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A INCORPORAÇÃO REVERSA COM ÁGIO GERADO INTERNAMENTE: CONSEQÜÊNCIAS DA ELISÃO FISCAL SOBRE A CONTABILIDADE JORGE VIEIRA DA COSTA JUNIOR UNIVERSIDADE ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO ELISEU MARTINS UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Resumo As operações de incorporação reversa – desdobramentos de operações de aquisição de controle acionário, em que uma dada sociedade controlada incorpora sua controladora intermediária - têm motivação estritamente tributária, na medida em que visam ao melhor aproveitamento econômico do ágio advindo da aquisição de controle. Este trabalho visa a abordar modalidade recente de incorporação reversa praticada no mercado: a que toma por base ágio gerado internamente. Contabilmente, referido evento, do ponto de vista estritamente técnico, é admissível? E do ponto de vista tributário, há previsão legal para sua consecução? Conclui-se que o surgimento do ágio em operações de combinação de negócios, realizadas dentro de um mesmo grupo societário, não tem sentido econômico, ainda que respaldado em diploma legal. Suas conseqüencias são negativas para a Contabilidade. Há margem para se pavimentar uma caminho tortuoso: o fomento à indústria do ágio. Propõe-se que órgãos reguladores de governo e entidades representativas da profissão contábil e de auditoria atentem para a questão; e que eventualmente revejam posicionamentos adotados e/ou manifestem-se prontamente na disciplina da matéria, de tal sorte que a Contabilidade, na sua finalidade mais nobre, que é a de servir como um sistema de informações relevantes e úteis para julgamento e para tomada de decisão, não seja prejudicada. 1. Introdução As operações de combinação de negócios 1 , inegavelmente, estão inseridas no rol dos temas mais nobres da Contabilidade. A complexidade de determinados arranjos de combinação, por vezes verificada, associada a seus desdobramentos tributários e societários, impõe aos profissionais que militam no meio, ou mesmo àqueles acadêmicos que elegem a matéria como linha de pesquisa, acúmulo considerável de experiências e boa formação. As operações de incorporação reversa – desdobramentos de operações de aquisição de controle acionário, em que uma dada sociedade controlada incorpora sua controladora intermediária - foram ativamente praticadas no início do Plano Nacional de Desestatização - PND. Sua motivação é estritamente tributária, na medida em que visa ao melhor aproveitamento econômico do ágio advindo da aquisição de controle. Este trabalho visa a abordar modalidade recente de incorporação reversa praticada no mercado: a que toma por base ágio gerado internamente. Contabilmente, referido evento, do ponto de vista estritamente técnico, é admissível? E do ponto de vista tributário, há previsão legal para sua consecução? Considerando essas questões levantadas para reflexão, o tema será desenvolvido. De início, uma breve incursão pela Teoria Contábil e por disposições legais e/ou normativas de 1 Estrito senso, um combinação de negócios só deve ser considerada como tal quando resultar em alteração no bloco de controle acionário da sociedade envolvida.

Incorporação reversa

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A INCORPORAO REVERSA COM GIO GERADO INTERNAMENTE: CONSEQNCIAS DA ELISO FISCAL SOBRE A CONTABILIDADE JORGE VIEIRA DA COSTA JUNIOR UNIVERSIDADE ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO ELISEU MARTINS UNIVERSIDADE DE SO PAULO Resumo As operaes de incorporao reversa desdobramentos de operaes de aquisio de controle acionrio, em que uma dada sociedade controlada incorpora sua controladora intermediria - tm motivao estritamente tributria, na medida em que visam ao melhor aproveitamento econmico do gio advindo da aquisio de controle. Este trabalho visa a abordar modalidade recente de incorporao reversa praticada no mercado: a que toma por base gio gerado internamente. Contabilmente, referido evento, do ponto de vista estritamente tcnico, admissvel? E do ponto de vista tributrio, h previso legal para sua consecuo? Conclui-se que o surgimento do gio em operaes de combinao de negcios, realizadas dentro de um mesmo grupo societrio, no tem sentido econmico, ainda que respaldado em diploma legal. Suas conseqencias so negativas para a Contabilidade. H margem para se pavimentar uma caminho tortuoso: o fomento indstria do gio. Prope-se que rgos reguladores de governo e entidades representativas da profisso contbil e de auditoria atentem para a questo; e que eventualmente revejam posicionamentos adotados e/ou manifestem-se prontamente na disciplina da matria, de tal sorte que a Contabilidade, na sua finalidade mais nobre, que a de servir como um sistema de informaes relevantes e teis para julgamento e para tomada de deciso, no seja prejudicada.

1. Introduo As operaes de combinao de negcios1, inegavelmente, esto inseridas no rol dos temas mais nobres da Contabilidade. A complexidade de determinados arranjos de combinao, por vezes verificada, associada a seus desdobramentos tributrios e societrios, impe aos profissionais que militam no meio, ou mesmo queles acadmicos que elegem a matria como linha de pesquisa, acmulo considervel de experincias e boa formao. As operaes de incorporao reversa desdobramentos de operaes de aquisio de controle acionrio, em que uma dada sociedade controlada incorpora sua controladora intermediria - foram ativamente praticadas no incio do Plano Nacional de Desestatizao PND. Sua motivao estritamente tributria, na medida em que visa ao melhor aproveitamento econmico do gio advindo da aquisio de controle. Este trabalho visa a abordar modalidade recente de incorporao reversa praticada no mercado: a que toma por base gio gerado internamente. Contabilmente, referido evento, do ponto de vista estritamente tcnico, admissvel? E do ponto de vista tributrio, h previso legal para sua consecuo? Considerando essas questes levantadas para reflexo, o tema ser desenvolvido. De incio, uma breve incurso pela Teoria Contbil e por disposies legais e/ou normativas deEstrito senso, um combinao de negcios s deve ser considerada como tal quando resultar em alterao no bloco de controle acionrio da sociedade envolvida.1

natureza tributria, que tenham relao com o objeto do estudo, ser realizada. Casos hipotticos sero desenvolvidos em seguida, como recurso didtico, com vistas a facilitar o entendimento da operao. 2. Contabilizao do gio: Como faz-la luz da Teoria Contbil? Ao se estudar mais detidamente o Arcabouo Conceitual da Contabilidade, e a forma atravs da qual est estruturado, verifica-se que a parte dedicada a tratar de aspectos relacionados mensurao de ativos e passivos tem importncia capital. Sabe-se que valores de sada devem ser utilizados para a mensurao de ativos e passivos de uma entidade quando a continuidade dos seus negcios sociais ou going concern, para os anglo-saxes - for seriamente colocada em dvida, ou quando da alterao de seu controle societrio. Contrrio senso, valores de entrada devem ser adotados quando a probabilidade de a entidade no realizar os seus negcios sociais, de modo indefinido, for remotssima. Resumidamente, pode-se dizer que o objetivo da medio de performance de uma dada entidade o conceito eleito de lucro - ir definir quando um ou outro critrio de mensurao (de valores de entrada) ser adotado. No mbito do Mercado de Capitais, hoje, por restries legais, em um ambiente de going concern, admite-se to-s, de uma maneira geral2, a adoo do critrio do custo histrico como base de valor para mensurao de ativos e passivos, com exceo do ativo imobilizado tangvel, quando se admite o uso do custo corrente ou de reposio para mensurao (nas reavaliaes espontneas). Tambm de modo sucinto, a fim de no se perder o foco do trabalho, pode-se dizer que o que ir definir quando um ou outro critrio de mensurao (de valores de sada) ser adotado sero as circunstncias envolvendo uma dada entidade (por exemplo, se est em curso processo falimentar da entidade), assim como a especificidade de cada ativo e passivo (por exemplo, se determinado ativo pode ter o seu valor em caixa prontamente determinado e ele efetivamente realizvel no mercado por deciso da entidade proprietria). Aplicando os conceitos abordados figura do gio (ou, analogamente, figura do desgio), esta surge, em regra, quando da alienao do controle de uma dada entidade ou quando da aquisio do controle de uma dada entidade3, derivada de uma transao realizada dentro de uma relao de comutatividade, independncia e de no preponderncia das partes envolvidas. Em sntese, quando h equilbrio de foras ou, dentro da filosofia anglo-saxnica, quando se observa uma arms length transaction4. O acervo lquido de ativos (net assets) dessa dada entidade, avaliado originariamente a custo histrico, deve ser submetido a uma avaliao subjetiva e responsvel pelo seu potencial gerador de caixa futuro, descontado a valor presente por uma taxa que reflita o valor do dinheiro no tempo e o risco dos negcios sociais. Do confronto desses valores surge o gio (ou, por vezes, o desgio).2

Algumas utilizaes de valor de mercado ocorrem para alguns ativos destinados venda, mas dentro de regras particulares que aqui no vamos discutir. 3 Juridicamente, alienao e aquisio de controle so institutos distintos. A alienao de controle (art. 254-A da Lei das S/A) impe a existncia de um alienante e de um adquirente, em uma transao particular. H a identificao de quem est comprando e de quem est vendendo. J a aquisio de controle (art. 257 da Lei das S/A) no impe a existncia, ou melhor, a identificao do alienante. A operao ocorre via mercado mediante oferta pblica dirigida indistintamente a acionistas titulares de aes com direito a voto. Para a realidade brasileira, a aquisio de controle uma possibilidade remotssima, dada a forma com que usualmente o capital de uma companhia distribudo no mercado (baixssimo free float de aes ordinrias). 4 Transao quando ambos os lados esto dispostos a negociar, podem fazer isso de maneira independente de qualquer forma de presso e dispem das informaes relevantes para o negcio.

Alternativamente, pode ocorrer tambm a aquisio de uma participao acionria em uma dada entidade, que no implique assuno do seu controle, mas que se realize sob as mesmas condies aludidas no pargrafo anterior. Em sntese, o gio (ou, por vezes, o desgio) surge do confronto entre o valor justo (fair value) de uma dada entidade (valor de sada), precificado por intermdio de uma transao envolvendo terceiros independentes, e o valor contbil (valor de entrada) do patrimnio lquido dessa mesma entidade (considerando, claro, a participao acionria adquirida). Logo, em termos de Teoria da Contabilidade, a rigor, em uma transao admite-se tos a figura do gio, que vem a ser um resultado econmico obtido em um processo de compra e venda de ativos lquidos (net assets), quando estiverem envolvidas partes independentes no relacionadas. Enfim, quando o gio for resultado de um processo de barganha negocial no viciado, que concorra para a formao de um preo justo dos ativos lquidos em apreo. Por essa razo conceitual que h na Contabilidade a figura dos lucros no realizados. Quando uma controlada vende para sua controladora participao acionria em uma dada companhia e aufere lucro com isso, esse lucro obtido em uma operao de baixo para cima (lucro upstream) eliminado contra o gio registrado pela controladora, quando da consolidao das demonstraes contbeis da controladora. Alm disso, o lucro auferido na operao tambm expurgado para fins de equivalncia patrimonial. O mesmo procedimento adotado, para fins de consolidao, quando a controladora vende para sua controlada participao acionria em uma dada companhia e aufere lucro com isso (o lucro obtido em uma operao de cima para baixo ou lucro downstream). Na realidade, j nas demonstraes contbeis individuais esses lucros no deveriam ser registrados como tais, e sim diferidos para apropriao ao resultado apenas quando de sua efetiva realizao, como ocorre em diversos pases5. No faz sentido algum reconhecer, numa boa e sadia contabilidade, o resultado derivado de transaes entre entidades sob o mesmo controle, ou seja, sob a mesma vontade. Isso , na realidade, gerao artificial de resultado. E isso, mesmo no caso dos estoques, por exemplo. Agora, no caso de ativos no destinados alienao, mais incorreto ainda , dentro do Princpio da Realizao da Receita, a incluso de tais lucros nas demonstraes contbeis. Resta justificado, dessa forma, pelo exposto, que definitivamente, luz da Teoria da Contabilidade, inadmissvel o surgimento de gio em uma operao realizada dentro de um mesmo grupo econmico. No permitido contabilmente o reconhecimento de gio gerado internamente, tampouco o lucro resultante. E do ponto do vista tributrio, como seria encarada a questo? Haveria bices para o reconhecimento de gio gerado internamente? A prxima seo do trabalho dedica-se a dirimir essa e outras questes. 3. Lei 10.637/02, art. 36: Renncia Fiscal? Ao se compulsar a legislao tributria, tem-se contato com a Lei no 10.637/02, sancionada em 30.12.2002. Referido diploma legal, em seu artigo 36, admite, para fins

Veja-se, por exemplo, artigo que discute maneiras diferentes de registro, todas no aceitando o pronto reconhecimento de lucros nesse tipo de transao entre empresas sob controle comum: PETERS, M. F., SHAW, K. W. e THOMPSON, R. B., Equity Method Accounting and Intercompany Transactions, Issues in Accounting Education, Vol. 16, no 2, May 2002, American Accounting Association.

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tributrios, a reavaliao de participaes societrias, quando da integralizao de aes subscritas, com o diferimento da tributao do IRPJ e da CSLL. Reproduz-se, a seguir, referido dispositivo: Art. 36. No ser computada, na determinao do lucro real e da base de clculo da Contribuio Social sobre o Lucro Lquido da pessoa jurdica, a parcela correspondente diferena entre o valor de integralizao de capital, resultante da incorporao ao patrimnio de outra pessoa jurdica que efetuar a subscrio e integralizao, e o valor dessa participao societria registrado na escriturao contbil desta mesma pessoa jurdica. Elucidando o caput do artigo 36, tem-se que caso uma dada companhia A possua participao societria em outra companhia B, e resolva constituir uma terceira companhia C, integralizando aes subscritas de C com a participao societria em B avaliada economicamente, o lucro apurado por A na integralizao das aes subscritas de C no ser tributado de imediato, para fins de IRPJ e CSLL. Prosseguindo com a leitura sistemtica do dispositivo, chega-se ao seu 1, a seguir reproduzido: 1 O valor da diferena apurada ser controlado na parte B do Livro de Apurao do Lucro Real (Lalur) e somente dever ser computado na determinao do lucro real e da base de clculo da Contribuio Social sobre o Lucro Lquido: I - na alienao, liquidao ou baixa, a qualquer ttulo, da participao subscrita, proporcionalmente ao montante realizado; II - proporcionalmente ao valor realizado, no perodo de apurao em que a pessoa jurdica para a qual a participao societria tenha sido transferida realizar o valor dessa participao, por alienao, liquidao, conferncia de capital em outra pessoa jurdica, ou baixa a qualquer ttulo. Em linhas gerais, o lucro apurado em A ser tributado em duas situaes: (i) quando A alienar, liquidar ou baixar, a qualquer ttulo, sua participao societria em C, entidade na qual foram subscritas aes; e (ii) quando C alienar, liquidar, integralizar subscrio de aes de outra pessoa jurdica, ou baixar a qualquer ttulo sua participao societria em B. Aqui cabe um breve comentrio. O fisco admite o diferimento da tributao, para fins de IRPJ e CSLL, de participaes societrias avaliadas economicamente, utilizadas para fins de conferncia de capital em outra pessoa jurdica, to-somente em um primeiro momento. A renncia fiscal6, no caso, no contempla sucessivas operaes de subscrio de aes e integralizao com a mesma participao societria ( 1, inciso II), originalmente, avaliada economicamente, o que elide possvel efeito de eliso em cascata. Encerrando o estudo do artigo 36, o seu pargrafo 2 excepciona as operaes de combinao de negcios entre companhias, como eventos indicativos da realizao do ganho de capital apurado pela companhia que integraliza aes subscritas, com participao societria avaliada economicamente. Orienta o dispositivo:

Nos termos da Lei Complementar n 101, de 04.05.2000 (DOU 05.05.2000), luz de seu artigo 14, 1, a renncia fiscal compreende anistia, remisso, subsdio, crdito presumido, concesso de iseno em carter no geral, alterao de alquota ou modificao de base de clculo que implique reduo discriminada de tributos ou contribuies, e outros benefcios que correspondam a tratamento diferenciado.

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o

2 No ser considerada realizao a eventual transferncia da participao societria incorporada ao patrimnio de outra pessoa jurdica, em decorrncia de fuso, ciso ou incorporao, observadas as condies do 1. Em suma, utilizando o mesmo exemplo, caso C seja incorporada por hiptese pela, agora sua controlada, companhia B, o lucro registrado em A no ser tributado para fins de IRPJ e CSLL. Contudo, o gio carreado de C para B ser dedutvel tanto na apurao do lucro real quanto na base de clculo da CSLL a ser apurado em B7. Questiona-se, desse modo, a racionalidade econmica do artigo 36 da Lei no 10.637/02, pelo lado do ente tributante, que permite que grupos econmicos, em operaes de combinao de negcios, criem, artificialmente, gios internamente, por intermdio da constituio de sociedades veculo, que surgem e so extintas em curto lapso temporal, ou pela utilizao de sociedades de participao denominadas casca, com finalidade meramente elisiva. Do ponto de vista tributrio, luz do artigo 36, e dependendo da forma pela qual a operao realizada, a Fazenda Pblica perde porque permite a dedutibilidade da quota de gio amortizada para fins de IRPJ e base de clculo da CSLL mas deixa de tributar ganho de capital registrado pela companhia que subscreve e integraliza aumento de capital em sociedade veculo ou de participao casca, a ser em seguida incorporada. Com a incorporao, a sociedade veculo ou de participao casca deixa de existir. Como no h inteno de alienar a participao societria que incorpora a sociedade veculo, tampouco liquid-la ou baix-la a qualquer ttulo, posto que atravs dela o grupo econmico realiza seus negcios sociais, e a incorporao da sociedade veculo no constitui realizao do ganho de capital ( 2 da art. 36), a Fazenda Pblica, em verdade, poder jamais tributar dita receita, ou melhor, haver uma probabilidade muito remota de faz-lo. Uma vez esclarecida a questo da renncia fiscal, h que serem demonstrados os efeitos tributrios da incorporao reversa com gio criado internamente. O prximo tpico do trabalho presta-se a esse propsito. 4. Simulaes Para fins de desenvolvimento das simulaes, de modo a facilitar ao mximo o seu entendimento, ser admitida a existncia to-s de aes ordinrias nas operaes analisadas. 4.1. Premissa Bsica: Combinao de Negcios sem minoritrio Partindo-se de um grupo econmico hipottico ABC, apresenta-se a seguinte configurao patrimonial:Controladores ABC Pessoas Fsicas100 aes 100 aes

Companhia ABC7

Cia. de Participaes ABC o o

A questo foi disciplinada pelas Instrues Normativas da SRF n 11/99 e n 390/04, art. 75.99 aes 1 ao

Cia X

Os balanos patrimoniais das companhias so tambm a seguir apresentados: Controladora Companhia ABC Ativo caixa aplicaes financ. investimentos cia. X Total Passivo financiamento 150 650 891 1.691 691 Controlada Companhia X Ativo caixa estoques imobilizado Total Passivo financiamento 80 250 720 1.050 150 Consolidado ABC Ativo caixa aplicaes financ. estoques imobilizado Total 230 650 250 720 1.850

Passivo financiamento 841 part. no control. 9 PL PL PL capital 1.000 capital 900 capital 1.000 Total 1.691 Total 1.050 Total 1.850 de se salientar que a companhia ABC obteve financiamento junto a agente financeiro para aquisio do controle acionrio na companhia X, e que atravs da companhia X que o grupo econmico ABC realiza os seus negcios sociais, cujo objeto a explorao de determinado segmento industrial. O patrimnio da companhia de participaes ABC constitudo nica e exclusivamente pela participao acionria na companhia X. Logo, apresenta rubrica de investimentos e rubrica de capital social com saldo de $ 9 (1% sobre o PL de $900 da cia. X). 4.1.1. Hiptese: Utilizando sociedade veculo8 Seja admitido que a companhia ABC resolva constituir uma sociedade Y, com o propsito especfico de ser incorporada pela companhia operacional X, imediatamente aps a sua constituio. Uma genuna sociedade veculo, constituda e extinta em curto lapso temporal. Para tanto, subscreve 100 aes ordinrias de Y e as integraliza, em sua totalidade, com participao societria detida em X, avaliada economicamente por $ 1.291. Assim, a configurao patrimonial do grupo econmico ABC passa a ser a que segue:Controladores ABC Pessoas Fsicas100 aes

100 aes

Participaes Assim denominadas pelo mercado ABCsociedades controladoras intermedirias. Alternativamente, poderia ter as sido trabalhada a simulao c/ sociedade de participao cascaABC .100 aes

8

Companhia

Cia. de

Veculo

Com essa operao, os balanos passam a ser os que seguem: Controladora Companhia ABC Ativo caixa aplic. financ. inv. cia. Y Total Passivo financ. IR e CS dif. REF LReal. PL capital Total 150 650 1.291 2.091 691 136 264 1.000 2.091 PL capital Total 1.291 1.291 PL capital Total 900 1.050 Controlada Veculo Y Ativo inv. cia. X gio Total 891 400 1.291 Controlada Companhia X Ativo caixa estoques Imobil. Total Passivo financ. 80 250 720 1.050 150 Consolidado ABC Ativo caixa aplic. financ. estoques Imobil. Total Passivo financ. part. contr. PL capital Total 230 650 250 720 1.850 841 9 1.000 1.850

O ganho apurado na operao de subscrio e integralizao em Y, decorrente da permuta de participao acionria em X, avaliada economicamente, por participao acionria em Y, em verdade, por uma impropriedade da lei societria, seria reconhecido na DRE da companhia ABC, como um resultado no operacional (operao de permuta envolvendo ativo permanente). Tecnicamente, o lucro no realizado downstream deve ser tratado como um resultado de exerccios futuros, assim evidenciado no exemplo, lquido de seus efeitos tributrios. O passivo fiscal de longo prazo foi destacado em rubrica de IR e CS diferidos no montante de $ 136, admitindo uma alquota consolidada de IRPJ e CSLL de 34%. A respeito do registro da operao em rubrica de REF, sugere-se leitura de parte dedicada ao tratamento da matria (lucro no realizado downstream), em projeto original de lei no 3.741, de alterao da parte contbil da lei societria, disponvel no site http// www.cvm.gov.br. Apreciando os nmeros, observa-se que a operao de constituio da sociedade veculo Y, economicamente, no promoveu qualquer alterao de riqueza no grupo ABC. O balano consolidado no sofreu qualquer alterao. Pelas tcnicas de consolidao, o ganho bruto apurado na companhia ABC ($264 + $136) foi eliminado com o gio reconhecido na companhia Y; a participao societria de ABC em Y foi eliminada contra o PL de Y; a

participao societria de Y em X foi eliminada contra o PL de X, remanescendo no consolidado participao de no controladores; as rubricas de mesma natureza foram aglutinadas no consolidado. de se ressaltar que o ganho bruto apurado pela companhia ABC, em linha com a legislao tributria, ser controlado na parte B do LALUR da companhia, sendo tributado to-s nas situaes j abordadas neste trabalho, em seo especfica. Dando prosseguimento combinao de negcios do grupo ABC, apresenta-se a sua configurao, aps a operao de incorporao da veculo Y pela companhia X:Controladores ABC Pessoas Fsicas100 aes 100 aes

Companhia ABC

Cia. de Participaes ABC

99 aes

1 ao

Cia X

Como era de se esperar, o desenho societrio retorna sua configurao original. Quanto aos balanos patrimoniais, estes so a seguir demonstrados: Controladora Companhia ABC Ativo caixa aplic. financ. inv. cia. X Total Passivo financ. IR e CS difer. PL capital Total9

Controlada Companhia X Ativo caixa estoques IR e CS dif. imobilizado Total Passivo financ. PL capital reserva esp. Total 80 250 136 720 1.186 150

Lanamentos de Eliminao Db. Crd. 1.027

Consolidado ABC Ativo caixa aplic. financ. estoques IR e CS dif. imobilizado Total Passivo IR e CS dif. financiam. part. cont. PL capital Total 230 650 250 136 720 1.986 136 841 9 1.000 1.986

150 650 1.027 1.827 691 136 1.000 1.827

900 136 1.186

891+9 136

Por analogia, utilizar-se- procedimento contbil recomendado pela Instruo CVM no 349/01 , para incorporaes reversas precedidas de uma operao de aquisio, ou seja, comPara um entendimento mais aprofundado do tema, sugere-se a leitura dos Boletins IOB Temtica Contbil e o o Balanos n 29 e n 30, publicados na 3a e 4a semana de julho de 2002.9

gio efetivamente validado pelo mercado, com as devidas adaptaes. O caso em tela trata de incorporaes reversas com gio gerado internamente. Objetivamente, so adotados os procedimentos requeridos pela Instruo CVM no 349/01, a exceo do tratamento a ser dado ao saldo remanescente de gio a ser recomposto na companhia ABC ($400 - $136 = $264). A fim de preservar a integridade e qualidade da informao a ser prestada, os $264 de gio remanescentes a serem recompostos na companhia ABC so baixados contra os lucros no realizados downstream - REF, de tal sorte a se deixar registrado em ABC to-s o passivo fiscal diferido a ser liquidado nas situaes previstas na Lei no10.637/02, artigo 36, 1. Para anlise dos nmeros, h que serem utilizadas subsidiariamente orientaes das Instrues CVM no 319/99 e no 349/01. No balano individual da companhia ABC, a linha de investimentos contempla 99% de participao sobre o capital social da cia. X e 100% de participao sobre a reserva especial da cia. X. A linha de gio quebrada, sendo carreada para companhia X o montante do benefcio fiscal que ir auferir futuramente, no caso, admitindo uma alquota total de IRPJ e CSLL de 34%, um ativo fiscal de $ 136 ($400 x 34%). O saldo remanescente baixado contra os lucros no realizados downstream REF da companhia ABC. Em se tratando do registro do ativo fiscal diferido, cabe dispensar um debate mais aprofundado nesta parte do trabalho. Com imparcialidade acadmica, poder-se-ia defender duas posturas para seu tratamento contbil: i) a vedao de seu registro, admitindo to-s o disclosure em nota explicativa e ii) a aceitao do seu registro, considerando todas as condies restritivas impostas ao reconhecimento de um ativo fiscal diferido (histrico de rentabilidade nos 5 ltimos exerccios sociais, considerando necessariamente a ocorrncia de lucro tributvel em pelo menos 3 desses 5 ltimos exerccios; expectativa de a entidade gerar lucros tributveis futuros em um horizonte no superior a 10 anos, fundamentado em estudo econmico de viabilidade realizado por terceiros independentes, idneos, com qualificao e experincia amplamente reconhecidas pelo mercado, sendo esse estudo devidamente aprovado pelos rgos da administrao e submetido ao escrutnio do conselho fiscal e dos auditores independentes; reconhecimento de impairment loss para o caso de o ativo fiscal diferido total, descontado a valor presente, ultrapassar o montante obtido da aplicao de alquotas vigentes de IRPJ e CSLL sobre o total de lucros tributveis nominais projetados para os prximos 10 anos)10. Para admitir-se o registro da parcela legalmente dedutvel do gio gerado internamente, deve-se enxerg-la tecnicamente, abstraindo questes outras, similarmente a um ativo fiscal diferido advindo de estoques de prejuzos fiscais e de bases negativas de contribuio social. Poder-se-ia advogar que seu registro encontra amparo no fato de haver uma evidncia persuasiva de sua substncia econmica: um diploma legal que corrobora o seu surgimento. E ainda dentro dessa corrente de pensamento, seria admitido como critrio de mensurao contbil inicial, por analogia, o mesmo dispensado a um ativo fiscal diferido advindo de estoques de prejuzos fiscais e de bases negativas de contribuio social, qual seja, mensurao a valores de sada, utilizando o mtodo do fluxo de benefcios futuros trazidos a valor presente, no limite de benefcios nominais projetados para 10 anos. Por outro lado, haveria tambm como refutar o registro da parcela legalmente dedutvel do gio gerado internamente, ao se enxerg-la tecnicamente como um intangvel gerado internamente. Dentro do Arcabouo Conceitual Contbil em vigor, considerando a mensurao a valores de entrada, no se admite o reconhecimento de um ativo que no seja por seu custo de aquisio. Um intangvel gerado internamente, como no caso em comento,10

A Instruo CVM n 371/2002 disciplinou mais restritivamente a matria.

embora gere benefcios econmicos inquestionveis para uma dada entidade, tem o seu reconhecimento contbil obstado por uma simples razo: a ausncia de custo para ser confrontado com benefcios gerados e permitir, com isso, a apurao de lucros consentneos com a realidade econmica da entidade. A Estrutura Conceitual Contbil adotada atualmente no Brasil, tanto na verso do IBRACON Instituto Brasileiro dos Auditores Independentes, acolhida pela CVM Comisso de Valores Mobilirios em sua Deliberao no 29/86, como na verso do CFC Conselho Federal de Contabilidade, pela Resoluo no 750/93, adota a verso do valor de entrada e, especificamente, o custo histrico. No caso do crdito tributrio por diferenas temporrias entre o lucro contbil e o lucro tributvel (diferenas verificadas entre a base contbil e a base fiscal de um ativo ou passivo), no h dvida nenhuma quanto a esse aspecto: o valor de imposto diferido ativado efetivamente relativo parcela paga de tributo a maior, a ser apropriada contabilmente no futuro. J quanto ao crdito tributrio por prejuzos fiscais ou bases negativas de CSLL, no h um valor diretamente pago por ele, mas possvel entender-se que, se h prejuzo, porque h mais despesa do que receita e, conseqentemente, mais sada de dinheiro do que entrada. E a ativao do imposto diferido como se fosse a reverso, para o ativo, de parcela do valor pago a mais dessas despesas sobre as receitas. (Vale lembrar que muitos autores criticam, e fortemente, a ativao do tributo diferido sobre prejuzos fiscais.)11 S que, no caso desses crditos tributrios derivados de operaes societria entre empresas sob controle comum, no h, na essncia, e tambm na figura das demonstraes consolidadas, qualquer desembolso que lhes d suporte. Direitos obtidos sem custo, como direitos autorais, por exemplo, no so contabilizados; o goodwill (fundo de comrcio) desenvolvido sem custo ou com custo diludo ao longo de vrios anos na forma de despesas j reconhecidas tambm no contabilizado; patentes criadas pela empresa so registradas apenas pelo seu custo etc. Por que os direitos de pagar menos tributos futuros, advindos de operaes com ausncia de propsito negocial e permeadas por abuso de forma, seriam registrados? Essas seriam discusses no campo tcnico e conceitual a serem travadas. Contudo, estimulando um pouco mais o debate, deve-se atentar para uma questo sobremaneira crucial para a Contabilidade. Do ponto de vista institucional e moral da profisso contbil, e por que no poltico, admitir-se o registro do ativo fiscal implica estimular o surgimento de uma indstria do gio12? Implica fazer grassar no meio das companhias brasileiras uma Contabilidade manipulvel, nefasta, o modelo cook the books, cujo resultado fez-se evidenciar nas runas de gigantes como a norte-americana do setor de energia Enron, ou a europia Parmalat? So ponderaes que rgos reguladores brasileiros devem fazer ao disciplinarem a matria. Assim sendo, parte possveis controvrsias conceituais, o procedimento mais adequado, tecnicamente e eticamente, no se proceder ao reconhecimento do ativo fiscal diferido, nessas operaes. Prope-se a constituio de 100% de proviso para manuteno daVejam-se as polmicas travadas, por exemplo, por BIERMAN, CHANEY, JETER, SCHUETZE; para melhor entendimento em breve estar editada a dissertao de Mestrado de Cludio Wasserman, FEA/USP. 12 Em reportagem publicada no jornal Valor Econmico, de 19.04.2004, pg. C2, revelado que a agncia internacional de anlise de risco de crdito Standard & Poors S&P divulgou relatrio questionando a qualidade do patrimnio dos bancos brasileiros, embora os bancos brasileiros, em mdia, possuam um ndice de capital de 19%, acima dos 11% exigidos pelo BACEN e dos 8% fixados pelo BIS. A qualidade de capital dos bancos brasileiros, segundo a S&P, est se deteriorando, entre outras razes, pela participao significativa do crdito tributrio e do gio em seus patrimnios.11

integridade contbil do patrimnio da companhia veculo, em contrapartida reserva especial existente, imediatamente aps a criao da sociedade veculo. O reflexo da adoo desse procedimento na companhia controladora o ajuste na linha de investimentos, em contrapartida ao passivo fiscal diferido de longo prazo. No h sentido econmico em se reconhecer uma despesa de equivalncia patrimonial como reflexo do ajuste do intangvel da sociedade veculo. Em verdade, o ativo fiscal no perdeu substncia econmica (imaginando, obviamente, que a companhia X gerar lucros tributveis), tosomente no atendeu s condies impostas ao seu reconhecimento contbil! Futuramente, medida em que a companhia X v reduzindo sua carga tributria, isso se refletir na companhia ABC como receita de equivalncia patrimonial. Logo, o ajuste na linha de investimento, em contrapartida do passivo fiscal de longo prazo, trata-se de resultado de equivalncia a apropriar no futuro. Com isso, os balanos patrimoniais passam a ser os que seguem:

Controladora Companhia ABC Ativo caixa 150 aplic. financeiras 650 inv. cia. X 1.027 equity a apr. (136) invest. cia. X ajust. 891 Total Passivo financiamento IR e CS diferidos equity a apropriar PL capital Total 1.691 691 136 (136) 1.000 1.691

Controlada Companhia X Ativo caixa estoques IR e CS dif. prov. p/ intg. imobilizado Total Passivo financiam. 80 250 136 (136) 720 1.050 150

Lanamentos de Eliminao Db. Crd.

Consolidado ABC Ativo caixa aplic. fin. estoques imobiliz. Total Passivo IR e CS dif. equ. a apr. financiam. part. cont. PL capital Total 230 650 250 720 1.850 136 (136) 841 9 1.000 1.850

891

PL capital reserva esp. prov. p/ intg. Total

900 136 (136) 1.050

891+9

Voltando anlise dos nmeros, ainda com relao companhia X, no tocante reserva especial constituda, admitindo que seja utilizada em proveito exclusivo do acionista controlador, que no caso do exemplo o nico acionista existente, visto que tambm controla a participao minoritria, sua utilizao estar sujeita realizao econmica do ativo fiscal diferido. medida que a companhia X v se valendo da dedutibilidade do seu ativo fiscal, o IR e a CS diferidos sero baixados, na mesma proporo, contra a linha de despesa de IR e CS; a proviso para manuteno da integridade contbil do patrimnio de X ser reduzida, na mesma proporo, em contrapartida rubrica de igual natureza no PL; o saldo lquido da reserva especial poder ser utilizado em benefcio exclusivo do controlador No balano consolidado, conforme lanamentos de eliminao evidenciados, a participao societria ajustada de ABC em X, no montante de $ 891 eliminada contra o PL de X (99% do capital social e 100% da reserva especial). O 1% remanescente de capital social destacado em linha de participao de no controladores (no caso em tela, no controladores diretos). Encerrando a anlise, as rubricas de mesma natureza em ABC e X so aglutinadas no consolidado, ao passo que os $136 de IR e CS diferidos passivo so reconhecidos no consolidado do mesmo modo, como um passivo fiscal diferido de longo prazo (s haver recolhimento de tributos nas situaes previstas no artigo 36 da Lei 10.637/02, 1). Aloca-se a referido passivo, como uma rubrica redutora, o resultado de equivalncia a apropriar, do mesmo modo que foi feito no balano individual. Merece aqui ser tecida uma importante considerao acerca do passivo fiscal diferido de longo prazo. luz do artigo 36 da Lei no 10.637/02, este somente tornar-se- exigvel na hiptese de o controle acionrio da companhia X ser alienado para terceiros, na sua liquidao ou baixa a qualquer ttulo. E quanto a aspectos conceituais, no h dvida que de fato

enquadra-se no conceito de passivo. HENDRICKSEN e VAN BREDA, ao tratarem dos passivos, reproduzem definio construda pelo FASB, quando da emisso do SFAC 613: Sacrifcios futuros provveis de benefcios econmicos decorrentes de obrigaes presentes de uma dada entidade, quanto transferncia de ativos ou prestao de servios a outras entidades no futuro, em conseqncia de transaes ou eventos passados. (grifado pelo autor) Em essncia, por analogia, pode-se consider-lo (o passivo fiscal diferido) tal qual um ttulo de dvida sem vencimento, sem pagamento de cupom peridico (zero-coupon-bond), com clusula de resgate antecipado, condicionada a um evento futuro e incerto. Objetivamente, para o tratamento contbil a ser dispensado ao passivo fiscal diferido, deve ser efetuado um clculo probabilstico acerca da possibilidade de ocorrncia do evento alienao de controle da companhia X, sua liquidao ou baixa a qualquer ttulo na data Dn. Impe-se tal procedimento a fim de se estimarem os sacrifcios futuros provveis. Cada data Dn estimada para o evento deve estar associada sua probabilidade de ocorrncia e ao montante do passivo fiscal diferido ajustado a valor presente nessa data. Impe-se o ajuste do passivo fiscal diferido de modo a se obter a obrigao presente. Atravs da mdia ponderada desses valores chega-se ao valor esperado para o passivo fiscal diferido, a ser reportado no balano. Para ilustrar, imaginando uma gradao de chance para ocorrncia do evento alienao de controle da companhia X, sua liquidao ou baixa a qualquer ttulo entre provvel, daqui a 4 anos, possvel, daqui a 3 anos e remota, daqui a 1 ano, e tomando por base uma taxa de desconto de 8,5% a.a., o seguinte resultado obtido:

Matriz de Valor Esperado para o Passivo Fiscal Diferido Gradao do Evento Alienao de controle de X Provvel Possvel Remota Chance 50% 30% 20% Valor Presente do Passivo Fiscal 98,1341 106,4755 125,3456 Valor Esperado Ajustado a VP 49,0671 31,9427 25,0691 106,0789

Base de Clculo para Ganho sobre Passivo Fiscal Diferido Saldo Contbil do Passivo Fiscal Diferido Valor Esperado Presente do Passivo Fiscal Diferido Ganho No Realizado sobre Passivo Fiscal Diferido 136,0000 106,0789 29,9211

Esse ganho no realizado, a rigor, no deve ser reconhecido em demonstrao de resultado. S deve s-lo, assim como o saldo remanescente do passivo, quando da efetiva materializao da renncia fiscal. Ou seja, a certeza de que o controle da companhia X jamais ser alienado, ou de que jamais ser liquidada ou baixada a qualquer ttulo. Em linha com posturas internacionais, deve ser tratado como um item integrante de patrimnio lquido (other comprehensive income), ou, alternativamente, por analogia ao tratamento contbil dispensado aos passivos consolidados do REFIS, pela Instruo CVM noHENDRICKSEN, Eldon e VAN BREDA, Michael F. Teoria da Contabilidade. Traduo de Antnio Zoratto Sanvincente. 5 ed. So Paulo: Atlas, 1999. p. 283.13

346/00, pode ser tratado como uma receita diferida em rubrica de Resultado de Exerccios Futuros. Um outro aspecto no menos importante o de que o passivo fiscal diferido deve ser periodicamente objeto de avaliao, no mnimo a cada data de corte de demonstraes contbeis (informaes de nterim, por exemplo), atentando claro para a relevncia envolvida, a fim de que mudanas de conjuntura e julgamento sejam incorporadas informao a ser prestada. O balano consolidado, dessa forma, ficaria assim evidenciado: Consolidado ABC Ativo caixa aplicaes financeiras estoques imobilizado Total Passivo financiamento IR e CS diferidos nominal Ajuste a Valor Presente IR e CS diferidos ajustado REF (Receita Diferida) equity a apropriar participao no controladores PL capital Total 230 650 250 720 1.850 841 136 (30) 106 30 (136) 9 1.000 1.850

Estes seriam os efeitos de uma operao de combinao de negcios, na sua modalidade incorporao reversa, com gio gerado internamente, sem a presena de minoritrio, com a utilizao de sociedade veculo. Independente da forma atravs da qual se processa a combinao de negcios, se com sociedade veculo ou se com sociedade de participao casca (esta hiptese no foi considerada neste trabalho), os efeitos tributrios so os mesmos: criao de um ativo fiscal diferido na cia. X (cujo reconhecimento contbil no apropriado) e de um passivo fiscal diferido de longussimo prazo na companhia ABC. 5. Concluso O surgimento do gio em operaes de combinao de negcios, realizadas dentro de um mesmo grupo societrio, no tem sentido econmico. A Contabilidade, sabiamente, expurga essa informao ao considerar o grupo societrio uma entidade nica, quando reporta suas demonstraes consolidadas. O correto, contabilmente, fazer o mesmo nas demonstraes individuais tambm. Entretanto, o respaldo em legislao tributria para o fenmeno gio gerado internamente d sentido econmico operao. H de fato riqueza sendo gerada pelo grupo societrio nesses arranjos s que, no caso, est sendo transferida do Estado para o grupo via renncia fiscal. bem verdade que referido respaldo legal concorre, ainda que indiretamente, para o retrocesso do estgio avanado de desenvolvimento em que se encontra a

Contabilidade Brasileira. A bem da verdade, pavimenta um caminho tortuoso: o fomento indstria do gio. Finalizando, a expectativa que se tem a de que rgos reguladores de governo e entidades representativas da profisso contbil e de auditoria atentem para a questo, e que eventualmente revejam posicionamentos adotados e/ou manifestem-se prontamente na disciplina da matria, de tal sorte que a Contabilidade, na sua finalidade mais nobre, que a de servir como um sistema de informaes relevantes e teis para julgamento e para tomada de deciso, no seja prejudicada. 6. Bibliografia BIERMAN, Harold Jr. One more reason to revise statement 96. Accounting Horizons. Sarasota: Jun 1990. Vol. 4, Iss. 2; p. 42 (5 pages) CHANEY, Paul K., JETER, Debra C. Accounting for deferred income taxes: simplicity? Usefulness? Accounting Horizons. Sarasota: Jun 1989. Vol. 3, Iss. 2; p. 6 (8 pages) COMISSO DE VALORES MOBILIRIOS. Deliberao CVM no 29/86 de 05 de fevereiro de 1986. Aprova e referenda o pronunciamento do IBRACON sobre a Estrutura Conceitual Bsica da Contabilidade. Dirio Oficial da Repblica Federativa do Brasil, Braslia, 13 fev. 1986. COMISSO DE VALORES MOBILIRIOS. Instruo CVM no 319/99 de 03 de dezembro de 1999. Dispe sobre as operaes de incorporao, fuso e ciso envolvendo companhia aberta. Dirio Oficial da Repblica Federativa do Brasil, Braslia, 06 dez. 1999. COMISSO DE VALORES MOBILIRIOS. Instruo CVM no 346/00 de 29 de setembro de 2000. Dispe sobre a contabilizao e a divulgao de informaes, pelas companhias abertas, dos efeitos decorrentes da adeso ao Programa de Recuperao Fiscal - REFIS. Dirio Oficial da Repblica Federativa do Brasil, Braslia, 03 out. 2000. COMISSO DE VALORES MOBILIRIOS. Instruo CVM no 349/01 de 06 de maro de 2001. Altera a Instruo CVM no 319, de 3 de dezembro de 1999, que dispe sobre as operaes de incorporao, fuso e ciso envolvendo companhia aberta. Dirio Oficial da Repblica Federativa do Brasil, Braslia, 13 mar. 2001. COMISSO DE VALORES MOBILIRIOS. Nota Explicativa anexa Instruo CVM no 349/01 de 06 de maro de 2001. Ref: Instruo CVM no 349, de 6 de maro de 2001, alterando a Instruo CVM no 319 que dispe sobre as operaes de incorporao, fuso e ciso envolvendo companhia aberta. Dirio Oficial da Repblica Federativa do Brasil, Braslia, 13 mar. 2001. COMISSO DE VALORES MOBILIRIOS. Instruo CVM no 371/02 de 27 de junho de 2002. Dispe sobre o registro contbil do ativo fiscal diferido decorrente de diferenas temporrias e de prejuzos fiscais e base negativa de contribuio social. Dirio Oficial da Repblica Federativa do Brasil, Braslia, 01 jul. 2002. CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE. Resoluo CFC 750/93 de 29 de dezembro de 1993. Dispe sobre os Princpios Fundamentais de Contabilidade. Dirio Oficial da Repblica Federativa do Brasil, Braslia, 31 dez. 1993. COSTA JR., Jorge Vieira. Incorporaes Reversas: Algumas Consideraes. Boletim IOB Temtica Contbil e Balanos. So Paulo, no 29 e no 30, 2002.

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