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SOCIOLOGIAS 20 Sociologias, Porto Alegre, ano 8, nº 16, jul/dez 2006, p. 20-45 A Introdução Políticas Públicas: uma revisão da literatura 1 CELINA SOUZA* CELINA SOUZA* CELINA SOUZA* CELINA SOUZA* CELINA SOUZA* s últimas décadas registraram o ressurgimento da impor- tância do campo de conhecimento denominado políticas públicas, assim como das instituições, regras e modelos que regem sua decisão, elaboração, implementação e ava- liação. Vários fatores contribuíram para a maior visibilidade desta área. O primeiro foi a adoção de políticas restritivas de gasto, que passaram a dominar a agenda da maioria dos países, em especial os em desenvolvimento. A partir dessas políticas, o desenho e a execução de políticas públicas, tanto as econômicas como as sociais, ganharam maior visibilidade. O segundo fator é que novas visões sobre o papel dos gover- nos substituíram as políticas keynesianas do pós-guerra por políticas restriti- vas de gasto. Assim, do ponto de vista da política pública, o ajuste fiscal implicou a adoção de orçamentos equilibrados entre receita e despesa e restrições à intervenção do Estado na economia e nas políticas sociais. Esta agenda passou a dominar corações e mentes a partir dos anos 80, em especial em países com longas e recorrentes trajetórias inflacionárias como os da América Latina. O terceiro fator, mais diretamente relacionado aos países em desenvolvimento e de democracia recente ou recém-democrati- * Phd em Ciência Política pela London School of Economics and Political Science (LSE). Pesquisadora do Centro de Recursos Humanos (CRH) da Universidade Federal da Bahia. Brasil. 1 Este artigo é uma versão revista e ampliada de texto publicado anteriormente. Ver Souza (2003).

Celina souza, 2006

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  • 1. 20 SOCIOLOGIAS Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45Polticas Pblicas: umareviso da literatura 1 CELINA SOUZA*Introduo s ltimas dcadas registraram o ressurgimento da impor- A tncia do campo de conhecimento denominado polticas pblicas, assim como das instituies, regras e modelos que regem sua deciso, elaborao, implementao e ava- liao. Vrios fatores contriburam para a maior visibilidadedesta rea. O primeiro foi a adoo de polticas restritivas de gasto, quepassaram a dominar a agenda da maioria dos pases, em especial os emdesenvolvimento. A partir dessas polticas, o desenho e a execuo depolticas pblicas, tanto as econmicas como as sociais, ganharam maiorvisibilidade. O segundo fator que novas vises sobre o papel dos gover-nos substituram as polticas keynesianas do ps-guerra por polticas restriti-vas de gasto. Assim, do ponto de vista da poltica pblica, o ajuste fiscalimplicou a adoo de oramentos equilibrados entre receita e despesa erestries interveno do Estado na economia e nas polticas sociais. Estaagenda passou a dominar coraes e mentes a partir dos anos 80, emespecial em pases com longas e recorrentes trajetrias inflacionrias comoos da Amrica Latina. O terceiro fator, mais diretamente relacionado aospases em desenvolvimento e de democracia recente ou recm-democrati-* Phd em Cincia Poltica pela London School of Economics and Political Science (LSE). Pesquisadora do Centro de RecursosHumanos (CRH) da Universidade Federal da Bahia. Brasil.1 Este artigo uma verso revista e ampliada de texto publicado anteriormente. Ver Souza (2003).
  • 2. SOCIOLOGIAS 21 Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45zados, que, na maioria desses pases, em especial os da Amrica Latina,ainda no se conseguiu formar coalizes polticas capazes de equacionarminimamente a questo de como desenhar polticas pblicas capazes deimpulsionar o desenvolvimento econmico e de promover a incluso socialde grande parte de sua populao. Respostas a este desafio no so fceisnem claras ou consensuais. Elas dependem de muitos fatores externos einternos. No entanto o desenho das polticas pblicas e as regras que re-gem suas decises, elaborao e implementao, tambm influenciam osresultados dos conflitos inerentes s decises sobre poltica pblica. Este artigo trata dos principais conceitos e modelos de anlise de po-lticas pblicas, buscando sintetizar o estado-da-arte da rea, ou seja, mapearcomo a literatura clssica e a mais recente tratam o tema. O artigo buscatambm construir algumas pontes entre as diferentes vertentes das teoriasneo-institucionalistas e a anlise de polticas pblicas. No entanto o objeti-vo do artigo modesto: tentar minimizar a lacuna da ainda escassa traduopara a lngua portuguesa da literatura sobre polticas pblicas e, ao rever asprincipais formulaes tericas e conceituais mais prximas da literatura es-pecfica sobre polticas pblicas e da literatura neo-institucionalista, contribuirpara seu teste emprico nas pesquisas sobre polticas pblicas brasileiras. O texto est dividido em duas partes. A primeira introduz os princi-pais conceitos, modelos analticos e tipologias especficos da rea de polti-cas pblicas. A segunda discute as possibilidades de aplicao da literaturaneo-institucionalista anlise de polticas pblicas.Como e por que surgiu a rea de polticas pblicas? Entender a origem e a ontologia de uma rea do conhecimento importante para melhor compreender seus desdobramentos, sua trajetriae suas perspectivas. A poltica pblica enquanto rea de conhecimento e
  • 3. 22 SOCIOLOGIAS Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45disciplina acadmica nasce nos EUA, rompendo ou pulando as etapas se-guidas pela tradio europia de estudos e pesquisas nessa rea, que seconcentravam, ento, mais na anlise sobre o Estado e suas instituies doque na produo dos governos. Assim, na Europa, a rea de poltica pblicavai surgir como um desdobramento dos trabalhos baseados em teoriasexplicativas sobre o papel do Estado e de uma das mais importantes institui-es do Estado - o governo -, produtor, por excelncia, de polticas pbli-cas. Nos EUA, ao contrrio, a rea surge no mundo acadmico sem estabe-lecer relaes com as bases tericas sobre o papel do Estado, passandodireto para a nfase nos estudos sobre a ao dos governos. O pressuposto analtico que regeu a constituio e a consolidao dosestudos sobre polticas pblicas o de que, em democracias estveis,aquilo que o governo faz ou deixa de fazer passvel de ser (a) formuladocientificamente e (b) analisado por pesquisadores independentes. A traje-tria da disciplina, que nasce como subrea da cincia poltica, abre o ter-ceiro grande caminho trilhado pela cincia poltica norte-americana no quese refere ao estudo do mundo pblico. O primeiro, seguindo a tradio deMadison, ctico da natureza humana, focalizava o estudo das instituies,consideradas fundamentais para limitar a tirania e as paixes inerentes natureza humana. O segundo caminho seguiu a tradio de Paine eTocqueville, que viam, nas organizaes locais, a virtude cvica para promo-ver o bom governo. O terceiro caminho foi o das polticas pblicas comoum ramo da cincia poltica para entender como e por que os governosoptam por determinadas aes. Na rea do governo propriamente dito, a introduo da poltica pbli-ca como ferramenta das decises do governo produto da Guerra Fria e davalorizao da tecnocracia como forma de enfrentar suas conseqncias.Seu introdutor no governo dos EUA foi Robert McNamara que estimulou acriao, em 1948, da RAND Corporation, organizao no-governamental
  • 4. SOCIOLOGIAS 23 Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45financiada por recursos pblicos e considerada a precursora dos think tanks.O trabalho do grupo de matemticos, cientistas polticos, analistas de siste-ma, engenheiros, socilogos etc., influenciados pela teoria dos jogos deNeuman, buscava mostrar como uma guerra poderia ser conduzida comoum jogo racional. A proposta de aplicao de mtodos cientficos s formu-laes e s decises do governo sobre problemas pblicos se expande de-pois para outras reas da produo governamental, inclusive para a polticasocial.2Os pais fundadores da rea de polticas pblicas Considera-se que a rea de polticas pblicas contou com quatro gran-des pais fundadores: H. Laswell, H. Simon, C. Lindblom e D. Easton. Laswell (1936) introduz a expresso policy analysis (anlise de polticapblica), ainda nos anos 30, como forma de conciliar conhecimento cient-fico/acadmico com a produo emprica dos governos e tambm comoforma de estabelecer o dilogo entre cientistas sociais, grupos de interessee governo. Simon (1957) introduziu o conceito de racionalidade limitada dosdecisores pblicos (policy makers), argumentando, todavia, que a limitaoda racionalidade poderia ser minimizada pelo conhecimento racional. ParaSimon, a racionalidade dos decisores pblicos sempre limitada por pro-blemas tais como informao incompleta ou imperfeita, tempo para a to-mada de deciso, auto-interesse dos decisores, etc., mas a racionalidade,segundo Simon, pode ser maximizada at um ponto satisfatrio pela cria-o de estruturas (conjunto de regras e incentivos) que enquadre o com-portamento dos atores e modele esse comportamento na direo de re-2 Para uma sntese desta trajetria, ver Parsons (1997: 278-8).
  • 5. 24 SOCIOLOGIAS Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45sultados desejados, impedindo, inclusive, a busca de maximizao de inte-resses prprios. Lindblom (1959; 1979) questionou a nfase no racionalismo de Laswelle Simon e props a incorporao de outras variveis formulao e an-lise de polticas pblicas, tais como as relaes de poder e a integraoentre as diferentes fases do processo decisrio o que no teria necessaria-mente um fim ou um princpio. Da por que as polticas pblicas precisari-am incorporar outros elementos sua formulao e sua anlise alm dasquestes de racionalidade, tais como o papel das eleies, das burocracias,dos partidos e dos grupos de interesse. Easton (1965) contribuiu para a rea ao definir a poltica pblica comoum sistema, ou seja, como uma relao entre formulao, resultados e oambiente. Segundo Easton, polticas pblicas recebem inputs dos partidos, damdia e dos grupos de interesse, que influenciam seus resultados e efeitos.O que so polticas pblicas No existe uma nica, nem melhor, definio sobre o que seja polti-ca pblica. Mead (1995) a define como um campo dentro do estudo dapoltica que analisa o governo luz de grandes questes pblicas e Lynn(1980), como um conjunto de aes do governo que iro produzir efeitosespecficos. Peters (1986) segue o mesmo veio: poltica pblica a somadas atividades dos governos, que agem diretamente ou atravs de delega-o, e que influenciam a vida dos cidados. Dye (1984) sintetiza a defini-o de poltica pblica como o que o governo escolhe fazer ou no fa-zer.3 A definio mais conhecida continua sendo a de Laswell, ou seja,decises e anlises sobre poltica pblica implicam responder s seguintesquestes: quem ganha o qu, por qu e que diferena faz.3 H mais de 40 anos atrs, Bachrach e Baratz (1962) mostraram que no fazer nada em relao a um problema tambm uma forma de poltica pblica.
  • 6. SOCIOLOGIAS 25 Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45 Outras definies enfatizam o papel da poltica pblica na soluo deproblemas. Crticos dessas definies, que superestimam aspectos racio-nais e procedimentais das polticas pblicas, argumentam que elas ignorama essncia da poltica pblica, isto , o embate em torno de idias e interes-ses. Pode-se tambm acrescentar que, por concentrarem o foco no papeldos governos, essas definies deixam de lado o seu aspecto conflituoso eos limites que cercam as decises dos governos. Deixam tambm de forapossibilidades de cooperao que podem ocorrer entre os governos e ou-tras instituies e grupos sociais. No entanto definies de polticas pblicas, mesmo as minimalistas,guiam o nosso olhar para o locus onde os embates em torno de interesses,preferncias e idias se desenvolvem, isto , os governos. Apesar de optarpor abordagens diferentes, as definies de polticas pblicas assumem,em geral, uma viso holstica do tema, uma perspectiva de que o todo mais importante do que a soma das partes e que indivduos, instituies,interaes, ideologia e interesses contam, mesmo que existam diferenassobre a importncia relativa destes fatores. Assim, do ponto de vista terico-conceitual, a poltica pblica emgeral e a poltica social em particular so campos multidisciplinares, e seufoco est nas explicaes sobre a natureza da poltica pblica e seus proces-sos. Por isso, uma teoria geral da poltica pblica implica a busca de sinteti-zar teorias construdas no campo da sociologia, da cincia poltica e daeconomia. As polticas pblicas repercutem na economia e nas sociedades,da por que qualquer teoria da poltica pblica precisa tambm explicar asinter-relaes entre Estado, poltica, economia e sociedade. Tal tambma razo pela qual pesquisadores de tantas disciplinas economia, cinciapoltica, sociologia, antropologia, geografia, planejamento, gesto e cin-cias sociais aplicadas partilham um interesse comum na rea e tmcontribudo para avanos tericos e empricos.
  • 7. 26 SOCIOLOGIAS Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45 Pode-se, ento, resumir poltica pblica como o campo do conheci-mento que busca, ao mesmo tempo, colocar o governo em ao e/ouanalisar essa ao (varivel independente) e, quando necessrio, propormudanas no rumo ou curso dessas aes (varivel dependente). A formu-lao de polticas pblicas constitui-se no estgio em que os governos de-mocrticos traduzem seus propsitos e plataformas eleitorais em programase aes que produziro resultados ou mudanas no mundo real. Se admitirmos que a poltica pblica um campo holstico, isto , umarea que situa diversas unidades em totalidades organizadas, isso tem duasimplicaes. A primeira que, como referido acima, a rea torna-se territriode vrias disciplinas, teorias e modelos analticos. Assim, apesar de possuirsuas prprias modelagens, teorias e mtodos, a poltica pblica, embora sejaformalmente um ramo da cincia poltica, a ela no se resume, podendotambm ser objeto analtico de outras reas do conhecimento, inclusive daeconometria, j bastante influente em uma das subreas da poltica pblica,a da avaliao, que tambm vem recebendo influncia de tcnicas quantita-tivas. A segunda que o carter holstico da rea no significa que ela careade coerncia terica e metodolgica, mas sim que ela comporta vrios olha-res. Por ltimo, polticas pblicas, aps desenhadas e formuladas, desdo-bram-se em planos, programas, projetos, bases de dados ou sistema de infor-mao e pesquisas.4 Quando postas em ao, so implementadas, ficandoda submetidas a sistemas de acompanhamento e avaliao.O papel dos governos Debates sobre polticas pblicas implicam responder questo sobreo espao que cabe aos governos na definio e implementao de polticaspblicas. No se defende aqui que o Estado (ou os governos que decidem4 Muitas vezes, a poltica pblica tambm requer a aprovao de nova legislao.
  • 8. SOCIOLOGIAS 27 Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45e implementam polticas pblicas ou outras instituies que participam doprocesso decisrio) reflete to-somente as presses dos grupos de interes-se, como diria a verso mais simplificada do pluralismo. Tambm no sedefende que o Estado opta sempre por polticas definidas exclusivamentepor aqueles que esto no poder, como nas verses tambm simplificadasdo elitismo, nem que servem apenas aos interesses de determinadas clas-ses sociais, como diriam as concepes estruturalistas e funcionalistas doEstado. No processo de definio de polticas pblicas, sociedades e Esta-dos complexos como os constitudos no mundo moderno esto mais prxi-mos da perspectiva terica daqueles que defendem que existe uma auto-nomia relativa do Estado, o que faz com que o mesmo tenha um espaoprprio de atuao, embora permevel a influncias externas e internas(Evans, Rueschmeyer e Skocpol, 1985). Essa autonomia relativa gera deter-minadas capacidades, as quais, por sua vez, criam as condies para aimplementao de objetivos de polticas pblicas. A margem dessa auto-nomia e o desenvolvimento dessas capacidades dependem, obviamen-te, de muitos fatores e dos diferentes momentos histricos de cada pas. Apesar do reconhecimento de que outros segmentos que no os go-vernos se envolvem na formulao de polticas pblicas, tais como os gru-pos de interesse e os movimentos sociais, cada qual com maior ou menorinfluncia a depender do tipo de poltica formulada e das coalizes queintegram o governo, e apesar de uma certa literatura argumentar que opapel dos governos tem sido encolhido por fenmenos como a globalizao,a diminuio da capacidade dos governos de intervir, formular polticas p-blicas e de governar no est empiricamente comprovada. Vises menosideologizadas defendem que, apesar da existncia de limitaes e cons-trangimentos, estes no inibem a capacidade das instituies governamen-tais de governar a sociedade (Peters, 1998: 409), apesar de tornar a ativi-dade de governar e de formular polticas pblicas mais complexa.
  • 9. 28 SOCIOLOGIAS Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45Modelos de formulao e anlise de polticas pblicas5 Dentro do campo especfico da poltica pblica, alguns modelosexplicativos foram desenvolvidos para se entender melhor como e por queo governo faz ou deixa de fazer alguma ao que repercutir na vida doscidados. Muitos foram os modelos desenvolvidos e aqui sero mapeadosapenas os principais.O tipo da poltica pblica Theodor Lowi (1964; 1972) desenvolveu a talvez mais conhecidatipologia sobre poltica pblica, elaborada atravs de uma mxima: a polti-ca pblica faz a poltica. Com essa mxima Lowi quis dizer que cada tipo depoltica pblica vai encontrar diferentes formas de apoio e de rejeio eque disputas em torno de sua deciso passam por arenas diferenciadas.Para Lowi, a poltica pblica pode assumir quatro formatos. O primeiro odas polticas distributivas, decises tomadas pelo governo, que desconsiderama questo dos recursos limitados, gerando impactos mais individuais do queuniversais, ao privilegiar certos grupos sociais ou regies, em detrimento dotodo. O segundo o das polticas regulatrias, que so mais visveis aopblico, envolvendo burocracia, polticos e grupos de interesse. O terceiro o das polticas redistributivas, que atinge maior nmero de pessoas eimpe perdas concretas e no curto prazo para certos grupos sociais, e gan-hos incertos e futuro para outros; so, em geral, as polticas sociais univer-sais, o sistema tributrio, o sistema previdencirio e so as de mais difcilencaminhamento. O quarto o das polticas constitutivas, que lidam comprocedimentos. Cada uma dessas polticas pblicas vai gerar pontos ou gru-pos de vetos e de apoios diferentes, processando-se, portanto, dentro dosistema poltico de forma tambm diferente.5 Para maiores detalhes sobre diversos modelos analticos, ver Goodin e Klingemann (1998), em especial o captulo 7, Parsons(1997), Sabatier (1999) e Theodoulou e Cahn (1995). Vrios sites disponibilizam estudos empricos sobre polticas pblicas, comdestaque para http:// www.policylibrary.com.
  • 10. SOCIOLOGIAS 29 Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45Incrementalismo A viso da poltica pblica como um processo incremental foi desen-volvida por Lindblom (1979), Caiden e Wildavsky (1980) e Wildavisky (1992).Baseados em pesquisas empricas, os autores argumentaram que os recur-sos governamentais para um programa, rgo ou uma dada poltica pblicano partem do zero e sim, de decises marginais e incrementais quedesconsideram mudanas polticas ou mudanas substantivas nos progra-mas pblicos. Assim, as decises dos governos seriam apenas incrementaise pouco substantivas. A viso incrementalista da poltica pblica perdeuparte do seu poder explicativo com as profundas reformas ocorridas emvrios pases, provocadas pelo ajuste fiscal. No entanto os que trabalhamnos governos e os que pesquisam os oramentos pblicos conhecem bema fora do incrementalismo, que mantm intactos estruturas governamen-tais e recursos para polticas pblicas que deixaram de estar na agenda dosgovernos. Mas do incrementalismo que vem a viso de que decisestomadas no passado constrangem decises futuras e limitam a capacidadedos governos de adotar novas polticas pblicas ou de reverter a rota daspolticas atuais.O ciclo da poltica pblica Esta tipologia v a poltica pblica como um ciclo deliberativo, forma-do por vrios estgios e constituindo um processo dinmico e de aprendiza-do. O ciclo da poltica pblica constitudo dos seguintes estgios: defini-o de agenda, identificao de alternativas, avaliao das opes, seleodas opes, implementao e avaliao. Esta abordagem enfatiza sobremodo a definio de agenda (agendasetting) e pergunta por que algumas questes entram na agenda poltica,enquanto outras so ignoradas. Algumas vertentes do ciclo da poltica pbli-ca focalizam mais os participantes do processo decisrio, e outras, o pro-
  • 11. 30 SOCIOLOGIAS Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45cesso de formulao da poltica pblica. Cada participante e cada processopodem atuar como um incentivo ou como um ponto de veto. perguntade como os governos definem suas agendas, so dados trs tipos de respos-tas. A primeira focaliza os problemas, isto , problemas entram na agendaquando assumimos que devemos fazer algo sobre eles. O reconhecimentoe a definio dos problemas afeta os resultados da agenda. A segunda res-posta focaliza a poltica propriamente dita, ou seja, como se constri aconscincia coletiva sobre a necessidade de se enfrentar um dado proble-ma. Essa construo se daria via processo eleitoral, via mudanas nos parti-dos que governam ou via mudanas nas ideologias (ou na forma de ver omundo), aliados fora ou fraqueza dos grupos de interesse. Segundoesta viso, a construo de uma conscincia coletiva sobre determinadoproblema fator poderoso e determinante na definio da agenda. Quandoo ponto de partida da poltica pblica dado pela poltica, o consenso construdo mais por barganha do que por persuaso, ao passo que, quando oponto de partida da poltica pblica encontra-se no problema a ser enfrenta-do, d-se o processo contrrio, ou seja, a persuaso a forma para a constru-o do consenso. A terceira resposta focaliza os participantes, que so classi-ficados como visveis, ou seja, polticos, mdia, partidos, grupos de presso,etc. e invisveis, tais como acadmicos e burocracia. Segundo esta perspecti-va, os participantes visveis definem a agenda e os invisveis, as alternativas.O modelo garbage can O modelo garbage can ou lata de lixo foi desenvolvido por Cohen,March e Olsen (1972), argumentando que escolhas de polticas pblicasso feitas como se as alternativas estivessem em uma lata de lixo. Ouseja, existem vrios problemas e poucas solues. As solues no seriamdetidamente analisadas e dependeriam do leque de solues que osdecisores (policy makers) tm no momento. Segundo este modelo, as orga-nizaes so formas anrquicas que compem um conjunto de idias com
  • 12. SOCIOLOGIAS 31 Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45pouca consistncia. As organizaes constroem as preferncias para a solu-o dos problemas - ao - e no, as preferncias constroem a ao. Acompreenso do problema e das solues limitada, e as organizaesoperam em um sistema de tentativa e erro. Em sntese, o modelo advogaque solues procuram por problemas. As escolhas compem um garbagecan no qual vrios tipos de problemas e solues so colocados pelos parti-cipantes medida que eles aparecem. Esta abordagem foi aplicada porKingdon (1984), combinando tambm elementos do ciclo da poltica pbli-ca, em especial a fase de definio de agenda (agenda setting), constituin-do o que se classifica como um outro modelo, o de multiple streams, oumltiplas correntes. 6Coalizo de defesa O modelo da coalizo de defesa (advocacy coalition), de Sabatier eJenkins-Smith (1993), discorda da viso da poltica pblica trazida pelo cicloda poltica e pelo garbage can por sua escassa capacidade explicativa sobrepor que mudanas ocorrem nas polticas pblicas. Segundo estes autores, apoltica pblica deveria ser concebida como um conjunto de subsistemasrelativamente estveis, que se articulam com os acontecimentos externos,os quais do os parmetros para os constrangimentos e os recursos de cadapoltica pblica. Contrariando o modelo do garbage can, Sabatier e Jenkins-Smith defendem que crenas, valores e idias so importantes dimensesdo processo de formulao de polticas pblicas, em geral ignorados pelosmodelos anteriores. Assim, cada subsistema que integra uma poltica pbli-ca composto por um nmero de coalizes de defesa que se distinguempelos seus valores, crenas e idias e pelos recursos de que dispem.76 O modelo analtico de Kingdon foi recentemente testado no Brasil em algumas teses de doutorado. Ver, por exemplo, Capella(2005) e Pinto (2004).7 Este modelo foi aplicado por Bueno (2005).
  • 13. 32 SOCIOLOGIAS Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45Arenas sociais O modelo de arenas sociais v a poltica pblica como uma iniciativados chamados empreendedores polticos ou de polticas pblicas. Isto por-que, para que uma determinada circunstncia ou evento se transforme emum problema, preciso que as pessoas se convenam de que algo precisaser feito. quando os policy makers do governo passam a prestar atenoem algumas questes e a ignorar outras. Existiriam trs principais mecanis-mos para chamar a ateno dos decisores e formuladores de polticas pbli-cas: (a) divulgao de indicadores que desnudam a dimenso do problema;(b) eventos tais como desastres ou repetio continuada do mesmo proble-ma; e (c) feedback, ou informaes que mostram as falhas da poltica atualou seus resultados medocres. Esses empreendedores constituem a policycommunity, comunidade de especialistas, pessoas que esto dispostas a in-vestir recursos variados esperando um retorno futuro, dado por uma polticapblica que favorea suas demandas. Eles so cruciais para a sobrevivncia eo sucesso de uma idia e para colocar o problema na agenda pblica. Esses empreendedores podem constituir, e em geral constituem, re-des sociais.8 Redes envolvem contatos, vnculos e conexes que relacio-nam os agentes entre si e no se reduzem s propriedades dos agentesindividuais. As instituies, a estrutura social e as caractersticas de indivduose grupos so cristalizaes dos movimentos, trocas e encontros entre asentidades nas mltiplas e intercambiantes redes que se ligam ou que sesuperpem. O foco est no conjunto de relaes, vnculos e trocas entreentidades e indivduos e no, nas suas caractersticas. Este mtodo ereferencial terico partem do estudo de situaes concretas para investigara integrao entre as estruturas presentes e as aes, estratgias, constran-gimentos, identidades e valores. As redes constrangem as aes e as estra-8 A literatura internacional sobre redes sociais ampla e diversificada. Para uma reviso dessa literatura em portugus, verMarques (2000).
  • 14. SOCIOLOGIAS 33 Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45tgias, mas tambm as constroem e reconstroem continuamente. A foradeste modelo est na possibilidade de investigao dos padres das rela-es entre indivduos e grupos.9Modelo do equilbrio interrompido O modelo do equilbrio interrompido (punctuated equilibium) foielaborado por Baumgartner e Jones (1993), baseado em noes de biologiae computao. Da biologia veio a noo de equilbrio interrompido, isto, a poltica pblica se caracteriza por longos perodos de estabilidade, in-terrompidos por perodos de instabilidade que geram mudanas nas polti-cas anteriores. Da computao e dos trabalhos de Simon, vem a noo deque os seres humanos tm capacidade limitada de processar informao,da por que as questes se processam paralelamente e no, de forma serial,ou seja, uma de cada vez. Os subsistemas de uma poltica pblica permi-tem ao sistema poltico-decisrio processar as questes de forma paralela,ou seja, fazendo mudanas a partir da experincia de implementao e deavaliao, e somente em perodos de instabilidade ocorre uma mudanaserial mais profunda. Este modelo, segundo os autores, permite entenderpor que um sistema poltico pode agir tanto de forma incremental, isto ,mantendo o status quo, como passar por fases de mudanas mais radicaisnas polticas pblicas. Fundamental ao modelo a construo de uma ima-gem sobre determinada deciso ou poltica pblica (policy image), e a mdiateria papel preponderante nessa construo.109 Marques (2000) analisa a formulao de polticas na rea de saneamento bsico na Regio Metropolitana do Rio de Janeiro,atravs do modelo das redes sociais. Sua pesquisa mostra que, ao contrrio do padro norte-americano de lobbies ou docorporativismo socialdemocrata europeu, a intermediao de interesses ocorre aqui de forma disseminada por inmeros ediversos contatos pessoais entre os integrantes do governo e os interesses privados, intermediada por uma policy community.Tambm o papel desempenhado por um grupo de mdicos sanitaristas que se organizou em torno da reforma do sistema desade pblica no Brasil, no sentido da sua universalizao e descentralizao, um bom exemplo das possibilidades explicativasdesse modelo.10 Pesquisa realizada por Fucks (1998) testa esse modelo analisando a insero da temtica ambiental no Rio de Janeiro.
  • 15. 34 SOCIOLOGIAS Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45Modelos influenciados pelo novo gerencialismo pblicoe pelo ajuste fiscal A partir da influncia do que se convencionou chamar de novogerencialismo pblico e da poltica fiscal restritiva de gasto, adotada porvrios governos, novos formatos foram introduzidos nas polticas pblicas,todos voltados para a busca de eficincia. Assim, a eficincia passou a servista como o principal objetivo de qualquer poltica pblica, aliada impor-tncia do fator credibilidade e delegao das polticas pblicas para insti-tuies com independncia poltica. Estes novos formatos, que guiamhoje o desenho das polticas pblicas mais recentes, ainda so pouco incor-porados nas pesquisas empricas. A nfase na eficincia nasceu da premissa de que as polticas pblicase suas instituies estavam fortemente influenciadas por vises redistributivasou distributivas, na linguagem de Lowi, desprezando-se a questo da suaeficincia. As razes para tal reconhecimento esto na crise fiscal e ideol-gica do Estado, aliadas ao declnio do sonho pluralista que caracterizou aviso norte-americana sobre polticas pblicas em dcadas passadas.11 Oprimeiro grande ataque s possibilidades das aes coletivas e no qual deci-ses sobre polticas pblicas podem ser situadas, veio de Olson (1965), aoafirmar que interesses comuns, os quais, em princpio, guiariam o processodecisrio que afetam os indivduos, no resultam necessariamente em aocoletiva e sim em free riding, pois os interesses de poucos tm mais chancesde se organizarem do que os interesses difusos de muitos. Existe, segundoOlson, um interesse pblico que no a soma dos interesses dos grupos.Assim, a boa poltica pblica no poderia resultar da disputa entre grupos,mas de uma anlise racional. Como conseqncia, embora indireta, doinfluente trabalho de Olson, passou-se a enfatizar a questo da eficincia/11 Na verso mais idealizada do pluralismo, a poltica pblica resultaria do equilbrio alcanado na luta entre grupos de interesseconcorrentes.
  • 16. SOCIOLOGIAS 35 Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45racionalidade das polticas pblicas, que seria alcanada por novas polticasvoltadas, por exemplo, para a desregulamentao, privatizao e para refor-mas no sistema social, as quais, afirma-se, poderiam diminuiriam os riscosda ao coletiva. O elemento credibilidade das polticas pblicas tambm ganhou im-portncia, ou seja, a prevalncia de regras pr-anunciadas seria mais eficientedo que o poder discricionrio de polticos e burocratas, contido nas polticaspblicas. O fator credibilidade passou a ser fundamental para polticas comoa monetria, mas tambm influenciou o novo desenho das polticas pbli-cas em vrias outras reas. A credibilidade baseia-se na existncia de regrasclaras em contraposio discricionariedade dos decisores pblicos e buro-cratas, a qual levaria inconsistncia. Alm do mais, a discricionariedadegera altos custos de transao. Assim, a discricionariedade, de acordo comesta viso, seria minimizada ou eliminada, delegando poder a instituiesbem desenhadas e independentes do jogo poltico e fora da influnciados ciclos eleitorais. A delegao para rgos independentes nacionais, mas tambminternacionais, passou a ser outro elemento importante no desenho daspolticas pblicas. Mas por que os polticos (governantes e parlamentares)abririam mo do seu poder? A resposta estaria na credibilidade desses r-gos independentes devido experincia tcnica de seus membros epara que as regras no fossem, aqui tambm, submetidas s incertezas dosciclos eleitorais, mantendo sua continuidade e coerncia.12 Concorrendo com a influncia do novo gerencialismo pblico naspolticas pblicas, existe uma tentativa, em vrios pases do mundo emdesenvolvimento, de implementar polticas pblicas de carter participativo.Impulsionadas, por um lado, pelas propostas dos organismos multilaterais e,12 Exemplos da influncia desta nova viso sobre as polticas pblicas j so abundantes, destacando-se a relevncia assumidapela OMC - Organizao Mundial do Comrcio - e pelas ONGs, assim como a defesa de mandato por tempo determinado paraos diretores das agncias de regulao e a defesa da independncia operacional ou autonomia dos Bancos centrais.
  • 17. 36 SOCIOLOGIAS Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45por outro, por mandamentos constitucionais e pelos compromissos assumi-dos por alguns partidos polticos, vrias experincias foram implementadasvisando insero de grupos sociais e/ou de interesses na formulao eacompanhamento de polticas pblicas, principalmente nas polticas so-ciais. No Brasil, so exemplos dessa tentativa os diversos conselhos comu-nitrios voltados para as polticas sociais, assim como o OramentoParticipativo. Fruns decisrios como conselhos comunitrios e OramentoParticipativo seriam os equivalentes polticos da eficincia. Apesar da aceitao de vrias teses do novo gerencialismo pblicoe da experimentao de delegao de poder para grupos sociais comunit-rios e/ou que representam grupos de interesse, os governos continuamtomando decises sobre situaes-problema e desenhando polticas paraenfrent-las, mesmo que delegando parte de sua responsabilidade, princi-palmente a de implementao, para outras instncias, inclusive no-gover-namentais. Das diversas definies e modelos sobre polticas pblicas, podemosextrair e sintetizar seus elementos principais: A poltica pblica permite distinguir entre o que o governo pretende fazer e o que, de fato, faz. A poltica pblica envolve vrios atores e nveis de deciso, embora seja materializada atravs dos governos, e no necessariamente se restringe a participantes formais, j que os informais so tambm importantes. A poltica pblica abrangente e no se limita a leis e regras. A poltica pblica uma ao intencional, com objetivos a serem alcanados. A poltica pblica, embora tenha impactos no curto prazo, uma poltica de longo prazo.
  • 18. SOCIOLOGIAS 37 Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45 A poltica pblica envolve processos subseqentes aps sua deciso e proposio, ou seja, implica tambm implementao, execuo e avaliao.O papel das instituies/regras na deciso e formulaode polticas pblicas No s a produo desenvolvida dentro da moldura terica especficada poltica pblica utilizada nos seus estudos. O debate sobre polticaspblicas tambm tem sido influenciado pelas premissas advindas de outroscampos tericos, em especial do chamado neo-institucionalismo, que enfatizaa importncia crucial das instituies/regras para a deciso, formulao eimplementao de polticas pblicas. Uma grande contribuio a esse debate foi dada pela teoria da esco-lha racional pelo questionamento de dois mitos. O primeiro o de que,conforme mencionado acima, interesses individuais agregados gerariam aocoletiva (Olson, 1965). O segundo o de que a ao coletiva produz ne-cessariamente bens coletivos (Arrow, 1951). Definies sobre polticas p-blicas so, em uma democracia, questes de ao coletiva e de distribuiode bens coletivos e, na formulao da escolha racional, requerem o dese-nho de incentivos seletivos, na expresso de Olson, para diminuir sua cap-tura por grupos ou interesses personalistas.13 Outros ramos da teoria neo-institucionalista, como o institucionalismohistrico e o estruturalista, tambm contribuem para o debate sobre o pa-pel das instituies na modelagem das preferncias dos decisores. Paraestas variantes do neo-institucionalismo, as instituies moldam as defini-es dos decisores, mas a ao racional daqueles que decidem no se13 Para uma reviso dessa literatura, ver, entre outros, Levi (1997), e para uma discusso da aplicao de tipologias na anlisede polticas pblicas tomando como referncia a teoria da escolha racional, ver, entre outros, Ostrom (1999).
  • 19. 38 SOCIOLOGIAS Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45restringe apenas ao atendimento dos seus auto-interesses. A ao racionaltambm depende das percepes subjetivas sobre alternativas, suas conse-qncias e avaliaes dos seus possveis resultados. Sem negar a existnciado clculo racional e auto-interessado dos decisores, esses ramos do neo-institucionalismo afirmam que o clculo estratgico dos decisores ocorredentro de uma concepo mais ampla das regras, papis, identidades eidias.14 Portanto, a viso mais comum da teoria da escolha pblica, de queo processo decisrio sobre polticas pblicas resulta apenas de barganhasnegociadas entre indivduos que perseguem seu auto-interesse, contesta-da pela viso de que interesses (ou preferncias) so mobilizados no s peloauto-interesse, mas tambm por processos institucionais de socializao, pornovas idias e por processos gerados pela histria de cada pas. Os decisoresagem e se organizam de acordo com regras e prticas socialmente construdas,conhecidas antecipadamente e aceitas (March e Olsen, 1995: 28-29). Taisvises sobre o processo poltico so fundamentais para entendermos melhoras mudanas nas polticas pblicas em situaes de relativa estabilidade. J a teoria da escolha pblica adota um vis normativamente cticoquanto capacidade dos governos de formularem polticas pblicas devidoa situaes como auto-interesse, informao incompleta, racionalidade li-mitada e captura das agncias governamentais por interesses particularistas.Essa teoria , provavelmente, a que demonstra mais mal-estar e desconfian-a na capacidade dos mecanismos polticos de deciso, defendendo a su-perioridade das decises tomadas pelo mercado vis--vis as tomadas pelospolticos e pela burocracia. Aprofundando um pouco mais as contribuies do chamado neo-institucionalismo para a rea de polticas pblicas, sabemos que, de acordocom os vrios ramos desta teoria, instituies so regras formais e informais14 O institucionalismo histrico vem dedicando espao cada vez maior importncia das idias na formulao de polticaspblicas, em especial nas suas mudanas. Para uma anlise da introduo, na Gr-Bretanha, das idias monetaristas emsubstituio s keynesianas, ver Hall (1998).
  • 20. SOCIOLOGIAS 39 Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45que moldam o comportamento dos atores. Como as instituies influenciamos resultados das polticas pblicas e qual a importncia das variveisinstitucionais para explicar resultados de polticas pblicas? A resposta estna presuno de que as instituies tornam o curso de certas polticas maisfceis do que outras. Ademais, as instituies e suas regras redefinem asalternativas polticas e mudam a posio relativa dos atores. Em geral, insti-tuies so associadas a inrcia, mas muita poltica pblica formulada eimplementada. Assim, o que a teoria neo-institucionalista nos ilumina noentendimento de que no so s os indivduos ou grupos que tm forarelevante influenciam as polticas pblicas, mas tambm as regras formais einformais que regem as instituies. A contribuio do neo-institucionalismo importante porque a lutapelo poder e por recursos entre grupos sociais o cerne da formulao depolticas pblicas. Essa luta mediada por instituies polticas e econmi-cas que levam as polticas pblicas para certa direo e privilegiam algunsgrupos em detrimento de outros, embora as instituies sozinhas no fa-am todos os papis - h tambm interesses, como nos diz a teoria daescolha racional, idias, como enfatizam o institucionalismo histrico e oestrutural, e a histria, como afirma o institucionalismo histrico. A despeito das contribuies das diversas vertentes da teoria neo-institucionalista para a anlise de polticas pblicas, preciso lembrar que,como ocorre com qualquer referencial terico, preciso ter clareza sobrequando e como utiliz-lo. Isso porque, como j argumentado anteriormen-te (Souza, 2003), analisar polticas pblicas significa, muitas vezes, estudaro governo em ao, razo pela qual nem sempre os pressupostos neo-institucionalistas se adaptam a essa anlise. Ademais, os procedimentosmetodolgicos construdos pelas diversas vertentes neo-institucionalistas,em especial a da escola racional, so marcados pela simplicidade analtica e
  • 21. 40 SOCIOLOGIAS Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45pela elegncia, no sentido que a matemtica d a essa palavra, e pelaparcimnia, o que nem sempre aplicvel anlise de polticas pblicas.15Consideraes finais Este trabalho buscou trazer para o debate acadmico uma resenha daliteratura (ou das literaturas) sobre um campo do conhecimento que buscaintegrar quatro elementos: a prpria poltica pblica, a poltica (politics), asociedade poltica (polity) e as instituies onde as polticas pblicas sodecididas, desenhadas e implementadas. Disso pode-se concluir que o prin-cipal foco analtico da poltica pblica est na identificao do tipo de pro-blema que a poltica pblica visa corrigir, na chegada desse problema aosistema poltico (politics) e sociedade poltica (polity), e nas instituies/regras que iro modelar a deciso e a implementao da poltica pblica. O entendimento dos modelos e das teorias acima resumidos podepermitir ao analista melhor compreender o problema para o qual a polticapblica foi desenhada, seus possveis conflitos, a trajetria seguida e o pa-pel dos indivduos, grupos e instituies que esto envolvidos na deciso eque sero afetados pela poltica pblica.RefernciasARROW, Kenneth. Social Choice and Individual Values. New Haven: Yale UniversityPress. 1951.BACHRACHB, P e BARATZ, M. S. Two Faces of Power, American Science Review .56: 947-952. 1962.15 Sobre os problemas e as possibilidades tericas e empricas da pesquisa em polticas pblicas no Brasil, ver Faria (2003),Figueiredo e Figueiredo (1986), Melo (1999), Reis (2003) e Souza (2003).
  • 22. SOCIOLOGIAS 41 Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45BAUGARTNER, Frank e JONES, Bryan. Agendas and Instability in American Politics.Chicago: University of Chicago Press. 1993BUENO, Luciano. A Aplicao da Advocacy Coalition Framework (ACF) na An-lise da Evoluo da Poltica Pblica de Controle de Armas no Brasil. Trabalhoapresentado no GT Polticas Pblicas do XXIX Encontro Anual da ANPOCS, 25-29 de outubro, Caxambu: MG. 2005.CAPELLA, Cludia Niedhardt. Formao da Agenda Governamental: Perspecti-vas Tericas. Trabalho apresentado no GT Polticas Pblicas do XXIX EncontroAnual da ANPOCS, 25-29 de outubro, Caxambu: MG. 2005CAIDEN, N. e WILDAVISKY, A. Planning and Budgeting in Developing Countries.New York: John Wiley. 1980.COHEN, Michael, MARCH, James e OLSEN, Johan. A Garbage Can Model ofOrganizational Choice, Administrative Science Quarterley 17: 1-25. 1972.DYE, Thomas D. Understanding Public Policy. Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall. 1984.EASTONE, D. A Framework for Political Analysis. Englewood Cliffs: Prentice Hall.1965.EVANS, Peter, RUESCHEMEYER, D. e SKOCPOL, Theda. Bringing the State BackIn. Cambridge: Cambridge University Press. 1985.FARIA, Carlos Aurlio Pimenta. Idias, Conhecimento e Polticas Pblicas: UmInventrio Sucinto das Principais Vertentes Analticas Recentes, Revista Brasileirade Cincias Sociais 18 (51): 21-30. 2003.FIGUEIREDO, Marcus e FIGUEIREDO, Argelina C. Avaliao Poltica e Avaliaode Polticas: Um Quadro de Referncia Terica, Revista Fundao Joo Pinhei-ro: 108-129. 1986.FUCKS, Mario. Arenas de Ao e Debate Pblicos: Conflitos Ambientais e a Emer-gncia do Meio Ambiente Enquanto Problema Social no Rio de Janeiro, Dados41 (1): 230-245. 1998.GOODIN, R. e KLINGEMANN, H-D. (eds.). New Handbook of Political Science.Oxford: Oxford University Press. 1998.
  • 23. 42 SOCIOLOGIAS Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45HALL, Peter (1998) The Movement from Keynsianism to Monetarism: InstitutionalAnalysis and British Economic Policy in the 1970s, In STEIMO, S., THELEN, K. eLONGSTRETH, F. (eds.) Structuring Politics: Historial Institutionalism inComparative Perspective, pp. 90-113. Cambridge: Cambridge University Press.1998.KINGDON, John. Agendas, Alternatives, and Public Policies. Boston: Little, Brown.1984LASWELLLaswell, H.D. Politics: Who Gets What, When, How. Cleveland, MeridianBooks. 1936/1958.LEVI, Margaret. A Model, a Method, and a Map: Rational Choice in Comparativeand Historical Analysis, In: LICHBACH, M. e ZUCKERMAN, A. (eds.) ComparativePolitics: Rationality, Culture, and Structure, pp. 19-41. Cambridge: CambridgeUniversity Press. 1997.LINDBLOM, Charles E. The Science of Muddling Through, Public AdministrationReview 19: 78-88. 1959.LINDBLOM, Charles E. Still Muddling, Not Yet Through, Public AdministationReview 39: 517-526. 1979.LOWI, Theodor. American Business, Public Policy, Case Studies and PoliticalTheory, World Politics, 16: 677-715. 1964LOWI, Theodor. Four Systems of Policy, Politics, and Choice. PublicAdministration Review, 32: 298-310. 1972.LYNNLynn, L. E. Designing Public Policy: A Casebook on the Role of PolicyAnalysis. Santa Monica, Calif.: Goodyear. 1980MARCH, James G. e OLSEN Johan P Democratic Governance. New York: The .Free Press. 1995.MARQUES, Eduardo C. Estado e Redes Sociais: Permeabilidade e Coeso nasPolticas Urbanas no Rio de Janeiro. So Paulo: FAPESP; Rio de Janeiro: Revan.2000.MEAD, L. M. Public Policy: Vision, Potential, Limits, Policy Currents, Fevereiro:1-4. 1995.
  • 24. SOCIOLOGIAS 43 Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45MELO, Marcus Andr. Estado, Governo e Polticas Pblicas. In: MICELI, S. (org.).O que Ler na Cincia Social Brasileira (1970-1995): Cincia Poltica. So Paulo/Braslia: Sumar/Capes. 1999.OLSON, Mancur. The Logic of Collective Action. Cambridge, Mass.: HarvardUniversity Press. 1965.OSTROM, Elinor. An Assessment of the Institutional Analysis and DevelopmentFramework. In: SABATIER, Paul (ed.). Theories of the Policy Process. Boulder:Westview Press. 1999.PARSONS, Wayne. Public Policy: An Introduction to the Theory and Practice ofPolicy Analysis. Cheltenham: Edward Elgar. 1997.PETERS, B. G. American Public Policy. Chatham, N.J.: Chatham House. 1986.PETERS, B. G. The Politics of Bureaucracy. White Plains: Longman Publishers.1995.PETERS, B. G. Review: Understanding Governance: Policy Networks,Governance, Reflexivity and Accountability by R. W. Rhodes, PublicAdministration 76: 408-509. 1998.PINTO, Isabela Cardoso de Matos. Ascenso e Queda de uma Questo na Agen-da Governamental: O Caso das Organizaes Sociais da Sade na Bahia. Tesede Doutorado em Administrao do Ncleo de Ps-Graduao em Administra-o da UFBA. 2004.REIS, Elisa. Reflexes Leigas para a Formulao de uma Agenda de Pesquisa emPolticas Pblicas, Revista Brasileira de Cincias Sociais 18 (51): 21-30. 2003.SABATIER, Paul (ed.). Theories of the Policy Process. Westview: Westview Press.1999.SABATIER, Paul e JENKINS-SMITH, Hank. Policy Change and Learning: TheAdvocacy Coalition Approach. Boulder: Westview Press. 1993.SIMON, Herbert. Comportamento Administrativo. Rio de Janeiro: USAID. 1957.SOUZA, Celina. Polticas Pblicas: Questes Temticas e de Pesquisa, CadernoCRH 39: 11-24. 2003.
  • 25. 44 SOCIOLOGIAS Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45THEODOULOU, S. e CAHN, M. Public Policy: The Essential Readings. NewJersey: California State University. 1995.WILDAVSKY, Aaron. The Policy of Budgetary Process. Boston: Little and Brown,2 edio. 1992.
  • 26. SOCIOLOGIAS 45 Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 20-45Resumo O artigo apresenta uma reviso dos principais conceitos e modelos de for-mulao e anlise de polticas pblicas, buscando sintetizar o estado-da-arte darea, ou seja, mapear como a literatura clssica e a mais recente tratam o tema. Oartigo busca, tambm, discutir as possibilidades aplicativas das diferentes vertentesdas teorias neo-institucionalistas anlise de polticas pblicas.Palavras-chave: polticas pblicas, modelos de formulao e anlise de polticaspblicas, teorias Neo-Institucionalistas. Recebido: 15/05/06 Aceite final: 18/07/06
  • 27. 368 SOCIOLOGIAS ABSTRACTS Sociologias, Porto Alegre, ano 8, n 16, jul/dez 2006, p. 368-375Public Policies: a Literature Review Celina Souza The article presents a review of the main concepts and models for makingand assessment of public policies, seeking to synthesize the state of the art in thefield, that is, to map how classic and more recent literature approach the subject.The article also seeks to discuss possibilities for application of distinct streams ofneo-institutionalist theories to the assessment of public policies.Key words: Public policies, Models for Making and Assessment of Public Policies,Neo-Institutionalist Theories.