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1 “Pionier I00”, de Alva Noto & Ryuichi Sakamoto: uma análise musical a partir do método de Philip Tagg Lilian Nakao Nakahodo (UFPR - bolsista CAPES) Resumo: Neste artigo, apresento uma análise de Pionier I00, de Alva Noto e Ryuichi Sakamoto. Partindo da metodologia sistematizada por Philip Tagg, utilizo a intersubjetividade e a interobjetividade para estabelecer estruturas musicais significativas e investigar como elas se relacionam com significados além do discurso musical. Palavras-chave: Alva Noto; Philip Tagg; semiótica. Abstract: In this article it is presented an analysis of Pionier I00 by Alva Noto and Ryuichi Sakamoto. Based on the methodology systematized by Philip Tagg, intersubjectivity and interobjectivity are used as tools to establish signifying musical structures and to investigate how they relate to signification beyond the musical discourse. Keywords: Alva Noto; Philip Tagg; semiotics. Um auditório cheio, todas as poltronas ocupadas. Dois focos iluminam o palco. Assim que começa a música, o público se incomoda com o burburinho e alguns fazem “shhhhhh!!”, acostumados com o protocolo de concerto. Esta cena não seria atípica se não fosse presenciada no “Sónar 2012 - Festival Internacional de Música Avançada e New Media Art” 1 . Ao contrário das atrações pulsantes a 120 decibéis do festival, a performance de Alva Noto + Ryuichi Sakamoto inspirava contemplação silenciosa. Alva Noto é o pseudônimo que assina as obras musicais eletrônicas de Carsten Nicolai 2 e que partir de 2002, inicia uma prolífica parceria com Ryuichi Sakamoto 3 , num aparente abraço à harmonia e melodia de cores minimalistas. Summvs é o mais recente álbum resultante dessa parceria, do qual a música, Pionier I00, participa. Consonante à ideia de que “nenhum objeto ou algo tem qualquer existência para nós a menos que tenha um significado ou signifique algo” (Tarasti 2002, 4), a análise musical se torna uma ferramenta para entender a existência desses objetos que nos são significativos, partindo de 1 Para maiores informações sobre o Sónar: http://www.sonarsaopaulo.com.br/pt/2012/ 2 Artista alemão das artes visuais e sonora que apresenta um discurso poético guiado pela interação entre elas. Seu 2 Artista alemão das artes visuais e sonora que apresenta um discurso poético guiado pela interação entre elas. Seu portfólio e percurso musical indicam uma inclinação à música eletrônica influenciada pelo minimal techno e pelo experimentalismo mediado por ferramentas de processamento digital. Maiores informações no site do selo raster-noton: http://www.raster-noton.de/. 3 Ryuichi Sakamoto, pianista e compositor japonês conhecido pelas trilhas sonoras e trânsito na world music, tem imensas referências na internet e dispensa maiores apresentações neste trabalho.

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“Pionier I00”, de Alva Noto & Ryuichi Sakamoto: uma análise musical a partir do método de Philip Tagg

Lilian Nakao Nakahodo

(UFPR - bolsista CAPES)

Resumo: Neste artigo, apresento uma análise de Pionier I00, de Alva Noto e Ryuichi Sakamoto. Partindo da metodologia sistematizada por Philip Tagg, utilizo a intersubjetividade e a interobjetividade para estabelecer estruturas musicais significativas e investigar como elas se relacionam com significados além do discurso musical.

Palavras-chave: Alva Noto; Philip Tagg; semiótica.

Abstract: In this article it is presented an analysis of Pionier I00 by Alva Noto and Ryuichi Sakamoto. Based on the methodology systematized by Philip Tagg, intersubjectivity and interobjectivity are used as tools to establish signifying musical structures and to investigate how they relate to signification beyond the musical discourse.  

Keywords: Alva Noto; Philip Tagg; semiotics.

Um auditório cheio, todas as poltronas ocupadas. Dois focos iluminam o palco. Assim que

começa a música, o público se incomoda com o burburinho e alguns fazem “shhhhhh!!”,

acostumados com o protocolo de concerto. Esta cena não seria atípica se não fosse presenciada no

“Sónar 2012 - Festival Internacional de Música Avançada e New Media Art”1. Ao contrário das

atrações pulsantes a 120 decibéis do festival, a performance de Alva Noto + Ryuichi Sakamoto

inspirava contemplação silenciosa. Alva Noto é o pseudônimo que assina as obras musicais

eletrônicas de Carsten Nicolai2 e que partir de 2002, inicia uma prolífica parceria com Ryuichi

Sakamoto3, num aparente abraço à harmonia e melodia de cores minimalistas. Summvs é o mais

recente álbum resultante dessa parceria, do qual a música, Pionier I00, participa.

Consonante à ideia de que “nenhum objeto ou algo tem qualquer existência para nós a

menos que tenha um significado ou signifique algo” (Tarasti 2002, 4), a análise musical se torna

uma ferramenta para entender a existência desses objetos que nos são significativos, partindo de

                                                                                                               1 Para maiores informações sobre o Sónar: http://www.sonarsaopaulo.com.br/pt/2012/ 2 Artista alemão das artes visuais e sonora que apresenta um discurso poético guiado pela interação entre elas. Seu 2 Artista alemão das artes visuais e sonora que apresenta um discurso poético guiado pela interação entre elas. Seu portfólio e percurso musical indicam uma inclinação à música eletrônica influenciada pelo minimal techno e pelo experimentalismo mediado por ferramentas de processamento digital. Maiores informações no site do selo raster-noton: http://www.raster-noton.de/. 3 Ryuichi Sakamoto, pianista e compositor japonês conhecido pelas trilhas sonoras e trânsito na world music, tem imensas referências na internet e dispensa maiores apresentações neste trabalho.

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impulsos subjetivos, como o gosto e a vontade. A familiar4 sensação de conforto e afeto poderiam

descrever em síntese a experiência auditiva pessoal da performance. Mas como compreender o que

e como está sendo comunicado pela música, que provoca uma receptividade silenciosa e

contemplativa? Se entender é dar a algo um nome (Tarasti 2002, 19), analisar é também, emergir

significados do discurso musical a partir de descrições subjetivas. Apresentaremos aqui uma análise

pela perspectiva semiótica de Philip Tagg5, que se baseia tanto nas percepções estésicas como na

análise de parâmetros musicais, numa abordagem que não deixa de ter um alto grau de

subjetividade, que no entanto complementa e enriquece uma discussão objetiva.

Forma – Pionier é uma música de pulso e métrica regular (4/4, bpm l=100) e apresenta uma forma

intro/ABABA’: A música é introduzida pelo baixo ostinato, uma textura que adensa gradualmente

por adição de camadas de ruídos, um kick de bumbo em loop que cria uma tensão e silencia entre

cc. 29-34, abrindo espaço para a inserção de dois compassos de crackle. A seção A é demarcada

pela subtração do crackle, inserção de um novo loop rítmico que será reiterado até a seção final, e a

entrada do piano em uma sonoridade natural, introduzindo a harmonia e a melodia. A seção B

apresenta um contraste harmônico-textural, na qual a sonoridade do piano é estendida. A seção A’

apresenta a mesma configuração harmônica e melódica da primeira sessão com textura menos densa

e dinâmica discreta, provocada pela interrupção da 2a ideia rítmica da exposição; os ruídos da

introdução são reiterados e a melodia da sessão B é reintroduzida, fechando a música.

Melodia e Harmonia - Notas esparsas e compassos que deixam ressoar as longas durações dos

acordes do piano caracterizam a melodia e a harmonia de coloração minimalista6. A harmonia

                                                                                                               4 Coloco uma nota aqui para explicar que o “naturalmente” se deve ao convívio próximo e ativo, desde a infância, com o piano, o que sugere naturalmente a origem de um afeto positivo. Tagg se refere à esse processo acolhedor na recepção do que é transmitido de interferência codal positiva (1999, 12). 5  O entendimento do processo de comunicação na música popular é o principal objetivo da análise semiótica de Philip Tagg, considerando, portanto, um modelo em que o fluxo da mensagem ocorre através de um meio ou canal, entre transmissores e receptores. A intersubjetividade e a interobjetividade são ferramentas empíricas aqui empregadas para superar o problema de uma generalização baseada somente na interpretação subjetiva, procurando amenizar a transformação de significados em ilhas isoladas.  6  Na seção A, a melodia é composta por uma ideia básica de duas semínimas adjacentes. Na seção B, a melodia muda de timbre e altura, e passa a ser tocada nas cordas do piano, soando uma oitava acima, sobre o acorde de Ebm  

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sugere uma abordagem tonal com tendência à tonicização de Ebm7, representada abaixo de forma

estruturalmente reduzida: || Fm7 | Ebm7 | Db7M | Cb7M | E7M | Ebm7 || Ebm | B7M#11||

Timbres e Texturas - Podemos distinguir 3 grupos sonoros na música: i) um instrumento concreto -

o piano; ii) os instrumentos sintetizados - contrabaixo e bumbo, e iii) os efeitos sonoros gerados

digitalmente - ruídos, crackle, onda senoidal e glitch. Os instrumentos sintetizados são apresentados

na introdução compondo a 1a ideia rítmica: um loop de contrabaixo (|il;s|) e bumbo

(|Il.Kl_il_l|Il.Kl_h|) que marcam o tempo e preenchem o espectro na região das frequências

mais graves (entre 20 e 750Hz). Sobreposto ao loop, há um ruído branco (h.) que recebe diferentes

filtragens na introdução, e um segundo ruído que perdura por toda introdução com amplitude

discreta e suave fade in. No final da introdução (cc. 32 e 33) insere-se um crackle8, de espectro

entre 0.5 e 8kHz. A 2a ideia rítmica introduzida na seção A é constituída por um crackle (z_l) de

espectro audível entre 1.5 e 20 kHz, um ruído branco (z) entre 0.8 e 20kHz de panorâmica brusca,

um ruído (h.) entre 1 e 1.8kHz, o glitch9 (z) e o tom puro composto por uma onda senoidal (z) de

frequência aproximada de 11.95 kHz. Na seção B o piano passa a apresentar uma sonoridade

artificial10 e se converte em um sample. Sobre o loop desse sample, é exposta a melodia em outra

sonoridade pianística, agora produzida nas cordas agudas.

Aspectos visuais - Alva Noto agrega ideias gráficas11 às suas estruturas musicais. O glitch

sintetiza a concepção do minimalismo eletrônico e se transforma num ícone sonoro e visual, através

da sua forma cíclica mínima e peculiarmente característica, conforme vemos na figura abaixo. As

formas geométricas da performance ao vivo respondem ainda pelos aspectos visuais mais marcantes

                                                                                                               7  A harmonia do piano sugere duas abordagens tonais: i) Fm, considerando a entrada da seção A e o reforço de frequências do kick e dos efeitos empregados na 2a ideia rítmica; e ii) Ebm, considerando a maior recorrência e permanência desse acorde, além do fechamento da música nele.  8  O crackle pode ser compreendido como um som similar a um “chiado” e também aparece com as mesmas características na seção B e no final da música.  9  O glitch é um fragmento sonoro, representado como um único transiente, aqui com frequência aproximada de 13.070 kHz e acusticamente situado num plano de fundo devido ao efeito de reverberação empregado.  10  o transiente de ataque é eliminado no primeiro acorde de Ebm e um processamento em reverse ocorre no acorde seguinte de B7M(#11), provocando um efeito de sforzato.  11 Um exemplo pode ser encontrado no estudo realizado por Collis, que observa características estruturais dos ruídos utilizados por Alva Noto no CD Autorun, em imagens de amostras de áudio. ([200-])

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da estética minimalista, na redução formal dos elementos cênicos e das imagens projetadas, com

pouca variação cromática e praticamente reduzidas a texturas de pontos e linhas.

Fig. 1 - Glitch extraído do áudio de Pionier I00. Fig. 2 - Performance durante o Sónar (maio/2012).

Intersubjetividade e o Campo de Conotações Paramusicais (PMFC12) - A intersubjetividade foi

adotada neste estudo como ferramenta para verificar padrões recorrentes na percepção de um

mesmo fenômeno. Baseada no relato de 19 pessoas13, buscou-se uma coerência intersubjetiva para

dialogar com uma interpretação pessoal. Tal processo foi primordial para encontrar descritores

estésicos de estruturas musicais significantes, pela constatação de padrões regulares de conotações

similares em relação às mesmas sonoridades. As respostas obtidas foram agrupadas segundo

denominadores comuns de respostas paramusicais14. O primeiro elemento concatenador se relaciona

à indicação de três formas de percepção estrutural15: i) a percepção da música como um todo, ii) a

introdução e iii) “após a entrada do piano”. Em cada uma delas, há conotações predominantes que

resultam em quadros bem distintos. Nas respostas à música como um todo, sobressaem os afetos

culturalmente positivos (“lucidez”, “calma”, “cumplicidade”, “acalento”), referências a locações

urbanas contemporâneas (“metrópole”, “ruas da cidade”, “Nova York”, “cidade vazia”, “hi-tech”,

“futurista”, “tecnologia”), e imagens noturnas, frias e de chuva. Em relação à introdução, não

                                                                                                               12 Neologismo criado por Philip Tagg para descrever um campo semântico conotativamente identificável que se relaciona com estruturas musicais. Para maiores informações, ver http://www.tagg.org/articles/ptgloss.html. 13 As respostas foram colhidas por e-mail. Aos receptores solicitava-se uma contribuição à pesquisa, através da “descrição de qualquer tipo de associação, impressão e reação” tida após audição da música (link à música no corpo do texto). Os receptores foram escolhidos dentro de uma faixa etária restrita (25-45 anos), todos brasileiros, músicos e não-músicos. Agradeço a Andressa, Christian, Débora F., Marcelo, Jerônimo, Denis, Daniel, Débora O., Renata, Fabiana, Giselle, Carmela, Fernando, Adriano, Taci, Vilma, Ricardo, Cauê e Rodrigo pela contribuição. 14 Partindo da constatação de que “precisão no significado musical” difere de “precisão verbal”, Tagg sugere a decodificação das respostas em denominadores comuns de respostas paramusicais, agrupando-os no mesmo campo semântico paramusical. (Tagg 1999, 33). Por questão de espaço, as tabelas resultantes não foram incluídas aqui, mas podem ser disponibilizadas mediante solicitação por email. 15 Os ouvintes relacionam seus comentários sobre a estrutura através de indicadores tímbricos, como por exemplo: “após a entrada do piano...”.

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houve nenhum relato de afeto positivo, predominando os afetos culturalmente ambivalentes

(“excitação”, “expectativa”, “introspecção”, “impessoal”) e negativos (“angústia”, “tensão”,

“depressão”, “desordem”, “sombrio”, “frio”) e conotações de ações e movimentos com figuras em

primeiro plano (“assassino”, “pega vítima”, “coração batendo”, “trem que vai partir”). Em

contraste, após a entrada do piano, predominaram as respostas com conotações de afetos

culturalmente positivos (“segurança”, “firmeza”, “tranquilidade”, “calmaria”, “conforto”,

“humano”, “romântico”, “vida”, “elementos etéreos”, “limpeza”, “alivio”) e movimentos e ações

sem figuras em primeiro plano (“expiração”, “encontro”, “estabilização”, “o resto vira ambiente”,

“continuidade”, “nasce alguma coisa”).

Material de Comparação Interobjetiva (IOCM16) - Para o levantamento de IOCM, além de obras

musicais citadas nas respostas, foram consideradas as referências imagéticas e elementos que

conotaram uma sonoridade:

Filmes Referências e Observações Conotações Paramusicais 1- Dancer in the Dark (dir.: Lars Von Trier, 2000)

Referência à cena em que a protagonista Selma canta uma canção17. A sequência começa e termina com o movimento do trem, cuja repetição serve de base para uma marcação rítmica. O filme passa a ficar mais denso e escuro emocionalmente, à medida que a visão de Selma piora, e a música marca esse declínio.

Drama, trem em movimento, movimento contínuo, repetição rítmica, sombrio, sofrimento, escuridão.

2- Taxi Driver (dir.: M. Scorcese, 1976)

Referência às “imagens das ruas de Nova York em que Travis Bickle trafegava a noite”. “Robert De Niro creates a terrified portrait of life on the edge of madness” (locução no trailer oficial)

Locação urbana, contemporânea, noite, sombrio, solidão, tensão, alienação, loucura.

3- Close Encounters of the Third Kind (dir.: S. Spielberg, 1977)

Referência ao “painel que recriava as escalas musicais”, usado como interface de comunicação entre humanos e seres extraterrestres.

Tecnologia futurista, Comunicação humana / artificial, timbre do motivo (senóide), elementos visuais do painel / cenário do show.

4- Come and See (dir.: Elem Klimov, 1985)

Referência específica ao “conflito psicológico permanente no drama da personagem Flyora”, relacionando-o ao “aspecto sombrio” da introdução da música.

Conflito psicológico, drama, tensão, sofrimento, desolação, humano.

5- Shame (dir.: Steve McQueen, 2011)

Drama ambientado em Nova York. Referência à cena “em que um homem atormentado caminha pelas ruas da cidade ao som dessa música” e ao trailer.

Locação urbana, contemporânea, respiração, drama, tormento, humano.

                                                                                                               16 As estruturas que carregam uma conotação e foram identificadas como importantes – ou seja, que comunicam algo recorrentemente - devem existir em outras músicas para que se possa discutir significação musical. O estabelecimento de recorrências estruturais leva a uma coleção de peças estruturalmente similares em algum nível, compondo o Material de Comparação Interobjetiva ou IOCM (abreviação do original). (Tagg 1999, 36) 17 Bjork 2000. “I’ve seen it all” em Selma Songs (trilha original). Elektra, B00004Y6TQ.

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Músicas Referências e Observações Estruturas musicais similares 1- I’ve seen it all (Björk, 2000)

Música (OA18) lembrou a cena e a música citada.

- Timbre e envelope dinâmico contínuo do som do trem - Periodicidade rítmica do trem (loop): |il Z jljil il|

2- Hands covers bruise (Trent Reznor e Atticus Ross, 2010)

OA fez recordar trilha sonora de “The Social Network” (dir.: D. Fincher), particularmente a faixa citada. Fincher19 relaciona o piano com um tipo de “solidão”, um som “infantil”, por cima de uma “raiva borbulhante” (referência ao pedal textural).

- Caracterização melódica: motivo minimalista no piano, situado acusticamente num plano próximo. - Textura: sobreposição de ruídos com qualidades tonais, remetem a um drone como base. - Loop de som discreto semelhante a uma batida de coração: |Zzl L L| - Baixo: timbre sintético e ritmo sincopado prox. a |L h. | - Ritmo harmônico lento (sugerido pela melodia)

3- It catches up with you (Trent Reznor e Atticus Ross, 2010)

OA fez recordar trilha original do filme “The Social Network”, particularmente a faixa citada.

- Pedal produzido por som sintetizado em D3. - Caracterização melódica (motivo minimalista ao piano).

4- Tim Hecker (In the Air, Norberg, Incurably Optimistic)

Referência ao estilo de eletrônica do artista Tim Hecker.

- Textura: composição de ruídos filtrados e processados e som sintético de instrumento de teclado. - Drone20: Baixo sintetizado, com pouca ou nenhuma variação harmônica.

5- Apollo (Machinefabriek, 2011)

Referência ao estilo da banda Machinefabriek. “Apollo” foi composta para o filme “In your star” (dir.: M. Takashi) e usa colagens de sons de arquivos da NASA, drones e ruídos.

- Sons referenciais: ruídos, crackle, gravações astronáuticas, tons puros agudos, som similar a uma batida de coração |Y l z l z | l z L |

6- Casa Vaga (Guilherme Darisbo, 2007)

Referência às sonoridades do “trabalho do ruidista Guilherme Darisbo”.

- Textura de ruídos - Periodicidade rítmica marcada por bleep e ruídos curtos - Sonoridades: drone, tons puros.

Observações que denotam / conotam sonoridade Onde21 Estruturas musicais similares Coração batendo Na introdução - Loop kick / baixo ostinato Trem partindo Na introdução - Loop kick Ruído Na introdução - Ruídos Bumbos graves Na introdução - Loop kick / baixo ostinato Trilha de ficção científica Na introdução - Ruídos / textura ruídos Trilha de espionagem Na introdução - Baixo ostinato Hitchcock; filme em que o assassino está na sala para pegar a vítima; filme de suspense do Supercine.

Na introdução - Baixo ostinato, ruído agudo

Cena sensual no chuveiro, cena de sexo Entra o piano - Motivo piano / harmonia Piano fofinho Entra o piano - Motivo piano / harmonia Ruído (interrompendo o piano) Geral - Piano processado, ruídos Cena de hospital, ruídos (remetem a hospital) Geral - Bleep, ruídos Trilha de filme; trilha Geral - Baixo ostinato Elementos percussivos com seus timbres diferentes; Geral - Loop rítmico Música pop por causa da percussão Geral - Loop rítmico Música moderna Geral - Ruídos Televisões; televisão, Geral - Bleep, ruídos Sons eletrônicos Geral - Bleep, ruídos, glitch Texturas, soundscapes Geral - Bleep, ruídos, glitch

                                                                                                               18 OA = Objeto de análise 19 Entrevista com o diretor disponível no site oficial do filme: http://www.thesocialnetwork-movie.com 20 O efeito “drone” se refere à presença de uma camada constante de qualidade tonal estável num conjunto sonoro sem variação perceptível na intensidade. Esse efeito, similar ao pedal, também pode ser observado na paisagem industrial e urbana, já que vários sistemas geram um som constante que está próximo ao drone. (Augoyard e Torgue 2009, 40) 21 As associações se referiram às seções da música de três maneiras distintas: 1) Como uma impressão da música sem especificar um momento (nesses casos, considerou-se como uma impressão geral); 2) sobre a introdução, utilizando uma referência instrumental, como por exemplo, “antes da entrada do piano” ou temporal, como “no início”, “quando começou”; 3) a partir da entrada do piano. A partir do campo paramusical de conotações, portanto, interessa distinguir formalmente duas partes estruturais na música: a introdução e após a entrada do piano (seções A e B).  

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Somando as interpretações subjetivas na recepção, encontramos os seguintes padrões de

similaridades intersubjetivas que indicam estruturas musicais recorrentes e significativas:

Organicidade e a 1a ideia rítmica - Consideremos como orgânica22 a estrutura musical que indicia

processos biológicos. Um exemplo é a associação entre o ritmo periódico do kick e do baixo e uma

frequência cardíaca, ou entre o espectro dos ruídos da introdução e uma respiração, delineando uma

marca de organicidade à esse trecho. Pelo mesmo princípio, é possível compreender as conotações

relacionadas, no mesmo trecho, à “tensão”, “expectativa” e “suspense” - sensações cujas respostas

fisiológicas compreendem o aumento da frequência cardíaca e a respiração alterada – à

periodicidade artificial criada pelo loop da 1a ideia rítmica, criando padrões orgânicos na música.

Conforto, intimidade e piano - Apesar das estruturas da introdução remeterem a fenômenos

orgânicos, não provocaram respostas de afetos positivos. Se reduzíssemos a um único elemento

desencadeador de reações positivas, este seria a sonoridade do piano. A familiaridade ao timbre e a

organização dos elementos pianísticos enquanto códigos musicais ligados a uma tradição clássica e

romântica são sugeridos por conotações como “segurança”, “firmeza”, “tranquilidade”, “calmaria”,

“conforto”, “humano”, “romântico”, “vida”, “elementos etéreos” e “alívio”. Em adição, a

progressão harmônica de tétrades maiores e menores sem tensões23 gera, para os ouvidos, um

ambiente confortável sobre o qual uma figura humana solitária e infantil encontra proteção – como

a melodia intimista24 do piano, na música de The Social Network.

Ruídos da tecnologia - Em Pionier I00, os ruídos permitem diversas associações extrínsecas à

música. Na introdução e na seção final há uma textura composta de ruídos de envelopes dinâmicos

                                                                                                               22  Tomando, por analogia, o conceito de música orgânica de Tarasti quando a relaciona com uma espécie de “organismo vivo que imita processos naturais” (2002, 17). A similaridade entre um som musical e a conotação de um elemento ou ação biológica corresponde a um dos princípios de universalidades no código musical, de natureza bioacústica (Tagg 1999, 17)  23  Com exceção de B7M#11  24 O intimismo, ou proximidade, nesse caso, foi intencionado e recriado a partir do posicionamento próximo dos microfones ao instrumento.

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contínuos25, que remetem ora a uma fonte geradora de causa pneumática –advindo daí a conotação

de respiração - ora a causas mecânicas por fricção - como o som de serra ou esmeril, e por anafonia

sônica a um objeto cortante, sugerindo a conotação de “Hitchcock”, “trilha de suspense”. Na

“Bíblia dos Efeitos Sonoros”, Viers apresenta na categoria de sons de ficção científica26 alguns

clichês utilizados no cinema que se aproximam desses ruídos, como “jatos de ar”, “sons

pneumáticos” e “atmosfera de planetas”, ilustrando a influência da mídia cinemática no imaginário

sonoro da realidade futurista, relacionada à tecnologia e ao urbano. Estruturas sonoras similares de

ruídos estão presentes no IOCM27, e todas protagonizam a exploração pelo homem, através da

tecnologia, de espaços urbanos, siderais ou subjetivos.

Bleeps28 do imaginário da alta tecnologia - Os tons puros são fontes para criação de bipes,

ringtones e afins nos dispositivos eletrônicos, servindo também como matéria prima para efeitos

sonoros no cinema. Tagg cita o uso desses sons em projeções do futuro nas quais a tecnologia não é

pejorativa, com “bleepings alegres e hi-tech dos computadores modernos e equipamentos

eletrônicos” (2001, 3). Pense num filme, na cena de um laboratório de última geração, ou na sala

equipada de um super-herói, e eles estarão lá. Ao lembrarmos de filmes futuristas “clássicos”,

concordaremos com Viers que essa estrutura (tom puro) é uma fonte de efeitos sonoros

popularizada em filmes de ficção científica nos anos 60 e 70 (2001, 6). Os bleeps encontrados aqui,

ainda, se enquadram como “efeitos de multimídia”29 e como “sons tecnológicos”, segundo sua

categorização. A frequência alta (11.97kHz) insere-os nos âmbito dos sons hi-tech30, que corrobora

com o imaginário suscitado pelo nome da música: Pionier I00 traduz o nome da primeira nave                                                                                                                25 Ruídos que, durante um período de observação não superior a 15 minutos, têm variação de até 3 dB. (Fonte: http://www.simucad.dep.ufscar.br/dn_eng_seguranca_doc05.pdf) 26 Sons de ficção científica “usavam inicialmente sons eletrônicos e sintetizadores. Essa prática diminuiu nos anos 80 devido ao pioneirismo do sound designer Ben Burtt (de Star Wars). Burtt redefiniu os sons da ficção científica utilizando material orgânico, como projetores de filmes, morsas e sons autênticos da engenharia de ficção científica” (Viers 2008, 282). 27  Na peça de Darisbo Casa Vaga, em Apollo, do Maschinefabriek, nas obras de Tim Hecker e em Hands cover bruise, da trilha de The Social Network  28 Optei por manter o termo original em inglês, que o dicionário Merrian-Webster define como “um som agudo breve feito por um equipamento eletrônico”.  29 Efeitos de multimídia são “sons eletrônicos e orgânicos que corresponde a imagens em celulares, menus de DVDs, Websites etc” (Viers 2002, 278) 30  “Bleeps agudos tendem a soar mais hi-tech. Gera-se um bleep a partir de uma onda senoidal de 4kHz”. (Viers 2001, 243).  

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espacial lançada pela NASA, tornando-se conhecida por ser o objeto humano mais remoto no

universo31.

Glitch32 e o espaço urbano contemporâneo - É das ventoinhas de notebooks, artefatos wi-fi,

programas de computadores, mas principalmente das falhas do sistema que engloba esses

elementos, que emergem os glitches, clippings e ruídos cada vez mais presentes no ambiente de alta

tecnologia em que estamos imersos. As ferramentas atuais de áudio permitiram ampliar e transpor

qualquer informação sônica do fundo de um sistema para o primeiro plano de uma obra, instigando

a exploração da percepção em novas fronteiras na era pós-digital33. A cultura da música eletrônica,

que já traz no âmago a noção modular de obra e dados que podem ser recombinados e remixados

livre e sucessivamente, se apropria, amplia e transforma consequentemente os sons do cotidiano

pós-digital em samples. A diferença, nesse subgênero musical denominado glitch, está numa

tendência em reduzir a informação ao mínimo (Cascone 2000, 17). O glitch34, ao compor a 2a ideia

ritmica ao longo das seções A e B, reitera as conotações de tecnologia relacionadas ao espaço

urbano contemporâneo e seus sons eletrônicos cada vez mais presentes, camuflados em dispositivos

portáteis e transitórios. O uso de samples e ferramentas de processamento digital de sinal transporta

as falhas da tecnologia digital do fundo para a figura na música eletrônica.

Conclusão - A simbiose entre o orgânico e o artificial sintetiza as impressões subjetivas

decorrentes do resultado musical e paramusical da parceria entre Alva Noto e Ryuichi Sakamoto.

Pionier I00 sugere essa simbiose em seu discurso, com uma visão de tendência utópica35, projetada

                                                                                                               31 A missão “Pioneer 10”, de 1972, pretendia coletar informações diretas de Jupiter. Fonte: http://www.nasa.gov/ 32 Na falta de um termo que traduzisse glitch para português, utilizarei o original, como “uma repentina, usualmente temporária má função ou irregularidade de equipamento” (Fonte: dicionário aplicativo iMac).

33  O conceito de pós-digital refere-se ao período em que a informação digital já não é mais revolucionária, participando das ações do cotidiano (Cascone 2000, 7). A tecnologia, nesse contexto de emancipação, é a condutora da mudança de foco nas artes, alargando os horizontes sonoros e musicais  34 Glitch é um termo comum na indústria da computação e da eletrônica para designar uma ocorrência súbita de mal funcionamento, podendo ser aplicado também a todo tipo de sistema, inclusive organizações humanas. (Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Glitch). Em Pionier I00, o glitch é gerado e repetido digitalmente. Se os “sons agudos tendem a ser associados com atividade, leveza” (Tagg 2001, 9), a conotação de leveza ressoa no glitch também por correspondência visual. 35 “utopia” está em contraposição à ideia de “distopia” enquanto visão do futuro que projeta medo sobre a sociedade atual, apresentada por Tagg (2001, 2). Segundo uma “tabela de comparação de tendências em utopia e distopia no

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sobre a sociedade atual, na qual alta tecnologia e relacionamentos humanos são vistos por uma

perspectiva colaborativa e otimista. O artificial e sintético indiciam racionalidade36. O racional e o

lógico - qualidades apresentadas como tendências utópicas - são indiciados pelas formas

geométricas visíveis nos elementos cênicos e implícitas na tecnologia presente em toda a produção

de Pionier I00. Há uma relação intrínseca entre o racional e outros indicadores utópicos como

laboratório / ciência / transportes / comercial / extraterrestre, e uma coerência intersubjetiva,

indiciada pelos efeitos que constituem a 2a ideia rítmica, na conotação desses elementos. O

moderno, eletrônico e sintético - outros indicadores utópicos - também são conotados nas

associações estésicas. A organicidade, indiciada pelas estruturas musicais pianísticas e pelas

associações bioacústicas em Pionier I00, apesar de provocar afetos positivos e negativos, também

indicam utopia. A ideia de limpeza e leveza, apontadas como “virtudes”, associadas ao racional,

científico e disciplinado nas indicações utópicas (Tagg 2001, 8), são conotadas pelo glitch e pelo

minimalismo melódico. A utopia indica um espaço imaginado ou estado das coisas onde tudo é

perfeito. Na música, orgânico e artificial têm seu espaço, se auxiliam e se complementam. Sons

orgânicos se vestem de características hi-tech. Sons artificiais remetem à processos orgânicos. A

união do piano acústico ao minimal click e aos ruídos também aponta para uma necessidade de

reencontrar ambientes seguros, aconchegantes e intimistas no meio do cotidiano caótico, ruidoso e

artificial do mundo contemporâneo. O silêncio, ou configuração do fundo, mudou muito desde o

4’33”, de John Cage. Em resposta à mudança radical da nossa percepção através do

desenvolvimento tecnológico, ao uso de sons “deformados” artificialmente e à sensação, por vezes

frustrante, de se perseguir eternamente a atualização informacional, o piano, nesse contexto, parece

nos dizer que o silêncio também é cheio de falhas. Mas que vale a pena buscá-lo.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               imaginário e nos sons” (2001, 6), caracterizariam a utopia: racional, lógico/ claro, dia, ensolarado/ luz/ colorido, vermelhos, amarelos/ longe-futuro, hiper-moderno/ simples, limpo/ cidades/ formas geométricas/ laboratório, ciência, transportes, comercial/ extraterrestre/ simples, poucas camadas/ palmas/ preciso, distinto/ eletrônico, sintético, digital/ pianos, flautas/ pouco eco/ assobios/ fêmea/ agudo/ suave/ melódico, harmônico, cromático. 36  Ou como nos apresenta o dicionário eletrônico, o que é “feito ou produzido pelo homem ao invés de ocorrer naturalmente, tipicamente como uma cópia de algo natural”  

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REFERÊNCIAS

Augoyard, Jean F., e Torgue, Henry, edit. 2009. Sonic Experience: A Guide to Everyday Sounds. Montreal: McGill-Queen’s University Press.

Cascone, Kim. 2000. “The aesthetics of failure: ‘Post-digital’ Tendencies in Contemporary Computer Music”. In Computer Music Journal, 24 n.4, 12-18. Cambridge: MIT.

Collis, Adams. 2008. “Sounds of the System: the emancipation of noise in the music of Carsten Nicolai”. In Organised Sound, 13 n.1, 31-39.Cambridge: Cambridge University Press..

Tagg, Philip. 2003. “Analisando a música popular: método e prática”. In Em pauta, v. 14, n. 23.

Tagg, Philip. 1993. From Refrain to Rave: the decline of figure and rise of ground. Disponível em http://www.tag.org

Tagg, Philip. Glossary of special terms, abbreviations, neologisms, etc. used in writings by Philip Tagg. Disponível em www.tagg.org/articles/ptgloss.html.

Tagg, Philip. 1999. Introductory notes to the semiotics of music. Disponível em: http://www.tagg.org/xpdfs/semiotug.pdf

Tagg, Philip; Collins, K. E. 2001. The sonics aesthetics of the Industrial: Re-constructing Yesterday’s soundscape for Today’s alienation and Tomorrow’s dystopia. Liverpool. Disponível em: http://www.tagg.org/

Tarasti, Eero. 2002. Signs of Music: a guide to musical semiotics. Berlim; Nova York: Mouton de Gruyter.

Viers, Ric. 2008. The Sound Effects Bible: how to create and record hollywood style sound effects. Studio City: Michael Wiese Prod.