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REVISTA DA ESMESE, N 13, 2010 - DOUTRINA - 267

A REPERCUSSO GERAL DA QUESTOCONSTITUCIONAL NO RECURSOEXTRAORDINRIO

Daniela Protsio dos Santos, Analista doMinistrio Pblico do Estado de Sergipe,graduada em Direito pela UniversidadeFederal de Sergipe.

RESUMO: O tema ora analisado, a repercusso geral da questoconstitucional no recurso extraordinrio, foi inserido no OrdenamentoJurdico brasileiro por meio da Emenda Constitucional de n. 45. Trata-se de um requisito de admissibilidade que funciona como verdadeirofiltro de recursos extraordinrios, impedindo que estes sejam conhecidosquando a questo constitucional discutida seja restrita ao interesse daspartes. Inicialmente, foi feito um panorama dos mecanismos processuaisde conteno do recurso extraordinrio at o surgimento da repercussogeral. Em seguida, h uma anlise do tema propriamente dito, ou seja,a repercusso geral, sua conjuntura no ordenamento jurdico, seusaspectos, conceituao e finalidade. Foi abordada, ainda, a correlaoentre a repercusso geral e o controle de constitucionalidade.

PALAVRAS-CHAVE: Recurso extraordinrio, repercusso geral,requisito de admissibilidade, filtro recursal.

ABSTRACT: The theme to be discussed, general effect of theextraordinary appeal, was inserted by the Constitutional Amendment45 of 2005. It is a condition of admissibility that functions as real filterextraordinary resources, preventing them from being known whenthe constitutional issue discussed is restricted to the interest of the parties.First, will the creation of the Federal Supreme Court and an overviewof the procedural mechanisms to contain this appeal until the emergenceof the impact general. Will be examined, that is the general effect,juncture in its legal system, its aspects, concepts, purpose, and its mainprocedural and substantive rules. Will be addressed, although the

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implications that the overall effect has resulted in the legal positions ofthe Federal Supreme Court and the correlation between the generaleffect and control of constitutionality.

KEYWORDS: Extraordinary appeal, general effect, condition ofadmissibility, filter appeal.

1. INTRODUO

No Brasil, muitas propostas tm sido apresentadas com o fim dedescongestionar os tribunais, abarrotados de processos. Esta situao,no entanto, ganha maior relevncia e alvo de maior preocupao dosestudiosos quando se est a tratar do Supremo Tribunal Federal, amais alta instncia do Poder Judicirio nacional.

Nesse cenrio, no ano de 2004, a Emenda Constitucional de n 45trouxe, em seu bojo, uma srie de medidas destinadas a minimizar amorosidade judiciria. O presente artigo tem por escopo analisar,especificamente, uma dessas medidas, qual seja, a repercusso geral daquesto constitucional no recurso extraordinrio.

Assim, o art. 1 da Emenda de n 45 acrescentou o 3 ao art. 102da Constituio da Repblica Federativa do Brasil, introduzindo orequisito da repercusso geral para fins de admissibilidade do recursoextraordinrio, nos termos da lei. Estabeleceu-se que o recorrente teriao nus de demonstrar, em preliminar devidamente fundamentada, arepercusso geral da questo constitucional objeto do recursoextraordinrio. Esse filtro recursal, que veio tona por meio de umconceito jurdico indeterminado, deveria ser regulamentado por meiode lei.

Em 2006, a Lei n 11.418 veio cumprir o seu desiderato, inserindoalgumas inovaes no Cdigo de Processo Civil, a fim de regulamentaro novo instituto da repercusso geral. Os art. 543-A e 543-B, ento,consubstanciaram a regulamentao legal da norma constitucional. Noano de 2007, o regimento interno do Supremo Tribunal Federal foimodificado pela Emenda Regimental n 21, que concluiu aregulamentao do instituto da repercusso geral.

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2. GNESE DA REPERCUSSO GERAL

2.1 ORIGEM DO SISTEMA BRASILEIRO DEUNIFORMIZAO DO DIREITO FEDERAL

Na tentativa de esclarecer a gnese da crise de nmeros pela qualpassa o Supremo Tribunal Federal brasileiro h anos, e que funcionoucomo uma verdadeira mola propulsora na introduo do instituto darepercusso geral pela Emenda Constitucional n 45 de 2004, faz-senecessrio discorrer, ainda que de forma sucinta, sobre o federalismobrasileiro, bem como sobre a consequente interpretao legislativafederal.

Nesta senda, avulta notar que o modelo de federalismoimplementado pelos Estados Unidos da Amrica tornou-se verdadeiroparadigma na organizao de outros Estados, incluindo-se, neste rol,o Estado brasileiro. Nesse sentido, no mbito do pacto federativo,cada Estado cedeu parcela de sua soberania para um rgo central,formando os Estados Unidos da Amrica, autnomos entre si.

No que concerne especificamente ao Brasil, no decorrer de suahistria constitucional, conheceu as duas clssicas formas de Estado,quais sejam, Estado Unitrio e Estado Federal. Sob a gide daConstituio do imprio de 1824, adotou-se a forma unitria deEstado. Em 1889, com a Proclamao da Repblica e com apromulgao da Constituio de 1891, o Estado brasileiro, inspiradona Constituio norte-americana de 1787, passou a adotar a formafederativa de Estado.

comum a afirmao na doutrina de que a formao da Federaodos Estados Unidos da Amrica se deu atravs de um movimentocentrpeto, de fora para dentro, ou seja, Estados soberanos cedendoparcela de sua soberania. Em contrapartida, no Brasil a formao sedeu atravs de um movimento centrfugo, do centro para fora, ouseja, um Estado unitrio centralizado descentralizando-se. Percebe-se,ento, o porqu de os Estados norte-americanos terem muito maisautonomia que os Estados-membros brasileiros. Nesse sentido, JosAfonso da Silva (1963, p.9):

Partimos do unitarismo para a forma federativa,num processo inverso ao das federaes americana

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e sua; estas formaram-se da unio de Estadossoberanos, os quais conferiram Unio parte desua competncia. No caso do Brasil, o contrrio sedeu, isto , o Poder Central, nico, foi quemtransferiu, s comunidades regionais, a parcela depoder que, depois, vieram a possuir, constituindo-se em Estados autnomos.

Dessa forma, considerando que o federalismo norte-americano foiimportado para o Brasil, o legislador brasileiro, seguindo essa mesmalinha, buscou, na Amrica do Norte, um modelo para nosso sistemade uniformizao do Direito federal.

Os pioneiros no Federalismo reconheciam que a segurana jurdicaera um valor que interessava ao Estado preservar e defender. Nofederalismo, tinha-se claro que seria impossvel manter essa seguranadiante da circunstncia de que uma mesma lei federal poderia serinterpretada de forma definitiva por diversos tribunais estaduais.

Adhemar Ferreira Maciel (2006, p.32), ao descrever o histrico dofederalismo norte-americano e a estruturao do seu Poder Judicirioaduz, ainda, o seguinte:

Em 1925, depois de muito lobby, o Congressocedeu e alterou a lei orgnica do Judicirio: o JudgesBill aumentou ainda mais o discricionary power daSuprema Corte. Em outras palavras, as apelaesde conhecimento obrigatrio (mandatory appeals)diminuram e, em compensao, cresceu onmero de petitions for writ of certiorari. Nesseltimo caso, o recurso s seria conhecido secontasse com o aval de quatro dos nove juzesda Corte. Seu primeiro requisito era que a causaou controvrsia, julgada em ltima instncia pelostribunais estaduais ou federais, se apresentassesubstancialmente relevante para todo o pas.

Em 1988, as mandatory appeals foram eliminadas do ordenamentojurdico norte-americano. Assim, o acesso Corte Suprema nos EstadosUnidos da Amrica somente se materializaria por intermdio da petition

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for writ of certiorari. Era o desfecho histrico da insero de um filtrorecursal no sistema processual norte-americano.

Como j foi dito em linhas pretritas, o sistema de uniformizaodo Direito federal brasileiro se inspirou no sistema norte-americano.Assim, como no poderia ser diferente, o Supremo Tribunal Federalfoi concebido sob a influncia da criao da Suprema Corte norte-americana. Acontece que, j em 1891 o legislador norte-americanoatentou para a possibilidade de congestionamento da Corte Supremae consequente desnaturao de seu papel institucional.

Merece destaque que o nosso Supremo Tribunal Federal, quandocriado pelo Decreto n. 848 de 11 de outubro de 1890, era responsvelpela uniformizao de todo o direito federal, tanto constitucional quantoinfraconstitucional. Tocava ao Supremo Tribunal Federal, portanto, pormeio de recurso posteriormente denominado de extraordinrio, zelarpela inteireza de vasta gama do direito federal aplicado por tribunais,tanto estaduais quanto federais.

H que se considerar, entretanto que, ao contrrio do que acontecianos Estados Unidos da Amrica, onde os Estados tinham uma parcelade autonomia muito maior, incluindo a legislativa, os ramos do direitode competncia federal, aqui, eram maioria, restando uma parcelainsignificante de competncia legislativa para os Estados. Tal fatoexplica-se pela forma como o federalismo aqui foi adotado: do centropara fora. Ou seja, o federalismo foi construdo partindo-se do podercentral para os Estados, como j foi dito anteriormente.

A primeira Constituio Republicana, promulgada pouco tempodepois da criao do Supremo Tribunal Federal, atribua Uniocompetncia para legislar sobre direito civil, penal e comercial. Ademais,a Constituio de 1934 agravou o monoplio federal atribuindo acompetncia exclusiva para legislar sobre direito processual Unio.

Assim, copiamos o modelo de uniformizao do direito federalnorte-americano sem, no entanto, atentarmos para o detalhe de quenosso federalismo no era integral. Conquanto a Constituio de 1891tivesse formalizado a forma de Estado adotada, qual seja, a Federal, ocarter centralista estava bas