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Cecília Meireles Motivos

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  • Viagem - Ceclia Meireles

    ViagemCeclia Meireles

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  • Viagem - Ceclia Meireles

    Nota do Editor

    maneira dos antigos copistas, esta edio uma transcrio da primeira edio do livro que consagrou Ceclia Meireles como a grande poetisa da lngua portuguesa. No se trata, note-se bem, de uma reproduo da edio original, que s seria possvel em papel, mas de uma mera transcrio, na qual se cuidou de manter, na medida de nossos recursos e ateno, a grafia e apresentao da edio original. Os estudiosos da obra de Ceclia Meireles, tenho certeza, apreciaro esta publicao, que mantm, com as ressalvas acima, todas as grafias do original. Alm de ajud-los em seus estudos comparativos, uma prova testemunhal, acessvel a todos, de um dos motivos provveis do poema Errata. Os demais leitores talvez apreciem mais as edies posteriores, revisadas pela Autora, como o excelente e bem documentado Ceclia Meireles - Obra Potica, volume nico, editado pela Aguilar. Laureado com o primeiro prmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras em 1938, publicado no ano seguinte em Lisboa pelas Edies Ocidente, com impresso a cargo da Editorial Imprio que a finalizou em 24 de julho de 1939, a presente edio rara no apenas por se tratar da transcrio da primeira edio. At ontem, era um exemplar nico (em papel continua sendo) amarelecendo em minha estante, graas ao do tempo: o mesmo tempo que torna a poesia de C.M. cada vez melhor. Enriquecido com a colagem de uma foto de revista da poca, uma foto original, encimando autgrafo e precedendo ficha catalogrfica revista pela autora, pelo trabalho de um amante de bons livros, o Coronel Zacarias Silva, este o exemplar que, virtualmente, compartilho com o leitor. Esta edio dedicada ao Coronel Zacarias Silva, a quem devo mais do que a preservao e o enriquecimento desta primeira edio de Viagem. No o conheci pessoalmente. Mas, pelos livros de sua biblioteca que meus parcos recursos permitiram resgatar em um antigo sebo que ficava do outro lado da rua do prdio nmero 950 da Av. Brigadeiro Lus Antnio, em So Paulo, nos anos 60, gostaria de o ter conhecido. Todos primeiras edies, autografadas, bem conservadas, com cuidadosas fichas catalogrficas datilografadas revistas pelos autores e devidamente rubricadas pelo Coronel. A venda de dois deles (primeiras edies autografadas de Jorge Amado e Graciliano Ramos, vendidas a Ricardo Ramos, graas aos bons ofcios de Lus Ea) me ajudou a fazer frente s despesas com o parto de minha primeira filha. Por tudo isso, dedico esta edio memria do Coronel Zacarias Silva, com meus agradecimentos.

    Importante: O leitor convidado a ler a nota de copyright desta edio.

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  • Viagem - Ceclia Meireles

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  • Viagem - Ceclia Meireles

    A MEUS AMIGOS PORTUGUESES

    EPIGRAMA N. I

    POUSA sbre sses espetculos infatigveisuma sonora ou silenciosa cano:flor do esprito, desinteressada e efmera.

    Por ela, os homens te conhecero:por ela, os tempos versteis saberoque o mundo ficou mais belo, ainda que intilmente,quando por le andou teu corao.

    MOTIVO

    EU CANTO porque o instante existee a minha vida est completa.No sou alegre nem sou triste:sou poeta.

    Irmo das coisas fugidias,no sinto gzo nem tormento.Atravesso noites e dias

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  • Viagem - Ceclia Meireles

    no vento.

    Si desmorono ou si edifico,si permaneo ou me desfao, no sei, no sei. No sei si ficoou passo.

    Sei que canto. E a cano tudo.Tem sangue eterno a asa ritmada.E um dia sei que estarei mudo: mais nada.

    NOITE

    HUMIDO gsto de terra,cheiro de pedra lavada tempo inseguro do tempo! sombra do flanco da serra,nua e fria, sem mais nada.

    Brilho de areias pisadas,sabor de folhas mordidas, lbio da voz sem ventura! suspiro das madrugadassem coisas acontecidas.

    A noite abria a frescurados campos todos molhados, szinha, com o seu perfume! preparando a flor mais puracom ares de todos os lados.

    Bem que a vida estava quieta.

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  • Viagem - Ceclia Meireles

    Mas passava o pensamento... de onde vinha aquela msica?E era uma nuvem repleta,entre as estrlas e o vento.

    ANUNCIAO

    TOCA essa msica de sda, frouxa e trmula,que apenas embala a noite e balana as estrlas noutro mar.

    Do fundo da escurido nascem vagos navios de ouro,com as mos de esquecidos corpos qusi desmanchados no vento.

    E o vento bate nas cordas, e estremecem as velas opacas,e a gua derrete um brilho fino, que em si mesmo logo se perde.

    Toca essa msica de sda, entre areias e nuvens e espumas.

    Os remos pararo no meio da onda, entre os os peixes suspensos:e as cordas partidas andaro pelos ares danando -ta.

    Cessar esta msica de sombra, que apenas indica valores de ar.No haver mais nossa vida, talvez no haja nem o p que fomos.E a memria de tudo desmanchar suas dunas desertas,e em navios novos homens eternos navegaro.

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    DISCURSO

    E AQUI estou, cantando.

    Um poeta sempre irmo do vento e da gua:deixa seu ritmo por onde passa.

    Venho de longe e vou para longe:mas procurei pelo cho os sinais do meu caminhoe no vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram.

    Tambm procurei no cu a indicao de uma trajectria,mas houve sempre muitas nuvens.E suicidaram-se os operrios de Babel.

    Pois aqui estou, cantando.

    Se eu nem sei onde estou,como posso esperar que algum ouvido me escute?

    Ah! se eu nem sei quem sou,como posso esperar que venha algum gostar de mim?

    EXCURSO

    ESTOU vendo aquele caminhocheiroso da madrugada:pelos muros, escorriamflores moles da orvalhada;

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    na cr do cu, muito fina,via-se a noite acabada.

    Estou sentindo aqueles passosrente dos meus e do muro.

    As palavras que escutavaeram pssaros no escuro...Passros de voz to clara,voz de desenho to puro!

    Estou pensando na folhagemque a chuva deixou polida:nas pedras, ainda marcadasde uma sombra humedecida.Estou pensando o que pensavanesse tempo a minha vida.

    Estou diante daquela portaque no sei mais se ainda existe...Estou longe e fra das horas,sem saber em que consistenem o que vai nem o que volta...sem estar alegre nem triste,

    sem desejar mais palavrasnem mais sonhos, nem mais vultos,olhando dentro das almas,os longos rumos ocultos,os largos itinerriosde fantasmas insepultos...

    itinerrios antigos,que nem Deus nunca mais leva.Silncio grande e szinho,todo amassado com treva,onde os nossos giramquando o ar da morte se eleva.

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    RETRATO

    EU NO tinha ste rosto de hoje,assim calmo, assim triste, assim magro,nem stes olhos to vazios,nem o lbio amargo.

    Eu no tinha estas mos sem fra,to paradas e frias e mortas;eu no tinha ste coraoque nem se mostra.

    Eu no dei por esta mudana,to simples, to certa, to fcil: Em que esplho ficou perdidaa minha face?

    MSICA

    NOITE perdida,No te lamento:embarco a vida

    no pensamento,busco a alvoradado sonho isento,

    puro e sem nada, rosa encarnada,intacta, ao vento.

    Noite perdida,

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  • Viagem - Ceclia Meireles

    noite encontrada,morta, vivida,

    e ressuscitada...(Asa da luaqusi parada,

    mostra-me a suasombra escondida,que continua

    a minha vidanum cho profundo! raz prendida

    a um outro mundo.)Rosa encarnadado sonho isento,

    muda alvoradaque o pensamentodeixa confiada

    ao tempo lento..Minha partida,minha chegada,

    tudo vento...

    Ai da alvorada!Noite perdida,noite encontrada...

    EPIGRAMA N.o 2

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  • Viagem - Ceclia Meireles

    S PRECRIA e veloz, Felicidade.Custas a vir, e, quando vens, no te demoras.Fste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,e, para te medir, se inventaram as horas.

    Felicidade, s coisa estranha e dolorosa.Fizeste para sempre a vida ficar triste:porque um dia se v que as horas tdas passam,e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

    SERENATA

    REPARA na cano tardiaque tmidamente se eleva,num arrulho de fonte fria.

    O orvalho treme sbre a trevae o sonho da noite procuraa voz que o vento abraa e leva.

    Repara na cano tardiaque oferece a um mundo desfeitosua flor de melancolia.

    to triste, mas to perfeito,o movimento em que murmura,como o do corao no peito.

    Repara na cano tardiaque por sbre o teu nome, apenas,desenha a sua melodia.

    E nessas letras to pequenaso universo inteiro perdura.E o tempo suspira na altura

    por eternidades serenas.

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    A LTIMA CANTIGA

    NUM dia que no se adivinha,meus olhos assim estaro:e h de dizer-me: Era a expressoque ela ltimamente tinha.

    Sem que se mova a minha monem se incline a minha cabeanem a minha bca estremea, toda serei recordao.

    Meus pensamentos sem tristezade novo se debruaroentre o acabado coraoe o horizonte da lngua presa.

    Tu, que foste a minha paixo,virs a mim, pelo meu gsto,e de muito alm do meu rostomeus olhos te percorrero.

    Nem por distante ou distradoescapars invocaoque, de amor e de mansido,te eleva o meu sonho perdido.

    Mas no vers tua existncianesse mundo sem sol nem cho,por onde se derramaroos mares da minha incoerncia.

    Ainda que sendo tarde e em vo,

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    perguntarei por que motivotudo quanto eu quis de mais vivotinha por cima escrito: N o.

    E ondas seguidas de sadade,sempre na tua direo,caminharo, caminharo,sem nenhuma finalidade.

    CONVENINCIA

    CONVM que o sonho tenha margens de nuvens rpidase os pssaros no se expliquem, e os velhos andem pelo sol,e os amantes chorem, beijando-se, por algum infanticdioConvm tudo isso, e muito mais, e muito mais...E por sse motivo aqui vou, como os papis abertosque caem das janelas dos sobrados, tontamente...Depois das ruas, e dos trens, e dos navios,encontrarei casualmente a sala que afinal buscava,e o meu retrato, na parede, olhar para os olhos que levo.

    E encolherei meu corpo nalguma cama dura e fria.(Os grilos da infncia estaro cantando dentro da erva...)E eu pensarei: Que bom! nem preciso respirar!...

    CANO

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    PUS o meu sonho num navioe o navio em cima do mar; depois, abri o mar com as mos,para o meu sonho naufragar.

    Minhas mos ainda esto molhadasdo azul das ondas entreabertas,e a cr que escorre dos meus dedoscolore as areias desertas.

    O vento vem vindo de longe,a noite se curva de frio;debaixo da gua vai morrendomeu sonho, dentro de um navio...

    Chorarei quanto fr preciso,para fazer com que o mar cresa,e o meu navio chegue ao fundoe o meu sonho desaparea.

    Depois, tudo estar perfeito:praia lisa, guas ordenadas,meus olhos secos como pedrase as minhas duas mos quebradas.

    PERSPECTIVA

    TUA passagem se fez por distncias antigas.O silncio dos desertos pesava-lhe nas asase, juntamente com le, o volume das montanhas e do mar.

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    Tua velocidade desloca mundos e almas.Por isso, quando passaste, cau sbre mim tua violnciae desde ento alguma coisa se aboliu.

    Guardo uma sensao de drama sombrio, com vozes de ondas lamentando-me.

    E a multido das estrlas avermelhadas fugindo com o cu para longe de mim.

    Os dias que veem so feitos de vento plcido e apagam tudo.Dispensam a sombra dos gestos sobre os cenrios.Levam dos lbios cada palavra que desponta.Gastam o contrno da minha sntese.Acumulam ausncia em minha vida...

    Oh! um pouco de neve matando, docemente, flha a flha...

    Mas a seiva l dentro continua, sufocada,nutrindo de sonho a morte.

    CANO

    NUNCA eu tivera queridodizer palavra to louca:bateu-me o vento na bca,e depois no teu ouvido.

    Levou smente a palavra,deixou ficar o sentido.

    O sentido est guardadono rosto com que te miro,neste perdido suspiroque te segue alucinado,no meu sorriso suspensocomo um beijo malogrado.Nunca ningum viu ningum

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    que o amor pusesse to triste.Essa tristeza no viste,e eu sei que ela se v bem...S si aquele mesmo ventofechou teus olhos, tambm...

    SOLIDO

    IMENSAS noites de inverno,com frias montanhas mudas,e o mar negro, mais eterno,mais terrvel, mais profundo.

    Este rugido das guas uma tristeza sem forma:sobe rochas, desce frguas,vem para o mundo, e retorna...

    E a nvoa desmancha os astros,e o vento gira as areias:nem pelo cho ficam rastrosnem, pelo silncio, estrlas.

    A noite fecha seus lbios terra e cu guardado nome.E os seus longos sonhos sbiosgeram a vida dos homens.

    Geram os olhos incertos,por onde descem os riosque andam nos campos abertosda claridade do dia.

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    ACEITAO

    MAIS fcil pousar o ouvido nas nuvense sentir passar as estrlasdo que prend-lo terra e alcanar o rumor dos teus passos.

    mais fcil, tambm, debruar os olhos no oceanoe assistir, l no fundo, ao nascimento mudo das formas,que desejar que apareas, criando com teu simples gestoo sinal de uma eterna esperana.

    No me interessam mais nem as estrlas, nem as formas do mar,nem tu.

    Desenrolei de dentro do tempo a minha cano:no tenho inveja s cigarras: tambm vou morrer de cantar.

    EPIGRAMA N.o 3

    MUTILADOS jardins e primaveras abolidasabriram seus miraculosos ramosno cristal em que pousa a minha mo.

    (Prodigioso perfume!)

    Recompuseram-se tempos, formas, cres, vidas...

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    Ah! mundo vegetal, ns, humanos, choramoss da incerteza da ressureio.

    MURMRIO

    TRAZE-ME um pouco das sombras serenasque as nuvens transportam por cima do dia!Um pouco de sombra, apenas, v que nem te peo alegria.

    Traze-me um pouco da alvura dos luaresque a noite sustenta no seu corao!A alvura, apenas, dos ares: v que nem te peo iluso.

    Traze-me um pouco da tua lembrana,aroma perdido, sadade da flor! V que nem te digo esperana! V que nem siquer sonho amor!

    CANO

    NO DESEQUILBRIO dos mares,as proas giraram szinhas...Numa das naves que afundaram que tu certamente vinhas.

    Eu te esperei todos os sculos,sem desespro e sem desgsto,e morri de infinitas mortesguardando sempre o mesmo rosto.

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  • Viagem - Ceclia Meireles

    Quando as ondas te carregaram,meus olhos, entre guas e areias,cegaram como os das esttuas,a tudo quanto existe alheias.

    Minhas mos pararam sbre o are endureceram junto ao vento,e perderam a cr que tinhame a lembrana do movimento.

    E o sorriso que eu te levavadesprendeu-se e cau de mim:e s talvez le ainda vivadentro dessas guas sem fim.

    GARGALHADA

    HOMEM vulgar! Homem de corao mesquinho!eu te quero ensinar a arte sublime de rir.Dobra essa orelha grosseira, e escutao ritmo e o som da minha gargalhada:

    Ah! Ah! Ah! Ah!Ah! Ah! Ah! Ah!

    No vs? preciso jogar por escadas de mrmore baixelas de ouro.Rebentar colares, partir esplhos, quebrar cristais,vergar a lmina das espadas e despedaar esttuas,destruir as lmpadas, abater cpolas,e atirar para longe os pandeiros e as liras...

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (22 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    O riso magnfico um trecho dessa msica desvairada.

    Mas preciso ter baixelas de ouro,compreendes? e colares, e esplhos, e espadas e esttuas.E as lmpadas. Deus do cu!E os pandeiros geis e as liras sonoras e trmulas...

    Escuta bem:

    Ah! Ah! Ah! Ah!Ah! Ah! Ah! Ah!

    S de trs lugares nasceu at hoje esta msica herica:do cu que venta,do mar que dana,e de mim.

    FIM

    TEMPOS de incerta esperanaque assim vos desacreditastes!Cresceram nuvens sbre a luae o vento passou pelas hastes.

    Vinde vr meu jardim sem flresno presente nem no futuro,e a mo das guas procurandoum rumo pelo solo escuro!

    Vinde ouvir a histria da vidano spro da noite deserta.Caram as sombra das vozesdentro da ltima estrla aberta.

    Ai! tudo isto letra do horscopo...E s tu, Esttua, resistes! Mas, embora nunca te quebres,

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (23 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    ters sempre os olhos mais tristes.

    CRIANA

    CABECINHA boa de menino triste,de menino triste que sofre szinho,que szinho sofre, e resiste.

    Cabecinha boa de menino ausente,que de sofrer tanto se fez pensativo,e no sabe mais o que sente...

    Cabecinha boa de menino mudoque no teve nada, que no pediu nada,pelo mdo de perder tudo.

    Cabecinha boa de menino santoque do alto se inclina sbre a gua do mundopara mirar seu desencanto.

    Para vr passar numa onda lenta e friaa estrla perdida da felicidadeque soube que no possuiria.

    DESAMPARO

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  • Viagem - Ceclia Meireles

    DIGO-TE que podes ficar de olhos fechados sbre o meu peito,porque uma ondulao maternal de onda eternate levar na exata direo do mundo humano.

    Mas no equilbrio do silncio,no tempo sem cr e sem nmero,pergunta a mim mesmo o lbio do meu pensamento:

    quem que me leva a mim,que peito nutre a durao desta presena,que msica embala a minha msica que te embala,a que oceano se prende e desprendea onda da minha vida, em que ests como rosa ou barco...?

    FIO

    NO FIO da respirao,rola a minha vida montona,rola o pso do meu corao.

    Tu no vs o jgo perdendo-secomo as palavras de uma cano.

    Passas longe, entre nuvens rpidas,com tantas estrlas na mo...

    para que serve o fio trmuloem que rola o meu corao?

    INVERNO

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  • Viagem - Ceclia Meireles

    CHOVEU tanto sbre o teu peitoque as flores no podem estar vivase os passos perderam a frade buscar estradas antigas.

    Em muita noite houve esperanasabrindo as asas sbre as ondas.Mas o vento era to terrvel!Mas as guas eram to longas!

    Pode ser que o sol se levantesbre as tuas mos sem vontadee encontres as coisas perdidasna sombra em que as abandonaste.

    Mas quem vir com as mos brilhantestrazendo o seu beijo e o teu nome,para que saibas que s tu mesmo,e reconheas o teu sonho?

    A primavera foi to claraque se viram novas estrlas,e soaram no cristal dos mares,lbios azues de outras sereias.

    Vieram, por ti, msicas lmpidas,tranando sons de ouro e de sda.Mas teus ouvidos noutro mundodesalteravam sua sde.

    Cresceram prados ondulantese o cu desenhou novos sonhos,e houve muitas alegoriasnavegando entre Deus e os homens.

    Mas tu estavas de olhos fechadosprendendo o tempo em teu sorriso.E em tua vida a primaverano poude achar nenhum motivo...

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  • Viagem - Ceclia Meireles

    EPIGRAMA N.o 4

    O CHRO vem perto dos olhospara que a dr transborde e caia.O chro vem quasi chorandocomo a onda que toca na praia.

    Descem dos cus ordens augustase o mar chama a onda para o centro.O chro foge sem vestgios,mas levando nufragos dentro.

    ORFANDADE

    A MENINA de preto ficou morando atrs do tempo,sentada no banco, debaixo da rvore,recebendo todo o cu nos grandes olhos admirados.

    Algum passou de manso, com grandes nuvens no vestido,e parou diante dela, e ela, sem que ningum falasse,murmurou: A MAME MORREU.

    J ningum passa mais, e ela no fala mais, tambm.O olhar cau dos seus olhos, e est no cho, com as outras pedras,escutando na terra aquele dia que no dormecom as trs palavras que ficaram por al.

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (27 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    ALVA

    DEIXEI meus olhos szinhosnos degraus da sua porta.Minha bca anda cantando,mas todo o mundo est vendoque a minha vida est morta.

    Seu rosto nasceu das ondase em sua bca h uma estrla.Minha mo viveu mil vidaspara uma noite encontr-lae noutra noite perd-la.

    Caminhei tantos caminhos,tanto tempo e no sabiacomo era fcil a mortepela seta do silnciono sangue de uma alegria.

    Seus olhos andam cobertosde cres da primavera.Pelos muros de seu peito,durante inteis viglias,desenhei meus sonhos de hera.

    Desenho, apenas, do tempo,cada dia mais profundo,roteiro do pensamento,sadade das esperanasquando se acabar o mundo...

    CANTIGUINHA

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (28 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    MEUS OLHOS eram mesmo gua, te juro mexendo um brilho vidrado,verde-claro, verde-escuro.

    Fiz barquinhos de brinquedo, te juro fui botando todos lesnaquele rio to puro.

    .....................

    Veiu vindo a ventania, te juro as guas mudam seu brilho,quando o tempo anda inseguro.

    Quando as guas escurecem, te juro todos os barcos se perdem,entre o passado e o futuro.

    So dois rios os meus olhos, te juro noite e dia correm, correm,mas no acho o que procuro.

    TERRA

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (29 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    DEUSA dos olhos volveispousada na mo das ondas:em teu colo de penumbras,abri meus olhos atnitos.Surgi do meio dos tmulos,para aprender o meu nome.

    Mamei teus peitos de pedraconstelados de prenncios.

    Enredei-me por florestas,entre cnticos e musgos.Soltei meus olhos no elctricomar azul, cheio de msicas.

    Desci na sombra das ruas,como pelas tuas veias:meu passo a noite nos muros casas fechadas palmeiras cheiro de chcaras hmidas sono da existncia efmera.

    O vento das praias largasmergulhou no teu perfumea cinza das minhas mguas.E tudo cau de sbito,junto com o corpo dos nufragos,para os invisveis mundos.

    Vi tantos rstos ocultosde tantas figuras plidas!Por longas noites inmeras,em minha assombrada carahouve grandes rios mudoscomo os desenhos dos mapas.

    Tinhas os ps sobre flres,e as mos prsas, de to puras.Em vo, suspiros e fomescruzavam teus olhos mltiplos,despedaando-se annimos,diante da tua altitude.

    Fui mudando minha angstia

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (30 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    numa fra herica de asa.Para construir cada msculo,houve universos de lgrimas.Devo-te o modlo justo:sonho, dor, vitria e graa.

    No rio dos teus encantos,banhei minhas amarguras.Purifiquei meus enganos,minhas paixes, minhas dvidas.Despi-me do meu desnimo fui como ningum foi nunca.

    Deusa dos olhos volveis,rsto de esplho to frgil,corao de tempo fundo, por dentro das tuas mscaras,meus olhos, srios e lcidos,viram a beleza amarga.

    E sse foi o meu estudopara o ofcio de ter alma;para entender os soluos,depois que a vida se cala. Quando o que era muito nicoe, por ser nico, tcito.

    XTASE

    DEIXA-TE estar embalado no mar noturnoonde se apaga e acende a salvao.

    Deixa-te estar na exalao do sonho sem forma:

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (31 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    em redor do horizonte, vigiam meus braos abertos,e por cima do cu esto pregados meus olhos, guardando-te.

    Deixa-te balanar entre a vida e a morte, sem nenhuma sadade.Deslisam os planetas, na abundncia do tempo que cai.Ns somos um tnue plen dos mundos...

    Deixa-te estar neste embalo de gua geando crculos.Nem preciso dormir, para a imaginao desmanchar-se em figuras ambguas.

    Nem preciso fazer nada, para se estar na alma de tudo.

    Nem preciso querer mais, que vem de ns um beijo eternoe afoga a bca da vontade e os seus pedidos...

    SOM

    ALMA divina,por onde me andas?Noite szinha,lgrimas, tantas!

    Que spro imenso,alma divina,em esquecimentodesmancha a vida!

    Deixa-me aindapensar que voltas,alma divina,coisa remota!

    Tudo era tudo

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (32 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    quando eras minha,e eu era tua,alma divina!

    GUITARRA

    PUNHAL de prata j eras,punhal de prata!Nem fste tu que fizestea minha mo insensata.

    Vi-te brilhar entre as pedras,punhal de prata! no cabo, flores abertas,no gume, a medida exata,

    a exata, a medida certa,punhal de prata,para atravessar-me o peitocom uma letra e uma data.

    A maior pena que eu tenho,punhal de prata,no de me ver morrendo,mas de saber quem me mata.

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (33 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    DISTNCIA

    QUANDO o sol ia acabandoe as guas mal se moviam,tudo que era meu choravada mesma melancolia.Outras lgrimas nasceramcom o nascimento do dia:s de noite esteve scomeu rosto sem alegria.(Talvez o sol que acabarae as guas que se perdiamtransportassem minha sombrapara a sua companhia...)Oh!mas nem no sol nem nas guasos teus olhos a veriam... que andam longe, irmos da lua,muito clara e muito fria...

    EPIGRAMA N.o 5

    GOSTO de gota d'gua que se equilibrana flha rasa, tremendo ao vento.

    Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:e ela resiste, no isolamento.

    Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:pronto a cair, pronto a ficar lmpido e exato.

    E a flha um pequeno desertopara a imensidade do acto.

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (34 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    CAMPO

    CAMPO da minha sadade:vai crescendo, vai subindo,de tanto jazer sem nada.Desvlo mudo e contnuoque vai revestido os montese estendendo outros caminhos.

    Mergulhada em suas frondes,a tristeza uma esperanabebendo a vazia sombra.

    guas que vo caminhandodispersam nos mares fundosmel de beijo e sal de pranto.Levam tudo, levam tudoagasalhado em seus braos

    Campo imenso com o meu vulto...

    E ao longe cantam os pssaros.

    RIMANCE

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (35 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    ONDE que di na minha vida,para que eu me sinta to mal?quem foi que me deixou feridade ferimento to mortal?

    Eu parei diante da paisagem:e levava uma flor na mo.Eu parei diante da paisagemprocurando um nome de imagempara dar minha cano.

    Nunca existiu sonho to purocomo o da minha timidez.Nunca existiu sonho to puro,nem tambm destino to durocomo o que para mim se fez.

    Estou cada num vale aberto,entre serras que no teem fim.Estou cada num vale aberto:nunca ningum passar perto,nem ter notcias de mim.

    Eu sinto que no tarda a morte,e s h por mim esta flor:eu sinto que no tarda a mortee no sei com que suportetanta solido sem pavor.

    E sofro mais ouvindo um rioque ao longe canta pelo cho,que deve ser lmpido e frio,mas sem d nem recordao,como a voz cujo murmriomorrer com o meu corao.

    RENNCIA

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (36 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    RAMA das minhas rvores mais altas,deixa ir a flor! que o tempo, ao desprend-la,roda-a no molde de noites e de albasonde gira e suspira cada estrla.

    Deixa ir a flor! deixa-a ser asa, espao,ritmo, desenho, msica absoluta,dando e recuperando o corpo esparsoque, indo e vindo, se observa, e ordena, e escuta...

    Falo-te, por saber o que perder-se.Conheo o corao da primavera,e o dom secreto do seu sangue verde,que num breve perfume existe e espera.

    Vert para infinitos desamparostudo que tive no meu pensamento.Por onde anda? No abismo. Dada ao vento...Era a flor dos instantes mais amargos.

    PAUSA

    AGORA como depois de um entrro.Deixa-me neste leito, do tamanho do meu corpo,junto parde lisa, de onde brota um sono vazio.A noite desmancha o pobre jgo das variedades.Pousa a linha do horizonte entre as minhas pestanas,e mergulha silncio na ltima veia da esperana.

    Deixa tocar sse grilo invisvel mercrio tremendo na palma da sombra deixa-o tocar a sua msica, suficiente

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (37 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    para cortar todo arabesco da memria...

    VINHO

    A TAA foi brilhante e rara,mas o vinho de que bebcom os meus olhos postos em ti,era de total amargura.

    Desde essa hora antiga e preclara,insensvelmente desc,e em meu pensamento sento desgsto de ser criatura.

    Eu sou de essncia etrea e clara:no entanto, desde que te v,como que desapareci...Rondo triste, minha procura.

    A taa foi brilhante e rara:mas, com certeza enlouquec.E dsse vinho que bebse originou minha loucura.

    VALSA

    FEZ TANTO luar que eu pensei nos teus olhos antigos

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (38 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    e nas tuas antigas palavras.O vento trouxe de longe tantos lugares em que estivemosque tormei a viver contigo enquanto o vento passava.

    Houve uma noite que cintilou sbre o teu rostoe modelou tua voz entre as algas.Eu moro, desde ento, nas pedras frias que o cu protegee estudo apenas o ar e as guas.

    Coitado de quem ps sua esperananas praias fra do mundo... Os ares fogem, viram-se as guas,mesmo as pedras, com o tempo, mudam.

    GRILO

    MQUINA de ouro a rodar na sombra,serra de cristal a serrar estrlas...

    Caem pedaos de sono, entre os silncios,em grandes flores, mornas e dceis,com o pso e a cr de vagas borboletas.

    Rostos de espuma, nomes de cinza, a vida sobe nos caules da noite, pouco a pouco.

    Mquina de ouro tremendo no ar de vidro frio,cortando o brto das palavras rente bca...

    Demanchando nos dedos arquitecturas que iam parando,e livros de imagens que o vento compunha, ilgicamente.

    Ah! que dos ramos de estrlas finamente desprendidas,pela sonora lmina que ests vibrando sempre, sempre?

    Que das noites extensas, de ares mansos de alegrias,sem ruas, sem habitantes, sem solido, sem pensamento?

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (39 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    Que das mos esperando o amanhecer definitivoe cadas tambm na torrente do tempo?

    DESCRIO

    H UMA gua clara que cai sbre pedras escurase que, s pelo som, deixa ver como fria.

    H uma noite por onde passam grandes estrlas puras.H um pensamento esperando que se forme uma alegria.

    H um gesto acorrentado e uma voz sem coragem,e um amor que no sabe onde que anda o seu dia.

    E a gua cai, refletindo estrlas, cu, folhagem...Cai para sempre!

    E duas mos nela mergulham com tristeza,deixando um esplendor sbre a sua passagem.

    (Porque existe um esplendor e uma intil belezanessas mos que desenham dentro da gua sua viagempara fra da natureza,

    onde no chegar nunca esta gua imprecisa,que nasce e deslisa, que nasce e deslisa...)

    EPIGRAMA N.o 6

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (40 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    NESTAS pedras cau, certa noite, uma lgrima.O vento que a secou deve estar voando noutros pases,o luar que a estremeceu tem olhos brancos de cegueira, esteve sbre ela, mas no viu seu esplendor.

    S, com a morte do tempo, os pensamento que a choraramvero, junto ao universo, como foram infelizes,que, uma lgrima foi, naquela noite a vida inteira, tudo quanto era dar, a tudo que era opr.

    ATITUDE

    MINHA esperana perdeu seu nome...Fechei meu sonho, para cham-la.A tristeza transfigurou-mecomo o luar que entra numa sala.

    O ltimo passo do destinoparar sem forma funesta,e a noite oscilar como um dourado sinoderramando flores de festa.

    Meus olhos estaro sbre esplhos, pensandonos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.

    E um campo de estrlas ir brotandoatrs das lembranas ardentes.

    CORPO NO MAR

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (41 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    GUA DENSA do sonho, quem navega?Contra as auroras, contra as baas:barca imvel, estrla cega.

    Bate o vento na vela e no a arqueia. No foi por mim!Partiram-se as cordas, rodaram os mastros,os remos entraram por dentro da areia...

    Os remos torceram-se, e tranaram razes. Intil for-los alastram-se, fogemna sombra secreta de eternos pases...

    Mudou-se a vela em nuvem clara!Choraram meus olhos, minhas mos correram... Alto e longe! No foi por mim...

    E apenas praum corpo na barca vazia, merc das metamorfoses,olhos vertendo melancolia...

    O vento sopra no corao.

    Adeus a todos os meridianos!Deito-me como num caixo.

    Ah! sobrevive o mar no meu ouvido...Marinheiro! Marinheiro!

    (Ilhas...Pssaros...Portos... nsse rudo, O mar...O mar!...O mar inteiro!...)

    Mas tempo perdido!

    LUAR

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (42 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    FACE do muro to plana,com o sabugueiro florido.

    O luar parece que abanaas ramagens na parede.

    A noite tda um zumbidoe um florir de vagalumes.

    A bca morre de sdejunto frescura dos galhos.Andam nascendo os perfumesna sda crespa dos cravos.

    Brota o sono dos canteiroscomo o cristal dos orvalhos.

    DILOGO

    MINHAS palavras so a metade de um dilogo obscurocontinuado atravs de sculos impossveis.

    Agora compreendo o sentido e a ressonnciaque tambm trazes de to longe em tua voz.

    Nossas perguntas e respostas se reconhecemcomo os olhos dentro dos espelhos. Olhos que choraram.

    Conversamos dos dois extremos da noite,como de praias opostas. Mas com uma voz que no se importa...

    E um mar de estrlas se balana entre o meu pensamento e o teu.Mas um mar sem viagens.

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (43 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    ESTRLA

    QUEM VIU aquele que se inclinou sbre palavras trmulas,de relvo partido e de contrno perturbado,querendo achar l dentro o rsto que dirige os sonhos,para ver si era o seu que lhe tivessem arrancado?

    Quem foi que o viu passar com sues ms insones,buscando o polo que girava sempre no vento? Seus olhos iam nos ps, destruindo tdas as razes lricas,e em suas mos sangrava o pensamento.

    E era o seu rsto, sim, que estava entre versos andrginos,prso em crculos de ar, sbre um instante de festa!Bca fechada sob flores venenosas,e uma estrla de cinza na testa.

    Bem que le quis chamar pelo seu nome em voz muito alta, mas o desejo no foi alm do seu pescoo.E ficou diante de sua cabea, estruturando-secomo o frio dentro de um po.

    E no poude contar a ningum seu fim quimrico.A ningum. Pois a lngua que fra sua estava morta,e le era um prisioneiro entre paredes transparentes,entre paredes transparentes, mas sem porta.

    Disto le soube. O que nunca entendeu, porm, e o que lhe amarrao corao com ardents cordas de desgsto aquela estrla de cinza aquela estrla grande e plcida derramando sombra em seu rsto.

    DESVENTURA

    TU S como o rsto das rosas:

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (44 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    diferente em cada ptala.

    Onde estava o teu perfume? Ningum soube.Teu lbio sorriu para todos os ventose o mundo inteiro ficou feliz.

    Eu, s eu, encontrei a gota de orvalho que te alimentava,como um segrdo que cai do sonho.

    Depois, abri as mos, e perdeu-se.

    Agora, creio que vou morrer.

    NOTURNO

    VOLTO a cabea para a montanhae abandono os ps para o mar. Coitado de quem est szinhoe inventa sonhos com que sonhar!

    Minhas tranas descem pela casa abaixo,entram nas paredes, vo te procurar.Envolvem teu corpo, beijam-te os ouvidos. Querido, querido, devias voltar.

    Meus braos caminham pelas ruas quietas: caminho de rios, fluidez de luar... levam minhas mos por todo o seu corpo: Querido, querido, devias voltar.

    Partem os meus olhos, parte a minha bca,Na noite deserta, ningum v passar,pedao a pedao, minha vida inteira,nem na tua casa me escutam chegar.

    Meu quarto vazio s pensa que durmo...

    Coitado de quem est szinho

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (45 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    e assiste o seu prprio sonhar!

    NOES

    ENTRE MIM e mim, h vastides bastantespara a navegao dos meus desejos afligidos.Descem pela gua minhas naves revestidas de espelhos.Cada lmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

    Mas, nesta aventura do sonho exposto correnteza,s recolho o gsto infinito das respostas que no se encontram.

    Virei-me sbre a minha prpria existncia, e contemplei-a.Minha virtude era esta errncia por mares contraditrios,e ste abandono para alm da felicidade e da beleza.

    Oh! meu Deus, isto a minha alma:qualquer coisa que flutua sbre ste corpo efmero e precrio,como o vento largo do oceano sbre a areia passiva e inmera...

    EPIGRAMA N.o 7

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (46 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    A TUA RAA de aventuraquis ter a terra, o cu, o mar.

    Na minha, h uma delcia obscuraem no querer, em no ganhar...

    A tua raa quer partir,guerrear, sofrer, vencer, voltar.

    A minha, no quer ir nem vir.A minha raa quer passar.

    REALEJO

    MINHA vida bela,Minha vida bela,nada mais adiantasi no h janelapara a voz que canta...

    Preparei um versocom a melhor medida:rsto do universo,bca da minha vida.

    Ah! mas nada adianta,olhos de luar,quando se plantahera no mar,

    nem quando se inventaum colar sem fio,ou se experimentaabraar um rio...

    Alucinaoda cabea tonta!

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (47 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    Tudo se desmontaem cres e ventoe velocidade.Tudo: corao,olhos de luar,noites de sadade.

    Aprendi comigo.Por isso, te digo,minha vida bela,nada mais adianta,si no h janelapara a voz que canta...

    FADIGA

    ESTOU to cansada, to cansada,estou to cansada! Que fiz eu?Estive embalando, noite e dia,um corao que no dormiadesde que o seu amor morreu.

    Eu lhe dizia: Deixa a mortelevar teu amor! No faz mal. mais belo sse herosmo tristede amar uma coisa que existes para morrer, afinal...

    Deixa a morte... No chores... dorme!Noite e dia eu cantava assim.Mas o corao no falava:chorava baixinho, chorava,mesmo como dentro de mim.

    Era um corao de incertezas,feito para no ser feliz;querendo sempre mais que a vida

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (48 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    sem termo, limite, medida,com poucas vezes se quis.

    O tempo era rspido e amargo.Vinha um negro vento do mar.Tudo gritava, noite e dia, e nunca ningum ouviriaaquele corao chorar.

    Uma noite, dentro da sombra,dentro do chro, a sua vozdisse uma coisa inesperada,que logo correu, derramadanum silncio fino e veloz.

    Meu amor no morreu: perdeu-se.le existe. Eu no o quero mais.O chro foi levando o resto.Eu nem pude fazer um gesto,e achei as horas desiguais.

    E achei que o vento era mais forte,que o frio causava aflio;quis cantar, mas no foi preciso.E o ar estava muito indecisopara dar vida a uma cano.

    A sorte virara no tempocomo um navio sbre o mar.O chro parou pela treva. E agora no sei quem me levadaqui para qualquer lugar,

    onde eu no escute mais nada,onde eu no saiba de ningum,onde deite a minha fadigae onde murmure uma cantigapara ver si durmo, tambm.

    HORSCOPO

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (49 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    DEVIAM ser Venuse Jpiter, sim,que ao menos, ao menos,olhassem por mim,gerando caminhosclaros e serenospor onde passarquem vinha nutridade secretos vinhos,

    perdida, perdida,de amor e pensar.

    Saturno, porm,Saturno, o sombrio,se precipitou.

    No sabe ningumque rio, que riode luto circundaa terra profundaque piso e que sou;

    que noite revesteo mundo em que passoe os mundos que penso...

    Que longo, alto, imenso,calado ciprestesobe, ramo a ramo,entre o meu abraoe o abrao que amo!

    RESSUREIO

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (50 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    NO CANTES, no cantes, porque veem de longe os nufragos,veem os prsos, os tortos, os monges, os oradores, os suicidas.Veem as portas, de novo, e o frio das pedras, das escadas,e, numa roupa preta, aquelas duas mos antigas.

    E uma vela de mvel chama fumosa. E os livros. E os escritos.No cantes. A praa cheia torna-se escura e subterrnea.E meu nome se escuta a si mesmo, triste e falso.

    No cantes, no. Porque era a msica da tuavoz que se ouvia. Sou morta recente, ainda com lgrimas.

    Algum cuspiu por distrao sobre as minhas pestanas.Por isso vi que era to tarde.

    E deixei nos meus ps ficar o sol e andarem mscas.E dos meus dentes escorrer uma lenta saliva.No cantes, pois trancei o meu cabelo, agora,e estou diante do esplho, e sei melhor que ando fugida.

    SERENATA

    PERMITE que feche os meus olhos,pois muito longe e to tarde!Pensei que era apenas demora,e cantando pus-me a esperar-te.

    Permite que agora emudea:que me conforme em ser szinha.H uma doce luz no silncioe a dr de origem divina.

    Permite que volte o meu rsto

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (51 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    para um cu maior que ste mundo,e aprenda a ser docil no sonhocomo as estrlas no seu rumo.

    PRAIA

    NUVEM, caravela brancano ar azul do meio dia: quem te viu como eu te via?

    Rolaram troves escurospela vertente dos montes.Tremeram sbitas fontes.

    Depois, ficou tudo tristecomo o nome dos defuntos:mar e cu morreram juntos.Vinha o vento do mar altoe levantava as areias,sem vr como estavam cheias

    de tanta coisa esquecida,pisada por tantos passos,quebrada em tantos pedaos!

    Por onde ficou teu corpo, iluso de claridade quando se fez tempestade?

    Nuvem, caravela branca,nunca mais h meio dia?

    (J nem sei como te via!)

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (52 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    SEREIA

    LINDA a mulher e o seu canto,ambos guardados no luar.Seus olhos doces de pranto quem os pode enxugardevagarinho com a bca,ai!com a bca, devagarinho...

    Na sua voz transparentegiram sonhos de cristal.Nem ar nem onda correntepassuem suspiro igual,nem os bzios nem as violas,ai!nem as violas nem os bzios...

    Tudo pudesse a beleza,e, de encoberto pas,viria algum, com certeza,para faz-la feliz,contemplando-lhe alma e corpo,ai!alma e corpo contemplando-lhe...

    Mas o mundo est dormindoem travesseiros de luar.A mulher do canto lindoajuda o mundo a sonhar,com o canto que a vai matando,ai!E morrer de cantar.

    ENCONTRO

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (53 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    DESDE o tempo sem nmero em que as origens se elaboram,se estendem para mim os teus braos eternos,que um estaturio de caminhos invisveisconstruiu com a cr e o frio e o som morto de mrmores,para que em teu abrao haja imveis invernos.Tu bem sabes que sou uma chama da terra,que ardentes razes nutrem meu crescer sem termo;adextrei-me com o vento, e a minha festa a tempestade,e a minha imagem, como jgo e pensamento,abre em flor o silncio, para enfeitar alturas e rmo.

    Os teus braos que veem com essa brancura incalculvelque de to ser sem cr nem se compreende como existe, so os braos finais em que cedem os corpos,e a alma cai sem mais nada, exausta de seu prprio nome,com uma improvvel forma, um vo destino e um pso triste.

    Pois eu, que sinto bem sses teus braos paralelos,na atitude sem dr que o rumo e o ritmo dessa viagem,digo que no cairei com uma fadiga permitida,que no apagarei ste desenho puro e ardentecom que, de fgo e sangue, foi traada a minha imagem.

    Eu ficarei em ti, msera, intil, mas rebelde,ltima estrla s, do campo infiel aos cus escassos.E tu mesma achars pasmos de lagos e de areias,diante da forma exgua, sustentada s de sonhomantendo chama e flor no glo dos teus braos.

    EPIGRAMA N.o 8

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (54 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    ENCOSTEI-ME a ti, sabendo bem que eras smente onda.Sabendo bem que eras nvem, deps a minha vida em ti.

    Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frgil,fiquei sem poder chorar, quando ca.

    CANTIGA

    AI! A MANH primorosado pensamento...Minha vida uma pobre rosaao vento.

    Passam arroios de cressbre a paisagem.Mas tu eras a flor das flres,Imagem!

    Vinde ver asas e ramos,na luz sonora!Ningum sabe para onde vamosagora.

    Os jardins tm vida e morte,noite e dia...Quem conhecesse a sua sorte,morria.

    E nisto que se resumeo sofrimento:cai a flor, e deixa o perfumeno vento!

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (55 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    CAVALGADA

    MEU SANGUE corre como um rionum grande galope,num ritmo bravio,para onde acena a tua mo.

    Pelas suas ondas revltas,seguem desesperadamentetodas as minhas estrlas soltas,com a mxima cintilao.

    Ouve, no tumulto sombrio,passar a torrente fantstica!E, na luta da luz com as trevas,todos os sonhos que me levas,dize, ao menos, para onde vo!

    MEDIDA DA SIGNIFICAO

    I

    PROCUREI-ME nesta gua da minha memriaque povoa tdas as distncias da vidae onde, como nos campos, se podia semear, talvez,tanta imagem capaz de ficar florindo...

    Procurei minha forma entre os aspectos das ondas,

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (56 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    para sentir, na noite, o aroma da minha durao.

    Compreendo que, da fronte aos ps, sou de ausncia absoluta:desapareci como aquele no entanto, rduo ritmoque, sbre fingidos caminhos,sustentou a minha passagem desejosa.Acabei-me como a luz fugitivaque queimou sua prpria atitudesegundo a tendncia do meu pensamento transformvel.

    Desde agora, saberei que sou sem rastros.Esta gua da minha memria rene os sulcos feridos:as sombras efmeras afogam-se na conjuno das ondas.E aquilo que restaria eternamente to da cr destas guas, to do tamanho do tempo, to edificado de silnciosque, refletido aqui,permanece inefvel.

    II

    Voz obstinada, por que insistes chamandopor um nome que no corresponde mais a mim?

    No do meu propsito que fiques ao longe szinha.Nem tu sabes que espcie de sadade abrolha na noitee como o silncio tenta mover-se intilmente,quando diriges teus ms sonoros,sondando direes!

    No do meu propsito, voz obstinada,mas da minha condio.

    As aparncias dispersaram-se de mim,como pssaros:que sol se pode fixar nesta existncia,para te definir a minha aproximao?

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (57 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    Minhas dimenses se aboliram nos limites visveis:como podes saber onde me circunscrevo,e de que modo me pode o teu desejo atingir?Eu mesma deixei de entender a minha substncia;tenho apenas o sentimento dos mistrios que em mim se equilibram.

    Como podes chamar por mim como s coisas concretas,e assegurar-me que sou tua Necessidade e teu Bem?

    III

    Pela experincia do teu contentamento,crio formas que vistam meus pensamentos irrevelveis,e modelo fisionomias com que te possa aparecer.

    Pisarei minha solido com renncia e alegriae, por entre caminhos assombrados,resoluta virei at onde te encontres,cortando as sombras que crescem como florestas.

    Eu mesma me sentirei alucinada e exquisita,com sse alento das nebulosas sinistrasque se desenvolvem nas febres.

    No saberei precisamente quando me vers,nem si compreenderei a linguagem que falas,e os nomes que teem as tuas realidadese o tempo dos outros acontecimentos...

    Mas o que, desde agora, sinto e sei com firmeza que tua voz continuar chamando por mim, obstinada,embora eu no possa estar mais perto nem mais viva,e se tenha acabado o caminho que existe entre ns,e eu no possa prosseguir mais...

    IV

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (58 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    A gua da minha memria devora todos os reflexos.

    Desfizeram-se, por isso, tdas as minhas presenase sempre se continuaro a desfazer.

    intil o meu esforo de conservar-me;todos os dias sou meu completo desmoronamento:e assisto decadncia de tudo,nestes espelhos sem reproduo.

    Voz obstinada que ests ao longe chamando-me,conduze-te a mim, para compreenderes minha ausncia.Traze de longe os teus atributos de amargura e de sonho,para veres o que dles restadepois que chegarem a stes ermos domniosonde figuras e horas se decompem.

    No precisaremos falar mais nem sentir:seremos s de afinidades: morrero as alegorias.

    E sabers distinguir as coisas que perecem desoladas,olhando para esta gua interminvel e muda,que no floriu, que no palpitou, que no produziu,de tanto ser puramente imortal...

    GRILO

    ESTRELINHA de lata,assovio de vidro,no escuro do quarto do menino doente.

    A febre alargaos pulsos hirtos;mas dentro dos olhos ha um sol contente.

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (59 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    Pssaro de pratasacudindo guisosno sonho mgico do menino moribundo.

    Gota amargados olhos frios,rolando, rolando no peito do mundo...

    ACONTECIMENTO

    AQUI estou, junto tempestade,chorando como uma crianaque viu que no eram verdadeo seu sonho e a sua esperana.

    A chuva bate-me no rostoe em meus cabelos sopra o vento.Vo-se desfazendo em desgstoas formas do meu pensamento.

    Chorarei toda a noite, enquantoperpassa o tumulto nos ares,para no me veres em pranto,nem saberes, nem perguntares:

    Que foi feito do teu sorriso,que era to claro e to perfeito?E o meu pobre olhar indecisono te repetir: Que foi feito...?

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (60 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    EPIGRAMA N.o 9

    O VENTO voa,a noite tda se atordoa,a flha cai.

    Haver mesmo algum pensamentosbre essa noite? sbre sse vento?sbre essa flha que se vai?

    PROVNCIA

    CIDADEZINHA perdidano inverno denso de bruma,que dos teus morros de sombra,do teu mar de branda espuma,

    das tuas rvores friassubindo das ruas mortas?Que das palmas que bateramna noite das tuas portas?

    Pela janela baixinha,viam-se os crios acsos,e as flores se desfolhavamperto dos soluos presos.

    Pela curva dos caminhos,cheirava a capim e a orvalhoe muito longe as harmnicasriam, depois do trabalho.

    Que feito da tua praa,

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (61 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    ond a morena sorriacom tanta noite nos olhose, na bca, tanto dia?

    Que feito daquelas carasescondendo o seu segrdo?Dos corredores escuroscom paredes s de mdo?

    Que feito da minha vidaabandonada na tua,do instante de pensamentodeixado nalguma rua?

    Do perfume que me deste,que nutriu minha existncia,e hoje um tempo de sadade,sobre a minha prpria ausncia?

    CANTAR

    CANTAR de beira de rio;gua que bate na pedra,pedra que no d resposta.

    Noite que vem por acaso,trazendo nos lbios negroso sonho de que se gosta.

    Pensamento do caminhopensando o rosto da florque pode vir, mas no vem.

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (62 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    Passam luas muito longe,estrlas muito impossveis,nuvem sem nada, tambm.

    Cantar de beira de rio:o mundo coube nos olhos,todo cheio, mas vazio.

    A gua subiu pelo campo,mas o campo era to triste...Ai!Cantar de beira de rio.

    DESTINO

    PASTORA de nuvens, fui posta a serviopor uma campina to desamparadaque no principia nem tambm termina,e onde nunca noite e nunca madrugada.

    (Pastores da terra, vs tendes sossgo,que olhais para o sol e encontrais direo.Sabeis quando tarde, sabeis quando cedo.Eu, no.)

    Pastora de nuvens, por muito que espere,no h quem me explique meu vrio rebanho.Perdida atrs dele na plancie area,no sei si o conduzo, no sei si o acompanho.

    (Pastores da terra, que saltais abismos,nunca entendereis a minha condio.Pensai que ha firmezas, pensais que ha limites.

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (63 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    Eu, no.)

    Pastora de nunvens, cada luz coloremeu canto e meu gado de tintas diversas.Por todos os lados o vento revolveos velos instveis das reses dispersas.

    (Pastores da terra, de certeiros olhos,como to serena a vossa ocupao!Tendes sempre o indcio da sombra que foge...Eu, no.)

    Pastora de nuvens, no paro nem durmoneste mvel prado, sem noite e sem dia.Estrlas e luas que jorram, deslumbramo gado inconstante que se me extravia.

    (Pastores da terra, debaixo das folhasque entornam frescura num plcido cho,sabeis onde pousam ternuras e sonos.Eu, no.)

    Pastora de nuvens, esqueceu-me o rostodo dona das reses, do dono do prado.E s vezes parece que dizem meu nome,que me andam seguindo, no sei por que lado.

    (Pastores da terra, que vedes pessoassem serem apenas de imaginao,podeis encontrar-vos, falar tanta coisa!Eu, no.)

    Pastora de nuvens, com a face deserta,sigo atrs de formas com feitios falsos,queimando viglias na plancie eternaque gira debaixo dos meus ps descalos.

    (Pastores da terra, tereis um salrio,e andar por bailes vosso corao.Dormireis um dia como pedras suaves.Eu, no.)

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (64 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    QUADRAS

    NA CANO que vai ficandoj no vai ficando nada: menos do que o perfumede uma rosa desfolhada.

    ///

    Os remos batem nas guas:tm de ferir, para andar.As guas vo consentindo sse o destino do mar.

    ///

    Passarinho ambiciosofez nas nuvens o seu ninho.Quando as nuvens forem chuva,pobre de ti, passarinho.

    ///

    O vento do ms de Agostoleva as folhas pelo cho;s no toca no teu rostoque est no meu corao.

    ///

    Os ramos passam de levena face da noite azul. assim que os ninhos aprendemque a vida tem norte e sul.

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (65 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    ///

    A cantiga que eu cantava,por ser cantada morreu.Nunca hei de dizer o nomedaquilo que ha de ser meu.

    ///

    Ao lado da minha casamorre o sol e nasce o vento.O vento me traz teu nome,leva o sol meu pensamento.

    NOTURNO

    SUSPIRO do vento,lgrima do mar,ste tormentoainda pode acabar?

    De dia e de noite,meu sonho combate:veem sombras, vo sombras,no h quem o mate!

    Suspiro do vento,lgrima do mar,as armas que inventoso aromas no ar!

    Mandai-me soldadosde estirpe mais forte,com tdas as armasque levam morte!

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (66 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    Suspiro do vento,lgrima do mar,meu pensamentono sabe matar!

    Mandai-me sse arcanjode verde cavalo,que desa a ste campoa desbarat-lo!

    Suspiro do vento,lgrima do mar,que leve sse arcanjo meu longo tormento,e tambm a mim, para o acompanhar!

    ORIGEM

    O TEMPO gerou meu sonho na mesma roda de alfareiroque modelou Sirius e a Estrla Polar.A luz ainda no nasceu, e a forma ainda no est pronta:mas a sorte do enigma j se sente respirar.No h norte nem sul: e s os ventos sem nomegiram com o nascimento para o fazerem mais veloz.E a msica geral, que circula nas veias da sombra,prepara o mistrio alado da sua voz.

    Meu sonho quer apenas o tamanho da minha alma, exato, luminoso e simples como um anel.De tudo quanto existe, cinge smente o que no morre,porque o cu que o inventou cantava sempre eternidaderodando a sua argila fiel.

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (67 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    FEITIARIA

    NO TINHA havido pssaro nem floreso ano inteiro.Nem guerras, nem aulas, nem missas, nem viagense nem barca e nem marinheiro.

    Nem indstria ou comrcio, nem jornal nem rdio,o ano inteiro!Nem cartas, nem modas. Tudo quanto haviaera o feitio de um feiticeiroque toldava o mundo e a melancolia.

    Chegaram agora pssaros e flores,e de novo guerras, aulas, missas, viagens,e marinheiros com remos e barcasveem saindo l do horizonte.

    Brotam de novo antigas imagensdas colees de fotografia... moos com roupas de Carontee meninas iguais s Parcas.

    Por isso que se tem sadadedo tempo da feitiaria.

    MARCHA

    AS ORDENS da madrugadaromperam por sbre os montes:nosso caminho se alarga

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (68 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    sem campos verdes nem fontes.Apenas o sol redondoe alguma esmola de ventoquebram as formas do sonocom a idea do movimento.

    Vamos a passo e de longe;entre ns dois anda o mundo,com alguns vivos pela tona,com alguns mortos pelo fundo.As aves trazem mentirasde pases sem sofrimento.Por mais que alargue as pupilas,mais minha dvida aumento.

    Tambm no pretendo nadaseno ir andando ata,como um nmero que se armae em seguida se esbora, e car no mesmo poode inrcia e de esquecimento,onde o fim do tempo somapedras, guas, pensamento.

    Gosto da minha palavrapelo sabor que lhe deste:mesmo quando linda, amargacomo qualque fruto agreste.Mesmo assim amarga, tudoque tenho, entre o sol e o vento:meu vestido, minha msica,meu sonho e meu alimento.

    Quando penso no teu rosto,fecho os olhos de sadade;tenho visto muita coisa,menos a felicidade.

    Soltam-se os meus dedos tristes,dos sonhos claros que invento.Nem aquilo que imaginoj me d contentamento.Como tudo sempre acaba,

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (69 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    oxal seja bem cedo!A esperana que falavatem lbios brancos de mdo.O horizonte corta a vidaisento de tudo, isento...No h lgrima nem grito:apenas consentimento.

    EPIGRAMA N.o 10

    A MINHA vida se resume,desconhecida e transitria,em contornar teu pensamento,

    sem levar dessa trajectrianem sse prmio de perfumeque as flres concedem ao vento.

    ONDA

    QUEM falou de primaverasem ter visto o teu sorriso,falou sem saber o que era.

    ..........................

    Pus o meu lbio indecisona concha verde e espumosamodelada ao vento liso:

    tinha frescura de rosa,

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (70 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    aroma de viagem clarae um som de prata gloriosa.

    Mas desfez-se em coisa rara:prolas de sal to finas nem a areia as igualara!

    Tenho no meu lbio as runasde arquiteturas de espumacom paredes cristalinas...

    Voltei aos campos de bruma,onde as rvores perdidasno prometem sombra alguma.

    As coisas acontecidas,mesmo longe, ficam pertopara sempre e em muits vidas:

    mas quem falou do desertosem nunca ver os meus olhos... falou, mas no estava certo.

    HERANA

    EU VIM de infinitos caminhos,e os meus olho choveram lcido prantopelo cho.

    Quando que frutifica, nos caminhos infinitos,essa vida, que era to viva, to fecunda,porque vinha de um corao?

    E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,do pranto que cau dos meus olhos passados,que experincia, ou conslo, ou prmio alcanaro?

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (71 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    HISTRIA

    EU FUI a de mos ardentesque, triste de ser nascida,fui subindo altas vertentespara a vida.E perguntava, subida: mos, porque sois ardentes?gua fina que descia,flor em pedras debruada,nada ouvia ou respondia...Nada, nada.

    E eu ia desenganada,sorrindo, porque o sabia.

    E, afinal, no cu, presentestdas as estrlas puras,pouso as mesmas mos ardentesnas alturas, sem perguntas, sem procuras,ricas por indiferentes.

    Mdo, orgulho, desencantoprenderam os movimentosdessas mos que, amando tanto,sbre os ventosdesfizeram seus intentos,vencendo um tcito pranto.

    Ai! por mais que se ande, certo: no se encontra o bem perfeito.Vai nascendo s desertopelo peito.E entre o desejado e o aceitodorme um horizonte encoberto.

    Como esta bca sem pedidos,

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (72 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    e esperanas to ausentes,e esta nvoa nos ouvidoscomplacentes, mos, porque sois ardentes?

    Tudo so sonhos dormidosou dormentes!

    ASSOVIO

    NINGUM abra a sua portapara ver que aconteceu:samos de brao dado,a noite escura mais eu.

    Ela no sabe o meu rumo,eu no lhe pergunto o seu:no posso perder mais nada,si o que houve j se perdeu.Vou pelo brao da noite,levando tudo que meu: a dr que os homens me deram,e a cano que Deus me deu.

    PERSONAGEM

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (73 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    TEU NOME qusi indiferentee nem teu rsto j me inquieta.A arte de amar exatamentea de ser poeta.

    Para pensar em ti, me bastao prprio amor que por ti sinto:s a idea, serena e casta,nutrida do enigma do instinto.

    O lugar da tua presena um deserto, entre variedades:mas nsse deserto que pensao olhar de tdas as sadades.

    Meus sonhos viajam rumos tristese, no seu profundo universo,tu, sem forma e sem nome, existes,silencioso, obscuro, disperso.

    Tdas as mscaras da vidase debruam para o meu rsto,na alta noite desprotegidaem que experimento o meu gsto.

    Todas as mos vindas ao mundodesfalecem sbre o meu peito,e escuto o suspiro profundode um horizonte insatisfeito.

    Oh! que se apague a bca, o riso,o olhar dsses vultos precrios,pelo improvvel parasodos encontros imaginrios!

    Que ningum e que nada exista,de quanto a sombra em mim descansa: eu procuro o que no se avista,dentre os fantasmas da esperana!

    Teu corpo, e teu rosto, e teu nome,teu corao, tua existncia,tudo o espao evita e consome:e eu s conheo a tua ausncia.

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (74 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    Eu s conheo o que no vejo.E, nsse abismo do meu sonho,alheia a todo outro desejo,me decomponho e recomponho...

    ESTIRPE

    OS MENDIGOS maiores no dizem mais, nem fazem nada.Sabem que intil e exaustivo. Deixam-se estar. Deixam-se estar.Deixam-se estar ao sol e chuva, com o mesmo ar de completa coragem,longe do corpo que fica em qualquer lugar.

    Entreteem-se a estender a vida pelo pensamento.Si algum falar, sua voz foge como um pssaro que cai.E de tal modo imprevista, desnecessria e surpreendenteque, para a ouvirem bem, talvez gemessem algum ai.

    Oh! no gemiam, no... Os mendigos maiores so todos esticos.Puseram sua misria junto aos jardins do mundo feliz,mas no querem que, do outro lado, tenham notcia da estranha sorteque anda por les como um rio num pas.

    Os mendigos maiores vivem fra da vida: fizeram-se excludos.Abriram sonos e silncios e espaos nus, em redor de si.Teem seu reino vazio, de altas estrlas que no cobiam.Seu olhar no olha mais, e sua bca no chama nem ri.

    E seu corpo no sofre nem gosa. E sua mo no toma nem pede.E seu corao uma coisa que, si existiu, j se esqueceu.Ah! os mendigos maiores so um povo que se vai convertendo em pedra.sse povo que o meu.

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (75 of 95)29/09/2004 15:25:39

  • Viagem - Ceclia Meireles

    TENTATIVA

    ANDEI pelo mundo no meio dos homens:uns compravam joias, uns compravam po.No houve mercado nem mercadoriaque seduzisse a minha vaga mo.

    Calado, Calado, me diga, Caladopor onde se encontra minha seduo.

    Alguns, sorririam, muitos, soluaram,uns, porque tiveram, outros, porque no.Calado, Calado, eu, que no quis nada,porque ando com pena no meu corao?

    Se no vou ser santa, Calado, Calado,os sonhos de todos porque no me do?

    Calado, Calado, perderam meus dias?ou gastei-os todos, s por distrao?No sou dos que levam: sou coisa levada...E nem sei daqueles que me levaro...

    Calado, me diga si devo ir-me embora,para que outro mundo e em que embarcao!

    CANTIGA

    BENTEV que ests cantandonos ramos da madrugada,por muito que tenhas visto,

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    juro que no viste nada.No viste as ondas que vinhamto desmanchadas na areia,qusi vida, qusi morte,qusi corpo de sereia...

    E as nuvens que vo andandocom marcha e atitude de homem,com a mesma atitude e marchatanto chegam como somem.

    No viste as letras, que apostamformar idas com o vento...E as mos da noite quebrandoos talos do pensamento.

    Passarinho, tolo, tolo,de olhinhos arregalados...Bentev, que nunca vistecomo os meus olhos fechados...

    EPIGRAMA N.o 11

    A VENTANIA misteriosapassou na rvore cr de rosae sacudiu-a como um vu,um largo vu, na sua mo.

    Foram-se os pssaros para o cu.Mas as flres ficaram no cho.

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    PASSEIO

    QUEM ME leva adormecidapor dentro do campo fresco,quando as estrlas e os grilospalpitam ao mesmo tempo?

    O cu dorme na montanha,o mar flutua em si mesmo,o tempo que vai passandofiltra a sombra nas areias.

    Quem me leva adormecidasbre o perfume das plantas,quando, no fundos riosa gua nova a cada instante?

    No ha palavras nem rostos:eu mesma no me estou vendo.Algum me tirou do corpo,fez-me nome, nicamente,

    nome, para que as perguntasme chamem, com vozes tristes,e eu no me esquea de tudosi houver um dia seguinte.

    O cu roda para oste:as pontes vo para as guas.O vento um silncio inquietocom perspectivas de barcos.

    Quem me leva adormecidapelas dunas, pelas nuvens,com ste som inesquecveldo pensamento no escuro?

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    CANTIGA

    NS SOMOS como o perfumeda flor que no tinha vindo:esperana do silncio,quando o mundo est dormindo.

    Pareceu que houve o perfume...E a flor, sem vir, se acabou.Oh! abelha imaginativa!o que o desejo inventou...

    A MENINA ENFRMA

    I

    A MENINA enfrma tem no seu quarto formas inmerasque inventam espantos para seus olhos sem iluso.

    Bonecos que enchem as grandes horas de pesadelos,que lhe roubam os olhos, que lhe partem a garganta,que arrebatam tesouros da sua mo.

    Um dia, ela descobriu szinha que era duas!a que sofre depressa, no ritmo intenso e atroz da noitee a que olha o sofrimento do alto do sono, do alto de tudo,balanada num cu de estrlas invisveis,

    sem contato nenhum com o cho.

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    II

    A mo da menina enfrma refratou-se tambm na gua pura,como, outras vezes, sua voz, nesses rios do cu.

    Partiu-se a mo contemplativa dentro d'gua:mas no houve mesmo amargura, mas qusi delcia,no seu pulso quebrado e exato.

    E ela contempla a onda mansa:e tudo isso uma simples lembrana? uma alheia notcia?ou algum velho retrato?

    III

    A menina enfrma passeia no jardim brilhante,de plantas hmidas, de flores frescas, de gua cantante,com pssaros sbre a folhagem.

    A menina enfrma apanha o sol nas mos magrinhas:seus olhos longos teem um desenho de andorinhasnum rosto sereno de imagem.

    A menina enfrma chegou perto do dia to mansae to simples como uma lgrima sbre a esperana.E acaba de descobrir que as nuvens tambm teem movimento.

    Olha-as como de muito mais longe. E com um sorriso de sadadepe nesses barcos brancos seus sentimentos de eternidadee parte pelo claro vento.

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    DESENHO

    FINO CORPO, que passeiasna minha imaginaocomo o vento nas areias,

    sers o rei Salomo?

    H um perfume de madeirae uma confusa noode leo e nardo, a noite inteira,

    na minha imaginao.

    Estendem-se no meu leitoprpura e marfins...Estosafiras pelo meu peito,

    cedros pela minha mo...

    Trres, piscinas, palmeiras,de pura imaginao,parecem to verdadeiras...

    Sers o rei Salomo?

    Ondas de mel e de leitese derramam pelo cho,no silencioso deleite

    da sombra e da solido.

    Navega nas minhas veias,em vagorosa inveno,um vinho de luas-cheias

    Por isso, em meu corpo vobrotando, em mornos canteiros,incenso, mirra, e a cano

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    de uns pssaros prisioneiros...

    Sers o rei Salomo?

    Na noite qusi perfeitada minha imaginao,que da tua mo direita?...

    TIMIDEZ

    BASTA-ME um pequeno gestofeito de longe e de leve,para que venhas comigoe eu para sempre te leve...

    mas s sse eu no farei.

    Uma palavra cadadas montanhas dos instantesdesmancha todos os marese une as terras mais distantes...

    palavra que no direi.

    Para que tu me adivinhes,entre os ventos taciturnos,apago meus pensamentos,ponho vestidos noturnos,

    que amargamente inventei.

    E, enquanto no me descobres,os mundos vo navegandonos ares certos do tempo,at no se sabe quando...

    e um dia me acabarei.

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    TAVERNA

    BEM SEI que, olhando p'ra minha cara,p'ra minha bca, triste e incoerente,p'ros gestos vagos de sombra incertaque hoje sou eu,minha loucura se faz to clara,minha desgraa to evidente,minha alma tda to descoberta,que pensam: ste, no bebeu...Passei a noite, passei o diade cotovelos firmes na mesa,de olhos sobre o vinho perdidos,a testa pulsando na mo:e muros de melancoliasubiam pela sala acsa,inutilizando os gemidos,mas quebrando-me o corao.

    Deixei o copo no mesmo nvel:bebida imvel, esplho atento,onde s eu vi desbrochares,rsto amargo de amor!Vim da taverna brio de impossvel,pisando sonhos, beijando o vento,falando s pedras, agarrando os ares... Oh! deixem-me ir para onde eu fr!...

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    PERGUNTA

    ESTES MEUS tristes pensamentosvieram de estrlas desfolhadaspela bca brusca dos ventos?

    Nasceram das encruzilhadas,onde os espritos defuntospem no presente horas passadas?

    Originaram-se de assuntospelo raciocnio dispersos,e depois na sadade juntos?Subiram de mundos submersosem mares, tmulos ou almas,em msica, em mrmore, em versos?

    Cariam das noites calmas,dos caminhos dos luares lisos,em que o sono abre mansas palmas?

    Proveem de fatos indecisos,acontecidos entre brumas,na era de extintos parasos?

    Ou de algum cenrio de espumas,onde as almas deslisam frias,sem aspiraes mais nenhumas?

    Ou de ardentes e inteis dias,com figuras alucinadaspor desejos e covardias?Foram as esttuas paradasem roda da gua do jardim...?Foram as luzes apagadas?

    Ou sero feitos s de mim,estes meus tristes pensamentosque boiam como peixes lentos

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    num rio de tdio sem fim?

    EPIGRAMA N.o 12

    A ENGRENAGEM trincou pobre e pequeno inseto.E a hora certa bateu, grande e exata, em seguida.

    Mas o toque daquele alto e imenso relgiodependia daquela exgua e obscura vida?

    Ou percebeu siquer, enquanto o som vibrava,que ela ficava ali, calada mas partida?

    VENTO

    PASSARAM os ventos de Agosto, levando tudo.As rvores humilhadas bateram, bateram com os ramos no cho.Voaram telhados, voaram andaimes, voaram coisas imensas:os ninhos que os homens no viram nos galhos,e uma esperana que ningum viu, num corao.

    Passaram os ventos de Agosto, terrveis, por dentro da noite.Em todos os sonos pisou, quebrando-os, o seu tropel.Mas, sbre a paisagem cansada da aventura excessiva sem forma e sem co,o sol encontrou as crianas procurando outra vez o vento

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  • Viagem - Ceclia Meireles

    para soltarem papagaios de papel.

    MISRIA

    HOJE tarde para os desejos,e nem me interessa mais nada...Cheguei muito depois do tempoem que se pode ouvir dizer: Oh! minha amada...

    O mar imvel dos teus olhospode estar bem perto, e defronte.Mas nem navega as horasnem se cuida mais de horizonte.

    Durmo com a noite nos meus braos,sofrendo pelo mundo inteiro.O suspiro que em mim resvalabem pode ser, a cada instante, o derradeiro.

    Morrer uma coisa to fcilque tdas as manhs me admirode ter o sono conservadofidelidade ao meu suspiro.

    E pergunto: Quem que mandamais do que eu sbre a minha vida?Nste mar de s desencanto,que sereia murmura uma cano desconhecida?

    E em meus ouvidos indiferentes,alheios a qualquer vontade,que rstos vo reconhecendoos passeios da eternidade?

    Perto do meu corpo estendido,nufrago inerte de sombras e ares,quem chegar, desmanchando secretos nveis?Sers tu? para me levares...

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    (Vejo a lgrima que escorrepor cima da minha pena.Ai! a pergunta sempre enorme,e a resposta, to pequena...)

    METAMORFOSE

    SUBITO pssarodentro dos muroscado,

    plido barcona onda serenachegado.

    Noite sem braos!Clido sanguecorrido.

    E imensamenteo navegantemudado.

    Seus olhos densosapenas sabemter sido.

    Seu lbio levaum outro nomemandado.

    Sbito pssaropor altas nuvens

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  • Viagem - Ceclia Meireles

    bebido.

    Plido barconas flores quietasquebrado.

    Nunca, jmaise para sempreperdidoo co do corpono prprio ventopregado.

    DESPEDIDA

    VAIS FICANDO longe de mimcomo o sono, nas alvoradas;mas h estrlas sobressaltadasresplandecendo alm do fim.

    Bebo essas luzes sem tristeza,porque sinto bem que elas soo ltimo vinho e o ltimo pode uma definitiva mesa.

    E olho par a fuga do mar,e para a asceno das montanhas,e vejo como te acompanhas, para me desacompanhar.

    As luzes do amanhecimentoacharo tda a terra igual. Tudo foi sobrenatural,sem pso de contentamento,

    sem noes do mal nem do bem, jgo de pura geometria,que eu pensei que se jogaria,

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    mas no se joga com ningum.

    EPIGRAMA N.o 13

    PASSARAM os reis coroados de ouro,e os heris coroados de louro:passaram por stes caminhos.

    Depois, vieram os santos e os bardos.Os santos, cobertos de espinhos.Os poetas, cingidos de cardos.

    NDICE

    Aceitao [40]Acontecimento [129]Alva [58]A menina enfrma [172]Anunciao [14]

    file:///C|/cursos_e_livros_cd/Triagem/eROCKET%20CONVERTIDO/viagem.rb/000000-cecilia.html (89 of 95)29/09/2004 15:25:39

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    Assovio [158]Atitude [89]A ltima cantiga [28]Campo [74]Cano [32]Cano [36]Cano [43]Cantar [135]Cantiga [119]Cantiga [166]Cantiga [171]Cantiguinha [60]Cavalgada [121]Convenincia [31]Corpo no mar [90]Criana [49]Desamparo [51]Descrio [86]Desenho [175]Despedida [192]Destino [137]Desventura [96]Dilogo [33]Discurso [16]Distncia [72]Encontro [116]Epigrama n.o 1 [9]Epigrama n.o 2 [25]Epigrama n.o 3 [41]Epigrama n.o 4 [56]Epigrama n.o 5 [73]Epigrama n.o 6 [88]Epigrama n.o 7 [101]Epigrama n.o 8 [118]Epigrama n.o 9 [131]Epigrama n.o 10 [151]Epigrama n.o 11 [168]Epigrama n.o 12 [185]

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    Epigrama n.o 13 [194]Estirpe [162]Estrla [94]Excurso [18]xtase [66]Fadiga [104]Feitiaria [146]Fim [47]Fio [52]Gargalhada [45]Grilo [84]Grilo [128]Guitarra [70]Herana [154]Histria [155]Horscopo [107]Inverno [53]Luar [92]Marcha [148]Medida da significao [122]Metamorfose [190]Misria [187]Motivo [10]Murmrio [42]Msica [22]Noes [99]Noite [12]Noturno [97]Noturno II [143]Onda [152]Ofandade [57]Origem [145]Passeio [169]Pausa [80]Pergunta [182]Personagem [159]Perspectiva [34]Praia [112]

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    Provncia [132]Quadras [141]Realejo [102]Renncia [78]Ressureio [109]Retrato [21]Rimance [76]Sereia [114]Serenata [26]Serenata [111]Solido [38]Som [68]Taverna [180]Tentativa [164]Terra [62]Timidez [178]Valsa [82]Vento [186]Vinho [81]

    Transcrio da ficha catalogrfica preparada em 1942 pelo Coronel Zacarias Silva. Os textos entre colchetes foram acrscimos manuscritos pela Autora

    N.E.

    ============

    CECILIA MEIRELES [GRILLO]

    literariamente CECILIA MEIRELESUsa os pseudonimos: [Florncia C. M. C.]

    BIOGRAFIA:

    Nasceu no Distrito Federal. filha de [Carlos Alberto de Carvalho M.] e de d. [Mathilde Benevides

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    Meireles]Esprito de slida cultura, Cecilia Meireles poetisa, prosadora, pedagogista, professora e conferencista (notadamente sobre educao, arte e literatura)

    ANOTAES interessantes:

    1o livro publicado: NUNCA MAIS E POESIA DOS POEMAS, versos, em 1923, no Rio de Janeiro.1o Premio de Poesia da Academia Brasileira de Letras, em 1938, com seu livro VIAGEM.

    BIBLIOGRAFIA:

    A POESIAS:

    Nunca mais e Poema dos PoemasBaladas para El-ReiViagemVaga Musica

    B NOVELA:

    Olhinhos de Gato [ publicada na Rev. "Ocidente" de Lisboa.]

    C LITERATURA INFANTIL:

    Crianca, meu amr, [livros de textos]

    E mais:

    O Espirito Vitorioso, [tese de Concurso Cadeira de Literatura da antiga Escola Normal do Distrito Federal ]

    So Paulo 10/VIII/1942

    Zacarias Silva (assinatura)

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    [Lit. infantil Rute e Alberto resolveram ser turistas]

    ----FICHA PROVISORIAMODIFICADA E AMPLIADA PELA AUTORA----

    [Conferncias realizadas e editadas em Lisboa e Coimbra: Notcia da literatura brasileira (Coimbra) Batuque, samba e macumba (Lisboa)]

    Verso para eBookeBooksBrasil.com

    __________________

    Dezembro 2000

    O status de copyright, como domnio pblico, refere-se presente edio, feita em fair use, por seu valor educacional, documental e histrico, aps verificar que a

    obra de Ceclia Meireles est disponvel em edies em papel por diversas editoras. Caso o leitor tenha notcia de que algum direito patrimonial esteja sendo

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