e Sa-turno (pai de Júpiter, expulso por este do céu, foi residir no Lácio, região onde viria a existir a cidade de Roma, protegida por aquele).

domingo: solis dies “dia do Sol”

segunda-feira: lunae dies “dia da Lua”

terça-feira: Martis dies “dia de Marte”5 De vinte e um até vinte e nove, assim como para as dezenas seguintes, as sequências são: unus et uiginti ou uiginti et unus, duo et uiginti ou uiginti et duo e assim por diante, até o vinte e oito e vinte e nove, que seguem o padrão do dezoito e do dezenove: duodetriginta (28) e undetriginta (29). 6 A forma mille é usada como adjetivo, conforme mille dies “mil dias”, enquanto que as formas plurais são adjetivos e se ligam a nomes no genitivo (partitivo), como duo millia hominum “dois mil (de) homens”.

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Os numerais, o calendário romano, a quarta e quinta declinações

quarta-feira: Mercurii dies “dia de Mercúrio”

quinta-feira: Iouis dies “dia de Júpiter”

sexta-feira: Veneris dies “dia de Vênus”

sábado: Saturni dies “dia de Saturno”

Os � nomes dos meses do ano originaram os nomes dos meses em portu-guês e, conforme iniciava-se primitivamente o ano no dia primeiro de março, os meses com numerais nos nomes contam-se a partir dele:

martius, “março”

aprilis, “abril”

maius, “maio”

junius, “junho”

quintilis, e posteriormente Iulius (em homenagem ao imperador Júlio Cé-sar), “julho”

sextilis, e posteriormente Augustus (em homenagem ao imperador Augus-to), “agosto”

september, “setembro”

october, “outubro”

nouember, “novembro”

december, “dezembro”

januarius, “janeiro”

februarius, “fevereiro”

Os nomes dos meses poderiam ser usados como substantivos, mas eram frequentemente usados como adjetivos ligados ao substantivo mensis.

A data em latim era expressa não através de uma contagem cardinal de 1 a 31 como em português, mas através de um sistema de referência a três dias fundamentais para os romanos, ligados às fases da lua: as kalendae “calendas” (dia 1 de cada mês), as nonae “nonas” (dia 5 de cada mês7) e os idus “idos” (dia 13 de cada mês).8

7 Em março, maio, julho e outubro, as nonas eram no dia 7. 8 Em março, maio, julho e outubro, os idos eram no dia 15.

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Os numerais, o calendário romano, a quarta e quinta declinações

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Assim, com esse sistema de referência simples, já podemos entender os se-guintes dias:

kalendis Ianuariis9 “Nas calendas de janeiro”, ou seja, no dia primeiro de janeiro.

nonis Iuniis, “Nas nonas de junho”, ou seja, no dia 5 de junho.

idus Martiis, “Nos idos de março”, ou seja, no dia 15 de março.10

Os dias restantes, no entanto, eram nomeados segundo a sua relação com esses três dias fundamentais de cada mês. Assim, para se referir ao que para nós é o dia três do mês, o romano precisaria dizer “o terceiro dia antes das nonas de janeiro”, segundo a fórmula: tertius dies ante nonas ianuarias11 ou ante diem ter-tius nonas ianuarias.

Se se tratar de apenas um dia antes de uma das três datas de referência, usa-se o substantivo pridie, ou “véspera”, e assim teremos pridie idus nouembris.

Todos os dias posteriores aos Idos são nomeados de acordo com as calendas do próximo mês. Assim, o dia 16 de julho (que é o primeiro depois dos Idos de julho) será o decimus septimus ante kalendas Augustas.

Já no período em que esse calendário estava vigente, havia a preocupação de se acrescentar um dia a cada quatro anos no calendário. O dia dobrado era sempre o sextum ante kalendas martias, ou seja, 24 de fevereiro. Daí a designação que ainda se usa para nomear o ano com 366 dias, ou bissexto, bis sextum (que tem dois “sextos” antes das calendas de março).

O quadro a seguir apresenta a equivalência dos dias do nosso calendário com os dias do calendário romano. As abreviaturas são: a.d. = ante dies, Id. = idus, kal.= kalendae, non. = nonae.

Martius Maius Iulius

October12

Ianuarius Augustus

December13

Aprilis Iunius

September Nouember

Februarius

1 kalendis kalendis kalendis kalendis

2 a.d. VI non. a.d. IV non. a.d. IV non. a.d. IV non.

3 a.d. V non. a.d. III non. a.d. III non. a.d. III non.

4 a.d. IV non. pridie nonas pridie nonas pridie nonas

5 a.d. III non. nonis nonis nonis

9 No ablativo de tempo, ou seja, a expressão significa literalmente “nas calendas de janeiro”.10 Dia famoso por ter ocorrido nele o assassinato de Júlio César no senado. 11 E agora nonas ianuarias está no acusativo porque a preposição ante “antes” exige que seu complemento esteja no acusativo.12 Meses de 31 dias com nonas no dia 7 e idos no dia 15.13 Meses de 31 dias com nonas no dia 5 e idos no dia 13.

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Os numerais, o calendário romano, a quarta e quinta declinações

Martius Maius Iulius

October

Ianuarius Augustus December

Aprilis Iunius

September Nouember

Februarius

6 pridie nonas a.d. VIII id. a.d. VIII id. a.d. VIII id.

7 nonis a.d. VII id. a.d. VII id. a.d. VII id.

8 a.d. VIII id. a.d. VI id. a.d. VI id. a.d. VI id.

9 a.d. VII id. a.d. V id. a.d. V id. a.d. V id.

10 a.d. VI id. a.d. IV id. a.d. IV id. a.d. IV id.

11 a.d. V id. a.d. III id. a.d. III id. a.d. III id.

12 a.d. IV id. pridie idus pridie idus pridie idus

13 a.d. III id. idibus idibus idibus

14 pridie idus a.d. XIX kal. a.d. XVIII kal. a.d. XVI kal.

15 idibus a.d. XVIII kal. a.d. XVII kal. a.d. XV kal.

16 a.d. XVII kal. a.d. XVII kal. a.d. XVI kal. a.d. XIV kal.

17 a.d. XVI kal. a.d. XVI kal. a.d. XV kal. a.d. XIII kal.

18 a.d. XV kal. a.d. XV kal. a.d. XIV kal. a.d. XII kal.

19 a.d. XIV kal. a.d. XIV kal. a.d. XIII kal. a.d. XI kal.

20 a.d. XIII kal. a.d. XIII kal. a.d. XII kal. a.d. X kal.

21 a.d. XII kal. a.d. XII kal. a.d. XI kal. a.d. IX kal.

22 a.d. XI kal. a.d. XI kal. a.d. X kal. a.d. VIII kal.

23 a.d. X kal. a.d. X kal. a.d. IX kal. a.d. VII kal.

24 a.d. IX kal. a.d. IX kal. a.d. VIII kal. a.d. VI kal.

25 a.d. VIII kal. a.d. VIII kal. a.d. VII kal. a.d. V kal. ou a.d. bIs VI kal.

26 a.d. VII kal. a.d. VII kal. a.d. VI kal. a.d. IV ou V kal.

27 a.d. VI kal. a.d. VI kal. a.d. V kal. a.d. III ou IV kal.

28 a.d. V kal. a.d. V kal. a.d. IV kal. pridie kalendas ou a.d. III kal.

29 a.d. IV kal. a.d. IV kal. a.d. III kal. pridie kalendas

30 a.d. III kal. a.d. III kal. pridie kalendas

31 pridie kalendas pridie kalendas

Os � nomes dos anos em latim eram dados com relação ao ano que se supunha que tivesse sido o ano da fundação de Roma (753 a.C.). Para os romanos, o ano 1 era nomeado, portanto, ano I ab urbe condita, ou seja, “desde a Cidade tendo sido fundada” ou, menos literalmente, “desde a fundação da Cidade”. O termo

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Os numerais, o calendário romano, a quarta e quinta declinações

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urbe referia-se comumente à cidade de Roma, então, os anos seriam numera-dos como I auc = 753 a.C., II auc = 752 a.C. e assim por diante.

Comumente, também se utilizavam os nomes dos dois cônsules (o consulado era o cargo mais alto na República romana e durava um ano) eleitos e em exer-cício naquele ano. Assim, o ano de 57 a.C. teve como cônsules Lêntulo e Metello, ou Lentulus e Metellus. O nome do ano era dado, então, todo no ablativo, signi-ficando “sendo Lêntulo e Metello cônsules”, ou, menos literalmente, “no ano em que Lêntulo e Metello foram cônsules” e, em latim, a expressão usada era Lentulō et Metellō consulibus.

A quarta e quinta declinações nominaisA maioria dos substantivos em latim pertence às declinações de tema em

a, o e consoantes, ou seja, à primeira, segunda e terceira declinações. Mas há alguns substantivos de temas em u e em e, os da quarta e quinta declinações. Para completar o panorama da morfologia nominal latina, veremos essas duas declinações, aproveitando que, para as explicações sobre datas, apareceram dois substantivos importantes pertencentes a essas declinações: idus da quarta e dies da quinta declinação. Vejamos inicialmente a quarta declinação.

A quarta declinação dos nomesA quarta declinação é a dos substantivos de tema em u. Ela pode apresentar

alguma dificuldade, uma vez que suas formas terminadas em -us podem remeter a formas já conhecidas da segunda declinação. Ainda pior, há muitas formas dife-rentes em -us no próprio paradigma da quarta declinação. Passemos às formas.

manus, us 4f.14 “mão, tropa”

Singular Plural

Nominativo manus manūs

Acusativo manum manūs

Genitivo manūs manuum

Dativo manuī manibus

Ablativo manū manibus

14 Ou seja, substantivo manus, genitivo singular em us, quarta declinação feminino.

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Os numerais, o calendário romano, a quarta e quinta declinações

É importante notar que muitas formas se parecem, mas que há diferenças entre longas e breves, como a terminação -us de nominativo singular versus a terminação -ūs de genitivo singular, nominativo e acusativo plural.

Vejamos outros exemplos de substantivos de quarta declinação:

exercitus, us 4f. “exército”

cornu, us 4n. “chifre”15

idus, us 4f. “Idos (dia 13 ou 15 de cada mês)”

domus, us 4f. “casa”16

A quinta declinação dos nomesA quinta declinação é a dos substantivos de tema em e. São poucos os substan-

tivos pertencentes a essa declinação, mas um dos mais importantes, dies, apareceu neste capítulo. Conheçamos as formas:

dies, i 5m.17 “dia”

Singular Plural

Nominativo diēs diēs

Acusativo diem diēs

Genitivo diēī (diē) diērum

Dativo diēī (diē) diēbus

Ablativo diē diēbus

Outros substantivos comuns de quinta declinação são:

fides, i 5f. “fé”

res, i 5f. “coisa, questão, assunto, propriedade”

spes, i 5f. “esperança”

species, i 5f “aparência, aspecto”15 Os nomes neutros da quarta têm nominativo e acusativo plural em -ua.16 Como vimos antes, trata-se de um substantivo irregular, já que possui também formas de segunda declinação. Isso aponta, na verdade, para uma tendência que se desenvolveu mais tarde na passagem do latim para as línguas românicas, a de um enfraquecimento no paradigma de nomes de tema em u e consequente anexação de suas formas ao paradigma da segunda declinação, de tema em o.17 dies é masculino em geral, mas feminino quando significa algum dia especial ou a deusa Dies.

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Texto complementarPúblio Ovídio Naso (43 a.C. - 17 d.C.) foi autor de uma obra vastíssima, que

abrangia desde poesia lírica elegíaca18 até textos escritos em hexâmetros datíli-cos19 que se propunham a narrar os incidentes mitológicos de transformações (As Metamorfoses), passando por um curioso poema sobre o ano romano, com suas origens e seus períodos. No trecho que leremos, na tradução do poeta român-tico português António Feliciano de Castilho (1800-1875), veremos os primeiros versos do poema, que incluem a dedicatória ao sucessor de Augusto, Germânico, a explicação dos nomes dos meses e do número inicial de dez, acrescidos de dois meses pelo rei lendário de Roma Numa e, finalmente, o início propriamente dito do poema, quando se começa a falar do primeiro dia do ano, dedicado a Jano. Ovídio não conseguiu completar o poema, vindo a morrer quando já se completavam os seis primeiros meses do ano.

18 Poesia de conteúdo erótico, amoroso ou de lamento, escrita em metros chamados de dísticos elegíacos: um hexâmetro datílico seguido de um pentâmetro datílico.19 O hexâmetro datílico é um tipo de verso da literatura antiga que se constitui de seis pés (sequências de sílabas), cinco dátilos (ou seja, uma sílaba longa seguida de duas breves) e um pé final com uma sílaba longa seguida de uma longa ou breve. Na poesia antiga, todos os versos eram escritos dentro desses padrões métricos e prosódicos, e o verso hexâmetro datílico era o tipo de verso adotado desde os poemas homéricos na Grécia pré- -clássica até os textos elevados da poesia épica de Roma.

(OVÍDIO, 1949, p. 105-108)

Festas do lácio ano, origens suas,

Quais astros vão, quais vêm, dirão meus versos.

Acolhe-os tu, Germânico! sorri-lhes!

A tímido baixel sê norte, ó César!

Proteja teu favor a humilde of’renda.

Na dos priscos anais sagrada mina

Ver-me-ás andar notando os fundamentos

Às modernas usuais solenidades,

E a cada dia consignar seus foros.

Fastos vossos domésticos mil vezes

Virão de Roma aos fastos enlaçar-se:

Já do pai, já do avô lerás os nomes.

Como eles ambos nos anais do culto

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Mereceram à pátria o ser inscritos,

Prêmio igual de virtude haveis de obtê-lo,

Ó Germânico, ó Druso, irmãos na glória.

Armas de César que as celebrem outros;

Eu de César somente as aras canto,

E os dias que há juntado aos sacros dias.

Ao vate que dos teus imprende as glórias,

Animo, audácia, teu favor influa.

De teu semblante, plácido, ou severo,

Baixará fogo ou gelo à mente incerta.

Só no cuidar que por juiz vai ter-te,

Já sob a destra a página estremece,

Qual se houvera de a ler o deus de Claros.

Pois quem há ‘í que não sentisse o encanto

Dessa culta facúndia, quando estrénua

Acudia no foro aos réus trementes?

Quem não bebeu no teu tratar coas musas

Caudais torrentes que brotavas d’estro?

Ao vate humilde pois, grão vate, acode!;

E, por que auspícios bons todo o ano aditem,

Rege (se cabe a rogo audácia tanta)

Rege tu próprio aos meus frisões as rédeas.

De Roma o fundador, marcando os tempos,

Em meses dez circunscreveu seu ano;

Se, como de astros, entenderas de armas,

Mal por ti, pobre Rômulo! esses louros

Que em derredor ceifaste, onde estariam?!

Daquele erro de Rômulo contudo

Inda alguma razão se aventa, ó César:

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Do gerar ao nascer dez meses correm;

Dez meses a viuvez conserva o luto;

Supôs que espaço igual bastasse ao ano.

De um povo inculto o inculto purpurado

Não abrangia a mais. A Marte of’rece

O mês primeiro, a Vênus o segundo;

Porque em Vênus lhe prende a clara estirpe,

E Marte foi seu pai; terceiro, aos velhos;

Aos mancebos o quarto há destinado.

Aos outros seis do número fez nome.

Vem Numa; vê que a Jano, e aos pátrios

Falece um culto; para dar-lho, cria [mortos,

Mais dois meses, que aos dez prepõe na ordem.

Índole vária as leis hão dado aos dias;

Têm diverso mister os sóis diversos.

Cala o dia nefasto as três palavras;

Causas versa no foro o fasto dia.

Destas duas opostas naturezas

Dias contudo vêm que participam:

Nefastos de manhã, de tarde fastos.

Mal que a entranha da rês ao deus foi dada,

Pode livre soar pregão forense,

E exercer o pretor seu nobre encargo.

Dias há, outrossim, para comícios,

Que apinhoam de povo o Campo Márcio;

E dias, que ao mercado impreteríveis,

De cada lua o nono disco aponta.

As Calendas na Ausónia arroga-as Juno;

Nos Idos cai a Júpiter cordeira

Alva e nédia; sem nume as Nonas ficam.

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Nonas, idos, calendas, igualmente,

(Notai bem, que no errar corrêreis perigo!)

Têm dia negro após; tremendo agouro,

Que a história com sucessos nos confirma,

Pois sempre em dias tais contrário evento

Deu Marte mal propício às nossas armas.

Destas noções, que têm de vir frequentes

Co’os Fastos misturar-se, aqui me aprouve

Tecer prelúdio breve aos longos cantos,

Que, importunas depois mos não quebrassem.

Lá vem Jano! lá chega! a ti, grão César,

Traz novo ano feliz núncio risonho;

Para mim, cantor seu, traz-se a si mesmo.

Nas boas horas para nós descendas,

Bifronte divinal, eterna origem

Dos anos tacitífluos; deidade,

Que, única entre elas, para trás descobres!

Propício assiste aos chefes generosos,

Cujo heroico valor mantém segura

A fértil terra em paz, em paz os mares!

Propício ao teu senado! alfim propício

A todo o povo do imortal Quirino!

Vem, vem! ao teu aceno os alvos templos

De par em par festivos se descerrem.

Que alegre aurora pelos céus desponta!

Religiosa atenção, silêncio, ó turbas!

Ruim palavra sussurrar não ouse!

Convém ao dia bom palavras boas.

Longe os pleitos cruéis, a rixa insana;

E tu, censor mordaz, teu fel não vertas!

Vedes as rescendentes labaredas?

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Sentis no fogo crepitar fumosas

Fartas espigas de cilisso nardo?

Da viva flama o rosicler esplêndido

Da sacra estância nos dourados trêmulos

Borboleteia, e na profunda abóbada

Estampa alto clarão! de toda a parte,

De galas novas, como cabe à festa,

Acode povo e povo ao Capitólio!

Vê-los que vêm chegando, os novos feixes!

Nova púrpura os segue! A cônsul novo

Vai o curul marfim ser nobre assento!

Gordos bezerros dos faliscos pastos

Dão a intacta cerviz ao sacro ferro.

Jove, que lá do Olimpo abrange o orbe,

Romano todo o vê. Salve mil vezes,

Ó mui risonho dia! e mais risonho

Possas tu de ano em ano alvorecer-nos,

Sempre do povo-rei credor aos cultos!

Dica de estudoFaça comparações do latim com línguas neolatinas, principalmente com o

português.

Atividades1. Preencha o quadro a seguir com as datas e anos corretos para o nosso

calendário.

Dia romano Dia moderno Ano romano Ano moderno

pridie nonas martias V auc

a.d. IV kal. augustas C auc

idibus februarius DCCLIII auc

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2. Traduza as seguintes orações latinas para o português:

a) nullam spem habet ille qui fidem perdit.

b) exercitūs manus imperatoris ducit.

c) multos dies manebant in agro hostium.

d) quattuor homines in urbem inierunt quartō diē.

3. Traduza o trecho da Eneida, de Virgílio, com o auxílio do vocabulário a seguir.

Nec mihi iam patriam antiquam spes ulla uidendi [est],

nec dulcis natos exoptatumque parentem;

uidendi: gerúndio de uideo 2 “de ver”

dulcis: acusativo plural do adjetivo dulcis, e: “doce”

natos: acusativo plural de natus “filho”

exoptatum: acusativo singular de exoptatus, a, um “muito desejado”

parentem: acusativo singular de parens, parentis “pai”

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ReferênciasALMENDRA, Maria Ana; FIGUEIREDO, José Nunes. Compêndio de Gramática Latina. Porto: Porto Editora, 2003.

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TORRINHA, F. Dicionário Latino-Português. Porto: Gráficos Reunidos, 1993.

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Gabarito1.

Dia romano Dia moderno Ano romano Ano moderno

pridie nonas martias 6 de março V auc 749 a.C.

a.d. IV kal. augustas 28 de julho C auc 653 a.C.

idibus februarius 13 de fevereiro DCCLIII auc 1 d.C.

2.

a) Não tem nenhuma esperança aquele que perde a fé.

b) A mão do imperador conduz os exércitos.

c) Permaneciam durante muitos dias no campo dos inimigos.

d) Quatro homens entraram na cidade no quarto dia.

3. “Nem há para mim esperança alguma de ver a pátria antiga

nem os doces filhos e o pai muito amado/desejado”.

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Rodrigo Tadeu Gonçalves

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LÍN

GU

A Latina

Fundação Biblioteca NacionalISBN 978-85-387-1146-9