O Esp. Sto. No Evangelho de Joao - Final

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Artigo sobre o Espírito Santo no Evangelho de João.

Text of O Esp. Sto. No Evangelho de Joao - Final

  • O Esprito Santo no Evangelho de Joo Wilson Paroschi, PhD

    Existem importantes diferenas entre Joo e os Evangelhos Sinticos com relao ao tema do

    Esprito Santo. O fato de Joo escrever a partir da perspectiva de seu prprio tempo, em vez do tempo

    de Jesus, como o fazem os demais evangelistas, talvez ajude a explicar algumas das diferenas. Para

    Joo, o advento do Esprito era um evento passado (Jo 7:39) e Sua presena na vida e misso da igreja,

    ainda mais fundamental que a do prprio Cristo encarnado (16:7), e por isso o que ele diz sobre o

    Esprito assume novas dimenses de detalhes e significado. Este ensaio consiste num breve estudo

    sobre o que o Quarto Evangelho diz acerca do Esprito. Ele est dividido em trs partes: o ensino joanino

    sobre o Esprito nas sees narrativas do livro (caps. 1-13, 18-21); as passagens exclusivas a Joo que

    se referem ao Esprito como o Paracleto e que esto concentradas nos chamados Discursos de

    Despedida (caps. 14-17);1 e as supostas evidncias gramaticais relacionadas personalidade e a

    divindade do Esprito Santo. Por fim, seguem-se algumas rpidas consideraes sobre a relevncia da

    discusso para a teologia e doutrina adventistas.

    O Esprito nas Sees Narrativas

    Conquanto no seja o escritor neotestamentrio que mais mencione o Esprito Santo, Joo se

    destaca entre os evangelistas no apenas pelo maior nmero de referncias como tambm pelas

    referncias mais distintas e completas.2 Nos Evangelhos Sinticos, assim como no AT, o Esprito no

    1 Alm de Paracleto, outras expresses utilizadas apenas nos Discursos de Despedida so Esprito da

    Verdade e Esprito Santo. Nas sees narrativas, Joo se refere quase que exclusivamente ao Esprito, sem nenhum qualificativo. A nica exceo Jo 1:33, onde Joo Batista anuncia que Jesus batizaria com o Esprito Santo. interessante, portanto, que a nica vez fora dos caps. 14-17 em que o evangelista utiliza uma terminologia que no seja Esprito, ele se refere a algo que Jesus faria em algum momento (no especificado) futuro.

    2 So dezenove as referncias, incluindo-se as quatro que dizem respeito ao Paracleto (14:16, 26; 15:26;

    16:7), contra doze referncias em Mateus, seis em Marcos e dezesseis em Lucas. Em se tratando dos autores individuais, Lucas o escritor neotestamentrio que mais se refere ao Esprito Santo (235 vezes, a grande maioria

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    tanto uma entidade separada ou distinta, mas o poder de Deus em operao. A ideia fundamental a

    de dotao ou capacitao para o desempenho de uma atividade especfica.3 Assim, Jesus dotado do

    Esprito para o cumprimento de sua misso messinica (Mt 3:16; 12:18, 28; Mc 1:10; Lc 3:22; 4:14, 18;

    cf. At 10:38), a qual inclui o repasse desse mesmo poder (Mt 3:11; Mc 1:8; Lc 3:16; 11:13), sobretudo

    aos discpulos, para que eles tambm possam levar a cabo a obra que lhes cumpria realizar (Lc 24:49; cf.

    Mt 10:20; Mc 13:11; Lc 12:12).4

    Em Joo o quadro bem diferente, sem que haja, porm, qualquer contradio. No que a ideia

    de dotao no esteja presente; ela est, mas sempre em segundo plano e, mesmo assim, de maneira

    implcita, como na descida do Esprito sobre Jesus por ocasio de seu batismo (Jo 1:32-34). Na verso

    joanina, o fenmeno consiste mais num sinal para Joo Batista que na capacitao de Jesus para o

    ministrio. Joo descrito como tendo recebido uma revelao divina para que pudesse identificar o

    Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (vs. 29), o qual viria logo em seguida (vs. 30) e batizaria

    com o Esprito Santo: Aquele sobre quem voc vir o Esprito descer e permanecer, esse o que batiza

    com [en] o Esprito Santo (vs. 33). luz de 3:34, porm, provvel que o evangelista visse o episdio

    tambm em termos de uma dotao sobrenatural. Aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus,

    pois no de forma limitada que ele *Deus+ d o Esprito *ao Filho+. Para que pudesse batizar com o

    Esprito e dar o Esprito aos discpulos, necessrio que Jesus fosse cheio do Esprito, algo que Joo, no

    delas em Atos); Paulo vem em seguida (114 vezes, incluindo-se Hebreus). Lucas certamente o telogo do Esprito, declara F. W. Horn, no apenas em termos estatsticos, mas tambm em termos de sua reflexo sobre o testemunho e a ideia cristos primitivos quanto ao Esprito a partir da perspectiva do conceito da histria da salvao (Holy Spirit, ABD, 6 vols. [New York: Doubleday, 1993]: 3:277). Nenhum autor individual, porm, contribui tanto para uma teologia do Esprito como Joo, especialmente no Evangelho.

    3 Deve ser aceito que o principal pano de fundo para a apresentao sintica da obra do Esprito o AT

    (Donald Guthrie, New Testament Theology [Downers Grove: InterVarsity, 1981], 525). Para o conceito bsico de

    ra no AT, veja M. V. van Pelt, W. C. Kaiser Jr., e D. I. Block, R

    a , NIDOTTE, 5 vols. (Grand Rapids:

    Zondervan, 1997): 3:1073-1078.

    4 Esse conciso resumo no leva em considerao diversas questes importantes quanto ao Esprito nos

    Evangelhos Sinticos. Para discusso mais aprofundada, veja Guthrie, 514-526; C. K. Barrett, The Holy Spirit and the Gospel Tradition, 2

    a. ed. (Londres: SPCK, 1966); e esp. Craig S. Keener, The Spirit in the Gospels and Acts: Divine

    Purity and Power (Peabody: Hendrickson, 1997).

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    entanto, parece apenas pressupor, possivelmente em conexo com o prprio batismo de Jesus.5 O fato

    dele nunca mencionar que Jesus realizava milagres pelo poder do Esprito talvez tenha que ver

    unicamente com sua nfase na natureza divina de Jesus, assim como seu silncio quanto ao nascimento

    virginal talvez se deva importncia que ele atribui encarnao, que melhor se harmoniza com o

    conceito de pr-existncia.6 Joo, porm, cuidadoso o bastante para vincular os milagres (smeia) de

    Jesus no s Sua divina filiao (o pr-existente Filho de Deus), mas tambm ao Seu carter messinico

    (20:30-31), o que de alguma forma preserva a ideia de dotao sobrenatural (cf. At 10:38). Mais uma

    vez, o evangelista pode apenas estar pressupondo aquilo que explcito nos demais Evangelhos.

    bem provvel que a ideia de capacitao tambm esteja presente no ato de Jesus soprar o

    Esprito sobre os discpulos no momento em que lhes confere a comisso evanglica (Jo 20:21-22).

    verdade que nada dito acerca do propsito do envio e o comentrio seguinte se refere ao perdo dos

    pecados (vs. 23), mas difcil no interpretar o episdio em conexo com Lc 24:45-49 (cf. At 1:8).7 A

    passagem, porm, apresenta alguma dificuldade em vista da descida do Esprito por ocasio do

    Pentecoste, o que tem levado diversos estudiosos a propor duas concesses do Esprito, uma aos

    5 A frase pois no de forma limitada que ele d o Esprito (vs. 34b) de difcil interpretao, visto que

    nem o sujeito (se o Pai ou o Filho) nem o destinatrio (se o Filho ou os crentes) do verbo dar mencionado. Quando lida, porm, em conexo com a frase seguinte (vs. 35), a ideia de que o Pai quem d ilimitadamente o Esprito e que o Filho quem o recebe parece prefervel. Assim pensa a maioria dos comentaristas. Para referncias, veja Craig S. Keener, The Gospel of John: A Commentary, 2 vols. (Peabody: Hendrickson, 2003), 1:582-583.

    6 No que no haja espao para o nascimento virginal na teologia de Joo, mas no existe nenhuma

    sugesto de pr-existncia como com o conceito de encarnao, por meio da qual Algum que previamente estava com Deus Se torna carne (Wilson Paroschi, Incarnation and Covenant in the Prologue to the Fourth Gospel (John 1:1-18), EUS [Frankfurt: Peter Lang, 2006], 9 n.4). Raymond E. Brown acrescenta: Pensamento encarnacional indicativo de uma cristologia que enfatiza a pr-existncia ... e escritos que refletem tal cristologia [cf. Fp 2:7; Jo 1:14] revelam desconhecimento ou desisteresse na maneira como Jesus foi concebido (The Birth of the Messiah: A Commentary on the Infancy Narratives in the Gospels of Matthew and Luke, ed. rev., ABRL [Nova York: Doubleday, 1993], 141).

    7 Para Werner G. Kmmel, porm, o dom do Esprito de Jo 20:22 tem que ver unicamente com o perdo

    de pecados. Ele acrescenta que Joo no diz absolutamente nada acerca da capacitao pelo divino Esprito para a realizao de feitos miraculosos (The Theology of the New Testament according to Its Major Witnesses: Jesus, Paul, John, trad. John W. Steely [Nashville: Abindgon, 1973], 313).

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    crentes em geral, aqui representados pelos discpulos, e outra dez dias aps a asceno (At 2). No

    primeiro caso, como argumenta Brown, o ato de Jesus soprar (evmfusa,w) o Esprito consistiria numa

    aluso ao sopro criador de Deus mencionado em textos como Gn 2:7 e Ez 37:5-6 (cf. Sab 17:11). O

    significado da expresso joanina, portanto, seria que assim como no princpio Deus soprou o esprito de

    vida sobre a humanidade, assim nesse momento da nova criao Ele sopra o Esprito Santo sobre os

    discpulos, concedendo-lhes a vida eterna.8 J Herman Ridderbos, conquanto concorde que a referncia

    seja capacitao dos discpulos para a misso, nega que haja aqui qualquer aluso ao Pentecoste,

    como em Jo 7:39. Para ele, 20:22 fala de uma concesso mais limitada do Esprito aos discpulos

    somente, e no do seu derramamento sobre toda carne de forma indistinta como no episdio de At 2

    (cf. vs. 17).9

    A importncia de Jo 7:39, porm, no pode ser minimizada. Para Joo, o Esprito no poderia ser

    dado antes da asceno e glorificao de Jesus (cf. At 2:32-33); a glorificao seria a confirmao do Pai

    de que o Filho cumpri