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  • LIQUIDAO EXTRAJUDICIAL DOS BANCOS : responsabilidade civil dos seus administradores

    JOS AUGUSTO DELGADO * Ministro do superior Tribunal de Justia

    Sumrio:

    1. Introduo - 2. A liquidao extrajudicial

    das instituies financeiras no entendimento

    jurisprudencial - 3. Evoluo legislativa da

    responsabilidade civil dos administradores

    das entidades financeiras - 4. Anotaes da

    doutrina sobre a responsabilidade civil dos

    administradores das instituies financeiras

    - 5. A jurisprudncia do Superior Tribunal

    de Justia sobre o tema - 6. Concluso.

    1. Introduo

    A temtica referente aos aspectos jurdicos que envolvem a

    responsabilidade civil dos administradores das instituies bancrias,

    quando liquidadas extrajudicialmente, embora abordada pela doutrina e

    pela jurisprudncia de modo constante, permite, ainda, algumas reflexes

    no sentido de serem investigadas algumas controvrsias existentes.

    No se desconhece que a questo vinculada

    responsabilidade civil dos dirigentes das instituies financeiras em geral

    tem passado por sensveis modificaes, especialmente, no sentido de

    consagrar-se a adoo da teoria objetiva.

    *Ministro do Superior Tribunal de Justia, a partir de 15/12/1995. DELGADO, Jos Augusto. Liquidao extrajudicial dos bancos. Responsabilidade civil dos seus administradores. Revista de Direito Bancrio e do Mercado de Capitais, So Paulo, ano 2, n. 6, p. 51-65, set./dez. 1999.

  • Liquidao Extrajudicial dos Bancos. Responsabilidade Civil dos seus Administradores

    Essa evoluo tem sido justificada em razo do acelerado

    desenvolvimento e modernizao que esse tipo de atividade tem recebido

    no final deste sculo XX, aumentando em grau elevado o seu

    relacionamento com o cliente e, conseqentemente, a confiana no

    sistema bancrio.

    As mudanas estruturais impostas ao sistema bancrio

    brasileiro tm contribudo para que, na atualidade, considere-se a

    existncia de um Direito Bancrio com regras prprias, autnomas e

    baseado em princpios especficos.

    No particular, de se considerar importante a contribuio de

    Antnio Menezes Cordeiro, quando, no artigo intitulado "Direito Bancrio

    Privado",1 enumera os princpios bancrios privados que devem atuar no

    campo dos relacionamentos jurdicos surgidos em decorrncia da prtica

    de atividades dessa natureza.

    O referido doutrinador assim expe o seu pensamento:

    1. Nos seus aspectos processuais e dinmicos, podemos considerar o Direito Bancrio Privado como dominado por um princpio da simplicidade. Este princpio resulta de diversos subprincpios mais explcitos, que passamos a referir:

    - a desformalizao: os atos bancrios surgem sem especiais formalidades; normalmente, eles apenas pressupem a aposio duma assinatura, a digitalizao dum nmero pessoal secreto ou a declarao verbal a um funcionrio que ateste pela voz a sua provenincia; como sub-manifestao deste princpio, temos a contratao por computador, com toda a temtica crescente, que dele decorre;

    - a unilateralidade: os atos bancrios completam-se, muitas vezes, apenas por simples cartas, assinadas pelo cliente; dispensam-se, assim, as clssicas proposta e aceitao;

    DELGADO, Jos Augusto. Liquidao extrajudicial dos bancos. Responsabilidade civil dos

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    1 Artigo publicado na Revista de Direito Bancrio e de Mercado de Capitais, ano 2, n. 4, jan.-abr. de 1999, RT, p. 80 a 93.

    seus administradores. Revista de Direito Bancrio e do Mercado de Capitais, So Paulo, ano 2, n. 6, p. 51-65, set./dez. 1999.

  • Liquidao Extrajudicial dos Bancos. Responsabilidade Civil dos seus Administradores

    - a rapidez: o giro bancrio no se com padece com negociaes complexas ou com tempos de espera; assim, impe-se a natureza formularia, com adeso a clusulas gerais ou, mais latamente, a tipos experimentados;

    - a desmaterializao: fortemente apoiado na informtica, o Direito Bancrio lida, cada vez mais, com valores e representaes desmaterializadas.

    A seguir, o mesmo autor, explicita:

    2. No tocante regulamentao proporcionada, o Direito Bancrio encaminha-se, segundo pensamos, para um modo prprio de gerir as realidades sociais, e que fica algures entre a materialidade subjacente e a tutela da aparncia. Podemos, sem compromisso, falar, a esse propsito, num princpio de ponderao bancria. Tal princpio resultar mais claro dos seguintes vetores, de sentido nem sempre coincidente, quando no contraposto:

    - a prevalncia das realidades: no de ver de informao, como na preparao de certos negcios mais complexos, o banqueiro no vai atender regularidade formal dos atos: ele descer substncia econmica da situao;

    - a abrangncia: o Direito Bancrio tende a gerar negcios ou atos em cadeia: raramente se contentar com atos isolados;

    - a flexibilidade: o Direito Bancrio fortemente responsivo, no sentido de enfrentar problemas novos, com solues diferentes; alm de promover figuras inteiramente novas - como sucede, por exemplo, com as cartas de conforto - o Direito Bancrio consegue, ainda, recuperar, para o seu campo e os seus fins. figuras clssicas, reescrevendo-as e adaptando-se: pense-se na locao financeira ou na cesso financeira;

    -o primeiro entendimento: perante atos jurdicos correntes, o Direito Bancrio dar primazia ao primeiro entendimento que deles resulte; h como que uma tutela da aparncia, em moldes particulares.

    Concluindo a sua pregao, o autor afirma:

    DELGADO, Jos Augusto. Liquidao extrajudicial dos bancos. Responsabilidade civil dos

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    seus administradores. Revista de Direito Bancrio e do Mercado de Capitais, So Paulo, ano 2, n. 6, p. 51-65, set./dez. 1999.

  • Liquidao Extrajudicial dos Bancos. Responsabilidade Civil dos seus Administradores

    3. Finalmente, e no tocante a sanes, o Direito Bancrio aponta para um princpio da eficcia. No se trata, perante hipotticos incumprimentos - ou no se trata tanto - de seguir as vias sancionatrias preestabelecidas. O Direito Bancrio pretende prever escolhos e dificuldades, removendo-as, partida. Perante incumprimentos, tentar-se- remover a situao com recurso a converses, a esquemas laterais ou a garantias. Muito ponderosa a quebra da relao bancria complexa: o cliente inadimplente temer, antes do mais, o corte do crdito.

    As colocaes jurdicas supramencionadas conduzem o

    doutrinador a formar uma nova conscientizao a respeito do alcance da

    responsabilidade civil dos administradores das instituies financeiras em

    decorrncia do fato de elas serem liquidadas extrajudicialmente. O certo

    que a complexidade que assumiu tal tipo de negcio jurdico est a exigir

    que novos postulados sejam construdos para regular a soluo dos

    conflitos surgidos em decorrncia dos efeitos patrimoniais causados,

    especialmente, no campo da responsabilidade civil.

    No se pode deixar ao largo, sem qualquer considerao, o

    fato de que as megafuses ocorridas no setor, na atualidade, produzem

    reflexos na construo de um novo tipo de obrigao para com o mercado

    financeiro, haja vista a forte influncia que tais instituies passam a

    exercer em vrios setores da sociedade, colocando, muitas vezes, os seus

    interesses em rota de coliso com os do cidado.

    O tema responsabilidade civil, quer em sua modalidade

    contratual, quer em sua feio extracontratual, sempre encarado pela

    doutrina e pela jurisprudncia como carregando inmeras dificuldades

    tericas e prticas. Ele recebe os fludos decorrentes da evoluo das

    mltiplas variedades de relaes que o homem, em seu meio ambiente

    financeiro, est sempre construindo, colorindo tal tipo de relacionamento

    com situaes muitas vezes imprevisveis pela Cincia Jurdica. Na

    verdade, repete-se, em tal campo de ao, o fenmeno h muito

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    seus administradores. Revista de Direito Bancrio e do Mercado de Capitais, So Paulo, ano 2, n. 6, p. 51-65, set./dez. 1999.

  • Liquidao Extrajudicial dos Bancos. Responsabilidade Civil dos seus Administradores

    trabalhado pelo Direito de que a maior dificuldade a enfrentar a

    ocorrncia de fato sem que, ainda, exista uma norma positiva a regul-lo.

    O recenseamento de tudo que a doutrina e a jurisprudncia j

    construram sobre responsabilidade civil dos administradores das

    instituies financeiras demonstra no existir, ainda, solues que

    atendam aos interesses dos clientes das instituies financeiras e,

    tambm, dos seus dirigentes, quando instaura-se o procedimento de

    liquidao extrajudicial.

    So variadas as situaes que se apresentam para soluo,

    exigindo, conseqentemente, um exame sistematizado e vinculado a

    sugestes doutrinrias e a interpretaes jurisprudenciais que tentam

    aproximar-se das realidades provocadas pelas variadas causas

    determinantes da liquidao.

    Impossvel, portanto, a apresentao de um quadro composto

    por regras uniformes para todas as liquidaes, em face do sistema

    financeiro, na atualidade, trabalhar com um sem nmero de contratos

    onde a influncia do risco assumido pelas partes contratantes tem

    contedo varivel.

    A comprovar o afirmado, tome-se, como exemplo, as regras

    de responsabilidade contratual definidas para a poupana, para a conta

    corrente, para o cheque especial, para a aplicao em Fundos de

    Investimento, para a aquisio de Certificados de Depsitos Bancrios etc.

    Cada relao jurdica firmada tem seus contornos especficos e no pode,

    em caso de liquidao extrajudicial, ser tra