Luciana Maria Viviani & Belmira Oliveira Bueno - .organizacional que conferiu xito   disciplina

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Text of Luciana Maria Viviani & Belmira Oliveira Bueno - .organizacional que conferiu xito  ...

Revista Portuguesa de Educao

ISSN: 0871-9187

rpe@ie.uminho.pt

Universidade do Minho

Portugal

Viviani, Luciana Maria; Oliveira Bueno, Belmira

A Biologia Educacional nas Escolas Normais paulistas: uma disciplina da eficincia fsica e mental

Revista Portuguesa de Educao, vol. 19, nm. 1, 2006, pp. 43-65

Universidade do Minho

Braga, Portugal

Disponvel em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=37419103

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Revista Portuguesa de Educao, 2006, 19(1), pp. 43-65 2006, CIEd - Universidade do Minho

A Biologia Educacional nas Escolas Normaispaulistas: uma disciplina da eficincia fsicae mental 1

Luciana Maria Viviani & Belmira Oliveira BuenoUniversidade de So Paulo, Brasil

Resumo

Este artigo trata da histria da Biologia Educacional no currculo das Escolas

Normais de So Paulo, entre 1933 e 1970. A pesquisa fundamenta-se em

ampla documentao arquivstica, planos e programas de ensino, manuais

didticos e depoimentos de antigos professores. So levados em conta os

projetos de renovao educacional em curso a partir dos anos 1920, cujas

propostas produziram determinadas necessidades para a formao de

professores. O texto examina trs momentos da histria da disciplina os

perodos de insero no currculo, de estabilidade e de declnio

focalizando-se especialmente as formas de organizao dos contedos

escolares construdas por meio do binmio hereditariedade-meio. Conclui-se

que a Biologia Educacional assentava-se na idia de que os educadores

deveriam atuar de modo duplamente produtivo: de um lado, para conduzir os

alunos mxima eficincia fsica e mental; de outro, na construo de perfis

ideais para a conduta social de crianas, mulheres e professoras.

Palavras-chave

Biologia Educacional; Escola Normal; Currculo

Este artigo apresenta resultados de uma pesquisa sobre a histria da

disciplina Biologia Educacional, considerando o seu desenvolvimento entre os

anos de 1933 e 1970, no currculo das Escolas Normais do estado de So

Paulo (Brasil). Neste texto, focalizam-se especialmente aspectos da forma

organizacional que conferiu xito disciplina no mbito dos projetos de

renovao educacional que ocorreram a partir da dcada de 1920, sob a

liderana de Antnio Almeida Jr.. A publicao do livro didtico de autoria

desse autor, em 1939, constituiu-se em marco fundador de uma tradio de

ensino que caracterizou fortemente a disciplina, ainda que a partir da dcada

de 1950 tenham surgido outros direcionamentos para o corpo de saberes e

prticas que se construiu em seu mbito e por seu intermdio.

Primeiramente, importante discutir a concepo de disciplina,

conceito polissmico, de uso relativamente recente, e que tem sua histria

registrada na documentao educacional. Esse debate aponta para as

relaes que podem ser estabelecidas entre os conhecimentos trabalhados

na escola e aqueles produzidos pela tradio acadmica, indicando tambm

possveis formas de interao entre instncias sociais, instituies

educacionais e de pesquisa.

At o final do sculo XIX, segundo Andr Chervel (1990), a palavra

designava um sistema de vigilncia e ordem que deveria ser imposto ao

ambiente escolar e s condutas dos alunos, e tambm poderia significar a

educao ministrada para obter tal resultado. Na segunda metade desse

sculo, o termo passou a ser usado tambm com outro significado, associado

ao aparecimento de novas tendncias do ensino primrio e secundrio. Nos

primeiros anos do sculo XX, de um significado genrico passou a designar

os casos particulares de diferentes "contedos de ensino" que pudessem

servir de exerccio intelectual. Essa necessidade se interps no momento em

que as disciplinas cientficas, alm das literrias, foram reconhecidas como

instncias de formao espiritual. Finalmente, aps a 1 Guerra Mundial, o

termo perdeu a conotao de "ginstica do esprito" e passou a referir-se s

matrias de ensino, como ocorre at atualidade.

De acordo com Circe Bittencourt (2003), Chervel considerou

indiferentemente os termos disciplina escolar e matria para referir-se s

diversas situaes de ensino bsico, falando em disciplina acadmica ao

designar elaboraes do conhecimento em nvel superior. Jean-Claude

Forquin (1992) preferiu fazer uma diferenciao entre as palavras matria e

disciplina: a primeira seria melhor utilizada no mbito dos graus bsicos de

ensino e a segunda, direcionada ao ensino superior. H, portanto, diferenas

na utilizao dos termos quanto a nveis de ensino, na delimitao dos

diversos campos do conhecimento e das prticas escolares.

44 Luciana Maria Viviani & Belmira Oliveira Bueno

As terminologias disciplina e matria foram neste texto indistintamente

utilizadas para denominar os corpos de conhecimentos e prticas em anlise,

desenvolvidos nas situaes de ensino da Escola Normal de So Paulo, ainda

que, durante a maior parte do perodo considerado para o estudo, estes

recebessem nos documentos oficiais a denominao de matrias.

A questo da utilizao de diversas terminologias no tem importncia

per se, mas associa-se discusso sobre a produo de conhecimento nas

distintas esferas institucionais associadas ao saber e ao ensino e s funes

que podem ser desempenhadas pela escola, pelo(a) professor(a) e por outros

profissionais da rea educacional.

Segundo Ivor Goodson (1997), os estudos crticos do currculo como

construo social, que surgiram nos anos 1960 e 1970, consideram a sala de

aula como o local de concretizao do currculo, minimizando ao mximo a

importncia do currculo escrito os planos e programas de estudos e os

manuais das disciplinas. Para o pesquisador britnico, o desenrolar das

prticas pedaggicas representa efetivamente um processo de negociao do

currculo oficial, ainda que este no possa ser dado como irrelevante.

Em uma linha de anlise diversa, Chervel (1990) considera que o

ensino escolar, sob o ponto de vista do senso comum, traz para a sala de aula

a cincia produzida em outras instncias. Porm, ele discorda da idia de que

a tarefa dos pedagogos seria to-somente a de simplificar esses

conhecimentos, tornando-os menos complexos e permitindo o seu ensino

naquele determinado nvel de compreenso, no compartilhando, assim, da

concepo que entende ser a escola apenas um meio conservador,

caracterizado pela inrcia e pela rotina. Ele afirma que o estudo da gnese,

do objetivo e do funcionamento das disciplinas evidencia, ao contrrio, um

carter criativo do sistema escolar, que forma no somente os indivduos, mas

tambm uma cultura escolar que influencia e modifica aspectos culturais da

sociedade como um todo.

Partindo desse pressuposto e reafirmando, pois, que a escola tem uma

atuao criativa tanto dentro como fora de seus limites, o objetivo deste

trabalho examinar algumas construes elaboradas no mbito da Biologia

Educacional que tiveram largo alcance educacional e social. Esse exame

realizado a partir de duas vertentes: a) as finalidades didticas, os objetivos

sociais e culturais da Escola Normal para a formao do professor que

45A Biologia Educacional nas Escolas Normais

evidenciam determinadas necessidades, reais ou ideais, para as futuras

prticas sociais desse profissional e se relacionam com a atuao de grupos

de diferentes interesses sociais, polticos e de atuao profissional da poca;

e b) o conhecimento cientfico disponvel poca, tanto em nosso pas como

em nveis internacionais, ou seja, o processo por meio do qual esse

conhecimento foi transformado e utilizado para servir formao de

professores naquele dado momento histrico e social.

Nessa direo, considerou-se a instituio educacional tal como

caracterizada por Michel Foucault (1987), ou seja, uma forma de poder

predominante das sociedades disciplinares instauradas no ocidente a partir do

sculo XVIII. Nesse perodo, ocorreu uma generalizao disciplinar, mediante

a formao de uma ampla rede de instituies disciplinares disseminadas nos

setores sociais mais importantes e produtivos, de onde se espalharam para

alcanar outros grupos sociais que se tornaram, assim, passveis de controle

e ao mesmo tempo constituram-se em ncleos controladores. Indivduos

mais teis e produtivos foram fabricados por meio de tcnicas capilares

responsveis por veicular relaes de poder por todo o tecido social. As

normatizaes produzidas por esse poder foram, assim, internalizadas por

meio de disposies mentais, tambm disciplinares, atuantes no somente

sobre o corpo dos sujeitos, mas tambm sobre suas mentes. Conforme frisou

Alfredo Veiga-Neto (1996), o pensamento