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O relativismo de Kuhn derivado da histria da cincia

ou uma filosofia aplicada cincia?Alberto Oliva

resumoEst longe de ser fcil qualificar uma concepo ou um pensador de relativista. Como Kuhn rejeita sertachado de relativista, discutiremos o que em sua obra d ensejo a assim caracteriz-lo. Abordaremostrs relativismos em Kuhn o epistmico, o ontolgico e o lingustico com o intuito de avaliar se orelativismo em Kuhn fruto da aplicao de uma filosofia compreenso da cincia ou se derivado deuma fidedigna reconstruo histrica da cincia. Entendemos ser fundamental diferenciar o caso emque se emprega uma variante de relativismo filosfico na reconstruo da cincia do caso em que o re-lativismo extrado de como a cincia vem sendo praticada. Tentaremos, operando com a distino entrerelativismo filosfico e relativismo metacientfico, demonstrar que as teses basilares de Kuhn so, quandomuito, parcialmente apoiadas pela histria da cincia. E tambm advogaremos que o relativismo kuhnianodeve fundamentar-se em ltima anlise em explicaes psicolgicas e sociolgicas para ser solidamentedefendido. Kuhn reconhece isso, mas questiona a capacidade explicativa das teorias at aqui forjadaspelas cincias sociais. E se Kuhn no capaz de mostrar como e em que extenso os fatores sociais atuamsobre a racionalidade cientfica, ento seu relativismo pode ser apropriadamente visto como fruto daaplicao de determinada epistemologia, ontologia e filosofia da linguagem compreenso da cincia.

Palavras-chave Relativismo. Relativismo epistmico. Relativismo ontolgico. Relativismo semnti-co. Incomensurabilidade. Kuhn.

Pode-se dizer que A estrutura tem o senso sociolgico dofilsofo, o senso filosfico do historiador e o senso his-trico do socilogo (Fuller, 2000, p. 32).

1 Relativismo: definio e identificao

De sada, o relativismo envolve dois problemas, o da definio e o da identificao.Est longe de ser fcil justificar a caracterizao de uma concepo ou de um pensadorcomo relativista. Inexiste concordncia tanto entre os defensores quanto entre os cr-

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ticos sobre os traos distintivos do relativismo. A falta de consenso torna complicadaat a tarefa de determinar se relativista uma tese ou posio. Assim como na filosofia,o relativismo na metacincia apresenta-se em diferentes verses. Visto que Kuhn nose considera relativista, imperioso saber o que em sua obra d ensejo a que se cheguea nela identificar um relativismo extremo.

Nosso propsito avaliar se as teses de Kuhn, que podem ser qualificadas derelativistas, resultam da aplicao de determinadas teorias filosficas ao estudo dacincia ou se derivam de como a cincia vem sendo produzida. Estamos interessadosem discutir se Kuhn se socorre de uma epistemologia, de uma filosofia da linguagem ede uma ontologia de cunho relativista para reconstruir a cincia ou se as extrai do acom-panhamento (histrico) das prticas cientficas. Faz toda diferena se o relativismoencontrvel na obra de Kuhn fruto de posies filosficas ou se est escorado na ob-servao (do evolver) da cincia.

Dado o papel capital que Kuhn atribui histria da cincia, sua metacincia fragilizada caso se destaque por reconstruir a cincia luz de uma filosofia relativista.Em contraposio, os ataques ao relativismo metacientfico se enfraquecem caso selogre demonstrar que a cincia, no essencial, feita em consonncia com os padresque Kuhn nela identifica. No caso de ser uma filosofia aplicada reconstruo da cin-cia, o relativismo est sujeito a crticas que no valem para um relativismo derivado decomo a cincia vem sendo historicamente forjada.

Para que se possa melhor avaliar a justeza das crticas a Kuhn julgamos impor-tante introduzir a distino entre relativismo aplicado e relativismo derivado. Se orelativismo retrata como a cincia tem sido praticada, deixam de estar justificados osataques mais comuns dirigidos a Kuhn. Os crticos tendem a dar como certo que os trsrelativismos o epistmico, o ontolgico e o lingustico detectveis em Kuhn resul-tam da aplicao de uma filosofia reconstruo da cincia. Pensam assim porque, se orelativismo kuhniano for uma metacincia respaldada na histria da cincia, muitasdas crticas que assacam contra ele so, em ltima anlise, contra a prpria cincia.

No se tem dado a devida importncia ao fato de que o crucial identificar ondepreferencialmente em teorias epistemolgicas, ontolgicas e semnticas ou na his-tria da cincia Kuhn vai buscar apoio para suas teses caracterizveis como relativis-tas. Megill (1997, p. 4) defende o ponto de vista de que esses filsofos que acusaramKuhn de relativismo e irracionalismo o estavam realmente acusando de abandonar aobjetividade em seu sentido absoluto, filosfico. O desafio no mostrar que Kuhn secoloca contra os pilares (objetivistas) da filosofia da cincia tradicional, mas provarque suas teses relativistas encontram sustentao nos modos pelos quais a cincia temsido historicamente produzida.

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Enquanto Kuhn rejeita ser qualificado de relativista, por entender que encontrana cincia o que propala sobre ela, seus crticos do como demonstrado que Kuhn im-pe uma viso relativista cincia. Laudan (1990, p. viii) sustenta que o relativismo, adespeito de nuanado, pode ser definido, em uma primeira aproximao, como a tesede que o mundo natural e a evidncia que temos dele pouco ou nada fazem para res-tringir nossas crenas. Malgrado o critrio geral luz do qual se justifica julgar Kuhnrelativista, tal definio no permite determinar se o relativismo kuhniano , em suaessncia, metacientfico ou filosfico.

Advogam Collins e Yearly (1992, p. 303) que a importncia dos argumentos fi-losficos sobre o relativismo nos anos 1970 no equivaleu, em retrospecto, a teremmostrado que o relativismo verdadeiro e sim que defensvel e que pode ser usadocomo uma metodologia para estudar a cincia. Aplicado como metodologia, o relativis-mo fica vulnervel a questionamentos antes de tudo filosficos, de tal modo que passaa ter uma importncia secundria saber em que medida a cincia o apia.

Investigaremos a presena de trs modalidades de relativismo na obra de Kuhncom o objetivo de avaliar se so ou no derivadas da cincia.

(1) O relativismo epistmico: os mtodos de investigao da cincia sorelativos a esquemas conceituais, molduras tericas ou paradigmas; aevidncia subdetermina a escolha de teoria na medida em que qual-quer teoria pode ser racionalmente retida luz da evidncia dispon-vel ou concebvel;

(2) o relativismo ontolgico: o que se toma por existente objetos, fatos,entidades etc. identificado por um modelo terico, um esquemaconceitual, um paradigma etc;

(3) o relativismo lingustico: o significado dos mesmos termos, sejam te-ricos ou observacionais, varia quando os termos so usados em dife-rentes teorias; o esquema conceitual no tem como tornar-se inteli-gvel na linguagem de um esquema rival.

Para Laudan (1996, p. 5), quem defende essas posies pode ser considerado umrelativista completo.

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2 O relativismo epistmico em Kuhn

Deixar de fazer a distino entre um relativismo filosoficamente aplicado cincia eum relativismo metacientificamente derivado da cincia leva a avaliaes gerais poucoelucidativas. fcil condenar o relativismo, como faz Harris, se visto como sobreposiode uma filosofia cincia: o feio fantasma do relativismo despertado, o ceticismousa novas roupas de cordeiro e a cincia corre o risco de tornar-se, como sugeriramalguns, apenas mais uma ideologia (1997, p. 73). O difcil determinar se umrelativismo sofisticado como o kuhniano encontra guarida na cincia.

Nola (1988, p. 2) defende a tese controvertida de que o relativismo h muitotempo foi banido da filosofia. Em continuao, ressalta que, apesar disso, encontrouna maior parte do sculo passado, um lar nas doutrinas da maioria (mas no de todos)dos socilogos do conhecimento e, mais recentemente, nas doutrinas da maioria (masno de todos) dos socilogos da cincia, de vrios historiadores da cincia e de umpunhado de filsofos da cincia. Se essa avaliao boa, o relativismo presente nametacincia estranho cincia. Da afirmao de Nola, de que o relativismo se tor-nou, sob a influncia de muitos desses tericos, uma interpretao difundida da maio-ria dos aspectos do empreendimento cientfico, segue-se que o relativismo apresen-tado com vestimentas metacientficas no passa de uma leitura filosfica da cincia.

Putnam (1984, p. 113) qualifica de relativismo extremo a viso kuhniana deque inexiste justificao racional em cincia, existem apenas reverses gestlticas econverses. A presena do relativismo na metacincia no se torna mais criticvel, seo relativismo for extremo. Se o relativismo kuhniano fruto do enquadramento dacincia em uma moldura filosfica, importante caracteriz-lo como extremo, masno no caso de estribar-se em uma fidedigna reconstruo histrica da cincia.

A filosofia da cincia tradicional dedicava-se a identificar critrios universaisindependentes de teorias especficas e de sua histria aos quais atribua a misso depromover no s a avaliao de cada sistema terico, como tambm de aferir o tipo deavano representado pela substituio de uma teoria por outra. Acreditava que mesmoquando muda radicalmente o contedo das teorias cientficas, a lgica da pesquisa man-tm-se a mesma. Isso significa que os procedimentos basilares de aferio metodol-gica sobrevivem s mudanas de teoria. O essencial ter como determinar se os errosda teoria predecessora foram corrigidos, se as conquistas explicativas anteriormentealcanadas foram preservadas, se h ava