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TCNICAS CONSTRUTIVAS AVIEIRAS

Tradio e inovao no sistema palaftico

INS ALHANDRA CALOR

Arquitetos Sem Fronteiras Portugal

info@asfp.net

Resumo: As barracas construdas pelos pescadores migrados de Vieira de Leiria para as margens do

Tejo durante o sculo passado so representativas de uma cultura arquitetnica vernacular nica. As

edificaes elevadas do solo com estacas ou pilares conferem s povoaes Avieiras uma forte

identidade arquitetnica, enfatizada pela inovao das tcnicas construtivas adotadas. As trs

solues para o embasamento de edificaes palafticas Avieiras documentadas neste artigo

permitem identificar aspectos de continuidade e inovao face ao sistema construtivo dos palheiros

da costa ocidental portuguesa, nos quais tm as suas razes.

Abstract: The shacks built by fishermen who migrated from Vieira de Leiria to Tagus edges during the

last century are representative of a unique traditional architecture. Stilt dwellings bring to Avieiros

villages a strong architectonic identity, underlined by the innovation of their constructive techniques.

The three solutions of stilt buildings foundations shown in this article allow us to identify continuity and

innovation issues, regarding to the construction system present in Portuguese occidental coastal huts,

in which they have their roots.

Palavras-chave: PALAFITA MADEIRA AVIEIRO MTODOS CONSTRUTIVOS BARRACA Keywords: STILT DWELLING TIMBER AVIEIRO CONSTRUCTION SYSTEM - SHACK

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De cada vez que um trabalhador se depara com uma nova dificuldade e encontra forma de a superar, est a dar o primeiro passo rumo constituio de uma tradio. E outro trabalhador decide optar pela mesma soluo, a tradio progride. E quando um terceiro trabalhador procede do mesmo modo e d o seu contributo, a tradio est praticamente estabelecida. Fathy Hassan (1973: 34)

A migrao de pescadores oriundos da praia de Vieira de Leiria para as margens do

Rio Tejo e do Sado tem recentemente merecido especial ateno por parte da comunidade

acadmica, e de um conjunto alargado de entidades, em consequncia do projeto de

candidatura da cultura Avieira a Patrimnio Nacional1. Sendo parceiros neste projeto, os

Arquitetos Sem Fronteiras Portugal tm desenvolvido vrios estudos2 sobre o patrimnio

construdo Avieiro. Entende-se que um dos fatores valorativos desta candidatura ser o

carter inovador dos seus sistemas construtivos.

A construo sobre palafitas era amplamente utilizada na Zona da Xvega, situada

na costa ocidental portuguesa, sensivelmente entre Espinho e Vieira de Leiria. Os palheiros

edificados nas praias tinham o seu pavimento elevado, o que garantia a proteo contra o

vento e evitava o seu assoreamento pela deslocao da areia. Essa tradio construtiva

revela-se tambm eficaz no Tejo, protegendo as barracas3 Avieiras contra a subida de nvel

da gua. Estas edificaes apresentam aspectos de continuidade face aos palheiros da

costa ocidental mas introduzem vrios aspectos inovadores, que se devem, no s

adaptao ao novo contexto social e geogrfico, mas tambm ao engenho da sua gente.

No sentido de ilustrar esta dualidade tradio versus inovao, apresentam-se

neste estudo trs exemplos de diferentes solues construtivas adotadas para o

embasamento de trs edificaes Avieiras palafticas, identificadas durante o inventrio que

os Arquitetos Sem Fronteiras Portugal se encontram a realizar. Referenciando-os aos

sistemas construtivos identificados por Daniel Moutinho4, pretende-se demonstrar o carter

de continuidade e, especialmente, o de inovao dos mtodos construtivos Avieiros face aos

palheiros da costa ocidental portuguesa.

1 Projeto liderado pelo Instituto Politcnico de Santarm. 2 ASFP tm desenvolvido vrias aes no mbito deste projeto, reunindo informao relativa condio material e imaterial dos assentamentos Avieiros. Esta investigao visa fundamentar um instrumento tcnico para aes de salvaguarda/recuperao do edificado existente, assim como para a edificao de novas construes, intitulado de Manual de Boas Prticas. 3 O vocbulo barraca seria na altura (e ainda hoje o para os pescadores), um termo aplicado para as edificaes de madeira, sem o sentido pejorativo que hoje lhe associamos. 4 MOUTINHO, D. F. O. (2007). Edifcios de construo tradicional em madeira, o exemplo dos palheiros do litoral central portugus. Prova Final de licenciatura em Arquitetura.

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Os sistemas construtivos dos palheiros da costa ocidental

A primeira abordagem s construes de gnese piscatria realizada por Rocha

Peixoto generaliza as caractersticas arquitetnicas dos palheiros da costa ocidental e no

faz qualquer abordagem aos sistemas construtivos utilizados (PEIXOTO, 1990: 77).

O primeiro estudo que aborda esta questo deve-se a Ernesto Veiga de Oliveira e

Fernando Galhano. Em Palheiros do Litoral Central Portugus analisam e sistematizam os

seus mtodos construtivos e tambm as suas tipologias habitacionais. Estes etnlogos

apontam para uma categorizao das solues de embasamento das construes

palafticas em funo da sua localizao geogrfica. So distinguidos os seguintes tipos:

Tipo Mira - palaftico, do sistema de estacaria independente; Tipo Vieira - palaftico, do

sistema de pau-a-pique e Tipo Esmoriz - palaftico, do sistema de vigas (OLIVEIRA,

GALHANO, 1964: 103-115).

1.Tipo Mira 2. Tipo Vieira 3. Tipo Esmoriz

(OLIVEIRA, GALHANO, 1964: 107)

Num estudo mais recente, Daniel Moutinho documenta as solues construtivas

encontradas em mais de uma centena de palheiros ainda existentes data do inventrio nas

povoaes da Zona Xvega e prope uma categorizao de todos os elementos

construtivos dos palheiros: fundaes [embasamento], sobrados, paredes, cobertura,

pavimentos, tetos, caixilhos e varandas.

No que diz respeito ao embasamento distinguem-se trs estdios: Estdio Primitivo,

Estdio Intermdio e Estdio Final, aos quais correspondem quinze pormenores-tipo

distinguidos em trs categorias: Impermeveis, Permeveis e Ps-permeveis. Esta

organizao por estdios baseia-se no na geografia mas na evoluo temporal,

salvaguardando que estas fases ou etapas, devem ser entendidas dentro de uma

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sequncia em que o desenvolvimento de uma no implica a extino da anterior, mas por

vezes a sua evoluo paralela (MOUTINHO, 2007:43).

Trs exemplos de pormenor-tipo: 4.Impermevel tipo dois, de estrutura encabeada, 5. Permevel tipo seis, sobre pilares, 6. Ps-permevel tipo trs, sobre moires (MOUTINHO, 2007: 84, 88 e 90).

A tradio do engenho na construo Avieira

A evoluo das formas construtivas associadas habitao Avieira fornece dados

importantes sobre a capacidade de adaptao e engenho dos pescadores ao contexto da

lezria do Tejo e fundamental para justificar a sua autenticidade enquanto patrimnio

cultural.

A morada dos primeiros pescadores nas margens do Tejo era completamente

improvisada um refgio precrio ou, mais frequente, o seu barco. Estes abrigos bastariam

para passar alguns meses dedicados pesca do svel e faina do rio para sustento

complementar na poca de Inverno, at regressarem a Vieira de Leiria na Primavera. O

barco de pesca era facilmente adaptado a habitao, com estruturas de varas de canas e

toldos de encerado. Algumas vezes chegam a possuir dois barcos, um para viver e outro

para pescar: desta forma mais facilmente se poderia deslocar a casa da famlia Avieira,

gente errante, sempre em busca as melhores condies para a pesca.

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7. Barcos adaptados a vivenda (OLIVEIRA E GALHANO, 1988: fig. 301 e 302)

Numa adaptao mais sofisticada do barco a vivenda, registaram-se alguns casos de

evoluo para pequenas casotas de tabuado prolongado os costados, erguidas em barcos

velhos inutilizveis para a navegao, que fazem de estrado; esses barcos mantm-se

direitos por meio de estacas especadas contra o casco, que ao mesmo tempo os elevam do

solo. (OLIVEIRA, 1969: 284).

A progressiva decadncia da Arte Xvega a norte levou que essas populaes

migratrias, outrora sazonalmente, se instalassem aos poucos de forma definitiva ao longo

das margens do Rio Tejo e do Sado, constituindo comunidades em torno de elos familiares

e dando origem aos assentamentos Avieiros.

As primeiras construes fixas seriam construdas sobre o solo, com estrutura de

madeira e revestimento de canio, material de fcil obteno no Ribatejo. Contudo, esses

abrigos no respondiam eficazmente s condicionantes da Lezria do Tejo, onde

predominam as margens baixas e, por isso, o leito de cheia estende-se quase sempre por

uma grande extenso. Excetuando algumas povoaes onde foi possvel edificar acima da

cota de cheia mxima5, a proximidade do rio exigida pelos trabalhos da pesca implica, na

maioria dos casos, a sujeio a inundaes frequentes.

Nos casos em que a condio econmica dos pescadores permite, surgem ento as

barracas de tabuado vertical, quase sempre montadas sobre estacaria para melhor as

proteger das subidas de nvel da gua do rio. A adaptao ao novo contexto geogrfico

bem ilustrada pela edificao na Palhota, onde os troncos de oliveira e