Sangue - Trecho

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1256. Will estava destinado a ser o Conde de Mércia, mas não viveu o bastante para herdar o título, já que foi acometido por uma estranha doença aos 16 anos de idade. Mesmo assim, apesar de sua morte – e de seu enterro –, ele não está nada morto. Ao longo das páginas, o leitor vai compreender um pouco sobre esta condição de Will. Descobrir que ele está existindo entre a vida e a morte. Ocasionalmente hiberna, sempre esperando que a morte lhe chame e, toda vez que desperta, enterrado no solo, tem uma breve lembrança do primeiro pânico que sentiu em 1349.

Text of Sangue - Trecho

  • sangue

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  • Trilogia

    O VampirO de mrcia

    SangueAlquimiaMorte

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  • rio de Janeiro | 2014

    K J WIGNALL

    s angueVIDA MORTE DESTINO

    Traduomarsely de marco martins dantas

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    durante todo o percurso at o rio, a dor no brao permanecia, lembrando a Will que ele tinha sido amaldioado quela exis-tncia, fruto da maldade, lembrando-lhe ainda que o que quer que

    tivesse voltado sua vida h uma hora tambm era amaldioado. e, com as palavras de Jex ecoando em sua mente, era o mal que espe-rava encontrar naquele rio.

    Na verdade, o que encontrou por l foi um cenrio confuso, uma

    cena de abandono. O primeiro armazm margem do rio estava

    cercado de andaimes e parecia estar passando por algum tipo de reforma. O segundo, um prdio grande de quatro andares que ia at a

    ponte por toda a extenso da rua, havia sido invadido por moradores de rua, assim como o que ficava na outra margem do rio.

    Will olhou para os edifcios sem conseguir entender o que estava acontecendo ali. Observou as janelas iluminadas e viu a movi-

    mentao das pessoas em suas casas. era uma escolha estranha de moradia, pensou. e, se a criatura que o mordera estivesse por perto, no estaria entre os vivos.

    Instintivamente, virou-se e caminhou para o outro lado do rio,

    para longe das luzes e dos sinais de vida, indo na direo da pequena

    rea de desolao, da qual ele parecia j estar saindo.No tinha caminhado muito quando sentiu algum frente, o

    que diminuiu sua esperana de encontrar a criatura naquela noite, pois essa era uma pessoa saudvel e cheia de vida. Se essa mulher

    pois sentia que era uma mulher no estava ferida nem assustada,

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    ento era improvvel que a criatura estivesse por perto. Sentindo-se mais desapontado, imaginou se os ces assustaram-se apenas com as

    prprias sombras. Mesmo assim, continuou andando.

    No conseguia v-la, mesmo estando bem prximo. Quando a

    viu, estava apenas a alguns passos de distncia, sentada na soleira da entrada do que um dia fora uma cafeteria.

    No parecia mais velha que ele; a pele era to clara quanto a sua,

    os cabelos, mais escuros que os seus, e estava toda vestida de preto,

    apesar de usar um anel prateado em quase todos os dedos.A garota era bela e triste, mas o mais importante era que Will

    a reconheceu e isso reacendeu suas esperanas de que havia sido atrado at ali por alguma razo. Aquela era a garota do desenho na

    parede de Jex. A garota precisa de voc, voc precisa da garota, foi

    o que ele disse, ou algo parecido. Ser que estava se referindo quela

    garota?

    O que voc est olhando?

    O tom era hostil, e Will estava to distrado que nem percebeu

    que estava encarando a moa. desculpe, no era minha inteno.ela ignorou o pedido de desculpas, no dando margem para

    que a conversa continuasse. Will coou o brao distraidamente, no

    porque estivesse coando de fato, mas porque ainda conseguia se lembrar claramente do desconforto.

    Voc viciado?

    O tom era acusatrio, e ele soltou o brao, dizendo de forma

    franca: No. Algo me mordeu, s isso.

    encantador respondeu ela, sarcstica. ele no tinha cer-teza sobre a resposta que deveria dar, mas logo em seguida ela acres-

    centou: E ento? V embora. Quero ficar sozinha.

    Ele ficou um pouco abalado com o tom arredio e determinado da

    garota, que mostrava no imaginar que ele pudesse desobedec-la.

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    Mas logo percebeu que aquilo no passava de uma mscara, de um

    mecanismo de defesa para afastar as pessoas. Este local pblico disse, e mesmo agora, depois de tanto

    tempo, uma voz dentro de sua mente o corrigia: aquele local era dele, pertencia a ele por direito, assim como toda a terra ao redor.

    Ela mudou de ttica, mas era bvio que no queria conversa.

    Talvez seja, mas no um bom local para voc ficar. Voc devia

    voltar para casa e ficar com os seus pais.O tom era de zombaria e desdm, mas ele o ignorou e disse:

    O que voc quer dizer com isso? Por que este local no bom?

    J viu alguma coisa estranha acontecendo por aqui?

    Sim, vrias, mas sabe de uma coisa? Sai fora, vai procurar o

    que fazer.

    Com certeza ela estava tirando sarro dele, mas, como sempre, ele

    levava algum tempo para assimilar as palavras e o ritmo da conversa. Enquanto tentava entender o que ela dizia, percebeu que ela tremia

    um pouco. Voc est com frio. A noite est fria, sempre assim em novembro. Will con-

    cordou balanando a cabea. Percebia o ar cortante, mas no o sentia

    em seus ossos como um dia sentira. ela tentou uma terceira ttica. Olha s, no quero ser grosseira, mas, por favor, me deixe em paz.

    Claro. No tinha inteno de atrapalhar disse, dando um

    passo para trs, mas antes de se virar acrescentou: Sou rfo.

    ah... ela pareceu pensar um pouco e depois perguntou: H quanto tempo?

    H muito tempo.

    A garota simplesmente balanou a cabea, ainda no dando

    espao algum para ele, mas disse: Isso bem ruim.

    Will virou-se e saiu andando. Aquele no era o momento certo,

    mas pelo menos ela havia falado com ele, e alm disso ele teria todo

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    o tempo necessrio. era uma pena ela ter sido to arredia, pois gos-tara de sua aparncia se no fosse pelo seu cheiro, ele at a teria

    confundido com algum da sua espcie.

    O mais importante que o retrato dela estava na parede de Jex, e

    que Jex falara sobre uma garota imediatamente aps ter falado sobre

    Lorcan Labraid. Ento, era possvel que no fosse coincidncia o fato

    de Will t-la encontrado. Se uma fora maior estava agindo, talvez

    nada mais fosse coincidncia ele havia sido atrado para o rio e l havia encontrado a garota.

    Um carro de bombeiros j se encontrava no armazm apagando o

    fogo, que estava intenso, mas contido num nico lugar. Will colocou

    os culos escuros e, ao passar, um dos bombeiros virou-se para ele e

    perguntou, rindo: Est muito sol para voc?

    Will no deu ateno e continuou caminhando. Uma de suas

    maldies era haver homens como aquele o tratando com desprezo

    por causa da sua aparncia de garoto. Se eles soubessem apenas um

    pedacinho da verdade, sobre sua idade e seu poder, todos iriam se

    curvar diante dele da mesma forma que seus antepassados um dia o fizeram.

    Ele refez o caminho da ida e entrou na igreja pela porta lateral.

    Tinha ficado na rua por quase duas horas, mas ainda havia pessoas por l, mesmo sem msica e com o silncio cavernoso que tomava

    conta do lugar. Talvez a mulher que gritara com ele tambm estivesse

    ali, sentindo que algo importante havia acontecido no comeo da noite, mas sem conseguir lembrar o que poderia ter sido.

    Mais tarde, quando a igreja estivesse vazia, Will iria secretaria

    para pegar as chaves reserva da cripta e da porta lateral, um mtodo

    mais prtico e mais rpido do que confiar constantemente em seus poderes sobre o inanimado. Mas, por enquanto, desceu ao seu covil, sentou-se em seu trono de madeira ornamental e comeou a ler

    intensamente.

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    Infelizmente, a maior parte dos manuscritos de Jex no fazia sen-

    tido, era fruto das drogas, mas, em certos trechos, o texto era bem

    diferente, quase como se tivesse sido escrito por outra pessoa, e nessas partes o tom era proftico.

    Mesmo nesses trechos, pouca coisa fazia sentido prontamente, mas

    Will elucubrava, procurando absorver expresses e frases quebradas

    os inimigos dele sero uma legio; o crculo foi quebrado e est completo; Asmund espera com os espectros; dentre quatro vir um; a igreja sem membros se pronunciar; o rei suspenso chama todas as geraes.

    Havia muita coisa sobre o tal rei suspenso, uma expresso que

    ele ainda no conseguia entender, pois sua ltima contagem regis-

    trava vinte e oito reis e seis rainhas durante toda a sua vida, mas nenhum deles podia ser considerado deposto. A menos que, como

    ele esperava, se tratasse de um reinado diferente; a menos que esti-

    vesse sugerindo e prometendo seu segundo encontro com aquele que o mordera.

    Leu mais uma pgina e encontrou um desenho a lpis da garota perto do rio. Havia certa beleza nela, e talvez Jex apenas estivesse

    apaixonado. Mas, depois de ouvi-lo falar como falara, era confuso

    ver o retrato dela tanto no caderno como na parede. Tudo naquela noite estava confuso, um labirinto de palavras e momentos estranhos

    sempre permeados pela presena da garota.Will continuou a folhear o caderno e finalmente encontrou

    a pgina que o deixara surpreso no incio da noite. era ao mesmo tempo estranha, aterrorizante e cheia de promessa, uma promessa de

    que sua priso, com suas paredes construdas pelo tempo, tinha um propsito.

    Seria possvel que ele tivesse um destino a cumprir? Pois em todos

    esses sculos considerou-se amaldioado, uma vtima, e as fantasias

    que no saam da sua mente eram de vingana, e no de realizao.

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    At mesmo naquele instante, o que o impulsionava era o pensamento

    de confronto com a criatura, mas no conseguia evitar o fato de se sentir atrado pelo chamado do destino, pela