DISCURSO DO SENHOR - bvsms.saude.gov.· se o modestíssimo custo da profilaxia e chegar-se-á a cifras

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DISCURSO DO SENHOR MINISTRO DE ESTADO DA SADE

DR. PAULO DE ALMEIDA MACHADO

CONFERNCIA NACIONAL PARA AVALIAO DA POLTICA DE CONTROLE DA HANSENASE

Discurso de Instalao

Braslia, 24.03.76

Paulo de Almeida Machado

Ministro de Estado da Sade

Senhores hanseniologistas,

HANSENASE uma doena infecciosa como tantas outras, controlvel com a quimioterapia.

LEPRA uma expresso utilizada com sentimentos injuriosos e discriminatrios, produto da desinformao e da superstio, manifestao cultural responsvel pela permanncia da endemia hanseniana.

com este pensamento que dou as boas vindas aos especialistas designados pelas diversas unidades da Federao, que generosamente se dispuseram a vir a Braslia e, juntamente com os peritos do Ministrio da Sade analisar a atual poltica de controle da hansenase.

Depois de vrios decnios de luta contra a hansenase, tnhamos, em 31 de dezembro de 1975, nada menos de 138.000 doentes conhecidos. E, cada ano, so fichados 8.500 casos novos.

Parece oportuno parar e meditar sobre a eficcia da poltica em vigor.

Hoje, 24 de maro de 1976, j devemos ter 140.000 doentes conhecidos em todo o Brasil.

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90% de nossos doentes so maiores de 15 anos. Representam fora de trabalho. Existem assim 126.000 pessoas que poderiam estar trabalhando.

Se cada um de nossos doentes produzisse apenas 10 cruzeiros por dia, teramos uma produo diria de 1.260.000 cruzeiros, ou sejam 459. 900. 000 cruzeiros por ano!

E, repetindo o Prof. Rothberg, esta apenas "a ponta do iceberg".

Numa organizao esttica, como a nossa, admissvel que no conheamos a metade dos casos realmente existentes.

Sem considerar a base submersa do iceberg, concentrando-nos na ponta bem conhecida, j temos um prejuzo de pelos menos 459.900.000 de cruzeiros por ano em nosso Produto Interno Bruto.

Some-se o custo dos asilos-colnias e preventrios, some-se o custo das aposentadorias e penses, some-se o modestssimo custo da profilaxia e chegar-se- a cifras assustadoras, revelando o significado econmico da LEPRA.

No da HANSENASE, notem bem. Da LEPRA!

Ns que dedicamos tantos anos de nossa vida luta contra a LEPRA e ao controle da HANSENASE, conhecemos de perto um outro custo bem maior.

Homens de Sade Pblica, preocupados com a tecnologia mas convictos de que a tcnica s ganha significao quando posta a servio do Homem, ns conseguimos continuar percebendo valores ticos superiores ao valor econmico. As peculiaridades da molstia e as dificuldades da luta no conseguem arrefecer o nosso calor humano, o esprito de fraternidade e de compreenso.

Mais grave do que o prejuzo para o Produto Interno Bruto a marginalizao de 140.000 brasileiros, afastados da comunidade pela ignorncia e pelo medo injustifica-

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do. Mes que teem o seu filho isolado ao nascer, mes a quem so concedidos os sofrimentos da gravidez e do parto e s quais se negam os legtimos prazeres da maternidade. Crianas que so normais e que so segregadas em preventrios exclusivos, privadas do convvio com crianas normais como elas o so, e marcadas definitivamente como um grupo parte. Jovens portadores de formas iniciais curveis aodadamente aposentados, definitivamente segregados. Pais portadores de formas no contagiantes e excludos apressadamente do ambiente de trabalho.

Os congressos internacionais repetem persistentemente que o hanseniano deve ser tratado nos servios gerais de sade. Mas falta o esclarecimento para que o nosso doente seja recebido com humanidade nos servios no especializados.

Deploramos a carncia de mdicos especialistas e desencorajamos a especializao ao limitar a distribuio de medicamentos especficos aos estabelecimentos oficiais.

Preocupamo-nos com reabilitao corretiva, exigindo tcnicas sofisticadas e no praticamos a preveno de incapacidades, econmica e ao alcance de pessoal de nvel mdio.

Falamos em assistncia social, mas, com os parcos recursos dos rgos de Sade Pblica, oferecemos uma assistncia ao nvel de sobrevivncia, sem grandes esforos para a reintegrao de nosso doente na sociedade.

Estamos convictos de que a talidomida um medicamento herico para o tratamento dos episdios reacionais, assegurando a continuidade da teraputica especfica e poupando ao nosso doente sofrimentos atrozes. Mas a talidomida privilgio dos pacientes do sexo masculino em virtude de seus efeitos teratognicos, uma vez que, aos casais, no fornecemos as informaes e os meios para o exerccio do inalienvel direito de planejar a sua famlia.

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Esta poltica lesando to cruelmente o indivduo e desintegrando a famlia, esta poltica insensvel ao sofrimento espiritual do nosso doente, esta poltica ter prestado algum benefcio ao povo brasileiro? comunidade sadia? Ao doente? economia nacional?

Parece-me que h vrias contradies entre verdades cientficas e a poltica de trabalho adotada.

Dir-se-ia que a atual poltica inspirou-se predominantemente em tabs e supersties milenrias, visando sobretudo atender os receios infundados de uma sociedade desinformada e egosta que busca na segregao do doente um mecanismo de auto-defesa.

Acredito necessrio um reexame corajoso da poltica de controle da hansenase.

muito provvel que um reexame frio e objetivo nos leve a concluses capazes de chocar preconceitos medievais e obrigar-nos a opes incmodas se quizermos ficar em paz com a cincia, com a nossa conscincia, com os nossos deveres para com o povo.

Tudo indica que o responsvel pela manuteno da endemia no seja o nosso doente controlado e sim o pobre doente que tangido pela repulsa de uma sociedade egosta e desinformada, esconde-se, isola-se, priva-se do tratamento.

Precisamos discutir, estudar e propor as inovaes que nos recomendar o conhecimento cientfico. possvel que nossas concluses nos levem a lutas penosas.

Mais penosa seria a omisso por timidez.

Mais penosa seria a eternizao no Brasil de uma endemia j erradicada em outros pases.

Mais penosa seria a responsabilidade pelo agravamento da incapacidade fsica de nossos doentes caminhando, por omisso nossa, para a incapacidade total e definitiva.

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A endemia progride sombra da timidez dos que sabem e do pavor supersticioso dos que no sabem.

O Brasil precisa livrar-se da LEPRA que existe na mente e no corao de muitos e da HANSENASE que existe na pele de alguns. Precisamos encontrar meios para informar, esclarecer, destruir o medo e evitar sensacionalismos que assanham o pavor dos mais desinformados agravando o segregacionismo, semeando o dio entre homens que deveriam amar-se e unir-se para debelar uma endemia que uma ndoa em nosso desenvolvimento.

No primeiro dia de seu Governo, o Presidente Ernesto Geisel, dando incio a seu grandioso programa de desenvolvimento social, apontou o Homem como objeto supremo de todo o planejamento nacional. E ao faz-lo, no abriu exceo para o hanseniano.

O hanseniano tambm Homem.

De seu desenvolvimento social depende a sade de todos ns. Inclusive a dos supersticiosos que se julgam seguros atrs das barreiras segregacionistas.

REUNIO DA SECRETARIA DE SADE DO ESTADO DE SO PAULO

BAUR, 12 A 13/3/76

REUNIO DA SECRETARIA DE SADE DO ESTADO DE SO PAULO

BAUR 12 A 13/3/76

A REUNIO, reconhecendo que:

1) existem barreiras culturais importantes que agravam o problema social e psicolgico do doente de hansenase e seus familiares e dificultam fundamentalmente a aplicao das medidas de tratamento e de preveno da endemia hansnica;

2) para a eliminao dessas barreiras e para a aplicao das medidas teraputicas e preventivas da hansenase necessria ao conjunta dos rgos de sade pblica com os de outras esferas administrativas e culturais;

3) a eliminao dessas barreiras e da rejeio social do doente demanda longo prazo, mas so necessrias medidas imediatas para facilitar sua reabilitao fsica e social, bem como a integrao, o controle e o tratamento, intensificando-se, tambm, o ensino e a pesquisa cientfica;

4) continuam existindo rgos, instrumentos e atividades em desacordo com o progresso da hansenologia.

RECOMENDA:

1) Introduzir nova terminologia, em plano nacional, como passo inicial para a desestigmatizao e para a remoo daquelas barreiras culturais.

2) Organizar grupo integrado por socilogos, antroplogos, educadores, tcnicos em comunicao, psiclogos e outros especialistas que sejam considerados necessrias para, com a colaborao de hansenlogos, elaborar documento em que sejam indicadas as formas pelas quais se possa promover modificao, na populao, em geral, e no pessoal dos rgos de sade, em particular, dos conceitos existentes em relao han-

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hansenase.

3) Cercear atividades que, ainda que bem intencionadas, concorram para o agravamento do estigma, do sensacionalismo e dos preconceitos.

4) Propiciar a transformao gradativa dos atuais "asilo-colnias", "hospital-colnias" e "sanatrios", especializados para doentes de hansenase, em hospitais gerais e de dermatologia sanitria, incluindo a modificao de suas designaes atuais e a transferncia do asilamento para outras reas administrativas, sem discriminao.

5) Incentivar hospitais e servios gerais de sade que no faam restries ao atendimento de pacientes eventualmente doentes de hansenase.

6) Fornecer instrues e recursos para planejamento familiar s doentes de hansenase, j que estas necessitam de medicamentos de efeito teratognico.

7) Abolir a prtica do afastamento dos recm-nascidos de seus pais enfermos.

8) Desestimular o funcionamento de entidades assistenciais que se dediquem exclusivamente aos filhos de doentes de hansenase.

9) Rever os termos da legislao vig