Click here to load reader

Internismo sem intelectualismo e sem reflexividade

  • View
    217

  • Download
    3

Embed Size (px)

Text of Internismo sem intelectualismo e sem reflexividade

  • kriterion, Belo Horizonte, n 129, Jun./2014, p. 153-172

    InternIsmo sem IntelectualIsmo e sem reflexIvIdade*

    Eros Moreira de Carvalho**[email protected]

    RESUMO Em seu livro, Perception as a Capacity for Knowledge (2011), John McDowell defende que a garantia fornecida pela percepo infalvel. Para tanto, preciso entender o papel que a razo tem na constituio de estados perceptivos genunos. Por meio dela, posicionamos estes estados no espao lgico das razes. Assim, no s fazemos do estado perceptivo um episdio de conhecimento, mas tambm obtemos conhecimento de como chegamos a este conhecimento. McDowell sustenta que esta condio para o conhecimento, a posse da capacidade de posicionar um estado perceptivo no espao lgico das razes, no o compromete com o intelectualismo. Neste artigo, defendo que o internismo de McDowell no est totalmente livre do intelectualismo e que o internismo mais plausvel no s sem intelectualismo, mas tambm sem reflexividade.

    Palavras-chave Internismo, conhecimento perceptivo, intelectualismo, o mito do dado, John McDowell.

    ABSTRACT In his book, Perception as a Capacity for Knowledge (2011), John McDowell advocates that the warranty provided by perception is infallible. For such, it is necessary understanding the role reason plays for the constitution of genuine perceptual states. Through reason, we situate these states on the logical space of reasoning. So, we not only make of the

    * Este trabalho foi realizado com o apoio do CNPq. Agradeo tambm aos pareceristas deste peridico pelos comentrios valiosos e precisos. Artigo recebido em 03/10/2012 e aprovado em 31/07/2013.

    ** Professor Adjunto da UFRGS.

  • Eros Moreira de Carvalho154

    perceptual state into an episode of knowledge, but we also acquire knowledge of how we arrived to that knowledge. McDowell argues that this condition for knowledge the possession of the capacity to situate a perceptual state in the logical space of reasoning does not compromise him with intellectualism. In this paper, I defend that McDowells internalism is not entirely exempt from intellectualism, and that internalism is more reasonable not only without intellectualism, but also without reflexivity.

    Keywords Internalism, perceptive knowledge, intellectualism, the myth of the given, John McDowell.

    1 Introduo

    em 1956, Wilfrid Sellars desferiu um duro golpe suposta posio que ele mesmo batizou de mito do dado. Seu alvo era a teoria dos dados dos sentidos, nas suas mais variadas verses, e reunidas pela tese central de que a mera sensao implica uma cognio. na verdade, a posio seria mtica, pois, segundo o seu parecer, quando articulada precisamente, ela envolveria a adoo de teses inconsistentes. Deste modo, ao contrrio do que pensavam seus defensores, no havia posio alguma a ser defendida. no lugar do dado, Sellars props a ideia de que episdios de conhecimentos precisam se inserir no espao lgico das razes, isto , o conhecimento constitudo no seio da nossa atividade de justificao e racionalizao. Posteriormente, sua ideia foi refinada e desenvolvida por outros filsofos, especialmente John McDowell. entre outras coisas, ele cuidou para que a rejeio do mito do dado no fosse interpretada como uma volta ao vu das representaes, ideia de que no tivssemos pela percepo acesso direto aos objetos do ambiente circundante. Em 2011, McDowell publicou Perception as a Capacity for Knowledge, onde apresenta essas elaboraes e tenta mostrar como a racionalidade coopera com a percepo para produzir conhecimento perceptivo de ndole internista acerca dos objetos externos. McDowell se defende a tambm das acusaes de que a concepo internista do conhecimento que ele herdara de Sellars muito intelectualista e, assim, no explicaria o conhecimento que a maioria dos mortais possui. neste artigo, examinamos criticamente a posio de McDowell no livro citado. A crtica de intelectualismo McDowell enfrenta com o apoio do disjuntivismo epistemolgico. A tese do disjuntivismo sustenta que o suporte epistmico acessvel ao sujeito em um caso genuno de viso no o mesmo que em um caso de iluso/alucinao, ainda que os estados perceptivos envolvidos sejam indistinguveis introspectivamente. Acredito

  • 155INTErNISMo SEM INTElECTuAlISMo E SEM rEFlExIvIDADE

    que este um caminho acertado. Porm, o internismo de McDowell ainda tem demandas de reflexividade, o que o torna suscetvel ao argumento do regresso conceitual se a sua posio encarada como uma caracterizao das condies de posse de conhecimento. Ao final, proponho um internismo sem intelectualismo e sem reflexividade.

    2 Sellars e o mito do dado

    Sellars atribui ao defensor do dado uma trade de teses inconsistentes, que so as seguintes:

    A. X sente o contedo dos sentidos s implica que x sabe no-inferencialmente que s vermelho. B. A habilidade de sentir contedos dos sentidos no-adquirida. C. A habilidade de saber fatos da forma x adquirida. (2008, p. 29, grifos do autor)

    Como salienta Sellars, A e B implicam no C; B e C implicam no A e A e C implicam no B. Como o abandono de B e C caro,1 Sellars conclui que o defensor do dado ter de abandonar A e se conformar com o fato de que a sensao no tem qualquer estatuto cognitivo ou epistmico. Contudo, esta concluso de Sellars carece de uma qualificao: a sensao no tem qualquer estatuto cognitivo ou epistmico em virtude da sua demanda de que um episdio mental ocupe uma posio no espao lgico das razes para consti- tuir-se como um episdio epistmico. o reconhecimento de um particular co- mo sendo de um determinado tipo de coisa, isto , o conhecimento de x como sendo ou o conhecimento de que x parece envolver a capacidade de defender a alegao de conhecimento de razes contrrias aplicao de a x. Sem esta capacidade de dar razes, h apenas a sensao x, mas no o conhecimento de que x . e sem um acesso mnimo s condies de correo e incorreo da aplicao de , o sujeito seria incapaz de defender a alegao de que x , caso fosse interpelado a faz-lo. o que nos leva a um ponto crucial da perspectiva internista de Sellars: ao caracterizar um episdio ou um estado com aquele de saber, no estamos dando uma descrio emprica de tal episdio ou estado; ns o estamos situando no espao lgico das razes, do justificar se ser capaz de justificar o que se diz (2008, p. 81).

    1 O abandono de B desassociaria o conceito de dados dos sentidos da nossa linguagem ordinria de sensaes; o abandono de C fere as intuies nominalistas compartilhadas pelos empiristas (Sellars, 2008, p. 30).

  • Eros Moreira de Carvalho156

    embora seja claro que a legitimidade da alegao de sei que x envolva situar ou ser capaz de situar x no espao lgico das razes, no evidente que o conhecimento de x envolva esta capacidade. A concluso de Sellars parece tirar proveito da ambiguidade de sabe em A, pois no claro se se tem em mente a alegao de conhecimento ou a posse de conhecimento. De qualquer modo, sem pretender avanar a ideia de que podemos ter conhecimento de fatos que no envolva a capacidade de situar este episdio cognitivo no espao lgico das razes, parece ser um pouco menos controverso sugerir que podemos ter conhecimento de objetos ou conhecimento por contato direto (acquaintance) que no envolva tal capacidade. Por exemplo, o defensor do dado poderia sustentar a seguinte trade consistente de teses:

    A. O fato de X sentir o contedo dos sentidos s implica que X conhece no inferencialmente a vermelhido de s. B. A habilidade de sentir contedos dos sentidos no adquirida. C. A habilidade de conhecer diretamente propriedades de certos tipos de objetos no adquirida.

    entretanto, Sellars poderia persistir com a sua queixa: o conhecimento da vermelhido de s no tem qualquer relevncia epistmica para sei que s vermelho enquanto este episdio de contato direto com a vermelhido de s no for posicionado no espao lgico das razes. Mas esta concluso parece novamente tirar proveito da ambiguidade de sei.2 Se no estamos falando da alegao de um conhecimento, por que o sujeito no poderia ter o conhecimento de que s vermelho quando estiver em contato direto com a vermelhido de s? No final do artigo, retomaremos esta questo.

    3 Tyler Burge, intelectualismo e a falibilidade do conhecimento perceptivo

    Logo no incio do seu livro, McDowell (2011) discute as crticas que Tyler Burge lanou perspectiva internista de Sellars acerca do conhecimento perceptivo. A principal crtica de Burge que este internismo implicaria uma forma de intelectualismo, isto , para que o sujeito tivesse um conhecimento perceptivo particular ele teria que determinar se certas possibilidades sobre o seu aparato perceptivo e as condies em que ele se encontra so o caso

    2 Pritchard chama a ateno para o quanto a epistemologia tem negligenciado a importante distino entre posse e alegao de conhecimento (2005, p. 92).

  • 157INTErNISMo SEM INTElECTuAlISMo E SEM rEFlExIvIDADE

    ou no. e isto exigiria do sujeito muito mais recursos cognitivos do que razovel esperarmos encontrar na maioria das pessoas. ou seja, posicionar o estado perceptivo no espao lgico das razes seria intelectualmente oneroso. Vejamos o seu argumento. Seu ponto de partida que os nossos estados perceptivos so falveis. eles so falveis pelo fato de que a mesma experincia perceptiva pode ser tanto um caso de experincia verdica quanto um caso de experincia ilusria e, assim, a garantia que a experincia perceptiva fornece para uma crena no implica a sua verdade. Deste modo, est em questo saber em que condies a experincia perceptiva fornece garantia suficiente para suportar uma crena perceptiva ou uma alegao como h uma ma verde sobre a mesa.

    na leitura de Burge do princpio de Sellars, se um episdio perceptivo precisa ser colocado no espao lgico das razes como um episdio verdico para suportar uma alegao perceptiva, ento necessrio ser capaz de sustentar que o epi

Search related