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CULTURA - · PDF file ças, valores, normas, hipóteses para ação, instrumentos institucionais, problemas, em torno da qual o MinC, secretarias, órgãos da administração pública,

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CAPTULO 5

CULTURA

1 APRESENTAO

Este nmero de acompanhamento e anlise das polticas culturais se prope a tratar das mudanas relevantes das polticas culturais ao longo de 2009 e do primeiro semestre de 2010. Objetiva dialogar especialmente com o Programa Mais Cultura, implementado pela Secretaria de Articulao Institucional (SAI) do Ministrio da Cultura (MinC) e que tem algumas complexidades, por tratar- se de um programa transversal. Na verdade, o Mais Cultura pode ser qualificado da seguinte maneira: i) uma estratgia que une vrias aes de secretarias e de instituies vinculadas ao MinC; contm aes de outros programas e lhes d uma lgica especfica, sobretudo em relao ao seu territrio de abrangncia, pblico-alvo e forma de implementao; ii) tem um componente de gesto, isto , organiza a implementao por meio de editais e objetiva a descentralizao de recursos, e um componente financeiro, sendo que sua execuo se d em grande parte via Fundo Nacional de Cultura (FNC); e iii) mantm uma relao dialtica constante com a ideia geral do Sistema Nacional de Cultura (SNC).

Dessa maneira, o dilogo proposto neste trabalho se d em contexto avalia-tivo, descrevendo de maneira organizada os problemas e os impactos do programa na dinmica da administrao do MinC e na realizao de objetivos e valores propostos no quadro dos referenciais das polticas culturais nos ltimos anos. Entre os elementos valorativos centrais desses referenciais est o SNC.

Neste texto, entendemos que o referencial seria uma configurao de cren-as, valores, normas, hipteses para ao, instrumentos institucionais, problemas, em torno da qual o MinC, secretarias, rgos da administrao pblica, progra-mas, representantes da sociedade civil, movimentos culturais e grupos artsticos se movimentam.1 Os referenciais nas polticas culturais recentes articulam diversos

1. O conceito de referencial sugere uma rede de representaes ou significados que permite delimitar os sentidos das polticas. Jobert (2004) afirmou que o referencial uma representao que organiza as relaes entre protagonistas de uma poltica pblica por meio de trs operaes: i) ela define esquemas causais que explicam de forma estilizada a realidade (dimenso cognitiva), ii) mobiliza valores da cultura poltica que permitem legitimar as aes (dimenso normativa) e iii) finalmente essas explicaes e esses valores se encarnam em orientaes estratgicas, institucionali-zando-se como instrumentos estruturados de ao. Surel (1995), por sua vez, tratou a poltica pblica por analogia ao paradigma e, tal como um paradigma, a poltica constituda por elementos fundamentais, princpios gerais, hipteses prticas, metodologias de ao e instrumentos especficos. Acrescentemos que o referencial est presente e teria sen-tido em comunidades estruturadas, sendo que a administrao pblica pode ser considerada como tal.

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elementos e ideias: consolidao institucional das polticas culturais, fortale-cimento das estruturas do Estado, proteo e realizao dos direitos culturais, promoo e proteo da diversidade cultural, construo do federalismo cultural, articulao do SNC, democratizao do sistema de financiamento, aumento de recursos financeiros etc. Cada um destes elementos um centro pelo qual desli-zam interpretaes, por onde passam conflitos e resignificaes e so eles mesmos problematizados e articulados uns aos outros de diferentes formas.

De incio, apresentam-se fatos relacionados ao redesenho institucional do FNC. A reflexo se d em torno das legislaes (leis, decretos e portarias) que fixam e transformam o FNC. Esses documentos legais permitem reconstruir as referncias discursivas e jurdicas bsicas do fundo e de como foram relacionando o FNC com a ideia de sistema.

Tambm utilizamos documentos do planejamento do Mais Cultura, o que permitiu interpretar o desenho, valores e apostas presentes no programa. Apesar da aparente singeleza, esses documentos so de especial valia. Alm de resultarem de longos processos de debate vrias secretarias do MinC participaram de sua elabo-rao , apresentam de forma sinttica as representaes e de forma mais completa o referencial da poltica. Depois utilizamos narrativas coletadas em entrevistas,2 o que permitiu densificar a interpretao dos significados do Mais Cultura.

Por fim, alguns dos problemas levantados e tematizados no mbito das pol-ticas e das aes descritas so tratados na perspectiva de desafios. Nesse sentido, crenas e valores que foram sendo construdos ao longo do perodo encontram-se diante de uma encruzilhada: consolidam-se em torno de mecanismos operativos ou no ganham a desejada estabilidade.

2 FATOS RELEVANTES

2.1 Reestruturao do FNC: Portarias nos 58/2010 e 95/2010

O FNC foi inscrito sucessivamente em documentos e em uma arquitetura legal (Lei no 8.313/1993, Decretos nos 1.494/1995 e 5.761/2006, e Portarias nos 58/2010 e 95/2010) que relacionam democratizao, democracia cultural, direitos e diversidade cultural. Ao mesmo tempo, foi acoplada ao FNC a per-cepo da possibilidade da cogesto participativa e da democratizao do finan-ciamento. O FNC tem como finalidade destinar recursos (Lei no 8.313/1991, Art. 4o) para projetos culturais em conformidade com o Programa Nacional de Apoio Cultura (PRONAC); estimular a distribuio regional e equitativa de recursos; e favorecer o aperfeioamento artstico e profissional dos recursos

2. As entrevistas foram realizadas ao longo do segundo semestre de 2010 com gestores do MinC.

Cultura 167

humanos, a criatividade e a diversidade. Por intermdio do fundo o Estado atua estimulando, apoiando e favorecendo os dinamismos dos circuitos culturais (BARBOSA DA SILVA; ARAJO, 2010). Entre os objetivos elencados esto aqueles relacionados minimizao das desigualdades regionais e valorizao das especificidades das necessidades culturais dos estados e dos municpios. O FNC financia projetos culturais diretamente com recursos oramentrios sem previso de reembolso ou por emprstimos reembolsveis.

A Comisso do Fundo Nacional de Cultura (CFNC) tem como incum-bncia analisar os projetos culturais com apoio oramentrio do FNC, sendo tambm responsvel pela elaborao do Plano Anual do FNC.3 As diretrizes que estabeleceram a CFNC tm mritos claros, j que a inteno era realizar um processamento poltico das aes do MinC como um todo, com os progra-mas, os projetos e as aes apresentadas. O ministro est no topo da pirmide administrativa, o responsvel pelo planejamento global e pela titularidade do FNC. Entretanto, esses dispositivos no alteram profundamente processos de gesto, e sim os revigoram, pois se j estavam presentes e eram previstos normativamente, o problema seria, ento, relativo a falhas de implementao.

A ausncia de processos de planejamento integrado era uma das crti-cas mais contundentes ao ministrio na dcada de 1990. Embora no seja completamente verdadeira, demonstra a vigorosa disposio interna ao ministrio para fortalecer instrumentos de planejamento, mpeto que teve novo pico no ltimo ano de governo, ou seja, 2010.

Algumas mudanas foram apresentadas para aperfeioar o funcionamento da CFNC, de forma a inscrever no seu funcionamento o princpio da partici-pao social. Essas proposies, junto ampliao de recursos para fomento, procuram expressar a atuao do Estado na proteo de direitos culturais, no respeito ao pluralismo, diversidade cultural e democracia cultural.4

Duas portarias estabeleceram, em 2010, o regimento interno do FNC: as Portarias no 58, de junho, e a no 95, de agosto. Ambas citam a Constituio Federal de 1988 (CF/88) (Art. 87, Pargrafo nico, inciso II) e os Arts. 14 e 16 do Decreto no 5.761/2006. As portarias definem o mbito de atuao e as programaes espec-ficas do fundo linguagens artsticas e reas temticas (artes visuais, circo, dana, tea-tro, acesso e diversidade, patrimnio e memria, livro, leitura e Lngua Portuguesa, aes transversais e audiovisual). Definem, ainda, os montantes a serem transferidos a cada ano a estados e municpios com o fim de estruturar polticas federativas. SAI ficou estabelecido como atribuio encaminhar as propostas de dotao

3. A CFNC foi reinstituda pelo Decreto no 5.761, de abril de 2006.4. Ver Ipea (2010a).

Polticas Sociais: acompanhamento e anlise168

oramentria anual. A comisso do fundo a aprova a partir de discusso sobre sua viabilidade e conformao com o Plano Nacional de Cultura (PNC). Lembremo- nos de que o FNC deve explicitar critrios e formas de alocao de acordo com planos setoriais e com o PNC. A gesto ser realizada por rgo colegiado (CFNC), o rgo executivo ser a Secretaria de Fomento e Incentivo Cultura (SEFIC), sero rgos consultivos os comits tcnicos especficos de incentivo cultura e o rgo de monitoramento ser a Secretaria de Polticas Culturais (SPC).

A comisso passou a ser composta pelo secretrio executivo do MinC, por titulares das secretarias do MinC, presidentes de entidades vinculadas e repre-sentante do gabinete do ministro. A critrio do presidente da CFNC (secretrio executivo do MinC) sero convidados como observadores: um representante eleito entre os secretrios estaduais, outro entre os municipais, um de cada comit tcnico especfico de incentivos cultura, um do Conselho Nacional de Poltica Cultural (CNPC) e um da Comisso Nacional de Incentivo Cultura (CNIC).

Os comits tcnicos tero representantes da sociedade civil, preferencialmente oriundos do CNPC e ligados com o campo cultural, e de especialistas e criadores de reconhecimento, alm de representantes do MinC que, inclusive, os presidiro.

Como se v, as portarias que definem o regimento interno da CFNC recu-peram para a discusso de diretrizes e critrios de funcionamento do FNC o valor atribudo participao ampla da sociedade civil e de representantes de unidades federativas. Retomam elementos que j estavam presentes. Constitui algo novo, nesse cas

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