Capi¦ütulo 7

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  1. 1. se possvel mostrar alguma coisa sem o emprego de um sinal adeodato Admira-me que no saibas, ou melhor, simules no saber que no podes obter de mim resposta que satisfaa ao teu desejo; do fato de estarmos conversando resulta que no pode mais responder seno com palavras. Tu, porm, indagas de coisas que, sejam quais forem, de modo nenhum podem considerar-se palavras; e, no entanto, tambm sobre essas tu me interrogas com palavras. Comea tu a interrogar-me sem palavras, para que depois eu te possa responder da mesma forma. agostinho Tens, razo, confesso-o; porm se te perguntasse o significado destas trs slabas: paries (parede), no poderia tu mostrar-me com o dedo, de maneira que eu a visse, a coisa mesma de que sinal esta palavra de trs slabas, demostrando- a assim e indicando-a tu mesmo, sem usar palavra alguma? adeodato Concedo que se possa fazer isso, mas s com aqueles nomes que significam corpos e quando estes corpos estejam presentes. agostinho Mas cor, por acaso, lhe chamamos corpo, ou, antes certa qualidade do corpo? adeodato Uma qualidade. (santo agostinho Confisses; De magistro: do mestre. So Paulo: Abril cultural, 1980, p.241). (Os Pensadores). Captulo 7 Melnia Melo Casarin
  2. 2. 237 A histria da educao dos surdos passou por diferentes momentos histricos, desde a primeira escola para surdos, a criao e aprendi- zagem de gestos (sinais metdicos), a imposio da oralidade at a construo de um novo olhar pautado em aspectos antropolgicos onde se prima pela cultura surda. Segundo Skliar (apud silva, 1997, p.271), a lngua de sinais uma lngua plena, natural, no um cdigo artificial de comuni- cao e como tal deve ser pensada; um direito dos surdos no uma concesso. O ltimo sculo, reconhece o status lingustico da lngua de sinais e compreende que os surdos tm uma cultura surda. En- tendemos cultura aqui no como algo nico, estvel, mas plural, representao de diferena. Consideraes como essa alteram as representaes acerca da surdez, ocasionando na educao dos surdos significativas mudanas, exigindo que os professores desses alunos ressigni- fiquem seus mtodos de trabalho, em que os recursos didticos possibilitem experincias visuais que potencializem marcas cul- turais e pedaggicas em todo o processo de escolarizao das pessoas surdas. Compreende-se hoje que os surdos tm uma cultura, entendida no como algo nico, estvel, mas plural, de representao de diferena. Pode-se perceber a cultura surda como Perlin (2004, p.76) afirma: aes para incluir e prticas pedaggicas na educao de surdos
  3. 3. 238 atendimento educacional especializado: contribuies para a prtica pedaggica Conhece-se e compreende-se a cultura surda como uma questo de diferena, um espao que exige posies que do uma viso do entre lugar, da diference, da alteridade, da identidade. Percebe-se que o sujeito surdo est descentrado de uma cultura e possui outra cultura. Nessa perspectiva, a educao dos surdos requer entender que surdez constitui uma diferena que deve ser reconhecida, e que e se constri nas vivncias cotidianas das comunidades surdas e, principalmente, a surdez constitui uma experincia efetivamente visual. O sujeito surdo interage com o mundo a partir de uma experi- ncia visual. Todas as suas construes de conhecimento se do pelo canal espao-visual mediados pelo seu instrumento natural de comunicao: a lngua de sinais e a lngua escrita. Alm de viabilizar todos os processos cognitivos, lingusti- cos, ticos, artsticos e intelectuais do surdo, a lngua de sinais constitui, conforme este modelo, um elemento identificatrio entre esses sujeitos. Ao compartilharem uma lngua comum, os surdos passam a se reconhecer como membros de uma comunidade singular. Entretanto, muitas so as regies do Brasil que no conside- ram os vrios aspectos determinantes para uma educao de qualidade para os alunos surdos, principalmente no processo de conhecimento da libras, enquanto lngua natural das comunidades surdas, desconhecendo quase que totalmente sua capacidade de fornecer aos surdos a apropriao do conhecimento, construo de mundo, de desenvolvimento lingustico-cognitivo e base para aprendizagem do portugus como segunda lngua. De acordo com Wrigley (1996, p.3): o mundo visual percebe e produz a significao atravs de canais visuais de uma lingustica espacial. No um mundo necessariamente melhor ou pior, ape- nas distinto e diferente. Seguindo essa linha terica, os surdos manifestam suas diferenas lingusticas e culturais na formao de comunidades surdas.
  4. 4. captulo 7 239 Entretanto, convm ressaltar que as comunidades de surdos no so consideradas apenas espaos de lazer, entretenimento e prticas de esportes. A comunidade surda , sobretudo, um espao de articu- lao poltica em busca do reconhecimento da surdez como diferena. Exatamente nesse sentido os surdos podem ser vistos como criadores de uma diferena poltica. Consideraes como essa mudam as repre- sentaes acerca da surdez e dos surdos, ocasionando, na educao dessas pessoas, significativas mudanas, que exigem novos meios de interao lingustica com os alunos surdos, isto , hoje se prev a educaodossurdosmaterializadapelapropostadeEducaoBilngue. A diferena na percepo de mundo para as comunidades sur- das perpassa, tambm, uma interface relativa experincia visual. Sabemos que o contato com o mundo para os surdos se constri a partir do canal viso-manual, e no atravs da oralizao. Esse fato est diretamente ligado construo cultural e viso que temos de ns enquanto sujeitos culturais, quais nossas impresses sobre o mundo, o que somos, para onde vamos? nesse sentido que se torna to importante falarmos da comunidade surda, pois nesse contexto que os valores culturais das pessoas surdas, so criados, nutridos e efetivamente vivenciados. Para Strobel (2008, p.39): os sujeitos surdos, com sua ausncia de audio e do som, percebem o mundo atravs de seus olhos, tudo o que ocor- re ao redor deles: desde os latidos de um cachorro que demonstrado por meio dos movimentos de sua boca e da expresso corpreo-facial-bruta at de uma bomba estourando, que obvia aos olhos de um sujeito surdo pelas alteraes ocorridas no ambiente, como os objetos que caem abruptamente e a fumaa que surge. Essa diferena de percepo do mundo para os surdos, conso- lida-se todos os dias em seu cotidiano, no s atravs do olhar, da viso, da pessoa surda, mas da forma como se comunicam, suas expresses, corporais, faciais. Enfim, todos os meios que usam para se comunicar e, acima de tudo, a lngua de sinais.
  5. 5. 240 atendimento educacional especializado: contribuies para a prtica pedaggica Essas consideraes so fundamentais quando nos reportamos ao Atendimento Educacional Especializado aee: Como pensar a sala de aula para alunos surdos? Quais os recursos pedaggicos e didticos que devem ser valorizados e oportunizados nesse contexto? Para contemplar esses aspectos importante que o professor e toda a comunidade escolar tenham conhecimento da educao da importncia da educao bilngue, a qual um direito daqueles que utilizam uma lngua diferente da lngua oficial do pas. Em relao aos estudantes surdos, a legislao brasileira define que a instruo e o ensino da lngua de sinais dos alunos surdos e da lngua portuguesa devem estar presentes no contexto escolar. O bilinguismo pressupe a lngua de sinais para o ensino de todas as disciplinas. Essa lngua tem,segundo os preceitos da educao bilngue,o status de primeira lngua dos surdos, a qual deve ser adquirida em um contexto comunicacional natural, isto , sem imposio, no meio de outros surdos maiores, dominantes dessa lngua e agentes de construo lingustica, cognitiva e de identidade. Outras interfaces fazem parte das propostas de uma educao bilngue, ou seja, outros sujeitos na escola tero papel importante na difuso da lngua de sinais e dos valores de uma educao bilngue, como caso dos funcionrios, administradores e, principalmente, da famlia dos surdos. Como pode ser visto essa proposta no est centrada no professor e nos alunos surdos, mas em toda a estrutura escolar. A famlia parte fundamental, pois torna-se necessria a aprendizagem da lngua de sinais pelos irmos, pais e demais familiares, para que, tambm, em casa a Libras possa ser utilizada por todos. Goldfeld (2002, p.40) enfatiza: sabido que mais de 90% dos surdos tem famlia ouvinte. Para que a criana tenha sucesso na aquisio da lngua de sinais, necessrio que a famlia tambm aprenda esta lngua para que assim a criana possa utiliz-la para se comunicar em casa. Botelho (2002, p.112) colabora: a lngua de sinais tambm existe como disciplina curricular nos vrios nveis escolares. Os surdos
  6. 6. captulo 7 241 aprendem sobre as lnguas de sinais de outros pases, sobre a orga- nizao de surdos, sobre a Cultura Surda e outros temas importantes. Nesse contexto, a lngua portuguesa escrita dever ser ensi- nada como lngua oficial, requerendo, necessariamente, o uso de metodologias especficas para a aprendizagem de segunda lngua. Entendemos que a educao bilngue a forma mais legtima de demonstrar as condies scioantropolgicas, lingusticas, culturais das comunidades surdas. Partindo desse olhar, a escola dever pensar em modelos peda- ggicos que venham ao encontro dessa realidade, contemplando aspectos relativos cultura surda. Sabemos que a segunda lngua no caso dos surdos a lngua portuguesa, a qual exige para seu aprendizado, condies de ensino de lngua estrangeira. O que nos interessa precisamente so as concepes sobre currculo na educao dos surdos. Entendo que algumas questes centrais podero colaborar para uma educao de qualidade para os surdos brasileiros, tais como: o currculo para surdos deve con- templar discusses acerca da cultura, da lngua e da linguagem; histria das lnguas de sinais; estudar o conceito de multicultura- lismo, interculturalidade, diferena, diversidade; problematizar o conceito de deficincia; contemplar estudos acerca da histria dos surdos, e no s dos surdos brancos e europeus. O Projeto Pedaggico da escola deve refletir o cart