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Como Formar um Como Formar um Como Formar um Como Formar um Coral de Sucesso Coral de Sucesso Coral de Sucesso Coral de Sucesso Um Manual Prático e Intuitivo para o Leigo Um Guia Passo-a-Passo Para o Não-Iniciado na Notação Musical Iniciar um Coral Bem-Sucedido Deco Z. Marin www.coralreligare.com.br/curriculum_deco.htm

Como Formar um Coral de SucessoCoral de Sucesso · Tessitura ou registro é extenção vocal de uma pessoa desde o seu limite grave até o seu limite agudo. Meu registro ou tessitura

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  • Como Formar umComo Formar umComo Formar umComo Formar um Coral de SucessoCoral de SucessoCoral de SucessoCoral de Sucesso

    • Um Manual Prático e Intuitivo para o Leigo • Um Guia Passo-a-Passo Para o Não-Iniciado na

    Notação Musical Iniciar um Coral Bem-Sucedido

    Deco Z. Marin www.coralreligare.com.br/curriculum_deco.htm

  • A Importância e Papel do Coral

    Participar de um coral é uma terapia para o corpo, mente e alma. É vida social de

    qualidade, é refinamento de aptidões nobres. Os estudos que demonstram uma

    relação direta entre o desenvolvimento mental e relacional nas pessoas que

    praticam música são fartos e contundentes. Todos deveriam ser introduzidos ao

    fazer música vocal ou instrumental. Além de elevar a auto-estima, torna seus

    praticantes mais sensíveis e integrados socialmente. O canto coral é a forma mais

    antiga e intuitiva de se fazer música, não possui contra-indicação e é divertido. O

    canto coral une a comunidade no sentido amplo, envolvendo não só os coralista

    uns com os outros, mas suas famílias e amigos. O canto coral musicaliza seus

    integrantes de forma envolvente, leve e eficiente.

    Definição de Termos

    Coro é uma formação vocal de pequeno porte, por volta de quinze pessoas,

    também chamado de conjunto ou grupo; e coristas são os integrantes de um coro.

    Coral é uma formação vocal de maior porte; e coralistas são os integrantes de um

    coral. Um grupo de vinte pessoas, por exemplo, pode-se chamar de pequeno

    coral. Não há convenção a esse respeito mas esses números são amplamente

    aceitos.

    Naipe é um grupo de pessoas que compõem uma das quatro vozes do coral:

    naipe das sopranos, naipe das contraltos, naipe dos tenores e naipe dos baixos.

    Essa é uma divisão padrão. Alguns acordes de algumas músicas – geralmente

    acordes finais – pode demandar uma abertura maior das vozes subdividindo os

    quatro naipes em até nove vozes: 1o soprano, soprano, mezzo-soprano, 1o

    contralo, 2o contralto, 1o tenor, 2o tenor, barítono e baixo.

  • Tessitura ou registro é extenção vocal de uma pessoa desde o seu limite grave até

    o seu limite agudo. Meu registro ou tessitura por exempl vai do fá1 ao fá3,

    lembrando que a escala de número três – do3, re3, ..., si3 – é aquela que está no

    meio do teclado de um piano, sendo as anteriores 2, 1 e 0 e as posteriores 4, 5, 6

    e 7. O mais comum é que uma pessoa tenha duas oitavas de notas aproveitáveis

    em sua tessitura. No capítulo sobre a divisão de vozes há um gráfico sobre as

    tessituras dos naipes.

    Vértice de naipe é aquela pessoa ou aquelas pessoas que lideram um naipe

    vocalmente. Deve-se identificar os vértices e atribuir-lhes responsabilidades

    desestimulando estrelismo. Um coral com muitos vértices costuma não soar bem,

    as vozes de preenchimento são tão importantes quanto os vértices.

    O Número de Integrantes

    Com quinze pessoas já se pode formar um coro, o qual deve tentar se aproximar

    da seguinte configuração: 6 sopranos, 4 contraltos, 3 tenores e 2 baixos. Quanto

    menos integrantes, maior a responsabilidade que recai sobre cada um e maior a

    necessidade de que sejam vozes já treinadas. Num coral de 100 pessoas por

    exemplo, se 10 pessoas faltarem ou errarem determinada nota, o coral terá uma

    queda de rendimento de 10% o que é tolerável. Já na configuração anterior de 15

    pessoas, o mesmo desfalque significaria um comprometimento de 75%, o que é

    intolerável.

    Um número adequado para viabilizar um coral é algo em torno de quarenta

    pessoas. Note-se que um coral com 10 sopranos, 10 contraltos, 10 tenores e 10

    baixos é um coral desequilibrado. O ideal de representatividade de cada naipe gira

    em torno de 35% de sopranos, 30% contraltos, 20% tenores e 15% baixos. O

    primeiro motivo para essa proporção está no fato de que a projeção e volume da

    voz masculina é maior que a feminina, o segundo é que as sopranos quase

  • sempre entoam o tema – ou melodia – da música, o qual necessita algo de

    destaque e o terceiro tem a ver com as propriedades de propagação do som. Sons

    agudos, à diferença dos sons graves, são mais direcionais, tem menor alcance,

    são interceptados por pequenos obstáculos e por muitos materiais.. Portanto, na

    configuração sugerida de quarenta pessoas quatorze sopranos, doze contraltos,

    oito tenores e seis baixos resulta em grande sonoridade e fácil manutenção.

    Quanto maior o coral, maior deve ser o rigor com o nível de ruído nos ensaios e

    mais dinâmico e bem ensaiados devem estar os monitores e regentes pois

    facilmente perde-se a concentração do grupo. Por outro lado, as faltas em

    apresentações e ensaios são menos sentidas, ou seja, prejudicam menos o

    desempenho e desenvolvimento do grupo. Esta é uma equação que cada regente

    e diretor deve fazer. O recomendável é não impor limite de vozes, todos os

    interessados devem ser trabalhados e os não interessados devem ser estimulados

    a tentar.

    Quem Pode Cantar? Todos. O canto coral é com freqüência a porta de entrada para a música -

    principalmente daqueles que não tem tradição musical em família - e esta porta

    não deve ser fechada para ninguém. Há alguns anos atrás quando foi-me dado

    um coral para reger, meu primeiro ato foi fazer uma seleção de vozes. Minha

    intenção era descartar os desafinados. Foi o que eu fiz, o que culminou no fim das

    atividades do coral como um todo. Errei. Hoje estou convicto de que mesmo os

    mais desafinados devem ser admitidos e trabalhados. Há uma questão

    diplomática importante aqui, o processo de ingresso ao coro deve ser chamado de

    ‘classificação de vozes’, e não seleção de vozes. O termo classificação é menos

    intimidatório. Quando o convite para ingressar no coral for estendido, não dê

    demasiada ênfase no fato de que ‘qualquer um’ pode cantar. Isso desvaloriza o

    cantar no coro. Dê sim enfase na oportunidade, na terapia, na musicalização que

    representará o fato de participar de uma iniciativa coral.

  • Uma certa sujeira harmônica é desejável num coral para encorpar o timbre ao

    mesmo tempo que a desafinação deve ser minimizada. A experiência tem me

    mostrado que mesmo o mais desafinado quando devidamente orientado logo

    identifica os sons e os reproduz com correção. A ênfase deve estar no ouvir, ouvir

    com atenção e reproduzir com suavidade. Cansei de ver regentes e monitores

    gritando impacientemente a nota no ouvido de um iniciante enquanto o melhor que

    se faz nesse caso é suavemente pedir que ele ouça com atenção. Ao gritar ou

    tocar enérgica e impacientemente o regente gera um ambiente hostil e ofensivo

    pois seus gestos sugerem que o iniciante está indo lento demais. É óbvio que

    ninguém desafina porque quer, cada um tem seu tempo de aprendizado. Insisto

    no fato de que a ênfase deve estar no ouvir, identificar as alturas, as notas, os

    sons e só depois reproduzir suavemente.

    A Musicalidade do Regente e Monitores

    Não é absolutamente indispensável que o regente saiba ler música. O mais

    importante é a sua musicalidade. Da mesma forma aqueles que o auxiliarão como

    monitores de naipe. Além de afinados e ritmados é fundamental que captem com

    agilidade qual o sentimento que determinada música ou trecho musical evoca e

    como reproduzi-lo, é o que chamamos de expressão.

    É possível ser sensível à expressão e sentimento da música sem ser afinado.

    Porém nem todo aquele que é arrebatado pelas emoções da música está apto a

    reproduzi-la. Portanto é imperativo o domínio da técnica, mesmo que intuitivo,

    para uma boa interpretação, e todo trabalho do regente se resume a isso, afinal o

    que se busca com a música é tocar a alma.

    Muitos corais e regentes passam sua existência em busca do rigor na afinação

    ignorando o fato de que o próprio timbre coral é dado, entre outros elementos,

    pela sujeira harmônica. A busca ideal é a da boa interpretação onde, claro, a

    afinação adequada é presumida.

  • Monitor

    A missão do monitor de naipe é buscar a correção melódica. A priori o monitor não

    busca boa interpretação e sim afinação, para tanto precisa além do ouvido atento,

    muita personalidade e dinamismo. Precisa combinar atitude de mando e

    diplomacia e sobretudo estudar o repertório do dia à exaustão. O monitor deve

    ouvir com cuidado o kit e identificar os trechos fáceis e difíceis da peça. Os

    trechos fáceis como uníssonos, solo do naipe e harmonia elementar ele anotará

    em sua partitura para gastar pouco tempo neles. Nos trechos de harmonia

    truncada, melodias de difícil entoação seja por intervalos incomuns, semitons ou

    acidentes, eventuais fugas, o monitor focará sua atenção. Primeiro para aprender

    com correção para depois ensinar com propriedade. O monitor vai precisar de um

    CD player o qual ele precisa aprender a manusear bem antes do seu primeiro

    ensaio. Além de manusear com soltura o equipament, deve saber em que faixa do

    CD encontra-se sua parte. Também deverá anotar de antemão na partitura em

    que segundos da faixa estão os trechos críticos para com agilidade encontrá-los.

    É do monitor também a atribuição de controlar as faltas e quem pode ou não

    cantar nas apresentações em decorrência delas.

    O controle da faltas não é uma arbitrariedade. Um coralista faltoso põe em risco a

    qualidade do naipe e consequentemente do coral. É pior o coralista cantar errado

    e transmitir insegurança do que não cantar. Uma boa prática é tolerar uma falta,

    com duas faltas consecutivas o monitor deve ser consultado e com três faltas

    consecutivas o coralista deve ser vetado da apresentação. Lembrando sempre

    que com diplomacia e tato. É atribuição também do monitor distribuir e recolher as

    partituras, gerenciar os kits do seu naipe e fazer ensaios individuais de reforço

    quando necessário.

    No momento do ensaio propriamente dito, o monitor deve deixar poucas brechas

    para conversa ao mesmo tempo em que promove um ambiente de calma e

    tranquilidade. Antes de pedir aos coralistas que cantem determinado trecho, o

  • monitor deve primeiro tocá-lo, em seguida ele canta acompanhando o kit e só

    então pede aos coralistas que cantem suavemente. A partir desse ponto não há

    segredo, a repetição é a mãe da sabedoria. Deve-se repetir até sentir que estão

    todos entoando com correção e firmeza o trecho estudado.

    Todas as pessoas são diferentes e precisam ser tratadas diferentemente. Há

    aqueles que aprendem rápido sua linha melódica e os que são lentos. Há os que

    querem ser destaque, querem solar ou estar na primeira fila e os que não querem

    nem ser vistos se possível, cantam pianinho e seu prazer está no anonimato. Há

    os que se enfadam rápido com os ensaios e querem logo a apresentação, e os

    que adoram o ensaio e sofrem com as apresentações. Há os que são sensíveis

    para os quais as palavras devem ser muito bem escolhidas, e os que adoram uma

    bronca em público.

    O monitor deve estar atendo a essas diferenças e tratar cada um como se fosse o

    único. Um deve ser convidado ao ensaio, outro convocado. Um pode ser chamado

    a atenção em público, outro em privado. Um precisa um ensaio extra e quer, outro

    também precisa e não quer, e outro ainda talvez nem precise, mas quer.

    Esta riqueza de personalidades e jeitos deve ser respeitada e estimulada. É um

    erro pensar que todos devem ser tratados da mesma maneira. A atividade de coral

    amador é voluntária, portanto é a boa vontade que alavanca cada conquista,

    nunca a ameaça muito menos a autoridade exercida arbitráriamente. O coral é

    justamente o resultado da soma da boa vontade de todos, por isso o melhor que o

    regente e o monitor têm a fazer é sempre respeitar a todos e procurar tirar o

    melhor de cada um. Ao ser respeitado o coralista devolve respeito e boa

    disposição, que é o combustível para novas conquistas.

    Regente

  • Depois do trabalho criterioso dos monitores, o regente assume para levar o coral

    ao patamar seguinte, o da interpretação da obra. O coral é uma lente de aumento

    do gestual do regente. O coral responde com fidelidade o que o gestual do regente

    sugere, não só o gestual dos braços, mas o do corpo todo. O regente ansioso,

    com sombrancelhas levantadas indicando estado de alerta deixa seu coral

    também ansioso e assustado. É bom o regente verbalizar pouco o que quer no

    tocante à expressão da obra. Ele gesticula e seu coral responde.

    O regente deve ser discreto, mas intenso. Bem humorado, sua presença

    tranqüiliza o coral e arranca um sorriso velado de cada integrante. Ele é o único

    que não pode ficar nervoso, muito menos histérico e nem ansioso, nem mesmo

    quando comete erros numa apresentação. Quando isso ocorrer ele deve com

    graça reconhecer seu deslize e com dignidade prosseguir. Posteriormente deve

    estudar melhor o trecho onde deslizou, claro. Há porém repertórios que pedem

    algo de nervosismo e agitação, daí o regente pode se transformar nisso se ele

    quiser. Outra opção é ter mais de um regente no coral, distribuindo o repertório de

    acordo com a personalidade de cada um.

    A principal função do regente é sincronizar o coral num único batimento. Conheço

    uma excelente musicista, tremenda pianista porém péssima regente. Ela marca

    com tanta intensidade os tempos que o coral canta como se fosse uma máquina

    de socar. Chegam a gesticular com o corpo todo a marcação do tempo. É bom

    lembrar que os trechos críticos onde a marcação de tempo deve ser clara são

    poucos. Eu me arrisco a dizer que na maior parte das músicas, mas da metade de

    cada uma delas nem sequer precisaria de presença do regente. É quando ele está

    ali para se esquecer do tempo e pedir expressividade. Pedir como? Ele entra na

    música, se expressa com sinceridade e seu coral se inspira nele e o imita.

    Voltando à principal função do regente, ele está alí para as finalizações e

    entradas, tando de frases como da obra como um todo. Ele se antecipa às entrada

    e com um olhar indica quem deve entrar enquanto seus braços elegantemente

  • unifica o coral numa só pulsação. As entradas são indicadas com um olhar

    enquanto as finalizações são indicadas com um gesto discreto das mãos. Frases

    terminadas com sibilantes necessitam uma uma finalização clara e inequívoca. Há

    também o fenômeno da adaptação. Embora existam convenções de gestuais de

    regência, é comum encontrarmos regentes auto-didatas com um gestual único e

    que funciona muito bem. Não que seja o melhor, mas seu coral se adaptou ao seu

    gestual.

    O regente deve estudar as quatro vozes, não necessáriamente saber decor, mas

    conhecê-las. Surgirão dúvidas e ele precisa saber responder. O regente não

    iniciado na notação musical e que não saiba responder uma dúvida relacionada a

    um trecho de determinada voz pode e deve pedir o auxilio do seu monitor, esse

    sim deverá saber sua voz de memória. Se o problema persistir, o kit deverá ser

    consultado.

    Músicas com playback devem ser ensaiadas primeiro accapella. Uma vez

    resolvida a harmonia, daí sim adiciona-se o playback. A obra deve ser

    fragmentada e ensaiado ao poucos iniciando-se pelos trechos mais difíceis não

    necessariamente na ordem da partitura, pode-se começar por um trecho final,

    depois o começo e finalmente um trecho no meio.

    O tom não deve ser repetido infinitas vezes, nem nos ensaio nem nas

    apresentações. Raramente é necessário tocar ou entoar a nota de cada naipe. O

    coral deve ser treinado a extrair sua voz do acorde. E no ensaio, se a música for

    toda num mesmo tom, deve-se dar o tom somente uma vez e depois navega-se

    pela música pedindo ao coral que cante os diferentes fragmentos da obra sem

    repetir-lhes o tom. Repetir o tom freneticamente é enervante e desnecessário.

    Se concentrar no importante. Isso requer discernimento. É comum regentes se

    concentrarem num detalhe rítmico, melódico ou de expressão enquanto a

    harmonia ainda não foi alcançada. Um toque sobre algum detalhe cai bem, o

  • problema está na insistência e perda de tempo precioso em algo que pode vir

    naturalmente a partir do momento que o coral compreender o que a música pede.

    Primerio deve-se partir do todo e só então ir focando nos detalhes certificando-se

    de que a maioria já compreendeu a música como um todo.

    O Kit de Ensaio

    Um kit de ensaio são quatro CDs e quatro partituras contendo as partes de cada

    naipe separadamente.

    Há casos onde além da voz a ser ensaiada, a voz principal também é gravada,

    porém com menos volume. Isso é feito, por exemplo, quando a música é um solo

    com vocal, ou numa fuga onde é necessária a referência da voz principal para

    viabilizar e agilizar o aprendizado das vozes que farão o preenchimento

    harmônico. Há também uma marcação rítmica percussiva o que é particularmente

    útil nas pausas. Há peças em que a voz do naipe a ser ensaiado está

    acompanhada também das demais vozes porém com um volume bem inferior,

    isso é particularmente importante em peças com grandes trechos em uníssono.

    Desta forma o monitor pode identificar esses trechos para não perder tempo com

    eles se concentrando nos trechos em harmonia, já que os trechos em uníssono

    podem ser aprendidos no ensaio geral.

    A partitura deve ser separada por naipe para evitar confusão, para agilizar e

    nortear o aprendizado da voz em questão e para musicalizar os coralistas. Com

    uma partitura enxuta e útil em mãos os coralistas começam a decifrar os sinais

    próprios da notação musical e em muitos casos tomam gosto e dão

    prosseguimento ao estudo da teoria musical o que deve ser sempre estimulado.

    Cada compasso deve estar claramente numerado e essa deve ser a ferramenta

    de localização utilizada. Já realizei vários testes a esse respeito. Já experimentei

  • utilizar somente a letra sem a notação, já experimentei a partitura completa com

    todas as vozes para todos os naipes, já experimentei numerar somente o primeiro

    compasso de cada pauta, etc. Os melhores resultados foram obtidos quando a

    partitura era separada para cada naipe, cada compasso devidamente numerado e

    a ausência completa de riturnelos e codas.

    É impossível dar suficiente ênfase no fato de todos os monitores e o regente

    dominarem o repertório do dia e forneçerem uma partitura para cada integrante do

    coral. Sem um desses elementos o ensaio fatalmente fracassará. Se apenas um

    dos monitores não estiver suficientemente preparado ou se faltar uma partitura

    para um dos integrantes de qualquer um dos naipes, o ensaio já terá uma queda

    de rendimento. Se faltar um aparelho de som para tocar o kit, o ensaio pode até

    acontecer, e deve, mas aquele naipe mancará naquela música pra sempre.

    Parecem detalhes sem importância, mas são fundamentais. Tanto o regente

    quanto o diretor são responsáveis por eles. Se o regente e o diretor querem um

    coral de sucesso devem cuidar para que todos esses detalhes não passem

    despercebidos.

    Nos primeiros ensaios de um novo coral que está se formando, é importante que

    no dia anterior os monitores, regente e diretor se reúnam, passem as músicas voz

    por voz e cantem juntos para se assegurarem de que os monitores estão

    dominando a obra, isso evitará várias dores de cabeça posteriores. Com o tempo

    isso já não será mais necessário, mas no começo é determinante para o sucesso.

    Se os primeiros ensaios forem dinâmicos, leves e produtivos, os coralistas

    voltarão e trarão novos integrantes. Não podemos esquecer que estamos lidando

    com um coral amador e portanto voluntário. As pessoas só virão enquanto for

    legal e gostoso ensaiar. Nada mais as prende ali exceto a promessa de uma

    experiência rica, prazenteira, socializante e revigorantes. Muitos municipios,

    faculdades, escolas e empresas tem dificuldade em manter um coral devido à falta

    de dinâmica e enorme tédio dos ensaios, apesar dos incentivos, prêmios e até

    mesmo salário que se paga aos coralistas. Imagine agora um coral amador

  • composto exclusivamente por voluntários. Ninguém merece ensaios massantes,

    entediantes, excessivamente repetitivos, chatos e improdutivos nem sequer

    ganhando para isso, muito menos como voluntário. Portanto regentes e monitores,

    estejam preparados se querem chegar a algum lugar.

    O equipamento a ser usado é um toca CD simples e uma cópia da partitura

    exclusiva do naipe. Anotações a mão, rabiscos, setas, indicações devem ser

    estimulados, para tanto cada partitura deve conter o nome do coralista para que

    cada membro utilize a mesma em todos os ensaios. Deve-se evitar pasta com

    folhas plásticas justamente por dificultar as anotações e causar reflexo luminoso

    nas folhas plásticas. O ideal é deixar as folhas soltas. Uma vez aprendida a

    música, não há mais necessidade de ensaiar com a partitura. O coral deve

    memorizar as músicas, isso é fundamentar para a boa interpretação.

    Classificação das Vozes

    Antes do primeiro ensaio é necessário orientar os coralistas, principalmente os

    não iniciados, a respeito de sua voz, que voz canta e onde deve sentar-se nos

    ensaios em função disso. Não se deve entrar em detalhes sobre a teoria musical,

    nomes complicados, definições teóricas e afins. A linguagem deve ser simples e

    tangível. A musicalidade é inerente ao ser humano, o papel do coral é ajudar

    trazer-la à tona e não distanciar o coralista da música com terminologia técnica

    inacessível e inoportuna.

    Música é arte e arte não é uma ciência exata. A linha que divide uma voz da outra

    é tênue e móvel. Quanto mais bem informado o regente, menos taxativo ele será a

    esse respeito. A maioria das pessoas possuem vozes médias no que tange à

    tessitura. Tenho verificado que uma pequena minoria são incontestavelmente

    graves ou agudos. Proponho abaixo uma demarcação realista para classificar as

    vozes. CD faixa n.

  • Vale lembrar que há mais de uma forma de avaliar a tessitura de uma pessoa. No

    primeiro contato o avaliador deve estar atento à região da fala, procurando a nota

    predominante e recorrente, de preferência sem o conhecimento do avaliado para

    não comprometer sua naturalidade. Em seguida pode-se especular qual o

    repertório favorito e quais músicas o avaliado mais gosta de cantarolar. Contraltos

    por exemplo preferem cantarolar repertório de outras contraltos ou de tenores

    superagudos. Baixos idem, porém uma oitava a baixo. Sopranos e tenores

    reclamarão que cantores graves lhes machuca a garganta. Repetindo, a maioria

    está na região média e podem ser usados tanto no naipe agudo quanto no grave,

    já que notas extremamente graves ou agudas são exceção na maioria das

    músicas e quando ocorrem são curtas. Outro fator a ser considerado é que a

    timbragem de um coralista grave cantando a linha de um naipe agudo enriquece e

    intensifica o som, o que pode ser usado como uma ferramenta poderosa na

    interpretação. Por outro lado, uma primeiro-soprano que alcança o superagudo

    precisa das meso-sopranos na maior parte da música quando notas graves para o

    naipe são recorrentes, nas quais a voz da primeiro-soprano não se projeta. É a lei

    da compensação.

  • Nem todo mundo é perfeitamente classificável, há fatores que podem alterar e

    muito o resultado de um teste de voz. O nervosismo, a total ausência de noção

    musical, gripe, afonia, mudança de voz, etc. É importante lembrar aos coralistas

    que se enquadram nesse perfil, que o teste pode ser refeito posteriormente se

    houver desconforto, dor, voz cansada, afonia e outros sintomas mesmo naquelas

    músicas calmas que exigem pouco esforço vocal. A solução pode ser um simples

    remanejamento dentro do coral, ou, persistindo os sintomas, um fonoaudiólogo

    deverá ser consultado.

    A formação indicada para o ensaio é a alemã onde as sopranos sentam-se na

    frente do regente do seu lado direito e os baixos imediatamente atrás. Do outro

    lado ficam as contraltos e os tenores atrás. Para as apresentações recomendo a

    formação francesa onde os naipes ficam em linha sendo as contraltos, ternores,

    baixos e sopranos da esquerda para a direita em relação ao regente. Esse

    posicionamento tem algumas justificativas. Primeiro é a proximidade das vozes de

    ponta, baixos e sopranos, o que lhes permite melhor afinação já que estão

    entoando notas distantes. O segundo é que, estando agrupados por naipe, os

    cantores mais seguros, os chamados vértices de naipe, servem de apoio para os

    mais inseguros. E terceiro é que o posicionamento frances nas apresentações

    favorece a estereofonia e promove melhor contato entre o regente e os naipes

    favorecendo a comunicação gestual.

  • Local, Horário e Roupa para o Ensaio

    Os naipes deverão ensaiar separadamente. Se isso não for possível por falta de

    espaço, a solução é usar o mesmo espaço em horários ou dias diferentes. O

    importante é que não haja interferência para que os integrantes de um naipe não

    confundam sua linha melódica com a do outro durante o aprendizado.

    É importante ter um horário fixo de ensaio e não trocar esse horário ao sabor das

    necessidades diversas dos coralistas. No começo as pessoas costumam

    encontrar dificuldade porque já tinham suas agendas feitas, mas com o passar do

    tempo elas vão adequando suas agendas em função do horário de ensaio, daí a

    importância de se ater a ele. Há duas coisas que não se pode decidir em grupo

    com o coral. Horário de ensaio e roupa para a apresentação. Esta é uma decisão

    da direção do coral. Deve-se escolher um horário calmo e fresco, quando haja

    pouca ou nenhuma agitação no local de ensaio. De preferência num momento e

    local quando os coralistas possam vir com roupas casuais, leves e despojadas.

    Tudo para promover o bem-estar e concentração dos artistas. A mente e todos os

    sentidos devem estar voltados ao aprendizado, nada deve estar incomodando ou

    desviar a atenção.

  • Roupa para as apresentações

    Lembro-me de um grupo em que cantava na minha adolescencia. A roupa era tão

    impressionante que quando nos apresentávamos ao público havia comoção.

    Arregalavam os olhos a espera do espetáculo tamanho o impacto que

    causávamos. A roupa servia apenas para aumentar sua decepção pois nossa

    qualidade sonora nunca passou de precária. Hoje prefiro e aconselho o contrário.

    Uma roupa mais modesta aumenta a boa surpresa do auditório. A máxima ‘a

    primeira impressão é a que fica’ não serve para o coral pois o auditório busca uma

    impressão auditiva e não visual.

    A decisão de que roupa se deve usar é atribuição do diretor.

    O diretor deve consultar algumas pessoas do grupo reconhecidamente de bom

    gosto sobre que roupas sejam apropriadas para o coral e a que esteja dentro da

    realidade econômica do grupo. Em posse desse aconselhamentos, o diretor deve

    então tomar sua decisão por uma das opções ou de preferência uma combinação

    delas e levar sua decisão unilateralmente ao coral sem espaço para observações

    públicas. Ele não deve identificar as pessoas que o aconselharam. Deve sim abrir

    um espaço para observações em particular durante um curto período de tempo.

    Não havendo nenhuma observação que seja determinante para alguma mudança,

    a roupa deve ser anunciada em caráter definitivo e de forma breve. Este é um

    tema extremamente polêmico, talvez o mais polêmico de todos, e delongar-se nele

    é perder tempo e por em xeque a harmonia do grupo.

    Uma fórmula bastante praticada por corais mundo afora é estabelecer uma

    tonalidade e pedir que cada coralista faça o seu modelo. Já há algum tempo que

    até os grupos e corais famosos abandonaram o uniforme idêntico. A tendência é

    abandonar o ‘uníssono’ e procurar uma ‘harmonia’ visual respeitando a

    individualidade de cada um, porém não em detrimento da unidade do conjunto.

  • Compartilhar os Méritos Sempre

    Num coral amador o regente também é um aprendiz. Aliás todos são amadores

    por isso não faz sentido uma postura arrogante e jactante. O regente bem como o

    diretor e demais membros da direção devem constantemente lembrar de repassar

    os méritos das conquistas a cada um dos integrantes do coral. E quando

    houverem eventuais contratempos, erros, falhas e fracassos o regente e a direção

    devem ser os primeiros em assumir as responsabilidades. Vê-se muito o contrário

    disso, o que é um erro. O coral se sente estimulado a dar o seu melhor quando

    são lembrados de que são participantes dos méritos e conquistas. Costumam ser

    solícitos e benévolos quando notam que seu regente e diretor assumiram a

    responsabilidade prontamente por alguma má apresentação ou outro problema

    qualquer. Vale a pena tratar o coral a pão de ló, eles devolvem isso em brilhantes

    apresentações e boa vontade para qualquer compromisso.

    É comum, principalmente depois de boas apresentações, a tietagem, a qual deve

    ser minimizada. Uma das características mais apreciadas no ser humano é a sua

    humildade. Ser humilde com os superiores é um dever, ser humilde com os semelhantes é uma cortesia, ser humilde com os inferiores é uma nobreza (fonte). Por isso, nos momentos de glória é que mais se deve manter o equilíbrio e praticar

    a humildade sem falsa modéstia. Isso é um exercício e sempre pode ser

    melhorado. Boas apresentações vem e vão bem como as más. Portanto o foco

    deve estar no rigor do método e não na efemeridade do boa ou má performance.

    Ruído

    O ensaio é por natureza uma atividade ruidosa. A concentração é diretamente

    proporcional ao silêncio, o qual deve ser sempre estimulado. Há porém a

    necessidade da interação dos coralistas uns com os outros ajudando-se,

    orientando-se, situando-se, corrigindo-se, estimulando-se. Isso tudo, claro, produz

  • ruído. Pior seria porém, creiam-me, sem esse ruído. O regente deve estimular

    essa interação construtiva entre os coralistas conscientizando-os portanto do

    subproduto – o ruído – que deve ser minimizado. Por isso conversas devem ser

    toleradas e até vista com bons olhos. O regente deve-se concentrar em pontos de

    maior relevância e permitir que os coralistas mais experientes e preparados sejam

    tutores e, porque não dizer, regentes estagiários.

    O ensaio precisa da dinâmica da amizade, de um ambiente leve, alegre,

    descontraído e informal para otimizar a produtividade e reduzir o tédio. O regente

    doentiamente rigoroso com o silêncio e disciplina tende perder os maiores talentos

    e castrar grandes iniciativas. O ser humano é rico e deve ser estimulado a dar o

    seu melhor. Quando o regente os respeita, ele automaticamente é respeitado e

    admirado.

    Vertice de Naipe

    Vértice de naipe é o nome que se dá àquela pessoa ou aquelas pessoas que

    lideram um naipe vocalmente falando. Geralmente é o que aprende mais rápido,

    tem mais firmeza e bom volume de voz. Não há necessidade de ser um vértice de

    naipe para ser um monitor, mas o bom monitor logo identifica o vértice, o felicita e

    solicita sua ajuda. Vértices de naipe às vezes podem estar convencidos disso e

    por se julgarem acima dos demais atraem certa antipatia. Isso seria catastrófico

    para um monitor se ele fosse o vértice. Mas o monitor precisa lidar com isso

    mostrando ao vértice a grande responsabilidade que recai sobre ele e com

    humildade atribuindo-lhe parte dos méritos e nunca entrar em disputa,

    concorrência ou num clima de ciumes e inveja.

    Depois de tudo, o aprender as vozes acaba sendo a parte mais simples perto da

    grande complexidade e beleza que é lidar com o ser humano.

  • Solistas

    Não são todos que querem ou podem ser solistas. Os mais problemáticos são os

    que querem mas não podem. Costumam gerar uma série de constrangimentos,

    fofocas e mal-estar, e o regente deve saber lidar com essa situação. Nem sempre

    a franqueza é a melhor saída. O que dizer num caso desses? Que a pessoa não

    tem condições do solar porque sua voz não é suficientemente treinada? Ou

    porque ela não nasceu com o dom? Dizer isso poderia significar o início de uma

    guerra e faltar com a verdade, já que surpresas acontecem. Lembro-me do Fábio.

    Quando o via solar na igreja geralmente achava uma interpretação fraca e

    afinação sofrível. Um dia ele me aborda à saída de um ensaio. Estavamos

    iniciando uma nova música: “Estou em Paz” do Novo Tom. Para minha surpresa o

    rapaz normalmente discreto me pede para solar a música. Não soube o que dizer

    frente a um pedido tão direto. Semanas depois, em consenso com o diretor,

    demos-lhe uma chance. Para nossa surpresa e felicidade, o Fábio superou nossas

    mais otimistas espectativas. Vale dizer que essa é a exceção e não a regra. É

    muito arriscado deixar um coralista solar sem ter uma noção clara do que virá.

    Trocar de solista numa determinada música é bem pior do que nunca haver dado

    uma chance a alguém cuja qualidade não se conhece a priori. Eu costumo

    abandonar a música se o solo não ficou bom. Prefiro isso a ter que trocar o solista.

    Alguns regentes fazem uma audição privada só com o solista antes de apresentá-

    lo ao coral. Essa é uma ótima opção e evita muitas dores de cabeça.

    Preparação do Repertório

    Cada música tem um determinado grau de dificuldade. Dentro de uma mesma

    música o trecho crítico é diferente para cada naipe. O regente precisa ter

    consciência disso e dar mais atenção a cada naipe quando passam pelo seu

    momento crítico, principalmente nos primeiros ensaios de uma determinada

  • música. Tanto o regente como o monitor de naipe devem marcar suas partituras e

    recomendar que os coralistas façam o mesmo para que a concentração se

    redobre naquele trecho.

    Nem o regente nem os monitores se podem dar o luxo de aprender a música no

    dia do ensaio. Devem vir com o material absolutamente dominado. É impossível

    ser demasiadamente enfático sobre esse assunto. Regentes e monitores sérios e

    responsáveis não podem jamais achar que uma música é muito fácil para não ser

    aprendida previamente. Regentes ou monitores despreparados colocam em risco

    a própria existência de um coral. Pior que isso é quando um regente que não se

    prepara devidamente e ao ver o ensaio fracassar, culpa os coralistas ou alguma

    outra causa externa que não seu franco despreparo.

    Deve haver um ou dois bons regentes suplentes. O regente com personalidade

    mais vibrante rege o repertório mais vibrante, o regente mais introspectivo rege o

    repertório mais introspectivo. Mas ambos os regentes deve estar em condições de

    reger todo o repertório para aliviar o trabalho e quando um não puder comparecer

    no ensaio ou apresentação, o outro assume com naturalidade. Isso dá mais

    tranqüilidade ao coral tanto a curto prazo quanto a longo prazo no sentido de que

    o coral nunca estará desamparado.

    Há clássicos que devem fazer parte permanente do repertório de um coral, mas a

    inovação do repertório é o que mantem o coral pulsante. Dez músicas novas por

    ano é um número bastante razoável e exeqüível. É importante também variar o

    repertório. O maior número deve ser algo do momento, que esteja nas paradas e

    que o coral esteja desejoso de cantar. Também deve conter algo retrô, algo

    accapella, algo difícil e algo bem fácil. Um repertório variado não só agrada a

    todos, coralistas e auditório, como também enriquece a todos. Os veteranos se

    atualizam e os jovens lançam um olhar ao passado e tem a oportunidade de

    apreciá-lo.

  • Aquecimento de Voz

    Há muitos mal-entendidos sobre essa questão. Faz-se aquecimento vocal quando

    muitas vezes o mais apropriado seria um resfriamento vocal. Imagine um ensaio

    numa tarde de verão num país tropical como o nosso.. O cantor já falou o dia

    inteiro, está com a voz cansada, os termometros marcando 42 graus na sombra e

    ainda cojita-se em aquecimento vocal. Isso é um atentado contra as pregas

    vocais.

    Aquecimento da voz é uma prática comum na europa e países frios e deve

    restringir-se a esses lugares. Os atletas de regiões frias precisam aquecer-se, os

    daqui precisam alongar-se. Eu gosto do termo ‘condicionamento vocal’ ou

    simplismente ‘vocalize’. Geralmente eu inicio o ensaio cantando algo do repertório

    que não demande demasiado dos coralistas. Algo na região confortável da voz

    que já funciona como um vocalize e afinador do ouvido. Gosto também de brincar

    com a escala diatônica durante alguns minutos, nunca mais do que cinco minutos.

    É divertido, desafiador e útil. Após este curto vocalize, conduzo o ensaio num

    crescente no tocante à demanda da voz. Vamos lembrar que estamos nos

    referindo a um coral amador onde a maioria dos vocalizes elaborados por

    virtuoses para virtuoses não fazem o menor sentido. Equivaleria a impor um

    alongamento aplicado ao Ronaldinho num atleta de fim de semana. E é

    exatamente isso que se vê á torta e à direita.

    Eis uma sugestão dentre uma infinidade de ótimos vocalizes, exercícios com a

    escala diatônica:

  • É importante lembrar que vocalizes antes da apresentação aumentam o nível de

    ansiedade e devem ser praticado somente em condições extremas quando seja

    realmente necessário.

    A Apresentação

    Demasiados preparativos só aumentam o nervosismo. Há corais que tem o hábito

    de chegar demasiadamente cedo nas apresentações ou em cima da hora, outros

    costumam fazer vocalizes antes das apresentações, outros ainda ficam numa sala

    reservada, geralmente apertada e quente. Todos esses detalhes contribuem para

    o aumento da ansiedade e nervosismo do grupo. Uma prática que tem-se

    mostrado eficiente e simples é o coral sair diretamente do auditório para o palco.

    Se for um evento exclusivo do coral, momentos antes do início o coral pode sair

    para então entrar ordenadamente, mas se não for um evento exclusivo, o melhor é

    deixar os coralistas desfrutando da programação enquanto se esquecem que

    também farão parte dela. Isso os tranquiliza e não os priva dos demais atrativos

    do evento.

    Nesse momento o regente deve mostrar tranquilidade e pouca ou nenhuma

    agitação. Deve confiar os detalhes de escolha do repertório, instrumentistas,

    playbacks, sonoplastia et cetera ao diretor e associados. Deve permanecer

  • asentado aguardando pacientemente o momento do coral. Ou seja, tanto o

    regente quanto o coral devem ficar sentados no auditório esperando calmamente

    por dois motivos, desfrutar a programação e minimizar o estresse pré-

    apresentação.

    Momentos antes de iniciar a música, enquanto o coral se posiciona e durante o

    canto, o regente deve evitar as sombracelhas suspensas, sinal intuitivo de alerta e

    perigo e se mover com calma e elegância. As sombracelhas suspensas pode

    parecer um detalhe irrelevante, mas quarenta sombracelhas suspensas em

    resposta à do regente pode deixar um auditório de quatrocentas pessoas achando

    que estão ameaçando ou coral ou correndo algum tipo de perigo com ele.

    Enquanto rege, o regente deve mergulhar na música, pensar no que canta e ser

    um modelo de expressão tanto vocal quanto corporal. Os muitos detalhes aos

    quais o regente deve estar atento, principalmente entradas, cortes e momentos

    críticos dos naipes absorve totalmente a atenção da maioria dos regentes em

    detrimento de seu exemplo como interprete. Ele deve ser regente e exemplo de

    interpretação. O coral é o espelho do regente. Um regente técnico pode ter no

    máximo uma apresentação técnicamente intocável, porém onde está a vida e o

    sentimento da música? Por isso regentes, estudem o repertório à exaustão.

    Ninguém é tão bom que não precise fazê-lo. Com a parte técnica totalmente

    dominada e mecanizada, sobra atenção e concentração para a expressão do

    sentimento da música, afinal, se a música não chegar ao coração, não terá

    cumprido seu papel.

    Breve Digressão Teórica

    O fato do coral ensaiar com kits de ensaio e abrir as portas a todos, inclusive os

    desafinados, não é uma apologia muito menos um estímulo ao não conhecimento

    da teoria musical. Os kits de ensaio são uma ferramenta poderosa de

    musicalização. Nos kits as partituras vem separadas por naipes e isso facilita

  • muito o coralista seguir as notas. Aliás no surgimento da notação musical este era

    o método utilizado, só depois aumentando em coplexidade com a evolução da

    notação e especialização dos músicos. Nos paises desenvolvidos a música é

    ensinada na escola desde os primeiros anos. No Brasil o aprendizado de música é

    elitizado e só recentemente o governo tornou obrigatório o ensino de música nas

    escolas, o que para se efetivar levará ainda algum tempo devido à vergonhosa

    escaces de profissionais qualificados. Por isso o canto coral amador se apresenta

    como uma alternativa plausível para este impasse. É uma forma de musicalização

    intuitiva, dinâmica, envolvente e sobretudo acessível.

    A musicalidade precede a musicalização ou formação teórica. Musicalidade é o

    dom e musicalização é o aprendizado de música. Musicalidade vem de dentro

    para fora e musicalização vai de fora para dentro. Ou seja, se eu tiver dois

    indivíduos à minha frente, um musicalizado sem musicalidade e o outro com

    musicalidade porém não musicalizado eu não hesitaria em escolher o segundo. O

    motivo é simples, a musicalização se aprende, a musicalidade não, principalmente

    na fase adulta. Admito que isso seja radical demais, principalmente para os mais

    ortodoxos, mas é a noção desta dicotomia que nos faz ter um olhar mais maduro

    com relação à música e músicos. A musicalidade é a união do gostar de musica,

    mais a convivência musical, mais o interesse espontâneo pelo aprendizado, mais

    uma dose de predisposição genética. Já uma pessoa apenas musicalizada, porém

    sem musicalidade geralmente é o resultado ou de pressão externa para a música

    como por exemplo os pais que querem que sua filha seja pianista e conduzem sua

    vida, suas aulinhas na infância e seu ambiente para isso. Atitude, aliás, louvável,

    porque se houver predisposição na criança para o aprendizado musical esse será

    o caminho da excelência, já que a excelência é a união da musicalidade com a

    musicalização. Cabe aos pais ter a sensibilidade e sentir se seu filho ou filha está

    gostando e tendo bom desempenho. As vezes é importante até insistir para que

    estudem, pois o gosto pode emergir com o tempo. A regra áurea é, se a criança

    ainda não se posicionou radicalmente contra, deve ser estimulada a continuar até

    que saiba com certeza se quer ou não isso.

  • Há uma variável importante o professor bom ou ruim. Por isso quando vamos a

    um concerto vê-se no panfleto o nome dos professores do concertista, pois a

    qualidade do aluno é diretamente proporcional à qualidade do professor.

    Numa família musical o ambiente para o aprendizado de música é favorável até

    mesmo antes do nascimento. Nesse ambiente de bom gosto musical é provável

    que o gosto e a predisposição para o aprendizado aflorem mais acentuadamente.

    Isso fica claro quando observamos que filhos de pais músicos geralmente também

    são músicos e não raro melhor que os pais. Bach, Mozart e outros vieram de

    ambientes muito musicais no lar.

    O ideal é quando a musicalidade se une à musicalização. Daí nasce no mínimo

    um grande músico e se for grande musicalidade e excelente musicalização, um

    gênio.

    Considerações finais

    O treinamento oferecido neste livro e os kits de ensaio capacitam um cidadão

    comum que não seja iniciado na teoria musical a formar um coral de sucesso,

    conquanto seja uma pessoa musical. Estamos falando de um coral amador

    formado exclusivamente por voluntários. As vezes esses voluntários se reúnem e

    contratam os serviços de um profissional da música, um regente, para levar

    adiante o coral do sonho deles mas isso raramente perpetua-se e eu desestimulo

    esse tipo de arranjo. Os motivos são porque um regente contratado não tem o

    mesmo comprometimento com o grupo que teria um regente local. Geralmente

    mora longe e chances há que chegará atrasado assim que a novidade passar.

    Mais cedo ou mais tarde vai começar a faltar e isso é inadmissível, uma tremenda

    falta de respeito com os coralistas voluntários que não só cantam de graça como

    também pagam para o tal regente. Regentes locais além do comprometimento

  • terão mais paixão e a aumentarão a sensação de estabilidade do coral o que gera

    um círculo virtuoso de mais comprometimento e paixão dos coralistas também.

    Isso atrai novos integrantes e valoriza o ato de ser integrante do coral. Além de,

    sendo um regente local, desonera a manutenção não consumindo recursos do

    coral.

    A proposta do canto coral amador é, entre outras, ser uma atividade social e

    socializante. Para que isso seja verdadeiramente possível todos devem ser

    voluntários, inclusive e principalmente o regente. Já que o regente também é um

    aprendiz, o fato de ser voluntário não remunerado tornara o coral mais tolerante e

    afável ao lidar com os eventuais erros do regente que, como foi dito no capitulo

    sobre o regente, deve ser ágil em reconhecer seus equívocos técnicos e com

    graça ´tocar o barco´ pra que o coral não assimile e transmita sua hesitação e

    frustração por ter errado. Claro que posteriormente o regente consciente estudará

    o trecho que o atrapou para se tornar cada vez melhor e levar seu coral a um cada

    vez melhor desempenho também