Alain Badiou - A Hipótese Comunista

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Alain Badiou - A Hipótese Comunista

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  • Sobre A hiptese comunistaNorman Madarasz

    Filsofo, dramaturgo e militante, Alain Badiou estabeleceu-se como um dos principaispensadores de nosso sculo, reforando a filosofia em sua relao com a verdade e superando aontologia heideggeriana por meio da tese de que ontologia matemtica. Sua filosofia decorre doestruturalismo dos anos 1960, cuja primeira elaborao pode ser vista nos Cahiers pour lanalyse, emescritos sobre Althusser, Lacan e Foucault. Neste livro o autor vai alm dos textos sobre amor, artee cincia, realando outra vertente de sua anlise: a poltica de inveno e emancipatria, isto , aevoluo do pensamento marxista. A hiptese comunista articula duas teses: uma de ordemeconmica e outra histrica. Seu argumento o de que a subordinao do trabalho classedominante no inevitvel, mas a afirmao de um novo perodo na histria implica a resoluo degraves problemas surgidos a posteriori. Neste volume o leitor encontrar ensaios sobre Maio de1968, a Comuna de Paris, a Revoluo Cultural Chinesa. Longe do pensamento nico, variandoentre Mitterrand, Chirac, Jospin e Sarkozy, o imenso mrito deste livro ter restabelecido a polticade emancipao na tradio nacional francesa, um pensamento poltico voltado para uma ticainternacionalista, ou seja, para o comunismo da multiplicidade.

  • SUMRIO

    Prefcio: O que fracassar?

    I. Somos ainda contemporneos de Maio de 1968

    1. Maio de 1968 revisitado, quarenta anos depois

    2. Rascunho de um incio

    3. Essa crise o espetculo de qual real?

    II. A ltima revoluo?

    III. A Comuna de Paris: uma declarao poltica sobre a poltica

    IV. A Ideia do comunismo

    Obras do autor

  • PREFCIOO que fracassar?

    1.A partir de meados dos anos 1970, comea o refluxo da dcada vermelha, iniciada pela

    qudrupla ocorrncia das lutas de libertao nacional (Vietn e Palestina, em especial), domovimento mundial da juventude estudantil (Alemanha, Japo, Estados Unidos, Mxico), dasrevoltas de fbrica (Frana e Itlia) e da Revoluo Cultural na China. Esse refluxo encontra suaforma subjetiva na negao resignada, no retorno aos costumes (inclusive eleitorais), na deferncia ordem capital-parlamentar ou ocidental, na convico de que querer mais querer pior. Encontrasua forma intelectual no que, na Frana, foi batizado com o estranho nome de nova filosofia. Sobesse nome, encontramos quase inalterados todos os argumentos do anticomunismo norte-americanodos anos 1950: os regimes socialistas so despotismos infames, ditaduras sanguinrias; dentro daordem do Estado, devemos opor a esse totalitarismo socialista a democracia representativa, que imperfeita, sem dvida, mas de longe a forma menos ruim de poder; dentro da ordem moral,filosoficamente a mais importante, devemos pregar os valores do mundo livre, cujo centro efiador so os Estados Unidos; a ideia comunista uma utopia criminosa, que, tendo fracassado emtodo o mundo, deve ceder o lugar para uma cultura dos direitos humanos que combine o culto daliberdade (inclusive, e em primeiro lugar, a liberdade de empreender, possuir e enriquecer, fiadoramaterial de todas as outras) e uma representao vitimria do Bem. Na verdade, o Bem nunca maisdo que a luta contra o Mal, o que significa que devemos cuidar apenas daquele que se apresenta, ou exibido, como uma vtima do Mal. Quanto ao Mal, ele tudo aquilo que o Ocidente livre definecomo tal, o que Reagan chamava de o Imprio do Mal. Voltamos ento ao ponto de partida: aideia comunista etc.

    Hoje, essa aparelhagem propagandista tem pouco valor, por diversas razes; a principal que noexiste mais nenhum Estado poderoso que reivindique para si o comunismo ou mesmo o socialismo. claro que inmeros artifcios retricos foram reciclados na guerra contra o terrorismo, que naFrana ganhou ares de cruzada anti-islamita. No entanto, ningum pode acreditar seriamente queuma ideologia religiosa, particularista, com uma viso social atrasada e uma concepo fascistizanteda ao e de seu resultado, possa tomar o lugar de uma promessa de emancipao universal que sesustenta em trs sculos de filosofia crtica, internacionalista e laica, empenha os recursos da cinciae mobiliza, em pleno corao das metrpoles industriais, tanto o entusiasmo dos operrios quanto odos intelectuais. A amlgama de Stalin com Hitler j decorria de um pensamento extremamentepobre, para o qual a norma de qualquer empreendimento coletivo o nmero de mortos. Alis, osgenocdios e as matanas coloniais, os milhes de mortos das guerras civis e mundiais pelos quaisnosso Ocidente forjou seu poder poderiam muito bem desqualificar, aos olhos dos mesmosfilsofos que incensam sua moralidade, os regimes parlamentares da Europa e da Amrica. O querestaria aos nossos escrevinhadores dos direitos para fazer o elogio da democracia burguesa comonica forma do Bem relativo, eles que s vaticinam contra o totalitarismo acocorados sobre

  • montanhas de vtimas? Hoje, em todo o caso, a amlgama de Hitler com Stalin e Bin Laden reala asombria farsa. Indica que nosso democrtico Ocidente no poupa o combustvel histricoencarregado de movimentar sua mquina propagandista. verdade que, nos ltimos tempos, ele temtido mais com que se preocupar. s voltas com uma crise realmente histrica, depois de duasdcadas de prosperidade cinicamente desigualitria, teve de moderar a pretenso democrtica,como j parecia fazer h algum tempo, custa de muros e arames farpados antiestrangeiros, mdiacorrompida e subjugada, prises superlotadas e leis perversas. porque tem cada vez menos meiosde corromper a clientela local e comprar a distncia regimes ferozes, os Mubarak ou os Musharraf,incumbidos de vigiar a manada de pobres.

    O que restou do labor dos novos filsofos, que nos iluminaram, isto , emburreceram durantetrinta anos? Qual o ltimo destroo da grande mquina ideolgica da liberdade, dos direitoshumanos, da democracia, do Ocidente e de seus valores? Tudo isso se reduziu a um simplesenunciado negativo, modesto como constatao, nu como uma mo: no sculo XX, os socialismos,nicas formas concretas da ideia comunista, fracassaram totalmente. Eles prprios tiveram de voltarao dogma capitalista e desigualitrio. Diante do complexo da organizao capitalista da produo edo sistema parlamentar de Estado, esse fracasso da Ideia nos deixa sem escolha: devemos aceitar,volens nolens. por isso, alis, que hoje devemos salvar os bancos sem confisc-los, dar milhes aosricos e nada aos pobres, jogar os nativos contra os operrios de origem estrangeira, em resumo,administrar de perto todas as misrias, para que as potncias sobrevivam. No h escolha, escutem oque eu digo! No que, como admitem nossos idelogos, a direo da economia e do Estado pelacobia de uns poucos vigaristas e a propriedade privada desenfreada sejam o Bem absoluto. queesse o nico caminho possvel. Stirner, em sua viso anarquista, falava do homem, agente pessoalda Histria, como o nico e sua propriedade. Hoje, a propriedade como nico.

    por isso que devemos refletir sobre a noo de fracasso. O que significa exatamentefracassar, quando se trata de uma sequncia da Histria em que essa ou aquela forma da hiptesecomunista experimentada? O que quer dizer exatamente a afirmao de que todas as experinciassocialistas sob o signo dessa hiptese fracassaram? Esse fracasso radical, isto , exige o abandonoda prpria hiptese, a renncia de todo o problema da emancipao? Ou apenas relativo forma,ou via, que ele explorou e em que ficou estabelecido, por esse fracasso, que ela no era a formacerta para resolver o problema inicial?

    Minha convico se esclarece com uma comparao. Consideremos um problema cientfico que,enquanto no resolvido, pode assumir a forma de uma hiptese. Por exemplo, o teorema deFermat, do qual podemos dizer que uma hiptese, se formulado da seguinte maneira: Para n >2, suponho que a equao xn + yn = zn no tem soluo inteira (soluo em que x, y e z so nmerosinteiros). Entre Fermat, que formulou a hiptese (ele afirmava que a havia demonstrado, mas isso outra histria), e Wiles, o matemtico ingls que realmente demonstrou o teorema alguns anos atrs,houve inmeras tentativas de justificao. Muitas serviram de ponto de partida paradesenvolvimentos matemticos de longussimo alcance, embora no tenham conseguido resolver oproblema em si. Mas foi fundamental que a hiptese no tenha sido abandonada durante os trssculos em que foi impossvel demonstr-la. A fecundidade desses fracassos, de sua anlise, de suasconsequncias, estimulou a vida matemtica. Nesse sentido, o fracasso, desde que no provoque oabandono da hiptese, apenas a histria da justificao dessa hiptese. Como diz Mao, se a lgicados imperialistas e de todos os reacionrios provocao de tumultos, fracasso, nova provocao,novo fracasso, at sua runa, a lgica dos povos luta, fracasso, nova luta, novo fracasso, mais uma

  • vez nova luta, at a vitria.Sustentaremos aqui, inclusive com trs exemplos detalhados (Maio de 1968, Revoluo Cultural e

    Comuna de Paris), que o aparente fracasso, s vezes sangrento, de acontecimentos profundamenteligados hiptese comunista foram e ainda so etapas de sua histria. Ao menos para aqueles queno se deixam iludir pelo uso propagandista da noo de fracasso. Ou seja: aqueles que a hiptesecomunista ainda anima, enquanto sujeitos polticos, quer empreguem a palavra comunismo, querno. Na poltica, o que importa so os pensamentos, as organizaes e as aes. s vezes, nomesprprios servem de referncia, como Robespierre, Marx, Lenin Os nomes comuns (revoluo,proletariado, socialismo) j so bem menos capazes de nomear uma sequncia real da poltica deemancipao, e seu uso se expe rapidamente a uma presuno sem contedo. Os adjetivos(resistente, revisionista, imperialista) so os mais comumente afetados pela propaganda. que auniversalidade, atributo real de um corpo de verdade, no d a mnima aos predicados. Umaverdadeira poltica ignora as identidades, mesmo aquela to tnue, to varivel, dos comunistas.Conhece apenas aqueles fragmentos do real dos quais