Ontologia Negativa

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Texto de Robert Kurz. É uma crítica radical do sujeito como forma movente dos homens no interior da socialização pelo valor.

Text of Ontologia Negativa

  • Ontologia NegativaOs obscurantistas do Iluminismo e a metafsica histrica da Modernidade

    Robert Kurz

    "Se o fosse de todo, a ontologia seria possvel sob um ponto de vistairnico, como o supra-sumo da neatividade... Se quisssemos esboar

    uma ontologia e, ao faz-lo, ater-nos ao facto fundamental, cujarepetio faz dele uma invariante, o resultado seria o horror...; bom

    to-s o que escapou ontologia".

    Theodor W. Adorno, Dialctica Negativa

    A libertao tem de ser repensada. Aps o fim do marxismo e do socialismo do movimento oper -rio, no resta dvida de que quanto a este postulado abstracto existe um consenso entre a maioriadas tericas e dos tericos de esquerda que ainda continuem a querer s-lo. No entanto, mal se tratede definir o novo, que o que se supe estar em causa, este no se revela apenas regularmente comoo velho em traje novo, mas, antes de mais, como o mais vetusto de entre o velho; nomeadamente,como recada para o que antecede o marxismo, para o seio da Filosofia iluminista burguesa, em vezde uma tentativa de ir para alm do marxismo.

    certo que j o marxismo do movimento operrio em todas as suas variantes, devido sua forma dosujeito e do interesse, estritamente associada ao moderno sistema produtor de mercadorias, se man-teve apegado ao pensamento burgus do Iluminismo; no entanto, ao mesmo tempo, ele no deixoude o criticar como sendo burgus, mesmo que fosse apenas de um modo restrito ao prisma da socio-logia de classes, sem se aproximar de uma crtica categorial da Modernidade. Adorno, com a sua teo-ria transitria, at chegou, por momentos que fosse, a ir para alm desta limitao abandonando oquadro de referncia sociolgico ("classista") e criticando o carcter do Iluminismo no que diz res-peito sua lgica identitria e autodestrutividade sem, contudo, conseguir levar esta crtica at aofim. precisamente o mesmo que tem de ser feito agora, mas precisamente a esta tarefa que toda agente recusa sujeitar-se. Venham da estrebaria de esquerda que vierem, os que at data foram osportadores da crtica de renome recuam perante este problema-obstculo como cavalos que toma-ram os freios nos dentes.

    E, no seu pnico cavalar, todos eles galopam de volta ao sculo XVIII, como se nem sequer tivesseexistido a redutora crtica marxista do pensamento iluminista. Numa azfama febril debitam-se asfrases feitas mais decrpitas da constituio capitalista, como se fossem as mais recentes descobertasempolgantes da crtica radical do capitalismo. H algo de lgubre na forma como os resqucios dainteligentsia de esquerda competem com os arautos do capitalismo de linha dura, para saber quemconsegue apregoar mais alto os tpicos essenciais da ideologia do Iluminismo, que j h muito tem-

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  • po se tornaram inspidos e absurdos. Em que poder ainda consistir o debate se dos dois lados se ou-vem as mesmas palavras de ordem? Pelos vistos j no se trata de nada de fundamental, mesmo quea crise mundial do sistema produtor de mercadorias se encontre, ao mesmo tempo, em plena efer-vescncia e com tendncia a alastrar.

    Seja como for, no assim que se repensa a libertao. Em primeiro lugar, um pensamento que quei-ra adequar-se a esta tarefa tem de libertar-se a si prprio do assim chamado Iluminismo. Tal no serpossvel da noite para o dia, mas nesse caso simplesmente sero necessrias duas, trs, muitas tenta-tivas. Em vez de continuar a papaguear irreflectidamente os conceitos do pensamento iluminista se-dimentados nos edifcios tericos modernos, a crtica tem, antes de mais, de os virar de pernas parao ar, tem de sacudi-los e atir-los para a lixeira da histria intelectual.

    O indivduo abstracto no uniforme da chamada subjectividade

    O prfido carcter fantico da ideologia iluminista afirma-se precisamente no facto de ela enaltecerpermanentemente a "autonomia" e "liberdade" do "indivduo" reclamando-as exclusivamente para si.Esta apoteose burguesa do individualismo, pela qual ainda se deixaram levar Adorno e os posterio-res adeptos de uma pretensa ortodoxia adorniana, pelo menos no que faz dele um "ideal" burgus,foi sempre legitimada de uma forma dupla: por um lado, contra a totalidade das sociedades agrriasde um contexto pr-moderno que eram sumariamente desqualificadas; por outro lado, contra o pr-prio absolutismo burgus dos primrdios da Modernidade, assim como contra os regimes totalitri-os de estado da histria da imposio do capitalismo do sculo XX.

    Ao mesmo tempo que as formas do fetiche pr-modernas so denunciadas, na ideologia iluministaideologicamente agudizada, a priori e sem qualquer investigao concreta, como o horror puro eduro de um "apego natureza" supostamente total, elas evidenciam-se sob a forma da estrutura dasociedade similar de uma torpe manada de gado que no teria admitido qualquer laivo de indivi-dualidade. Esta ideia caricata serve nica e exclusivamente para desviar as atenes do facto de aprpria mquina produtora de mercadorias ainda ser uma sociedade fetichista e, mais concretamen-te, a primeira de cariz totalitrio, cuja pretenso justamente imprime aos indivduos, com uma vio-lncia nunca antes vista, uma forma nica: o "uniforme" do sujeito do trabalho, do dinheiro e daconcorrncia.

    A individualidade existiu em todas as sociedades histricas, uma vez que uma relao do ser huma-no particular para com uma forma social j se encontra estabelecida partida com a segunda natu-reza e, da, coincide com a humanizao. Por isso, o ser humano particular tambm tinha de ser per-cepcionado enquanto tal, tendo os seus espaos de manobra, mesmo que essa individualidade se ex-primisse de formas diversas, consoante a mediao com relaes de fetiche diversas da constituiosocial. A tenso entre o indivduo e a sociedade pode, por isso, ser comprovada em qualquer partepela respectiva expresso cultural. At a expresso "indivduo" , afinal, proveniente da Antiguidadeclssica (no constituindo, de modo algum, o prottipo do conceito moderno da individualidade);da mesma forma, o conceito do ser humano particular (individuitas) apresenta-se sob formas mlti-plas nas civilizaes agrrias da assim chamada Idade Mdia. O mesmo tambm se aplica s socieda-

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  • des pr-modernas extra-europeias, mesmo que ali a individualidade se manifestasse sob formas ain-da outras que muitas vezes no eram visveis ao olho ocidental, fixado na sua prpria constituio.

    O que a ideologia do Iluminismo faz passar pelo conceito nico do indivduo, reclamando-o para siou, ento, para a Modernidade capitalista, sem dvida o "Eu" abstracto, ou seja, a forma especifica -mente moderna da individualidade abstracta. Neste sentido, "indivduo" significa j a forma sob aqual os seres humanos particulares so pensados como sendo imediatamente idnticos com a rela-o social compulsiva: nomeadamente, como seres socialmente separados, societariamente atomiza-dos que (em ltima anlise, at prpria esfera da intimidade) j apenas so capazes de se mediaremmutuamente atravs da forma de relao coisificada e morta do dinheiro. Esta forma, porm, remetepara que tenha sido dada aos indivduos reais, sensveis, necessitados e sociais uma margem de ma-nobra maior face s sociedades pr-modernas, meramente sob a forma de uma amarrao aindamais inexorvel ao fetichismo moderno e coisificado. Os indivduos apenas podem actuar de ummodo crescentemente independente da famlia, do cl, da condio social, da relao de fidelidadepessoal, porque na sua existncia imediata se encontram condenados a serem o rgo executivo domovimento do fetiche geral: precisamente porque a mscara de carcter da forma social, relativa-mente solta no passado, se fundiu com a cara.

    O aparente alargamento do espao de manobra na Modernidade constitui, portanto, ao mesmo tem-po um extremo estreitamento. Este at foi originalmente sentido como tal, pelo que a sua imposio,desde a histria europeia da constituio da Modernidade, nos sculos XV e XVI, at aos retardatri-os histricos que foram os regimes da "modernizao a posteriori", em pleno sculo XX, apenas foipossvel, contra resistncias prolongadas e insurreies sangrentas das pessoas, com base em formasde violncia estatal e burocrtica. Assim sendo, as situaes de coero absolutistas e, mais tarde, to-talitrias de estado, no constituem, de forma alguma, o oposto exterior do indivduo moderno "li-vre" e "autnomo" mas, longe disso, o seu prprio invlucro compulsivo. A autonomia e a liberdadereferem-se nica e exclusivamente ao espao interno da relao de valor e dissociao, em que o in-divduo j se encontra abrangido pela forma do fetiche, no lhe sendo lcito qualquer desvio queseja. No molde da individualidade abstracta, o absolutismo social da forma e a existncia real e sen-svel do indivduo humano parecem coincidir de forma imediata.

    Deste modo, os indivduos modernos so destitudos de toda a sua originalidade: eles ameaamtransformar-se em meros "exemplares" da forma do valor, em "seres humanos de confeco". Quantomais estridente se torna o discurso da maravilhosa "individualidade" moderna e ocidental, mais osseres humanos particulares tornados realmente abstractos se assemelham uns aos outros como umovo se assemelha a outro, at postura exterior e mesmo at aos pensamentos e sentimentos, que socomandados mecanicamente pelas modas e pelos media, em conformidade com as convenincias dofetiche da valorizao.

    Sob este prisma evidente que a individualidade moderna e abstracta no representa, de modo al-gum, uma fase de transio "necessria" e "progressiva" no processo da libertao da individualidadehumana de situaes de um constrangimento social irracional. Antes pelo contrrio, trata-se de queo carcter obrigatrio da relao do fetiche chegou a colar-se prpria pele dos indivduos. O espaode actuao da "liberdade" burguesa deve-se essencialmente a uma iluso ptica que deriva precisa-

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  • mente do facto de, contrariamente situao pr moderna, o verdadeiro indivduo e a sua forma so-cial serem definidos como quase idnticos. O que