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UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE LETRAS DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA POLÍTICA E MODERNIDADE CRÍTICA DA TRADIÇÃO DO PENSAMENTO POLÍTICO EM A PROMESSA DA POLÍTICA DE HANNAH ARENDT Ana Sofia Pedro Roque MESTRADO EM FILOSOFIA 2011

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UNIVERSIDADE DE LISBOA

FACULDADE DE LETRAS

DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

POLTICA E MODERNIDADE

CRTICA DA TRADIO DO PENSAMENTO POLTICO EM A PROMESSA

DA POLTICA DE HANNAH ARENDT

Ana Sofia Pedro Roque

MESTRADO EM FILOSOFIA

2011

2

UNIVERSIDADE DE LISBOA

FACULDADE DE LETRAS

DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

Poltica e Modernidade

Crtica da Tradio do Pensamento Poltico em A Promessa da Poltica de Hannah

Arendt

Ana Sofia Pedro Roque

MESTRADO EM FILOSOFIA

Dissertao orientada pelo Professor Doutor Nuno Nabais

2011

3

NDICE

Resumo/ Palavras-chave .. 4

Abstract/ Keywords .......... 5

Lista de Abreviaturas .. 6

Introduo 9

Captulo 1. A condio humana da Poltica

1.1. A Poltica e o facto da pluralidade humana . 22

1.2. Poltica e Vida Activa .. 27

1.3. Perdo e Promessa: preceitos morais da aco e condies da poltica .. 53

Captulo 2. O sentido da poltica: liberdade I - a experincia da polis

2.1. O lugar da Liberdade ... 57

2.2. Polis: memria organizada .. 63

2.3. Histria enquanto o relato do imprevisvel .. 67

Captulo 3. O sentido da poltica: liberdade II a experincia da revoluo

3.1. A questo da guerra . 72

3.2. Violncia, poder e revoluo ... 77

3.3. Revoluo: o momento da constituio da liberdade .. 82

Captulo 4. Tradio e Modernidade

4.1. O conflito entre filosofia e poltica .. 94

4.2. A tradio do pensamento poltico 106

4.3. Marx e o fim da tradio .... 114

Captulo 5. A possibilidade da poltica no deserto ..... 123

Concluso . 138

Bibliografia ... 155

4

RESUMO

Hannah Arendt sempre negou a sua condio de filsofa, assumindo que o que

escrevia pertencia ao domnio da teoria poltica e colocando-se, ela mesma, sob a gide

da tenso necessria que existe entre pensar e agir, entre a filosofia e a poltica. Na obra

pstuma A Promessa da Poltica, publicada em 2005, encontramos um conjunto de

textos que constituem um importante contributo para a investigao da questo sobre

esta tenso entre filosofia e poltica e a da crtica da tradio do pensamento poltico,

temas que marcam indiscutivelmente a obra de Hannah Arendt. A necessidade de

compreenso, qual Arendt se refere reiteradamente, ganha um corpo de resposta

precioso no captulo Introduo na Poltica, onde se encontram no s as premissas

fundamentais da sua concepo da poltica, como a tentativa de resposta chamada da

compreenso do presente caracterizado essencialmente como o tempo no qual a poltica,

aparentemente, deixou de ter sentido e onde emerge o deserto. A leitura crtica dos

diferentes captulos que compem a obra enunciada convoca um dilogo particular com

outros textos de Hannah Arendt, no sentido do aprofundamento da investigao sobre a

sua crtica da tradio do pensamento poltico. Este o tema que torna compreensvel

uma concepo da poltica que tem algo a dizer sobre as condies do mundo

contemporneo, mergulhando no passado em busca de cristalizaes do belo, que mais

no so do que a forma da experincia autntica da poltica, e que se constitui na estreita

oposio a essa mesma tradio, cujo culminar a Modernidade e a filosofia de Marx.

O modelo agonstico da praxis aristotlica, a associao particular entre republicanismo

e democracia radical, e uma reformulao da definio do juzo poltico de inspirao

socrtica e kantiana compem os trs vrtices sobre os quais pode ser equacionada a

possibilidade actual da poltica, isto , da liberdade.

PALAVRAS-CHAVE: Hannah Arendt; Poltica; Tradio; Modernidade;

Promessa; Liberdade.

5

ABSTRACT

Hannah Arendt has always denied her status as a philosopher, assuming that

what she wrote belonged to the realm of political theory and placing herself under the

aegis of the necessary tension that exists between thinking and acting, between

philosophy and politics. In her posthumous book The Promise of Politics, published in

2005, we find a set of articles that constitute an important contribution to the research

on the question of this tension between philosophy and politics and the critique of the

tradition of political thought, two aspects that are unarguably an important mark in

Hannah Arendts work. The need of understanding, something to which Arendt refers

repeatedly, acquires a precious body of response in the chapter Introduction into

Politics. Here, one could find not only the fundamental premises of her conception of

politics, but also an attempt to answer the call for present time understanding, a time

that is essentially characterized as the one in which politics apparently ceased to have

meaning and where the desert emerges. The critical reading of the different chapters

included in the above mentioned book invites a particular dialogue to be held with other

writings of Hannah Arendt, as a way to go further on the inquiry about her criticism of

the tradition of political thought. This is the subject that makes understandable the

conception of politics which has something to say about the conditions of the

contemporary world, diving in the past to search for crystallizations of beauty, that are

nothing more than the authentic experience of politics; a conception arising in close

opposition to a tradition that culminated with the philosophy of Marx and Modernity.

The model of an agonistic appropriation of the Aristotelian conception of praxis, the

specific association between republicanism and radical democracy, and the

reformulation of political judgment, inspired by Socrates and Kant, form the three

vertices on which can be equated the current possibility of politics, that is, of freedom.

KEYWORDS: Hannah Arendt; Politics; Tradition; Modernity; Promise; Freedom.

6

LISTA DE ABREVIATURAS*

*As obras de Hannah Arendt aqui indicadas so apenas as que so citadas na presente

investigao. A referncia bibliogrfica a da primeira publicao, salvo as excepes

de edies revistas e ampliadas.

BPF - Hannah ARENDT, Between Past and Future, Viking Press, New York, 1961.

Edio revista e ampliada, 1968.

CR Hannah ARENDT, Crises of the Republic, Harcourt Brace Jovanovich, New

York, 1972.

EU - Hannah ARENDT, Essays in Understanding: 19301954, Edio de Jerome

Kohn, Harcourt Brace & Company New York, 1994.

HC - Hannah ARENDT, The Human Condition, University of Chicago Press,

Chicago,1958.

MDT - Hannah ARENDT, Men in Dark Times, Harcourt Brace Jovanovich, New York,

1968.

OR - Hannah ARENDT, On Revolution, Viking Press, New York, 1963. Edio revista,

1965.

OT - Hannah ARENDT, The Origins of Totalitarianism, Harcourt Brace Jovanovich

New York, 1951. Terceira edio revista com novos prefcios, 1973.

OV - Hannah ARENDT, On Violence, Crises of the Republic, Harcourt Brace

Jovanovich, New York, 1972, pp. 103-198.

PP - Hannah ARENDT, The Promise of Politics, Edio e introduo de Jerome Kohn,

Schocken Books, New York, 2005.

7

Aos meus pais, minha irm, por tudo.

8

H algo de ameaador num silncio muito prolongado.

Antgona, SFOCLES

Oh meu amor!

Temos connosco a praia da violncia de alma

E, se h praias em ns, ondas viro.

Conquista, Poesia I, JORGE DE SENA

9

INTRODUO

Na clebre entrevista que concedeu a Gnter Gaus, em 1964, Hannah Arendt

nega a sua condio de filsofa, assumindo que o que escreve pertence ao domnio da

teoria poltica e colocando-se, ela mesma, sob a gide da tenso necessria que existe

entre pensar e agir, entre a filosofia e a poltica - Como qualquer outra pessoa, o

filsofo pode ser objectivo perante a natureza, e quando diz o que pensa dela, fala em

nome de toda a humanidade. Mas o filsofo no pode ser objectivo nem neutro no que

se refere poltica, desde Plato, pelo menos!1. Alm desta tenso intransponvel,

Arendt explica que a expresso filosofia poltica tem uma carga que a tradio

tornou muito pesada e que evidente a existncia de uma hostilidade poltica na

maior parte dos filsofos. Na mesma entrevista, Arendt afirma que o mais importante

para si compreender, referindo-se mesmo a uma necessidade de compreenso. No

ensaio A Compreenso da Poltica, publicado em 1954, Arendt define esse tipo de

compreenso especial que o pensamento poltico exige, e que a autora reclamou a si

mesma. A, Arendt afirma que s a imaginao torna possvel ver as coisas segundo

uma perspectiva prpria, sem distores ou preconceitos - Este pr distncia certas

coisas e este lanar de pontes sobre abismos relativamente a outras so parte integrante

do dilogo da compreenso, para cujos fins a experincia directa significa um contacto

demasiado estreito e o mero saber, a construo de barreiras artificiais2. Sem este

modo da imaginao, que Arendt diz ser, na realidade, a prpria compreenso, jamais

seramos capazes de nos situar no mundo. () S somos contemporneos daquilo que a

nossa compreenso alcana3.

1 [Like everyone else, the philosopher can be objective with regard to nature, and when he says what he

thinks about it he speaks in the name of all mankind. But he cannot be objective or neutral with regard to

politics. Not since Plato!], in Hannah ARENDT, What remains? The language remains, EU, p. 2.

2 [This distancing of some things and bridging the abysses to others is part of the dialogue of

understanding, for whose purposes direct experience establishes too close a contact and mere knowledge

erects artificial barriers.], in Understanding and Politics, EU, p. 323.

3[Without this kind of imagination, which actually is understanding, we would never be able to take our

bearings in the world. () We are contemporaries only so far as our understanding reaches.], in Hannah

ARENDT, Understanding and Politics, EU, p. 323.

10

Na obra pstuma A Promessa da Poltica, publicada em 2005, encontramos um

conjunto de textos que constituem um importante contributo para a investigao da

questo sobre a tenso entre filosofia e poltica e a da crtica da tradio do pensamento

poltico, temas que marcam indiscutivelmente a obra de Hannah Arendt, considerando-

se no s o objecto da sua reflexo, como o desenvolvimento de uma teoria poltica

original. A necessidade de compreenso, qual Arendt se refere na entrevista citada,

ganha um corpo de resposta precioso no ensaio Introduo na Poltica, que integra A

Promessa da Poltica. Depois do extraordinrio esforo de compreenso poltica das

experincias totalitrias do sculo XX, em As Origens do Totalitarismo (1951), Arendt

concentrou-se na formulao de uma ontologia do poltico. Neste ensaio, Arendt

estabelece no s as premissas fundamentais da sua concepo da poltica, como tenta

responder chamada da compreenso do presente que caracteriza essencialmente como

o tempo do no-lugar da poltica, o tempo no qual a poltica aparentemente deixou de

ter sentido e onde emerge o deserto, que se alimenta da actual ausncia de mundo,

a extino de tudo aquilo que existe entre ns4. O seu presente no o nosso, certo.

Mas o seu tempo no se encontra suficientemente distante, nem se apresenta

consideravelmente diferente do nosso, a ponto de nos impedir de encontrar a

semelhana terrfica que nos leva a partilhar as suas preocupaes.

com base na alegao e justificao da importncia dos textos que compem A

Promessa da Poltica e no facto da sua recente publicao5, que explica a sua ainda

excipiente e diferenciada recepo, no que diz respeito aos textos que a integram (os

casos de Introduo na Poltica e Scrates so especiais, como veremos mais

adiante), que nos propomos a investigar nesta tese a relao entre poltica e

Modernidade, a partir da crtica arendtiana da tradio do pensamento poltico. Neste

livro, este tema encontra um desenvolvimento terico que constitui, de certo modo, uma

novidade, ainda que no absoluta, considerando-se o seu enquadramento no legado de

Hannah Arendt. A investigao que nos propomos realizar constitui uma tentativa de

resgate da unidade desta obra, que coincide, defendemos, com o desenvolvimento do

4 [The modern growth of worldlessness, the withering away of everything between us, can also be

described as the spread of the desert], in Hannah ARENDT, Epilogue, PP, p. 201.

5 Referimo-nos no s publicao original em ingls, editada por Jerome Kohn, que data de 2005, mas

tambm edio da traduo para portugus, pela editora Relgio Dgua, publicada dois anos depois,

em 2007.

11

tema anunciado. Por fim, neste novo, ou, pelo menos, mais amplo horizonte terico,

pretendemos ensaiar duas respostas, comprometidas com uma constelao de premissas

estabelecidas a partir da discusso dos textos escolhidos, s questes sobre se a poltica

hoje possvel e se, de facto, tem sentido.

A composio particular da obra em questo, bem como a sua natureza pstuma,

obriga-nos a apresentar, antes de mais, a explicao da origem e autonomia dos seus

captulos. Os textos que compem A Promessa da Poltica foram seleccionados pelo

seu editor, Jerome Kohn, que nos indica, na sua Introduo, que a obra corresponde a

uma colectnea de textos cujo destino final previsto, mas no realizado por Hannah

Arendt, diz respeito a dois projectos independentes, aos quais a autora se dedicou

durante a dcada de 1950. O primeiro seria o de completar a obra publicada em 1951,

As Origens do Totalitarismo, abordando temas que a ficaram por explorar,

nomeadamente os Elementos Totalitrios no Marxismo, uma investigao que seria

tambm uma janela de reflexo para o pensamento da prpria tradio do pensamento

poltico. Este o horizonte programado mas no realizado dos textos que compem a

primeira metade de A Promessa da Poltica. No podemos deixar de referir que o

primeiro captulo desta obra, Scrates, foi anteriormente publicado na revista Social

Research, em 1990, numa verso ligeiramente diferente6. A segunda parte, que

corresponde integralmente ao captulo/ensaio Introduo na Poltica, refere-se a um

segundo livro que Arendt abandonou e que, de certo modo, viria a completar a obra de

Karl Jaspers Introduo na Filosofia (1950). Os textos que integram Introduo na

Poltica foram escritos originalmente em alemo e publicados pela primeira vez em

1993, numa cuidada edio de Ursula Ludz7. A primeira seleco, que versa sobre o

preconceito contra a poltica e o juzo poltico, data de 1956-57, enquanto as outras

seces, que se ocupam dos temas sobre o sentido da poltica e a questo da guerra,

foram escritas entre 1958-59. Embora tenha abandonado este projecto, Hannah Arendt

continuou a usar o seu ttulo para um curso que leccionou na Universidade de Chicago,

no ano de 1963. O Eplogo corresponde concluso de uma palestra intitulada A

Histria da Teoria Poltica, que Hannah Arendt realizou na Universidade de

6 Hannah ARENDT, Philosophy and Politics, in Social Research, volume 57, n. 1, Primavera de 1990.

7 Hannah ARENDT, Was is Politik?, ed. U. Ludz, Piper Verlag, Munich, 1993.

12

Califrnia-Berkeley, na Primavera de 1955.8 Assim, apesar da publicao anterior de

dois dos textos que compem A Promessa da Poltica, a recente publicao da obra

original cumpre o fim importante de disponibilizar textos e tradues inditas na lngua

inglesa. J a publicao deste livro em Portugal permite, neste caso, o acesso a textos

completamente inditos na sua traduo para a lngua portuguesa. Note-se que embora

os textos Scrates e Introduo na Poltica tenham um eco considervel na

recepo crtica do legado de Hannah Arendt, esta ter de ser sempre reconsiderada a

partir da novidade possvel e latente nas publicaes de novos escritos. A Promessa da

Poltica no implica um confronto com as principais interpretaes da teoria poltica de

Hannah Arendt, mas permite e adensa novas discusses, incluindo o dilogo existente

no interior da prpria obra da autora.

A origem, o desenvolvimento e o culminar, de um ponto de vista terico que se

confunde muitas vezes com o histrico, da tradio do pensamento poltico so

discutidos na primeira metade de A Promessa da Poltica, enquanto a origem e a

definio da experincia poltica autntica, os preconceitos contra a poltica em geral e a

importncia do juzo na aco poltica em particular merecem uma ateno detalhada no

incio da segunda metade da obra. No mundo contemporneo9, considerando-se o

desenvolvimento extraordinrio dos meios de destruio e violncia, o perigo que

sempre pode emergir da imprevisibilidade da aco nunca esteve to presente ou se

mostrou mais iminente. A poltica no s deixou de ser til organizao social como

passou a ser indesejvel, no sentido da preservao da espcie humana. Nas ltimas

seces de Introduo na Poltica, Arendt responde fundamentalmente questo

sobre se a poltica ter ainda sentido. Se a coragem, a liberdade e a dignidade humana

constituem o sentido perdido da poltica, ento a experincia especificamente poltica

que tem ser restabelecida e o seu espao prprio, a esfera pblica, reconstrudo. No

8 No podemos deixar de lamentar aqui o facto de a nica edio portuguesa de Promise of Politcs no

fazer referir a origem ou anteriores publicaes dos textos que compem os captulos da obra, sob pena

de se indiciar incorrectamente a natureza do livro que afinal a de uma compilao de textos

anteriormente dispersos. A ausncia quase total, na edio traduzida, das informaes importantes que o

editor original fornece, poder no prejudicar o leitor especializado, mas sem dvida encurta as

possibilidades do acesso universal a uma obra filosfica que, julgamos, deve transpor as paredes de uma

biblioteca universitria e dar-se a conhecer, digamos, de forma desocultada.

9Para Hannah Arendt, a contemporaneidade tem o seu incio poltico aquando das primeiras exploses

atmicas [first atomic explosions], in HC, p. 6.

13

temos de banir a poltica do mundo, antes temos de nos libertar dos preconceitos que

minam a poltica. Esta liberdade, provavelmente, s poder ser obtida se em cada era se

julgarem as possibilidades de aco que o mundo apresenta. Mas ser hoje possvel a

poltica?

Em A Promessa da Poltica a crtica da tradio do pensamento poltico um

tema transversal a todos os captulos. Em Scrates Arendt desenvolve a questo sobre

o conflito entre filosofia e poltica que inaugura a tradio filosfica, a partir de uma

interpretao original da filosofia poltica de Plato e da figura de Scrates, enquanto

nos captulos seguintes, incluindo o Introduo na Poltica, a fundao de Roma,

uma segunda origem da tradio do pensamento poltico e a filosofia poltica de Marx, o

ltimo pensador moderno, bem como a filosofia da histria de Hegel, que ocupam a

investigao que delinear os aspectos fundamentais que definem o que Arendt chama

de tradio, cujo culminar corresponde ao colapso da Era Moderna. Considerando

tambm o ltimo captulo, Introduo na Poltica, verificamos que a experincia

poltica da Modernidade encontra aqui uma reflexo particular que se diferencia da que

se debrua sobre a anlise dos sintomas da sua falncia, tal como a que caracteriza o

ltimo captulo de A Condio Humana (1958), no qual Arendt reflecte sobre as

origens da alienao do mundo moderno, o seu duplo voo da Terra para o universo e do

mundo para dentro do homem10

. Os estudos em torno do tema da Modernidade

realizados por crticos reconhecidos entre os comentadores de Hannah Arendt, como

Maurizio Passerin DEntrves, Dana Villa ou Jacques Taminiaux11

, encontram-se

incompletos pela ausncia da referncia herana romana do senso comum e da trade

tradio, autoridade e religio, uma combinao de conceitos importante para

compreender a tradio do pensamento poltico que surge, precisamente, em A

Tradio do Pensamento Poltico para explicar o colapso da Modernidade12

.

10

[()to trace back moderns world alienation, its twofold flight from the earth into the universe and

from the world into the self ()], in Hannah ARENDT, HC, p. 6.

11 Cf. Maurizio Passerin DENTRVES, The Political Philosophy of Hannah Arendt, Routledge, London,

1994; Dana R. VILLA, Arendt and Heidegger: The Fate of the Political, Princeton University Press,

Princeton, 1996; Jacques TAMINIAUX, Athens and Rome, in The Cambridge Companion to Hannah

Arendt, Cambridge University Press, Cambridge, 2000.

12 Portanto, este captulo tambm acrescenta esta vertente reflexo presente em What is Authority?, in

Hannah ARENDT, BPF.

14

Para a realizao da investigao proposta concentramo-nos, obviamente, no

livro A Promessa da Poltica. Contudo, e no podendo deixar de abordar

justificadamente outros textos de Hannah Arendt, consideramos que a leitura de

Introduo na Poltica torna imprescindvel a associao de outras duas obras, em

particular, A Condio Humana (1958) e Sobre a Revoluo (1965). A primeira frase do

captulo referido13

, na verdade, a primeira premissa da teoria poltica de Hannah

Arendt, e, neste sentido, defendemos que a pluralidade a categoria poltica primeira do

seu pensamento. A sustentao desta ideia torna indispensvel o estudo sobre a

condio humana, em particular, das actividades humanas especificamente polticas, a

aco e o discurso, tal como o que encontramos em A Condio Humana14

. Alm disso,

afirmando Arendt em Introduo na Poltica que o sentido da poltica a

liberdade15

, no poderamos deixar de abordar esses momentos nicos da nossa

histria que corresponderam a uma experincia autntica da poltica, os quais Arendt,

como um pescador de prolas, recupera do passado para iluminar o presente a

excelncia da vida na polis, na Grcia Antiga, e o tesouro perdido das revolues do

sculo XVIII e XX16

.

13

A poltica baseia-se no facto da pluralidade humana. [Politics is based on the fact of human

plurality.], in Hannah ARENDT, Introduction into Politics, PP, p. 93.

14 Aps a publicao de A Condio Humana (1958), Hannah Arendt troca correspondncia com a

Rockefeller Foundation, no sentido de procurar financiamento para o novo livro que quer publicar o

projecto inacabado de Introduo na Poltica onde explica que a obra anterior uma espcie de

prolegmenos desse novo livro que tinha em mos. [is a kind of prolegomena to the book which I now

intend to write. It will continue where the other book ends], in M. CANOVAN, Hannah Arendt: A

Reinterpretation of Her Political Thought, p. 100.

15 [The meaning of politics is freedom], in Hannah ARENDT, Introduction into Politics, PP, p. 108.

16 Hannah Arendt inspirou-se no mtodo de Walter Benjamim, o qual formulou de modo exemplar:

Como um pescador de prolas que desce ao fundo do mar, no para o escavar e faz-lo aparecer mas

para extrair das profundezas o rico e o estranho, as prolas e o coral, trazendo-as superfcie, este pensar

mergulha nas profundezas do passado mas no para o ressuscitar tal como era e contribuir para o

renascimento de eras extintas. [Like a pearl diver who descend to the bottom of the sea, not to excavate

the bottom and bring it to light but to pry loose the rich and the strange, the pearls and the coral in the

depths and to carry them to the surface, this thinking delves into the depths of the past but not in order

to resuscitate it the way it was and to contribute to the renewal of extinct ages.], in Hannah ARENDT,

Walter Benjamin: 1892-1940, MDT, p. 205.

15

*

Hannah Arendt um dos nomes maiores do conjunto dos pensadores mais

originais e controversos do sculo XX. O poder da novidade do seu pensamento

evidente nas obras j mencionadas, mas tambm em As Origens do Totalitarismo

(1951), Eichmann em Jerusalm: um relato sobre a banalidade do mal (1963) e A Vida

do Esprito (1978). Nestas obras e em numerosos ensaios, Arendt reflectiu sobre os

acontecimentos polticos mais importantes de seu tempo, tentando compreender o seu

significado e importncia histrica, e demonstrando como tais eventos afectaram as

nossas categorias de julgamento moral e poltico. Proporcionar uma nova perspectiva

sobre a natureza da vida poltica a trama sob a qual se inscrevem a maioria dos seus

trabalhos. Todavia, Hannah Arendt no escreveu tratados de filosofia poltica, razo

pela qual os seus crticos e comentadores se tm dedicado a essa difcil tarefa de

reconstituio da sua teoria poltica num nico corpus teoricus. Neste campo, destacam-

se os trabalhos de Maurizio Passerin DEntrves17

e Margaret Canovan. Note-se que

esta autora, uma vez confrontada com a existncia dos textos que agora integram A

Promessa da Poltica, na altura no publicados, viu-se obrigada a rever as teses de um

primeiro livro seu (1974) que estabelecia o desenho de uma teoria poltica em Hannah

Arendt, publicando um outro livro, em 1992, intitulado Hannah Arendt: uma

reinterpretao do seu pensamento poltico18

.

A teoria da aco que Hannah Arendt nos apresenta em A Condio Humana

est j implcita nA Promessa da Poltica, ainda que de forma no sistematizada a

aco como a ventura do discurso e da aco entre pares, como iniciar algo de novo que

no pode ser conhecido de antemo, como fundao do espao pblico, como promessa

e perdo. Aproximamo-nos da interpretao de Seyla Benhabib19

que identifica no

pensamento de Arendt uma verso agonstica da praxis aristotlica, sublinhando a

17

Ver Maurizio Passerin DENTRVES, The Political Philosophy of Hannah Arendt.

18 Ver Margaret CANOVAN, The Political Thought of Hannah Arendt, J. M. Dent, London, 1974; Idem,

Hannah Arendt: A Reinterpretation of Her Political Thought, Cambridge University Press, Cambridge,

1992.

19 Ver Seyla BENHABIB, The Reluctant Modernism of Hannah Arendt, Cap. VI, Rowman & Littlefield

Publishers, Inc., EUA, 2003; Idem, Hannah Arendt and the Redemptive Power of Narrative, in Hannah

Arendt Critical Essays, ed. Lewis P. Hinchman and Sandra K. Hinchman, State University of New York

Press, New York, 1994.

16

existncia de uma dimenso narrativa fundamental na aco, enquadrada numa esfera

pblica essencial. No captulo Scrates identificamos argumentos que confluem para

esta ideia, entre os quais uma interpretao da maiutica de Scrates como prtica

poltica e a definio da poltica como a actividade que se centra na discusso de

opinies opinies que so, na verdade, modos subjectivos e singulares de apario do

mundo, que traduzem o lado pblico do mundo. Sobre esta temtica no podemos

ignorar os ensaios crticos de Habermas, muito menos a sua teoria sobre aco

comunicativa20

. J referimos importantes estudos sobre o tema da modernidade no

pensamento de Hannah Arendt, contudo, de salientar a investigao de Seyla

Benhabib sobre o lugar do prprio pensamento arendtiano na tradio da filosofia

poltica moderna21

, com quem Dana Villa incontornavelmente dialoga nos seus

trabalhos que disputam a resposta a esta questo22

.

Apesar da j bastante extensa bibliografia sobre Hannah Arendt, o debate sobre a

sua classificao mantm-se em aberto e tem sido ciclicamente reanimado sempre que

surge uma tentativa de apropriao do seu pensamento. Nenhuma descrio da sua obra

inocente. So sempre, ou quase sempre, armas numa batalha interpretativa, como

Dana Villa observa. No obstante, a sua teoria poltica no pode ser caracterizada com

base nas categorias tradicionais do conservadorismo, liberalismo, social-democracia ou

socialismo. Nem to pouco pode simplisticamente ser equiparada ao ressurgimento do

pensamento poltico comunitarista que se encontra, por exemplo, nos escritos de A.

MacIntyre, M. Sandel, C. Taylor e M. Walzer. A concepo arendtiana centra-se na

ideia de uma cidadania activa, isto , sobre o valor e a importncia do comprometimento

poltico e da aco e deliberao colectivas sobre todos os assuntos que afectam a

comunidade poltica. Para Arendt a poltica a experincia performativa e positiva da

liberdade, a de agir e falar em conjunto. Se h uma tradio de pensamento com o qual

Arendt pode ser identificada, a tradio clssica do republicanismo, originria de

Aristteles e incorporada nos escritos de Maquiavel, Montesquieu, Jefferson e

Tocqueville. De acordo com esta tradio, a poltica encontra a sua expresso autntica

20

Ver Jrgen HABERMAS, Hannah Arendt's Communications Concept of Power, Op. Cit.; Idem, The

Structural Transformation of the Public Sphere, MIT Press, Massachusetts, 1991.

21 Ver Seyla BENHABIB, The Reluctant Modernism of Hannah Arendt.

22 Ver Dana R. VILLA, Hannah Arendt: Modernity, Alienation, and Critique, in Hannah Arendt and

the Meaning of Politics, ed. Craig Calhoun and John McGowan, University of Minnesota Press,

Minneapolis, 1997.

17

sempre que os cidados se renem num espao pblico para deliberar e decidir sobre

assuntos de interesse comum. A actividade poltica no valorizada enquanto meio

gerador de consensos em torno de uma concepo partilhada do bem, mas sim porque

permite a cada cidado e cidad experimentar o poder da aco concertada e, nas

palavras de Arendt, gozar de igualdade e distino23

.

Vrios comentadores tm discutido elementos particulares da teoria poltica de

Hannah Arendt no sentido de formular o contedo de proposta implcito nas suas obras,

inscrevendo-o tanto no campo de uma democracia participativa-radical ou no da

tradio liberal-representativa. Entre esses elementos encontram-se a importncia da

esfera pblica, a particular noo de aco poltica inspirada tanto na experincia da

liberdade gozada na polis grega, como nos conselhos revolucionrios dos sculos XVIII

e XX, a sugesto de um sistema de concelhos, a crtica ideia moderna de

representao poltica e a averso terica ao princpio de dominao como correlato

obrigatrio da poltica. Por conseguinte, as diversas interpretaes do seu pensamento

tm-se ocupado com a investigao sobre a vertente constitucional ou emancipatria24

da sua teoria poltica, sobre a defesa de um sistema de conselhos25

que Arendt nunca

chegou a concretizar e sobre as vantagens da restaurao da excelncia e dignidade da

aco poltica26

. Apesar das crticas comuns, como as que apontam em Arendt a

ausncia de uma justificao para a relao entre legitimidade poltica e esfera pblica,

ou a ausncia de uma dimenso normativa da poltica, no que diz respeito a questes

sobre justia poltica e social, ou ainda as que denunciam a insuficincia da sua teoria

do poder, consideramos que no seu legado, e em particular nA Promessa da Poltica,

h um claro propsito de esboo de uma estrutura poltica que ilustre a possibilidade de

realizao de princpios polticos alternativos. A forma da organizao poltica

encontra-se implcita na sua crtica da tradio do pensamento poltico e no estudo

23

[Human plurality, the basic condition of both action and speech, has the twofold character of equality

and distinction.], in Hannah ARENDT, HC, p. 175.

24 Ver, por exemplo, Jeremy WALDRON, Arendts constitutional politics, in The Cambridge

Companion to Hannah Arendt; Nancy FRASER, Communication, Transformation, and Consciousness-

Rising, in Hannah Arendt and the Meaning of Politics.

25 Ver John F. SITTON, Hannah Arendt's Argument for Council Democracy, in Hannah Arendt

Critical Essays.

26 Ver George KATEB, Political action: its nature and advantages, in Cambridge Companion to

Hannah Arendt.

18

aprofundado desses princpios alternativos: democracia directa, experincia da liberdade

e da felicidade pblicas, uma arena propcia formao e discusso da opinio poltica

e a ideia de comprometimento poltico baseado num ideal de soberania pblica,

colectiva e deliberativa.

As palavras de Hannah Arendt continuam a inspirar-nos porque nos permitem

continuar a desejar a poltica aps as experincias totalitrias do sculo XX e enquanto

habitantes, mesmo que involuntrios, do deserto contemporneo que cresce a par do

triunfo do neo-liberalismo e das turbulncias da ps-modernidade. Podemos caracterizar

o seu pensamento como uma forma de existencialismo republicano, como prope

Margaret Canovan, ou de democracia radical, acompanhando Maurizio Passerin

dEntrves. Todavia, somos obrigados a enfrentar o paradoxo que provm da sua

problemtica distino entre o social e o poltico que, aparentemente, coloca em causa

os objectivos da aco poltica actual que tem (ou sempre teve) no seu horizonte

importantes problemas de justia social e econmica para resolver. Porm, este

paradoxo apenas se sustenta se mantivermos em mente a ideia de que a poltica um

meio e no um fim em si mesmo, e considerarmos o contrrio desta ideia como o

detonar da possibilidade de resistncia. O que Hannah Arendt sugere uma concepo

da poltica para l do diagnstico das questes sociais e econmicas. O sentido da

poltica, ou seja, aquilo que apenas revelado enquanto a actividade continua27

, a

liberdade, e, portanto, o princpio poltico no o elemento definidor que separa as

questes polticas das no-polticas, antes o que define a aco enquanto praxis

poltica, isto , agir e falar em conjunto. por esta razo que Arendt pode conciliar as

experincias das Revolues Americana e Francesa, com a dos sovietes na Rssia ou

com a das assembleias de estudantes no EUA, j no sculo XX. O que as liga o seu

potencial revolucionrio que, por ser comum, formulado para l da discusso

particular da constituio republicana, do programa do comunismo ou da revoluo

cultural.

O ponto fulcral da posio de Arendt que a constituio da liberdade ou a

experincia da poltica s poder surgir das diversas formas de participao activa e

deciso colectiva. A ideia de liberdade poltica s poder ser traduzida nos termos de

27

[() the meaning of activity can exist only as long as the activity continue.], in Hannah ARENDT,

Introduction into Politics, PP, p. 193.

19

uma rede de instituies e associaes, formais e informais e, alm disso, tem de ser

articulada de tal modo que constitua uma experincia viva para os envolvidos. A mesma

experincia de vida na polis grega ou de felicidade pblica na era da Revoluo

Americana reclamada por Arendt na proposta do sistema de conselhos. Trata-se da

capacidade universal da aco humana de criar um espao de liberdade, ainda que

dependente de circunstncias histricas e contingentes - s neste espao o facto

bsico da pluralidade humana, constitutivo da prpria condio humana da aco, pode

manifestar-se completamente como uma fora para a criao e preservao de um

mundo comum. A constituio da esfera poltica, isto , da liberdade pblica,

corresponde ento a um fenced-in space, a um espao especfico delimitado e

construdo, portanto, artificial, tal como o era a polis grega. Por conseguinte, a

experincia da poltica a de um momento contingente e tem um carcter performativo

essencial. A poltica significa acontecimento e comeo, implica a interrupo de

processos automticos.

A liberdade em sentido positivo apenas possvel entre iguais, e a prpria

igualdade no de modo nenhum um princpio universalmente vlido mas, de novo,

aplicvel apenas com limitaes e at dentro de limites espaciais. Se equipararmos estes

espaos de liberdade () com o prprio domnio poltico, seremos inclinados a pensar

neles como ilhas num mar ou osis num deserto28

.

A forma especfica da constituio em assembleia e do modelo de deliberao

colectiva que se baseia sobretudo na discusso e disputa de opinies entre iguais esse

modo de pensar alargado29

que Arendt recupera de Kant , na realidade, a descrio

da possibilidade da poltica no deserto. Por transformarem o espao pblico num espao

de liberdade efectiva, e por se constiturem no plano inclinado da normatividade, estes

osis iminentemente polticos podero corresponder a um lugar simultaneamente de

fuga e confronto dos diferentes sistemas de dominao e de opresso. Se h osis que

nos permitem viver no deserto sem nos reconciliarmos com ele, como refere Hannah

Arendt, indicando o potencial criador da relao sem mundo que inerente s relaes

28

[Freedom in a positive sense is possibly only among equals, and equality itself is by no means a

universally valid principle but, again, applicable only with limitations and even within spatial limits. If we

equate these spaces of freedom () with the political realm itself, we shall be inclined to think of them as

islands in a sea or a oases in a desert.], in Hannah ARENDT, OR, p. 267.

29 [enlarged way of thinking], Hannah ARENDT, BPF, Crisis of the culture, pp. 220.

20

entre seres humanos quando o nosso corao acede directamente ao do outro, como

na amizade, ou quando o espao-entre, quer dizer o mundo, se incendeia, como no

amor30

- h outros que colocam em causa o prprio deserto, sendo antes dadores de um

mundo comum, emergente no espao-entre os que agem concertadamente, e tornam,

hoje, a poltica possvel.

A imprevisibilidade e a irreversibilidade da aco tornam a actividade poltica

no risco da vida pblica, mas o poder da promessa torna-nos capazes do

comprometimento se a compreenso, por um lado, permite que sejamos

contemporneos do mundo que habitamos, a exposio pblica torna-nos actores nesse

mesmo mundo. Conciliando os sentidos homrico e aristotlico, para Hannah Arendt,

naqueles dois momentos, a coragem mantm-se como a primeira virtude poltica. Se

perguntarmos de modo no-arendtiano, tal como Hannah Arendt o faz em Introduction

into Politics, se a poltica tem ainda qualquer sentido, esta a resposta apesar do

colapso da modernidade e do impasse da contemporaneidade, ainda vale a pena o risco.

A humanitas nunca se adquire na solido, nem na entrega da obra ao pblico.

S a podem alcanar aqueles que empenharam a sua vida e a sua pessoa na incurso no

domnio pblico().31

.

Em A Promessa da Poltica, nomeadamente no captulo Scrates,

encontramos pontos de luz para uma compreenso mais profunda do juzo poltico em

Arendt, sobretudo enquanto actividade no solitria. Este , por exemplo, o ponto de

vista ausente da discusso entre Lisa Disch e Nancy Fraser32

, baseada

fundamentalmente no que afirmado em A Crise na Cultura - a capacidade de julgar

assenta num potencial acordo com os demais33

. Se, neste texto, Hannah Arendt insiste,

30

[() when one heart reaches out directly to the other, as in friendship, or when the in-between, the

world, goes up in flames, as in love.], in Hannah ARENDT, Epilogue, PP, p. 202.

31 [Humanitas is never acquired in solitude and never by giving ones work to public. It can be achieved

only by one who has thrown his life and his person into the venture into the public realm ().], in

Hannah ARENDT, Karl Jaspers: a Laudatio, MDT, pp. 73-74.

32 Cf. Lisa DISCH, Please sit Down, but Dont Make Yourself at Home: Arendtian Visiting and the

Prefigurative Politics of Consciousness-Raising, in Hannah Arendt and the Meaning of Politics; Nancy

FRASER, Op. Cit.

33 [The power of judgment rests on a potential agreement with others], in Hannah ARENDT, Crisis of

the Culture, BPF, p. 220.

21

a partir da Terceira Crtica de Kant, numa forma de pensar diferente, segundo a qual

estar de acordo consigo mesmo no suficiente e, deste modo, as implicaes morais e

polticas da descoberta do princpio da no-contradio por Scrates so superadas; em

Scrates, atravs da reinterpretao poltica da dialctica socrtica, Arendt fornece

pistas sobre o modo de discusso e deliberao colectiva que no pode apenas partir da

pressuposio da viso do outro ou do colocar-se no lugar do outro, sendo antes

tambm um mtodo de conhecimento activo da opinio do outro, que ser sempre outra

viso do mundo.

22

1. A Condio Humana da Poltica

1.1. A Poltica e o facto da pluralidade humana

A poltica baseia-se no facto da pluralidade humana a afirmao que inicia o

texto Introduo na Poltica34

e que desde logo situa a questo sobre o que a poltica

no centro de uma reflexo antropolgica. Alis, afirma a pluralidade como a condio

antropolgica da poltica. Esboando uma crtica do universal, neste artigo Hannah

Arendt defende a hiptese de que a actividade poltica s possvel porque a espcie

humana se caracteriza pela multiplicidade das singularidades, ou seja, a espcie cuja

definio contm a descrio do elemento agregador que ao mesmo tempo o que

impe a diferenciao essencial. Todos os seres humanos so singularidades e isso o

que impede a sua referncia universal, pelo menos no plano poltico.

Porventura, o conceito de diferena assume tanta ou mais importncia no

pensamento poltico de Hannah Arendt como o conceito de igualdade. Trata-se do

assinalar da diferena como o elemento que, na verdade, permite o agir em conjunto, e

no o que segrega ou separa. A contradio aparente, pois esta ateno especial ao

elemento da diferena, no que diz respeito ao estudo do modo como, em ltima anlise,

se constroem corpos polticos, aprofundada nos vrios temas tratados por Arendt, seja

a propsito da descrio crtica das actividades que compem a condio humana,

nomeadamente, a aco, no seu conceito de histria como o relato do imprevisvel ou o

conjunto dos contos sobre os seres singulares, ou no conjunto da reflexo sobre a

relao entre filosofia e poltica, nomeadamente, na crtica do universalismo platnico

presente na fundao da tradio do pensamento poltico que culmina na Modernidade.

Hannah Arendt refere em Introduo na Poltica que a ideia de pensar a poltica

associada ao facto da pluralidade humana no comum nem tem sido a via

experimentada. Desde sempre a filosofia e a teologia se referiram ao homem e no aos

homens. Se deus criou o homem, os homens so ento um produto humano e terreno,

34

[Politics is based on the fact of human plurality.], in Hannah ARENDT, Introduction into Politics,

PP, p. 93.

23

so produto da natureza humana. Para a totalidade do pensamento cientfico existe

somente o homem, o conceito universal, a ideia, tanto na biologia como na psicologia,

tal como na teologia e na filosofia. Do mesmo modo, para a zoologia, s existe o leo.

No entanto, s os lees se poderiam preocupar com os lees35

. Os seus enunciados

estariam correctos se existissem apenas um ou dois seres humanos ou apenas seres

humanos idnticos. por esta razo, diz Arendt, que nunca se descobriu realmente na

filosofia uma resposta vlida questo sobre o que a poltica.

No fundo, Hannah Arendt prope que pensemos a poltica procurando-se uma

definio e estabelecendo-se as suas condies de possibilidade, no configurando a

reflexo em busca da unidade que permita compreender o todo ao qual se refere,

humanidade, mas antes visando apenas o todo tomado na sua explcita multiplicidade.

Considerando que a poltica se ocupa da coexistncia e da associao de homens e

mulheres diferentes, poderemos dizer que as pessoas se organizam politicamente de

acordo com certos aspectos comuns essenciais que descobrem num absoluto caos de

diferenas. Contudo, a ideia de que a pluralidade humana a condio bsica da aco e

do discurso tem, aponta Arendt, o duplo aspecto da igualdade e da diferena. Como

refere em A Condio Humana36

, se no fossem iguais, os homens seriam incapazes de

compreender-se entre si e aos seus antepassados, ou de fazer planos para o futuro e

prever as necessidades das geraes vindouras. Se no fossem diferentes, se cada ser

humano no diferisse de todos os que existiram, existem ou viro a existir, os homens

no precisariam do discurso ou da aco para se fazerem entender. Com simples sinais e

sons poderiam comunicar as suas necessidades imediatas e similares.

Por conseguinte, o ser humano possui essa espantosa capacidade de exprimir a

diferena e distinguir-se, isto , s ele capaz de se comunicar a si prprio e no

apenas comunicar alguma coisa como sede, fome, afecto ou hostilidade. A alteridade no

humano ento a caracterstica que este possui em comum com tudo o que existe, mas a

distino, partilhada com tudo o que vive, torna-se na sua singularidade. Por

35

[Lions would be of concern only to lions.], in Hannah ARENDT, Introduction into Politics, PP, p.

93.

36 [If men were not equal, they could neither understand each other and those who came before them nor

plan for the future and foresee the needs of those who will come after them.], in Hannah ARENDT, HC,

p. 175.

24

conseguinte, Arendt descrever a diferenciao humana como a paradoxal pluralidade

dos seres singulares37

. Com as devidas reservas sobre a possibilidade desta distino

ser possvel noutros seres vivos animais, esta excepo presente no humano

compreende-se na descrio das suas condies de possibilidade que, por sua vez,

distinguem as condies humanas da aco e do discurso. Esta possibilidade da

singularidade e da sua expresso justificam a afirmao de Arendt de que ser diferente

no equivale a ser outro38

, isto , a pluralidade baseia-se na singularidade e no na

alteridade (embora este seja um aspecto fundamental), isto , a diferena baseia-se mais

na distino do que no mero processo de diferenciao e multiplicao. Trata-se de uma

radicalizao do ponto de vista, no sentido em que cada ser humano constitui um

inigualvel ponto de referncia do mundo e de si mesmo. Cada ser singular um centro

a partir do qual o mundo e a alteridade so convocados e avaliados.

A fundao de corpos polticos tem na sua base, desde Aristteles, o conceito de

famlia. So concebidos, portanto, sua imagem. Nas famlias, o parentesco tanto

permite ligar diferenas individuais extremas como tambm o meio pelo qual cada

grupo pode, entre outros, ser separado e comparado. Nesta forma de organizao, se nos

ocuparmos do homem, toda a diferenciao original efectivamente erradicada ao

mesmo tempo que destruda a igualdade essencial de todos os que pertencem ao grupo

(famlia).

A runa39

da poltica, segundo Hannah Arendt, que segue nestas duas direces

a da anulao simultnea da diferena e da igualdade tem origem no modo como os

corpos polticos se desenvolveram a partir da famlia40

. Porque ao vermos a famlia

como estando acima da participao activa de uma pluralidade como que comeamos a

desempenhar o papel de Deus, agindo como se pudssemos naturalmente escapar ao

37

[() human plurality is the paradoxical plurality of unique beings], in Hannah ARENDT, HC, p.

176.

38 [Human distinctness is not the same as otherness ()], in Hannah ARENDT, HC, p. 176.

39 [the downfall of politics], in Hannah ARENDT, Introduction into Politics, PP, p. 94.

40 Numa nota do II Captulo de HC (nota 22), Hannah Arendt faz referncia obra de Fustel de

Coulanges, The Ancient City (Ed. Anchor, 1956), na qual este autor afirma que todas as palavras gregas e

latinas que exprimem algum tipo de governo de um homem sobre os outros, como rex, pater, anax,

basileus, referiam-se originariamente a relaes familiares e eram nomes que os escravos davam aos seus

senhores.

25

princpio da diferenciao humana. Assim, em vez de se encarar cada ser humano, age-

se no sentido de criar o homem nossa semelhana.

As famlias so fundadas como refgios e poderosas fortalezas num mundo

inspito e estranho, no qual queremos introduzir o parentesco41

.

O que Arendt coloca considerao uma crtica ao conceito de pertena,

enquanto conceito fundamental no pensamento poltico e social, isto , essa ideia de que

cada um e cada uma se relaciona e se funda como ser singular nas relaes de

parentesco e semelhana que vai estabelecendo com outros, criando pontes sobre as

diferenas, diluindo-as apenas no interior de cada grupo de tal modo que o elemento que

permite o grupo o que o distingue dos outros, facilitando-se apenas a comunicao e o

agir colectivo dentro de cada conjunto. Aqui pode-se referir o grupo como uma famlia,

tal e qual, mas tambm como um partido, um colectivo, uma associao, um movimento

social. Em termos prticos ou polticos, a famlia adquire a sua importncia no facto do

mundo estar organizado de tal maneira que no h dentro dele lugar para o indivduo,

isto , no h lugar para algum que seja diferente. este o aspecto que Arendt sublinha

no seu texto, o de as famlias surgirem como refgios, como poderosas fortalezas num

mundo inspito e estranho, isto , funcionam como escape convivncia com a

pluralidade. Desejar neste mundo o parentesco conduz perverso fundamental da

poltica uma vez que tal proscreve a qualidade essencial da pluralidade.

O universal Homem, tal como a filosofia e a teologia o conhecem enquanto

universal masculino que discriminatoriamente o referente para qualquer membro da

espcie humanidade, incluindo as mulheres existe na poltica apenas nos termos dos

direitos iguais que aqueles que so extremamente diferentes garantem uns aos

outros42

. De facto, esta garantia voluntria e esta concesso de uma exigncia de

igualdade jurdica reconhecem a pluralidade humana na poltica mas apenas na sua

sublimao.

Hannah Arendt aponta duas razes fundamentais para o facto de a filosofia no ter

encontrado um lugar onde a poltica pudesse ganhar forma. A primeira diz respeito

41

[Families are founded as shelters and mighty fortresses in an inhospitable, alien world, into which we

want to introduce kinship.], in Hannah ARENDT, Introduction into Politics, PP, p. 94.

42 [Man exists () in politics only in the equal rights that those who are most different guarantee for

each other.], in Hannah ARENDT, PP, Introduction into Politics, p. 94.

26

considerao de que h no homem alguma coisa de poltico que pertence sua essncia.

No entanto, segundo Arendt, o homem apoltico, isto , a humanidade considerada na

sua ideia nada tem de poltica, ou melhor, considerando-se os seres humanos

universalmente, de um ponto de vista geral, perde-se a hiptese de encontrar a dimenso

poltica da humanidade. A poltica emerge entre homens43

, diz-nos Hannah Arendt,

isto , resulta da aco conjunta e entre seres humanos, e tem, como veremos, uma

dimenso espacial prpria a poltica como uma rede que surge entre os vrios

indivduos quando estes falam e agem em conjunto. por esta razo, portanto, que

dito que a poltica est no exterior do homem ou que no h substncia poltica real. A

poltica est nesse entre que liga e relaciona homens e mulheres, no plural.

Considerando-se a falta de uma condio de universalidade, Arendt afirma que a

poltica teve dificilmente um lugar especfico na tradio filosfica, surgindo diluda

noutras questes que lhe so posteriores como a dos sistemas polticos (o problema da

organizao social) ou as do debate sobre o que o homem dividido entre os estados de

natureza e social. A segunda razo tem a ver com a concepo monotesta de deus, no

mbito da cultura judaico-crist, onde a ideia de que o homem foi criado semelhana

de um deus implica que ento s exista este homem enquanto os homens e as mulheres,

os seres singulares, se tornam uma repetio mais ou menos bem conseguida do mesmo.

Arendt refere que este homem criado semelhana da natureza solitria de deus que

est na base do estado de natureza hobbesiano enquanto guerra de todos contra todos.

Deste modo, a soluo do Ocidente para escapar da impossibilidade da poltica no

interior do mito ocidental da criao foi transformar a poltica em histria ou mesmo

substituir a poltica trocando-a pela histria. Por conseguinte, na ideia de histria

mundial a multiplicidade dos homens fundida num indivduo humano e j no falamos

do homem, falamos da humanidade. Arendt rejeita completamente esta ideia, ou esta

forma de subsumir a pluralidade humana num sujeito aglomerador e homogneo tanto

na histria como na poltica, e por isso afirma que esta a origem do aspecto

monstruoso e inumano da histria, cumpre em primeiro lugar na poltica o seu fim

completo e brutal44

.

43

[Politics arises between men], in Hannah ARENDT, Introduction into Politics, PP, p. 95.

44 [This is the source of the monstrous and inhuman aspect of history, which first accomplishes its full

and brutal end in politics.], in Hannah ARENDT, Introduction into Politics, PP, p. 95.

27

Se a liberdade s existe no espao intermdio e nico da poltica45

, a

necessidade da histria funciona como qualquer outra priso que subtrai a possibilidade

da distino, ou seja, subtrai a expresso da singularidade na aco, tornando-a um

movimento reflexo de um invisvel. Nos termos do pensamento arendtiano, a

consequncia desta hiptese experimentada a subtraco da condio do humano no

humano, logo a transformao da pluralidade em mera multiplicao o que d lugar a

tempos sombrios.

Sintetizando, a poltica nada diz acerca do homem, tal como este nada poder

dizer da poltica uma vez que desde o incio que a poltica organiza aqueles que so

absolutamente diferentes tendo em ateno a sua igualdade relativa, contrapondo-a s

suas relativas diferenas.

1.2. Poltica e Vida Activa

Na obra A Condio Humana de Hannah Arendt encontramos uma reflexo

profunda sobre o tema da condio humana e a elaborao de um novo conceito de

Poder que recupera e implica novas noes como a do espao pblico como espao de

poder, a da legitimidade da organizao comunitria assente num contracto social

original, a do ser humano como animal poltico, a da esfera da aco humana como a

esfera poltica e a relao desta com as outras actividades humanas, a saber, o labor e o

trabalho. Esta recuperao de noes e conceitos surge plasmada numa reflexo crtica

que condensa a anlise das fontes e consequente evoluo do pensamento da tradio

ocidental nas suas vertentes filosfica, histrica, econmica, cientfica e poltica.

O sistema de pensamento de Arendt e a riqueza das suas influncias convergem

numa particular concepo antropolgica cujo alcance se visitar em parte aqui,

procurando estruturar um olhar tanto filosfico como poltico, tendo como horizonte o

seguinte problema os lugares ocupados, e os possveis, pelo homo faber e pelo animal

laborans no espao da aparncia como espao de poder. Alm disso, impe-se o

questionamento sobre as condies de manuteno do espao de poder, como espao de

45

[Freedom exists only in the unique intermediary space of politics.], in Hannah ARENDT,

Introduction into Politics, PP, p. 95.

28

aparncia e esfera da poltica, enquanto condies de apario da singularidade a

aco e o discurso so dois momentos fundamentais, no entanto, as diferentes

actividades, sejam as do labor ou do trabalho, traduzem tambm uma relao com o

mundo, uma forma de aparecimento, isto , espelham algo da condio humana.

Em primeiro lugar, convm precisar o que Arendt estabelece como sendo a

condio humana e qual a sua compreenso, uma vez que o seu pensamento poltico

surge numa relao muito prxima com a investigao antropolgica, ou seja, com a

busca, do ponto de vista filosfico, do trao antropolgico definidor do humano, bem

maneira da tradio da Modernidade, tentando resgatar o Homem do interior das

discusses sobre a existncia de uma natureza humana.

Numa visita subsidiria aos primeiros captulos da obra em questo deparamo-

nos com a original concepo de uma condio humana tendo por base o conceito de

vida como vida activa (recuperando a noo aristotlica de bios politikos) e associada

ideia de natalidade. Diversos conceitos so articulados num modo operativo especfico,

originando uma nova viso disso que o mundo e questionando at o prprio valor da

condio, em geral, e da que se pode dizer humana, em particular.

A expresso vida activa traduz-se em trs distintas actividades humanas

fundamentais, a saber, o labor, o trabalho e a aco. A cada uma destas actividades

corresponde uma condio bsica a partir das quais resulta a vida de um ser humano

neste planeta, o que justifica o seu carcter fundamental e a ideia de uma condio

humana espelhada em trs actividades.

A prpria Vida a condio humana do Labor. Este corresponde, na verdade, ao

processo biolgico do corpo humano, na medida em que se verifica uma estreitssima

relao entre o crescimento espontneo, o metabolismo e o eventual declnio do corpo

com as necessidades vitais produzidas pelo labor e introduzidas num alargado processo

vital.

Pelo Trabalho os seres humanos produziro um mundo artificial de coisas.

Esta a actividade que exprime aquilo que Hannah Arendt chamar o artificialismo da

existncia humana46

e para a qual se identifica a mundanidade como condio humana.

46

[unnaturalness of human existence], in Hannah ARENDT, HC, p. 7.

29

Este planeta que pr-existe humanidade e este mundo produzido por ela so

ento habitados por homens e mulheres, indivduos, seres singulares, que agem entre si,

directamente, sem a mediao das coisas ou da matria. Esta actividade, a Aco,

corresponde, portanto, condio humana da pluralidade.

Por conseguinte, so definidas trs actividades labor, trabalho e aco para as

quais se estabelece o que as tornam possveis, isto , as suas condies humanas

correspondentes a vida, a mundanidade e a pluralidade.

As relaes estabelecidas entre estas actividades e estas condies so melhor

compreendidas quando pensadas no mbito do dilogo nelas inerente com as condies

gerais da prpria existncia humana que no so mais do que o momento inaugural do

princpio da existncia e o momento do seu declnio: o nascimento e a morte, ou a

natalidade e a mortalidade. Deste modo, o labor dir respeito no s sobrevivncia do

indivduo, mas tambm vida da espcie; o trabalho e o seu produto o artefacto

humano - imprimem, ento, permanncia e durabilidade ao que Arendt chama a

futilidade da vida mortal mascarando-se assim o carcter efmero do tempo

humano47

; so a aco e a dimenso do discurso que fundam e preservam corpos

polticos, possibilitando assim a lembrana e consequentemente a histria.

a aco, como actividade humana, que est mais intimamente ligada

condio da natalidade pois, de facto, por ela que a singularidade, a individualidade, a

identidade se poder manifestar cada nascimento de um novo ser humano s sentido

porque a se encontra a possibilidade de se poder fazer algo de novo, isto , esse

nascimento no passa despercebido e ganha sentido pois est a um novo ser que pode

agir. A aco a condio de possibilidade da singularidade. A aco necessita,

portanto, de um espao que a potencie, que lhe d corpo, ao mesmo tempo que ela

prpria cria, influencia esse espao, dotando-o de caractersticas particulares e, deste

modo, na esfera pblica que a aco e o discurso tm o seu lugar por excelncia. Por

seu turno, esta esfera corresponde ao espao de aparncia e de poder tornando-se a

aco e o discurso as actividades polticas por excelncia. Ora, se na aco que cada

um e cada uma se mostra e constri a sua identidade, compreende-se que tal acontece no

espao onde tero de ser criadas as condies para tal apario ou aparecncia (o

47

[human artifact]; [futility of mortal life]; [fleeting character of human time], in Hannah

ARENDT, HC, p. 8.

30

espao de aparncia) o modo de organizao e criao de tais condies exprimir o

espao de poder. por esta razo que Arendt sugere que a natalidade, e no a

mortalidade, a categoria central do pensamento poltico, em contraposio ao

pensamento metafsico.

Se no fosse esta capacidade de iniciar, a condio humana estaria votada

fatalidade natural. Desse modo, os seres humanos estariam condenados a voltear para

sempre no ciclo incessante do processo vital, tal como a histria seria o resultado de um

processo condenado runa. Isto se a fatalidade fosse, de facto, a caracterstica

inalienvel dos processos histricos. Arendt tem por fim, nesta crtica ao conceito de

mortalidade, associado ao de fatalidade, demonstrar que os negcios humanos tm uma

fuga lei da mortalidade, que a nica lei segura de uma vida limitada entre o

nascimento e a morte48

. A faculdade de agir interfere com esta lei, uma vez que

interrompe o curso inexorvel e automtico da vida quotidiana, que por sua vez,

interrompe e interfere com o ciclo do processo da vida biolgica, graas aos factores da

novidade e da imprevisibilidade, caractersticas essenciais da aco humana e garantes

da prpria histria. Em clara oposio ao pensamento heideggeriano e ao conceito

existencial do ser para a morte, Arendt afirma em A Condio Humana - Fluindo na

direco da morte, a vida do homem arrastaria consigo, inevitavelmente, todas as coisas

humanas para a runa e a destruio, se no fosse a faculdade humana de interromp-las

e iniciar algo, faculdade inerente aco como perene advertncia de que os homens,

embora devam morrer, no nascem para morrer, mas para comear49

.

Segundo a sugesto de Arendt, compreendemos que tal como, na natureza, o

movimento rectilneo da vida de um ser humano entre o nascimento e a morte parece

constituir um desvio peculiar da lei natural comum do movimento cclico, tambm a

aco, do ponto de vista dos processos automticos que aparentemente determinam a

trajectria do mundo, parece um milagre. Trata-se do infinitamente improvvel que

48

[ () the law of mortality, which is the most certain and the only reliable law of life spent between

birth and death.], in Hannah ARENDT, HC, p. 246.

49 [The life span of man running toward death would inevitably carry everything human to ruin and

destruction if it were not for the faculty which is inherent in action like an ever-present reminder that

men, thought they must die, are not born in order to die but in order to begin.], in Hannah ARENDT,

HC, p. 246.

31

ocorre regularmente. Para Arendt, o milagre que salva o mundo50

o nascimento, no

qual a faculdade de agir se radica ontologicamente.

Estar isolado estar privado da capacidade de agir51

, afirma Arendt. De facto,

a aco e o discurso precisam da presena prxima de outros que no so meros

interlocutores passivos. Do ponto de vista da aco poltica, o agir conjunto, com

outros, de tal modo que da, do espao entre que preenchido, resulta a prpria poltica

e se constri o espao de poder, como veremos mais adiante. Mas a capacidade de agir

est essencialmente ligada capacidade de iniciar algo de novo, de criar, de iniciativa,

de imprimir movimento e por isso que a partir desse agir conjunto podero fundar-se

novos corpos polticos. Se as outras actividades humanas, como a fabricao, esto

circundadas pelo mundo e esto em permanente contacto com ele, a aco e o discurso

so circundados pela teia de actos e palavras de outros homens e mulheres e esto em

permanente contacto ela. Arendt aponta criticamente a ideia de que um homem forte,

isolado dos outros, deve a sua fora ao facto de estar s, enquanto o mito popular que

traduz a mera superstio baseada na iluso de que podemos fazer algo na esfera das

relaes humanas - fazer instituies ou leis, como quem faz cadeiras ou mesas.

Fazer no o mesmo que agir e isso mede-se na condio da solido. A fora de

que o indivduo necessita para qualquer processo de produo, seja intelectual ou

puramente fsica torna-se inteiramente intil quando se trata de agir52

, sendo que a

fora uma qualidade de um indivduo isolado, distinguindo-se do poder que tem uma

dimenso colectiva.

Sugestivos, do ponto de vista desta dimenso colectiva e plural essencial da

aco, so os verbos latinos e gregos que designam de duas maneiras o verbo agir.

Aos dois verbos gregos archein (comear, ser o primeiro e, finalmente,

governar) e prattein (atravessar, realizar e acabar) correspondem os dois

verbos latinos agere (pr em movimento, guiar) e gerere, cujo significado original

conduzir. Arendt utiliza este exemplo53

, como veremos, para demonstrar a falsidade

da bastante propagada possibilidade da fora extraordinria de um homem s ou da

50

[the miracle that saves the world], in Hannah ARENDT, HC, p. 247.

51 [To be isolated is to be deprived of the capacity to act.], in Hannah ARENDT, HC, p. 188.

52 [The strength the individual needs for every process of production becomes altogether worthless when

action is at stake ()], in Hannah ARENDT, HC, p. 188.

53 Ver Hannah ARENDT, HC, p. 189.

32

falcia do homem forte que poderoso por estar s, reflexos do governante tirnico

todo-poderoso ou do heri poltico solitrio.

Seguindo a histria do seu uso, prattein e gerere, as palavras que originalmente

designavam apenas a segunda parte da aco, ou seja, a sua realizao, passaram a ser

os termos reconhecidos para designar a aco em geral. J as palavras que designam

propriamente o comeo da aco adquiriram, segundo Arendt, um significado especial,

pelo menos na linguagem poltica. Assim, archein passou a significar governar e

liderar, e agere passou a significar liderar, em vez de pr em movimento. A

dupla significncia dos verbos que designam a aco espelham uma interdependncia

nas duas vertentes do verbo agir que se reflecte, por sua vez, na dependncia do

iniciador e lder em relao aos outros quanto a auxlio, e a dependncia dos seus

seguidores em relao a ele no que diz respeito a uma oportunidade de agir. Esta

interdependncia dividiu-se em duas funes completamente distintas, a de ordenar e

a de executar. O papel do iniciador e lder que agora tomado como o de governante

o de ordenar mas este est s, isolado contra os outros pela sua fora, at encontrar a

adeso dos outros, e a sua fora passar a medir-se pela sua iniciativa e no pela sua

realizao. Mas, mesmo que, enquanto governante bem sucedido, reivindique aquilo

que na verdade a realizao de muitos, este mais no faz do que monopolizar a fora

daqueles sem cujo auxlio ele jamais teria realizado coisa alguma.

Se agir, no sentido mais geral do termo, significa tomar a iniciativa, iniciar

(como indica o verbo grego archein), o nascimento como o primeiro acto da

singularidade, o que primeiro inicia e torna possvel toda a novidade posterior. Pela

novidade inerente, mas tambm pela imprevisibilidade que contm, o nascimento

adquire no pensamento de Arendt o estatuto de aco, uma espcie de aco fundadora

de si mesmo e por isso a nica realizada na solido. Quem chega ao mundo age uma

nica e derradeira vez isoladamente, nesse momento, pois atravs desse acto inicia-se a

relao com o prprio mundo onde esto os outros sem os quais no ser possvel agir

novamente.

Antes de avanar no sentido do estudo concreto das actividades que compem a

condio humana, na medida da sua relao com a poltica, importa compreender que

tipo de concepo e abordagem terica est presente na obra A Condio Humana, do

ponto de vista de uma antropologia filosfica.

33

A condio humana no apenas o conjunto das trs actividades anunciadas

nem se resume, portanto, enumerao das condies nas quais a vida foi dada ao

homem. Desde logo se torna evidente que esta condio humana na medida em que

diz respeito ao ser humano (existir, no mesmo sentido, uma condio animal). Ora, a

condio humana mais do que aquilo que possibilita o humano, tambm o que est

em relao com o ser humano limitando-o e/ou definindo-o e assim o seu conceito

permite a apreenso de uma realidade mais ampla Os homens so seres

condicionados: tudo aquilo com o qual entram em contacto torna-se imediatamente uma

condio da sua existncia54

. Segundo Arendt, o que est aqui em causa que tudo o

que espontaneamente entra no mundo humano, ou para ele trazido pelo esforo

humano, torna-se parte da condio humana. Tal afirmao traduz a ideia de que a

objectividade do mundo e a condio humana comunicam numa relao de

complementaridade porque se a nossa existncia condicionada, ento a existncia

humana seria impossvel sem as coisas e estas seriam um amontoado de artigos

incoerentes, uma espcie de no-mundo, isto se esses artigos no fossem

condicionantes da existncia humana.

A hiptese de uma analogia entre o pensamento de Hannah Arendt sobre a

condio humana e a concepo antropolgica kantiana permite alargar o horizonte da

compreenso, embora exista uma interessante descontinuidade nesta semelhana

terica.

No prefcio de Kant sua obra Antropologia numa abordagem pragmtica e

principalmente em A Religio nos limites da simples razo, encontramos um ser

humano dotado de trs disposies, capacidades fundamentais que, embora tenham

nomenclaturas e abordagens diferentes das utilizadas por Arendt, tambm correspondem

e so definidoras do trao antropolgico que nos apresenta um ser humano

condicionado e possibilitado, ou seja, so um conjunto de disposies cuja

concretizao permite a apario do humano no Homem.

Estas disposies so a tcnica, a pragmtica e a moral ou, mais concretamente,

a animalidade (condio de possibilidade de desenvolvimento enquanto ser vivo), a

humanidade (o ser humano mais do que um ser vivo tambm um ser racional) e a

54

[Men are conditioned beings because everything they come in contact with turns immediately into a

condition of their existence.], in Hannah ARENDT, HC, p. 9.

34

personalidade (sendo um ser racional -lhe exigido o exerccio da Liberdade, ou seja,

um ser moral e tambm um ser que constitui comunidades com outros seres da mesma

espcie). Poder-se-ia estabelecer uma aproximao relativa entre a condio da

animalidade e o labor, entre a condio da humanidade e o trabalho e entre a condio

da personalidade e a aco. Todos estes conceitos traduzem condies humanas, sendo

umas disposies, outras actividades.

Tentando impedir erros de interpretao, Arendt esclarece desde logo que a

condio humana de que fala, enquanto soma total das actividades e capacidades

humanas, no constitui a ideia de uma natureza humana. Esta advertncia tem como

objectivo afastar a ideia da possibilidade do conhecimento de uma essncia humana, ou

mesmo de uma resposta para a questo: Quem somos ns?55

. Numa outra passagem

de A Condio Humana56

Arendt afirma de facto que no existe uma natureza humana

em geral e defende que h uma essncia, a essncia de quem ele que passa a existir

depois de a vida acabar quando atrs de si se deixa apenas uma histria. Esta essncia

referente a um quem e que se conta numa histria mais no do que a singularidade

expressa nas aces de um vida. No se refere, portanto, ao conceito universal ou

humanidade tomada no seu todo, mas a cada um e cada uma em particular, sendo to

diversa e plural quanto distintos e plurais so os seres humanos.

Na verdade, Hannah Arendt insiste em chamar natureza quilo a que se refere

como o que a Modernidade estabeleceu como essncia humana, tentado chamar a

ateno para o mesmo problema que Kant apontou Kant ops-se criticamente a uma

teoria essencialista ou uma abordagem essencialista numa antropologia filosfica,

argumentando a partir da impossibilidade do conhecimento de uma essncia humana

(do ponto de vista transcendental no esto dadas as condies de possibilidade desse

tipo de conhecimento). Deste modo, na antropologia kantiana encontra-se a definio de

55

altamente improvvel que ns, que podemos conhecer, determinar e definir a essncia natural de

todas as coisas que nos rodeiam e que no somos, venhamos a ser capazes de fazer o mesmo a nosso

respeito: seria como saltar sobre a nossa prpria sombra [It is highly unlikely that we, who can know,

determine, and define the natural essences of all things surrounding us, which we are not, should ever be

able to do the same for ourselves this would be like jumping over own shadows.], in Hannah

ARENDT, HC, p. 10.

56 Ver Hannah ARENDT, HC, p. 193.

35

uma natureza humana correspondente a um conjunto de disposies especficas. Arendt

chamar-lhe- apenas condio humana.

Com efeito, neste ponto que surge uma demarcao de Arendt em relao

antropologia kantiana, pois a autora no pensa o ser humano enquanto smula de um

conjunto de disposies ou capacidades cuja concretizao permitir a actualizao do

humano, como se tal fosse o fim, o telos da nossa existncia, tornando a natureza

humana apenas uma potncia para Hannah Arendt o ser humano , na medida em que

condicionado pela vida, pela mundanidade, pela pluralidade, tambm contribuindo

para isso que a vida (laborando), o mundo (trabalhando ou fabricando) e a pluralidade

(agindo). Por conseguinte, a resposta questo Quem somos ns? no pode ser dada

pelas condies da existncia humana pois estas no nos condicionam absolutamente,

ou necessariamente (seno seria possvel conhecer uma essncia humana). Ser sempre

contingente a resposta que surge na prpria vida, na natalidade, na mortalidade, na

mundanidade, na pluralidade, no planeta Terra.

Tendo como objectivo compreender o que so as diferentes actividades que

constituem a condio humana, no sentido da sua relao com a poltica, implica

assumir desde j que a leitura crtica que se segue procura encontrar os lugares

ocupados e os (im)possveis do animal laborans, do homo faber e do homem ou mulher

de aco na esfera pblica, a arena onde a actividade poltica acontece.

atravs de uma expresso originria em J. Locke - o labor do nosso corpo e o

trabalho das nossas mos - que Arendt anuncia e deixa adivinhar desde logo a

distino entre labor e trabalho. Esta expresso surge como um novelo hermenutico-

explicativo tanto da distino como da descrio destas duas actividades que se

desenrola e tomado ao longo do texto. Pela anlise etimolgica e do uso histrico

destes dois termos, labor e trabalho, chega-se distino grega entre o artfice e o

escravo (os escravos eram designados como aqueles que trabalham com o corpo),

verificando-se, no entanto, que tanto no uso antigo como no uso moderno acontece algo

de particular que indicia ou sugere a compreenso das duas actividades e da sua

distino. Sendo o labor a expresso verbal de uma actividade, esta palavra permanece

at hoje sem o seu substantivo correspondente, ou seja, o vocbulo labor, como

substantivo, nunca designa o produto final ou o resultado da aco de laborar, antes se

mantm sempre como substantivo verbal. O contrrio acontece, como evidente, com o

36

verbo trabalhar e trabalho como substantivo, como resultado daquela aco

(embora tambm possa ser considerado como substantivo verbal). Esta particularidade

lingustica ganha razo de ser na considerao das actividades no culo da sua realidade

como se ver, o labor, ao contrrio do trabalho, nada deixa no mundo, nada do que

produz fica por referir ou significar.

Segundo Hannah Arendt pode-se constatar que ao longo dos tempos houve um

grande desprezo pelas actividades ligadas ao labor e tal desprezo tem origem na

verificada luta do homem contra a necessidade. Na verdade, estes dois conceitos, labor e

necessidade, esto intimamente ligados pois laborar significava ser escravizado pela

necessidade, escravido esta inerente s condies da vida humana57

.

Arendt refere que, na verdade, ao contrrio do que ocorreu nos tempos

modernos, a instituio da escravido na era antiga no foi apenas uma forma de obter

mo-de-obra barata ou gratuita, mas sim a tentativa de excluir o labor das condies da

vida humana; e comenta tambm que pelo facto de ser impossvel a excluso total da

esfera do labor, libertaram-se apenas alguns seres humanos, de modo a que estes

permanecessem humanos em detrimento de outros cuja natureza de define como animal

laborans.

A distino entre labor e trabalho adquire um indubitvel carcter antropolgico

quando apontada na considerao da diferenciao entre os conceitos de animal

laborans e de homo faber que condensam, respectivamente, as expresses o labor do

nosso corpo e o trabalho das nossas mos.

Na era moderna surge a distino entre trabalho produtivo e trabalho

improdutivo, a diferenciao entre trabalho qualificado e no-qualificado, a diviso de

todas as actividades entre trabalho manual e intelectual. Apenas a primeira permite

traduzir a diferena fundamental entre trabalho e labor: prprio do labor no deixar

vestgios no mundo, ou seja, o resultado do seu esforo consumido quase to

depressa como o esforo despendido58

.

57

[To labor meant to be enslaved by necessity, and this enslavement was inherent in the conditions of

human life.], in Hannah ARENDT, HC, pp. 9-10.

58 [It is indeed the mark of all laboring that it leaves nothing behind, that the result of its effort is almost

as quickly consumed as the effort is spent.], in Hannah ARENDT, HC, p. 87.

37

Ao longo da era moderna assiste-se a um crescente fascnio pela produtividade

real, sem precedentes na histria do mundo ocidental, tendendo-se a encarar o labor

como trabalho e consequentemente a falar do animal laborans de um modo que seria

mais adequado ao homo faber segundo Arendt, encarava-se irresistivelmente a

possibilidade de se esperar que faltasse apenas um passo para eliminar totalmente o

labor e a necessidade59

.

Foi porque a evoluo histrica retirou o labor do seu esconderijo, tornando-o

visvel na esfera pblica que este pode ser organizado e dividido. Mas a actividade do

labor, independentemente das circunstncias histricas e da sua localizao, seja na

esfera pblica ou na privada, possui realmente uma produtividade prpria, por mais

fteis ou pouco durveis que sejam os seus produtos. Nesta ideia, Arendt aproxima-se

de Marx, nomeadamente na anulao da distino entre trabalho produtivo e

improdutivo uma vez que a produtividade aparece relacionada e quantificada na fora

de trabalho, que capaz de produzir um excedente, no se esgotando e produzindo

assim mais do que o necessrio reproduo ( manuteno das condies de

sobrevivncia e de continuao da espcie). A produtividade do trabalho ser ento

explicada pelo excedente de fora de trabalho e este , segundo Arendt, o elemento

mais revolucionrio do sistema marxista. Por conseguinte, aproximando-se da mxima

que diz que todo o trabalho produtivo, ir afirmar que tendo os meios da prpria

reproduo como a sua preocupao fundamental, o labor nunca produzir outra coisa

alm de vida60

.

No entanto, Arendt denunciar, por sua vez, que numa sociedade cujo fim seja a

sustentao do processo vital, a todas as coisas se tornam objectos de consumo, todo o

trabalho se torna labor, pois tudo ser o resultado da fora viva do labor, como funo

do processo vital. Esta a situao descrita no final da anlise histrica contida na obra

59

[() hoping all the time that only one more step was needed to eliminate labor and necessity

altogether.], in Hannah ARENDT, HC, p. 87.

60 (...) e, como a sua fora no se extingue quando a prpria reproduo j est assegurada, pode ser

utilizada para a reproduo de mais de um processo vital, mas nunca produz outra coisa alm de vida;

[()since its power is not exhausted when its own reproduction has been secured, it can be used for

reproduction of more than one life process, but it never produces anything but life.], in Hannah

ARENDT, HC., p. 89.

38

A Condio Humana a vitria do animal laborans numa sociedade de operrios, a

possibilidade de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho61

.

Numa outra referncia a Marx, Arendt estabelece uma relao causal entre a

consequente diviso do trabalho (no culminar da revoluo industrial) e uma possvel

abolio concreta do trabalho qualificado. Mas aponta tambm um facto importante

para as condies da dignidade humana, recuperando a crtica marxista quilo que se

tornou um problema social e poltico: o facto de que no mercado de trabalho j no ser

vendida ou trocada a qualificao individual, mas sim a prpria fora de trabalho

tornando cada ser humano em apenas mais um, pois em termos de fora de trabalho a

humanidade torna-se um todo homogneo, um amontoado de foras que mesmo sendo

desiguais se resumem a apenas isso.

O que se verifica que entre os produtos trocados, vendidos ou comprados,

surgem os seres humanos com igual estatuto de mercadoria hoje em dia fala-se do

mercado de trabalho e o discurso terico-poltico dominante, da economia sociologia

do trabalho, aplica as leis da oferta e da procura no plano laboral, tal como estas operam

no mercado das coisas produzidas. Esta mercadoria, os trabalhadores, valorizada ou

no em funo da sade neoliberal das economias dos estados.

A actividade do pensar descrita por Arendt como estando mais prxima da

actividade do labor (do ponto de vista formal) e no da actividade do trabalho. Por

conseguinte, pensando, como que escapamos completamente ao mundo, pois se o

labor no deixa atrs de si um vestgio permanente, o processo de pensar no deixa

coisa alguma de tangvel62

. Na verdade, a proximidade entre o pensar e o labor

abolida no momento em que o pensamento se torna visvel, tangvel, se materializa. A

estamos perante um trabalhador, um homo faber, que ao desejar manifestar os seus

pensamentos, usa de facto as suas mos, como qualquer outro trabalhador. Neste

aspecto evidencia-se a dimenso da opus (obra) como produto do trabalho e da operae

(mera actividade) como simples labor, onde o corpo o meio e o fim dessa mesma

actividade.

61

[What we are confronted with is the prospect of a society of laborers without labor ().], in Hannah

ARENDT, Prologue, HC, p. 5.

62 [() if labor leaves no permanent trace, thinking leaves nothing tangible at all.], in Hannah

ARENDT, HC, p. 90.

39

Para se compreender melhor a distino entre labor e trabalho torna-se

necessrio inverter a lgica de pensamento que tem por critrio a produtividade,

conceito ligado intrinsecamente noo de fora de trabalho, ou mesmo de foras

produtivas para que se pense antes a partir daquilo que produzido, o produto da

actividade - A distino entre um po, cuja longevidade no mundo dificilmente

ultrapassa um dia, e uma mesa, que pode facilmente sobreviver a geraes de convivas,

sem dvida muito mais bvia e decisiva que a diferena entre um padeiro e um

carpinteiro63

.

Tecendo uma srie de consideraes histrico-polticas, Arendt descreve o modo

como o labor foi pensado e por quem foi protagonizado at era moderna, anunciando

desde logo, em forma de lamento, o facto de hoje, com o advento da revoluo

industrial e da consequente sociedade de consumidores ou de massas, o labor ocupar

tambm o lugar do trabalho os seres humanos mergulharam e submergiram na

necessidade. O pensamento antigo fixou-se numa atitude subjectiva e de desprezo pelo

labor, sobretudo desconfiando do seu doloroso esforo. Mas na Modernidade assistimos

sua glorificao pela nfase dada actividade do trabalhador, louvando-se-lhe a

capacidade de produtividade.

Assim, na era moderna, o trabalho tornou-se labor, complexificando-se essa

tran