Estudos Asiáticos no Brasil: contexto e desafios

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    ESTUDOS ASITICOS NO BRASIL: CONTEXTO E DESAFIOS

    Estudos Asiticos no Brasil: contexto e desafios

    Asian Studies in Brazil: context and dilemmas

    HENRIQUE ALTEMANI DE OLIVEIRA*GILMAR MASIERO**

    Introduo

    No incio dos anos 60, a partir da constatao de perspectivas divergentes,Estados Unidos envolvido com as questes da segurana internacional e Brasilvoltado para a busca de instrumentos que possibilitassem seu desenvolvimentoeconmico, a poltica externa brasileira entrou num processo de alterao deseu paradigma anterior, baseado numa aliana estratgica com os Estados Unidos.Foi fundamental neste processo, de um lado, a perspectiva de diversificao deparceiras, econmicas e/ou polticas e, de outro, a aceitao das teses do TerceiroMundo, em especial a necessidade da definio de uma Nova Ordem EconmicaInternacional.

    Neste sentido, no estudo do relacionamento brasileiro com a sia, algunspontos merecem destaque especial. O discurso favorvel a modificaes naordem internacional e, em especial, a imerso na proposta de Cooperao Sul-Sul, aponta a existncia de interesses e valores comuns entre o Brasil e a sia.No perodo da Guerra Fria, entretanto, a aproximao brasileira foi, na prtica,muito mais direcionada para os pases africanos e para o Oriente Mdio.1

    A exceo foi o relacionamento, mais intenso no plano poltico, com a China,aps sua reintegrao no sistema internacional no incio dos anos 70. J arelao com o Japo, dentro do conceito de diversificao, sempre foi consideradacomo uma alternativa ao relacionamento com os Estados Unidos.

    No ps-Guerra Fria, a manuteno das orientaes bsicas da polticaexterna brasileira e o dinamismo econmico asitico, entre outros fatores, vo

    Rev. Bras. Polt. Int. 48 (2): 5-28 [2005]

    * Professor de Relaes Internacionais da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo PUC/SP ecoordenador do Grupo de Estudos sia-Pacfico da mesma universidade (henrique.altemani@gmail.com).** Professor e Pesquisador da Universidade Estadual de Maring e Membro do Grupo de Anlise daConjuntura Internacional da Universidade de So Paulo Gacint USP (g_masiero@yahoo.com).1 O papel do mundo afro-asitico est muito bem retratado nos trabalhos de MENEZES, Adolpho JustoBezerra. O Brasil e o mundo sio-africano, Rio de Janeiro: Irmos Pongetti, 1956 e SELCHER, Wayne. TheAfro-Asian dimension of Brazilian foreign policy (1956-1972). Gainesville: University Presses of Florida, 1974.

    ARTIGO

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    propiciar a perspectiva de se buscar uma maior aproximao com a sia. O poucointeresse dos Estados Unidos em ampliar seus intercmbios comerciais compases latino americanos no final do sculo passado, com exceo do Mxico,tambm tem pressionado o Brasil a buscar um maior relacionamento comoutros pases. Neste cenrio, a ampliao e a implementao de um relacionamentomais intenso com a sia se apresenta fortemente dependente das iniciativasgovernamentais. Nelas se observa uma presena atuante da sociedade civil emsua definio, esta, porm tem sido mais direcionada para as questes regionaise hemisfricas do que para a distante e relativamente desconhecida sia.2

    Em seu atual projeto de insero internacional, o Brasil delega regioasitica um espao especial, considerando-se a grande demanda por investimentose por acesso a tecnologias de ponta, bem como por um mercado com altacapacidade de consumo. Historicamente, o Brasil suscita interesses na siapor se caracterizar como uma importante fonte supridora de matrias-primas,principalmente produtos alimentcios e insumos bsicos. Nesse sentido, namedida em que a sia se dinamiza e se especializa em produtos manufaturados, mantido ou ampliado o interesse na importao de produtos bsicos do Brasil.

    Alm de pas fornecedor de matrias-primas para a rpida industrializaode alguns pases asiticos, principalmente na segunda metade do sculo passado,o Brasil j possua laos de amizade e fluxos migratrios com vrios pasesasiticos que datam do sculo XIX. Apesar deles, at a dcada de 1970 orelacionamento brasileiro com a sia restringia-se basicamente s relaes como Japo, com a aproximao, de carter mais poltico e com a Repblica Popularda China a partir da metade dos anos 1970. Mesmo esse restrito relacionamentosofre uma retrao com a sucesso de crises nos anos 1980, retomando fora nadcada de 1990.

    Na ltima dcada, a retomada e ampliao do relacionamento com a siaadquirem novo vigor pela maior presena tanto da Coria do Sul e dos pasesdo Sudeste Asitico, quanto da China que, em decorrncia de seu desenvolvimentoacelerado, no mais s um ator poltico, mas um forte mercado consumidoralm de fornecedor.

    Nos anos 90, por exemplo, a Coria do Sul, particularmente com seusgrupos Samsung e LG, surgiu como um grande protagonista de investimentosdiretos direcionados ao setor eletroeletrnico. Nos primeiros anos do presentesculo, tm sido crescentes os investimentos chineses, como nos casos daempresa Huawei, fornecedora de equipamentos de telecomunicaes, do GrupoShangdong, na rea de gerao de energia termoeltrica e o Grupo ShangaiBaosteel em uma joint venture com a Companhia Vale do Rio Doce para a

    2 Em decorrncia da impreciso do termo sia, a regio que estar sendo abordada nesta reflexo corresponde sia-Pacfico ou ao Leste Asitico, englobando o Nordeste Asitico (Japo, China, Hong Kong, Taiwan,Coria do Sul e Coria do Norte), e os atuais membros da Asean Associao das Naes do SudesteAsitico (Indonsia, Malsia, Tailndia, Filipinas, Cingapura, Brunei, Vietn, Laos, Camboja e Myanmar).

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    minerao de ferro e ao.3 Esta retomada tem clara conotao econmica, mastambm influenciada pela disputa comercial entre os pases desenvolvidos epela proposta de criao de uma rea de Livre Comrcio das Amricas (Alca),por muitos entendida como uma modalidade de protecionismo regional, comentraves para a insero de atores externos.

    Apesar do aumento do dinamismo poltico e econmico entre o Brasil eos demais pases asiticos, detecta-se baixo ou espordico envolvimentoacadmico com essas conexes inter-regionais. Os esforos despendidos atrecentemente estiveram basicamente concentrados na anlise do relacionamentocom o Japo ou sobre o modelo de desenvolvimento japons.4 Destarte, anlisessobre este relacionamento tendem a ser espordicas, seletivas e desiguais, sendoo nmero de pesquisadores envolvidos extremamente reduzido, compraticamente inexistente participao de recursos institucionais.

    Persiste, neste sentido, um profundo vcuo informativo, de desconhecimentodas respectivas regies. Buscando contribuir para estreitar este distanciamento,o presente trabalho procura sintetizar a histria das relaes do Brasil com aregio asitica; evidencia os esforos de algumas instituies e acadmicos noestudo deste relacionamento concentrando sua ateno aos aspectos polticose econmicos; e, finalmente, discute as perspectivas e possibilidades decrescimento das relaes acadmicas entre brasileiros e asiticos como formade consolidar e ampliar as iniciativas em curso.

    O desenvolvimento das relaes do Brasil com a sia-Pacfico

    At quase o final do sculo XIX pode-se afirmar que no havia qualquertipo de relacionamento entre o Brasil e a sia. Quando do incio da busca demo-de-obra para substituir a fora de trabalho escrava no Brasil, a opo era pormo-de-obra chinesa, motivando o deslocamento de uma misso brasileira para aChina em 1879. Mesmo com a no concretizao dessa corrente migratria, pelaproibio formal da China em permitir emigrao para o Brasil, os dois pasesassinaram o Tratado de Amizade, Comrcio e Navegao em 1881, com o Brasilabrindo um consulado em Xangai em 1883.

    A razo da no permisso de vinda de mo-de-obra chinesa ao Brasil decorreessencialmente dos maus tratos que as primeiras correntes migratrias para ocontinente americano tinham sofrido, em especial em Cuba, no Peru e na Califrnia

    3 Ver MASIERO, Gilmar. Investimentos diretos do Japo, Coria do Sul e China no Brasil: motivos,caractersticas e perspectivas. Texto preparado para o II Encontro de Estudos Coreanos na Amrica Latina.Mxico. Outubro de 2005.4 Ver, entre outros, TORRES FILHO, Ernani T. A economia poltica do Japo: reestruturao econmica eseus impactos sobre as relaes nipo-brasileiras (1973-1990). Rio de Janeiro: Tese de Doutorado, Institutode Economia Industrial, 1991. MASIERO, Gilmar. Empresas Japonesas: Estrutura, Principais aspectos eprocesso decisrio. So Paulo, EAESP-FGV, 1994. SCHWARTZ, Gilson (org). Lies da Economia Japonesa.So Paulo: Saraiva, 1995.

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    (Estados Unidos). De outro, o fato do tratado assinado entre Brasil e China seguiro modelo dos firmados pela China com as potncias ocidentais (denominados detratados desiguais), tambm no facilitou o acordo migratrio. Cervo e Buenoapontam que a misso brasileira, em seus preparativos, se encontrara na Europacom os governos ocidentais em busca de apoio e levava instrues especficas parano discordar nas clusulas a convencionar de nenhum direito j outorgadoanteriormente pela China, tendo em vista manter a simpatia e o consenso dasnaes amigas.5

    Com a China, os contatos bilaterais foram escassos em decorrncia da sucessode conflitos internos e externos que afetaram aquele pas no final do sculo XIX ena primeira metade do sculo XX. Com a vitria de Mao Zedong em 1949, oBrasil rompeu as relaes diplomticas. Mesmo assim, registra-se durante o sculoXIX a entrada oficial no territrio brasileiro de aproximadamente 3.000 chineses.6

    Aps 1949, constata-se a intensificao de um fluxo migratrio chins, no oficialpara o Brasil, em especial