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o Kulaespao de troca entre estudantes de cincias

sociais da usp

edio #4 novembro/dezembro de 2011

Conscincia Negra

Conscincia Negraopinio . poltica . sociedade . movimento estudantil e educao . contos e crnicas . poesia . arte

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Por que O KULA?

editorialFim de um ciclo 3

capa: coscincia negra Das mos brancas de Isabel s mos marcadas de muitas Marias, Joanas e Anastcias 5 Conscincia negra, conscientizao dos negros 6

poltica e sociedade Regulao, Imprensa e Idade Mdia 7 A Alienao da Marcha Contra a Corrupo 8

PT: Utopia da academia ou um pilar da classe dominante? 9

Radicalismo de esquerda e oportunismo de centro 10

As (ben)ditas leis 11

movimento estudantil e educao Balano do coletivo Barricadas Abrem Caminhos sobre o CeUPES em 2011 12

Onde foi parar o projeto Graduao em Foco? 13 Homenagem ao novo estatuto 14

As conchas dessa edio Os Estudantes de Cincias Sociais voltaro a ser Perigosos: Agora Estamos Organizados 15 Novos Marcos para o Movimento Estudantil 17 O Estatuto Social, a burocracia e o 18 de outubro nas Cincias Sociais da USP Pt. 1 18

crnicas e contos Controlando a maluquez 19

poesia Les mots en libert 20 DIFERENTE... 21 Cotidiano urbano 22 [Sem ttulo] 23

crtica Desafinando o coro dos contentes 24 Oficina de Humanidade 25

indicaes culturais Em Cartaz 26 Quando a GENTE fala: andando por ai e TAG-ficando 27

Os rituais do kula descritos por Malinowski na obra Os Argonautas do Pacfico Ocidental fazem parte, como diz o prprio autor, de uma ins-tituio social complexa que abarca diferentes sociedades das ilhas Tro-briand. Como um de seus objetivos, o kula permite que diferentes grupos sociais troquem produtos entre si, gerando uma imensa rede de comrcio. Os principais objetos no kula, porm, no so os de subsistncia, mas sim os vaygua (longos colares feitos de conchas vermelhas) e os mwali (bra-celetes feitos de conchas brancas). Estes objetos, que nunca param em uma s mo, conferem grande prestgio a quem o detm por determinado tempo. interessante notar que quanto mais o objeto tenha sido trocado e tenha viajado pelas ilhas, mais prestgio e reconhecimento ele confere ao seu dono temporrio. Fica claro, portanto, que as sociedades trobriandesas do grande valor troca e ao que vem de fora, trazendo novas perspectivas e ferra-mentas de interpretao do mundo. O jornal O KULA procura incentivar exatamente esta prtica de troca de opinies e perspectivas entre os alunos de Cincias Sociais. Esperamos, dessa forma, que o intercmbio de idias e reflexes faa parte da rotina de nosso curso.

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O KULA uma publicao do Cen-tro Universitrio de Pesquisas e Estudos Sociais (CeUPES), o centro acadmico do curso de Cin-cias Sociais da USP, construda em reunies aber-tas da Comisso de Comunicao, Cultura e Arte da entidade. Todas as contribuies publicadas em O KULA, tanto no que diz respeito forma quanto ao contedo, so de responsabilidade exclusiva dos autores que as assinam e no refletem necessaria-mente a opinio da atual gesto do centro acad-mico nem do conjunto dos estudantes do curso. Crticas e sugestes sero sempre muito bem-vindas e devem ser encaminhadas por meio dos contatos relacionados abaixo. Uma verso di-gital de O KULA estar disponvel em breve.Centro Universitrio de Pesquisas e Estudos Sociais - CeUPESGesto Cirandeia - 2010/2011Blog: http://ceupes2011.wordpress.comE-mail: ceupes2011@gmail.comTwitter: @ceupesFone: 3091-3748

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As imagens dessa edio foram retiradas da internet. Caso voc seja o autor de alguma de-las, entre em contato com o CeUPES para a pu-blicao dos crditos de autoria na prxima edi-o.

Capa: Cabea de negro - 1929 - Xilogravura de Lasar Segall. Releitura por Fernanda Ortega.

Conselho editorial desta edio: Beatriz Barros, Caetano Patta, Carlos Eduardo Alves, Christiano Peres, Danilo Restaino, Fernanda Kalianny, Gus-tavo Rego, Igor Costa, Max Gimenes, Mariana Varela, Paula Kaufmann, Raza Lira e William Santana Santos.

Edio e diagramao: Fernanda Ortega, Max Gimenes e Raza Lira.

As trs primeiras edies diagramadas por Fer-nanda Ortega

Tiragem desta edio: 300 exemplares.

editorial

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Chegamos quarta edio de nosso jornal O KULA, a ltima do ano de 2011 e tambm a ltima editada e publicada pelo CeUPES sob a gesto do grupo Cirandeia, Como os mandatos so de um ano, geralmente neste ms de novembro que costuma acontecer a eleio para a nova diretoria de nos-so centro acadmico. Esperamos que a disputa ocorra no mais alto nvel do debate de ideias e projetos e, sobretudo, do respeito pluralidade. Independentemente do resultado, esperamos tambm que este espao de troca que o jornal O KULA continue aberto a todxs que queiram se expressar em nosso curso. Quanto aos nossos critrios de publicao, mantivemos a per-misso restrita a uma contribuio por seo para cada estudante e a ausncia de parmetros de contedo, o que permite a O KULA que permanea aberto mesma pluralidade flagrante das edies anteriores, tendo sempre em mente apenas que machismo, racismo, homofobia ou qualquer outro tipo de ofensa pessoa humana no sero permitidos. As regras do jogo esto todas no Projeto Editorial do jornal l no blog do CeUPES e podem ser conferidas a qualquer momento por quem tiver interesse (ceupes2011.wordpress.com/jornal). Desta vez, aproveitando o momento oportuno do feriado de 20 de novembro e deste ms geralmente marcado por debates em torno da atual insero da populao negra na sociedade brasileira, a capa de nosso jornal traz como tema a Conscincia Negra. E tem mais: agora O KULA, alm das crticas de cultura, tambm tem indicaes culturais compartilhadas por colegas. A notcia triste que a seo Quando eu era estudante de Cincias Sociais, embora a rigor continue, desta vez no recebeu a tempo a contribuio de quem havia ficado de faz-la. Se voc tem ideias de convidadxs para as prximas edies, no deixe de mandar para a gente! Para que seja possvel dar prosseguimento sua misso de ser uma publicao construda de forma aberta e democrtica, na qual to-dxs estudantes de nosso curso possam dividir informaes, experincias, opinies e conhecimentos por meio de artigos, poemas, contos, charges, tirinhas etc., de acordo ou no com o tema de capa, O KULA segue con-tando com a ateno e a colaborao de todxs. No deixe de participar!

Gesto Cirandeia 2010/2011

Fim de um ciclo

H no muito tempo, Nina Rodrigues, mdico nascido no Mara-nho, defendia que, apesar da variedade nas formas de hmens de todas as mu-lheres, as negras ou mulatas possuam hmens semelhantes aos que j haviam sido rompidos. Gilberto Freyre, ao es-crever Casa Grande & Senzala, trazia uma viso bastante idealizada da cons-truo da nao brasileira, buscando entender em quais espaos essas mu-lheres estiveram presentes, trazia ento a imagem da mestia como uma impor-tante figura na construo da nao. Segundo o ltimo autor, as mulheres negras e mulatas foram res-ponsveis por uma parcela importante na educao das crianas brancas, nas modificaes da linguagem trans-formaram-se nas grandes contadoras de histrias , no amadurecimento e conhecimento que as sinhazinhas re-cebiam antes de seus casamentos e, o mais evidente e que nos chama mais ateno, pela iniciao sexual dos cha-mados donzeles que habitavam a casa grande. No entanto, apesar de Freyre romantizar bastante o convvio que se deu entre mulheres negras/mestias e os senhores brancos, sabemos que os acontecimentos do perodo da escravi-do no foram bonitos e harmoniosos. Naquele momento, reproduziram-se

capa - conscincia negra

Das mos brancas de Isabel s mos marcadas de muitas Marias, Joanas e Anastcias

Por Fernanda Kalianny Martins Sousa

relaes sexuais que se davam sem le-var em considerao qual era a vontade das mulheres trazidas da frica ou das escravas nascidas no Brasil. Foi a custo de muito sangue e sofrimento de mu-lheres indgenas e negras que a idealiza-o de uma nao mestia e racialmente democrtica apontou os seus primeiros indcios, no sculo XIX. Construiu-se, ento, gradu-almente a idia de um pas que trazia como peculiaridade a formao a partir de raas diferentes, foi se elaborando a fbula das trs raas e aos poucos a noo de um pas que no carregava em si o preconceito foi sendo defendi-da por muitos. As mulheres mulatas foram constituindo-se em objeto da sociedade brasileira condicionadas aos acontecimentos histricos e sen-do retratadas na literatura e nas letras de samba e de marchinhas de carnaval. Mas, afinal, qual era a imagem propaga-da nessas canes e nos personagens de literatura? Notamos claramente que a imagem das mulheres negras e mestias na literatura ou nas canes era inten-samente erotizada, eram vistas como mulheres que se desejava possuir, mas no no sentido de contrair matrimnio. Tal imagem de mulher faceira e libidi-nosa contrapunha-se mulher branca, menos vista sexualmente, encaixando-

se mais no papel de me, de procriado-ra. No podemos deixar de questiona