O FUTURO POLÍTICO DA EUROPA - ipris.· O FUTURO POLÍTICO DA EUROPA A crise asiática e as suas repercussões

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  • O FUTURO POLTICO DA EUROPA A crise asitica e as suas repercusses Joaquim Aguiar Analista Poltico No pretendo analisar aqui a crise asitica em si mesma, como um fenmeno econmico e financeiro especfico que est em desenvolvimento na sia Oriental desde o incio da dcada actual, no Japo desde os primeiros anos da dcada de 90, nas outras economias asiticas, tambm designadas como tigres, com mais intensidade desde Julho de 1997. Estando mais interessado nos assuntos polticos, a crise asitica ser aqui considerada como um sintoma de um fenmeno mais geral, que no est circunscrito a uma nica regio ou apenas aos assuntos econmicos. Mesmo para os mais experimentados economistas profissionais, ainda no claro se ser, para j, atingvel o objectivo de uma anlise estritamente econmica que seja convincente1. Se os analistas econmicos que tm o curriculum adequado no tm sido muito bem sucedidos na interpretao, em termos econmicos, de um fenmeno muito complexo e, em mais do que um sentido, surpreendente, parece razovel admitir-se que a crise asitica no deve ser vista como uma crise em si mesma, especfica de uma certa regio e gerada pelas suas singularidades. verdade que h boas narrativas e descries elaboradas com os detalhes econmicos da crise asitica, e algumas sero referidas mais frente. Mas justifica-se apresentar um argumento de ndole mais geral antes de se entrar nas especificidades destas perturbaes. Vista da Europa e esta ser a perspectiva aqui adoptada , a crise asitica aparece como o exemplo de uma perturbao especfica dentro de um fenmeno mais geral, que pode ter outras manifestaes em outras partes do mundo, variando em funo das caractersticas bsicas, ou das condies iniciais, de cada zona. Todas essas perturbaes esto a ser geradas pelo mesmo tipo de foras genricas que esto a configurar agora os campos econmicos, sociais e polticos, tornando-os muito diferentes do que costumavam ser. Nos nossos tempos, num mundo globalizado onde as fronteiras nacionais j no tm eficcia para controlarem os efeitos, directos e indirectos, de crises em outras partes do mundo, ningum pode ignorar a responsabilidade de procurar explicaes credveis para cada tipo de perturbao, e argumentos que esclaream o que correu mal. Mais do que um problema analtico, o que se encontra aqui um problema pertinente de autodefesa. Se no formos capazes de atingir uma explicao razovel para estes tipos especficos de perturbao, por muito peculiares que estes paream ser, ningum poder estar seguro de que qualquer coisa de semelhante, ou uma perturbao equivalente na mesma ordem de grandeza, no possa acontecer numa zona prxima ou na nossa sociedade. Neste ponto, justifica-se a citao de Paul Krugman, professor de economia no mit: O Japo preocupa-me. Se no conseguirmos compreender o que aconteceu de errado no Japo, quem pode garantir que coisa idntica no nos possa acontecer?2. O tema no o Japo, ou a Tailndia, ou a Indonsia, ou o muito celebrado Estado desenvolvimentista, o capitalismo de influncias e amizades ou os modos muito especiais que as autoridades

  • financeiras adoptam para avaliar o risco e para aplicar o capital. O tema central, pelo menos na perspectiva escolhida para este texto, porqu agora e porqu to subitamente, com tanta virulncia. Ser um vrus bem conhecido e a razo para a doena dever ser procurada em fragilidades particulares que estavam no corpo econmico da sia Oriental e nos seus hbitos sistmicos? Ou estaremos perante um vrus mutante, que explora as mudanas nas condies econmicas e polticas para produzir perturbaes de um novo tipo? O argumento aqui apresentado estar centrado na necessidade de ir para alm das singularidades da economia e da poltica asiticas, e at mesmo para alm das suas peculiaridades culturais, ainda que todos estes sejam, certamente, aspectos importantes a considerar. O objectivo integrar o que est a acontecer na sia na perspectiva mais ampla do que tem estado a mudar em todas as sociedades modernas dentro do processo que tem sido designado como globalizao. Se o argumento for aceite como fundamentado e plausvel, o que quer que seja que est a acontecer no Japo e por toda a sia Oriental, na Amrica Latina ou at na Rssia e na volatilidade do Dow Jones dever ser considerado como um novo tipo de perturbao, gerado por novas relaes econmicas em condies sociais e polticas alteradas. E para este vrus mutante as teraputicas habituais no sero eficazes. 1. A ambiguidade da globalizao Globalizao um termo ambguo quando usado como uma chave explicativa geral para os acontecimentos recentes. O nosso no o primeiro perodo da histria em que processos de globalizao perturbam os sistemas polticos e as configuraes sociais estabelecidas. Para considerar apenas os ltimos quinhentos anos3, pelo menos duas ondas de globalizao mudaram drasticamente as estruturas econmicas, polticas e sociais em todo o mundo, por modos e com intensidades que nenhum poder individualizado poderia impor. A expanso europeia, conduzindo implantao de imprios coloniais, do sculo xvi at meados do sculo xx, foi a primeira onda de globalizao, estabelecendo um padro mundial cujas formas eram delimitadas por fronteiras. A segunda onda foi gerada por fluxos financeiros, durante a viragem do sculo xix para o sculo xx, dirigindo-se para as que eram, ento, as economias emergentes, um perodo durante o qual a circulao de capitais e de produtos registou um forte aumento de intensidade4. E at os desenvolvimentos tecnolgicos, vindos desde a Renascena atravs das Revolues Industrial, Agrcola e Informtica, podem ser apresentados como uma onda longa de globalizao, uma corrente subterrnea sobre a qual outras, superficiais mas mais visveis nas perspectivas de curto prazo, seguem os seus cursos. No h nada de muito novo em termos de globalizao, pelo menos quando consideramos este conceito na perspectiva histrica do prazo longo. certo que cada perodo histrico tem as suas prioridades prprias e o seu contexto prtico especfico, e nesse quadro que so construdos as expectativas e os objectivos. Neste sentido, compreensvel que a globalizao actual, porque a nossa globalizao, seja mais importante para ns do que todas as outras anteriores. Mas preciso ter especiais cautelas quando, ao analisar os acontecimentos concretos e actuais, se aceita o risco do daltonismo, mesmo quando isso seja justificado pelo facto de sermos directamente interferidos e envolvidos pelos acontecimentos actuais.

  • Por muito complexo que isso possa ser, a verdade efectiva das coisas, como Maquiavel sugeria, mais relevante do que a simplicidade das iluses. A globalizao um elemento importante para explicar acontecimentos recentes, na sia e noutras partes, mas no dever ser usada isoladamente, pois estaramos a aceitar o risco excessivo de simplificar demasiado a evidncia disponvel ou, o que ainda seria pior, estaramos a cair na armadilha de trivializar os temas, tornando-os equivalentes s globalizaes do passado, o que pode ser um modo de, subconscientemente, evitarmos reconhecer a urgncia da aco. Se as globalizaes do passado foram absorvidas e integradas com sucesso, pelo menos nas sociedades ocidentais, no haveria razo para que a actual tivesse de ser diferente ou mais perigosa do que os anteriores processos de globalizao. Para que possa ser til, o conceito de globalizao no deve ser usado isoladamente. Deve ser usado em conjunto com dois outros elementos que identificam a situao efectiva dos sistemas poltico e econmico que so envolvidos por esta onda de globalizao e que, quando considerados conjuntamente, explicam que as teraputicas tradicionais no actuem como era esperado ou nem sequer actuem de todo. O primeiro desses dois elementos adicionais que devemos ter em considerao quando usamos o conceito de globalizao a diminuio dos poderes de regulao dos Estados nacionais nas sociedades modernas. Numa primeira observao, isto parece ser uma consequncia da globalizao e no uma varivel independente. Uma observao mais detalhada permite ver uma imagem diferente. Os poderes de regulao de diferentes Estados nacionais nas sociedades modernas no so atingidos do mesmo modo e com a mesma intensidade em todos os casos. Os Estados nacionais que sofrem mais so aqueles onde as polticas reguladoras e os equilbrios internos eram mais artificiais, mais afastados das condies competitivas gerais ou daquilo que se designa agora como padres comparativos globais. Os Estados nacionais que viram os seus poderes de regulao tradicionais mais reduzidos so os que eram mais orientados pela ptica nacional no exerccio dos seus poderes de soberania e que, por isso, eram mais vulnerveis comparao directa de eficincia e de sustentabilidade que aparece com o processo de globalizao. A evoluo da eficcia dos poderes de regulao nacionais est ligada ao processo de globalizao, mas no uma varivel dependente, tem alguns graus de liberdade. O segundo elemento que deve ser associado ao processo de globalizao para identificar as suas implicaes estratgicas a fase de desenvolvimento de cada sociedade. Um modo de considerar este terceiro elemento atravs das curvas em S, as sigmides. familiar a primeira parte da curva em S, o smbolo do crescimento. Por vezes, dada alguma ateno seco intermdia da curva em S, quando a evoluo acelera, ignorando a lei da gravidade e desafiando o peso. Contudo, a sigmide tem dois outros aspectos importantes. Um o ponto no meio, o ponto de inflexo, quando a acelerao perde fora. O outro a seco final, onde o movimento ascendente se esgota. O sonho de todos atingir e gerir um estado estacionrio ao nvel da seco final da sigmide, o que seria a sustentao de uma tendncia estvel no ponto mais alto possvel da curva. Nunca ningum conseguiu realizar essa ambio de um modo sustentado, mas importante determinar, quando se analisa o efeito de mudanas estratgicas, em que ponto da curva a sociedade est, pois a sua capacidade para reagir aos choques e s perturbaes depender desta informao.

  • Se considerarmos agor